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Roda Dos Livros

Roda dos Livros - Sugestões de Leitura Fevereiro 2016

Roda Dos Livros, 28.02.16

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Na Roda de Fevereiro a pilha das sugestões foi épica! Sala cheia para trocar sugestões e também livros, no primeiro Encontro às cegas com um livro (Blind date with a book) que organizámos. Se foi por ser mês dos namorados? Não. Foi porque adoramos levar livros novos para casa!

Tomem notas das sugestões:

Patrícia - Os Interessantes, de Meg Wolitzer;

Jorge - As Vozes do Rio Pamano, de Jaume Caubré;

Renata - A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery;

Rui - Cântico Final, de Vergílio Ferreira;

Paula - A Vida Amorosa de Nathaniel P., de Adelle Waldman;

Isabel - História do Novo Nome, de Elena Ferrante;

Ana - Impunidade, de H. G. Cancela;

Márcia - O Paraíso Segundo Lars D., de João Tordo;

Olga - As Crónicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin;

Célia - No Coração do Mar, de Nathaniel Philbrick;

Cris - A Árvore das Palavras - Teolinda Gersão;

Vera - A Improbabilidade do Amor, de Hannah Rothschild;

Sofia - História da Menina Perdida e História de Quem Vai e de Quem Fica, de Elena Ferrante;

Catarina - O Coro dos Defuntos, de António Tavares;

Cristina - Filipa de Lencastre, de Isabel Stillwell;

Fernanda - O Coro dos Defuntos, de António Tavares;

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O Coro dos Defuntos de António Tavares

Roda Dos Livros, 28.02.16

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Portugal rural e Portugal no mundo visto de uma maneira deliciosa e delirante. Nem o facto de haver um glossário no final do livro, que consultei afincadamente mas menos vezes do que previa, me fez desistir.Há toda uma panóplia maravilhosa de personagens, a avó mística e meio maluca que tanto fazia partos e trazia vida à aldeia como era chamada para lavar e vestir os mortos.A Rainha que morreu três vezes mas foi viúva muito mais vezes do que essas e que tinha uma irmã, que ao contrário dela era “seca e comprida como um rabo de bacalhau”.Manuel Rato rapaz excêntrico, expulso do seminário por ler livros proibidos, que andava pelos montes, “Os caçadores viam-no pela noite, andando e saltaricando como um lobo, e pensavam que lhe tinha dado para a licantropia” e falava sozinho, “Uma melopeia interior que parecia um zumbido, como se tivesse engolido uma cana de toque ou um vibrante berimbau”, emigra para os EUA, volta, desaparece, volta outra vez, desaparece novamente...Chichona a velha anafada ainda bonita que tinha sido prostituta na capital e acaba assassinada dando um mote de mistério à história.Júlio Peixeiro que trazia as novidades à aldeia junto com os carapaus e as cavalas.Zé Violeiro que quando deixou de beber perdeu a afinação dos cavaquinhos e violas, “Os tocadores queixavam-se do mau som que deles saía, um estalo quebradiço em que as notas pareciam trocadas” e assim abandonou as duas coisas de que mais gostava, a música e a branquinha.Olivita a coleccionadora de santinhos que desaparece da aldeia para voltar toda emperiquitada a vestir meias de náilon, coisa nunca usada pelas outras mulheres da aldeia.Tritão, o dono da tasca, comprou a primeira televisão e a partir desse dia a aldeia não voltou a ser a mesma.O padre Sebastião que dizem é o pai do Manuel Rato e outros tantos personagens cada qual com os seus dramas a contribuir para a história alguns com morte e mistério. Mas os meus preferidos são o Labruaco que vivia das pedras e o Fogueteiro, negociante de explosivos. Juntos faziam uma sociedade e quando o primeiro homem chegou à lua o consenso foi geral: “Não passa de um calhau redondo, dizia. É boa para o Labruaco e o Fogueteiro irem para lá fazer rebentamentos!”Uma das coisas que adorei neste livro foi o facto do autor nos dar pontos comparativos do que se passa no mundo com o que se passa na aldeia e em Portugal. Quando Io Apoloni está na capa da revista Plateia em Munique são assassinados atletas olímpicos israelitas. Na aldeia “após TV” discute-se porque não há estradas no espaço, no Chile morre o presidente. Quanto se começa a desobedecer ao regime e se canta canta Grândola, Vila Morena estreia A Golpada com Robert Redford e Paul Newman. Na capital estreia o filme Jesus Cristo Superstar mas “aquele Cristo do rock, de estilo pop e urbano, não era dali. O da aldeia estava bem preso à cruz e nunca de lá saía. Sofria a todo o instante e as suas chagas sangravam todos os dias”. E quando Paulo de Carvalho vai à Eurovisão cantar E depois do Adeus quem ganha são os Abba com Waterloo: “Para os homens da aldeia era unânime que, se os outros mandavam gajas boas e nós uns tipos manhosos, haveríamos de perder sempre.”E finalmente o título explicado em duas frases que eu achei hilariante:"Não se pense que quando se enterra um cangalheiro tudo se passa tal como com o comum dos mortais. Os notabilíssimos homens da cangalha são recebidos em ovação no além e esperam-nos todos os que eles ajudaram a enterrar."    

Milagre - Deborah Smith

Roda Dos Livros, 27.02.16

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"A Doçura da Chuva" foi o primeiro romance que li desta autora e fiquei fã. Um daqueles romances que guardamos para mais tarde voltar a ler. E dos quais, procuramos mais, porque nos deixam com o coração cheio.

"Milagre" não tem o mesmo impacto mas é um romance que se lê sem parar e nos conforta. Como um paliativo para algum mal que nos aflija. Como uma camisola quente que nos aconchega em dias de frio. Nestes dias.

Amy e Sebastien, duas personagens aparentemente antagónicas mas ambas com um passado/ presente amargo e uma necessidade de o superar. Maravilhosas e generosas cativam nas primeiras paginas, mas isso é o efeito da escrita de Deborah Smith e a sua capacidade de criar personagens realistas e muito humanas que se tornam intimas do leitor.

Dez anos é o período que marca o desenvolvimento deste romance que a autora divide em quatro partes. Amy deve a Sebastien a sua mudança de rumo. Sebastien deve ao seu poderoso pai o seu regresso a França e a sua perdição enquanto retoma o caminho que a sua fortuna designa. Mas por mais e melhor que se faça, a vida impõe se e o desfecho pode ser imprevisível e altamente improvável e isso é o que mais nos anima num romance. A possibilidade de realizar sonhos. De se dar um milagre.

Sinopse:

Sebastien de Savin é um brilhante cirurgião cuja habilidade e arrogância representam uma mistura explosiva. No passado, um segredo obscuro foi o responsável pelo endurecer do seu coração, até que um milagre acontece. O milagre dá pelo nome de Amy Miracle, uma rapariga tímida com um emprego de verão nas vinhas da família de Savin e a última pessoa pela qual alguém como Sebastien esperaria apaixonar-se.

Um acaso junta-os: graças a Sebastien, Amy escapa de uma vida de pobreza e abusos psicológicos, adquire autoconfiança e progride numa carreira de sucesso. Graças a Amy, Sebastien reaprende a rir e desperta para o amor. No entanto, a vida real separa-os. Embora tendo passado pouco tempo juntos, a memória desses preciosos momentos assombra-os durante anos. Até ao dia em que os seus caminhos se cruzam novamente…

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

Roda Dos Livros, 27.02.16

Fahrenheit 451

 Fahrenheit 451,

A temperatura a que o papel do livro

se incendeia a arde 

 

Guy Montag é um bombeiro. Mas os bombeiros já não apagam fogos, afinal todas as casas são à prova de fogo. Os bombeiros queimam livros. São chamados para exterminar os poucos livros que ainda restam. Os livros que impedem a felicidade, perturbam as minorias, impedem a uniformização, a normalização da sociedade. Porque "nem todos nasceram livres e iguais, como diz a constituição, mas todos foram tornados iguais. Cada homem é a imagem de todos os outros; depois todos ficam felizes, porque não há montanhas que os obriguem a aninhar-se, a julgar-se. Assim! Um livro é uma arma carregada na casa ao lado. Queima-se. Tira-se a bala. Abre-se uma brecha no espírito do homem."

Quando Clarisse lhe pergunta se é feliz, Montag não consegui evitar questionar-se. E é a sua luta contra o sistema que acompanhamos ao longo destas páginas. E é inevitável sentirmo-nos inundados pela angústia que está presente em cada frase, cada página deste livro. No centro, a luta de homem, a coragem necessária para um homem se confrontar a si próprio (maior que a necessária para confrontar o próprio sistema) e perceber que nada tem a perder, que a sua própria vida não é importante porque é vazia de sentido.

Foi em 1950 que Ray Bradbury começou a escrever o rascunho de "The Fire Man" que viria a ser "Fahrenheit 451". 1950. Há já 66 anos. O tempo de uma vida passou, tantas vidas passaram entretanto e ler este livro é ser constantemente puxado para o presente. É inevitável ler este livro e não percebermos que aquela é a vida de tanta gente, que escolhe sobreviver sendo conduzida, esvaziando a mente, vivendo emoções virtualmente, tornando sua a vida de personagens vazias e secas e esquecendo-se de viver, de construir a própria vida.

Visionário ou arauto de desgraças, não sei. Visionário, sem dúvida. Afinal, como o autor nos diz na parte final deste livro:

"Há mais do que uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas que correm de um lado para o outro com fósforos acesos."

Leiam, é um livro incontornável.

Os Interessantes, de Meg Wolitzer

Roda Dos Livros, 27.02.16

Os InteressantesCrescer com o peso de aos 15 anos ter decidido ser “interessante” pode ser o estímulo certo para se tornar um adulto de sucesso ou a receita para o desastre.

Jules, Ash, Ethan, Goodman, Cathy e Jonah são seis adolescentes que se autointitulam de “os interessantes” porque a promessa de talento que vêem (eles e os outros) em si é forte o suficiente para tal.

Ao longo destas muitas páginas (que se lêem num instante) vamos conhecer o percurso destes seis (mais de uns que de outros). Dos 15 aos 50.

É caso para dizer que a realidade venceu a ficção. Este livro pode ser completamente ficcionado mas retrata a realidade de uma forma que me agarrou por completo. A inveja é o primeiro dos sentimentos que vemos explorados aqui. A autora começa desde cedo a brincar com a verdade, com os valores e com a nossa própria perceção acerca dos outros (e no fundo acerca de nós mesmos). Jules, o fio condutor desta história, é uma personagem extremamente bem construída e complexa e é sob o seu ponto de vista (na maior parte do livro mas não sempre) que vamos acompanhando a história dos seis interessantes.

Falemos de talento. O que é melhor, tê-lo e vencer? Descobrir que afinal não se tem?  Tê-lo e não ter a sorte/capacidade para o desenvolver ou deliberadamente ignorá-lo? Falemos de amizade. Pode a amizade sobreviver à inveja? Pode a amizade sobreviver à rejeição? Pode a amizade sobreviver ao amor? Falemos de amor: pode o amor vencer mesmo tudo? Pode o amor sobreviver aos segredos? Pode o amor sobreviver à rejeição? Falemos de dinheiro, de carreira, de feminismo, de família, de valores, de crime… Falemos de tudo o que nos passar pela cabeça, falemos de realidade ou de ilusão.

Falemos acima de tudo de perceção e de expectativas, de ajuste às expectativas inerente ao crescimento.

Escuso de vos dizer que gostei muito deste livro e que, como tal, é muito difícil escrever algo de coerente sobre ele. Leiam.

A Roda dos Livros nos Top Blog Awards - 2015

Roda Dos Livros, 25.02.16

O Blog da Roda dos Livros está nomeado para os Top Blog Awards, na categoria Literatura.

Estamos muito felizes por fazer parte desta lista ao lado de ilustres colegas da blogosfera. Sugerimos aos nossos seguidores e amigos que participem nesta votação, até de 27 de Fevereiro, seguindo o link abaixo:

http://topimprensa.blogspot.pt/2016/02/top-blogs-awards-2015-votacoes.html

Seria um presente maravilhoso que votassem em nós! Tão bom como uma mesa cheia de livros! :)

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A Improbabilidade do Amor - Hannah Rothschild

Roda Dos Livros, 24.02.16

aimprobabilidadedoamor Um volumoso romance com letra miudinha que para o conseguir ler visitei uma livraria para comprar uns óculos mas... acabei com mais um livro e sem óculos. A capa remete para o inicio da história quando Annie entra numa loja de velharias e impulsivamente compra um pequeno quadro que coloca no cesto da sua bicicleta. Porque será que esta situação não me parece nada estranha?

O titulo A Improbabilidade do Amor deriva do nome dado ao quadro, pintado em 1702 pelo mestre Antoine Watteau que representa a agonia e o êxtase do amor. (Fui pesquisar sobre a vida e obra deste pintor que desconhecia).

O quadro, também ele personagem deste romance é altivo mas afetuoso e viaja ao passado das suas memorias enquanto analisa a situação atual. Percebo a intenção da autora mas não me convenceu, apesar das referencias históricas que me pareceram corretas. Annie e Evie (a mãe alcoólatra) são as personagens com mais peripécias em torno do quadro mas faltou um rasgo de inspiração para tornar estas personagens marcantes nesta trama bem desenvolvida mas um tanto dispersa. Muitas personagens, talvez demasiadas. O foco é a arte e o seu papel ao longo dos tempos. A cobiça e o poder que sempre lhe estiveram associados. Os meandros de negócios de muitos milhões. E os saques durante a Guerra. A beleza no meio de tanta fealdade.E também... a culinária que é uma forma de arte quando feita com dedicação, inspiração e amor.
Sinopse: 
 
Um quadro velho e sujo é comprado numa obscura loja de velharias por Annie McDee. Chef talentosa mas falida, apaixonada mas com o coração partido, Annie cedeu a um impulso e gastou nele as últimas 75 libras que tinha no bolso. E enquanto se debate com a solidão e a falta de perspetivas, está longe de imaginar as repercussões da sua humilde extravagância.
É que, singelamente pendurada entre os tachos e as panelas da sua cozinha, está agora uma obra-prima. A Improbabilidade do Amor é o quadro perdido de um célebre pintor do século XVIII. Na tentativa de desvendar a verdadeira identidade da obra, Annie vai deparar com um dos segredos mais bem guardados da História da Europa.
E ser inadvertidamente arrastada para o frenético mundo da arte e perseguida por potenciais compradores. De uma princesa árabe a um oligarca russo, passando por um conde falido e uma socialite americana, não falta quem esteja disposto a tudo para acrescentar mais uma peça à sua coleção.
Mas A Improbabilidade do Amor não é apenas uma obra de arte.
A sua alma é-nos gradualmente revelada. Na sua voz sedutora, sofisticada e muito cínica, o quadro comenta a atribulada vida amorosa de Annie, narra a sua própria história e ajusta contas com os seus (muitos) donos anteriores, entre eles, Luís XV, Voltaire e Catarina, a Grande…

Bem-vindos a Esta Noite Branca - Gonçalo Naves

Roda Dos Livros, 23.02.16

350_9789892061405_bemvindos_a_esta_noite_brancaDesde que soube que o Gonçalo Naves tinha publicado um e-book que o quis ler. Mas adiei. Depois veio o livro físico e a vontade aumentou, que eu gosto mesmo é de livros com páginas de papel, que se moldam nas mãos e se podem cheirar. Continuei a adiar. A minha procrastinação era acompanhada pelos excertos do livro partilhados nas redes sociais. O meu interesse aumentava.

Um dia, ainda eu adiava o que a partir desse dia foi inadiável, o Gonçalo convidou-me para apresentar o livro. Fiquei muito surpreendida (em choque, vá) e assustada (aterrorizada, pronto) com a ideia de falar em público. Então decidi aceitar de imediato (não faz sentido, eu sei), porque se pensasse muito acabava por dizer não. E porque, apesar do receio (terror), eu fiquei muito feliz com o convite.

Achei que leria este livro como nunca tinha lido nenhum outro, que absorveria cada página com o propósito de construir um discurso verbal sobre ele. Antes de começar pensei em como o leria sem esse compromisso. Sinceramente acho que não seria uma leitura muito diferente, pois acabei por me deixei embalar pelas palavras e, lendo e relendo passagens favoritas, não pensei muito na apresentação.

Bem-vindos a Esta Noite Branca lê-se de uma penada mas eu recomendo moderação. Recomendo que se demorem nas frases, que as leiam várias vezes antes de mudar de página, sobretudo as preferidas, aquelas que vão querer que a memória não apague, e acreditem que serão bastantes. Possivelmente ficarão tão surpreendidos, como eu, com a maturidade da escrita do Gonçalo. Num estilo desafiante, que não esmorece, a leitura é estimulada pela complexidade da escrita e pelas múltiplas possibilidades de interpretação oferecidas pelo autor. O leitor não descansa, entrega-se.

Muito mais do que o conteúdo, destaca-se a forma. A história de Vasco e da sua família é comum, não há surpresas ou truques para agarrar o leitor, os acontecimentos são reais. Vasco nasce com um problema de saúde raro, para o qual os médicos não têm resposta ou solução. Os pais sofrem durante toda a infância do menino, que não reage, passando anos como um vegetal. Toda esta dinâmica é criada para explorar sentimentos, para ir ao fundo do sofrimento e impotência dos pais. E depois é como um novelo de dor que se alastra aos avós maternos e paternos, e que envolve toda a família em observações e considerações.

Atribuí uma enorme importância ao narrador, por ter a particularidade de assumir várias vozes. O narrador cria um forte elo de comunicação com o leitor, apesar de ser móvel. É a voz do pai, da mãe, dos avós e até, a dada altura, do próprio Vasco. É provocador e manipulador, diz o que pensa sem receio do julgamento, e sem diplomacia. É cru e real. É muitos dos nossos pensamentos, aqueles que por vezes preferimos não assumir. É nos comentários e opiniões do narrador (em qualquer das vozes) que começa a reflexão do leitor. É na dureza das palavras que cada um dos leitores constrói, de forma muito própria, o seu percurso por este livro.

Bem-vindos a Esta Noite Branca está escrito de forma corajosa. A complexidade das relações familiares é desenvolvida até ao âmago, dissecando perspectivas e contrapondo opiniões.

O autor escreve com uma liberdade admirável sobre a doença e sobre a morte, sem receio de se perder nesse vazio. E não se perde. Desenvolve a aprofunda. Expõe e oferece reflexões como pontas soltas que o leitor pode puxar e continuar a trabalhar, sempre a pensar.

Senti que não há temas difíceis ou proibidos para o Gonçalo. Quem escreve deste modo denso e intenso não pode parar.

“(que será de mim quando se acabar o dia e a noite me trouxer a incerteza de todas as horas? O tempo esvazia-nos de tudo, só de tormentos nos vai enchendo. Por mais que demore, e que pensemos que não, chega sempre a altura de não esperarmos mais nada, de sermos só nós com nós mesmos.

Há pessoas que se vão embora de nós. Se calhar é-nos isso pior que morrerem, não que se deseje a morte a alguém mas a verdade é que quando alguém se vai embora de nós e continua presente nos outros é como se nos passasse a flutuar por cima da cabeça e nos acompanhasse para tudo o que é sítio. Flutua-nos em cima e carrega pedaços de tempo que nos faltam, há tempos que nos faltam, há tempos que me faltam, tempos que me hão de faltar e que por muito que os disfarce com contentamentos de vária ordem sempre aqui estarão espalhando-me grãos de saudade por todo o corpo e lembrando-me das minhas desatenções passadas. Penso nisso com pena, ao menos que me previnam de desatenções futuras, nunca é tarde para se ser melhor do que se foi ontem.

Mas o que importa? Continua a chover nos dias em que quero que chova, tenho um guarda-chuva larguíssimo, uma coisa desproporcional, quase maior que um sombreiro de praia. Derivado a essa grandeza nenhuma gota me toca, não pode haver felicidade maior, sou tão feliz. Tenho uns sapatos oferecidos por uma tia afastada providos de uma artimanha qualquer que nunca se me entra água pelos pés, tenho quatro ou cinco amigos e uns senhores idosos que jogam às cartas numa mesinha já meio podre aqui no meu bairro. Entusiasmam-se com o jogo, riem-se como se fossem jovens. Entusiasmo-me com eles, rio-me como se fosse velho.

Que mais pode alguém querer?)”   (Pág. 27)

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Fotografia de Gil Cardoso tirada durante a apresentação do livro na Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, a 16 de Fevereiro de 2016.

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

Roda Dos Livros, 20.02.16

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Não sei de quem foi a ideia peregrina de ler este livro na versão brasileira, pois é... se calhar fui eu que me entusiasmei com o facto de ser só um euro numa Sebo de Curitiba.

A verdade é que me estava a enervar o facto de, ao ler o livro, só imaginar uma série de TV com “dublagem Herbert Richers”. Não estou a dizer que a tradução brasileira não seja boa, é com certeza, mas neste caso não é para mim.

Empunhando o bocal de bronze, a grande víbora cuspindo seu querosene peçonhento sobre o mundo, o sangue latejava em sua cabeça e suas mãos eram as de um prodigioso maestro regendo todas as sinfonias de chamas e labaredas para derrubar os farrapos e as ruínas carbonizadas da história. Na cabeça impassível, o capacete simbólico com o número 451 e, nos olhos, a chama laranja antecipando o que viria a seguir, ele acionou o acendedor e a casa saltou numa fogueira faminta que manchou de vermelho, amarelo e negro o céu do crepúsculo.

… enquanto os livros morriam num estertor de pombos na varanda e no gramado da casa.

 

Encontrado o mesmo livro em versão original, releio desde o princípio e é como se fosse um livro diferente logo à primeira página, até me chamuscou as bochechas.

...

With the brass nozzle in his fists, with this great python spitting its venomous kerosene upon the world, the blood pounded in his head, and his hands were the hands of some amazing conductor playing all the symphonies of blazing and burning to bring down the tatters and charcoal ruins of history. With his symbolic helmet numbered 451 on his stolid head, and his eyes all orange flame with the thought of what came next, he flicked the igniter and the house jumped up in a gorging fire that burned the evening sky red and yellow and black.

... while the flapping pigeon-winged books died on the porch and lawn of the house.

 

Confesso que sempre que leio clássicos fico com um pé atrás mas este, ao contrário de outros (desculpa Kerouac, desculpa Joyce), não me deixou ficar mal. Embora tenha sido escrito há mais de 60 anos a forma como está actual hoje em dia é maquiavélico e assustador. Se o autor não conseguiu imaginar os telemóveis e ainda fala em cabines telefónicas, imaginou as caixas multibanco, o desaparecimento dos jornais escritos em papel, continuação de guerras e os ecrãs gigantes em cada casa, a estupidificação das pessoas com programas rasca continuamente a passar nesses ecrãs.

A escrita é vívida, transporta-nos na história, o calor de tantos livros queimados aquece-nos e faz-nos ter medo. Seguimos o bombeiro Guy Montag na sua evolução de queimador de livros para fugitivo possuidor de livros e no final, a forma encontrada para fazer persistir os livros, senão na sua forma original mas numa alternativa, é muito engenhosa.

 

Conseguem imaginar? Se todos os livros fossem queimados da face da terra?

Os Interessantes - Meg Wolitzer

Roda Dos Livros, 13.02.16

Os InteressantesFico sempre intimidada quando penso em escrever sobre livros longos. Os Interessantes tem quase seiscentas páginas, mas na verdade tem tanto conteúdo dentro dessas páginas que, olhando para trás e recordando a leitura, até parecem poucas.

Quem é que pensava, quando era criança, que crescer seria o máximo e que o futuro estava cheio de coisas fabulosas à sua espera? Muita gente, suponho, mas para o caso importa o grupo de adolescentes que cresce pelas páginas deste livro. Jules, Cathy, Jonah, Goodman, Ethan e Ash conhecem-se num campo de férias e decidem, um pouco por acaso, entre charros e divagações, que serão Os Interessantes, um grupo único e especial, que estará sempre ligado às artes. Todos eles terão carreiras de sucesso, e não aceitarão nada menos do que isso. Serão sempre amigos. Permanecerão sempre juntos.

O livro, que é, acima de tudo, extraordinariamente real, leva-nos exactamente para onde imaginamos. Os anos passam, a vida segue, e Os Interessantes vão perdendo o interesse, ou pelo menos alguns deles, pois que a vida reserva sempre lugares especiais para uma escolhida minoria. A amizade poderá sobreviver aos planos falhados? A frustração e a cobiça poderão adulterar esse sentimento nobre? E se este grupo se tivesse conhecido mais tarde, na idade adulta, haveria alguma coisa que o ligasse?

E quem nunca pensou onde poderia estar agora se, em determinada altura do passado, se tivesse desviado ligeiramente da rota? Jules pensa nisso quando olha para a sua casa modesta, para a sua carreira de terapeuta, tão distante dos sonhos de viver para pisar o palco. E quando, inevitavelmente, olha para a vida grandiosa da melhor amiga Ash que, ao casar com Ethan, assinou o contrato que lhe trouxe uma vida financeira folgada e plena de realização profissional (sim, sabemos que o dinheiro não é tudo, mas que abre muitas portas lá isso abre), Jules deve recordar com alguma amargura o dia em que rejeitou namorar com Ethan. E Ethan saiu-se bem, foi o único que verdadeiramente levou a cabo o projecto dos interessantes e se tornou um deles. Os outros, à excepção de Ash, que como já disse casou com Ethan, ficaram no patamar dos normais.

Mas como a vida é feita de pessoas normais, com alguns interessantes para fazer sonhar e abrilhantar a coisa, aqui temos um livro que, sem se tornar chato e mantendo sempre vivo o interesse (é pecaminosa a quantidade de vezes que se pensa na palavra “interessante” e suas derivadas durante a leitura ou conversas sobre este livro), descreve os altos e baixos das vidas de pessoas ditas normais. Pois até quando descreve as rotinas dos mais privilegiados, o faz, muitas vezes pelos olhos de quem não chegou lá, de quem acreditava nos sonhos da juventude e queria mais, muito mais da vida.

Não é um livro deprimente que apele ao sentimento de pena ou comiseração. É um livro escrito com uma inteligência que merece reconhecimento, com o realismo cruel da vida de todos os dias, que aborda temas com que o leitor se identifica, que atravessa décadas com uma coerência extraordinária, podendo mesmo ser encarado como uma homenagem ao final do século XX e início do século XXI, pela contextualização dos acontecimentos, modas, estilos de vida, aspirações e sonhos (os que se mantêm atravessando décadas e os que, inevitavelmente, ficam pelo caminho).

Mais do que dizer-vos quem é quem, quem faz o quê, quem casa, separa, tem filhos, vive ou morre, quero dizer-vos que este é um livro a ler porque nos faz acreditar que é tudo verdade, que assim aconteceu, porque é tão verosímil como o dia-a-dia de cada um de nós, do mais ao menos interessante.

“Gostaria só de apreciar mais o que faço para ganhar a vida. Ficar realmente desejoso de ir trabalhar todos os dias. Estou sempre à espera de que isso aconteça, mas não acontece.“ Pág. 328

Sinopse

“Numa noite de verão de 1974, seis adolescentes planeiam uma amizade para toda a vida. Jules, Cathy, Jonah, Goodman, Ethan e Ash ensaiam a atitude cool que (esperam) os defina como adultos. Fumam erva, bebem vodka, partilham os seus sonhos.E, juram, serão sempre Os Interessantes.Ao longo da adolescência, o talento artístico destes seis amigos foi sempre satisfeito e encorajado. Mas o tipo de criatividade que é celebrada aos 15 anos nem sempre é suficiente para impulsionar a vida aos 30 - para não falar dos 50. Nem todos vão conseguir manter viva a chama que os distingue na juventude.Décadas mais tarde, a amizade mantém-se embora tudo o resto tenha mudado. Jules, que planeava ser atriz, resignou-se a ser terapeuta. Cathy abandonou a dança. Jonah pôs de lado a guitarra para se dedicar à engenharia mecânica. Goodman desapareceu. Apenas Ethan e Ash se mantiveram fiéis aos seus planos de adolescência. Ethan criou uma série de televisão de sucesso e Ash é uma encenadora aclamada. Não são apenas famosos e bem-sucedidos, têm também dinheiro e influência suficientes para concretizar todos os seus sonhos. Mas qual é o futuro de uma amizade tão profundamente desigual? O que acontece quando uns atingem um extraordinário patamar de sucesso e riqueza, e outros são obrigados a conformar-se com a normalidade?”

Teorema, 2014

Tradução de Raquel Dutra Lopes

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