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Roda Dos Livros

«Segredos Obscuros» de Hjorth & Rosenfeldt :: Opinião

Roda Dos Livros, 27.09.15

"A fantasia é o motor a zunir: uma presença constante, mas meramente indolente.
Muitas pessoas têm fantasias. Obscuras, sexuais, brutais, que afirmam sempre o nosso próprio ego (...) Muitas poucas pessoas vivem verdadeiramente as suas fantasias. As que o fazem encontraram a chave."
Com 2 milhões de exemplares vendidos e escrita por dois aclamados guionistas suecos, «Segredos Obscuros» revela em Portugal a dupla sueca Hjorth & Rosenfeldt. Hans Rosenfeldt é o criador da premiada série Bron que traz à ribalta o psicólogo criminal Sebastian Bergman.
Bergman é apresentado inicialmente como alguém que tem andado a cultivar o seu lado inútil e é controverso o suficiente para aumentar o separatismo já existente entre duas equipas de investigação, a local, de Västerås e a de elite, famosa pela sua forma de resolver casos. A persona que o psicólogo invoca contrapõe com a descrição de um dos policiais, ao recordar do pai, a ideia da "dádiva" da violência como catalisadora da obediência. São eles que em conjunto irão descobrir quem assassinou, e porquê, Roger Eriksson, um jovem de 16 anos vítima de agressões demasiado violentas.
Nos arrabaldes de Listakärr, Emma, Alice e Joakim são três jovens que apenas decidiram aceitar uma missão, procurar o jovem desaparecido, pela desafiante ideia de terem algo diferente para mais tarde recordar, mas são eles que descobrem o mutilado cadáver de Roger, mergulhado nas águas do pântano, encerrando em si Segredos Obscuros.
 
A estreia de Sebastian Bergman é trazida até ao leitor num livro intenso e completo, com alguns cenários sombrios e a esperada profanação do cadáver, bem como um outro conjunto de ingredientes que tornam o enredo suculento e igualmente crítico, espelhando uma sociedade igual a tantas outras. O bullying escolar, a homossexualidade, a traição e o adultério, o divórcio, a pederastia e a pedofilia, em contraponto com a sexualidade e a depravação e ainda o tumulto da adolescência e ainda, o estímulo sexual como gatilho de toda a acção, são ingredientes mais do que suficientes para ter toda uma panóplia de personagens bem conseguidas e acontecimentos complexos.
Até a forma como se apresenta o perpetuador e o modo como o mesmo nos explica o cerne dos acontecimentos se revela diferente e viciante, estamos sempre expectantes para que essa voz surja e nos dê novos detalhes, mas as descobertas são feitas a conta gotas e sempre com revelações familiares desconcertantes. Não que algumas o leitor não seja capaz de antecipar, julgo que é e isso torna a história ainda mais cativante.
Com os ingredientes todos que tem e com uma certa dose de antecipação julguei a certa altura que a linha obscura se enredasse num novelo mais macabro. Julguei que o colégio pudesse ser palco de outras orientações e certas depravações, mas o enredo segue um contorno mais familiar, diria até que um pouco mais paternalista, o que não lhe retira interesse, é certo, mas não o torna tão obscuro como eu pensei que se pudesse ficar.
Hjorth & Rosenfeldt conseguem rechear a acção com uma equipa de investigação cheia de particularidades, desde a inspectora durona ao policial exímio ou o detective fanfarrão e o resto da equipa que o desculpa ou critica, apesar de existirem estes personagens aos quais os autores de policiais já nos habituaram, a dupla traz-nos um psicólogo criminal, como uma novidade para a equipa, um homem despedaçado que se esforça por manter uma máscara e esconder diversos segredos.

«Uma menina está perdida no seu século à procura do pai», de Gonçalo M. Tavares :: Opinião

Roda Dos Livros, 25.09.15

"- Não vale a pena grandes rodeios - disse-nos -, no limite é o nosso peso que está em jogo, é ele que temos de carregar para um lado e para o outro. Quando temos de fugir, podemos ter tempo para pegar num ou noutro objecto, mas tal é raro. (...) Pego nas minhas coisas ou não? Não! No fim, no limite, a decisão é sempre a mesma: não pegamos em nada (...)"

GMT

Uma menina perdida, um homem que não era um falador e um outro que tinha tanto para dizer. Entre outros. Todos eles formam um todo bastante fragmentado, como uma perspectiva dissociada da realidade, mas virada para entender essa mesma realidade... partem em busca de algo. Buscam o pai, buscam a verdade, buscam o outro, buscam um futuro... procuram tudo e não sei se chegam a encontrar algo.

Encontram-se uns aos outros e na medida do possível olham-se, percebem-se e tentam praticar a ajuda como podem.

Será este romance uma lição de como, se pararmos e nos libertarmos de certas amarras sociais, poderemos compreender melhor o outro!?

Terminei a leitura faz já algum tempo, não parti logo para escrever por falta de algo, faltava-me algo para esmiuçar, mastigar, ordenar a história na minha cabeça. Parti em busca de maior entendimento. Fui ouvir o escritor. Interessei-me pelas palavras do Gonçalo, aquelas que li e depois as que ouvi. Ficou a faltar-me algo na mesma, continuará sempre a faltar. É um livro feito por camadas, por sensações, emoções, entendimentos para a realidade que foge de nós, mas nos aproxima dos outros. E sem querer já me repeti, repetirei-me sempre...falta-me algo, não faltará a todos?

É nessa falta tão grande que se encaixa tamanho título, algo pesado como um século, algo profundo como a procura por alguém que não nos devia perder nunca, o pai. Quem é o pai? O que foi... onde estará? Que metáfora encara este pai fictício? A Humanidade!?

Os livros do Gonçalo M. Tavares (GMT), parece-me a mim, trazem sempre mais perguntas do que respostas que sosseguem o leitor. O leitor merece ser inquietado, desafiado, testado, posto à prova, relembrando-lhe o seu papel de pensador, de agitador de conversas.

Neste, «Uma menina está perdida no seu século à procura do pai» somos agitados por todas as personagens que vão compondo o caminho de Marius e Hanna, o homem pouco falador e a menina perdida, Joseph, Fried, Vitrius, Moebius ou Josh todos têm características impressionantes e quase surrealistas que levarão o leitor a tentar descobrir a mensagem nas entrelinhas... porque sobrará tanto mundo para uns e faltará tanto a outros?

«A História Secreta» de Donna Tartt :: Opinião

Roda Dos Livros, 24.09.15

Donna Tartt escreve com mestria aquele que podia ser um relato, qual tragédia grega, do peso do remorso perante a morte, intencional e provocada, como solução para cobrir outro acto criminoso.
Contrariando a tragédia grega que culmina na Morte, Tartt expõe a morte desde o início. A morte e os criminosos.Profundamente detalhado e incisivo, altamente descritivo, tanto das personagens, como das próprias cenas que acompanham o enredo, este é um relato melancólico da húbris de vidas singulares e elitistas que elegem a cultura e a mentalidade grega clássica como força motriz que os une e também separa este grupo de jovens.Henry, Richard, Charles, Camila, Francis e Bunny são todos estudantes do classicismo grego, aliás, há, em alguns deles, um fascínio e um vício pela cultura e a língua da Grécia Antiga, caída em desuso, mas que eles consideram como motivação para estudarem e olharem à sociedade que os excluí. Excluí talvez seja forte, mas a meu ver, é tanto a exclusão e crítica de quem não os aceita, tanto quanto o desejo deles próprios em excluídos, marcarem a diferença... o grupo secreto.

"É aqui que os manequins articulados com quem travei conhecimento começam a bocejar e a espreguiçar-se, a ganhar vida própria."

«História Secreta» lê-se como um page turner, curiosamente lento e de largas descrições, incisivas e (quase) ociosas que transportam o leitor entre a acção e todos cenários que a autora vai criando, dando pouco espaço para imaginações e divagações pessoais do leitor. Há uma demora a cada acontecimento ou até em divagações, mas o ritmo de thriller é obrigatoriamente imposto pelo brilhantismo da escrita.

"O céu estava vazio e frio. Uma nesga de lua, como o crescente da unha de um polegar, flutuava na penumbra. Eu não estava habituado a estes temerosos crepúsculos outonais, nem ao frio nem a dias tão curtos. As noites caíam demasiado abruptas e a quietude que se abateu sobre o prado escuro encheu-me de uma tristeza estranha e vacilante."

As primeiras 200 páginas são lidas a um ritmo avassalador, mas a acção é retardada e mesmos os primeiros detalhes que podem revelar esta história secretasão dados de forma muito controlada.

"Fomos habituados a pensar no êxtase religioso como algo característico e exclusivo das sociedades primitivas (...) Sabem que os gregos não eram muito diferentes de nós. Eram um povo muito formal, extraordinariamente civilizados e um tanto reprimidos. E no entanto eram não raras as vezes arrebatados en massepelos desejos mais selvagens" (...) Todos os povos verdadeiramente civilizados (...) se cultivaram através da repressão do eu animal que persiste dentro de nós."Mal saberíamos nós que esta aula sobre "perder o controlo" seria decisiva no decurso de toda a história.

Hampden, Vermont é o palco dos acontecimentos, uma escola de elite onde encontramos Julian Morrow, um professor erudito, carismático e manipulador, pelo menos, é desta forma que as suspeitas iniciais se levantam e queremos ver nele um mentor, formatando e moldando os jovens alunos, mas lentamente vamos percebendo que não. Tal como os seis jovens se vão revelando muito menos sofisticados e originais comparativamente às suas discussões e preocupações filosóficas, éticas e morais e nas suas divagações de estudo, onde, detalhadamente, se explicam a língua e a mitologia da Grécia Antiga.

As divagações dão lugar a alucinações e orgias, apelando aos rituais ancestrais, abuso de álcool, sexo e drogas e dito assim a originalidade esperada no enredo é quebrada e cai consigo parte do brilhantismo da escrita, já que a história, a meu ver, se torna banal. Esperei até ao último momento, ansiando até que o epílogo revelasse um mentor, até ali quase escondido, num personagem tóxico e destrutivo que tivesse de forma dissimulada manipulado, drogado e fornicado o seu grupo restrito de alunos, mantendo-os fieis a si e às suas dementes decisões, mas não...

Ocorrem-me palavras como displicência, melancolia, prazer, ironia, leviano ou vazio que esbarram em brilhante, intrigante, cúmplice, sinistro, como formas de descrever a história dentro da história, ou seja, uma história é aquela que a linguagem de Donna Tartt cria, iludindo o leitor da quezilenta relação entre os jovens, esperando um enredo à altura da linguagem, mas a história secreta entre eles roça o banal e faz desmoronar toda a expectativa que criámos para personagens, aparentemente, tão inteligentes, elitistas e inicialmente interessantes.

"(...) pelo que as impressões do crime estão indelevelmente gravadas nos meus nervos ópticos, mas estranhamente ausentes do meu coração."

As inquietudes juvenis tomam assim o lugar da eloquência e alguns dos elementos sentem-se transtornados e afectados pelos actos de outros membros do grupo, perdendo valores gregos que tanto defendiam, como a obediência, a lealdade ou a arte e beleza, abraçando assim o desespero, a frieza e a desconfiança levando-os a todos a atitudes de limite perante a fatalidade.

*

No pouco que li sobre Donna Tartt, a certa parte ela afirma que o processo de escrita nem lhe é muito prazeroso, ora... visto que ela leva cerca de 10 anos a escrever cada livro e é detalhada desta forma e com este nível de informação, imaginem se escrever lhe desse prazer!? ;)Apreciei muito a sua escrita e a forma de caracterizar e conduzir a história, mas o conteúdo fulcral do enredo torna-se banal e visto, talvez não tão visto em 1992, mas até 2015 quantos não são os livros que espelham a frivolidade, a ociosidade e o desbragado perfil dos jovens!?

Roda dos Livros Sugestões de Leitura - O brunch que se transformou em almoço tardio

Roda Dos Livros, 23.09.15

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Quando os planos furados saem melhor que os encomendados, damos por nós numa mesa farta de comida, livros e boa conversa.

Tudo começa num sábado para Rodistas madrugadores, que usam a desculpa de mais um encontro para ir à Feira da Ladra comprar livros. Ou serão os livros da Feira da Ladra a desculpa para mais um encontro? Não sei. Nem importa. Porque a Roda só é Roda com os livros e a partilha dos encontros.

O local escolhido não abriu. A hora do brunch já lá vai. Está calor e os livros pesam. Caminhamos. Descobrimos, escondida, a Taberna Sal Grosso. Tem uma mesa enorme à nossa espera. Espalhamos livros, escolhemos petiscos, fomos tão bem recebidas que queremos voltar. Prometemos, para a próxima, olhar para o relógio e sair antes de a porta fechar, é que nada mais existe quando falamos de livros...

Da conversa saíram estas sugestões:

Catarina - A Rainha Ginga, de José Eduardo Agualusa;

Ana - Um, Dó, Li, Tá, de M. J. Arlidge; Motelx - Histórias de Terror;

Cris - As Instruções da Pitonisa, de Erik Axl Sund;

Isabel - Diz-me quem sou, de Julia Navarro; Um Momento Meu, de Paulo Caiado; Seda, de Alessandro Baricco;

Márcia - Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo;

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"O osso da borboleta" - Rui Cardoso Martins - Opinião

Roda Dos Livros, 23.09.15

Coisinhas: osso de borboleta pedras
com que as lavadeiras usam o rio.
Manoel de Barros
Em mais uma estreia com um autor português, desta vez, Rui Cardoso Martins (RCM), num romance que também é uma viagem. Sempre na mira do interior, do intrínseco, do que nos completa e nos define. Na busca individual, "O osso da borboleta"mantêm sempre o foco na possibilidade de pertencermos a um todo. A questão que fica talvez seja, a qual? Qual todo nos une e que partículas nos separam!?

"O conhecimento humano tendo, por definição, para o infinito, até uma coisa falsa ou um disparate que acabámos de inventar é conhecimento à sua maneira. Sabemos lá se um dia não é verdade."

Para mim, é por essas partilhas que a história avança, num relato de solidão e alguma demência onde se confundem os dias, as pessoas, as ruas da cidades, as vozes que se escutam e as vozes, que na cabeça, se perdem em devaneios e ideias, meios desconexas...

"A campa do cemitério não tem toalha nem panoé uma mesa sagrada posta todo o ano."

O desconexo que vai dando lugar a toda uma lógica, a todos os fios de uma mesma ideia, que se enredam e se separam, mas que por fim se unem e dão todo o sentido a algo que inicialmente começou fragmentado.A vida, em todas as suas fases, tem lugar neste livro, seja entre os devaneios de quem se esconde seja nos movimentos já lentos mas calculados de Purificação.

"O movimento mais certo do mundo é o remoinho, às vezes só nos resta nadar para longe com todas as forças."

Assim é a difícil tarefa, de sequer tentar, resumir ou salientar do que trata este último romance de RCM, neste seu frágil, mas completo "O osso da borboleta".

"Também as pessoas são bactérias na pele de Deus, que nem dá por nós..."

«Arquipélago» de Joel Neto :: Opinião

Roda Dos Livros, 22.09.15

"As janelas descascavam ao sabor dos elementos, e nos recantos teias urdidas por aranhas que há muito tinham morrido, mas continuavam a acumular presas. Grossas trancas de madeira inclinavam-se nos vãos das janelas, as portadas abertas cada uma à sua maneira (...)"
É ao sabor das memórias e das tradições que a narrador desconstrói a história de duas famílias, os Drumonde e os Silveira-Goulart juntamente com um leque de personagens de vários lugarejos na Terceira, Açores. Um homem, refém das suas próprias teias, retorna à casa que o viu nascer e vê-se trancado em segredos obscuros que o levam a uma busca incessante nas profundezas da culpa.

«Arquipélago» é um romance com contornes de clássico, basta que comece com uma tábua de personagens. Nada mais, nada menos. As famílias são-nos apresentadas deixando cedo a perceber o intrincado enredo que vai aportar juntamente com José Artur Drumonde. Com ele e com a sua culpa.

José Artur não navega a sós na culpa e nos ecos do passado, são mais os que vivem ancorados aos segredos e mistérios do passado. Basta isto para que se perceba que este romance encerra em si, até bem quase às últimas páginas, mistérios e mortes por deslindar.

Desenvencilhando-se mal sozinho, José Artur procura abrigo na casa de Luísa Bretão e logo aí recomeça para si uma nova geografia dos afectos, mas outra geografia mais agreste e escarpada lhe pesa nas decisões e lhe ocupa os dias e os pensamentos. A descoberta de um cadáver na casa de família arranca-o da melancolia e fá-lo abraçar uma epopeia de perseguir os culpados e se cruzar com os mitos mais esotéricos e pagãos da ilha.

O misticismo não é novidade nenhuma na vida deste professor, há muito que segue a máxima:

"O homem culto acredita. O ignorante, sim, desconfia."

José Artur acreditava na inexplicável ligação dos Açores ao enigma da Atlântida, aliás fora essa a justificação que o levou a abandonar Lisboa, a ex-mulher e o filho e abraçar de volta as gentes de onde era oriundo.

Entre sugestões do seu subconsciente e outras muito reais, a vida de José Artur, Luísa, Maria Rosa, Elisabete, Elias Mão-de-Ferro, Roque Dutra, Violeta Berquó, Jácome, o Chefe Toste, o Dr. Torcato Salvaterra, Deodato Silveira-Goulart e claro, José Guilherme e André Drumonde, vão-se misturando e formando um enorme romance à moda antiga com paixões, traições e rivalidades familiares, hierarquias antigas e lutas quase territoriais, prestando sempre homenagem aos Açores na sua essência.

Joel Neto, também ele açoriano, tem aqui a oportunidade, a medida e o tom para trazer até ao leitor os Açores desde perto de 1980 até aos dias de hoje, prestando-lhe uma ode às gentes, aos costumes, aos dialectos e aos vocabulários, juntamente com um enumerar de localizações, facilmente reconhecidos quando abrimos o mapa e vemos o lugar dos Dois Caminhos, Terra Chã, o desfiladeiro dos Três Cantos ou a zona da Serreta e até o areal da praia da Vitória, ajudando o leitor a situar as aventuras.As descrições são ainda enriquecidas com sugestões gastronómicas, tradições ancestrais e património intocável que persiste ao longos dos séculos, como é o caso do dialecto, que não é mais do que um português muito antigo ;)

Comer uma cracas, tomar um licor de ananás, celebrar o menino mija, falar umapisca, falando dos maraus entre uns calezins, são expressões comuns açorianas, tal como chamar pechinchins e ainda se usar boceta de rapé.

Joel Neto cria um romance com uma boa dose de mistério, onde não falta roteiro turístico, uma pitada de esoterismo e o reavivar de tradições. A típica luta do Bem contra o Mal e a vitória final do amor sobre a traição, a mágoa e fúria que consome os homens quando a culpa os atormenta. Um livro para muitos públicos, mas essencialmente para quem vibra com uma história de amor ou então para quem, como eu, foi procurar conhecer e entranhar-se no ambiente dos Açores.

«Se eu fosse chão» de Nuno Camarneiro :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.09.15

"Todas as obras de arte são melhores ou piores do que o artista, mais profundas ou frívolas, mas nunca iguais. (...) A literatura é a mais horrenda das artes, porque é feita da mesma matéria com que falamos e nos enganamos a nós e aos outros. (...) Lemos o que queremos ou precisamos de ler, lemos como amamos e caímos."
Não é assim que se pisa o chão e se entra no hotel de Nuno Camarneiro, mas podia muito bem ser. À medida que entramos em cada quarto iremos ler o que queremos e iremos sentir o que precisarmos de despertar. A escrita simples, acutilante, rápida e concisa de Camarneiro consegue tudo isso e mais. Cada quarto é introspectivo e alguns sufocantes e esmagadores.
"Senhor, dai-me pelo menos a potência de chorar."
Recebemos sentimentos em contramão de pessoas em trânsito, amores estagnados e fora de tempo, loucuras inexplicáveis e traições, acidentes e incidentes, tristezas e alegrias, tudo em doses curtas e de toma única.
"Tanto tempo a amar em contramão, como um velho de vista cansada e juízo turvo, ignorando as luzes em sentido contrário, ignorando a realidade. Mas há tantas realidades (...) Estava eu a amar tão bem, sozinho, mas tão bem."
Acredito que passamos mais tempo a pensar no que a escrita nos transmite do que propriamente a ler o livro, esse devora-se! Se o detalhe, a ligação entre o 313 e o 314 ocorresse mais vezes entre quartos, tínhamos enredo, tínhamos romance, assim temos uma série de episódios que filmados por exemplo por uma Sofia Coppola dariam um filme ora frenético, ora melancólico e nostálgico.
Alexandre, o ascensorista é maravilhoso, leva-nos a dar a volta ao mundo, como se fôssemos minúsculos e estivéssemos, como um rato numa roda, correndo freneticamente sob o globo terrestre, sem nunca sairmos de cima da secretária. Só isso dava um filme!
Camarneiro não desilude, mesmo não sendo um romance e sim um conjunto de microficções todas debaixo do mesmo tecto, é na efabulação deixada a cargo do leitor que o livro brilha e dessa forma criamos um romance. Foi o que eu senti. É curioso como numa pouca dezena de quartos o autor nos leva a olhar o mundo, composto por histórias que talvez se toquem e entrelacem com as nossas, tal como já tinha feito com o prédio que lhe valeu o Prémio. Menos é mais e é verdade!

«Na Margem» de Rafael Chirbes :: Opinião

Roda Dos Livros, 20.09.15

"Ganha-se lá fora o que se perde cá dentro."
Considerado o melhor romance espanhol de 2013, «Na Margem» marca mais uma vez o reconhecimento de Rafael Chirbes no seu país e além fronteiras, aliás o escritor esteve recentemente em Lisboa pelo evento da Noite Europeia de Literatura.
«Na Margem» causou enorme impacto pela forma lúcida e até desapegada com que aborda, a decrepitude da crise humana causada pela crise em geral que é transversal a tantos aspectos da nossa sociedade. É, sem dúvida, um relato da condição humana, atravessando as tormentas mas também a passividade das várias fases da vida, sem esquecer uma abordagem crua e quase rude da velhice.

"O rancor é uma boa forma de garantir companhia, o poder de lançar à cara de alguém, todos os dias, o mal que nos fez: isso cria estabilidade. As pessoas pensam: que hei-de fazer? Ficar sozinho? (...) Morrer sozinho é desolador, é indecente, revela uma falha humana. (...) Há que partilhar. (...) Pega na esponja, no toalhete higiénico e toca a esfregar as carnes manchadas ... Pô-los ao teu serviço, ter uma multidão disposta a limpar-te o cu ...quantos mais melhor."

A escrita de Chirbes é crua, visceral, acusatória e povoada de memórias ferozes e, meio a vulso, analisa anos e anos da realidade familiar, empresarial e do país onde Esteban se encontra.

«Na Margem» cruza a realidade dos trabalhadores espanhóis e imigrantes, todos juntos em Espanha, mais particularmente em Olba, onde o narrador traça o perfil das relações entre ambos, tanto numa época anterior à crise e o que resta, afectado e devastado, por esta crise europeia e até mundial que teima em arrastar para o lodo famílias e empresas por completo, não poupando ninguém. Analisando muitas décadas de história.

"A reacção humana é desertar, o absurdo é ficar ali à espera que o sangue te encharque, o teu ou o alheio. Não há ideologia que consiga tirar-te isso da cabeça. (...) A certa altura deixei de distinguir os combatentes de um lado e do outro, (...) ter vivido isso une-te misteriosamente ao teu inimigo, àquele que o foi e continuou a sê-lo, converte-o em cúmplice, em camarada, o que torna tudo ainda mais complexo, mas culposo, absurdo, cruel (...)"

Com um tom, muita vezes, crítico e desapegado que lemos, sentimos, escutamos e nos arrepiamos com o relato, ora profundo, ora pragmático do velho Esteban, atravessando uma fase da vida onde a realidade, de ontem e de hoje não é mais do que um sucedâneo de memórias. Ele já não vive, apenas recorda, apenas sente a falta, questiona as acções que teve, as decisões que tomou e porquê, por quem?!
"Diria, em termos taurinos, que tive querência ao touril, eu próprio me encurralava, metia-me dentro de quatro paredes (...)"

"Mas aquilo que guardas dentro de ti, os teus pensamentos e desejos, que aparentemente nada pesam, não há Hércules que consigam carregá-los aos ombros para outro lado (...) Os homens batem por impotência. Julgam conseguir por meio da força aquilo que não alcançam por meio da ternura e da inteligência.

Chirbes recebeu com este romance o prémio de melhor narrativa 2013, mas não pense o leitor que se trata de um romance de fáceis contornos ou de capítulos organizados na linha cronológica de mais de 50 décadas de vida, não... Chirbes coloca o narrador, Esteban, lúcido e quase esfuziante na tarefa de relembrar e reviver diversos momentos ao longo dos seus 70 anos, com toda a bagagem que isso lhe dá. E esse peso sente-se e o leitor carrega-o ao longe de 400 páginas que compõem um só capítulo.Se perante a descoberta inicial acompanhamos o ritmo com uma avidez quase de policial, tal como exige, é bom que o leitor redobre a atenção e aguce os sentidos para todo o exercício seguinte.

Num capítulo extenso e complexo, recheado de divagações, memórias e considerações, celebra o leitor, premiando-o pela resiliência. O narrador divaga mas não claudica, parece que se afasta do foco da narrativa, mas não, ele apenas acrescenta camadas à análise crítica que faz da vida, concedendo uma profundidade memorável a todas aquelas relações que foram ou são o centro da sua existência.

*
Rafael Chirbes faleceu neste mês, 16 de Agosto, vítima de cancro. Leia mais sobre o autor e a obra, no artigo assinado por José Riço Direitinho no Público.

«O bizarro incidente do tempo roubado» de Rachel Joyce :: Opinião

Roda Dos Livros, 19.09.15

"Só quando o relógio pára é que o tempo realmente vive.", William Faulkner
Esqueçam o bizarro incidente, esqueçam o tempo, só não esqueçam o roubo. O roubo que o tempo faz nas vidas que se tornam bizarras e insólitas devido a incidentes que nunca deveriam acontecer.
No decorrer do enredo serão também incapazes de esquecer Byron e Diana Hemmings ou até o brilhante James Lowe, os seus talentos e igualmente o desespero que tornam esta história envolvente e enternecedora. São os segredos do passado que determinam o rumo do futuro e que nos levam a questionar quem é Jim e o que faz nesta história... é refinada a forma como Rachel Joyce nos leva aos extremos de cada vida ali envolvida.
Dividido em três partes e umas dezenas de breves capítulos com títulos que deixam suspeitar rituais e pequenos desfechos determinantes, somos levados para dentro desta família, bem pouco coesa e talvez até muito típica para a época e somos igualmente transportados para o ambiente escolar de Byron e James, num misto de conspiração juvenil, com diagramas e projectos com que se propõe a resolver as consequências do bizarro incidente do tempo roubado.
 
Todos eles procuram pequenas coisas com que melhorar o seu dia a dia e a vida dos que os rodeiam. Byron é quase discípulo de James, mas é igualmente peculiar e com uma visão do mundo muito sui generis.
 
"Um fragmento de uma nuvem rápida estilhaça o prato de porcelana da lua."
 
A escrita de Rachel Joyce contribuí bastante para um certo ambiente noir, com toques de insólito, num misto de crónica dos bons costumes e até tem leves rasgos de comédia, especialmente pelos comentários e perspectivas de Byron, mas também pela intelectualidade um tanto inocente de James. Há também ao longo dos acontecimentos um silêncio imposto e agreste causado pelo patriarca, o pai ausente, autoritário e critico e esse ambiente também é bem conseguido pelas descrições que tornam frias as horas passadas em família.
"Era como espreitar a casa de outra pessoa pela janela e ver a vida de uma perspectiva diferente."
A perspectiva muda radicalmente com a chegada de Berveley às vidas de Diana e Byron, retirando-os da "zona de conforto" imposta pelas regras do pai e da vida social a que se sentiam obrigados a viver. É em momentos de menos zelo e até medo que Byron percebe melhor a mãe que está escondida por debaixo da mãe que já de si era diferente de todas as outras.
Se durante a leitura tivéssemos um caderno de observações como Byron, anotaríamos que neste romance Rachel Joyce é exímia em contar uma história, alimentando sempre a curiosidade do leitor, caracterizando bem cada personagem, tornando-os próximos de nós, mesmo com décadas de separação... se também fizéssemos um diagrama como James talvez adivinhássemos a reviravolta mais cedo e assim digerí-a-mo-la melhor.
Num capítulo intitulado "surpresa" somos brindados com uma viagem às sonoridades dos anos setenta, com "Puppy Love", dos bons momentos entre Diana e Berveley e depois uma playlist onde inclui o very best dos Bread ;) Carpenters e Gilbert O' Sullivan.
Vale a pena entrar neste relato bizarro, caricato e até um tanto melancólico.

"Até ao fim da terra" de David Grossman

Roda Dos Livros, 19.09.15

Até ao fim da terra

 

Há livros assim, vertiginosos, como o vórtex de um tornado, com uma força narrativa gigantesca que nos agarra, levando-nos para uma outra realidade e fazendo-nos acreditar que estamos mesmo ali. Ali, ao lado daquelas personagens, tão humanas e palpáveis, cujo percurso acompanhamos, sem desistir, ao longo das suas mais de 800 páginas. Sei bem que um livro não toca todos os seus leitores da mesma forma mas esta foi, para mim, uma leitura marcante; deixou-me com aquela sensação de que algo mudou, de que nada será como antes, literariamente falando. Um livro que “fez estremecer a estante” como aquele que Avram , um dos protagonistas, em tempos sonhara escrever. Escusado será dizer que o estremecimento ocorreu na minha estante mental, mas ainda assim foi sentido como se fosse real, quase físico.

A forma como Grossman escreve, entrelançando as emoções nos corpos das personagens de uma forma simultaneamente clara, realista e bela encantou-me. Todo o romance transmite emoções profundas mas nunca de forma gratuita ou lamechas. Pelo contrário, aí reside a força desta história que nos empurra para a frente, na ânsia de saber mais, de perceber como se vive num país em constante estado de guerra, de ver enfim como será o desenlace daquelas vidas fictícias tão bem concebidas que custa a crer que a sua existência decorra apenas dentro das páginas de um livro.

Este é um romance sobre famílias e amizades verdadeiras mas também sobre a tremenda realidade de um quotidiano vivido paredes meias com a violência e a morte. Um quotidiano permanentemente condicionado por uma guerra que teima em não sair do seu impasse letal e onde não há vencedores mas apenas derrotados.

A força indómita e a tenacidade de Ora, a mãe que empreende uma grande caminhada através de Israel por acreditar que, se não estiver em casa enquanto o filho Ofer cumpre uma missão militar, este ficará a salvo, lembrou-me outro personagem inesquecível: Bjartur de Gente Independente de Laxness, outra das tais leituras que estremecem estantes. Ora anda ininterruptamente, sempre relembrando a vida do filho e contando-a a Avram, o seu pai biológico que não quis conhecê-lo, acreditando estar a protegê-lo assim da morte, como se a sua ausência de casa fosse uma espécie de talismã. Ao mesmo tempo, vamos conhecendo a relação profunda e triangular entre Ora, Avram e Ilan, iniciada ainda na adolescência, pretexto usado pelo autor para nos confrontar não só com as paixões e as contradições humanas mas também com a nossa capacidade para a compaixão e para a empatia para com o sofrimento do outro.

Recomendo pois que inspirem fundo e sigam o percurso de Ora através da prosa magnífica de David Grossman.Deixo aqui uns pequenos excertos, uma amostra diminuta dos muitos que assinalei no decurso da leitura, por ser muito difícil transmitir neste espaço toda a grandeza deste livro:

“E se isto aqui acabar dentro de dois dias e eu voltar para casa?, pergunta ainda mais contrariado, ou no caso de eu ser ferido , ou algo assim, onde é que eles te encontram? Ela não responde. Não encontram, pensa ela, é precisamente isso, e algo mais faísca nela: se não a encontrarem, se não for possível encontrá-la, ele não será ferido. Não consegue entender-se a si própria. Tenta. Não faz sentido nenhum, mas há aqui alguma coisa que faça sentido?”

“Caminha quase sem olhar. Parece-lhe estar a cair através da vastidão de um espaço infinito. É uma migalha humana. Ofer também é uma migalha humana. Ela nem sequer consegue atrasar um pouco a sua queda. E ainda que o tenha dado à luz, que seja sua mãe e que ele tenha saído de dentro dela, neste preciso momento não passam de migalhas humanas a pairar e a cair através do espaço infinito, imenso e vazio. No fim de contas, tudo se resume ao acaso, pensa Ora.”

“(...) diz Ora de dentro do chapéu, penso sempre: este é o meu país, e não tenho mais sítio nenhum para onde ir. Para onde iria? Diz-me, onde é que eu me irritaria e protestaria assim contra tudo? E quem me quereria, de qualquer modo? Mas ao mesmo tempo também sei que o país não tem qualquer hipótese, não tem, percebes? Arranca o chapéu de cima do rosto e senta-se, espantada ao ver que ele está sentado a olhar para ela. Se pensarmos nisso com lógica, se pensarmos apenas em números, factos, e história, sem quaisquer ilusões, não tem qualquer hipótese.”

Sinopse:

Quando Ora se prepara para festejar a desmobilização do filho Ofer, ele volta a juntar-se voluntariamente ao exército. Num ímpeto supersticioso, temendo a pior notícia que um pai ou uma mãe podem ouvir, Ora parte numa caminhada para a Galileia, sem deixar qualquer rasto para os "notificadores". Recentemente separada do marido, arrasta consigo um companheiro inesperado: Avram, outrora o melhor amigo de ambos, o antigo amante, que tinha estado prisioneiro durante a Guerra do Yom Kipur e fora torturado, e que, destruído, recusara sempre conhecer o rapaz ou ter contacto com eles. Durante a caminhada, Ora vai desenrolando a história da sua maternidade e inicia Avram no drama da família humana - uma narrativa que mantém Ofer vivo, tanto para a mãe como para o leitor. A sua história coloca lado a lado os maiores sofrimentos da guerra e as alegrias e angústias quotidianas da educação dos filhos: nunca se viu tão claramente o real e o surreal da vida quotidiana em Israel, as correntes de ambivalência sobre a guerra numa família, os fardos que caem sobre cada nova geração. Numa situação de conflito coletivo e duradouro, como conciliar as preocupações individuais de uma mãe que, afinal, prefere a companhia de um filho à missão patriótica? Como manter a causa pacifista se aqueles que podem atirar contra um filho são justamente aqueles com quem se quer fazer a paz?

 

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