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Roda Dos Livros

Carta à Mulher do Meu Futuro de Péter Gárdos

Roda Dos Livros, 26.03.16

Li a sinopse deste livro e fiquei logo entusiasmada com esta leitura. No entanto, ainda antes de ter começado a ler, fui assistir ao encerramento da 4ª edição da Judaica - Mostra de Cinema e Cultura, no dia 20 deste mês, onde iria ser o lançamento do livro, com a presença do autor e, também, exibido o filme Febre ao Amanhecer, filme baseado na história do livro.

O filme e o livro falam-nos de uma história de amor, real, vivenciada pelos pais do realizador e escritor húngaro Péter Gárdos. Após a morte do pai, há poucos anos atrás, Péter recebeu toda a correspondência trocada pelos pais, sobreviventes do Holocausto, quando estavam a recuperar na Suécia. Seis meses e muitas peripécias depois, acabam por casar. A sua luta pela sobrevivência não tinha terminado quando do terminus da guerra.

A Miklós, sobrevivente de Bergen-Belsen, foi-lhe dado seis meses de vida. Mas depois de ter passado por aquele campo de concentração e ter sobrevivido, morrer não estava nos seus planos. Sabendo da existência de mulheres da sua terra que estariam a recuperar também na Suécia, em "campos de recuperação", resolve escrever-lhes. Enviou 117 cartas. Das que responderam, Lili foi a escolhida. E começa assim uma história de amor que durou muitos anos.

Tanto o livro como o filme transmitem-nos muito bem algumas das dificuldades que os sobreviventes passaram no pós guerra. Debilitados, doentes fisica e psicologicamente, querendo esquecer e voltar para "casa", sem saber se as suas famílias e amigos estariam a salvo ou mortos, aperceberam-se que a guerra para eles não tinha terminado em 1945.

Embora com algumas diferenças, gostei igualmente de ambos, do livro e do filme. Muito bons. Recomendo!

Estrelas: 5*+

Sinopse

Em Julho de 1945, depois de sobreviver ao campo de concentração de Bergen-Belsen, Miklós, um jovem húngaro de vinte e cinco anos, é enviado para um campo de refugiados na Suécia. Pele e osso, desdentado, doente, o médico dá-lhe poucos meses de vida. Mas morrer depois de sobreviver a uma guerra não está nos planos de Miklós.

Ele não se sente sozinho. Sabe que há 117 mulheres da sua terra a viver em campos de refugiados na Suécia. Ignorando a sentença de morte da febre que o atormenta todas as manhãs, envia uma carta a cada uma delas. Alguma haverá de sucumbir à sua veia poética e sedutora caligrafia.

A centena de quilómetros, Lili responde. Assim começa uma história de amor redentora e inesquecível entre dois sobreviventes que eram também sonhadores.

Baseada na história real dos pais do autor e narrada a partir das cartas trocadas entre os dois, o romance de Péter Gárdos relembra-nos que o amor é uma força de vida, capaz de vencer a própria morte.

 

 

A Elizabeth Desapareceu de Emma Healey

Roda Dos Livros, 26.03.16

Há livros que nos deixam abalados, sabendo que o sorriso que deixámos escapar quando o estivemos a ler poder-se-ia ter transformado em gargalhadas múltiplas se o assunto tratado não fosse demasiado sério, demasiado real e de uma inquietude que permanece em nós durante toda a leitura.

A Elizabeth Desapareceu é o primeiro romance desta autora. Não parece. Pela voz de Maud, uma senhora idosa, sentimos o seu desespero ao esquecer-se sistematicamente das coisas, do que quer fazer. A confusão reina no seu reino interior e isso transparece para aqueles que lhe são ou estão próximos. Quem a levará a sério se nem ela se entende?

De uma crueza extrema, Emma Healey traduz uma realidade que nos inquieta muitíssimo porque entramos para o "interior" dos pensamentos de Maud. É assustador apercebermo-nos do desenrolar de uma doença e da sua rápida progressão. Maud socorre-se de pequenas notas, lembretes que desesperadamente escreve para ajudar a sua memória. É neles que escreve muitas vezes que a sua velha amiga Elizabeth desapareceu. Elizabeth é a sua companheira de solidão.

A sua memória foge muitas vezes para o seu passado enquanto criança e para o mistério que envolveu o desaparecimento da sua irmã mais velha. E as páginas vão passando por nós, leitores, entre o passado, que Maud vive como presente, e o presente, que cada vez mais Maud confunde com o passado. O mistério é uma constante. A angústia perante a doença também acompanha sempre o leitor. E o sorriso nos nossos lábios, pese embora saibamos que o assunto é sério demais para rir.

Adorei! Nota máxima!

Terminado em 26 de Março de 2016

Estrelas: 6*

Sinopse

Um mistério, um crime não resolvido e uma personagem inesquecível: Maud.

Maud está convencida de que a amiga desapareceu, mas ninguém acredita nela. Tem cerca de 80 anos e o seu contacto com a realidade não é o mesmo de outros tempos. Existem pedaços de papel por toda a casa: listas de compras e de receitas, números de telefone, notas sobre coisas que aconteceram. É a memória em papel que impede Maud de esquecer as coisas. De repente, nas mãos de Maud encontra-se uma nota com uma mensagem simples: «Elizabeth desapareceu.». É a sua letra, mas não se recorda de a ter escrito. O que aconteceu?

Maud está certa de que a amiga corre perigo.

 

A Mulher - Meg Wolitzer

Roda Dos Livros, 26.03.16

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Joan Castleman. narradora e personagem principal conta a sua historia com Joe. Tal e qual como a sinopse revela, e o motivo porque quis ler este livro, que considerei a prenda perfeita para uma leitora convicta como eu. Por acaso, a leitura foi antecipada porque a minha generosa amiga deixou-mo ler primeiro.

Não é uma leitura fácil ou óbvia como pode parecer, mas profunda e poderosa como apenas uma grande romancista consegue. O impacto da escrita de Meg Wolitzer é justamente porque funciona e ganha vida. O leitor mergulha  nas palavras e realiza o filme na sua cabeça. São palavras desencantadas, viscerais e irónicas, que tem o peso das decisões irreversíveis sobre o papel de mulheres brilhantes na vida de homens de sucesso que são os donos do mundo. O preço a pagar na década de 1950 em que as mulheres não conseguiam singrar e vingar simultaneamente no amor e na fama. Muitas ainda hoje não conseguem.

"(...) acho que se pode dizer que é uma conspiração para manter as vozes das mulheres abafadas e mínimas e as dos homens altas."    (pag. 67)

Sorumbático, talvez. Em muitas passagens não parecia uma escrita feminina, noutras era intensamente feminina. Talento, casamento e filhos, realização pessoal e identidade, infidelidade, são muitos os temas abordados numa perspectiva muito pessoal e realista, mas principalmente o preço da fama.
Não li "Os Interessantes" , mas depois de "A Mulher" vou considerar essa opção.
Sinopse:A trinta e cinco mil pés de altitude, no conforto da cabina de 1ª classe do avião, Joan Castleman decide deixar o marido. Estão lado a lado, rumam a Helsínquia, onde ele, escritor de renome, irá receber o prémio literário de uma vida.Na semiobscuridade, Joan mergulha numa intensa reflexão sobre a sua relação com Joe. O início tempestuoso, na universidade, onde ela era a aluna promissora e deslumbrada e ele o professor carismático e casado. E depois, o resto, a vida boémia em Greenwich Village, o nascimento dos filhos, e a decisão de subjugar o seu talento em prol da vida que acreditava querer.Mas Joe revelou-se medíocre enquanto pai e marido, concentrando-se unicamente no seu dom. E Joan, entretanto, perdeu qualquer sentido de identidade, vivendo apenas como "a mulher do génio".Agora, perante o apogeu da carreira literária do marido, é-lhe impossível refrear a memória do momento em que, ainda estudante, leu o primeiro conto dele. Chegou o momento de se confrontar com as consequências das opções que tomou tão cedo na vida - e do segredo que ambos sempre guardaram tão bem.

“Raiz Comovida” de Cristovão de Aguiar

Roda Dos Livros, 21.03.16

 

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“O ser humano é um verdadeiro poço de mistérios, pensei, bastam dez minutos de olhos fechados para contemplar aquela espantosa paleta de cinzentos.”

Haruki Murakami in “Crónica do Pássaro de Corda”

“A realidade oculta das coisas e da vida só pode ser decifrada por aproximação, com a ajuda da obra de arte, mesmo que esta seja incompreensível. (…)

No poema enigmático ecoa a voz do conflito resolvido.”

Jaume Cabré in “Eu confesso”

Dentre os blogs dedicados a livros e leituras que costumo espreitar existe um, chamado “7 Leitores”, onde li recentemente um belo texto sobre esta trilogia de Cristovão de Aguiar. (Aqui fica a ligação para esse artigo:http://7leitores.blogspot.pt/2016/02/relendo-cristovao-aguiar.html. ) E em muito boa hora! Doutra forma dificilmente chegaria a esta obra enternecedora e absolutamente brilhante da nossa literatura. “Raiz Comovida” é um tríptico constituído pelas seguintes partes: “A Semente e a Seiva”, “Vindima de Fogo” e “O Fruto e o Sonho” que nos transporta para as vivências de um rapaz e da sua freguesia, algures na segunda metade do século XX, ainda no tempo do Estado Novo. As suas páginas, percorridas por uma marca profunda de oralidade, estão preenchidas por uma escrita viva, vibrante e cativante, desfolhando-se numa sucessão de episódios do quotidiano, uns hilariantes, outros dramáticos e envolvendo o leitor naquela indescritível sensação de prazer que aquece o coração e a mente. E sendo toda a obra literária um espelho da essência humana, este “Raiz Comovida” faz, sem dúvida alguma, jus ao seu nome ao reflectir de modo belíssimo, através de palavras, tanto velozes e alegres como lentas e “marmaças”, as alegrias e as tristezas, os amores, anseios e ódios, a compaixão, a crueldade e a generosidade daquela gente, habitantes de um dado tempo e lugar. Mais do que açoriana e lusófona, esta é uma escrita verdadeiramente global, pois, ao olharmos para o recôndito de qualquer pessoa, não encontraremos sempre o mesmo? Aqui tudo isso está revestido das particularidades de S. Miguel rural daquele tempo, mas, sob a superfície borbulha o magma da eterna demanda humana pela dignidade e pela justiça e acima de tudo, por uma vida plena. Não pretendo resumir aqui o enredo deste livro, nunca seria capaz de o fazer e, assim, abaixo deixo alguns excertos, que espero, sejam capazes de espicaçar a curiosidade de futuros leitores.Este “Raiz Comovida” “estremeceu a minha estante” mental. Mais um livro memorável para guardar e revisitar. Que bom!

Excertos:

“Aqui me encontro, num regresso sem chegada, porque não me lembro ou não me quero recordar de ter deste chão algum dia zarpado. Exactamente aqui, no quartinho do relógio, onde fui outrora parido e em múltiplas almas repartido. Neste instante vou-me entretendo a mordiscar a aérea e iluminada esteira de pó que os mortos e a ausência foram deixando atrás em diadema de estrelas em cata de outra Cassiopeia, com seu M de mãe ou de manto aberto, onde juntas possam de novo constelar-se.”

“Chegou a nossa casa, cachorra ainda, num Domingo de arraial de Império do Divino Espírito Santo, à boquinha da noite, nem na escola andava eu sequer. (...) Trouxe-a meu Pai ao colo, como se de uma filha se tratasse. Minha Mãe franziu o nariz, em matéria de cães não se perdia de amores. Muita festa para a festa diante de meu Pai, mas, por trás, ia resmungando com a canzoada e de vez em quando, à sorrelfa, o cabo da vassourinha-de –varrer, feita de pés de milho de vassoura, marcava o compasso de uma ária, caim, caim, caim, obrigada, está-se ouvindo ao contracanto de um cainhar ressentido...A Girafa converteu minha Mãe. Ficou-lhe caída no goto e por lá se demorou até ao dia da sua morte, que também lhe custou um par de lágrimas doídas. Tal mudança operara-a a Girafa, que, desde a infância, se mostrara uma cachorrinha diferente. Não gania nem esgadanhava a porta do quintal durante a noite; não fazia as necessidades pelos cantos nem em cima dos capachos e passadeiras de espadana que cobriam o cimento e o ladrilho de certas divisões da casa. E, depois, dava ares de maior esperteza do que alguns que andavam nos estudos. Mais meiga e sã que certas criaturas que iam todas as manhãs à missa despejar a saquinha encardida dos pecados mortais e veniais, regressando a casa leves como penachos e prontas para cometerem as piores sem-vergonhices de se louvar a Deus...”

“As palavras eram pedaços de pão. Por vezes, pedras esquinadas que eu atirava, rasantes e zunindo, aos gargalos das galinhas, sem culpa, debicando contra as paredes revestidas de coucelos. Ficavam desmaiadas. Vinham a si depois de lhes mergulhar o pescoço bambo numa selha de água fria. As palavras não usavam ainda as máscaras e os disfarces do Entrudo sintáctico e semântico. Possuíam o chão de terra e conjugavam-se na alegria fundamental do verbo crescer, saboroso mistério de seiva silenciosas, subindo, subindo. Eram a casa térrea juncada de caruma, rescendendo a resina e maresia. Nelas se instalava o forno, inchado de labaredas, que o esborralhadouro percorria como um falo florescente, embandeirado na ponta com trapos escorrendo águas. Nas palavras não poderia caber a morte, esse substantivo subentendido de coisa nenhuma.”

“De súbito, a escola. Desdobrou-se como um mapa sobre a mesa da melancia. A sala de aula, exígua e bafienta, onde as quatro classes se desunhavam. Na parede defronte, o quadro desfazia-se em gargalhadinhas de giz, escarnecendo das dores de barriga ao procurarmos resolver o enunciado de problemas complicadíssimos, tanques volumosos para onde desvairadas torneiras despejavam a água de nossas lágrimas que o senhor professor mandava reduzir a milímetros cúbicos. Por cima do quadro, o crucifixo de latão, Cristo ladeado pelos dois ladrões, Carmona à esquerda; Salazar à direita. Parecia uma casa de reclusão. Valiam-nos as três janelas de guilhotina, através das quais desamarrávamos os cabritinhos dos olhos por sobre a sobejidão do mar do norte. O Cidério dizia que para lá do horizonte soldado ao mar havia um país onde as horas andavam ao contrário das nossas. Pôs logo a gente a imaginar se a quarta classe tivesse o dom de para lá ir de manhã e regressar à tardinha, no momento em que o senhor professor, estafado e quezilento nos mandava embora... Mas o horizonte estava soldado ao mar, só a poder de malho e talhadeira se poderia rasgar. Havia de pedir a meu Pai, íamos no barco a remos do Serafim das Calhetas, até ao local onde o céu se cola ao mar. Aí, com o auxílio da forja e de outra ferramenta, meu Pai e o malhante haviam de conseguir rebentar o paredão do horizonte.”

  

«Céu Nublado com boas abertas» de Nuno Costa Santos :: Opinião

Roda Dos Livros, 20.03.16

NCS-capaÉ com um título meteorológico que chegamos até este primeiro romance de Nuno Costa Santos, ou do marginal ameno que gostava de imigrar para o seu país, Portugal. E em Portugal continuamos, mais propriamente num retorno à insularidade açoriana, relembrando-se a si e ao avô materno."(...) se tiver um descendente que se interesse pela escrita, peço-lhe para ir a São Miguel e trazer no regresso um conjunto de histórias do presente da ilha."É então em busca desse presente e como neto que o autor recorda a vida, e um livro, escrito pelo avô, João Pereira Costa e volta ele mesmo a São Miguel cumprindo esse desejo expresso nos escritos que encontrou na casa dos avós maternos. Após o périplo açoriano, o próprio autor termina com o mesmo desejo e deixa-o expresso neste seu livro."É a minha vez de me expor, de contar histórias, de as cruzar comigo, o meu modo de ser, as minhas contradições e alterações de humor. De escrever um livro que um neto um dia encontrará e com o qual poderá tentar dialogar."A presença da meteorologia passa do título para a prosa, na constante alteração de humor e na forma ágil como a narrativa flutua, tal como acontece com o tempo na ilha. Podemos dizer que os períodos de sol são as peripécias hilariantes que acontecem ao narrador consoante as amizades peculiares que vai fazendo. Revelando de forma amena e muito disfarçada um certo tom de critica social, já comum nos seus textos. Depois deparamo-nos com algumas nuvens, uma promessa de chuva fraca, que ameaça arruinar o nosso dia, quando nos são revelados detalhes da doença do avô, mas rapidamente uns novos raios de sol fazem as tais boas abertas, com uma segunda voz narrativa, ouvindo uma prosa de outra época, de outro livro que completa e dá continuidade a este.Eu diria até que este envolvimento atribulado, com um lado familiar, um outro cultural, uma pitada de surreal, dois livros dentro de um e ainda um roteiro de quem viaja nas memórias e na ilha, traz um lado um tanto esquizofrénico ao relato e só assim pode ser encarado, para se apreciar a divagação que aqui se lê."Trago um perfume de memória no pensamento, mas não é definido - é uma coisa em forma de assim, como dizia Alexandre O'Neill. Se tivesse um cigarro fumá-lo-ia. Talvez o fumo por cima da minha cabeça me ajudasse a perceber esta passagem abstracta do tempo. (...) Um desassossego de poltrona - a imaginação de um ilhéu entre a insónia e a vigília."Em forma de assim, vigilante mas desassossegado, o homem que parte em busca de algo na volta à sua ilha, vê-se enredado num absurdo... bem num absurdo não, que absurdo neste livro é outra coisa... o autor, narrador, personagem, vê-se perdido entre sentimentos aflitos, que buscam apaziguamento e decisão, no entanto, o céu está nublado e a dualidade habitará sempre, arrisco-me a dizer, o Homem que busca o sentido da vida.*Não resisto a ler Costa Santos e a ouvir Nick Drake

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Milagre de Deborah Smith

Roda Dos Livros, 20.03.16

Adoro de vez em quando pegar num romance cor-de-rosa e deixar-me levar por castelos e princípes encantados! Isto é uma forma de dizer poruqe esta obra não tem propriamente castelos e princípes, pelo menos no sentido literal da coisa...

É um livro cor-de-rosa? É pois! Com alguns condimentos dessas histórias de encantar mas a escrita desta autora é tão apelativa que convence logo o leitor levando-o a entrar na história logo nas primeiras páginas. Amy é pobre mas lutadora. Sebastian pertence a uma família detendora de muito poder e dinheiro. Uma paixão leva-os a vivenciar dias de loucura mesmo sabendo que não vão ficar juntos. Os seus caminhos seguem separadamente durante anos e anos e o leitor pergunta-se constantemente se já não basta.

Com personagens bem construídos, Deborah desenrola uma história que nos prende a atenção, que por vezes nos irrita de tanto desencontro mas que não conseguimos largar. Sabemos que o fim será o desejado mas os desencontros sucedem-se a um ritmo acelerado e os nossos olhos não despegam destas páginas!

Um livro que vai encantar as meninas românticas. Gostei e li-o num ápice!

Estrelas: 4*+

 

 

O Livro de Aron de Jim Shepard

Roda Dos Livros, 20.03.16

Sem saber bem por onde começar, visto que ainda tenho as ideias a fervilhar dentro de mim, falo-vos primeiro da capa: num tom suave, nada agressivo, com imagens de algumas crianças indistintas a caminhar, sugere uma leitura calma, pacífica, tranquila.

Através da sinopse, dei-me conta que talvez não fosse bem assim. O tema, um dos meus preferidos, é pesado: o Holocausto, vivido e contado através dos olhos de uma criança. Não sendo o primeiro livro que leio onde uma criança nos conta o que viveu nessa época de terror, poderia pensar que não iria acrecentar nada de novo... Mas isso não aconteceu e fui-me apaixonando aos poucos por esse miúdo, contador de histórias, da sua e das que se cruzaram com ele.

Aron era uma criança judia desastrada, de baixa estatura para a sua idade, triste e alheado de tudo o que não lhe dizia respeito e com muitas dificuldades de aprendizagem. Em casa, a sua alcunha era Sh'maya, que em hebraico quer dizer "Deus ouve", e tinha sido dada pelo seu tio que, à laia de repreensão pelos desastres que fazia, dizia-lhe: "Olha que Deus ouviu!". Pertencia a uma família pobre. O que nos conta sobre tudo o que foi sendo retirado ao povo judeu e à sua família, era como se não o afetasse muito. Indiferença? Ou forma arranjada para se proteger?

O livro é pequeno, a escrita fluída e, no entanto, não se lê tão rapidamente como parece ou pelo menos temos de nos manter concentrados. Tal como na mente de uma criança que saltita de um lado para outro, também aqui, no final de uma frase, começa outra com um assunto diferente o que nos obriga a uma atenção redobrada.

No decorrer do livro, com a perseguição ao povo judeu, quando se encontram em Varsóvia, já no gueto, Aron cresce interiormente, aprende a defender-se, a socorrer a família. Muitas das vezes é ele, com o contrabando e os seus roubos, que a alimenta. Aron nunca foi um miúdo popular e mesmo no seu grupo de amigos dentro do gueto isso é notório. Não quer ser um herói. A única coisa que quer é que o deixem em paz. E quer comer e parar de ter piolhos. Porque a fome é muita e as comichões também. Isso não acontece, claro, e seguimos o desenrolar da sua história apreensivos. Como consegue ele sobreviver? O que precisa de fazer para tal?

Gostei muitíssimo desta história que interlaça este personagem fictício com acontecimentos e pessoas verídicas como foi o caso de Janusz Korczak, também conhecido por Senhor Doutor, médido e pedagogo que tinha a seu cargo um orfanato no gueto.

Recomendo muitíssimo esta leitura!

Terminado em 20 de Março de 2016

Estrelas: 6*

Sinopse

Pela mão do pequeno Aron, somos levados a conhecer a Polónia de 1939, onde ele e a família vivem. Pouco tempo depois, enquanto judeus, são conduzidos ao gueto de Varsóvia, onde a crueldade, a fome e a doença destroem as vidas de quem aí foi aprisionado. Porém, Aron e um grupo de amigos conseguem ajudar as famílias, esgueirando-se do gueto para fazer contrabando. Num relato comovente e intenso, Jim Shepard mostra-nos, através da voz de uma criança, como é possível manter a dignidade humana nas condições mais adversas.

 

«A Vida Amorosa de Nathaniel P.» de Adelle Waldman :: Opinião

Roda Dos Livros, 19.03.16

Adelle Waldman abre o seu primeiro romance com uma frase de George Elliot; "Para se fazer um relato verdadeiro do que se passa dentro de nós, é preciso algo mais do que sinceridade." Será esse algo mais, emoções!?

Neste que é o seu primeiro romance, Waldman explora o lado mais masculino das emoções trazendo até nós um personagem desapegado, meio elitista, um tanto snobe e claro, um intelectual. Daí que o romance típico de boy meets girl ultrapasse esse cliché e se torne num livro bastante interessante e inteligente, estabelecendo quase um tratado de como um certo tipo de pessoas vivem actualmente em Nova Iorque.Neste que é o seu primeiro romance, Waldman explora o lado mais masculino das emoções trazendo até nós um personagem desapegado, meio elitista, um tanto snobe e claro, um intelectual. Daí que o romance típico de boy meets girl ultrapasse esse cliché e se torne num livro bastante interessante e inteligente, estabelecendo quase um tratado de como um certo tipo de pessoas vivem actualmente em Nova Iorque.Temos Nathaniel Piven ou Nate, Elisa, Hannah, Mark, Jason, Kristen ou Greer neste enredo em torno de pessoas dedicadas à literatura, críticos, ensaístas, escritores em geral e editores que entre eles debatem temas actuais que pautam a vida social, afectiva e profissional e isso adorna muito bem a narrativa, elevando-a para além dos sentimentos, dos escrúpulos ou das atitudes amorosas dos personagens.O que é que eu quero com isto dizer. Durante mais de um ano, acompanhamos a vida e Nate, desde o momento em que se cruza com Juliet, logo mesmo no início, para dar um ar de Sexo e a Cidade a este romance, mostrando que caminhar na rua em Nova Iorque pode ser palco para discussões com ex-amantes, quando, é claro, se tem um historial como o de Nate. Mas os confrontos com antigas paixões não serão recorrentes e o foco passará a estar na relação de Nate com Hannah e é aí que os personagens se revelam.Nate pode ser bastante escrupuloso ou melhor dizendo meticuloso no que respeita a avaliar mulheres e as potencialidades de uma relação. Não podemos dizer que lhe faltem só escrúpulos, falta-lhe sentido de compromisso ou dedicação e nem sei se será bem só isso.Depois existe o lado Nate e os amigos, a inclusão social, um misto de combater a solidão, mas não se decidir por estar e manter uma relação amorosa saudável. E então temos um grupo de pessoas já entradas nos trintas que discute as suas curtes, quecas e tentativas de relação, sempre com duas perspectivas possíveis. As mulheres, como se encontrar um homem fosse uma missão, explorando uma lado muito interessante entre o que é dito e o que realmente é sentido ou desejado. Os homens, como se, depois do sexo, ao vir a fase da relação, vêem as mulheres como uma castração à sua vida sexual, social e uma ameaça à própria identidade."Concentrou-se em pornografia da Internet, uma morena pequena que fazia lembrar Greer Cohen, (...) a apanhar por trás numa secretária grande (...) Debaixo dele, as pálpebras de Hannah estavam fechadas. Depois os olhos dela abriram-se. (...) Nate, apoiando o seu peso nos cotovelos, desviou o olhar (...) Se não estava a ter o melhor sexo da vida dela, ele não podia deixar de sentir que a culpa era toda sua."É muito interessante a forma como a autora explora o lado inteligente, sagaz, profissional, social e até político, colocando as personagens em patamares elevados, o grupo é inteligente, tem capacidades, mas quando chega a vez de assumir compromissos, há algo que derrapa, falha a comunicação, enchem-se de atitudes acriançadas e de fofoca... até a própria Hannah, que é uma mulher decidida, lúcida, calorosa, mordaz e criativa começa a tremer nas suas bases.Algo que apreciei bastante neste livro é a forma como a autora cruza as sensações que vamos tendo durante a leitura com a própria personagem, ou seja, Nate também está a escrever um livro e a certa parte diz-nos: "(...) que o romance só começara a compor-se quando aquela personagem «insuportável» fora posta de lado (...)", o que nos pode levar a inúmeras interpretações, naquela mesma altura do romance entre as personagens ou perante a nossa forma de encarar o próprio Nate.O livro é bem capaz de estar tão bem construído que a forma como oscilam os nossos sentimentos entre Nate e Hannah e Jason (um tipo insuportável!) muda conforme a relação deles avança.Quero ainda acrescentar que adoro as descrições de Hannah e Greer, são parágrafos muito bem construídos, quase como se o narrador nos quisesse fazer apaixonar por elas para depois não compreender as dúvidas de Nate... chega a ser retorcido e mordaz para com o leitor, é muito interessante o jogo que ali se cria.

«Desmobilizados» de Phil Klay - Opinião

Roda Dos Livros, 18.03.16

 «Desmobilizados» não é um livro fácil nem habitual, pelo menos para mim. Sem a estrutura fluída de um texto encadeado ou com os mesmos personagens, o relato é, como o New York Times o intitulou, «A loucura de guerra contada na primeira pessoa». E é essa loucura que aqui testemunhamos ao longo de doze contos, que inicialmente quase parecem emparelhados, mas que são relatos dispersos, descritivos e vívidos de episódios acontecidos a diversos desmobilizados da guerra dos Estados Unidos com o Iraque.

Apesar da linguagem crua, dos momentos brutos e sem filtros e apesar de infelizmente termos a nossa mente povoada de imagens que a tv nos "oferece" da guerra, seja a realidade noticiada seja a ficção, é-nos mesmo assim duro de ler determinados episódios, como acontece com Jenks no capítulo «Histórias de Guerra» ou, tocou-me também a angustia e a tentativa de refúgio, de salvação na fé, que nos é relatado de forma quase descrente e confusa em «Oração na fornalha».

Em «Corpos» vemos a forma vazia e seca com que um deles se tenta ligar à vida após a desmobilização. Mas a forma como ele próprio relata a sua vivência da guerra demonstra os efeitos da guerra. A depressão, o transtorno, a violência, a dependência de substâncias, mas também a dúvida, a constante busca pelo sentido face a toda a brutalidade a que ficam expostos.

"- Quando nós disparamos, é para matar - gritou.

Os marines deram um rugido colectivo de apoio.

- Não quero que nenhum dos meus marines morra por ter hesitado - continuou o coronel.

- Os marines não disparam tiros de aviso."

Ainda nem a meio do livro teria chegado e a pergunta que me assombrava era se alguma vez estes homens e mulheres, mesmo desmobilizados alguma vez o serão verdadeiramente!? Se o abismo que a guerra abre é de alguma forma reversível?

Parece-me muito difícil, apesar dos grupos de ajuda, das associações de veteranos, das ferramentas para potenciar a integração e o retorno à vida que tinham antes da guerra. O stress pós-traumático, a ansiedade, a tristeza, os pesadelos, as desilusões face aquilo que achavam que era a guerra e aquilo que foi realmente, a percepção com que ficam para o futuro e claro, a dependência de muitos do álcool e da droga, culminando alguns no suicídio ou então em sucessivas missões, umas a seguir às outras, questionando pouco ou nada, os verdadeiros motivos.

"- No Exército, costumávamos dizer que a percepção é a realidade.

Na guerra, muitas vezes, o que interessa não é o que realmente está a acontecer, mas o que as pessoas pensam que está a acontecer."

Este argumento consegue rematar e dar lógica a todo o livro e aos episódios que contêm, até quando se critica e se denunciam situações que nos parecem desorganizadas, corruptas e abusivas, mas essa é a guerra, tem efeitos colaterais e resume-se muito a números, a políticas, a interesses e muito aquilo que se quer mostrar face aquilo que realmente se passa no terreno. E nisso o livro é muito rico, pois aponta a vários alvos, todos eles são militares, mas todos estiveram em serviços diferentes e juntos dão um panorama mais vasto.

"O gatilho estava ali, a pedir que eu o apertasse. Não há muitas ocasiões na vida em que tudo se resume a um «carrego neste botão?»"

Esta ideia de premir um botão e de que por vezes na guerra muito se resume a minutos ou segundos, contrapõe muito bem com o conto «OIF», onde somos bombardeados de siglas e pensamos em como a guerra tem tanto de botões sim/não, como de burocracia, politiquices e estratégias menos claras. Para no final, tudo se resumir à destruição e à miséria que daí resulta. Não é simples, não é só o «fim de missão».

«Hoje, não há príncipe, nem profeta, nem chefe, nem holocausto, nem sacrifício, nem oblação, nem incenso, nem um local para te oferecer as primícias e encontrar a misericórdia.»

«Romance» de Helder Macedo - Opinião

Roda Dos Livros, 17.03.16

Tento compreender a escrita de Helder Macedo, lendo sobre o mesmo. Leio que a sua obra é pouco acarinhada em Portugal, mas largamente estudada no Brasil. Efectivamente não é fácil ler este escritor poeta que ao longo deste extenso poema nos relata um romance complexo e cheio de encruzilhadas, partindo do poema renascentista de Bernardim Ribeiro, incluindo partes do mesmo neste seu «Romance»Não é de fácil compreensão a torrente de ideias, de supostos diálogos, de amores e desamores vividos por quem se encerra nas palavras que compõem este romance em forma de sonho, mas até do sonho duvidamos, tal como duvida de si mesmo o personagem, o narrador e as palavras com que compõe este amor pessimista e fatal, fazendo o leitor nunca ter a certeza do que lê."sem aquela ilhasem a menina de tempo antigoa dizer-lheou ele a dizer-secomo se fosse ela a dizerno sonhoentre as duas margens da estradacomo um rioem construção"Em construção fica também o texto, que ora se monta em desejos claros, ora se desmonta em duvidas e pensamentos sombrios, de dois enamorados, um, talvez mais inexperiente que o outro... numa constante questão sobre de quem é o sonho que sonham, se é que sequer sonham..."fosse uma fantasia solitárianão uma mudança acontecidanão a metamorfosedesejada(...)do amor desabitadono silêncio"Obscuro, hermético e labiríntico, é assim que consigo sentir e ler a narrativa desconexa de Macedo, percorrendo o rio que acompanha a acção, tentando contornar as duvidas que ficam em nós, leitor, mas sedentos de querer perceber se este amor se consumou, se foi real, se ainda há amor, se a violência das palavras e a frieza intermitente escondem uma verdade violenta, abusiva... uma verdade dura que só um poema a tornaria mais aceitável, mais bela e logo menos verdadeira?!?Mais para o final, intensifica-se a ausência, a fuga e todo o desencontro, o silêncio e as direcções opostas, ainda assim, há o passado que trilha o futuro, num futuro que não pode existir para vidas que ainda não se podem viver ou que foram vividas sem terem tido vida..."um poema de silêncioum romance que fosseo que nele não fosse escritoum olhar a olhar um olhara olhar em direcções opostas"*Helder Macedo em entrevista no I e na RTP

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