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Roda Dos Livros

Cidade em Chamas - Garth Risk Hallberg

Roda Dos Livros, 29.05.16

cidadeemchamasLeitura concluída. Cerca de 1000 páginas de personagens que viveram comigo quase dois meses. Não me lembro de passar tanto tempo com um livro. Na verdade, fui lendo outros ao mesmo tempo, mas regressei sempre e nunca pensei em não chegar ao fim. Assim que lhe peguei soube que não o leria seguido, alguma coisa me disse que precisaria de tempo, a dimensão impõe respeito, o peso dificulta o transporte, e a necessidade de pausas que a história me provocou fez com que este seja, possivelmente, um record do livro que demorei mais tempo a ler.

Acompanhei as notícias sobre o Cidade em Chamas e todo o alarido em torno do livro antes de ser publicado. Confesso que encarei tudo como uma grande manobra de publicidade (e continuo a achar o mesmo), mas não pude deixar de ficar perplexa por terem sido pagos dois milhões de dólares adiantados a Garth Risk Hallberg para escrever um romance sobre a cidade de Nova Iorque na década de 70. De referir que este é o seu primeiro romance. Achei tudo tão incrível que tinha de o ler. E a manobra de publicidade funcionou em cheio.

Não é um livro fácil. Não é um livro simples. É um livro que, quanto a mim, vive de uma história que se alimenta (e alimenta o leitor) dos saltos temporais. É como um puzzle dado a conta-gotas, um brilhante exercício de teste à resistência de quem lê. O leitor é um bocadinho maltratado pelo Sr. Hallberg, que cria vários cenários simultâneos construídos muito lentamente. Ou seja, (e não vou entrar em detalhes de enredo nem de personagens, porque para isso deixo-vos um cheirinho com a sinopse) entramos na acção no último dia de 1976, e logo percebemos que há muito que se passou antes, que explica o momento presente. Mas havemos de lá ir, ao passado. Com a curiosidade dos pacientes (os que não são é melhor que adquiram essa capacidade, se eu consegui todos conseguem) lemos centenas de páginas, avançando para o futuro, sentindo o tanto que nos escapa nas entrelinhas. Por vezes o Sr. Hallberg é simpático e deixa umas pistas igualmente simpáticas, que o leitor agradece, mas que ainda não chegam, não são suficientes para juntar as peças. E continua. A escrita irrepreensível e cuidada é fundamental, funciona como um íman e é o único motivo para arredar os sentimentos de desistência da cabeça do leitor. A tradução igualmente irrepreensível da Tânia Ganho terá, certamente, a sua quota parte nesta arte de manter o leitor alinhado.

Ou seja, parei a leitura diversas vezes, li outros livros entretanto, mas vivi sempre com o bichinho Cidade em Chamas. O meu exemplar viu passar diversos companheiros pela mesinha de cabeceira, mas permaneceu, foi companheiro, fez-me ter saudades e vontade de regressar. As personagens e a trama continuavam vivas apesar das paragens, como se nos tivéssemos separado no dia anterior.

Não conheço Nova Iorque. Nasci em 1977. Não associei nenhum dos lugares a algo que tenha visto, e cronologicamente seria mesmo impossível. Para mim foi descobrir um novo mundo, viajar no tempo com um realismo avassalador e enquadrar historicamente uma cidade literalmente em chamas. Não tenho competência para avaliar a capacidade de enquadramento do autor, e dá para desconfiar pois o próprio autor nasceu em 1979, mas eu acreditei em tudo, desde a forma como a cidade “desapareceu” em chamas e porquê, passando pelo movimento punk, todo ele uma espécie de incêndio, e a arte, sempre a vontade de criar, construir beleza no meio do caos, neste caso, das cinzas.

Os dramas no núcleo das famílias (e são várias as famílias deste livro) e a forma como esses dramas se entrelaçam habilmente criando tentáculos que aproximam as personagens, fazendo-as interagir pelos mais diversos motivos, é surpreendente. Logo no início, na noite de fim de ano, o homicídio de Samantha envolve várias personagens, sendo um dos pontos de união e (grande) interesse do enredo. Outros acontecimentos surpreendentes vão surgindo, enredando o novelo de gente que, mais uma vez a conta-gotas, revela os seus motivos e (verdadeiro) papel na trama.

Polémico ao ponto de suscitar curiosidade, famoso antes sequer de ser editado, Cidade em Chamas parece fazer um percurso inverso, tendo recebido aplausos antes de existir. As opiniões dos leitores são distintas e mesmo antagónicas, basta “dar uma voltinha no Goodreads” para perceber que o consenso é pouco e a polémica é muita.

Podia chegar ao fim da leitura e concluir que não passa de mais um exemplo do “falem bem, falem mal, mas falem” e decidi correr esse risco mantendo as expectativas moderadas. Mas isso não aconteceu. Envolvi-me. Escutei os sons, li a fanzine, assisti a concertos, senti o frio das noites na cidade gelada, e o calor sufocante da escuridão. Havia sempre drogas e o amor queria ser livre, uma liberdade que ainda hoje tem muito que caminhar, infelizmente.

De alguma forma miraculosa estive lá. Não percebo de literatura, sou apenas leitora, mas se não é isto o que chamam de Grande Romance Americano, não sei o que será.

Sinopse

“No último dia de dezembro de 1976, Nova Iorque prepara-se para celebrar a passagem de ano. Em Times Square, a famosa bola cai; na baixa, os antros punk explodem de energia; as penthouses da zona alta da cidade iluminam-se em elegantes festas temáticas. Sobre a neve que cobre o Central Park derrama-se o sangue de Samantha Cicciaro. Muitos metros acima, na varanda de um luxuoso apartamento, dá-se um encontro improvável entre Regan Hamilton-Sweenie, herdeira de uma enorme fortuna, e Mercer Goodman, um professor negro recém-chegado do interior do país. A uni-los está William, um artista plástico a braços com a sua arte e os seus demónios. Rotas individuais em colisão, que nos conduzem aos recantos mais solitários de uma cidade perigosa, selvagem, à beira do colapso.Em seu redor, gravitam pessoas tão diferentes quanto os mundos que habitam: um adolescente suburbano seduzido por Manhattan, um financeiro acossado, um jornalista obcecado com uma única história, um grupo terrorista, e o detetive que tenta descobrir quais são as ligações de cada um deles ao tiroteio no Central Park.E quando a cidade se cobre de negro no célebre apagão de 13 de julho de 1977, estas vidas mergulham numa escuridão da qual sairão transformadas para sempre.”

Teorema, 2015

Tradução de Tânia Ganho

Tradução dos interlúdios de Rita Almeida Simões

Estrada para Los Angeles - John Fante

Roda Dos Livros, 25.05.16

Estrada LA

"O mentor de Bukowsky". Foi este epíteto que me convenceu a ler uma obra de John Fante, autor que, até agora, desconhecia. Isso e o facto de, logo na contracapa, se encontrar a seguinte citação de Bukowsky: «Fante era o meu deus. E eu sabia que os deuses não deviam ser importunados - não podíamos simplesmente bater-lhes à porta.» Na verdade, encontrei vários pontos de contacto com a obra de Bukowsky: a escrita simples e directa, sem rodeios nem adornos, que se torna tão refrescante numa altura em que tantos autores se entretêm a polir as suas frases até ao absurdo, enchendo-as de arabescos e efeitos de estilo, num exercício quase onanista de autopromoção absurda, parecendo convencidos de que, se forem herméticos, passarão uma imagem de qualidade; a criação de um personagem-narrador que funciona como alter-ego do autor, com traços autobiográficos não disfarçados; a exposição crua e franca, através desse personagem-narrador, das  fraquezas e vulnerabilidades humanas e de situações caricatas e até ridículas sem qualquer preocupação em embelezá-las ou em resguardar o personagem/narrador/autor do olhar crítico dos leitores.

Através do personagem Bandini, tal como Bukowsky através de Chinaski, Fante apresenta-nos com candura os recantos mais obscuros da personalidade humana, aqueles traços que tão raramente vêem a luz do dia, porque, uma vez expostos, revelam características dos seus portadores que estes não gostam de confessar ao mundo, por vergonha ou pudor: os complexos de inferioridade, o desejo de parecer erudito (não o sendo), a agressão aos mais fracos como escape para as frustrações, o ressentimento perante os mais fortes ou mais bem-sucedidos. Tudo isto é mostrado sem filtros, o que, por si só, já seria motivo de admiração; mas Bandini vai mais além. Demonstra ainda traços obsessivos, muitas vezes delirantes, quase psicóticos. Dá largas a episódios alucinatórios rocambolescos, chegando a extremos capazes de chocar qualquer mortal (como a tortura de pequenos animais e insectos, atribuindo-lhes carácter humano) ou simplesmente de causar perplexidade (como a declaração de amor a um forno, por exemplo). Foram vários os momentos ao longo da leitura em que a minha sensibilidade se revoltou, e outros em que todo o meu ser gritou «assim também já é demais». O grande mérito de Fante é conseguir que, apesar dessas reacções viscerais aos exageros que relata, o leitor não interrompa a leitura, porque a honestidade brutal da narrativa hipnotiza e vicia. O fim da leitura traz um suspiro de alívio, um desabafo («credo!») e a tentação irresistível de ir em busca dos restantes livros da saga Bandini.

 

Excertos:

"Fui percorrendo a estrada na companhia de outros. Eles pediam boleia de polegar estendido. Eram pedintes com polegares espasmódicos e sorrisos deploráveis, suplicando migalhas-sobre-rodas. Desprovidos de orgulho. Ao contrário de mim, Arturo Bandini, com as suas potentes pernas. Aquele pedinchar não era para ele. Eles que passassem por mim! Eles que fossem a cento e quarenta quilómetros por hora e me enchessem o nariz com os seus tubos de escape. Um dia tudo seria diferente. Hão-de pagar por isto, todos vocês, todos os condutores desta estrada. Jamais andarei nos vossos carros, nem que saiam e me roguem e me ofereçam o carro, de graça e sem ulteriores obrigações. Antes morrer na estrada. Mas o meu dia há-de chegar, e nessa altura verão o meu nome escrito no céu. Hão-de ver, todos vocês! Eu não me ponho a acenar como os outros, com um polegar curvo, por isso não parem. Nunca! Mas hão-de pagá-las, ainda assim." (pág. 54).

 

"Por essa altura já tinha corrido a fábrica de conservas a notícia de que uma grande personalidade se encontrava nas suas fileiras, nada mais nada menos do que o imortal Arturo Bandini, o escritor, que estava ali prostrado, sem dúvida a compor algo para os séculos vindouros, o grande escritor que fez do peixe a sua especialidade, que trabalhava por uns míseros vinte e cinco cêntimos à hora por ser tão democrático, esse grande escritor. Tão grande que, enfim, ali estava ele esparramado, apoiado na barriga, ao sol, a vomitar as tripas, demasiado maldisposto para suportar o cheiro sobre o qual iria escrever um livro. Um livro acerca das indústrias pesqueiras da Califórnia! Oh, que escritor! Um livro sobre o vomitado da Califórnia! Oh, que escritor que ele é!" (pág. 80).

 

"Ele era esguio e mais alto do que a média. Eu não tinha o tamanho dele, embora talvez tivesse o mesmo peso. Olhei-o de forma irónica de cima a baixo. Até espetei o queixo e recolhi o lábio inferior para denotar o zénite do desprezo. Também ele me olhou de forma irónica, mas de outra maneira, sem espetar o queixo. Não tinha nem um pouco de medo de mim. Se nada acontecesse entretanto para interromper a cena, a coragem dele não tardaria a ser tal que ele me insultaria.

A sua pele era de um castanho-avelã. Reparei nisso por causa da brancura dos seus dentes. Eram uns dentes brilhantes, como uma fiada de pérolas. Assim que reparei na sua pele morena, soube imediatamente o que havia de lhe dizer. Podia dizer o mesmo a todos eles. Ofendê-los-ia de todas as vezes. Eu tinha noção disso porque algo semelhante me ofendera. Na escola primária, os miúdos costumavam ofender-me chamando-me latinóide e italianito. Eu sentira-me sempre ofendido. Era uma sensação deprimente. Fazia-me sentir tão deplorável, tão desprezível. E eu tinha a noção de que também ofenderia o filipino. De repente era tão fácil consegui-lo que eu me ria silenciosamente dele, e invadiu-me uma sensação de tranquilidade e confiança, um à-vontade em relação a tudo. Não havia como falhar. Aproximei-me e encostei a minha cara à dele, sorrindo da mesma forma que ele sorria. Ele percebeu que vinha aí qualquer coisa. O semblante dele alterou-se de imediato. Ele estava à espera, fosse do que fosse." (págs. 85 e 86).

 

Tradução de Vasco Gato

Editora Alfaguara

 

Milagrário Pessoal - José Eduardo Agualusa

Roda Dos Livros, 23.05.16

milagrariopessoalJá terminei este Milagrário Pessoal há algum tempo. É um livro sobre uma busca de palavras, uma procura em forma de viagem feita com palavras, todas muito belas. É um livro incrível, de uma beleza tocante e, ao mesmo tempo, cheio de uma luz deliciosa que acende o corpo por dentro. Iluminou-me de um deleite único. Desejei que nunca terminasse. Quando a última página chegou quis dizer a toda a gente que têm de o ler. Mas, infelizmente, um livro com tantas palavras, deixou-me vazia delas. Pelo menos das palavras merecidas, das melhores e mais perfeitas, as únicas que poderia usar para vos falar deste livro.

Por isso desisto de vos dar as minhas palavras. Mas deixo-vos outras. Algumas das minhas preferidas deste livro.

“Vou anotando nas páginas do meu Milagrário Pessoal os factos extraordinários que me sucedem, ou de que sou involuntária testemunha, dia a pós dia. É um diário de prodígios. Os milagres acontecem a cada segundo. Os melhores costumam ser discretos. Os grandes são secretos.” (Pág. 15);

“Os descendentes dos angolenses, hão-de um dia falar um português próspero, redondo e musical, e quem os ouvir talvez consiga escutar no eco de certas palavras o largo rumor do Cuanza passeando-se em direcção ao mar, o colorido piar de suas muitas aves, o zunir dos insectos, o cair das chuvas, o ribombar dos trovões, o silvo do vento soprando húmido por entre o capinzal.” (Pág. 33);

“O preconceito contra a poesia, entendida como uma distracção inútil, se não mesmo um tanto ou quanto perniciosa, vem de há muito tempo. No entanto, a poesia começou por ser uma disciplina da magia, com efeitos práticos, concretos, no quotidiano das pessoas, e desde então não mudou assim tanto.” (Pág. 41);

“As pessoas começam a definhar pela imaginação. Algumas já nascem quase mortas, ou mortas de todo, mas a tal ponto carecem de imaginação que nem dão por isso e insistem em respirar como se estivessem vivas. A mim, pelo contrário, possui-me, sem jamais esmorecer, uma imaginação furiosa. Desperta-me o coração e arrebata-o. Acende-me e alteia-me a carne murcha. Não me deixa morrer.” (Pág. 64);

Sinopse

“Iara, jovem linguista portuguesa, faz uma incrível descoberta: alguém, ou alguma coisa, está a subverter a nossa língua, a nível global, de forma insidiosa, porém avassaladora e irremediável. Maravilhada, perplexa e assustada, a jovem procura a ajuda de um professor, um velho anarquista angolano, com um passado sombrio, e os dois partem em busca de uma colecção de misteriosas palavras, que, a acreditar num documento do século XVII, teriam sido roubadas à "língua dos pássaros". Milagrário Pessoal é um romance de amor e, ao mesmo tempo, uma viagem através da história da língua portuguesa, das suas origens à actualidade, percorrendo os diferentes territórios aos quais a mesma se vem afeiçoando.”

D. Quixote, 2010

 

A Biblioteca - Zoran Živković

Roda Dos Livros, 22.05.16

bibliotecaAcredito que qualquer apaixonado por livros ficará encantado com A Biblioteca, de Zoran Živković. Seis Contos incríveis, intrigantes e labirínticos, que levam o leitor num percurso sinuoso, que poderia ter saído de um sonho delirante, contudo verosímil, pelo menos para todos aqueles que sonham com livros, a dormir ou acordados.

Seis Bibliotecas feitas de histórias mágicas, que têm como ponto de partida situações que podiam ser inventadas por qualquer ardente entusiasta de livros. Quem é que nunca pensou na possibilidade de ficar fechado uma noite numa biblioteca? Ou em encher a casa de livros sem sobrar espaço para mais nada? Ou, para os mais saudavelmente loucos, ser preso e condenado a uma pena de leituras?

O autor, partindo de ideias (mais ou menos) simples, desenvolve uma narrativa habilidosa e interessante, em que o impossível não tem qualquer relevância. Como o próprio refere algumas vezes, quando nos habituamos à presença de situações impossíveis, elas deixam de ser assustadoras.

Uma leitura recheada de fantasias deliciosas, que o leitor não coloca em causa. Porque não quer. Porque olha para a sua própria biblioteca e deseja viver as mesmas experiências fantásticas, sempre com um pé (ou os dois) numa nuvem de sonhos. Ou não fosse o caminho do que não existe aquele que todos adoramos fazer quando começamos um novo livro.

Ler A Biblioteca fez-me extremamente feliz. Recomendo sem qualquer reserva.

Sinopse

“Livro surpreendente, desconcertante e divertido, vencedor do prestigiado World Fantasy Award e traduzido com sucesso em muitos países, A Biblioteca reúne seis histórias fantásticas relacionadas com a experiência do livro e da leitura, fazendo-nos pensar em Jorge Luis Borges e na sua biblioteca infinita, mas também no universo de Kafka ou de Umberto Eco.”

Cavalo de Ferro, 2015

Tradução de Arijana Medvedec

Síndrome de Antuérpia de João Felgar

Roda Dos Livros, 22.05.16

Se há coisas que admiro num escritor é a forma como consegue escrever dois livros muito diferentes mas, mesmo assim, tão admiravelmente belos. Confesso que esperava impaciente este livro de João Felgar mal soube que o autor estava prestes a terminá-lo. Gostei muito de Terra dos Milagres e estava muito curiosa com esta segunda obra. Propus-me lê-la sem fazer comparações porque temia que, depois um primeiro livro com a qualidade de Terra dos Milagres, fosse difícil criar uma segunda obra com tanta mestria. Em parte, a culpa disso é do leitor pois as altas expectativas que muitas vezes tem, fazem com que pegue na segunda obra esperando dela o céu...

Mas a sua escrita está lá. Reconhece-se bem, sem dúvida. A forma inteligente como conta a história e como a desenvolve, os personagens caracterizados psicologicamente até à exaustão mas sem cansar, a descrição dos espaços, dos lugares, dos costumes e tiques de toda uma aldeia, tudo está lá. O enredo desenvolve-se devagar. É preciso contar, explicar ao pormenor como toda uma aldeia (ou quase) se une para guardar um segredo. Um crime. E é nesse decorrer devagar em que é descrita a história que se saboreia pormenores tão delicados, frases belíssimas e carregadas de sentido. Não esperem um ritmo tão intenso e rápido como o do primeiro livro, como eu o fiz, confesso. Degustem com calma as palavras do autor e garanto-vos que quando o final chegar ficarão a pensar nele. Sem correr o risco de vos contar nada, faço-vos as mesmas perguntas que tive de fazer para perceber esse final: Quem costumava enviar bilhetinhos a Antuérpia? Como o fazia? Então...

Embora tivesse prometido não comparar as duas obras, não consegui. O humor subtil, que adorei em Terra dos Milagres, não o encontrei aqui tantas vezes mas nem por isso este livro lhe fica atrás. Parece-me que é-se conquistado mais rapidamente pela primeira obra mas, esta segunda, prima pela mestria com que o autor consegue descrever a facilidade com que o horror consegue espalhar-se a toda uma aldeia, cúmplice e inocente ao mesmo tempo.

O nome das personagens merece um destaque especial: muito imaginativos, sui generis q.b., parece que encaixam perfeitamente em cada personagem, que lhes pertencem por direito. E, sobretudo, não precisamos de elaborar um "mapa" para não os trocarmos.

Embora me pareça que não será do gosto de um público tão abrangente e vasto como o de Terra de Milagres, este livro encheu-me as medidas. Deliciem-se. Provem-no devagar, como merece!

Estrelas: 5*+

Sinopse

No princípio tinha corpo e nome de homem. Depois partiu da aldeia, foi-se embora. Quando voltou era uma mulher, com um nome estranho e um passado de estrela dos palcos. Mas talvez fosse mentira. Por algum tempo foi atração de uma boîte de beira de estrada. Até à noite do incêndio, quando lhe deram o nome de Castiça, e se tornou a tola da aldeia. No primeiro sábado da Quaresma, Castiça aparece morta no fundo de uma pedreira abandonada. Traz vestida ainda a roupa que usara durante o corso e o baile de carnaval. Castiça era a doida da aldeia, cantava nas esquinas, bebia muito, e dizia asneiras alto. Mas não foi sempre assim, nem teve sempre esse nome.

Justiniano Alfarro é preso no próprio dia em que o corpo é descoberto, porque tudo indica, com uma clareza sem margem para dúvidas, que foi ele quem a matou. Seria tudo um logro, um embuste, porque Justiniano era o mais perfeito dos homens. Mas nenhuma voz se levantou quando o levaram, e todos aceitaram a notícia num silêncio cúmplice. Todos, menos as mulheres que o amaram. Antuérpia, sua filha, é uma dessas mulheres. Convencida de que enfrenta um conluio, prepara-se para repor a verdade procurando-a no passado do pai. Mas engana-se, porque a origem de tudo está no futuro da aldeia.

Neste novo romance, João Felgar regressa ao universo mágico das pequenas aldeias, tão elogiado pelos leitores de Terra de Milagres, e às histórias que só nelas ganham força e misticismo.

 

A Roda dos Livros foi ao Trampolim Gerador #3

Roda Dos Livros, 19.05.16

Fomos ao Trampolim Gerador #3 e acompanhámos a cultura portuguesa em mais um salto.

Levámos livros para a Mouraria e Rodámos ideias, temas e sugestões.

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Seguimos um guião muito especial, com as categorias desta TAG do canal InesBooks. Inês, tivémos muita pena de não te ter connosco neste dia.

Começámos com calma e concentração. Ponderação em excesso, talvez pela novidade do local. Mas por pouco tempo. A Roda instalou-se e foi como é sempre. Alegria, muita conversa e o típico caos. De arrepiar os cabelos a qualquer erudito literário.

Recebemos visitantes curiosos e tímidos, outros mais faladores, todos de passagem que havia muito para ver.

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Como em todas as nossas sessões o tempo nunca chega. É por isso que estamos juntos há mais de três anos, e em todos os meses que nos encontramos guardamos o tanto que fica por dizer para o mês seguinte.

Arrumámos os livros e fomos para a festa. Havia cultura para toda a gente!

A Roda dos Livros agradece à Gerador pelo acolhimento e principalmente, por acreditar, como nós, que os livros têm de chegar a todos. Todos os gostos, opiniões e pareceres têm espaço na Roda.

Fotografias de Gil Cardoso.

O Trampolim Gerador #3 espalhou cultura na Mouraria, no dia 14 de Maio de 2016.

Um Postal de Detroit - João Ricardo Pedro

Roda Dos Livros, 19.05.16

Postal Detroit

Ele voltou a fazê-lo. Raios o partam, voltou mesmo a fazê-lo. Depois de, em O Teu Rosto Será o Último, nos ter brindado com uma obra povoada de passagens deliciosamente bem escritas (quem não se lembra das "primeiras vítimas da revolução"?), para depois nos deixar pendentes de um desfecho prometido ao longo de todo o livro e afinal sonegado, João Ricardo Pedro regressa agora com um novo livro, mais uma vez magistralmente bem escrito, mas... que nos tira outra vez o tapete, defraudando as esperanças criadas ao longo da narrativa de, no final, vir a esclarecer as várias interrogações criadas durante o desenrolar do enredo.

Se se tratasse de um autor mediano, isto não seria assim tão frustrante - bastaria decidir não ler mais nada dele e o problema estaria resolvido. Mas não é esse o caso. A escrita de João Ricardo Pedro não é coisa a que se renuncie sem dor. Além da forma cuidada e irrepreensível, tem uma ironia subjacente que prende e encanta, trazendo mesmo consigo alguns laivos queirosianos que nos obrigam a ler e reler certos excertos com redobrado deleite. Por isso esta tendência para a não finalização das tramas é tão desesperante. É que o mesmo autor que nos mima com um texto desta qualidade parece depois divertir-se a baralhar-nos, sobrepondo eventos e personagens num jogo de enigmas e reflexos que desafia qualquer tentativa de decifração. Chega mesmo à suprema ironia de nos avisar, a 30 páginas do fim e pela voz do narrador, de que qualquer expectativa relativa ao sentido das páginas que se seguem é totalmente vã: "Querido leitor, prometo-te desde já que esta é a última vez que te interpelo nestes termos. Na verdade, detesto fazê-lo. Porque o faço, então? Para te lembrar que deste lado está um homem doente, e que este livro que seguras nas mãos é apenas uma das muitas manifestações da sua doença. Se ainda guardas alguma expectativa a respeito das páginas que te restam, apelo à tua boa vontade, faz uma de duas coisas: deita fora as expectativas ou deita fora o livro." (pág. 193).

Não acreditamos, claro, e não deitamos fora as expectativas nem o livro. Prosseguimos a leitura e deparamos com uma profusão de pistas contraditórias que deixam em aberto não só os eventos narrados em si mesmos, mas até a identidade de várias personagens. Até à última página, esperamos ainda um esclarecimento final. Que não vem.

Concluída a leitura, fechei o livro dominada por sentimentos contraditórios. Por um lado, a irritação por ter sido, pela segunda vez, literalmente gozada enquanto leitora típica, que  acredita que um livro deve apresentar soluções para os problemas que coloca e desvendar os mistérios que cria; por outro lado, a convicção de que, se calhar, ser gozada e ficar sem perceber nada da história é um preço bem baixo a pagar pelo privilégio de ler um texto desta qualidade e de desfrutar dos diversos momentos de puro prazer que esta prosa proporciona.

Resta a pergunta de um milhão de dólares: quando chegar às livrarias um novo livro de João Ricardo Pedro, irei lê-lo? Muito provavelmente, sim. Sabendo de antemão que, no fim, vou ter vontade de esbofetear o autor e, ao mesmo tempo, de o cumprimentar pela excelência da sua escrita.

 

Excertos:

 

"Por milagre, aselhice ou amor, os dois tiros de revólver falharam o alvo. Pedaços de reboco soltaram-se da fachada principal do prédio - ao fim de algumas horas, eram pó. No momento dos disparos, Bayarmaa, cujo nome de baptismo era Fernanda, fumava um cigarro com os cotovelos pousados no parapeito da janela e envergava um quimono estampado com crisântemos. Minutos após a ocorrência, ao ser interrogada pela Polícia, revelar-se-ia incapaz de referir um único detalhe que contribuísse para a identificação do homem que a tentara atingir e, perante o ar incrédulo dos dois agentes, acabaria por confessar que, no instante em que soara o primeiro disparo, toda a sua atenção se concentrava no telhado em frente, onde um casal de estorninhos, entrelaçando penas e patas, se unia em melancólica cópula. É lamentável que nenhum dos agentes tivesse tentado aprofundar a questão da melancolia na cópula dos estorninhos - caso para dizer: dá Deus nozes a quem não tem dentes -, mas o elevadíssimo teor poético dos autos lavrados não haveria de ficar por aqui.

Aconselhando-a a permanecer em casa durante as próximas horas, os agentes passaram o resto do dia a recolher depoimentos, a procurar vestígios, a medir distâncias, a calcular ângulos e hipotenusas, a averiguar os mil e um passados de Bayarmaa que, antes de ser Bayarmaa - terapeuta especializada em maleitas ósseas, musculares e neurológicas -, já havia sido Amanda - prostituta do selecto catálogo Madame Tallon, secção «lésbicas, idosos e acamados» -, já havia sido Núria - erotic performer no Habeas Corpus, onde se notabilizara com um show que incluía cachimbos e jibóias -, já havia sido Zélia - stripper no Unicórnio Azul, estabelecimento em que não deixou saudades -, já havia sido Fernanda - telefonista na empresa de confecções Gregório & Gregório Lda - e já havia sido Nandinha - eleita o anjinho mais belo da procissão de Domingo de Ramos da paróquia de Santo Estêvão, no longínquo ano de 1959." (págs. 63 e 64)

 

"A anatomia dos estorninhos confere-lhes uma confrangedora inabilidade para o amor, e só um desejo imenso pode garantir a perpetuação da espécie. Já com as pessoas é ao contrário: possuem uma aptidão anatómica para o amor, e só um desejo imenso as fez adquirir a capacidade de voar." (pág. 85)

 

Editora D. Quixote, Leya

 

“Vamos comprar um poeta” de Afonso Cruz

Roda Dos Livros, 19.05.16

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“(… ) as histórias não podem ser engarrafadas sem que se estraguem rapidamente. Têm de andar ao ar livre como os animais selvagens. Temos de as soltar para que possam correr todas nuas.”  

Afonso Cruz in “O pintor debaixo do lava-loiças”

Despachemos primeiro os adjectivos habituais, “saídinhos” a correr desalmadamente da omnipresente Caixa de Pandora dos lugares-comuns: maravilhoso, belo e ternurento. Sim, porque este é mais um artigo sobre este pequeno livro, um volume que mais parece um bombom (de chocolate negro, 72% de cacau no mínimo) impecavelmente embrulhado na sua capa tão bem conseguida, e a probabilidade de aparecerem ideias originais para o escrever começa a diminuir, se não mesmo a tender para zero. Também pertinente e de grande actualidade (continuamos na Caixa de Pandora), um livro com capacidade para abrir uma “brecha na consciência” ou, no mínimo, para estremecer algumas mentes, quiçá mais distraídas, que andem por aí. Por isto mesmo, apeteceu-me ir ler para a rua, para um jardim, enfim, para um qualquer lugar ao ar livre, não confinado, para que as palavras de Afonso Cruz pudessem, de algum modo, libertar-se das páginas impressas e espalhar-se em todas as direcções. Para que fossem lidas, ouvidas e sentidas, para que abanassem consciências cujos nomes são compostos de letras mas bem podiam sê-lo por números. Seremos assim tão diferentes dos personagens imaginados pelo autor?Se é verdade que quase tudo no Universo conhecido pode ser representado matematicamente e que isso é fundamental para uma compreensão mais precisa da realidade, também é certa a impossibilidade da redução da extrema complexidade da experiência humana a meros cálculos aritméticos. Mesmo que nos víssemos como polinómios enormes, feitos de incontáveis adições e subtracções, tal como Calvino refere em “Todas as Cosmicocómicas”, parece-me que nunca seríamos capazes de abarcar todas as dimensões da esfera humana, nunca seríamos capazes de nos reduzir a um único denominador comum, caso fôssemos fracções. Há uma infinidade de percepções, sensações, sentimentos, pensamentos e necessidades, subjectivos e objectivos, impossíveis de encarar como números ou transacções económicas e isso é o mais precioso de tudo. Precisamos de arte, como expressão criativa e como pura fruição de prazer estético, tanto quanto necessitamos de comida, água, abrigo ou amor. Há aqui certo paradoxo, pois o que interpreta, traduz e mostra a beleza incomensurável da existência também pode inquietar, agitar, catalizar novos pensamentos e, em última análise, contribuir para mudar aquilo que precisa de ser mudado.Esta é uma história subversiva, uma narrativa contra a torrente do consumismo, do primado do transitório e supérfluo que mantém as “massas” atordoadas e sossegadas para que não pensem, não vejam nem sintam. Para que, algures, os “senhores dos mercados” continuem a acumular riqueza e para que o mundo continue, “alegremente”, a perpetuar padrões de injustiça e violência baseados na ganância e numa certa visão utilitarista da existência.A ler, por todos e com urgência.Excerto:"A poesia, diz-me ele, transfigura o universo e faz emergir a realidade descrita com a absoluta precisão da ambiguidade. Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade.Um poeta é como quem sai do banho e passa a mão pelo espelho embaciado para descobrir o seu próprio rosto.Era isto que ele me dizia. Eu limpava os espelhos na esperança de me sentir assim, tentava desembaciar a vida, como o poeta dizia que tínhamos de fazer, passar a mão pela realidade até vermos um sorriso. Sei que é um trabalho árduo, há demasiado vapo a tornar a vida pouco nítida, desfocada. Mas vou insistir.O poeta dizia que os versos libertam as coisas. Que quando percebemos a poesia de uma pedra, libertamos a pedra da sua "pedridade". Salvamos tudo com a beleza. Salvamos tudo com poemas. Olhamos para um ramo morto e ele floresce. Estava apenas esquecido de quem era. Temos de libertar as coisas. Isso é um grande trabalho."SINOPSE 
Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspetos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação.A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito – como acontece com os pintores ou os escultores – mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual...Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.

Rio do Esquecimento – Isabel Rio Novo

Roda Dos Livros, 13.05.16

Rio do EsquecimentoEste livro tem uma letra gordinha e uma escrita rápida que se lê num instante.

Por volta de 1860, Miguel Augusto está doente e resolve voltar do Rio de Janeiro para o Porto, trazendo a “afilhada” Guilhermina e a vontade de perfilhar Teresa Henriqueta Baldaia (nome lindo que eu também sou Henriqueta), filha da fidalga Camila Rosa Emília Baldaia que Miguel Augusto tinha desonrado anos antes. Há um bocadinho de “O Conde de Monte Cristo” quando Miguel Augusto volta do Brasil mas não vem para se vingar, embora voltar milionário já deixe toda a gente à sua volta, ricos e pobres, bem azedos.

Na contra capa Nuno Júdice fala em “tom novelesco da prosa camiliana” mas para mim é Camilo Castelo Branco encontra Edgar Alan Poe e vão os dois beber um café. Não vou fazer estragadores mas há 3 momentos na história em que dizemos - eh lá!! – e vamos reler para confirmar.

Então, Miguel Augusto instala-se no Porto num palacete chamado a Casa das Camélias (diz que a camélia é a flor da cidade do Porto) e contrata como governanta, Maria Ema Antunes, cruel e vil, aliás há uma cena em que parece mesmo a Cruella de Vil mas em vez de dálmatas fofinhos, têm de ler, já disse que não vou fazer estragadores. Ema tem um primo, Nicolau Kuntegard Sommersen, que perdeu a fortuna e assim passa a ser o par ideal para casar com Teresa. Nicolau ao princípio pareceu-me bem bom, dinamarquês, viking, alto, imponente e “muito lido” mas rapidamente se torna um chato, depois há ali um dos momentos eh lá!! mas está apaixonado pela mulher do melhor amigo e é um grande, enfadonho bocejo. A prima Ema é sempre coerente, acha que todos são medíocres e odeia toda a gente: “Ema sentiu o desaforo da velha como uma bofetada, ..., prometeu a si própria, de futuro, incluir os velhos e os pobres no seu ódio especial”. Tive pena que a Guilhermina fosse sempre tão apagadita durante toda a história, ela é mencionada logo na primeira página e esperava mais. A senhora Maria Adelaide Clarange, paixão de Nicolau, é uma grande sonsa.

Conheço um bocadinho do Porto e gostei de ir reconhecendo no meu mapa mental as ruas mencionadas, a ponte pênsil, sei onde ficava o Palácio de Cristal. A comparação entre o Porto e o Rio de Janeiro está excelente, a descrição da evolução da noite no Porto também. O título é totalmente compreendido e explicado ao longo da história que anda para trás e para a frente no tempo e faz pessoas que já morreram aparecerem novamente para contarem mais um pedacinho do que se passou. De tudo dispensava a poetisa Matilde Engrácia de Sousa e Ávila e o Epílogo, sei que estão lá com um propósito porque o narrador/escritor assim nos diz, “Não pensem que um escritor consciencioso escreve uma linha que seja com o intuito de encher papel” mas não entendi o porquê, falha minha com certeza.

Concluindo está muito bem esgalhado, sim senhora.

Vamos Comprar um Poeta - Afonso Cruz

Roda Dos Livros, 12.05.16

vamos_comprar_um_poetaComo é que um livro "tão pequeno" nos pode preencher tanto?

"Tenho milhas a percorrer antes de dormir"... é assim que me sinto no fim da leitura deste livro tão breve, tão rico, tão cheio de sentido. Ponho a tocar "O Homem do Leme" dos Xutos e Pontapés e faz-me tanto sentido esta banda sonora...

Quisesse Afonso Cruz cometer plágio e poderia ter chamado a este livro "O Sentido da Vida", e para mim tudo estaria claro.

"Vamos Comprar um Poeta" foi a minha primeira leitura deste autor que tenho sucessivamente adiado. Cheia de vontade de ser do contra (não gosto nada de unanimidades) e de não gostar (ao contrário de todos os meus amigos da Roda dos Livros, que idolatram o escritor), não consigo... Fico rendida, mais do que à escrita, à forma como transmite as ideias. A economia de mercado, o mundo dos números, uma crítica aos nossos dias... E o desassossego da poesia. A inquietação da alma que move o mundo. O poder transformador do belo expresso em palavras. Inutilistas, ainda bem que persistimos.

"Vamos Comprar um Poeta" abriu-me uma caixa de Pandora (melhor, um frasco, como aprendi em 'As coisas que os homens me explicam'): não vou comprar um poeta, vou dedicar as próximas leituras à poesia.

Belo, muito belo, este livro. Para ler e reler e reler! Na lista dos que não se emprestam!

E no fim... um vazio...

 

Excertos

"(...) Gostava de ter um poeta, e depois? Há muitos estudos que afirmam que ter um artista, um bailarino, um ator, ou mesmo um poeta, ajuda a combater o stress, a baixar o colesterol mau, o que nos torna cidadãos e profissionais mais produtivos, concentrados e eficazes. Ora bem, nada mais útil do que isso." (...)

"Por acaso, o poeta acha que vegetais e frutas são o mais importante da pirâmide das necessidades?Evidentemente que não.É o quê, então?É a liberdade.

Francamente... " (p. 32)

(...)

"É que antes de adormecer faço abdominais e flexões e alongamentos com a imaginação, para aquecer as articulações e os músculos da fantasia. Não quero ter sonhos com mialgias de esforço." (p. 65)

(...)

"Percebi que estava cada vez mais inutilista e que pensava em coisas só pela sua beleza e não queria saber do seu valor monetário ou instrumental.Estava cada vez mais esquisita, como dizia o meu irmão." (p. 66)

(...)

"As rugas são as cicatrizes das emoções que vamos tendo na vida." (p. 76)

(...)

"A poesia, diz-me ele, transfigura o universo e faz emergir a realidade descrita com a absoluta precisão da ambiguidade. Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade." (p. 87)

 

Sinopse

Gostava de ter um poeta. Podemos comprar um?A mãe não disse nada, limitou-se a levantar a louça, quatro pratos de sopa, quatro colheres de sopa e informar os comensais, eu e o meu pai e o meu irmão, de que a carne seria servida de seguida, dentro de trinta segundos. O pai acabou de mastigar um bocado de pão, cerca de treze gramas, moveu os maxilares cinco vezes e inquiriu:Porque não um artista?A mãe disse:Nem pensar, fazem muita porcaria, a senhora 5638,2 tem um e despende três a quatro horas por dia a limpar a sujidade que ele faz com as tintas naqueles objetos brancos.Telas.Isso.Muito bem, disse o pai, compramos um poeta. De que tamanho?

Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.

 

Caminho, 2016

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