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Roda Dos Livros

O Caçador do Verão, de Hugo Gonçalves

Roda Dos Livros, 25.11.15

caçador de verão

É tão bom sentir-me em casa nas páginas de um livro. O meu Algarve, a minha serra, o meu concelho… as estevas, o medronho, as curvas da serra e o cheiro do mar*. Hugo Gonçalves fez-me voltar à infância em que ouvia contar a história dos irmão assassinos que comigo e com o político partilhavam o sobrenome. Tantas vezes ouvi falar daquela fuga da prisão... E assim, com laivos de verdade feita ficção, vi-me transportada para a minha própria infância, para os meus próprios dramas, que me moldaram, obrigaram a crescer e me fizeram aquilo que sou hoje.

Não é imediata a cumplicidade com o protagonista deste romance, José, mas às tantas começamos (nós e ele, acho) a compreender melhor o que o motiva, o que o faz ser a pessoa que é.

O percurso de José (e a sua relação com a família) dá o mote para esta história, para um regresso a um Verão marcante, em que um miúdo é abandonado pela mãe, no meio da serra, ao cuidado de uma avó que mal conhece. Um Verão cheio de aventuras, de perguntas e de respostas (nem sempre as que mais gostaríamos), de saltos para o desconhecido e para o mar e de esperança...

Acabou por ser a escrita (rápida) e o facto de me ter identificado tanto com o local e a infância de José que me cativou. Inicialmente não fiquei agarrada à história, nada me impediria de fechar o livro e continuar na minha vida. E no fim, quando tudo fez sentido, fiquei com pena de não ter sido mais espicaçada, de não ter sido obrigada a refletir nas escolhas e nas razões de José e do Avô. Ficou, na minha opinião, o mais interessante por explorar...

Mas ainda assim muito dá que pensar neste livro. O amor está no centro da vida. Mas como escolhemos quem amar? Como amamos os que temos obrigação de amar ou como deixamos de amar quem não nos merece? O que fazemos por amor? Como podemos deixar de fazer o que nos pede quem amamos?

Fiquei com vontade de ler mais deste escritor.

 

* quase perdoo ao escritor/editor/revisor ter deixado passar um “foi encontrado em Fonte Santa” em vez de “na Fonte Santa”. Tal como nenhum Algarvio diz “na Quarteira” (em vez de Em Quarteira), nenhum diz “em Fonte Santa”. Só me apetece revirar os olhos cada vez que ouço isto...

Pura Coincidência - Renée Knight

Roda Dos Livros, 22.11.15

81e30-pura2bcoincidencia-capaO que dizer de um livro quando este é tão bom que nos deixa sem palavras? O que escrever quando nos faz sentir muito mais do que esperávamos e ficamos sem saber por onde começar sem revelar demasiado?

"Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência" é a frase final deste romance que me atingiu como uma bofetada depois de perceber onde este bem conseguido thriller psicológico me levou com as diferentes graduações e palpitações do sentir das personagens, que à vez vão tendo voz desde que aquele maldito livro surgiu nas suas vidas. Diferentes perspectivas com diferentes ângulos sobre factos que os protagonistas não podem ou optam por não revelar. Fotos são os resquícios que sobraram e deram origem a um livro ficcionado.

Catherine é uma mulher bem sucedida e com uma vida familiar estável até que "O Perfeito Desconhecido" surge na sua vida e a obriga a recuar vinte anos atrás e a procurar quem a persegue com aquele segredo vergonhoso. Neste processo, como leitores bem informados, vamos entrando na cabeça e conhecendo as motivações do coautor e promotor do livro, bem como na da vitima, num crescendo de ansiedade.

E neste enredo, de capítulos pequenos, frases curtas e palavras de acção encontrei uma leitura inquietante mas imparável que dá que pensar sobre o quanto nos podemos equivocar, não ver ou falar, por ... ciume, culpa, temor, vergonha e amor.

Sinopse: 

E se de repente se apercebesse de que é o protagonista do aterrador romance que está a ler? Catherine tem uma boa vida: goza de grande sucesso na profissão, é casada e tem um filho. Certa noite, encontra na sua mesa-de-cabeceira um livro de título O perfeito desconhecido.

Não sabe como terá ido parar ao seu quarto ou quem o terá ali posto. Ainda assim, começa a lê-lo e rapidamente fica agarrada à história de suspense. Até que, depois de ler várias páginas, chega a uma conclusão aterradora: NÃO É FICÇÃO. O perfeito desconhecido recria vividamente, sem esquecer o mais ínfimo detalhe, o fatídico dia em que Catherine ficou prisioneira de um segredo terrível. Um segredo que só mais uma pessoa conhecia. E essa pessoa está morta.

De Amor e Sangue de Lesley Pearse

Roda Dos Livros, 22.11.15

Há quem escreva muito bem. Umas vezes com uma escrita bonita e fluida, outras, mais intricada chegando ao ponto de não ser entendida por todos os leitores. Umas atraem, outras enfadam. Ambas bem escritas mas diferentes.

Considero que Lesley Pearse escreve bem. Que faz parte do primeiro grupo de autores que mencionei. A história, sempre bem contextualizada, apaixona o leitor e leva-o para muitas viagens, para caminhos e mundos desconhecidos. Adoro quando isso me acontece! As muitas páginas (662) parecem poucas porque são lidas rapidamente e os lugares são-nos reais, os odores infiltram-se no nariz, o barulho torna-se audível. Ja não estamos "aqui" mas vamos para "lá"!

Se ficasse por aqui, já esta leitura teria valido a pena. E muito. Mas há mais. Quando corre uma lágrima, sorrateira e inesperada, dos meus olhos então sei que a escrita tocou o meu coração. Se isso faz diferença? Faz TODA a diferença! Faz querer pegar nos livros dela que cá tenho na estante e devorá-los de imediato. Sim, porque se trata de devorar uma leitura, aquilo que estou a falar. E isso sabe tão, mas tão, bem!

A história? Vão ter de ler mesmo. Porque não a saberia reproduzir em poucas palavras e também não quero contar-vos praticamente nada. O local? Inglaterra, ano 1832 e seguintes.

E se querem um conselho não leiam a sinopse. Deixem-se levar, peguem no livro e leiam. Vai valer a pena!

Sinopse

Somerset, 1836.

A recém-nascida Hope é a prova viva do adultério da mãe, a aristocrata Lady Harvey. A sua chegada a este mundo não é festejada e as lágrimas em seu redor não são de alegria. Imediatamente arrancada àquele meio privilegiado e entregue nas mãos dos Renton, uma família pobre mas acolhedora, Hope cresce sem saber a verdade sobre as suas origens. E quando chega o dia em que também ela tem de começar a contribuir para o sustento da família, é precisamente para os Harvey que trabalha. Deslumbrada perante a mansão luxuosa, a elegância dos seus patrões e a beleza que os rodeia, Hope enfrenta com brio e gratidão a extenuante rotina de trabalho.

Mas a descoberta de uma ligação proibida vai lançá-la sozinha para as ruas, para uma vida de miséria e solidão. É na adversidade, porém, que descobre uma força interior que desconhecia, bem como um talento para ajudar os mais fracos. Trata-se de um dom que não passa despercebido ao Dr. Bennett, que a leva consigo para a Crimeia, para ajudar a tratar dos feridos vindos dos sangrentos campos de batalha. Mas os segredos do passado teimam em vir ao de cima, e Hope tem ainda um longo caminho a percorrer na tentativa de enfrentar o legado do seu nascimento.

 

Descobri que Estava Morto - J. P. Cuenca

Roda Dos Livros, 21.11.15

descobriqueestavamortoCuenca descobre que está morto. Ou melhor, há um morto que tem o nome dele. É ou não uma premissa espectacular para um livro? É. E Cuenca escreve o livro. Escreve sobre alguém que descobriu que está morto, coisa que por acaso lhe aconteceu.

Não sei em relação a vocês, mas eu comecei logo a imaginar aquelas reportagens dramáticas de pessoas que perdem o cartão do cidadão, e a sua identidade perdida vai por aí comprando casas e carros, e deixando os lesados de cabelos em pé.

Mas não. Aqui não há dramas desses. Ele só descobre que está morto. Há documentos que o provam. Eu só não percebi que tipo de morto é ele. Se está morto por estar burocraticamente morto, ou porque a vida de excessos é tão cansativa e ele já está mais morto que vivo.

Bom, seja como for, eu esperava muito mais deste livro. O autor escreve que é uma maravilha, é uma delícia passar os olhos por estas linhas de realidade cruel bem observada e trabalhada, e foi isso mesmo que me fez ler o livro. E depois vem o que me deixou lixada. Um gajo que escreve que é um mimo e tem um tema soberbo, escreve um livro que não me chegou a aquecer.

As descrições são boas, o sentido de humor está lá (e bem medido), mas chego ao fim sentindo que tudo não passou de uma crónica. Uma crónica impecável, é certo, mas uma crónica. Para crónica a coisa tem páginas a mais.

Ou então fui eu que não percebi. Também pode ser isso.

Seja como for quero ler mais coisas do autor. Com este nível de escrita acho que é de insistir.

Sinopse

“Descobri que Estava Morto é um romance sobre a morte, «real», do autor. Ou melhor, sobre a famosa questão da "morte do autor" no sentido real e no literário.A ação passa-se num atualíssimo Rio de Janeiro pré-olimpíadas 2016; onde a «expulsão» e a «pacificação» dos favelados e outros excluídos da sociedade carioca «deixa permanecer» uma corrupta e endinheirada classe média e alta que tanto sai beneficiada como se «perde» na turbulência da cidade.”

Caminho, 2015

O JOGO DE RIPPER – ISABEL ALLENDE

Roda Dos Livros, 17.11.15

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Amigo! Há tanto tempo que não te via!

É isto. Voltar a ler Isabel Allende é como reencontrar um velho amigo com quem não falamos há séculos depois começamos a conversar e parece que foi ontem.

Leio Isabel Allende parece-me desde sempre, li os contos, as histórias grandes, a trilogia para adolescentes (ou young adult como se diz agora com siga YA e tudo, super moderno) as memórias, os históricos e também as receitas afrodisíacas. É um autor que compro sem sequer ler a sinopse porque sei que vou gostar. Este nem sequer foi comprado, porque foi uma prenda, (obrigada Pat!) é ainda melhor.

É diferente de todos os outros livros dela, é um género de policial em que os investigadores são adolescentes, vivem em várias partes do mundo e jogam Ripper, um jogo de mistério online onde Amanda, a protagonista, é a mestre do jogo. Gostei muito da cumplicidade entre Amanda e o avô, que também participa no Ripper como Kabel o esbirro, é giro.

E depois esta mulher fala de tudo, não só de mutilação genital feminina (sim ainda é um assunto, continua a acontecer no séc. XXI, ainda é um assunto), gravidez na adolescência, guerra e stress pós-traumático, lutas de cães, trabalho imigrante clandestino, anorexia mas também de romances policiais de autores escandinavos mencionando a trilogia Millenium, refere a série Crepúsculo, e ainda consegue encaixar o marido, William C. Gordon, como escritor de livros policiais e pai do personagem detective privado. Tudo em bom.

Reconheço esta história como de Isabel Allende pela descrição das pessoas, dos lugares e pela personalidade dos animais, Salve-o-atum o gato e Atila o cão.

Se é o melhor policial de todos os tempos? Não, também não é o melhor livro de Isabel Allende (pelo menos para mim) mas é bom e vale a pena, se não mo tivesse oferecido ia comprá-lo na mesma.

Só tenho a apontar que achei esta edição um bocado pobre tem 2 ou 3 erros ortográficos e não tem as páginas guarda brancas no início e no fim do livro.

Mais um bocado e os agradecimentos estavam escritos na capa, forretas.

Roda dos Livros com Maria Manuel Viana

Roda Dos Livros, 15.11.15

DSC03129O melhor da Roda dos Livros é ter amigos com quem falar de livros. Os nossos encontros são únicos e a discussão nem sempre é pacífica, pois temos, muitas vezes, opiniões e perspectivas diferentes sobre o mesmo livro.

Somos leitores diferentes. Mas quando há um livro que reúne consenso na maioria, sabemos que queremos conhecer melhor o seu autor(a). Foi o que aconteceu com A Teoria dos Limites.

A Maria Manuel Viana veio passar uma tarde connosco para uma conversa inesquecível sobre livros. Os seus, na sua perspectiva, partilhando detalhes do processo criativo. Os dos outros, os seus preferidos e inspiradores. E mais algumas coisas… que ficam na Roda e nas nossas memórias.

Somos uns grandes sortudos e agradecemos muito à Maria Manuel pela disponibilidade. Ficámos a saber mais sobre a escritora e descobrimos uma grande leitora.

Livros de Maria Manuel Viana:

  • A Paixão de Ana B (Alma Azul, 2002)
  • A Dupla Vida de M.ª João (Editorial Teorema, 2006)
  • Damas, Ases e Valetes (com Ana Benavente) (Editorial Teorema, 2007)
  • O Verão de todos os silêncios (Planeta, 2011)
  • Teoria dos limites (Teodolito, 2014)
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Pequenas Grandes Mentiras - Liane Moriarty

Roda Dos Livros, 15.11.15

Pequenas Grandes MentirasBRUTAL!

A palavra que me ocorre imediatamente após terminar a leitura. A historia continua a "martelar-me" no cérebro com tantos significativos episódios e muitos detalhes banais e plausíveis, que nos passam despercebidos no quotidiano, mas que a autora recolheu para criar um enredo forte pela credibilidade dos acontecimentos e das personagens, que tomamos como nossas amigas e conhecidas nas suas peculiaridades e angustias (algumas podemos reconhecer como nossas, identificando-nos com as personagens).

"Isto pode acontecer a qualquer pessoa."

Pois pode e acontece!

As historias não são tão a preto e branco como as letras impressas nas paginas de um livro e as vitimas de actos cruéis, sádicos e egoístas não se parecem de todo com a imagem que esperaríamos que tivessem. Protegem-se com pequenas grandes mentiras e reagem como se a vida fosse perfeita até que tudo desabe. Acasos e equívocos num desfecho desejável onde a amizade prevalece. Diversão e inquietação bem distribuídas.

Quando leio uma historia assim, fico sempre a pensar na extraordinária capacidade de transpor em palavras um enredo que se formou na mente criativa de quem a concebeu. E mais, não escrevo porque não tenho esse dom.

Sinopse:

A vila costeira de Pirriwee é um bom lugar para viver. As ruas são seguras, as casas são elegantes, e os seus habitantes distintos. Bom… quase todos…
Madeline é tudo menos perfeita. Para começar, recusa-se a viver para as aparências e não se coíbe de dar a sua opinião (principalmente quando não é pedida). O seu lema "Nunca perdoar. Nunca esquecer." vai ser inesperadamente testado ao limite.
Celeste tem o tipo de beleza que leva as pessoas a parar na rua. 
É tão serena que ninguém repara que por detrás dos seus magníficos olhos se escondem sombras negras. Nem as suas melhores amigas sabem o que se passa quando a noite cai.
Jane acabou de chegar. Ao fim de anos a tentar encontrar um lar, a idílica vila parece ter tudo o que procura… e até já conseguiu fazer duas amigas, cujas vidas perfeitas, espera, venham a ter uma boa influência sobre si. É mãe solteira e tão jovem que, no recreio da escola, a confundem com uma babysitter. Mas a sua inocência há muito que se perdeu. 
Um acidente vai unir estas três mulheres numa amizade aparentemente indestrutível. Pelo menos, até à noite da festa. Na vila, nada mais será como antes. São muitas as versões mas o facto indiscutível é que houve uma morte. Como aconteceu? Quem viu? Acima de tudo, quem morreu?
 

Gente Feliz com Lágrimas - João de Melo

Roda Dos Livros, 15.11.15

gentefelizcomlagrimasHá livros que nos esmagam, com os quais a leitura é uma luta em que nos sentimos perdedores.

O percurso foi longo. Pensei em desistir. Para não encarar a dor.

Mas a grandeza de um livro como este revela-se nas páginas percorridas, na forma marcante como foi ficando em mim.

Fica o prazer da escrita perfeita, que obriga a crescer. O avistar da última página é inesquecível, pela sensação de chegar à meta. E por saber que, como leitora, não serei a mesma.

 

 

Sinopse

“Uma saga que irresistivelmente arrasta o leitor ao longo de cinco mundos, vividos e pensados através da obsessiva busca da felicidade que move os seus protagonistas. Concebida polifonicamente como a descrição dos vários modos de viver a amargura que medeia entre o abandono da terra e o retorno ao domínio do que é familiar, esta peregrinação possível em tempos de escassez de aventura é a definitiva lição de que o regresso se não limita a perfazer o círculo e constitui uma visão fascinante do Portugal que todos, de uma maneira ou de outra, conhecemos.”

D. Quixote, 2000

«Há Sempre Tempo para Mais Nada» de Filipe Homem Fonseca :: Opinião

Roda Dos Livros, 15.11.15

O mundo anda faminto de qualquer coisa que não sabe o que é. Mãos estendidas, estômagos vazios, gente que morre à espera. Há Sempre Tempo Para Mais Nada é uma história de perda colectiva e individual (...) A extinção pessoal de um viúvo...

Assim se apresenta a sinopse deste «Há sempre tempo para mais nada», onde ficamos a mãos com um viúvo fazendo uma extraordinária declaração de amor à mulher que perdeu.

Antes de dispersar pelas frases seguintes, tal como o autor faz nas páginas deste seu segundo romance, precisei de ler mais sobre o autor e gostei deste pequeno resumo do seu percurso e de como podemos contar com futuros romances, já que Homem Fonseca detesta «deixar apodrecer ideias», como se pode ler no artigo «A loucura engana-se com a dispersão» no Sol.

*

"Sobreviva o indivíduo, a espécie logo se vê, evoluir é encontrar a solidão da sobrevivência."

É essa solidão que conseguimos aqui acompanhar e sentir o luto, o vazio, o desespero e o amor que ainda existe no peito, na cabeça e na tal mão estendida com que este viúvo caminha entre Lisboa e outro canto do mundo.

É de mão estendida que o viúvo e o leitor chegam ao fim, sem dó nem piedade, antes pelo contrário. Se inicialmente parece estarmos perante uma louca e bela declaração de amor, dona ainda de bastante lucidez, todas essas esperanças morrem ao longo da narrativa e não há lugar à redenção. A perda é continua e não há extinção para a dor que o embala e que o afunda. A morte da mulher é inexplicável e tem o poder de lhe usurpar todas os pensamentos.

"Até então, só me comovia a morte. Não a tua, a tua existiu para além de toda a razão e sentimento, sei que nesse dia o meu juízo viu quebrado o selo. A única morte que me comovia era a dos livros, os mortos daquelas páginas, sepultados para sempre entre a mesma capa e contracapa que lhes encerra a vida toda, do primeiro choro ao último suspiro (...)"

A escrita e o estilo narrativo do autor são viciantes, o encadeamento das ideias, mesmo que aparentemente dispersas, mistura a perda individual com a perda colectiva, numa análise muito lúcida do que o envolve, abordando a actualidade, mas sem que para isso o texto se torne banal, antes pelo contrário, é o contexto político e social que dão a perceber ao leitor que o viúvo não está totalmente perdido, no entanto não existe espaço para ilusões ou paternalismos. O desassossego é evidente e a preocupação sente-se com cada critica social e respectivo tom cáustico que a revela, no entanto, tem todo o lado belo e terno de palavras carregadas de amor e saudade por alguém que partiu antes do tempo... não consegui desprender-me da ideia de este livro ser uma declaração de amor, uma carta de despedida... as palavras que não foram ditas por imposição do tempo.

"(...)A perda é que muda tudo. Quando se perde tudo há outra coisa que nasce para ocupar o vazio."

«Vai e põe uma sentinela» de Harper Lee :: Opinião

Roda Dos Livros, 14.11.15

Todo o emblemático sentimento em relação à leitura do anterior, mas efectivamente posterior «Mataram a Cotovia» não me influenciou totalmente para a leitura deste «Vai e põe uma sentinela», por um lado, por ainda não o ter lido, mas por outro influenciou, devido ao quanto já li sobre o enredo, os seus personagens e a força da história. Perante a leitura deste, esperava um enredo, um mistério (devido aos segredos) muito maior e até muito mais envolvente para o leitor, deixou-me na mesma com muita curiosidade pelo primeiro, para saber essencialmente mais sobre a história e a infância e de Scout e também pelos personagens que são o pai e o tio e o lado mais forte de como a educaram.
Polémicas à parte, entre este e o livro anterior ou o quanto um influencia o outro ou até ao próprio leitor, a prosa de Harper Lee é bastante bem conseguida e flui com considerável leveza mesmo quando toca em aspectos como Política, História e Religião, aliás ganha ainda mais velocidade e impacto quando aborda tais assuntos e revela aspectos que caracterizam as personagem, a família e a cidade onde se inserem e uma contextualização da sociedade sulista da década de cinquenta. Está cá tudo. Os resquícios que ainda se sentem dos tempos de escravatura, a segregação e a discriminação, o impacto das políticas mais humanistas e a opinião e tradição vinda da igreja nas suas diversas formas... mas também estão as diferenças e as quezílias entre famílias e o peso de um sobrenome, bem como o papel que é esperado da mulher e a sua respectiva educação. Tudo ainda muito tacanho e tradicionalista, em confronto com as vivências de Jean Louise em Nova Iorque, ainda assim, sente-se o saudosismo aquando da sua volta a estas terras.
«Vai em põe uma sentinela» é um retrato da sociedade da época pelos olhos de uma menina-mulher, que tal como a imagem inicial, a de alguém que se aproxima de comboio, se vai desenvolvendo e analisando a acção, nesse analogia de chegar mais perto das coisas. Há, primeiramente, uma análise como um todo, menos detalhada e mais ao sabor da nostalgia das memórias, para depois, passo a passo, se ir aproximando e vendo com maior relevância as alterações que os anos foram trazendo, tanto a Maycomb, como à família e a si própria.
"A ilha de cada um de nós, Jean Louise, a sentinela de cada um é a sua consciência. A consciência colectiva, tal coisa não existe."
É em conversa com o tio, Dr. Finch que esta consideração surge e faz a ponte com outras "tomadas de consciência" ao longo da história. No entanto, fico na dúvida se esta ideia da consciência, bem como da própria analogia com a sentinela e o seu sentido, não irão ligar e beber na outra perspectiva da história em «Mataram a Cotovia»!?
Para além  desta, o livro levanta outras questões, desde morais a políticas e a ideologias que pedem ligação à história da Guerra de Secessão. Já para não falar do próprio lado de tradição e educação familiar e social da época, se bem que a temática das questões raciais está, constantemente, na ordem do dia, mas não sei se este livro se torna assim tão essencial ao entendimento do nosso mundo actual.
Fiquei com curiosidade de ir perceber mais sobre Scout e a sua personalidade intempestiva, mas doce, meio revoltosa para a época, mas inocente e claro a sua adoração pelo pai, que se continua a sentir neste livro. Aliás o fim deixa isso bem claro. A idade adulta traz-nos escolhas e entendimentos que quando toldados pelas ilusões de criança não compreendemos. A ideia de podermos estar nos sítios errados, ou que parecem errados, para poder fazer escolhas mais acertadas, nem sempre é fácil de aceitar.
A impulsividade de Scout chega a ser por vezes contestada, mas isso faz com que a história ganhe algum mistério como se estivessem segredos obscuros na calha... a pedirem para serem descobertos.
Creio que o livro tem um enredo circular e fechado nele mesmo, nele e no outro, provavelmente. Do início só não gostei tanto de um certo controlo das emoções, de um lado mais lamechas, quase como uma história banal de mais uma citadina que volta irreverente à terra natal, mas talvez até isso, seja propositado na escrita de Harper Lee e sirva também para caracterizar a maria rapaz que ainda resiste em Scout.
Durante a leitura recordei bastante dois filmes, As Serviçais e Selma. Será que podemos contar com uma adaptação cinematográfica deste livro? Ou quem sabe de ambos.

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