Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Roda Dos Livros

Esse Cabelo - Djaimilia Pereira de Almeida

Roda Dos Livros, 28.12.15

Esse CabeloEste final de ano tem-me reservado surpresas fantásticas. Esse Cabelo agarrou-me pelo espanto. Desde a primeira linha que me espantei, e maravilhei, com a escrita incrível de Djaimilia Pereira de Almeida. Pegando no seu próprio cabelo como tema, desenvolve a história da sua vida e da sua família com uma mestria surpreendente. Complexo e desafiante, Esse Cabelo vale pela excelência da forma. A história é boa mas, apesar de ainda não ter lido Americanah da Chimamanda Ngozie Adichie, desconfio que não seja original. Mas tenho a certeza, apesar de gostar muito da Chimamanda, que esta tem um caminho a percorrer até chegar ao nível literário de Djaimilia.

Mais do que uma história dos dissabores vividos nos salões de cabeleireiro, ou mesmo, nas espécies de cabeleireiros em vão de escada, fica a vida dentro da cabeça da dona do cabelo. Desde a criança observadora cujas memórias ainda fervilham e são surpreendentemente contadas pela adulta, até ao difícil que pode ser crescer.

O cabelo é transversal a todo livro, como um fio condutor de memórias. Os seus fios passam por mudanças, sofrem, crescem e são cortados. O que se passa do lado de fora da cabeça pode ser um reflexo do que se passa lá dentro?

Um livro curto que se lê num fôlego, mas complexo ao ponto de obrigar à releitura das passagens mais bicudas, que apetece desembaraçar com paciência, como um nó no cabelo, um emaranhado de ideias que tem de ser deslindado e que é urgente compreender.

Emotivo e doloroso, com a grande capacidade de, mesmo assim, arrancar sorrisos, Esse Cabelo é diferente, surpreendente, e, claro, obrigatório.

Sinopse

“O que se passa por dentro das cabeças é mais importante do que o que se passa por fora? Falar de cabelos é sempre uma futilidade? Não necessariamente, até porque, segundo a narradora deste texto belo e contundente, «escrever parece-se com pentear uma cabeleira em descanso num busto de esferovite» e visitar salões é uma boa forma de conhecer países, de aprender a distinguir modos e feições e até de detectar preconceitos.Esta é a história de uma menina que aterrou despenteada aos três anos em Lisboa, vinda de Luanda, e das suas memórias privadas ao longo do tempo, porque não somos sempre iguais aos nossos retratos de infância; mas é também a história das origens do seu cabelo crespo, cruzamento das vidas de um comerciante português no Congo, de um pescador albino de M’banza Kongo, de católicas anciãs de Seia, de cristãos-novos maçons de Castelo Branco - uma família que descreveu o caminho entre Portugal e Angola ao longo de quatro gerações com um à-vontade de passageiro frequente. E, assim, ao acompanharmos as aventuras deste cabelo crespo - curto, comprido, amado, odiado, tantas vezes esquecido ou confundido com o abismo mental -, é também à história indirecta da relação entre vários continentes - a uma geopolítica - que inequivocamente assistimos.”

Teorema, 2015

Os Olhos de Tirésias - Cristina Drios

Roda Dos Livros, 20.12.15

osolhosdetiresiasHá livros que nos contam, logo nas primeiras páginas, que serão dos nossos preferidos.

O ano de 2015 está a terminar. Não ligo a listas de preferidos, não escolho os meus livros top, estou sempre a pensar no que ler a seguir e, quando muitos leitores refazem o caminho percorrido, eu dou por mim a organizar o meu 2016 em leituras. É por isso curioso que este ano me tenha reservado algo tão bom para o fim. Tão bom que me faz, a mim, a anti-listas de favoritos, repensar leituras, olhar para trás, para ter a certeza de que, Os Olhos de Tirésias foi mesmo do melhor que li este ano.

Confirmo que sim. Poucas vezes, nas minhas leituras, senti que a escrita me inundava de beleza. A busca pela beleza é inglória. O bom pode sempre ser melhor, o belo tem de nos extasiar, levar ao próximo nível. Estas páginas levaram-me embalada na beleza da escrita da Cristina.

Leio rápido, sôfrega de chegar ao fim, muitas vezes leio o fim antes do tempo, sem calma nem ponderação. Mas desta vez não consegui. Quis, sempre, ficar um pouco mais enredada na escrita densa, saboreando as palavras nas frases, as frases no texto, atravessando as fronteiras do espaço e do tempo, e indo, realmente indo, aos locais.

A beleza da escrita e o vocabulário rico não dissimulam os horrores da guerra. O horror pode ser belo se nos marcar de forma permanente, fazendo-nos querer ler outra e outra vez determinada passagem, mesmo que dura, mesmo que de cada vez sintamos que são os nossos pés que estão a congelar de frio na trincheira, ou que é sobre o nosso corpo que as ratazanas se passeiam. E depois sentir o amor. Lê-lo e senti-lo nascer da dor, do frio e do sangue, como a paz no meio da luta, o esconderijo, a porta que se fecha deixando o sofrimento de fora.

Conto-vos apenas que há uma mulher que quer descobrir quem foi o seu avô. Esta mulher quer escrever, e luta por conhecer a história desse antepassado que combateu na Primeira Guerra Mundial. Recupera-lhe a infância e reconstrói-lhe o percurso. Reconhece-lhe o círculo negro que o isola, e sabe-o como se ele estivesse vivo, na sua frente, e lhe pudesse contar que não sabe sentir. Que nada o magoa, seja a miséria ou o frio quando criança, seja estar só na noite da guerra rodeado de mortos. Até um dia. Porque há sempre um dia que é o fim de tudo, mesmo das coisas más. Nesse dia o círculo negro fica menos negro.

E esta mulher luta, num escritório pequeno onde cabe uma parte do mundo, por escrever. Luta com as palavras que nunca são, para ela, as certas, que apaga muitas vezes até que tudo fique no papel como é na sua cabeça. Sofre e observa. Viaja para França para descobrir o avô e tropeça no amor. Mas a distância alimenta a dúvida e, no seu mundo de palavras, a memória é traiçoeira. Insegura e um pouco tonta, embrenha-se cada vez mais na sua solidão. Na angústia. Na expectativa. Recupera documentos e cartas. Trabalha. Cria as personagens inesquecíveis deste livro, coloca-as num cenário real, que deixa de ser cenário para ser vida, as suas vidas, reais, que aconteceram. Porque depois da última página ninguém tem dúvidas disso.

“Nas nossas vidas, construídas, tijolo a tijolo, de acasos, o azar ocupa pouco lugar; há sempre uma razão para estarmos em determinado local, e não onde supostamente deveríamos estar, acomodados e obedientes, embora não tenhamos logo a consciência do que, na verdade, ali nos levou. E quando, ao contrário da vaga impressão de não estarmos onde deveríamos estar – ainda que não sabendo onde isso fosse, tão infinito é esse mundo de possibilidades-, intuímos finalmente essa razão, esse momento único e irrepetível fica, indelével, na nossa memória e nos nossos sonhos.” (Pág. 18);

“Creio que, para se tornarem marcos miliários na vida do leitor, os livros carecem de uma leitura não só no tempo certo, como no local certo, como ainda, nesse tempo e local, abrindo campo a uma possibilidade latente, escondida, talvez mesmo rejeitada. Como o amor. Abrem-nos os olhos para um desejo, qualquer coisa a latejar cá dentro que não queríamos ou sabíamos exprimir. Ali está, preto no branco, de repente tudo se torna claro, preciso e irrefutável, abre-se uma porta e, daí em diante é impossível arrepiar caminho. Como se o diabo nos entrasse no corpo.” (Pág.122);

Sinopse

“A descoberta de um retrato daquele avô cuja história a família sempre encobriu - Mateus Mateus, o gigante de olhar estranho que partiu, no contingente português, para a Flandres durante a Primeira Guerra Mundial - é o pretexto que a narradora encontra para, simultaneamente, escrever um romance e se afastar de um casamento que parece condenado ao fracasso. Para saber mais sobre o passado desse desconhecido, parte, também ela, para a propriedade de La Peylouse, em Saint-Venant, que alojou o Estado- Maior português nos anos 1917-1918 e da qual o avô, depois de ter servido na frente como maqueiro e coveiro, foi enviado numa missão de espionagem, acabando prisioneiro dos alemães. No bizarro hospital onde passa os meses que antecedem a batalha de La Lys (o mesmo onde virá a ser internado um cabo alemão chamado Adolf, atacado de cegueira histérica), Mateus Mateus cruza-se com figuras inesquecíveis: Alvin Martin, um inglês albino dado às premonições; Hugo Metz, o médico que usa métodos de inspiração freudiana para interrogar os pacientes; o órfão Émile Lebecq, pequeno ladrão e ilusionista amador; e, sobretudo, Georgette Six, a bela enfermeira francesa que perdeu o noivo na guerra e pela qual o português se tornará um homem diferente. E, porém, à medida que a neta de Mateus Mateus vai desfiando essa história - num jogo em que a realidade se torna indestrinçável da ficção -, também a sua vida é sacudida por uma paixão - e só o encontro com Cyril Eyck e o seu bisavô centenário trará a chave para os enigmas do próprio romance.”

Teorema, 2013

«Tóquio vive longe da terra» de Ricardo Adolfo :: Opinião

Roda Dos Livros, 19.12.15

Ao lermos este «Tóquio vive longe da terra» ficamos a saber que é possível casar novamente com o marido, mas sem ter a presença desse no "novo" dia de casamento. Estranho? É verdade, neste livro existem relatos de coisas muito estranhas. No entanto, o estranho, o alien, é o próprio autor e ao que parece protagonista, português a residir em Tóquio que reuniu agora as crónicas que foi publicando na revista Sábado, dedicadas ao modo de vida que tem experimentado desde que se mudou para aquela ilha.
Afastado da terra, mas sem estar próximo dos ilhéus, Ricardo Adolfo traz-nos, num registo peculiar, as excentricidades de viver numa realidade quase que paralela à nossa. Peculiar é também o mix entre realidade e ficção. Temos o autor e temos um personagem, mas e distinguir a realidade da ficção? Terão todos aqueles episódios acontecido? Ou o autor conseguiu reunir um conjunto muito caricato e hilariante de hábitos que caracterizam o povo japonês!? Ficcionado ou não, os hábitos é o que interessa e a viagem é completamente feita à deriva.
"(...) os policias não perceberam a pergunta. Como é que alguém poderia querer fazer algo que não se podia fazer?
Enquanto eles tentavam processar o desejo de se fazer algo que não se deve, corri praia fora com um sorriso do tamanho do oceano, sempre à espera de bater com a cara na porta transparente do mar."
Entre quartos gaveta, regras de elevador, um Natal vazio, não ter direito a férias e assédio pós-laboral, concordamos com o autor que amar em estrangeiro é difícil. Ser alien de aluguer é ser pai por um dia sem saber como e lutar pela integração de um alien num casamento singular... Poderia continuar a cruzar os títulos das crónicas do autor, mas nada se compara ao rumo que o livro traça.
Seja com que ordem for, «Tóquio vive longe da terra» é um livro hilariante e recheado de eventos surreais completamente díspares das nossas referências.
"Se queria ser um alien integrado, mais uma vez teria de ser capaz de descodificar o que ficara por dizer e descobrir qual seria a regra aleatória a cumprir.
Cada vez mais concluo que o cânone dos nativos não é deste mundo."
As crónicas foram sempre acompanhadas de fotos que se podem ver através dos códigos qr que estão no início de cada capítulo e que remetem para imagens que o autor foi postando na rede Instagram.

«Butcher's Crossing» de John Williams :: Opinião

Roda Dos Livros, 18.12.15

"A natureza está constantemente a misturar-se com a arte."

500_9789722058421_Butchers CrossingÉ nas palavras de Ralph Emerson que melhor se resume o que encontramos no enredo que John Willians cria e que torna a Natureza, a paisagem, os animais e o Oeste nas personagens mais vívidas e impactantes deste romance.

«Butcher's Crossing» revela uma América profunda, numa busca pela vastidão do Oeste, já ameaçado pelo avanço da sociedade moderna que começava a impor barreiras à própria Natureza. Um jovem de Harvard, cansado da sua vida académica e urbana, pretende enfrentar as provações e descobrir por si, as experiências que só uma expedição nas montanhas lhe poderá dar e na procura por um mentor, chega até Butcher's Crossing para ter a experiência de uma vida.

Apesar de todo o encantamento que as descrições minuciosas nos causam, há todo um relato de solidão, vazio e dureza que quase causam dor e desconforto no leitor. O frio é inquietante ao ponto de o sentirmos. A passagem das estações do ano demarcam muito bem a passagem do tempo. Longo e infinito, numa demanda diária, numa luta desigual. É apenas o vazio que preenche o tempo que passa entre aqueles homens que apenas partilham um espaço exíguo quando existe toda a vastidão de um vale ou de uma montanha, mesmo ali à mão, mas a barreira imposta pelos rigores da natureza são esmagadores e fazem alterações profundas no Eu que ainda estava por descobrir em Will Andrews.

A invulgar carnificina que mancha a brancura que invade grande parte deste livro, acompanhará o leitor até ao final, a mim acompanhou-me. Na sinopse lemos que o que nos deslumbrará será a natureza humana, no entanto, a Natureza propriamente dita, no seu estado mais puro e violento eleva cada personagem, cada homem a um limite que altera o curso de cada uma daquelas vidas de forma visceral. No entanto, para mim, é a Natureza a verdadeira personagem deste livro. É com ela que nos deslumbramos.

A leitura deste livro surge após uma leitura compulsiva e viciante que obtive com «Stoner» e compará-los é difícil, mas foi impossível não o fazer. A perícia da escrita de Williams mantêm-se, aliás, apura-se, bem mais que em Stoner, mas Stoner tem todo um ambiente literário que o coloca num outro patamar perante as minhas escolhas. Ainda assim, o preciosismo que John Williams coloca nos detalhes das longas descrições que faz dos dias em que os homens aguardam pela caçada ou lutam contra a intempérie poderiam tornar-se enfadonhos ou desmotivantes, mas não, são esses momentos descritivos que abrilhantam o enredo e envolvem o leitor, tornando também este um grande livro. Outra comparação que senti necessidade de fazer foi com «O Deserto dos Tártaros» de Buzzati, mas julgo que é mesmo a escrita de Williams que me leva a isso. Apesar de todo o detalhe quase obsessivo com que Williams carrega os seus livros, há todo aquele deserto interior que povoa as vidas das suas personagens e isso liga-me sempre ao relato inóspito da vida de Giovanni Drogo.

" O Coro dos Defuntos" de António Tavares

Roda Dos Livros, 17.12.15

o_coro_dos_defuntos

Nesta Roda dos Livros não faltam referências ao prazer da leitura e este artigo será muito pouco original pois começará exactamente assim: foi um enorme prazer ler este “O Coro dos Defuntos”. Lê-lo assemelhou-se a comer uma tangerina sumarenta (adoro citrinos), com a proporção ideal de ácido e doce, sendo cada página um gomo de deleite e amiúde um sorriso. Uma história muito bem contada sobre um certo Portugal, numa época de mudanças fulcrais cujos ecos atingem uma aldeia remota, até então quase parada no tempo, e um verdadeiro festim de palavras, eis, o Prémio Leya deste ano, até agora (e dos que li) o meu favorito. Gostei muito de acompanhar aquelas vidas, a um tempo limitadas pelo isolamento e por superstições antigas mas também de algum modo sábias na sua ligação aos costumes ancestrais, à Terra e aos ritmos da agricultura. A avó da narradora, mulher sábia, conhecedora das artes de cura pelas plantas e pelas rezas, parteira e cuidadora dos defuntos e o Manuel Rato, antigo seminarista e filósofo impenitente são personagens inesquecíveis. Toda a narrativa se desenrola daquela forma mágica capaz de transportar o leitor para um tempo e um lugar, mergulhando quem lê nas brumas e na luz de vidas que parecem muito longínquas e no entanto, são, como todas, reflexos daquilo que somos, da essência que nos torna humanos e que permanece através das eras sob as camadas de avanços técnicos.Ao longo deste livro estupendo apercebi-me de algo muitas vezes ignorado, talvez por ser demasiado familiar: a formidável riqueza da Língua Portuguesa. Não, não me custaram nadinha as consultas constantes ao glossário do final do livro, aprendi imensas palavras novas, suculentas ou truculentas, mas sempre deliciosas como por exemplo: aranzel, balabrega, esgarabulhão, flostria, gatimanhos, lambisco, regalório, penetrais e suspicácia. São palavras redondas, de encher a boca e acender sorrisos e, caso não as entendam, façam uma coisa: leiam “O Coro dos Defuntos” para as conhecer e, creio, não se arrependerão.

Face à impossibilidade de transcrever todos os excertos que me tocaram especialmente, deixo aqui o começo de tudo, os primeiros paragráfos que me cativaram de imediato:

Diz ela que o mundo nem sempre foi assim.Noutros tempos, a avó corria à beira do rio com um pau de vime na mão a espantar os espíritos dos mortos e batia nas pedras e na água como se sacudisse os males da Terra. Tecia nos lábios uma ladainha, uma canção que se misturava na corrente e na espuma dos rápidos.

Diz ela, que o mundo era diferente: as árvores frutavam-se de forma espontânea, como se tivessem vida própria, e ninguém as regava ou podava. Os muros enchiam-se de musgos, campainhas e pipilros, brotavam cogumelos de todas as espécies em todos os cantos e era possível ler nas entranhas dos troncos o destino dos viventes.

Cada um sabia quem era os outros e cada qual conhecia todos e, mais do que a eles, os pais e avós, às vezes os bisas e tudo assim, mesmo na linha colateral, ou seja, primos e tios e por diante. Ainda és prima do Caneco, diziam-lhe; e era, numa distância que se perdera em várias gerações de nascimentos e mortes sucessivas, mas ao vê-la passar sentiam essa ternura que habitava algures num canto da sua genealogia.”

Sinopse:

Um belíssimo retrato do mundo rural português entre 1968 e 1974. Vivem-se tempos de grandes avanços e convulsões: os estudantes manifestam-se nas ruas de Paris e, em Memphis, é assassinado o negro que tinha um sonho; transplanta-se um coração humano e o homem pisa a Lua; somam-se as baixas americanas no Vietname e a inseminação artificial dá os primeiros passos. Porém, na pequena aldeia onde decorre a acção deste romance, os habitantes, profundamente ligados à natureza, preocupam-se sobretudo com a falta de chuva e as colheitas, a praga do míldio e a vindima; e na taberna – espécie de divã freudiano do lugar – é disso que falam, até porque os jornais que ali chegam são apenas os que embrulham as bogas do Júlio Peixeiro. E, mesmo assim, passam-se por ali coisas muito estranhas: uma velha prostituta é estrangulada, o suposto assassino some-se dentro de um penedo, a rapariga casta que colecciona santinhos sofre uma inesperada metamorfose, e a parteira, que também é bruxa, sonha com o ditador a cair da cadeira e vê crescer-lhe, qual hematoma, um enorme cravo vermelho dentro da cabeça. Quando aparece o primeiro televisor, as gentes assistem a transformações que nem sempre conseguem interpretar...

«Se me restasse apenas uma hora para viver», de Roger-Pol Droit :: Opinião

Roda Dos Livros, 17.12.15

Se vos restasse apenas uma hora para viver, viveriam-na a ler?Não!?Coincidência ou não, o autor concebeu um texto que é ao mesmo tempo uma reflexão mas também um relato inspirador sobre as coisas importantes da vida...mas que se lê numa hora. Curioso?

Nascido em 1949, Pol Droit dedica este livro à neta, mas será este um registo pessoal? A narrativa na primeira pessoa deixam a pensar numa reflexão do seu percurso talvez necessária para corrigir o curso da vida, realinhar pensamentos e reposicionar prioridades? Logo perto do início, perante a ideia de morte, diz-nos "adeus vida, bom dia mistérios."Será a morte uma sedutora caixa de mistérios que uns têm mais curiosidade de abrir que outros?

Pol Droit tem a certa parte deste curto percurso uma reflexão chave, já que eu olhei a este livro como uma reflexão para a vida de um escritor. Pensei no impacto daquilo que se deixa, daquilo que se transmitiu e que passa para o próximo. O escritor tem a palavra escrita e isso fica sempre.

"Que irreprimível necessidade leva os seres humanos a inventarem ficções para se aproximarem da realidade?"

Não bastaria a vida para nos fazer viver a realidade?Será a ficção uma boa forma de viver a vida e se sim, será igualmente uma boa forma de experimentar a morte?"fazem-me rir, os filósofos, com esse velho projecto absurdo de «aprender a morrer» como se fosse possível aprender aquilo que não se repete."

No pronuncio da morte anunciada chega a vontade de viver tudo o que até ali se evitou ou aquilo a que nos proibimos, acaba-se a tolerância, a prudência, os recalcamentos ou os medos, afinal a morte tem hora marcada."por que não explodir numa primeira e última pedrada inverosímil, resultado de todo os pós brancos, de todos os cogumelos, de todos os êxtases químicos possíveis..."Apesar da explosão inicial, penso que o livro tem duas partes, inicialmente o choque e posteriormente aceitar que precisamos de cultivar outras coisas para que tenhamos uma vida mais real, mais consciente.

Na última hora ocuparemos a cabeça com que preocupações, com que frustrações ou ressentimentos? Ou pensaremos a felicidade fragmentada que pulsou ao ritmo dos acontecimentos e agora ao sabor das melhores memórias. Em que pensar? Que filtro aplicaríamos, se conseguíssemos, para só ter ideias que garantiam a melhor hora. Seria possível?

Julgo que perante a ideia de anúncio tão bizarro como o de saber a hora da morte a minha cabeça devia virar ainda mais anarca do que já o é ;))) Seria capaz de quebrar com a linha intermitente e obsessiva de querer compreender tudo? Talvez me preocupasse em eternizar momentos, se é que se levam alguns...Talvez gostasse numa última hora abandonar-me simplesmente à alegria de sentir, sem ambição de compreender e evitar a angustia de não ter feito, lido, ouvido, visitado, amado... tudo o que havia por fazer.

Se inicialmente vamos pensando no lado mais pessoal do autor e daquilo que nos escreve, é inevitável não reflectirmos sobre nós próprios.

*Durante a leitura desta livro apercebi-me da existência do Projecto 2114, The Future Library, de Katie Paterson, que podem ler aqui no P3 ou no Blog Sentido dos Livros.

«Na pele de uma jihadista» de Anna Erelle :: Opinião

Roda Dos Livros, 16.12.15

É importante começar logo mesmo antes do começo propriamente dito quando Anna Erelle, nome fictício para uma jornalista francesa, indica: "os factos a seguir narrados ocorreram na Primavera de 2014, dois meses antes da tomada de Mossul, segunda cidade do Iraque, pelo Estado Islâmico, e da autoproclamação de um califado pelo seu líder Abu Bakr al-Baghdadi."O trabalho de pesquisa e de infiltrada nos meandros da comunicação com jihaditas coloca este testemunho em destaque perante os últimos acontecimentos, numa tentativa de explicar a forma de recrutamento virtual praticado pelo fanatismo dos combatentes da brigada islamita.

Desde as primeiras palavras aprendemos a designação que nos é dada, kuffar, e como infiéis que somos, devemos ser banidos de entrar no paraíso que a jihad em nome de um Islão mais puro está a alcançar. É esta a mensagem que os devotos, os fanáticos ou os soldados recrutadores tentam passar aos recém convertidos ao islamismo (e não só) a fim de abraçarem a causa e abandonarem as vidas impuras que levam. Nomeadamente a família, caso essa seja um factor de limite da missão que devem seguir.

Na senda dos mujahedins que usam as redes sociais, Anna Erelle, assume um perfil falso de Facebook, como Melánie, uma jovem recentemente convertida e que busca orientação e é desde logo um alvo fácil para homens e mulheres que a tentam convencê-la a efectuar a sua hégira (abandonar o seu país e família infiel e juntar-se à luta). Com as redes sociais estes combatentes mantêm o anonimato e prosseguem com a jihad virtual, espalhando o horror com vídeos violentos mantendo a promessa de mais mortes, torturas, violações, saques e conquistas para os futuros guerreiros.

É muito interessante a forma como a jornalista francesa explica como são feitos esses recrutamentos e quem são os potenciais alvos. A fé talvez seja a menor das preocupações de quem recruta, já que Erelle dá a perceber que a situação económica, a criminalidade ou a falta de rumo na vida, são factores fulcrais para permitirem que a lavagem cerebral ocorra. É isso que tentam fazer com Melánie, quando esta se apresenta mais frágil por falta de apoio familiar. Para sua surpresa quem a aborda via Facebook e Skype é Abu-Bilel, combatente na Síria e braço direito do califa.

Estabelecido o contacto e ganha a confiança necessária é altura da jornalista perceber como se processa a fase seguinte. Levar os candidatos até terras do califato e que papeis irão assumir. Mas como lá chegam? Com que meios? Com o apoio de quem e passando que fronteiras?A partir deste momento o seu trabalho como infiltrada aumenta e o perigo também. São muitas as questões que Erelle levanta e mostra a teia que envolve muitos dos acontecimentos desde a separação de uma célula da Al-Qaeda que é hoje a Daesh e como tem evoluído até à data, não esquecendo o papel dos Estados Unidos da América e da própria França. E não esquecendo também de demonstrar o reconhecimento e a afirmação que estes heróis buscam. Ou até o quão é difícil de avaliar e vigiar (e nunca se pode vigiar toda a gente!) alguém só porque se recolhe mais perante dada religião ou efectua determinadas viagens para países mais fundamentalistas.

Desde as explicações iniciais que contextualizam o tema, até ao momento fulcral de se infiltrar, o testemunho de Erelle tem um balanço positivo e até educativo, para além de assumir em certas partes contornos assustadores, mas alguns dos diálogos parecem forçados e até simplistas, não sei explicar melhor, não esperava aquele tipo de diálogos. Um outro detalhe que me deixa a pensar é ter-lhe "calhado" logo um dos homens em quem o califa deposita mais confiança. Gosto do lado informativo e até especulativo, mas na sua totalidade como caso real...

«Descobri que estava morto» J. P. Cuenca :: Opinião

Roda Dos Livros, 15.12.15

"A franqueza é a primeira virtude de um defunto." Brás Cuba
Quando terminei «Descobri que estava morto» do Cuenca pensei: "é muito frontal com fanta". E é bem verdade se o ligar ao desejo de invisibilidade com o qual começa o livro, espelhando o trabalho de Oscar Munõz e a constante reconstrução do retrato.
«Descobri que estava morto» funciona como um epitáfio para um pseudo morto. Um ser transtornado, mas ainda muito consciente que, por entre ruas do Rio de Janeiro, faz um inventário de críticas à cidade em ambiente pré-olímpico. Com a geografia de road book, revela-nos quem queria fugir mas ter quem lhe sentisse a falta.
Este é um livro pejado de pérolas.
Aquele que se vai apagando nesta história é dado a reclamações e depressões, alimentava vagas de inquietação metafísicas e criava narradores desafinados e donos de platitudes já gastas. Com apurada vocação para a tristeza, herdada desde o cordão umbilical, e ampliada por algum misantropismo, altera períodos de fanfarronice com outros mais atávicos e delirantes.
Cuenca traz novamente à acção Tomás Anselmo e é com ele, numa espécie desolidariedade postiça masculina que arregaça as gengivas e combate a letargia de querer estar morto. No entretanto, cutuca o excesso de orgulho do brasileiro em espírito de olimpíada, apontando o dedo à cidade neo-pacificada, mas sem se excluir, o que torna ainda mais esquizofrénica e divertida a sua análise.
Os anos avançam, a política e os melhoramentos na cidade também, mas nada de muito profundo que quebre a esculhambação típica do brasileiro e ele, na sua recém conquistada solidão dá passos, pequenos e pouco firmes na direcção de resolver o mistério da sua morte fictícia. O vício no circo portátil do hedonismo que o persegue apodera-se cada vez mais, patrocinando a sua enclausura e abandono, apelidada pelo próprio de procrastinação masturbatória e inútil, aumentando assim a certeza de que é uma fraude, tal como o Rio pré olímpico que o acolhe.
A fatídica prosperidade que afecta a sua cidade traz um equilíbrio frágil e até pernicioso, uma espécie de imunidade que vai talhando a bolha de delírio em torno da sua literatura e o faz questionar tudo.
"Como o que eu realmente desejava era destruir tudo e não criar porra nenhuma, todas as minhas escolhas pareciam me levar para longe de onde eu devia estar. Para longe do lugar correto. Todos os caminhos, uma vez que eu os pisava, transformavam-se em desvios."

«Escravas do poder» de Lydia Cacho :: Opinião

Roda Dos Livros, 15.12.15

A dura e incómoda realidade de tantas meninas e mulheres presas nas teias do tráfico sexual, um flagelo à escala mundial, proporcionado por uma máquina hedionda e gigantesca que gera milhões à custa da miséria e das dificuldades em que muitas destas mulheres são apanhadas e para as quais há uma promessa de salvação, um futuro melhor. Pior é lermos sobre as que mesmo sabendo ao que vão não têm outra escolha, o mundo que as rodeia não lhes apresenta nenhuma solução melhor.

"(...) sob o sol asiático, não sou uma jornalista nem uma activista dos direitos humanos, apenas uma mulher que caminha pelo mundo através das rotas do mal, à procura de alguém que tenha o segredo, porventura quimérico, de como salvar a humanidade da sua própria crueldade."
Lydia Cacho põe a descoberto realidades muito revoltantes, fazendo-nos sentir privilegiadas, demonstrando que este é um crime transversal a muitas nações do mundo, desde o seu violento México ao colosso que é a Turquia, às tríades e à máfia na China e no Japão, mas que também países como o Reino Unido, a Rússia, a Malásia, a Tailândia ou o Cambodja... entre tantos outros, potenciam e favorecem o crime.
O tráfico sexual cria, para as mulheres que subjuga, um ambiente em que controla, humilha, castra e mina todas as possibilidades destas mulheres que até depois de saírem da teia, não são capazes de avançar com a sua vida. Daí a importância de instituições como a de Cacho, que demonstra o quanto estas pessoas necessitam de apoio para se dignificarem, encorajarem e tentarem superar o que anos de escravidão lhes provocou.
As denuncias de Cacho são ainda mais vasta que a geografia do problemas, ela não poupa homens ou mulheres, famílias, filhos, militares e polícia ou até grandes nomes da política ou dos quartéis de droga, sem esquecer a cultura e a religião. O problema só ganhou as dimensões que tem devido à acção de pessoas em todos os espectros da sociedade. O clima de medo, violência e fanatismo é tal ordem que também isso é um factor de recuo na denuncia e no apoio a situações de prostituição.
"Muitos líderes de opinião simplistas e radicais consideram que qualquer pessoa que se atreva a questionar os malefícios da pornografia, da prostituição e do clientelismo do comércio sexual é retrógrada, ignorante, conservadora, beata, frígida, lésbica ou homossexual. (...) Não pude fazer nada sobre o facto a não ser guardar o papelito como recordação do seu atrevimento de desafiar os patriarcas a quem Gabriel Garcia Márquez chamava os «alegres velhos putanheiros»."
Os casos aqui relatados, as infâncias destruídas, os úteros sacrificados, as mentes danificadas e as mulheres fragmentadas e desumanizadas... são relatas com paixão e dedicação. Lydia Cacho dedica vida e carreira a expor ao mundo, a denunciar e a levar a palavra de muitas destas mulheres a inúmeras sessões de consciencialização para esta problemática.

Podem ouvir algumas nestes vídeos:- Los Demonios del Edén: La Cruzada de Lydia Cacho- Festival of Dangerous Ideas: Lydia Cacho - Slavery is Big Business- En Conversación: Lydia Cacho con Lucía Martínez Odriozola

"A Coisa Terrível Que Aconteceu a Barnaby Brocket", de John Boyne :: Opinião

Roda Dos Livros, 14.12.15

Flutuar é a terrível coisa que os outros julgam acontecer a Barnaby, mas quem se apaixonar por esta história encará terrível é a normalidade disfuncional desejada por muitos.

A normalidade é encarada como a maior virtude para a família Brocket, mas aquando do nascimento de Barnaby nada mais foi como dantes!

Barnaby flutuava e isso era um atentado contra a normalidade exigida para ser ser um Brocket.
John Boyne, autor de "O Rapaz do Pijama às Riscas", traz nesta história de Barnaby Brocket uma chamada de atenção sobre a diferença, o abandono, a descriminalização e o desrespeito, dentro da própria família, mas também toda a capacidade de reinvenção e magia que a diferença podem trazer a uma criança.
Se o leitor quiser dar a volta ao mundo, dormir um colchão no tecto e flutuar, precisa de ler este relato de doce devaneio.
"A Coisa Terrível Que Aconteceu a Barnaby Brocket", de John Boyne
com ilustrações de Olivr Jeffers e tradução de Irene Guimarães

Pág. 1/2