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Roda Dos Livros

Roda dos Livros Sugestões de Leitura - Agosto de 2015

Roda Dos Livros, 23.08.15

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Foi a segunda vez que a Roda dos Livros veio a minha casa. Posso habituar-me a Rodar Livros no dia do meu aniversário. Amigos, livros, uma mesa cheia de comida, bebida e gargalhadas. Risos e abraços. A seriedade desmanchada da melhor tertúlia sobre leituras. Obrigada aos Rodistas (todos, todos, todos) por terem passado este dia comigo!

E do meio dos petiscos sempre a sair, graças ao Chef de serviço, obrigada Gil, foram surgindo as sugestões do costume:

Ana - Três homens num barco ( já para não falar do cão), de Jerome K. Jerome;

Patrícia - O Poço da Ascenção, de Brandon Sanderson;

Ana Sara - A Louca da Casa, de Rosa Montero;

Vera - A Herança de Eszter, de Sandor Márai; Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho;

Isabel - A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson, de Selma Lagerlöf; Se isto é um homem, de Primo Levi;

Márcia - Os meus sentimentos, de Dulce Maria Cardoso;

Nuno - Disse-me um Adivinho, de Tiziano Terzani;

Sofia - A Espia do Oriente, de Nuno Nepomuceno;

Um beijo a todos e muito obrigada por fazerem parte da minha vida! IMG_9806-2

 

A Small death in Lisbon / O ultimo acto em Lisboa, de Robert Wilson

Roda Dos Livros, 22.08.15

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O que une o homicídio de uma miúda em Lisboa com a história de um homem, pertencente às SS, em 1941 em Berlin?

É a resposta a esta questão que, numa primeira fase, os leitores deste livro vão procurar.

No final dos anos 90 uma miúda de 14/15 anos aparece morta na praia de Carcavelos e o investigador da Polícia Judiciária é o Zé Coelho. Paralelamente começamos a conhecer a história de Klaus Felsen, Alemão, que em 1941 se torna membro (algo forçado) das SS.

Não me vou alongar com a história deste livro, num policial/thriller é sempre difícil saber onde está a linha do “spoiler”.

Prefiro falar-vos do porquê deste ser um dos meus livros preferidos.

Robert Wilson aproveita uma história de mistério para nos contar uma parte da História de Portugal. Em 1941, Lisboa era uma cidade em movimento, Portugal era um país em mudança. Em plena segunda guerra mundial o nosso país era palco de cenas reais de espionagem e contra-espinagem, com nazis e aliados lado a lado entre o glamour do Estoril e o atraso do país. A verdade é que por aqui passaram gentes de todos os lados da Europa, uns em fuga para a América, outros a comprar ou apenas contrabandear bens. E Portugal tinha algo muito importante para os países em guerra: Volfrâmio. E tinha um ditador que jogava muito bem um jogo duplo.

E quantos de nós, Portugueses, conhecem este período da História? Confesso-vos que nunca ouvi falar da maioria disto nas aulas de história.

Neste livro reconheci cada Português. Mesmo quando preferia que aquela não fosse a nossa realidade, tenho que a reconhecer. Mesmo quando não gostava dos personagens (e há poucos, muito poucos neste livro de quem gostei) reconhecia-os.

Não sei como um leitor que não tenha qualquer ligação a Portugal reage a este livro mas imagino que não consiga apreciar a melhor parte desta história. Há personagens que, para muita gente, devem parecer muito pouco credíveis e no entanto são as mais reais, são as tais que me fazem gostar imenso desta história (veja-se, por exemplo, a mulher do Joaquim Abrantes ou o próprio Joaquim Abrantes).

Gostei da estrutura deste livro: duas histórias que acabam por se unir. Não é muito comum, não ajuda à leitura, tornando-a até difícil a princípio mas que acabou por me agradar (especialmente nesta releitura).

O final não me agradou a 100% devo confessar. É certo que não adivinhei o assassino (e eu gosto disso) mas pareceu-me algo rebuscado demais. Ainda assim isso não faz com que tenha gostado menos do livro por isso.

Continuo a recomendar a todos o “O último acto em Lisboa”.

Uma das minhas próximas releituras será o “Uma companhia de estranhos”, também deste escritor e também passado em Lisboa durante a segunda guerra Mundial.

Uma nota para as capas que aqui deixo: a horrível é a da minha edição em Português e a maravilhosa é a da minha edição de bolso em Inglês (entretanto ofereci-a, mas continuo a achá-la linda).

A magia dos números, de Yoko Ogawa

Roda Dos Livros, 22.08.15

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Uma maravilhosa história de amizade e números que me chegou às mão via Roda dos Livros (Obrigada Renata).

Yoko Ogawa conta-nos a história da amizade entre uma empregada de limpeza (e o seu filho Root (Ö)) e um matemático peculiar. Na sequência de um acidente a mente deste homem ficou sem capacidade de reter memórias por mais de 80 minutos. Como construir uma relação se todos os dias é necessário começar do zero?

Com uma carreira que se adivinhava fulgurante antes do acidente, este homem continua a depender dos números para existir e para além responder a desafios matemáticos numa das mais prestigiadas revistas da especialidade, é através da magia dos números que se relaciona com os seus únicos amigos, a empregada da limpeza e Root (porque tem cabeça de raiz quadrada), um menino com quem ainda partilha o amor pelo Basebol.

(e para mim que não percebo nada de basebol esta foi a parte mais chata deste livro)

Não é possível deixar de sorrir com as explicações matemáticas que se encontram nestas páginas. Explicar a amizade e a beleza da vida através da poesia dos números, sejam eles primos, amigos ou imaginários é absolutamente maravilhoso.

E porque será que a identidade de Euler foi tão importante nesta história? Será por ser considerada uma das mais belas fórmulas da matemática?

Para quem gosta de números e de beleza, este é um livro a não perder.

Para quem gosta de histórias, este é um livro a não perder.

Para que não gosta de números, este é um livro a não perder – há uma grande probabilidade de mudar de ideias.

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O poço da ascensão (Nascidos nas Brumas #2), de Brandon Sanderson

Roda Dos Livros, 22.08.15

o poço da ascensão

Kel, Vin e companhia venceram a batalha mas o custo pago pela derrota do senhor supremo deixou-lhes (e a nós) um gosto amargo e uma enorme incerteza acerca do futuro. A responsabilidade de manter a salvo a cidade de Luthadel recai nos ombros dos (previsíveis e imprevisíveis) sobreviventes.

Neste segundo volume da saga dos Nascidos nas Brumas Vin e Elend assumem o protagonismo dividindo-se entre a luz e as sombras, entre a política e a força.

O grupo de Skaa reunidos por Kel tem agora que provar ser digno o bastante para se manter ao redor de Elend e, mesmo sendo este a mais imprevisível escolha para suceder ao senhor supremo, apoiá-lo na que parece ser a missão mais impossível de todos os tempos. Depois da vitória inicial tudo se torna mais difícil. Luthadel é cobiçada por muitos e Vin, a mais talentosa dos nascidos nas brumas, encontra adversários à altura e terá que, vezes sem conta, contrariar a sua própria natureza e relembrar a mais importante lição que Kel lhe ensinou: a confiar.

Num volume muito mais lento que o primeiro (o que é inevitável uma vez que o mundo e sociedade estão já devidamente apresentados – e essa é sempre a melhor parte quando lemos fantasia, a surpresa da novidade) assistimos ao crescimento de Vin e Elend enquanto pessoas e líderes.

Grande parte do livro é bastante lento, debruçando-se sobre as dúvidas de Vin, acerca do passado, do futuro, das suas capacidades e da relação com os outros.

Personagens incontornáveis como Sazed ou o Coxo e o Ham continuam a ser parte importante desta história - afinal serão sempre o grande suporte de Vin- mas alguns perdem protagonismo para novos personagens que chegam para surpreender. Alguns até ficam um bocadinho esquecidos – mas ou muito me engano ou serão importantes no próximo volume.

Na verdade prefiro não falar sobre a história – surpreendam-se como eu – mas tenho que admitir que adorei mergulhar no fantástico mundo criado por Brandon Sanderson, que a Vin entrou direta e destacadamente para o top das minhas personagens femininas favoritas e que espero ansiosamente pela continuação (é já no dia 04 de Setembro) desta história.

Se gostam de fantasia não hesitem: leiam a saga Nascidos nas Brumas, os dois primeiros volumes não vos irão desiludir.

O império Final, de Brandon Sanderson

Roda Dos Livros, 22.08.15

o imperério final

Chegar a casa e ter um presente é óptimo. O presente ser um livro é Fantástico. Esse livro ser uma “novidade” do meu género (not, que não estou para isso) "guilty pleasure” é perfeito.

Por isso, numa semana em que o trabalho me estava a matar estive a ler este livro. E entre as muitas horas de trabalho a minha forma de “desanuviar” foi ler. Claro que me estiquei e roubei horas ao sono. Mas é tão bom ler até à exaustão. Ler pelo prazer de ler, mesmo quando essa leitura não nos ensina nada de mais, mesmo quando o livro não é assim TÃO bom. Ler até às 3h da manhã (a loucura para quem tem que estar a trabalhar no topo da forma às 8h do dia seguinte – as saudades de ser jovem e inconsciente!!!) .

O Império Final é o primeiro volume da saga Mistborn – Nascida das Brumas. Já li algures que a série será interminável (tudo o que tenha mais de 5 volumes é-o) mas para já estão escritos 4 volumes, 2 dos quais publicados em Português. Há em ebook (weee) mas também são caríssimos tal como o livro físico.

O mundo que Brandon Sanderson nos apresenta é “ligeiramente” diferente do nosso. Uma sociedade extremamente estratificada, com diferentes povos/raças (para já conhecemos os Terrisanos, os Skaa e os outros, os nobres mas tenho a impressão que ainda podemos vir a conhecer muitos mais) com diferentes poderes/funções. Para já sabemos que no poder absoluto está o Senhor Supremo um alomante poderoso.

A alomância é a capacidade de retirar poder da manipulação (queima) de determinados metais (há 10 conhecidos) que permitem aumentar certas capacidades (capacidades sensoriais, força, manipulação de emoções, etc) e é exclusiva da raça dos Nobres. Os terrisanos (habitantes de Terris) são Guardiões e têm a capacidade de armazenar capacidades. Os Skaa, até ver, não têm nenhuma capacidade especial (para além da capacidade de sofrimento) e acabam por ser escravizados com relativa facilidade. Mas podem facilmente imaginar o que acontece com alguém descendente de duas raças, certo?

Como habitualmente nestes livros a injustiça desta sociedade é imensa e é a história da resistência a este império que começamos a conhecer nesta livro.

Kelsier é o único sobrevivente dos “poços” e tem a audácia de tentar o impossível: reúne um grupo de ladrões Skaa  para tentar derrubar o império final. No meio desse grupo de especialistas está Vin, uma miúda com enorme talento e descendente de um nobre e que é “nascida das Brumas”. E mais não conto, se quiserem saber vão ler o livro.

Uma das coisas que mais me agradou neste livro foi a ausência de romance. Ok, a Vin tem uma paixoneta mas nada de especial. Foram a amizade e a confiança os sentimentos protagonistas do livro e isso é refrescante.

Nalgumas críticas que li por aí mencionavam a ausência de referências à existência de "classe média/operária" mas, apesar de serem breves e raras, há referências a actividades comerciais (de famílias de nobres) e à existência de artesãos (nomeadamente a loja do Coxo) pelo que se intui a existência de uma classe (transversal) de trabalhadores especializados mesmo que esses não sejam protagonistas nesta história.

Fiquei com vontade de ler mais e gostei imenso de voltar a ler algo (bom) de um dos meus géneros favoritos: Fantasia.

Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho

Roda Dos Livros, 22.08.15

Perguntem a Sarah Gross
A Márcia já me tinha avisado. Ainda assim não estava preparada para gostar tanto de um livro.
E quem não leu, vá ler. Não leia mais aqui. Não há spoilers mas aproveite a leitura sem saber nada, sem criar expectativas. Desconfio que isso não vai ser possível por muito mais tempo.
“Perguntem a Sarah Gross” que, como diz a editora Maria Do Rosário Pedreira no seu Horas Extraordinárias, é um dos mais internacionais livros publicados em Portugal. Generalizo a frase da editora porque concordo. Desejo a este livro o maior dos sucessos, Nacional e Internacional.
Comecemos pela parte que me fez hesitar quando decidi ler este livro e que é, na minha opinião, a parte menos surpreendente do livro. O Holocausto não é novidade e há quem já se recuse a ler mais sobre o assunto. Eu confesso que nem sempre me apetece fazê-lo. Ler sobre o holocausto é acrescentar cicatrizes à alma, é horrorizar-me outra e outra vez, é perder mais um bocadinho de fé e de esperança na humanidade. E às vezes não me apetece. E sim, neste livro há capítulos que nos fazem ficar com coração pequenino. E sim, é importante para a história. Acima de tudo essa parte está bem contada, não nos poupa a nada e ainda assim consegue fazer-nos sentir que estamos a ler tudo pela primeira vez… com tudo o que de bom e mau isso tem.
Mas não foi essa parte que me agarrou. Fiquei presa a esta história nas primeiras páginas. Fiquei rendida a todas as vozes e a todos os tempos. Fui-me deixando enredar na história e, desta vez, fui totalmente surpreendida. Não tive tempo para reflectir durante a leitura do livro. Li compulsivamente, o que não deixa de ser injusto porque a ânsia de conhecer o segredo de Kimberly e a história de Sarah não me deixou analisar pessoas e situações.
Isto porque este livro é muito mais do que apenas (mais) uma história do Holocausto. Tão, mas tão mais.

os meus sentimentos - Dulce Maria Cardoso

Roda Dos Livros, 18.08.15

osmeussentimentosIniciei este livro várias vezes sem nunca passar da primeira página. A dor das primeiras frases bloqueou-me, retraiu-me, assustou-me pelo que poderia vir a seguir. Mas, ao mesmo tempo, senti a necessidade de prosseguir a leitura, como se o livro me chamasse.

Porque mesmo as descrições mais dolorosas sobre temas particularmente assustadores, têm de ser lidas. Assim o obriga a excelência da escrita, imediatamente notória no início, e que, confirmo, é perfeita até à última página.

“inesperadamente

não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, durante algum tempo, segundos, horas, não sou capaz de mais nada,

inesperadamente páro

a posição em que me encontro, de cabeça para baixo, suspensa pelo cinto de segurança, não me incomoda, o meu corpo, estranhamente, não me pesa, o embate deve ter sido violento, não me lembro, abri os olhos e estava assim, de cabeça para baixo, os braços a bater no tejadilho, as pernas soltas, o desacerto de um boneco de trapos, os olhos a fixarem-se, indolentes, numa gota de água parada num pedaço de vidro vertical, não consigo identificar os barulhos que ouço, recomeço, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa,

são tão maçadoras as lengalengas”

Inevitavelmente, chegou o dia que comecei a ler este livro. Passei à segunda página a que se seguiram todas as outras. Foi das experiências de leitura mais magníficas que tive. Dolorosa. Como se me rasgasse por dentro de tão intenso. Pela história, pelas circunstâncias, pela construção de uma narrativa que parece confusa mas que se entende. Entendemos e lemos os pensamentos da personagem, Violeta.

E Violeta pensa como todos nós. Lembra-se do passado mais antigo, salta para o mais recente por causa de alguma memória que se atravessa, cruza acontecimentos, pessoas, recordações, e o leitor percebe. Entende e vive a dor de Violeta, percebe a amálgama de coisas que lhe surgem à velocidade do pensamento, identifica-se, porque todos pensamos assim, a um ritmo que só o próprio, por conhecer a sua história, acompanha.

No momento em que pensamos que vamos morrer revemos tudo o que fomos e fizemos, dizem. É o que acontece a Violeta, de cabeça para baixo no carro acidentado. Este livro é a viagem à vida de Violeta e lê-se com o ímpeto de um pensamento.

Escrever um livro assim é de uma capacidade surpreendente. Virei página depois de página sempre com a certeza de que, por muito que um livro exija de quem o escreve, é em livros como este que se distingue quem realmente tem o dom. E Dulce Maria Cardoso tem-no sem dúvida alguma.

“… não consigo estar acompanhada por muito tempo, nunca me habituei à presença dos outros, ainda não deixei de me espantar com os que não conseguem comer ou dormir sozinhos, com os que se queixam de solidão, talvez sejam felizes os que conseguem suportar os outros, mais felizes ainda os que precisam dos outros,…” (Pág. 25)

“… quando os dias são todos iguais há forçosamente um desentendimento com a vida,…” (Pág. 66)

“… não há nada que sobreviva ao silêncio, nada,…” (Pág. 148)

“… sonho muitas vezes que estou a voar, é um sonho muito vulgar mas conheço quem nunca tenha sonhado que voava, aliás há pessoas que não sonham, dormem apenas, limitam-se a dormir, deve ser muito triste,…” (Pág. 342)

Sinopse

“É uma noite de temporal. A noite do acidente. Há uma gota de água suspensa num estilhaço de vidro que teima em não cair. Há um instante que se eterniza. Reflectida na gota, Violeta mergulha nessa eternidade e recorda aquele que pode ter sido o último dia da sua vida. Na verdade, as memórias desse dia contam toda a história de Violeta: os pais, a filha, a criada, o bastardo, e em todos a urgência da vida, que prossegue indiferente, como a estrada de onde ainda agora se despistou. Nessa posição instável, de cabeça para baixo, presa pelo cinto de segurança, parece que tudo se desamarra. O presente perde a opacidade com que o quotidiano o resguarda, e Violeta afunda-se nos passados de que é feita, uma espiral alucinada de transparências e ecos.”

Tinta-da-china, 2014

A Herança de Eszter - Sándor Márai

Roda Dos Livros, 16.08.15

aherançadeeszterA sinopse resume bem a trama desta história.

"Instalada na casa que herdou do seu pai e com a única companhia de uma parente idosa, Eszter é uma mulher solteira que vive com a placidez de quem conseguiu adaptar-se ao que a vida lhe ofereceu. Até que um dia recebe um telegrama de Lajos,um velho amigo da família, anunciando a sua iminente visita. Um canalha encantador e sem escrúpulos, dotado de um poder de sedução irresistível, Lajos não só traiu o amor de Eszter, mas também destruiu a sua família e roubou tudo o que possuíam, excepto a casa em que vivem e o jardim com que subsistem. Eszter prepara-se então para o receber, comovida por um turbilhão de sentimentos contraditórios."

O que não nos conta, sabemos assim que começarmos a ler este romance, e ficamos absortos e inquietos com a força dos sentimentos expressos em personagens que são intemporais.

Sándor Márai tem uma escrita assim, perturbadora. E isto é dizer pouco. Escrita irrepreensível e acutilante que trespassa a couraça de duros e indiferentes e sem haver sangue. E tudo isto, apenas expondo sentimentos e emoções que ultrapassam a ficção. Provavelmente, o profundo conhecimento que tinha do coração humano não o permitiu continuar.

Em jeito de confissão, Eszter escreve a história do dia em que Lajos foi vê-la pela ultima vez e a roubou, bem como revela tudo o que sabe sobre ele. A sabedoria de Nunu e a fuga de Eszter, em luta contra um inimigo mais forte do que elas. Ardiloso e sem escrúpulos, consegue tudo o que quer, sem com isso trabalhar um dia, ou amar com coragem quem quer que seja. Um individuo que sabe o poder que detém, porque tem consciência de uma lei mais dura e severa que estabelece a ligação entre as pessoas e da qual não se pode fugir.

Um pequeno livro com uma grande história, que não nos deixa indiferentes.

O Fim Das Estações - Will North

Roda Dos Livros, 10.08.15

ofimdasestacoes Suponho que, todos os que temos este vicio de ler, temos alguns autores que seguimos com carinho. As histórias que nos contam, prendem-nos como encantamento, e é quase certo que todo o tempo de que dispomos para a leitura, é... impagável. Especial.

Will North é um desses autores que referi. Uma quase obsessão.

Narrativa forte, segura e cinematográfica, com personagens que nos marcam, e onde nada fica por contar. E sem cansar ou deixar pontas soltas. Histórias dentro da história.

Um grupo de pessoas, habitantes de verão duma pequena ilha, Madrona Beach, Seattle, viviam num "mundo aparentemente isento de problemas civis ou domésticos convencionais e imune ao crime, a sua riqueza fora da ilha funcionando como uma espécie de redoma de fibra de vidro que os isolava das fragilidades e tragédias humanas mais banais. (...) as pessoas de verão também sofriam. Mas guardavam-no para elas." (pag. 140)

Tão semelhante ao que pensamos dos ricos e famosos que acompanhamos através dos meios de comunicação, como se existissem a um nível superior do comum dos mortais, sem dificuldades de maior, sofrimento, perdas ou dor. Felizes e privilegiados, como se tratasse de uma graça divina. Esquecemos que, os sentimentos e emoções são comuns, bem como os erros.

Famílias. Ligadas durante anos. E o quanto ocultam. E que deliciosa comédia de costumes vamos desvendando gradualmente, em suspense, numa paisagem de sonho. Colin, preconiza um ideal masculino, de tão integro e humano. Como o autor deve ser.

Sinopse:

A caminho do trabalho, Colin Ryan encontra Pete - a mulher que ama há 30 anos e que é casada com o seu melhor amigo - caída inconsciente numa curva perigosa da estrada. Acreditando tratar-se de uma tentativa de suicídio, Colin faz o que sempre fez desde que se iniciou a sua amizade turbulenta: trata de Pete e conforta-a, atento às pistas que poderão resolver o mistério que a deixou quase moribunda à beira da estrada enevoada.

“Os enamoramentos” de Javier Marías

Roda Dos Livros, 09.08.15

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Este é um texto curto. É inevitável que o seja porque é, sem dúvida alguma, muitíssimo melhor ler as palavras da escrita magnífica de Javier Marías do que as minhas; os excertos transcritos abaixo não passam de uma parca amostra da sua capacidade para transformar palavras em arte . Colocando em cima da mesa a velha questão do que é mais importante num livro, o seu enredo ou o estilo adoptado pelo autor para contar a história, então, este “Os enamoramentos” vem, em minha opinião, defender de forma absolutamente brilhante, a segunda premissa, a da forma como tudo nos é narrado. A história é antiga como o mundo, pelo menos desde que existe literatura, talvez mesmo desde que existimos como espécie; um casal tremendamente apaixonado e feliz é desfeito pela morte de um dos seus membros e o melhor amigo do cônjuge morto está, desde há muito, apaixonado pela viúva. Até aqui, nada de novo. O que me arrebatou nesta leitura foi o modo genial como Javier Marías disseca a alma humana, o amor, o desejo, o luto, a violência, o sofrimento e o próprio sentido da realidade. Nada do que eu escreva poderá fazer justiça a este romance maravilhoso e tremendamente bem escrito, nada...

Aqui ficam alguns excertos para aguçar a curiosidade. Por mim, planeio continuar a explorar a obra deste autor fantástico.

Excertos:

“Convive-se sem problemas com mil mistérios por resolver que nos ocupam durante dez minutos de manhã e que depois se esquecem sem nos deixar inquietação nem rasto. É preciso não aprofundar nada nem demorar muito tempo em qualquer facto ou história que nos desvie a atenção de uma coisa para outra e que nos reitere as desgraças alheias, como se depois de cada uma pensássemos: “Olha que horror. E pronto. De que outros horrores nos teremos livrado? Precisamos todos os dias de nos sentir sobreviventes e imortais, por contraste, e assim, contem-nos atrocidades diferentes, porque as de ontem já as gastámos.”

“É outro dos inconvenientes de ser vitimado por uma desgraça: em quem a sofre os efeitos duram muito mais do que dura a paciência dos que se mostram dispostos a ouvi-lo e a acompanhá-lo, a incondicionalidade nunca é muito longa e tinge-se de monotonia. E assim, mais tarde ou mais cedo, a pessoa triste fica só quando ainda não terminou o seu luto ou já não se lhe consente que fale mais daquilo que ainda é o seu único mundo, porque esse mundo de angústia é insuportável e afugenta. Verifica que para os outros qualquer desdita tem uma data de caducidade social, que ninguém está disponível para a contemplação do desgosto, que esse espectáculo só é tolerável durante uma breve temporada, enquanto nele existe ainda comoção e dilaceração e uma certa possibilidade de protagonismo para os que olham e assistem, que se sentem imprescindíveis, salvadores, úteis.”

“Os filhos dão muita alegria e tudo isso que se costuma dizer, ma stambém dão muita aflição, permanentemente, e não creio que isso mude nem sequer quando crescem, e disso já se fala menos. Vemos a sua perplexidade diante das coisas e isso faz aflição. Vemos a sua boa vontade, quando lhes apetece ajudar e colaborar e não conseguem, e isso também faz aflição. São aflitivas a seriedade deles e as suas brincadeiras elementares e as suas mentiras transparentes, afligem-nos as suas desilusões e também as suas ilusões, as suas expectativas e as suas pequenas desilusões, a sua incompreensão, as suas perguntas tão lógicas, e até a sua ocasional má intenção. Aflige-nos pensar em quanto lhes falta aprender, e no longuíssimo percurso que enfrentam e que ninguém pode fazer em seu lugar, mesmo que levemos séculos a fazê-lo e não vejamos a necessidade de que tudo o nasce tenha de começar outra vez do princípio. Que sentido faz que cada um passe pelos mesmos desgostos e descobertas, mais ou menos eternamente?”

“O mundo é na verdade tanto dos vivos e tão pouco dos mortos – se bem que permaneçam todos na terra e sejam muitos mais – que aqueles tendem a pensar que a morte de um ente querido é qualquer coisa que se passou com eles mais que com o defunto, com quem na verdade se passou. Foi ele que teve de se despedir, quase sempre contra sua vontade, foi ele que perdeu quanto estava para vir (ele que já não viu crescer e mudar os filhos, como por exemplo no caso de Deverne), ele é que teve de renunciar à sua vontade de saber ou à sua curiosidade, ele é que deixou projectos por cumprir e deixou de pronunciar palavras para as quais sempre julgou que haveria tempo mais tarde, ele é que já não pôde assistir; foi ele, se era autor, que não pôde completar um livro ou um filme ou um quadro ou uma composição, ou que não pôde acabar de ler o primeiro ou de ver o segundo ou de ouvir o quarto, se era apenas receptor.”

“(...) e o que se conta de nós contribui para nos definir, mesmo que seja superficial e inexacto, no fim de contas não podemos deixar de ser superficiais para quase toda a gente, um esboço, uns meros traços desatentos.”

“Quando uma pessoa deseja uma coisa durante muito tempo, é muito difícil deixar de o desejar, isto é, admitir ou dar-se conta de que já não a deseja ou de que prefere outra coisa. A espera alimenta e potencia esse desejo, a espera é acumulativa relativamente ao que espera, solidifica-o e torna-o pétreo, e então resistimos a reconhecer que malbaratámos anos enquanto aguardávamos um sinal que, quando finalmente aparece, já não nos tenta, ou os dá uma infinita preguiça de acorrer à sua chamada tardia de que agora desconfiamos, talvez porque não nos convém mover-nos. Acostumamo-nos a viver dependentes da oportunidade que não chega, no fundo tranquilos, a salvo e passivos, no fundo incrédulos de que alguma vez venha a surgir.Mas, ai, ao mesmo tempo ninguém renuncia totalmente à oportunidade, e esse prurido desvela-nos, ou impede-nos de submergir no sono profundo.”

(...) se à nossa volta vive gente de talento nulo que consegue convencer os seus contemporâneos de que o possui imenso, e tolos e aldrabões que fingem com êxito ao longo de metade da vida ou mais serem de inteligência extrema e que são escutados como oráculos; se há pessoas nada dotadas para aquilo a que se dedicam e que no entanto aí fazem uma fulgurante carreira debaixo de universal aplauso, pelo menos até à sua saída do mundo que acarreta o seu imediato esquecimento(...)

“- O que se passou é o menos. Trata-se de um romance, e o que neles acontece tanto faz, e esquece-se logo que acabam. O que é interessante são as possibilidades e ideias que em nós inoculam e que nos trazem através dos seus casos imaginários, ficam em nós com maior nitidez que os acontecimentos reais e damos-lhes mais importância.”

“As verdades inverosímeis prestam-se a isso e a vida está cheia delas, muito mais que o pior romance, nenhum se atreveria a acolher no seu seio todos os acasos e coincidências possíveis, infinitos numa só existência sem falar na soma das que houve e das que ainda decorrem. É sufocante que a realidade não imponha limites.”