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Roda Dos Livros

A Roda também Roda com guião

Roda Dos Livros, 31.10.15

As reuniões da Roda dos Livros são sempre imprevisíveis. A Roda tem-se alimentado (também) desta imprevisibilidade. A discussão surge dos livros que nos apetece ler e opinar. Cada um de nós, quando vai para um encontro, não sabe que livros estarão em cima da mesa. Excepto, claro, daqueles que cada um leva. Sim, somos indisciplinados, como já nos chamaram, e estamos confortáveis assim, nas nossas sessões sem planos nem regras, mas em que todos participam com o que têm a dizer.Agora uma nova viagem. Para experimentar algo completamente diferente, fizemos a primeira Roda dos Livros com guião. A última reunião não seguiu o rumo do “logo se vê”. Não porque queiramos começar a ser atinadinhos, mas porque queremos experimentar coisas diferentes. E sabem que mais? Adorámos! Adorámos toda a espécie de discussão aleatória a que o guião nos levou.Partilhamos o vídeo que nos inspirou. A TAG Especial Aniversário do canal InesBooks.https://www.youtube.com/watch?v=G6N8eOaBHG0Fizemos o trabalho de casa e partilhámos as nossas listas em grupo. As nossas respostas deram azo a horas de conversa. Foi uma espécie de test-drive. Para a próxima Roda a Roda completa!DSC02578DSC02608DSC02591DSC02569DSC02572DSC02565              

E agora as nossas respostas:1) Vox Populi (um livro para recomendar a toda a gente)Márcia – Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho;Cris – Como um Romance, de Daniel Pennac;Patrícia – Meia-noite ou o Princípio do Mundo, de Richard Zimler;Renata – A Avó Dezanove e o Segredo do Soviético, de Ondjaki;Sara – O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa;2) Maldito plágio (um livro que gostávamos de ter escrito)Márcia – Os meus sentimentos, de Dulce Maria Cardoso;Cris – O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe;Patrícia – A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe;Renata – A Saga Harry Potter;Sara – Crime e Castigo – Fiódor Dostoiévski3) Não vale a pena abater árvores por causa distoMárcia – Longe da Terra, de Rebecca Makkai;Cris – Jeff em Veneza, Morte em Varanasi, de Geohh Dyek;Patrícia – O Remorso de Baltazar Serapião, de Valter Hugo Mãe;Renata – O Último Europeu, de Miguel Real;Sara – Coração de Mãe nunca se Engana, de Maria Inês Almeida;4) Não és tu, sou eu (um livro bom lido na altura errada)Márcia – Liberdade, de Jonathan Franzen;Cris – A Jangada de Pedra, de José Saramago;Patrícia – Enquanto Salazar Dormia, de Domingos Amaral;Renata – Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo; Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa;Sara – Fome, de Knut Hamun;5) Eu tentei... (um livro que tentámos ler mas não conseguimos)Márcia – O Fabuloso Detino de Ragoberto Babilónio, de Romana Petri;Cris – A Viajem de Théo, de Catherine Clément;Patrícia – Arquipélago da Insónia, de António Lobo Antunes;Renata – A Montanha Mágica, de Thomas Mann;Sara – A Ratazana, de Gunter Grass;6) Hã? (um livro que lemos e não percebemos nada OU um livro que teve um final surpreendente)Márcia – Para onde vão os Guarda-Chuvas, de Afonso Cruz (final surpreendente);Cris – Filho de Jesus, de Denis Johnson (não percebeu nada);Patrícia – Para onde vão os Guarda-Chuvas, de Afonso Cruz (final surpreendente);Renata – Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares (não percebeu tudo);Sara – Fahrenheit 451, de Ray Bradbury;7) É tão bom, não foi? (um livro que devorámos)Márcia – O Último Acto em Lisboa, de Robert Wilson;Cris – Sempre Vivemos no Castelo, de Shirley Jackson;Patrícia – Retorno, de Dulce Maria Cardoso;Renata – O que não pode ser salvo, de Pedro Vieira;Sara – Histórias para uma noite de calmaria, de Tonino Guerra;8) Entre livros e tachos (uma personagem que gostaríamos que cozinhasse para nós)Márcia – Dom Rigoberto, vários livros de Mario Vargas Llosa;Cris – Mateu, em A Mulher-Casa, de Tânia Ganho;Patrícia – André Marques-Smith, em Trilogia Freelancer, de Nuno Nepomuceno;Renata – A mãe da George, dos Cinco;Sara – A governata de Como Água para Chocolate, de Laura Esquível;9) Fast Forward (um livro que podia ter menos páginas que não se perdia nada)Márcia – Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo;Cris – Sob os Telhados de Paris, de Henry Miller;Patrícia – As Primeiras Coisas, de Bruno Vieira Amaral;Renata – The Hero of Ages, de Brandon Saderson;Sara – Liberdade, de Jonathan Franzen;10) Às cegas (um livro que escolheríamos só por causa do título)Márcia – Se eu Fosse Chão, de Nuno Camarneiro;Cris – A Prisão, de Jesús Zárate;Patrícia – Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares;Renata – Uma História de Amor e Trevas, de Amos Oz;Sara – O Livro do Silêncio, de Sarah Maitland;11) O que conta é o interior (um livro bom com uma capa feia)Márcia – Salto Mortal, de Marion Zimmer Bradley;Cris – O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde;Patrícia – Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo;Renata – Todos os Dias são Meus, de Ana SaragoçaSara – A Religiosa, de Diderot;12) Rir é o melhor remédio (um livro que nos tenha feito rir)Márcia – Os Demónios de Álvaro Cobra, de Carlos Campaniço;Cris – O Grito da Preguiça, de Sam Savage;Patrícia – Todos os Dias são Meus, de Ana Saragoça;Renata – A Instalação do Medo, de Rui Zink:13) Tragam-me os Kleenex, se faz favor (um livro que nos tenha feito chorar)Márcia – Morreste-me, de José Luís Peixoto;Cris – Stoner, de John Williams;Patrícia – A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe;Renata – A Culpa é das Estrelas, de John Green;Sara – Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho;14) Este livro tem um v de volta (um livro que não emprestaríamos a ninguém)Márcia – Empresto todos. Mas não a toda a gente;Cris – Theras e a sua cidade, de Caroline Dale Shedeker; Siddhartha, de Herman Hesse;Patrícia – Equador Ilustrado, de Miguel Sousa Tavares;Renata – Empresto, desde que à pessoa certa;Sara – Uma Casa Chamada Terra e um Rio Chamado Tempo, de Mia Couto:15) Espera aí que eu já te atendo (um livro ou autor que estamos constantemente a adiar)Márcia – Uma História de Amor e Trevas, de Amos Oz;Cris – A Sagração da Primavera, de Alejo Carpenter;Patrícia – O Pranto de Lúcifer, de Rosa Lobato de Faria;Renata – O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares;Sara – A obra de Flannery O’Connor;

Flores, de Afonso Cruz

Roda Dos Livros, 28.10.15

flores
O que farias para salvar o teu livro preferido? A que sabem os vossos beijos? Consegues imaginar um futuro de silêncio? Nós temos um cravo como símbolo da liberdade e da revolução, mas poderá uma simples flor criar uma tal onda que provoque uma revolução?
Esta é a história de um homem que perdeu o passado e o futuro. E é também a história de outro homem que perdeu o presente, que se perdeu no seu presente, e que acaba a tentar encontrar o passado do primeiro homem ajudando-se mais a si que ao outro. Ou é talvez a história de uma menina que por amor incondicional a um amigo improvável acaba por aprender a perdoar. Ou a história de uma mulher que com uma flor mudou, sem saber e durante algum tempo, o rumo de gentes. Ou a nossa história no mundo, um grito de alerta, uma chamada de atenção para que vejamos a paisagem, para que não percamos a cena completa por estarmos muito próximos das coisas*.
Com uma critica social e política tenebrosamente certeira, com histórias dentro de histórias (ou talvez ao redor das histórias, nem sei) Afonso Cruz conseguiu fazer-me rir e (quase) chorar.
É o terceiro livro de Afonso Cruz que leio e sei como toda a gente adora o "Guarda-Chuvas" mas este Flores é o meu livro de AC. Apanhou-me de surpresa, enganou-me, enredou-me e encantou-me. Sou um bocadinho egoísta em relação aos livros: digo muitas vezes que me importa mais o que eu sinto e percebo de um livro do que aquilo que o escritor realmente quis transmitir. E aqui, com este Flores, isso não podia ser mais verdade. Até posso não ter percebido o que o escritor quis transmitir mas o que recebi foi tanto que isso chega. Por isso não tenho dúvidas que este vai ser o meu livro do ano. E que o vou reler muitas vezes (apetece-me começar a lê-lo outra vez). E depois do final dos Guarda-Chuvas, fiz finalmente as pazes com o Afonso Cruz.
* Frase roubada e adaptada duma certa página deste livro...

Arranha-Céus - J. G. Ballard

Roda Dos Livros, 26.10.15

Capa Arranha-CéusPrimeiro é o toque. Suave, diferente e agradável. A capa ajusta-se e delicia as mãos. Surge a vontade de pegar no livro só para sentir o fantástico acabamento. Arranha-Céus é o primeiro livro que leio da chancela Elsinore, e falando apenas do aspecto físico do objecto-livro, tenho de me assumir como uma fútil apreciadora do trabalho desenvolvido pela editora. Sim, eu sei que o que interessa é o conteúdo, mas poder aliar o prazer da leitura ao prazer de segurar um livro tão bem acabado que não apetece largar, permite um grande avanço nas páginas lidas. E não é disso que gostamos? De ler livros ávida e rapidamente para, obviamente, poder ler mais livros a seguir?

Tenho de destacar também as páginas de abertura e fecho, elegantes, a negro. No início lê-se “You are Welcome to Elsinore, de Mário Cesariny. No final as notas de apresentação das tradutoras e do ilustrador. Gostei muito deste destaque final pois apesar do trabalho do tradutor ser fundamental é, na maioria das vezes, esquecido, quase fantasmagórico. Numa época em que a grande maioria das capas dos livros são “pescadas” em bancos de imagem, é um luxo que esta edição de “Arranha-Céus” tenha uma capa original.

Mas se dizem que o Diabo mora nos detalhes, e eu concordo, aqui o Diabo fez o favor de fazer acompanhar os detalhes de elegância e bom gosto que descrevi, com um conteúdo absolutamente diabólico. Desculpem o excesso de referências infernais, mas adequam-se perfeitamente, em ambas as circunstâncias, tanto nos diabólicos pormenores requintados, como na descida ao inferno que é ler este livro.

Horrível e incrível. Duas palavras recorrentes durante a leitura. Não pude evitar a sensação constante de me estar a escapar algo, de não estar a perceber os motivos dos acontecimentos dentro desta construção excessiva e cheia de excessos. Comecei por verificar que os habitantes do Arranha-Céus, e são muitos num prédio de quarenta pisos e mil apartamentos, não diferiam muito da vizinhança de qualquer prédio, com manias e hábitos capazes de mexer com a paz dos outros. Há essa semelhança, independentemente de, no caso deste livro, a vizinhança ser composta, unicamente, de pessoas ricas em que, pelo menos, um elemento de cada agregado tem uma actividade profissional considerada de topo. E aqui surge a primeira conclusão óbvia, ricos ou pobres, os vizinhos têm a capacidade de nos dar cabo dos nervos, e mesmo num prédio de luxo como este, o teor das discussões não difere muito do que podemos ter lá no nosso prédio.

Mas a certa altura, bastante cedo na narrativa por sinal, percebi que o desfecho das relações desta vizinhança iria muito além do ocasional bate-boca por causa do estacionamento ou do cocó do cão. Estas personagens são possuídas por uma necessidade de luta e destruição que, eu confesso mais uma vez, tive dificuldade em perceber de onde vinha. É referida muitas vezes a força e influência exercida pelo prédio, como se a própria construção tivesse um poder de mobilizar os seus elementos numa luta sem regras nem limites pelo poder de atingir o topo. O topo tem um sentido físico, é efectivamente o topo do edifício, mas eu não pude deixar de lhe atribuir um significado de força e poder. Mesmo dentro desta população abastada, distinguem-se os mais ricos pela localização superior. Mais poder significa um apartamento mais alto e, consequentemente, menor abastança significa viver mais abaixo.

A população isola-se. Descarta as necessidades básicas, como comer, dormir, tomar banho, abandona a privacidade e luta, trava uma guerra que só existe na estrutura do arranha-céus, é criada e cultivada internamente, e assume contornos de uma guerra mundial, pois para estes guerreiros o mundo existe até aos limites das paredes e dos tectos. E é uma guerra pela liberdade, não como a poderemos imaginar à partida, mas uma liberdade de tudo o que tiveram. É um soltar de amarras do convencional caindo na decadência furiosa de não ter limites. Uma guerra pelo que consideram a normalidade. Primeiro estranha-se e depois não se entranha, não encaixa nem se aceita. Lê-se com constante estranheza e incompreensão mas avança-se nesse caminho escuro de horror e nojo. E gosta-se. Eu gostei. E muito. As descrições são reais e avassaladoras, a narrativa tem ritmo, e nem mesmo nos momentos em que apetece voltar a cara ao lado, cedi ao entusiasmo de ler.

Deixo um excerto. Recomendo, claro.

arranha-ceus

Sinopse

“«Mais tarde, sentado na varanda a comer o cão, o Dr. Robert Laing refletiu sobre os estranhos acontecimentos que nos últimos três meses tinham ocorrido no interior do prédio enorme.»Num imponente edifício de quarenta andares, o último grito da arquitetura contemporânea, vive Robert Laing, um bem-sucedido professor de medicina, mais duas mil pessoas. Para desfrutarem desta vida luxuosa, não precisam sequer de sair à rua: ginásio, piscina, supermercado, tudo se encontra à distância de um elevador. Mas alguma coisa estranha borbulha por baixo desta superfície de rotina.Primeiro atacam-se os automóveis na garagem, depois os moradores. Um incidente conduz a outro e, acossados, os vizinhos agrupam-se por pisos. Quando aparecem as primeiras vítimas, a festa mal começou. É então que o realizador de documentários Richard Wilder resolve avançar, de câmara em punho, numa viagem por esta inexplicável orgia de destruição, testemunhando o colapso do que nos torna humanos.Entre a alucinação e a anarquia, a visão nunca ultrapassada de J. G. Ballard oferece-nos um retrato demencial de como a vida moderna nos pode empurrar, não para um estádio mais avançado na evolução, mas para as mais primitivas formas de sociedade.”

Elsinore, 2015

Tradução de Marta Mendonça e Rute Mota

Ilustração da capa de Lorde Mantraste

“A luz é mais antiga que o amor” de Ricardo Menéndez Sálmon

Roda Dos Livros, 25.10.15

  Luzmark-rothko-art “Beleza é o nome de qualquer coisa que não existeQue eu dou às coisas em troca do agrado que me dão”Alberto Caeiro in “O Guardador de Rebanhos”“Mas sublinho que o universo é sobretudo composto de nada, que o algo é uma excepção. O nada é a regra. Essa escuridão é um lugar comum; a luz é que é uma raridade.”Carl Sagan in “As Variedades da Experiência Científica: Uma Visão Pessoal da Procura de Deus” 

Todos os caminhos podem levar uma leitora a um livro. As circunstâncias exactas da primeira vez em que vi uma menção a “A luz é mais antiga que o amor” são, neste momento, imprecisas, nebulosas e encontram-se já para além do alcance da memória consciente. Talvez tenha sido um título sugerido no decurso de alguma pesquisa feita sobre outra obra, não sei. Mas sei bem o que despoletou a minha curiosidade sobre esta: a referência a Mark Rothko na sinopse. Quis ler este livro porque abordava a vida e a obra de um pintor que me fascina. Sei muito pouco sobre pintura e artes plásticas em geral, menos ainda do que sei sobre livros, o que por si só já não é lá grande coisa. E, tal como aconteceu em relação a este romance, descobri Rothko por mero acaso, há alguns anos, através de um documentário passado na televisão. Os quadros deste pintor espantoso causaram-me uma impressão fortíssima, um misto de prazer estético, de experiência de beleza pura talvez, combinada com uma enorme sensação de serenidade. Ainda não tive o prazer de contemplar nenhuma destas telas ao vivo mas a sensação de quase dissolução nos seus padrões de luz e escuridão continua presente mesmo através de um olhar mediado por um écran ou monitor. Assim cheguei a “A luz é mais antiga que o amor” que passou de “um livro que talvez seja interessante” para “prioridade de leitura urgente” após uma conversa com o Mário Rufino do blog Planeta Livro ( http://oplanetalivro.blogspot.pt.) Muito obrigada, Mário!

E depois de todo este arengar inusitado, chato, pretensioso, chamem-lhe o que quiserem mas senti que tinha de começar por aí, posso dizer algo sobre este pequeno e grandioso livro. Os excertos que podem ler abaixo não passam de um pequeníssimo vislumbre da escrita belíssima do seu autor. Sim, tal como uma tela de Rothko, a forma de escrever de Salmón é espantosamente bela, atinge-nos como uma sucessão de ondas de frases magníficas, umas atrás das outras, do princípio ao fim da sua narrativa. Esta vai decorrendo em volta de quatro personagens: três pintores, dos quais apenas um existiu realmente, e um escritor cuja história apresenta algumas semelhanças com aspectos da vida de Ricardo M. Salmón. Através das vivências destes protagonistas, percorre-se um caminho curioso e inteligentemente construído que percebi como um roteiro por uma multiplicidade de aspectos referentes tanto à influência da Arte nas sociedades quanto às pressões exercidas por estas, desde a Idade Média até aos dias de hoje, sobre aquela no sentido de a manipular e controlar, impedindo a livre expressão dos artistas quando esta é percebida como ameaça aos poderes do mundo.

Assim, de Robertis torna-se num alvo da Inquisição ao tentar pintar “a vida tal como ela é”: inesperada e desconcertante. Rothko questiona o direito de acesso das pessoas à contemplação da arte ao recusar-se a completar uma encomenda destinada a ser exibida num restaurante de luxo e, portanto, a ser usufruída apenas por uma certa elite. O terceiro pintor, o soviético Semiasin, desafia Estaline ao passar para a tela as terríveis experiências vividas durante a II Guerra Mundial, nomeadamente na Batalha de Estalinegrado. Se os outros vêem o seu trabalho cerceado pelos autoridades político-religiosas, Rothko, sofre a reprovação do poder económico ao recusar expôr o seu trabalho longe do livre acesso do público. Todos estes personagens se confrontam com a necessidade de usar a arte para agitar consciências, para catalizar mudanças e estimular o pensamento crítico, ameaçando assim o controlo das pessoas que os poderes instituídos teimam em querer exercer. Todos vivem atormentados por uma certa inquietação e pelos seus "demónios" pessoais. Será por isso que são criadores? Por seu lado, Bocanegra, o escritor, discorre sobre o processo criativo da literatura e sobre o impulso inelutável para escrever como modo de entender a realidade e a natureza do homem. Tal como a pintura, a literatura é vista como uma forma de trazer a luz (o sentido) ao mundo sendo as palavras tão luminosas como as cores numa tela, como “lâmpadas”. Assim é a escrita de Salmón neste livro, luminosa e incomensuravelmente bela. Inesquecível.

Excertos:

“Morrer é, na realidade, o único verbo intransitivo: a morte é uma propriedade inenarrável; nos moribundos não se esconde lição alguma. Não há poesia na despedida do centenário de De Robertis; quando muito uma certa forma de dignidade associada ao silêncio, a dignidade de um homem que abandona a vida saciado de quase tudo.”

“É tentador pensar que a depressão que devorava Rothko se encarna para a eternidade nessas catorze majestades, que combinam o raro prodígio das trevas de que são feitas com a paz que a sua contemplação oferece, como se a precipitação de toda a angústia que cabe no coração de um homem tivesse como resultado a conquista da felicidade por parte de quem a contempla.”

“Os catorze mandamentos de The Houston Chapel são a summa de uma vida consciente e completa: uma floração escura onde estão presentes as sucessivas experiências levadas a cabo pelo artista. Rothko, como um imenso e agressivo corpo celeste, chupa, absorve, abduz a sua obra anterior e transforma-se, depois do seu admirado Turner, no maior manumissor da luz da história da pintura. (...) a cor negra resume a tentativa de apreender a “própria ideia da luz”.

“O acaso não tem um mapa do cosmos integrado num dos seus circuitos, de modo que os seus caminhos convergiram num lugar sem interesse particular. Não era o lugar que interessava, eram eles, aqueles sujeitos audaciosos, nada solenes, no fundo selvagens e indisciplinados, que ambos tinham enterrado sob camadas de rotina, de hábitos, de normalidade. Bastou uma ligeira fricção para que a máscara ficasse reduzida a gesso. De repente a vida estava ali. No riso dela, na sua forma de andar, na sua forma de dizer “amanhã”. De repente a vida, exultante e fatal, a cheirar a enxofre, a vida que não tem atenção às maneiras, nem a progenituras, nem a cerimónias de maturidade, explodiu ali, no meio de parte alguma, no meio de todos os sítios, no centro das suas entranhas. Bocanegra amava, sem dúvida, a sua mulher de então. Mas aquilo era diferente, porque não era uma questão de fidelidade a terceiros. Era uma questão de fidelidade a si próprio, ao seu eu preso sob camadas e camadas de sedimento, ao seu eu fragmentado em milhares de pedaços de cera arrefecida. Matilde só pertencia à sua mais profunda intimidade, àquele lugar onde as pessoas vivem sós, completamente sós, na espera cega da extinção ou, como aconteceu a Bocanegra, do amor resplandecente.”

“Naquele livro, o mais ambicioso que tinha concebido até então, Bocanegra tinha querido contar aos outros, mas também a si próprio, o mistério da criação, em que consiste o dom e a condenação de ser tocado pela mão pesada da arte, a que umbrais se assoma o criador depois de percorrer corredores sem fim, que abismos se abrem de ambos os lados do caminho para esses espíritos indomáveis, um pouco selvagens, que, conquistados pela tristeza, não dedicam as suas vidas só a gerar, a comer, a beber e a defecar, mas que tentam procurar um sentido, um para quê, uma dimensão para além das evidentes a toda essa pletora derramada que é a vida dos homens.”

“A vida é uma lâmpada que os homens cedem uns aos outros: os pais aos filhos, os velhos aos jovens, os sábios aos ignorantes. Bocanegra, de certa forma, é o portador de outra lâmpada: a que ilumina a palavra. Antes dele, ocupantes já de bibliotecas imortais, eternos como astros na noite do céu, abundam os apelidos magníficos: Mann, Camus, Faulkner. Não menos magníficos são os apelidos daqueles que não receberam o distintivo: Kafka, Joyce, Borges. Merecerá ele protagonizar essa gesta, partilhar a vã mas ao mesmo tempo deliciosa fragrância do reconhecimento? Duvida-o, não por falsa modéstia mas porque sempre teve consciência dos seus limites ao ler os outros. Não só os seis nomeados, mas outros que hoje não passam de pó nas prateleiras.”

SinopseNuma segunda-feira de 1350, quando a Europa recupera da Peste Negra, o futuro papa Gregório XI visita o pintor toscano Adriano de Robertis para destruir a sua última obra, a blasfema Virgem Barbuda. A 25 de fevereiro de 1970, o pintor norte-americano Mark Rothko corta as veias no seu estúdio de Nova Iorque. A 11 de setembro de 2001, enquanto o mundo penetra na Era do Desconsolo, o pintor russo Vsévolod Semiasin redige uma carta onde revela as razões da sua loucura.A história destes três mestres, baseada num enigma (o destino insuspeito da Virgem Barbuda de Adriano de Robertis) e gravitando em torno de uma ideia central (o compromisso do pintor com a sua arte face ao poder encarnado pela Igreja, Mercado ou Estado), é o eixo condutor de A Luz é mais Antiga que o Amor, livro de que um romancista chamado Bocanegra nos fala durante três momentos cruciais da sua vida: o nascimento da sua vocação, a morte da mulher e a sua consagração em 2040 como glória da literatura universal.Depois da aplaudida Trilogia do Mal, Ricardo Menéndez Salmón regressa com um texto audacioso que pode ser lido como um ensaio sobre o génio artístico, como um romance de aprendizagem e até como uma obra de mistério.  

Roda dos Livros - Sugestões de Leitura Outubro 2015

Roda Dos Livros, 23.10.15

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Mais uma tarde a Rodar Livros. Outubro saiu-nos assim:

Fernanda - A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery;

Cris - Esta Distante Proximidade, de Rebecca Solnit; Arranha-Céus, de J. G. Ballard;

Ana - A Magia dos Números, de Yoko Ogawa;

Márcia - Peregrino, de Terry Hayes;

Jorge Trigo - Siddharta, de Herman Hesse;

Catarina - Rosa minha irmã Rosa, de Alice Vieira;

Jorge Galvão - Nação Crioula, de José Eduardo Agualusa; Correcções, de Jonathan Franzen;

Vera - Também isto Passará, de Milena Bousquets;

Renata - Eu Confesso, de Jaume Cabré;

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Vai e Põe uma Sentinela - Harper Lee

Roda Dos Livros, 22.10.15

01040619_Vai_Poe_SentinelaEu não li “Mataram a Cotovia”, o único livro publicado de Harper Lee. Até agora.

Mesmo assim, sabendo da enorme falha que é não ter lido um dos livros favoritos de grande parte dos leitores de todo o mundo, decidi começar este “Vai e Põe uma Sentinela” sem saber, literalmente, nada sobre a escrita e universo da autora. Apenas que este livro, agora editado, foi o primeiro a ser escrito, com as mesmas personagens de “Mataram a Cotovia”, mas vários anos depois.

Pautei a minha leitura pela ideia de que as personagens que agora conheci, como Jean Louise Finch, conhecida por Scout, foram como que enviadas na máquina do tempo pela autora, quando, depois de escrever “Vai e põe uma Sentinela”, as levou para uma época anterior. Como se a sua realidade tivesse sido criada numa época, e depois levada para trás, quando Scout era criança. Li Scout já mulher mas não pude deixar de pensar como seria o seu temperamento determinado e explosivo tantos anos antes. Toda esta leitura, aliás, me manteve sempre em suspenso, imaginando a infância de uma das personagens mais carismáticas que conheci até hoje. Fiquei ainda com mais vontade de ler “Mataram a Cotovia”. O meu percurso é contrário ao da maioria, mas penso que a minha viagem não será menos interessante por isso.

Scout é uma mulher determinada e de convicções fortes. Vive em Nova Iorque e regressa, de férias, à casa da família, em Maycomb no Alabama. Não se identifica com as aspirações das jovens da sua idade que encontra na pequena Maycomb, quer seja em relação ao casamento, ao trabalho, à família, ou ao papel da mulher. As suas observações, e a tomada de consciência do fosso que existe entre a sua perspectiva e a visão dos outros, são o ponto de partida para as divagações sobre o seu lugar no mundo. Sensível e introspectiva, analisa tudo à sua volta, principalmente as questões sociais (raciais) no sul da América da década de 50.

Coloca tudo em causa, mesmo o discernimento do pai, o seu modelo de vida, quando se apercebe da distância a que a família se encontra das suas convicções. Com uma fé inabalável nos princípios em que acredita, e não sendo de meias medidas, não hesita colocar o amor da família em cheque em prol dos valores que defende.

Foi impossível não gostar de Scout, mesmo quando senti que a sua impulsividade a levava longe demais. A sua força contagiante foi, sem dúvida, o meu impulso para o rápido virar de páginas, mesmo quando, pela habilidade da autora, fiquei do lado da família porque percebi que, para eles, havia motivos para analisar a mesma questão de outra forma.

Gostei muito e recomendo.

Sinopse

Jean Louise Finch -  Scout -  a inesquecível heroína de Matar a Cotovia, regressa de Nova Iorque a Maycomb, a sua cidade natal no Alabama, para visitar o pai, Atticus. Decorre o turbulento  período  de meados de 1950, numa nação dividida em torno das dramáticas questões raciais. É com  este pano de fundo que Jean Louise descobre verdades perturbadoras acerca da sua família, da cidade e das pessoas de quem mais gosta, o que a leva a interrogar-se sobre os seus valores e princípios, e a confrontar-se com complexos  problemas de ordem pessoal e política.Vai e Põe Uma Sentinela, romance inédito de Harper Lee, cujo manuscrito  se havia  perdido mas  descoberto em 2014, foi escrito antes de Matar A Cotovia e apresenta-nos muitos dos personagens dessa mítica obra,  agora vinte anos mais velhos. Um livro magnífico, comovente e de grande fascínio de um dos maiores vultos da ficção contemporânea.”

Presença, 2015

Tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral

«À espera de Doggo» de Mark B. Mills :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.10.15

"Canta como se ninguém estivesse a ouvir,
ama como se nunca tivesses sofrido, 
dança como se ninguém estivesse a ver
e vive como se fosse o céu na Terra."
Mark Twain
Não é bem esta a atitude de Daniel, 30 anos, desempregado e abandonado pela namorada. Além do mais, passa a ser o dono de Doggo, um relutante cão que não o reconhece como dono.Daniel não canta ou dança e muito menos está predisposto a novos amores, a não ser, é claro, com a cunhada, nem que seja para dar razão à ex e confirmar alguns dos defeitos que ela lhe apontou na carta de despedida.

Então é isso. Um desempregado e um cão ou melhor um copywriter e um anjo da guarda numa aventura para viverem melhor a vida, cometendo menos erros que o costume, para que desta vez o resultado seja mais promissor. E será.

"O Doggo nunca poderia ser descrito como um esbelto cão veloz. É um honesto rafeiro, atarracado, legítimo, íntegro de uma ponta à outra. Espantosamente parece não ter qualquer consciência disto."

Doggo é realmente o personagem de destaque neste livro. Um cão com personalidade, fã incondicional de Jennifer Aniston e da série Friends e claro, um companheiro de novas conquistas para Dan. Sejam elas conquistas profissionais ou amorosas.

Daniel ou Dan e Edith ou Edie são os protagonistas em torno de uma empresa publicitária e descobrirem uma nova estratégia publicitária leva-os a outras descobertas, até ao ponto de serem capazes de interpretar os sinais e perceberem a origem de Doggo. A história dentro da história é um pouco forçada, mas percebe-se por aí o título do livro.

"Se não estiveres sentado à mesa, então é porque fazes parte da ementa."

É uma frase chave para entender as ideias de Daniel que no fim de contas não sentiu falta nenhuma de Clara.Se a adaptação ao cinema for conseguida espero que coloquem um tipo como o Seth Rogan ou o Jesse Tyler Ferguson para não serem sempre os do costume.

«Esta distante proximidade» de Rebecca Solnit :: Opinião

Roda Dos Livros, 20.10.15

Quantas bonecas russas temos dentro de nós?Qual é a nossa história?Com que histórias construímos a nossa?Que desabafos a vida nos cala para a determinado momento querermos expô-los a todos?Com que frutos nos brinda a sabedoria da idade?Quantos deles apodrecem pelo caminho enquanto tentamos entender quem nos magoa?Rebecca Solnit não aligeira em nada estas e outras questões e muito menos a densidade das respostas é esse o lado belo deste livro.

"Escrever é dizer a todos e a ninguém aquilo que não é possível dizer a ninguém. Ou melhor, escrever é dizer ao ninguém que pode vir a ser o leitor daquelas coisas que alguém não tem ninguém a quem as dizer."

Assumidos como biográficos, os testemunhos sob a forma quase romanceada de «Esta Distante Proximidade» mostram com alargada franqueza as marcas que a relação maternal foi deixando nesta mulher. A ferocidade com que as memórias a assaltam contrastam com a realidade que ambas as mulheres vivem. Por lado, uma filha magoada e preterida, por outro uma mãe doente e necessitada.

"Pero yo ya no so yo, ni mi casa es ya mi casa." Che Guevara

Partindo da premissa que o "valor" das histórias está na maneira de as contar, essa pode ser uma forma muito interessante de olhar à própria composição que Solnit deu aos treze textos que compilou entre designações como: "damascos", "espelhos", "gelo", "voo", "hálito" ou "ferida", a todos repete em duas fases, não sem antes descortinar "nó" e "desemaranhado", criando desta forma todo um jogo de palavras e emoções por episódios da sua e de tantas outras histórias.

A imaginação e a delicadeza com que autora nos aproxima aos delicados e perecíveis frutos, os damascos, demonstra a meu ver, a empatia e por outro lado a distância com que lidamos uns com os outros. Afinal somos todos frutos duma mesma árvore, mas a oposição dos ramos pode muito bem mudar-nos o rumo, no final, o destino é todo o mesmo, o chão. Por intervenção externa podemos não chegar ao chão, ou do chão ter outro destino, transformando aquele fruto ou sendo assimilado e transformando quem o consome...

É toda uma analogia muito caricata e igualmente criativa, gostei muito dessa reflexão, juntamente com toda a divagação, dissertando sobre histórias que a determinado momento se cruzam com a nossa, seja por um livro, uma música, um filme ou um evento.A resiliência de Sherazade, a luta de Che Guevara, histórias insólitas de canibalismo ou a dedicação por detrás da obra distorcida que foi Frankenstein, são facilitadores de memórias, mas também ferramentas para melhor olhar ao mundo, até mesmo ao nosso pequeno mundo.

«O ressentimento é uma paixão narrativa» são palavras de Charles Griswold num livro intitulado «Perdão» e julgo que este relato de Solnit trata mais de perdão e de superação que propriamente de ressentimento. Este não é um livro sobre a mãe, é um livro sobre a filha, para onde se catapultou com as forças do passado.

«Esta distante proximidade» é também um livro sobre livros, uma história feita de histórias, de lugares e palavras, refúgios contra a solidão, uma solidão que chega a ser doce pelo brilhantismo da narrativa, mesmo que o caminho seja tumultuoso. As histórias são alavancas que ajudam a ultrapassar as portas que se vão abrindo e desvendam dificuldades ou que nos dão coragem para aceitar as portas fechadas e para procurar a agulha que dá sentido à linha que se desvela à nossa passagem.
"Acredito que esta qualidade de partilhar o sofrimento é fundamental para o que significa ser um ser humano." A frase de Paul Brand utilizada pela autora para dissertar sobre a história de Georgia O'Keeffe, de quem tomou emprestado o título, revelando-nos a geografia dos afectos, escrevendo sobre essa tal "distante proximidade" e igualmente os limites e as fronteiras do eu.
São as tais fronteiras do eu que se estabelecem na relação com o outro que eu julgo estarem na essência de todo este maravilhoso livro.
Já depois de ler o livro, gostei muito de ler o texto de Isabel Lucas, aqui no Público.

«Nada de Lágrimas» de Lydie Salvayre :: Opinião

Roda Dos Livros, 19.10.15

"De qué temes, cobarde criatura? De qué lloras, corazón de mantequillas?
Cervantes
É entre Cervantes e Georges Bernanos que Lydie Salvayre, já amplamente reconhecida, ganha uma distinção ainda maior com o Prémio Goncourt de 2014 atribuído a este seu «Nada de Lágrimas», uma atribuição disputada juntamente com os mais recentes romances de Kamel Daoud e de David Foenkinos. Todos traduzidos em Portugal.
No entanto, foi com lágrimas que a autora recebeu o prémio, talvez por este ser um romance pessoal e biográfico, onde a autora nos dá a conhecer a história de Montse, a sua mãe. O pano de fundo são essencialmente os anos de 1936 e 37, anos marcados pelo começo da Guerra Civil Espanhola e por eventos marcantes no lado mais pessoal da sua família, que como é óbvio a guerra afectou e mudou-lhes o curso.
"A História, neste ponto, abunda em lições deploráveis. O que sei é que Schopenhauer declarou no seu tempo que o nacionalismo e a sífilis eram os dois males do seu século, e que se há muito tínhamos curado o primeiro, o segundo permanecia sem cura. "
A evocação da guerra tem um toque nostálgico ou não fosse o relato ter sido feito numa época em que a mente de Montse, a mãe de Lydie já se transforma e se perde no peso da idade e da doença. Talvez esse seja o detalhe que mais interessa em toda a toda a narrativa para compreendermos uma dinâmica quase que acelerada de toda a reposição de factos. Ao mesmo tempo é também meio confusa e desconexa, com necessidade de recorrer ao livros de História e meter os factos mais verídicos, menos romanceados e isso corta um pouco o decorrer da acção. É verdade que a guerra aconteceu e foi marcante, mas no que nós somos enredados é na vida de Montse, José e Diego e são essas vidas que pedem um romance.
"Estes pobres dom-quixotes, que partem para o combate calçados com pobres alpercatas (...), nada sabem dos usos da guerra, da sua demência cega, da sua repugnante, atroz selvajaria."
Talvez este seja um livro de despedida e uma homenagem à história da mulher que inspirou uma vida de história e narrativas compostas pela autora. Pelo menos foi isso que me ocorreu. Terá Lydie Salvayre outros romances sobre a guerra civil espanhola? Pelo que procurei, não tem, e talvez por isso este tenha sido tão reconhecido.
George Bernanos e o seu romance «Grandes Cemitérios sob a Lua» têm, supostamente, uma voz própria e distinta da de Montse, mas as vozes não são assim tão diferentes, aliás, arrisco a dizer que o romance funciona todo numa mesma linha, numa mesma voz, a da narradora que relata episódios, conforme lhe são narrados, mas à sua maneira muito própria, na sua linguagem intermitente, colocando umas expressões em castelhano, que pelo menos para mim, abrilhantaram e deram um toque hilariante ao texto.
Sabendo que este é um livro de denuncia das atrocidades do nacionalismo espanhol, eu foquei-me essencialmente em duas personagens, José e Diego, que também eles cometem algumas, mas é a picardia entre os dois homens que só por si dava o mote para um romance de época, com todo o que a luta de classes e a rivalidade entre famílias têm no seu melhor para dar à literatura. A religiosidade e o combate às injustiças da mesma eram igualmente importantes para compor o ramalhete.

Salvayre cria assim um relato de partilha de vidas que se cruzaram com a guerra e a quem a guerra feriu e prejudicou.

"Como se partilhar, já estão a ver, pudesse de alguma maneira diminuir a miséria dos homens."

Trilogia «As faces de Victoria Bergman» de Erik Axl Sund :: Opinião

Roda Dos Livros, 19.10.15

A trilogia «As faces de Victoria Bergman» tem selo nórdico e esteve constantemente em destaque fosse qual fosse o volume. Composta por «A rapariga-corvo», «Fome de Fogo» e «As instruções da Pitonisa», a dupla que assina como Erik Axl Sund fez furor e a crítica em geral tece rasgados elogios à estreia destes suecos. E eu não consigo ir contra a corrente!

Se nas primeiras 100 páginas de «A rapariga-corvo» estranhei, entranhei por completo nas outras quase 1000 que compõem este calhamaço. Julgo que funcionar como trilogia é excelente para manter o suspense e claro, ir ganhando mais uns potenciais fãs... editado como um livro único poderia espantar leitores e assustá-los com a sua milhenta de páginas.Apesar do tamanho a narrativa obscura e detalhada de Erik Axl Sund não enfada nem é em excesso, parece que tudo vem na medida certa e no melhor timingpossível. Até as cenas mais tenebrosas e densas, devido aos crimes cometidos contra crianças, são logo de seguida contornadas com outro capítulo que pega em outra personagem ou numa parte fulcral da investigação.

Avisar para cenas que possam ser chocantes ou para o abuso, violação e violência infantil não basta para alertar o leitor para esta trilogia. É algo mais. Tem uma densidade psicológica associada a determinadas personagens, como o caso mais "alarmante" de Victoria Bergman que explicam em muito, o que os traumas causam nas vítimas e nestes livros existem muitas vítimas. Existem também muitos crimes e homicídios premeditados com requintes de malvadez, muito desvio à normalidade e ao (suposto) socialmente correcto, há até, aqui e ali, um constante tom de crítica à sociedade nórdica em geral.

A vingança, é por si só um fio condutor de todo o enredo, um projecto calculista que pode levar quase uma vida inteira para dar o resultado esperado. E depois existe todo o sofrimento e os danos colaterais, ninguém sai ileso das várias fases de transtorno que afectam tanto inocentes como psicopatas.

Dizer muito mais é correr riscos de revelar spoilers ou deixar passar dicas sobre os suspeitos ou as suas motivações, se bem que julgo que toda a trilogia está complexa q.b. para surpreender a maioria dos leitores. Surpreendente é também os dados estatísticos sobre abuso de menores e desvios psicóticos registados numa sociedade que se espera tão equilibrada, evoluída e feliz!!!

A dupla Jerker Eriksson e Håkan Axlander Sundquist consegue embranhar de tal forma o leitor em personagens tão fortes e complexas como Victoria, Sofia ou a investigadora Jeanette Kihlberg que não somos capazes de perceber as diferenças ou o traço pessoal de cada autor. A paleta de loucos, pedófilos, criminosos, sádicos e transtornados é de tal forma credível que chega a ser assustadora, mas dá todo um jogo de cores e sombras à acção que a tornam viciante.

Viciante e desafiante já que leva o leitor a tentar compreender a profundidade da personalidade múltipla e dissociativa de Victoria Bergman. Esta é a personagem que mais conquista o leitor e talvez por isso o fim seja tão arrebatador e até em aberto para a redenção. Será? Haverá alguma outra conclusão?

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