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Roda Dos Livros

Gente Melancolicamente Louca - Teresa Veiga

Roda Dos Livros, 25.04.16

gentemelancolicamenteloucaCada vez tenho mais vontade de ler Contos. Descobri-os tarde, dando sempre prioridade a Romances, mas agora encaro-os como uma leitura fantástica, que se começa e acaba, e que me interessa cada vez mais.

Os Contos deste livro não têm muito a ver comigo. São extraordinários ao nível da construção, da qualidade da escrita e do ritmo da narrativa, mas na verdade souberam-me a pouco. Não me deram muita margem à imaginação, infelizmente. São histórias muito bem contadas, descrições exemplares, enfim, têm tudo. Acho que têm até demais porque não me guardaram espaço para imaginar nada.

São um exercício de escrita sublime, o que me fará querer voltar e ler mais Contos da autora.

Sinopse

“Gente Melancolicamente Louca transporta-nos para um universo psicológico intenso onde o que parece quase nunca é, e onde os desvios contra-intuitivos do enredo desconcertam sistematicamente o leitor. Com uma escrita encantatória, acompanhamos o fluxo de consciência das personagens, cujas vidas se desdobram em episódios cada vez mais inusitados.”

Tinta da China, 2015

Enciclopédia da Estória Universal, Arquivos de Dresner - Afonso Cruz

Roda Dos Livros, 24.04.16

dresner“Sentava-me frequentemente em frente a uma máquina de escrever e escrevia coisas que deitava fora. Raramente ia além da segunda página. Cheguei mesmo a pensar escrever um livro só com inícios. Inícios de romances. Sempre gostei dos primeiros parágrafos dos livros e até achei que poderia ser uma boa ideia: um livro feito de inúmeros livros que não acabavam, um livro feito de começos. No fundo, um livro como a nossa vida.” Pág. 16.

Partilho um pequeno excerto deste livro. Um dos muitos que poderia partilhar. Mas corria o risco de transcrever o livro. Da mesma forma deixei de sublinhar, ou arriscava-me a começar na primeira palavra e terminar no último ponto final.

Esta Enciclopédia já habita as estantes há algum tempo, se calhar demasiado tempo sem o ter lido, mas é bom saber que ali está (este e outros) quando preciso de uma aposta ganha, quando preciso de um livro que seja só fenomenal. E assim é com os livros do Afonso Cruz, não desiludem e acrescentam-nos, alargam-nos os olhares, principalmente para dentro.

Não quero dizer mais nada, porque não é preciso e porque estará sempre aquém do retorno de um livro como este. Eu adoro as enciclopédias do Afonso Cruz!

Sinopse

“Com reflexões e histórias ignoradas noutras enciclopédias, o volume Arquivos de Dresner aborda, entre outras coisas, o caso de Ezequiel Vala, um maratonista que perdeu uma prova, nas Olimpíadas de 1928, por causa de uma flor (amaryllis/hippeastrum); fala do explorador Gomez Bota, que provou que a Terra não é redonda e descobriu, numa das suas viagens, a entrada para o Inferno tal como Dante a havia descrito; e relata os hábitos dos índios Abokowo, que dão saltos quando dizem palavras como «amor» e «amizade».

Esta é mais uma viagem lúdica pela História, remisturando conceitos, teorias e opiniões e lançando nova luz sobre uma panóplia de assuntos, desde a filosofia à religião, desde o misticismo à ciência.

«Um artista é alguém que, em vez de pintar uma paisagem tal como ela é, faz com que as pessoas vejam a paisagem tal como ele a vê.» (Tsilia Kacev)”

Alfaguara, 2013

Segredos Obscuros e O Discípulo

Roda Dos Livros, 16.04.16

segredosobscuros       Esqueci este livro e agora surgiu a oportunidade de o ler.

De inicio não me pareceu o tipo de leitura que esperava para um thriller ou romance policial mas com a entrada de Sebastian Bergman na investigação e consequentemente na equipa, embora por um motivo pessoal e escuso, isso alterou.

Regressara a Västerås para arrumar o que restava do seu passado, quando um obscuro crime decorre. Grosseiro, sexista, critico ou simplesmente sórdido, e ainda charmoso e intuitivo, sabe a ténue linha que o separa dos criminosos que caçava.

Neste género, romance policial, não se pode afirmar que um protagonista com este perfil seja original mas continua a encaixar perfeitamente.

Os crimes que se seguiram tornaram esta narrativa mais e mais interessante e cheguei ao fim com a sensação de "quero mais", principalmente depois do ultimo segredo revelado. O livro seguinte de Sebastian Bergman vai satisfazer este capricho.

odiscipulo

Maravilhosa capa para um intimidante livro grosso.

Independente do anterior, inclusive pela resenha que encontramos neste livro, rapidamente passamos páginas a seguir umas às outras enquanto seguimos Sebastian Bergman, bem como Vanja, Ursula, Torkel, Billy e ainda o Homem Alto.

Romance policial com personagens bem caracterizadas, que mais uma vez não sobressalta tanto quanto seria esperado, pelo menos numa fase inicial da leitura e surpreende por alguma ingenuidade como lidam com um psicopata como Edward Hinde, que facilmente manipula os outros que percepciona. Inteligente e vitima de abusos e abandono persegue Sebastian que parece mais perdido do que nunca e incapaz de reagir a um oponente tão calculista.

 Sebastian provoca em toda a narrativa emoções contraditórias. Se por um lado a sua faceta de mulherengo insensível e egoísta chateia,  por outro é compreendido pelas perdas que procura apaziguar. O lado humano não é descurado neste livro e todas as personagens apresentam fragilidades bem exploradas e empáticas ao leitor. Assim, é viciante até ao final em que nos deixa com mais um segredo para explorar no próximo volume.

Sinopse de Segredos Obscuros:  Sebastian Bergman é um homem à deriva. Psicólogo de formação, trabalhava como profiler para a polícia e era um dos grandes especialistas do país em serial killers. Perdeu tudo quando o tsunami no continente indiano lhe levou a mulher e a filha. Tudo muda com uma chamada para a polícia. Um rapaz de dezasseis anos, Roger Eriksson, desapareceu na cidade de Västerås. Organiza-se uma busca e um grupo de jovens escuteiros faz uma descoberta macabra no meio de um pântano: Roger está morto e falta-lhe o coração. É o momento de Sebastian se confrontar com um mundo que conhece demasiado bem. O Departamento de Investigação Criminal pede ajuda a Sebastian. Os modos bruscos e revoltados de Sebastian não impedem a investigação de avançar. E as descobertas sobre a escola que Roger frequentava são aterradoras.

Sinopse de O Discípulo: Numa Estocolmo em chamas, assolada por uma onda de calor, várias mulheres são encontradas brutalmente assassinadas. Os assassinatos têm a marca de Edward Hinde, o assassino em série preso por Bergman há quinze anos, e que continua detido. Sendo um incontestável profiler e perito em Hinde, Sebastian é reintegrado na equipa, e não demora muito a perceber que tem mais ligações com o caso do que pensava. Todas as vítimas estão diretamente ligadas a eles. E a sua filha pode estar em perigo.

Os Dez Livros de Santiago Boccanegra - Pedro Marta Santos

Roda Dos Livros, 14.04.16

Os Dez Livros de Santiago BoccanegraNa minha cabeça já comecei este texto várias vezes. Ou pelo menos iniciei a ideia de o começar. Mas a verdade é que não sei como o fazer, como escrever uma linha sobre um livro que é todo surpresa e espanto.

Não escrevo sobre os livros que não gosto, primeiro porque não os chego a terminar, segundo porque acho que não vale a pena perder tempo a dizer mal. Mas sobre os que gosto, sim. Para esses eu quero escolher as palavras mais bonitas, aquelas que me ocorreram durante a leitura, outras em que pensei depois, e ainda as que surgem enquanto escrevinho o que há de ser uma espécie de opinião.

Bom, mas esta conversa não vai fazer ninguém pegar no livro, e neste ponto vou ser muito objectiva: eu quero que leiam este livro. É bastante provável que eu chegue ao fim deste texto sem ter reunido razões suficientes para que o leiam, e isso será por mera incapacidade minha, mas já sabem o que têm de fazer. Ler este livro.

Posto isto, que é na verdade o mais importante, posso dizer-vos que este livro são dez. Sim, são os dez livros do Boccanegra, o próprio. São livros cheios de gente, personagens incríveis a quem não chega o seu próprio livro, porque passeiam constantemente pelos livros dos outros. Estes livros completam-se, são dedicados à estória de alguém, mas não de forma estanque, as personagens não ficam fechadas nos seus livros, seguem para o livro seguinte, todas. Num acumular de passados e informações que não devem ser tratadas como coincidências, mas guardadas na memória do leitor para o inevitável espanto umas páginas à frente.

É como uma viagem com muitas paragens, mas apenas para entrar. Ninguém sai do carrossel em movimento, que corre para a frente e para trás como se não houvesse amanhã ou ontem. Os saltos temporais podem ser maratonas de séculos, que passam num virar de página. A leitura é compulsiva, mas tenham calma, não se arrisquem a perder pormenores importantes.

Pode provocar dor e encantamento, os efeitos colaterais podem incluir desenvolvimento da imaginação e da fantasia (tudo coisas boas). Tem muita arte (alerta fãs de Rothko) e boa música. A banda sonora ouve-se depois de fechar o livro. É mágico o livro, já vos tinha dito?

Descrições brilhantes e escrita habilidosa. Lê-se como se vê um filme, daqueles cheios de coisas impossíveis em que acreditamos com fé inabalável.

Está bem pensado e muito bem construído. Impressionou-me. Acreditei em tudo. Leiam!

Não interessa muito para a leitura, mas para que conste, a capa é fabulosa.

Sinopse

“Santiago Boccanegra, neto de marinheiros, sobreviveu à poliomielite lendo Moby Dick e vingou-se dos duros que o perseguiam na escola fazendo-se boxeur. Trabalha agora como segurança de um hotel de Lisboa, onde Laura Rutledge, única sobrevivente de um desastre aéreo, se perde como prostituta de luxo. Depois da tragédia que lhe é infligida nas Montanhas Malditas, o misterioso albanês Aamon Daro cultiva papoilas na Birmânia e, com o lucro do ópio, colecciona obras de arte, que gosta de encenar ao vivo. Jin, uma tímida adolescente norte-coreana, apaixona-se graças a uma canção dos Beatles e é obrigada a fugir para o Ocidente. Num caderno enterrado com a musa do poeta Dante Gabriel Rossetti aparece um soneto posterior ao óbito - e talvez seja de Pessoa. Um rapazinho com um tumor cerebral compõe música nos lençóis do hospital sem nunca a ter aprendido. Saint-Exupéry, desaparecido no deserto líbio após a queda do seu avião, encontra, além da raposa que o ignora, uma criança de uma tribo que se julgava extinta. Estas e muitas outras personagens reais e ficcionais vão formar uma enigmática teia em que os fios soltos acabam por unir-se num final surpreendente, a que não faltarão aves, música, morte e redenção.”

Teorema, 2016

Finalista Prémio Leya 2014

Quando fores mãe, vais ver - Ana Saragoça

Roda Dos Livros, 12.04.16

9789896573911Quando dei por mim estavam várias pessoas a olhar e eu quase sem conseguir conter o riso em plena sala de espera do consultório médico. Foi assim durante praticamente toda a leitura desta jóia literária que se faz de "Pérolas do Folclore Materno".

Uma regresso à infância ou talvez não, porque tal como a mãe da Ana também a minha ainda hoje recorre a muitas destas expressões e e também para a minha mãe ainda não cresci, apesar de já ter um filho adulto...

Mas mais do que ouvir, também eu dou por mim a repetir algumas destas pérolas. Melhor, já as ouvi repetidas pelo meu filho a um primo mais novo... Enfim... A tradição perpetuar-se-á e ainda bem.

Revi-me inteiramente nas palavras da Ana Saragoça e senti o livro como meu.

Um livro que se lê de uma rajada.

Recomendo, recomendo, recomendo!

Excertos

"Meus amigos, a agressão passiva é uma arte. Uma arte que as mães praticam com uma destreza inigualável. Digam lá, quantas vezes se sentiram desesperados com coisas que ouviram às vossas mães, sem no entanto conseguirem pegar numa ponta para lhes poderem responder à letra? É tremendo, não é? Se o Conselho de Segurança da ONU fosse constituído apenas por mães, nunca haveria governantes zangados: apenas muito, muito desiludidos uns com os outros.O que responder, por exemplo, àquela admoestação que todos ouvimos quando não queríamos comer o que tínhamos no prato? Sim, o inevitável...

Com tanta criança a passar fome em África..." (p. 41)

(...)

"Eu avisei-te

Vá, quem nunca a disse que atire a primeira pedra. (...) Juntamente com a pérola vinha sempre uma expressão entre triste e resignada, como se eu fosse um caso perdido que deusnossosenhor lhe tinha dado como castigo de algum pecado desconhecido. Era o inefável:

Tu não me ouves...

Percebem a genialidade desta farpa? É que não era preciso ter avisado nada antes. Todas as desgraças que me aconteciam, todas as que lhe aconteciam e até algumas que aconteciam ao mundo, quiçá mesmo a fome em África, resultavam da minha recusa sistemática em acatar toda e qualquer palavra que saísse dos sábios lábios maternos. (...)" (p.44/46)

(...)

"E os gatos! As premonições desastrosas desde o início da gravidez devido a termos cinco gatos em casa! (...)Quando por fim veio ao mundo um mocinho perfeito apesar da gataria, começou a preocupação seguinte: os pêlos. «Lá em Viana morreu um bebé porque lhe entrou um pêlo de gato para os pulmões» (...) Quando preciso de saber alguma coisa procuro na fonte que nunca me deixou ficar mal: os livros. (...) não resisti a contar à minha mãe que tinha lido que o melhor remédio para prevenir a asma era dar todos os dias à criança uma colherinha de pêlos de gato. O clarão de pânico que lhe atravessou o olhar até perceber que era brincadeira foi delicioso." (p.97)

Sinopse

«Criar filhos exige doses gigantescas de paciência, estoicismo, resistência e imaginação. Ao cabo de milénios desempenhando primordialmente esse papel, as mulheres de todo o mundo acabaram por desenvolver um léxico quase comum, um glossário de frases feitas que todas ouviram às mães,e todas juraram que nunca repetiriam aos filhos - com os resultados que se conhecem.

«O vocabulário das mães é verdadeiramente um colar, mas não de pérolas. É mais daqueles a que se vão acrescentando penduricalhos ao longo da vida, sem nunca retirar nenhum. O folclore materno tem frases certeiras em todas as áreas e para todas as fases de crescimento dos filhos: infância, adolescência e idade adulta - embora, para as mães, o conceito de idade adulta nos filhos seja altamente discutível. E, claro, com a chegada dos netos, nunca perdem uma oportunidade de nos inundar de novo com a sua imensa sabedoria...»

Mãe há só uma

Mas cada uma contém em si toda a diversidade do mundo!

 

Planeta, 2013

Roda dos Livros - Sugestões de Primavera

Roda Dos Livros, 09.04.16

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A Mercearia Criativa recebeu-nos uma vez mais, desta vez comemorámos a chegada da Primavera na Adega, um espaço agradável com uma mesa enorme para os nossos livros todos. A conversa foi acompanhada de chá e doces, a nova estação não chegou com temperaturas muito simpáticas, mas quem pensa nisso quando tem uma mesa cheia de livros e de amigos? Obrigada às nossas anfitriãs. Esperamos poder voltar!

Nesta tarde rodaram as seguintes sugestões:

Sofia - Com os Holandeses, de J. Rentes de Carvalho;

Ana - Mística Fatal, de Louise Penny;

Vera - A Vida é Fácil, não te Preocupes, de Agnès Martin-Lugand; Chorei de Véspera, de Isabel Nery;

Jorge Galvão - Os Enamoramentos, de Javier Marias;

Cristina - O Livro de Aron, de Jim Shepard;

Paula - O Rio do Esquecimento, de Isabel Rio Novo;

Cris - Céu Nublado com Boas Abertas, de Nuno Costa Santos; O Rio do Esquecimento, de Isabel Rio Novo;

Célia - Kadhija A Mulher de Maomé, de Marek Halter;

Márcia - Impunidade, de H. G. Cancela; Bem-vindos a Esta Noite Branca, de Gonçalo Naves;

Isabel - Mulheres, de Charles Bukowski;

Fernanda - O Rapaz das Fotografias Eternas, de Edson Athaíde;

Catarina - Afrodite, de Isabel Allende;

Patrícia - Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

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