«Segredos Obscuros» de Hjorth & Rosenfeldt :: Opinião

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Mais para ler

"- Não vale a pena grandes rodeios - disse-nos -, no limite é o nosso peso que está em jogo, é ele que temos de carregar para um lado e para o outro. Quando temos de fugir, podemos ter tempo para pegar num ou noutro objecto, mas tal é raro. (...) Pego nas minhas coisas ou não? Não! No fim, no limite, a decisão é sempre a mesma: não pegamos em nada (...)"
Uma menina perdida, um homem que não era um falador e um outro que tinha tanto para dizer. Entre outros. Todos eles formam um todo bastante fragmentado, como uma perspectiva dissociada da realidade, mas virada para entender essa mesma realidade... partem em busca de algo. Buscam o pai, buscam a verdade, buscam o outro, buscam um futuro... procuram tudo e não sei se chegam a encontrar algo.
Encontram-se uns aos outros e na medida do possível olham-se, percebem-se e tentam praticar a ajuda como podem.
Será este romance uma lição de como, se pararmos e nos libertarmos de certas amarras sociais, poderemos compreender melhor o outro!?
Terminei a leitura faz já algum tempo, não parti logo para escrever por falta de algo, faltava-me algo para esmiuçar, mastigar, ordenar a história na minha cabeça. Parti em busca de maior entendimento. Fui ouvir o escritor. Interessei-me pelas palavras do Gonçalo, aquelas que li e depois as que ouvi. Ficou a faltar-me algo na mesma, continuará sempre a faltar. É um livro feito por camadas, por sensações, emoções, entendimentos para a realidade que foge de nós, mas nos aproxima dos outros. E sem querer já me repeti, repetirei-me sempre...falta-me algo, não faltará a todos?
É nessa falta tão grande que se encaixa tamanho título, algo pesado como um século, algo profundo como a procura por alguém que não nos devia perder nunca, o pai. Quem é o pai? O que foi... onde estará? Que metáfora encara este pai fictício? A Humanidade!?
Os livros do Gonçalo M. Tavares (GMT), parece-me a mim, trazem sempre mais perguntas do que respostas que sosseguem o leitor. O leitor merece ser inquietado, desafiado, testado, posto à prova, relembrando-lhe o seu papel de pensador, de agitador de conversas.
Neste, «Uma menina está perdida no seu século à procura do pai» somos agitados por todas as personagens que vão compondo o caminho de Marius e Hanna, o homem pouco falador e a menina perdida, Joseph, Fried, Vitrius, Moebius ou Josh todos têm características impressionantes e quase surrealistas que levarão o leitor a tentar descobrir a mensagem nas entrelinhas... porque sobrará tanto mundo para uns e faltará tanto a outros?
Mais para ler

"É aqui que os manequins articulados com quem travei conhecimento começam a bocejar e a espreguiçar-se, a ganhar vida própria."
«História Secreta» lê-se como um page turner, curiosamente lento e de largas descrições, incisivas e (quase) ociosas que transportam o leitor entre a acção e todos cenários que a autora vai criando, dando pouco espaço para imaginações e divagações pessoais do leitor. Há uma demora a cada acontecimento ou até em divagações, mas o ritmo de thriller é obrigatoriamente imposto pelo brilhantismo da escrita.
"O céu estava vazio e frio. Uma nesga de lua, como o crescente da unha de um polegar, flutuava na penumbra. Eu não estava habituado a estes temerosos crepúsculos outonais, nem ao frio nem a dias tão curtos. As noites caíam demasiado abruptas e a quietude que se abateu sobre o prado escuro encheu-me de uma tristeza estranha e vacilante."
As primeiras 200 páginas são lidas a um ritmo avassalador, mas a acção é retardada e mesmos os primeiros detalhes que podem revelar esta história secretasão dados de forma muito controlada.
"Fomos habituados a pensar no êxtase religioso como algo característico e exclusivo das sociedades primitivas (...) Sabem que os gregos não eram muito diferentes de nós. Eram um povo muito formal, extraordinariamente civilizados e um tanto reprimidos. E no entanto eram não raras as vezes arrebatados en massepelos desejos mais selvagens" (...) Todos os povos verdadeiramente civilizados (...) se cultivaram através da repressão do eu animal que persiste dentro de nós."Mal saberíamos nós que esta aula sobre "perder o controlo" seria decisiva no decurso de toda a história.
Hampden, Vermont é o palco dos acontecimentos, uma escola de elite onde encontramos Julian Morrow, um professor erudito, carismático e manipulador, pelo menos, é desta forma que as suspeitas iniciais se levantam e queremos ver nele um mentor, formatando e moldando os jovens alunos, mas lentamente vamos percebendo que não. Tal como os seis jovens se vão revelando muito menos sofisticados e originais comparativamente às suas discussões e preocupações filosóficas, éticas e morais e nas suas divagações de estudo, onde, detalhadamente, se explicam a língua e a mitologia da Grécia Antiga.
As divagações dão lugar a alucinações e orgias, apelando aos rituais ancestrais, abuso de álcool, sexo e drogas e dito assim a originalidade esperada no enredo é quebrada e cai consigo parte do brilhantismo da escrita, já que a história, a meu ver, se torna banal. Esperei até ao último momento, ansiando até que o epílogo revelasse um mentor, até ali quase escondido, num personagem tóxico e destrutivo que tivesse de forma dissimulada manipulado, drogado e fornicado o seu grupo restrito de alunos, mantendo-os fieis a si e às suas dementes decisões, mas não...
Ocorrem-me palavras como displicência, melancolia, prazer, ironia, leviano ou vazio que esbarram em brilhante, intrigante, cúmplice, sinistro, como formas de descrever a história dentro da história, ou seja, uma história é aquela que a linguagem de Donna Tartt cria, iludindo o leitor da quezilenta relação entre os jovens, esperando um enredo à altura da linguagem, mas a história secreta entre eles roça o banal e faz desmoronar toda a expectativa que criámos para personagens, aparentemente, tão inteligentes, elitistas e inicialmente interessantes.
"(...) pelo que as impressões do crime estão indelevelmente gravadas nos meus nervos ópticos, mas estranhamente ausentes do meu coração."
As inquietudes juvenis tomam assim o lugar da eloquência e alguns dos elementos sentem-se transtornados e afectados pelos actos de outros membros do grupo, perdendo valores gregos que tanto defendiam, como a obediência, a lealdade ou a arte e beleza, abraçando assim o desespero, a frieza e a desconfiança levando-os a todos a atitudes de limite perante a fatalidade.
*
No pouco que li sobre Donna Tartt, a certa parte ela afirma que o processo de escrita nem lhe é muito prazeroso, ora... visto que ela leva cerca de 10 anos a escrever cada livro e é detalhada desta forma e com este nível de informação, imaginem se escrever lhe desse prazer!? ;)Apreciei muito a sua escrita e a forma de caracterizar e conduzir a história, mas o conteúdo fulcral do enredo torna-se banal e visto, talvez não tão visto em 1992, mas até 2015 quantos não são os livros que espelham a frivolidade, a ociosidade e o desbragado perfil dos jovens!?
Mais para ler

Quando os planos furados saem melhor que os encomendados, damos por nós numa mesa farta de comida, livros e boa conversa.
Tudo começa num sábado para Rodistas madrugadores, que usam a desculpa de mais um encontro para ir à Feira da Ladra comprar livros. Ou serão os livros da Feira da Ladra a desculpa para mais um encontro? Não sei. Nem importa. Porque a Roda só é Roda com os livros e a partilha dos encontros.
O local escolhido não abriu. A hora do brunch já lá vai. Está calor e os livros pesam. Caminhamos. Descobrimos, escondida, a Taberna Sal Grosso. Tem uma mesa enorme à nossa espera. Espalhamos livros, escolhemos petiscos, fomos tão bem recebidas que queremos voltar. Prometemos, para a próxima, olhar para o relógio e sair antes de a porta fechar, é que nada mais existe quando falamos de livros...
Da conversa saíram estas sugestões:
Catarina - A Rainha Ginga, de José Eduardo Agualusa;
Ana - Um, Dó, Li, Tá, de M. J. Arlidge; Motelx - Histórias de Terror;
Cris - As Instruções da Pitonisa, de Erik Axl Sund;
Isabel - Diz-me quem sou, de Julia Navarro; Um Momento Meu, de Paulo Caiado; Seda, de Alessandro Baricco;
Márcia - Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo;
Mais para ler

"O conhecimento humano tendo, por definição, para o infinito, até uma coisa falsa ou um disparate que acabámos de inventar é conhecimento à sua maneira. Sabemos lá se um dia não é verdade."
Para mim, é por essas partilhas que a história avança, num relato de solidão e alguma demência onde se confundem os dias, as pessoas, as ruas da cidades, as vozes que se escutam e as vozes, que na cabeça, se perdem em devaneios e ideias, meios desconexas...
"A campa do cemitério não tem toalha nem panoé uma mesa sagrada posta todo o ano."
O desconexo que vai dando lugar a toda uma lógica, a todos os fios de uma mesma ideia, que se enredam e se separam, mas que por fim se unem e dão todo o sentido a algo que inicialmente começou fragmentado.A vida, em todas as suas fases, tem lugar neste livro, seja entre os devaneios de quem se esconde seja nos movimentos já lentos mas calculados de Purificação.
"O movimento mais certo do mundo é o remoinho, às vezes só nos resta nadar para longe com todas as forças."
Assim é a difícil tarefa, de sequer tentar, resumir ou salientar do que trata este último romance de RCM, neste seu frágil, mas completo "O osso da borboleta".
"Também as pessoas são bactérias na pele de Deus, que nem dá por nós..."
Mais para ler

«Arquipélago» é um romance com contornes de clássico, basta que comece com uma tábua de personagens. Nada mais, nada menos. As famílias são-nos apresentadas deixando cedo a perceber o intrincado enredo que vai aportar juntamente com José Artur Drumonde. Com ele e com a sua culpa.
José Artur não navega a sós na culpa e nos ecos do passado, são mais os que vivem ancorados aos segredos e mistérios do passado. Basta isto para que se perceba que este romance encerra em si, até bem quase às últimas páginas, mistérios e mortes por deslindar.
Desenvencilhando-se mal sozinho, José Artur procura abrigo na casa de Luísa Bretão e logo aí recomeça para si uma nova geografia dos afectos, mas outra geografia mais agreste e escarpada lhe pesa nas decisões e lhe ocupa os dias e os pensamentos. A descoberta de um cadáver na casa de família arranca-o da melancolia e fá-lo abraçar uma epopeia de perseguir os culpados e se cruzar com os mitos mais esotéricos e pagãos da ilha.
O misticismo não é novidade nenhuma na vida deste professor, há muito que segue a máxima:
"O homem culto acredita. O ignorante, sim, desconfia."
José Artur acreditava na inexplicável ligação dos Açores ao enigma da Atlântida, aliás fora essa a justificação que o levou a abandonar Lisboa, a ex-mulher e o filho e abraçar de volta as gentes de onde era oriundo.
Entre sugestões do seu subconsciente e outras muito reais, a vida de José Artur, Luísa, Maria Rosa, Elisabete, Elias Mão-de-Ferro, Roque Dutra, Violeta Berquó, Jácome, o Chefe Toste, o Dr. Torcato Salvaterra, Deodato Silveira-Goulart e claro, José Guilherme e André Drumonde, vão-se misturando e formando um enorme romance à moda antiga com paixões, traições e rivalidades familiares, hierarquias antigas e lutas quase territoriais, prestando sempre homenagem aos Açores na sua essência.Joel Neto, também ele açoriano, tem aqui a oportunidade, a medida e o tom para trazer até ao leitor os Açores desde perto de 1980 até aos dias de hoje, prestando-lhe uma ode às gentes, aos costumes, aos dialectos e aos vocabulários, juntamente com um enumerar de localizações, facilmente reconhecidos quando abrimos o mapa e vemos o lugar dos Dois Caminhos, Terra Chã, o desfiladeiro dos Três Cantos ou a zona da Serreta e até o areal da praia da Vitória, ajudando o leitor a situar as aventuras.As descrições são ainda enriquecidas com sugestões gastronómicas, tradições ancestrais e património intocável que persiste ao longos dos séculos, como é o caso do dialecto, que não é mais do que um português muito antigo ;)
Comer uma cracas, tomar um licor de ananás, celebrar o menino mija, falar umapisca, falando dos maraus entre uns calezins, são expressões comuns açorianas, tal como chamar pechinchins e ainda se usar boceta de rapé.
Joel Neto cria um romance com uma boa dose de mistério, onde não falta roteiro turístico, uma pitada de esoterismo e o reavivar de tradições. A típica luta do Bem contra o Mal e a vitória final do amor sobre a traição, a mágoa e fúria que consome os homens quando a culpa os atormenta. Um livro para muitos públicos, mas essencialmente para quem vibra com uma história de amor ou então para quem, como eu, foi procurar conhecer e entranhar-se no ambiente dos Açores.
Mais para ler

Mais para ler

"O rancor é uma boa forma de garantir companhia, o poder de lançar à cara de alguém, todos os dias, o mal que nos fez: isso cria estabilidade. As pessoas pensam: que hei-de fazer? Ficar sozinho? (...) Morrer sozinho é desolador, é indecente, revela uma falha humana. (...) Há que partilhar. (...) Pega na esponja, no toalhete higiénico e toca a esfregar as carnes manchadas ... Pô-los ao teu serviço, ter uma multidão disposta a limpar-te o cu ...quantos mais melhor."
A escrita de Chirbes é crua, visceral, acusatória e povoada de memórias ferozes e, meio a vulso, analisa anos e anos da realidade familiar, empresarial e do país onde Esteban se encontra.
"A reacção humana é desertar, o absurdo é ficar ali à espera que o sangue te encharque, o teu ou o alheio. Não há ideologia que consiga tirar-te isso da cabeça. (...) A certa altura deixei de distinguir os combatentes de um lado e do outro, (...) ter vivido isso une-te misteriosamente ao teu inimigo, àquele que o foi e continuou a sê-lo, converte-o em cúmplice, em camarada, o que torna tudo ainda mais complexo, mas culposo, absurdo, cruel (...)"
"Mas aquilo que guardas dentro de ti, os teus pensamentos e desejos, que aparentemente nada pesam, não há Hércules que consigam carregá-los aos ombros para outro lado (...) Os homens batem por impotência. Julgam conseguir por meio da força aquilo que não alcançam por meio da ternura e da inteligência.
Num capítulo extenso e complexo, recheado de divagações, memórias e considerações, celebra o leitor, premiando-o pela resiliência. O narrador divaga mas não claudica, parece que se afasta do foco da narrativa, mas não, ele apenas acrescenta camadas à análise crítica que faz da vida, concedendo uma profundidade memorável a todas aquelas relações que foram ou são o centro da sua existência.
Mais para ler

Mais para ler

Há livros assim, vertiginosos, como o vórtex de um tornado, com uma força narrativa gigantesca que nos agarra, levando-nos para uma outra realidade e fazendo-nos acreditar que estamos mesmo ali. Ali, ao lado daquelas personagens, tão humanas e palpáveis, cujo percurso acompanhamos, sem desistir, ao longo das suas mais de 800 páginas. Sei bem que um livro não toca todos os seus leitores da mesma forma mas esta foi, para mim, uma leitura marcante; deixou-me com aquela sensação de que algo mudou, de que nada será como antes, literariamente falando. Um livro que “fez estremecer a estante” como aquele que Avram , um dos protagonistas, em tempos sonhara escrever. Escusado será dizer que o estremecimento ocorreu na minha estante mental, mas ainda assim foi sentido como se fosse real, quase físico.
A forma como Grossman escreve, entrelançando as emoções nos corpos das personagens de uma forma simultaneamente clara, realista e bela encantou-me. Todo o romance transmite emoções profundas mas nunca de forma gratuita ou lamechas. Pelo contrário, aí reside a força desta história que nos empurra para a frente, na ânsia de saber mais, de perceber como se vive num país em constante estado de guerra, de ver enfim como será o desenlace daquelas vidas fictícias tão bem concebidas que custa a crer que a sua existência decorra apenas dentro das páginas de um livro.
Este é um romance sobre famílias e amizades verdadeiras mas também sobre a tremenda realidade de um quotidiano vivido paredes meias com a violência e a morte. Um quotidiano permanentemente condicionado por uma guerra que teima em não sair do seu impasse letal e onde não há vencedores mas apenas derrotados.
A força indómita e a tenacidade de Ora, a mãe que empreende uma grande caminhada através de Israel por acreditar que, se não estiver em casa enquanto o filho Ofer cumpre uma missão militar, este ficará a salvo, lembrou-me outro personagem inesquecível: Bjartur de Gente Independente de Laxness, outra das tais leituras que estremecem estantes. Ora anda ininterruptamente, sempre relembrando a vida do filho e contando-a a Avram, o seu pai biológico que não quis conhecê-lo, acreditando estar a protegê-lo assim da morte, como se a sua ausência de casa fosse uma espécie de talismã. Ao mesmo tempo, vamos conhecendo a relação profunda e triangular entre Ora, Avram e Ilan, iniciada ainda na adolescência, pretexto usado pelo autor para nos confrontar não só com as paixões e as contradições humanas mas também com a nossa capacidade para a compaixão e para a empatia para com o sofrimento do outro.
Recomendo pois que inspirem fundo e sigam o percurso de Ora através da prosa magnífica de David Grossman.Deixo aqui uns pequenos excertos, uma amostra diminuta dos muitos que assinalei no decurso da leitura, por ser muito difícil transmitir neste espaço toda a grandeza deste livro:
“E se isto aqui acabar dentro de dois dias e eu voltar para casa?, pergunta ainda mais contrariado, ou no caso de eu ser ferido , ou algo assim, onde é que eles te encontram? Ela não responde. Não encontram, pensa ela, é precisamente isso, e algo mais faísca nela: se não a encontrarem, se não for possível encontrá-la, ele não será ferido. Não consegue entender-se a si própria. Tenta. Não faz sentido nenhum, mas há aqui alguma coisa que faça sentido?”
“Caminha quase sem olhar. Parece-lhe estar a cair através da vastidão de um espaço infinito. É uma migalha humana. Ofer também é uma migalha humana. Ela nem sequer consegue atrasar um pouco a sua queda. E ainda que o tenha dado à luz, que seja sua mãe e que ele tenha saído de dentro dela, neste preciso momento não passam de migalhas humanas a pairar e a cair através do espaço infinito, imenso e vazio. No fim de contas, tudo se resume ao acaso, pensa Ora.”
“(...) diz Ora de dentro do chapéu, penso sempre: este é o meu país, e não tenho mais sítio nenhum para onde ir. Para onde iria? Diz-me, onde é que eu me irritaria e protestaria assim contra tudo? E quem me quereria, de qualquer modo? Mas ao mesmo tempo também sei que o país não tem qualquer hipótese, não tem, percebes? Arranca o chapéu de cima do rosto e senta-se, espantada ao ver que ele está sentado a olhar para ela. Se pensarmos nisso com lógica, se pensarmos apenas em números, factos, e história, sem quaisquer ilusões, não tem qualquer hipótese.”
Sinopse:
Quando Ora se prepara para festejar a desmobilização do filho Ofer, ele volta a juntar-se voluntariamente ao exército. Num ímpeto supersticioso, temendo a pior notícia que um pai ou uma mãe podem ouvir, Ora parte numa caminhada para a Galileia, sem deixar qualquer rasto para os "notificadores". Recentemente separada do marido, arrasta consigo um companheiro inesperado: Avram, outrora o melhor amigo de ambos, o antigo amante, que tinha estado prisioneiro durante a Guerra do Yom Kipur e fora torturado, e que, destruído, recusara sempre conhecer o rapaz ou ter contacto com eles. Durante a caminhada, Ora vai desenrolando a história da sua maternidade e inicia Avram no drama da família humana - uma narrativa que mantém Ofer vivo, tanto para a mãe como para o leitor. A sua história coloca lado a lado os maiores sofrimentos da guerra e as alegrias e angústias quotidianas da educação dos filhos: nunca se viu tão claramente o real e o surreal da vida quotidiana em Israel, as correntes de ambivalência sobre a guerra numa família, os fardos que caem sobre cada nova geração. Numa situação de conflito coletivo e duradouro, como conciliar as preocupações individuais de uma mãe que, afinal, prefere a companhia de um filho à missão patriótica? Como manter a causa pacifista se aqueles que podem atirar contra um filho são justamente aqueles com quem se quer fazer a paz?
Mais para ler