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Roda Dos Livros

Roda dos Livros - Sugestões de Leitura Janeiro 2016

Roda Dos Livros, 31.01.16

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Começamos o ano com uma pilha de sugestões de fazer inveja. Foi uma sessão memorável, uma excelente abertura de época!

Agradecemos a presença dos convidados Nuno Nepomuceno e Rui Gonçalves. Muito obrigada pela vossa partilha de experiências e sugestões!

Obrigada à Vera, ao Jorge e ao Nuno por tornarem a nossa tarde mais doce!

Olívia, a nossa Rodista bebé, portou-se muito bem, passeou pelos colos e nunca chorou.Se babou foi das magníficas sugestões. Uma estreia admirável de uma promissora leitora!

E para vocês, queridos seguidores, deixamos as ditas sugestões. São ou não de babar?

Nuno - Contagem Decrescente, de Bruno Franco;

Catarina - Tóquio vive longe da terra, de Ricardo Adolfo;

Cris - O Coro dos Defuntos, de António Tavares;

Fernanda - O Afinador de Pianos e O Guardião dos Livros, de Cristina Norton;

Vera - Um Estranho no Coração, de Eduardo Sá;

Ana - Black Pot, de Dennis Mcshade;

Cristina - Arquipélago, de Joel Neto;

Renata - História do Novo Nome e História de Quem Vai e de Quem Fica, de Elena Ferrante;

Márcia - Em Teu Ventre, de José Luís Peixoto;

Rui - Biblioteca, de Pedro Mexia;

Isabel - Leviatã, de Joseph Roth;

Paula - Hotel, de Paulo Varela Gomes;

Sara - Stoner, de John Williams;

Jorge Galvão - A Suite Francesa, de Irène Nèmirovsky;

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A Mulher Com Sete Nomes de Hyeonseo Lee

Roda Dos Livros, 30.01.16

Falar deste livro não é tarefa fácil, nem tão pouco classificá-lo! Atribuir estrelas quando se trata de uma Auto-biografia? E porque não?, pensei.

Já me tenho deparado com histórias de vida tão fantásticas e tão intensas que parecem saídas da imaginação de alguém. Imaginem então:

Um país onde o que é ensinado na escola baseia-se em factos construidos para sublimar as qualidades quase angelicais de alguém que governa o país. Onde a informação que chega às pessoas sobre o mundo e o que se passa nele é quase nula e a História é deturpada para fazerem crer que o país onde se vive é o melhor. Onde a fome grassa e o suborno impera. Onde o medo de "desaparecer" caso se faça algo proibido é muito, o medo de ser denunciado por algo é tanto que todos usam máscaras de satisfação e contentamento por se viver num paraíso. Fugir dali seria uma opção se se pensasse que os países em redor viveriam melhor e a tentativa de fuga valeria correr o risco da pena a cumprir: a prisão em campos de concentração, espancamentos e muito provavelmente o enforcamento.

E quando, através de pequenas coisas, nos apercebemos que talvez as coisas não fossem bem assim, e gostariamos muito de espreitar o país vizinho que está ali à distãncia de poucos metros e depois voltar ao fim de algumas horas, o ideal é, em segredo, subornar os guardas que impedem a passagem para a outra margem de um rio gelado.

Imaginem que não conseguem voltar. Já não podem porque serão apanhados e presos. E com vocês toda a vossa familia que ficou.

Imaginem... Esperem! O pior é que toda esta história não é fruto da imaginacão da autora e sim a sua vida. A sua fuga da Coreia do Norte para a China. O seu medo de ser apanhada e ser repatriada. A sua ida para a Coreia do Sul. Tinha 17 anos quando fugiu, passaram mais de dez quando finalmente chegou a bom porto. Mas e se quisesse ir buscar a mãe à sua terra natal?

Um livro que devem ler. De verdade.

Estrelas: 6*

Sinopse

História de uma refugiada da Coreia do Norte.

Relato da vida de Hyeonseo na Coreia do Norte, da sua fuga e da coragem que demonstrou, enquanto adolescente solitária e vulnerável, para levar por diante a sua vida na China. Doze anos e duas vidas depois, regressou à fronteira da Coreia do Norte, decidida a empreender a arriscada missão de levar a mãe e o irmão para a Coreia do Sul, numa jornada árdua, difícil e tão perigosa quanto se possa imaginar.

O Luto de Elias Gro de João Tordo

Roda Dos Livros, 30.01.16

Não foi o primeiro livro de João Tordo que li. Sei que gostei dos outros mas não consigo comparar essas leituras e a sua escrita com este livro. Tão pouco importa, não é? Gosto da sua forma de escrever e tive prazer neste Luto de Elias...

Quem nos conta esta história não é Elias, um homem de fé, o pastor de uma pequena ilha com poucos habitantes. É o narrador, ao qual nunca chegamos a saber o nome, que nos fala na primeira pessoa e nos conta a sua história. Chegado à ilha procura a paz e indiferença que a solidão pode trazer, certo de que nada mais o espera, senão a morte, depois de ter perdido quem mais amava.

Este processo de luto, este abandono interior, essa vontade de nada fazer que o assola, arrasta-o para situações extremas. Junto com este relato, o narrador fala-nos de Elias, da sua filha Cecília, de Alma e de outros habitantes dessa ilha que o acolheu. Ficamos presos a esse declínio que assistimos, sem nada poder fazer, e partilhamos dos seus momentos de dor e de um certo desleixo também.

E ficamos a saber que muitas pessoas à nossa volta fazem o seu luto também. Às vezes é mais pessado que o nosso, ou pelo menos tão igualmente intenso. Foi uma das coisas que o narrador ficou a saber também.

O final é intenso, arrebatador. João Tordo encontrou a medida certa de o terminar! Gostei muito deste final que achei perfeito!

Estrelas: 4*+

Sinopse

Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais.

A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar.

O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor.

O luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.

A Árvore das Palavras, de Teolinda Gersão

Roda Dos Livros, 26.01.16

A árvore das palavrasEste A árvore das Palavras é um segredo bem guardado da nossa literatura. Pouco conhecido, pouco comentado, (não sei se) pouco lido, é um maravilhoso livro que faz uma homenagem em três actos. Mais que contar uma história (que conta e bem contada) Teolinda Gersão homenageia Moçambique, um continente. Homenageia as gentes de lá, as de cá que foram também e acima de tudo de lá, homenageia uma época que não tornará a ser.

Mas o que salta à vista assim que começamos a ler este livro é a beleza das palavras. A beleza das palavras enrola-nos e obriga-nos a ler devagarinho, saboreando cada frase. Obriga-nos a descobrir um país e a falar de Amor (Viver é muito fácil, porque meço a partir de ti o norte e o sul. Basta que existas para que os meridianos se arrumem e os oceanos não transbordem) e de dor e da pior solidão de todas, a solidão acompanhada.

As palavras deste livro brincam connosco e fazem-nos caminhar pelos caminhos escolhidos pela autora.

"Ou falava, como ela, às formigas: Ouvi, formigas, o que tenho pra contar.

As formigas, vendo bem, era com quem melhor se falava. Se se contasse algum segredo aos pássaros, eles podiam gritá-lo sobre os telhados e espalhá-lo pelo mundo. Mas com as formigas estava-se seguro. E depois havia tantas, nem era necessário procurar, estava sempre uma por perto. Ouvi, formigas, o que vou dizer agora.

Ou sentava-me debaixo da árvore do quintal e falava com o vento e as folhas. A árvore abanava os ramos e eu pensava: a árvore das palavras."

Uma história contada em 3 actos. Primeiro conhecemos Gita, criança. Vemos o seu mundo pelos seus olhos, caminhamos de mão dada com ela pelas ruas de Lourenço Marques, sentimos o carinho do Pai e a distância da Mãe. O tempo não existe, anda para a frente e para trás, acompanhando as memórias e as emoções de uma criança. No segundo acto conhemos finalmente Laureano e Amélia. Principalmente Amélia, que será para mim sempre a personagem mais importante destas páginas. E por fim, Gita, jovem mulher conta-nos o final de umas histórias e o príncipio de outras.

Mas no fim acho que desespero, liberdade e sonho são as palavras que retiro destas páginas.

"Isso, entre outras coisas, eu aprendi com África: a pequenez do ser humano, diante da vastidão do que não é humano. Não somos nada, poeira no vento, silhuetas minúsculas, na imensidão da paisagem.

Basta-nos no fundo muito pouco, porque somos também pouco: matar a fome a sede e o desejo de sexo, a esteira para dormir e o coração em paz."

Gostei muito deste livro e é daqueles que irei, certamente, reler. Além disso tive o privilégio de ouvir a escritora a falar sobre este livro no LEYA em Grupo. Foi, como sempre, fantástico.

Teolinda Gersão

3 anos de Roda dos Livros - Sessão de Aniversário

Roda Dos Livros, 24.01.16

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Uma sessão especial, com livros, comes e bebes. Obrigada à Cristina que nos deixou invadir a sua sala de livros, opiniões e discussões. Em dia de festa rodaram as seguintes sugestões:

Cris - Os Mutilados, de Herman Ungar; O Retorno, de Dulce Maria Cardoso;

Márcia - O Luto de Elias Gro, de João Tordo;

Cristina - Uma Vida à sua Frente, de Romain Gary;

Patrícia - A Hora Solene, de Nuno Nepomuceno;

Vera - Um Castigo Exemplar, de Júlia Pinheiro;

Catarina - Filipa de Lencastre, de Isabel Stilwell;

Sofia - A Confissão da Leoa, de Mia Couto;

Ana - O Paraíso Segundo Lars, de João Tordo;

Isabel - Crónicas do Mal de Amor e A Amiga Genial, de Elena Ferrante;

Partilhamos o nosso video de aniversário, com alguns dos nossos melhores momentos dos últimos 3 anos. Ora vejam!

https://www.youtube.com/watch?v=8jw0h2RpgdE

 

 

O Luto de Elias Gro - João Tordo

Roda Dos Livros, 24.01.16

OlutodeEliasGroO Luto de Elias Gro é o terceiro livro que leio do João Tordo, contudo é o primeiro que me consegue verdadeiramente maravilhar. Não me vou alongar. Não vale a pena, pois não será suficiente. Das frases perfeitas, às palavras escolhidas com engenho, passando pela habilidade das descrições completas e muito belas, que me falaram repletas de emoção, e que eu fui recebendo com prazer e espanto, na calma de cada página lida (e por vezes relida), assimilando o estranho sentido da dor de um homem que conta tudo menos o seu nome.

Passagens sublimes sobre a solidão, sobre a necessidade de estar só, no silêncio, para ouvir o que tem de ser ouvido, no mais profundo de si.

Eu comecei este livro três vezes. Por ter um início tão belo, eu quis repetir o entusiasmo da descoberta, senti que seria muito especial e guardei-o o tempo que pude. Pegava-lhe de vez em quando e sorria com o sofrimento da procrastinação, com o adiamento, com o desejo, com a certeza (que tinha sem saber porquê) que o leria ininterruptamente pelas páginas que o tempo e a vida me deixassem. E foi assim mesmo que o li, com a entrega que este livro merece.

Termino este texto sentindo-me pequena. Sentindo que não produzi uma opinião válida, que não menciono lugares ou personagens, o como ou o porquê. E eu sou mesmo muito pequena ao pé deste livro. Mas no fim fiquei muito mais completa, porque senti um enriquecimento brutal como leitora depois de virar a última página.

“Mas eu entendo-o. A incómoda presença dos outros nas nossas vidas. Às vezes é uma chatice ter de os aturar. Não vale a pena negar, há dias em que acordamos para estarmos longe das pessoas.” (Pág. 68);

“Se os homens se definissem pelas suas profissões, não precisaríamos de nomes. Seríamos o engenheiro número trezentos e quinze e o padeiro seis milhões e meio. Basta que saibam que, dos vinte e dois aos quarenta anos, construí, na cidade, uma carreira de algum prestígio numa determinada profissão e que, a partir dos quarenta, abandonei a cidade e a carreira e fui viver para uma ilha ao largo de uma península, extensão de um continente que não era o meu.” (Pág. 78);

“Escrever mantém-me sóbrio e ajuda-me a preservar a confiança neste caminho de que vos falei. Um homem é refém dos seus segredos até os pronunciar em voz alta; depois, devolvendo-os a Deus numa oração ou numa litania dos aflitos, eles rapidamente se revelam como aquilo que verdadeiramente são: criaturas invertebradas e informes que se escondem atrás do Medo.” (Pág. 151);

“Prossegui pelo litoral enquanto a luz descobria a bainha do céu. Constatei que, embora no centro do meu peito existisse um buraco imenso, aquela liberdade dava-me prazer. Não tinha lugar aonde ir nem ninguém a quem prestar contas; não tinha casa nem família. A melancolia deixara de me incomodar, éramos velhos amigos e, a partir de certa altura, já nada se consertava. Pedalei durante algumas horas pela ilha. Ora a ritmo de uma marcha, ora esforçado numa ladeira; por vezes encontrava a tranquilidade de um terreno plano e deixava a bicicleta fazer o seu trabalho, aproveitando o embalo. Passei pelo farol, mas não me detive; era um lugar ensombrado, habitado pelos restos de uma civilização proscrita.” (Pág. 230);

Sinopse

“Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais. A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar.O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor.O luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.”

Companhia das Letras, 2015

“Todos os dias são bons para roubar” de Teju Cole :: Opinião

Roda Dos Livros, 24.01.16

Regressar à escrita de Teju Cole era imperativo. Depois de uma estreia fabulosa com «Cidade Aberta» ficou uma enorme vontade de voltar e de conhecer um pouco mais da sua prosa e das suas influências e neste, «Todos os dias são bons para roubar» encontramos exactamente isso, a capacidade de Cole para relatar a realidade com o dom de um contador de histórias.
"Uma música suave desperta-me na manhã do dia seguinte: o chamamento do muezim para as orações ecoa através da floresta do vale que separa a propriedade do minarete. Levanto-me e deambulo pela casa (...) O desfiladeiro já não tem agora o mesmo aspecto imaculado (...) A floresta perdeu a batalha. Visto de um certo ângulo, o desfiladeiro tem ainda alguma coisa de primitivo, condiz com uma certa visão que se tem de África."
Num relato carregado de memórias, chegamos a uma ficção que espelha a realidade nigeriana aquando da volta do narrador a Lagos, capital da Nigéria, após mais de uma década de ausência.
Apesar das semelhanças, já que o autor nasceu nos E.U.A. e cresceu na Nigéria, também o narrador, cujo o nome não sabemos, vem de Nova Orleães até Lagos para visitar a família. No entanto, a desigualdade com que se depara é alarmante e chega até a ser desesperante tanto para quem sempre lá viveu como para quem regressa.
Confundido desde cedo com um oyibo, um estrangeiro, o nosso narrador divaga e recorda as diferenças com que os anos carregaram a Nigéria e sem esquecer a atitude com que deve caminhar nas ruas para evitar determinadas abordagens prejudiciais. Ainda assim, relata tudo de forma quase cinematográfica, fazendo um roteiro para o qual as fotografias são um excelente ponto de partida, espicaçando a nossa curiosidade.
"Tudo nesta cidade que me é, ao mesmo tempo, estranha e familiar, está pejado de histórias, o que me faz pensar na vida como uma sucessão de histórias. (...) É toda essa textura literária que existe em vidas cheias de narrativas imprevisíveis que me agrada."
Talvez fosse em busca dessa textura literária e também da imprevisibilidade própria da Nigéria que o narrador enveredou por este retorno. Com o ponto de partida em Nova Orleães, em mais um dia bom para roubar, a corrupção é uma constante e viaja com ele. Estabelecendo um paralelismo entre a sociedade evoluída e recheada de oportunidades com aquela em que tudo tem um preço e vários intermediários a quem pagar.
Numa análise mais profunda ao que vê, analisa o Governo, a falta de regras definidas, a corrupção, a educação e a dificuldade em atingi-la nas devidas condições, tal como a música, os livros... a cultura em geral... todas essas dinâmicas da sociedade nigeriana são reveladas ao leitor como se de pequenas histórias se tratassem e, sem esforço nenhum, se entrelaçassem e fizessem o leitor viajar nesta terra tokunbo... "para além do mares", num local e com um povo cheio de contradições e tensões acumuladas.
"É uma coisa que não se pode dizer em voz alta, mas há por aqui muita violência reprimida. (...) E é por isso também que é difícil ver o que está aqui tão presente à nossa volta (...)" As palavras são de Tomas Tranströmer, mas o narrador diz-nos que podiam ter sido escritas a pensar na Nigéria, quando avalia, por exemplo, a falta de arte em geral e a ausência de investimento em autores nigerianos ou em como um livro ou um cd estão acima das posses do cidadão comum.
"É errado ser infeliz. E também nunca vale a pena aprofundar pormenores, porque a ideia geral é mais do que suficiente. São estas e outras palavras que ficam deste último livro de Teju Cole, assentes sempre em contradições, cuja a análise não sabemos se deve ser feita.
Entre memórias e relatos, visitas familiares e pequenos incidentes, existe reconhecimento e gratidão e, aqui e ali, réstias de esperança de quem continua a criar e a acreditar, como a editora que apoiou Fatai Rolling Star, dos quais deixo as sonoridades com que aumentam a World Music.

«O Coro dos Defuntos» de António Tavares :: Opinião

Roda Dos Livros, 23.01.16

Entre acratas e alguns alevantes, caminhamos entre alpondras e trauteamos uma aravia levada pelo arilho até aos ouvidos de alguma bagaxa ou de algum arlotão, revelando palanfrório zorato.

... ou melhor...
Entre anarcas e alguns motins, caminhamos entre pedras pelo rio e trauteamos uma algaraviada levada pelo vento fraco e frio até aos ouvidos de alguma prostituta ou de algum charlatão, revelando palavras ocas doidas.
A linguagem deste «O Coros dos Defuntos» pode em certa parte conter uma alçaprema, uma armadilha quero eu dizer, no entanto, são as palavras que formam, na minha opinião, o melhor deste coro.
A linguagem de Aquilino Ribeiro é o botaréu para António Tavares trazer até ao leitor um retrato do Portugal meio futre, um tanto gabião e lapúrdio. Maltrapilho, tagarela e saloio. Assim se retrata o Portugal do interior nos anos antes do 25 de Abril. O período conturbado entre 68 e 74 foi chegando aos bochechos àquela terra beirã, criando uma maranha intrincada que vai desvelando um leque de personagens muito bem caracterizadas.
É no acumular de personagens que o autor constrói uma aldeia à frente dos olhos do leitor e deixa perceber entre talisgas algumas pequenas pistas que poderão dar a descobrir o enigma entre Manuel Rato e Olivita, personagens pervagantes mas constantes.
Embora existam curtos episódios recheados de rinchavelhada, há muito de um retrato sério da nossa realidade, o que contribui para entendermos a suspicácia com que o povo recebia certas novidades.
Volto a repetir que toda a atracção que senti para este livro está na forma cuidada como o autor pega nas palavras e constrói momentos brilhantes que dão vontade de ler e reler, aliás, desde as primeiras palavras, onde a voz narrativa é apresentada, mas também os tempos de regime, que se pressente a qualidade do texto.
“Diz ela que o mundo nem sempre foi assim. Noutros tempos, a avó corria à beira do rio com um pau de vime na mão a espantar os espíritos dos mortos e batia nas pedras e na água como se sacudisse os males da Terra. (...)  muros enchiam-se de musgos, campainhas e pipilros, brotavam cogumelos de todas as espécies em todos os cantos e era possível ler nas entranhas dos troncos o destino dos viventes.
Cada um sabia quem era os outros e cada qual conhecia todos e, mais do que a eles, os pais e avós, às vezes os bisas e tudo assim, mesmo na linha colateral, ou seja, primos e tios e por diante (...)"
«O coro dos defuntos» está tão bem engendrado que diria até que se poderão ler alguns capítulos a título de micro contos e, volta na volta, deliciarmo-nos com belos lambiscos ou então amesendarmo-nos entre amigos e talvez emberzundarmo-nos de mais deste nosso Portugal.
Não tenham ignávia, leiam este livro!

Enquanto Lisboa Arde, O Rio de Janeiro Pega Fogo de Hugo Gonçalves

Roda Dos Livros, 21.01.16

Enquanto Lisboa Arde O Rio de Janeiro Pega Fogo

A história é simples: um homem que falhou em tudo a que se dedicou, perseguido por gente duvidosa por ter cometido actos, não criminosos mas estúpidos, foge para o Brasil, literalmente com uma mão na frente e outra atrás. Mas leva uma encomenda.

O suspense sobre a encomenda termina nas primeiras páginas: leva um livro que delata a história de uma mulher com um ex-PIDE nos anos 70, pós-queda do regime.

Este livro foi encomendado por Filipe, um homem filho de famílias com dinheiro antigo, que lhe pede que encontre Lázaro, o ex-PIDE.

Pelo caminho aparece Margot, uma luso-brasileira do Vidigal e Cascais, que passou da favela para a Linha, e por quem o personagem principal se apaixona perdidamente.

Entre múltiplas peripécias, muita droga, muitas descrições bem concretizadas do Rio e da Serra dos Órgãos, de Lisboa, o livro tem uma escrita que se desenrola naturalmente e que agarra, conseguindo que terminemos o livro sem períodos de tédio. O ritmo impresso é ideal, um bom livro de praia, por exemplo. O final é surpreendente e bem recambolesco.

Gostei do livro, e recomendo-o.

Não gostei do facto de o escritor o ter tentado tornar num livro de época, um livro sobre a crise de 2008 e sobre a emigração portuguesa para o Brasil. O número de vezes que critica Portugal e que elogia o Rio é idêntico. Mas o que mais me aborreceu foi o facto de usar o personagem principal para elogiar o Rio, e todos os outros personagens para criticar Portugal. Achei a crítica cobarde. Caracteriza o ano de 2008 como um ano de fome, de miséria, de desemprego, define a sociedade portuguesa como podre e irrecuperável, e para que não julguem que estou a exagerar, eis um excerto do livro, em nota de rodapé do Autor:

"Havia, entre alguns Europeus, uma atitude de desconfiança com a prosperidade do Brasil e com a avidez do consumo. Talvez estivessem escaldados com o que se passara nos seus países: o endividamento, a loucura despesista, os bancos a emprestarem, a falirem e a serem salvos com o dinheiro dos contribuintes. Depois da ascenção do Brasil - e do consumismo - , talvez temessem que a queda voltasse a ser tremenda. Mas também podia ser inveja. Era foda ver o hemisfério sul a dar as cartas. Era foda ver o crescimento dos partidos nacionalistas na Europa, as manifestações de desempregados, os governos de joelhos para pedirem dinheiro emprestado, todo um falhanço continental que demorou décadas a construir e apenas meses para se mostrar ao mundo."

Ou este outro trecho:

"Por mais que tivesses viajado, defendendo, como Kay, a mistura de tudo e todos, no Rio de Janeiro, enquanto imigrante ilegal, percebeste que tinhas em ti um portugalidade crónica, séculos de transmissão genética, e séculos maculados pelo nevoeiro da esperança. Percebeste também que tudo aquilo que mais te incomodava em Portugal, sempre procriou dentro de ti e deu à luz nos teus actos: o desleixo, a bonomia, o chico-espertismo, anos a confundir consumo com felicidade.

És o filho da democracia, a criança mimada da família, a geração portuguesa mais europeia de sempre, e mais educada, mais preparada, e agora mais deprimida. És um lisboeta que se enternece quando em vez de castanhas se vendem morangos e cerejas na Praça do Rossio. És judeu, e árabe e magrebino e preto e celta e lusitano e ibérico e transatlântico. O teu avô emigrou, o teu pai também. És parte da torrente do sangue que circula pelo mundo. Ficas ereto em Nova Iorque, quase te mataste em Londres, lembras-te pouco de Amesterdão, pisaste o risco em Madrid, querias parar nos braços do Rio (nos braços de Margot) e ficar por aí. Mas já não dá. És um puto fadista, o vadio que chega tarde. Não tens uma casa há quanto tempo?

És tantas coisas e não consegues ser nada."

O que mais chateia é que a escrita é boa, mas esta insistência em “cascar em Portugal”era completamente escusada já que não acrescenta nada à história, que seria igualmente boa, sem necessidade de se “estar a bater no ceguinho”. Se queria ser como Eça de Queiroz a criticar Portugal, falhou.

 

A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te

Roda Dos Livros, 17.01.16

A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te_14-01-2015

Fazer parte de um grupo de leitura abriu os meus horizontes. Uma experiência que recomendo, mesmo para os mais introvertidos e antisociais (que não é de todo o meu caso), pela possibilidade de encontrar empatia literária e não só, e assim descobrir tantos autores que de outro modo nos estariam vedados. Apenas porque estando ao nosso alcance não os iríamos ver e este seguramente seria para mim um dos casos.

A vida de Marie Curie (e Pierre) fascina mas nunca me dispus a ler sobre esta mulher que ganhou dois prémios Nobel num tempo em que as mulheres não tinham visibilidade e eram alvo de discriminação. Mas não se trata apenas da paixao de Marie pelo seu trabalho mas pelo marido Pierre, e o processo de luto e de dor com a sua morte, em paralelo com o da autora com a morte de Pablo. O diário desvenda uma faceta mais humana desta extraordinária mulher e não menos relevante.

Não conhecia a escrita de Rosa Montero e das primeiras vezes que ouvi falar sobre este livro fiquei relutante porque o tema não me atraia, mesmo que afirmassem ser um livro luminoso e nada deprimente, com interessantes e validas consideraçoes sobre a vida e os afectos, mas só depois de o ler percebi. A escrita é coloquial e torna-nos cúmplices dos segredos de alma destas mulheres, comuns a um género e nunca expressas com esta clarividência e naturalidade.
Gostei muito e recomendo.
Sinopse:
Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de certo modo, a sua. Assim nasceu A ridícula ideia de não voltar a ver-te: uma narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso íntimo doloroso. 
São páginas que falam da superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.

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