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Roda Dos Livros

O Caso do Cadáver Esquisito - Vários Autores

Roda Dos Livros, 28.07.15

ocasodocadaveresquisitoE foi num pedaço de uma tarde que me deliciei com este livro. Patrícia Portela, Afonso Cruz, Miguel Castro Caldas, Joana Bértholo, Paulo Condessa, Sandro William Junqueira, Luís Caminha, Jacinto Lucas Pires, Ondjaki, Rita Taborda Duarte e Pedro Medina Ribeiro dão voz a esta novela policial. A cada autor o seu capítulo, um excelente trabalho de imaginação em que cada um “pega” no história onde o autor anterior a deixou.

Temos assim um argumento pejado de crimes com desfecho imprevisível, pois que a narrativa segue a orientação de quem, no momento, “manda” na história. Certamente um desafio e uma experiência muito interessantes para quem escreve, mas para quem lê é realmente divinal. Gostei muito de apreciar as reviravoltas, a forma como, em capítulos tão pequenos o percurso da narrativa muda radicalmente. O final de cada capítulo tem sempre uma espécie de “isco” de continuidade, que é “agarrado” da forma que cada um quer, que não será certamente a imaginada por quem lançou o “isco”.

A imprevisibilidade dá uma sensação de liberdade revigorante, e o “ser dono do seu capítulo” não individualiza a obra, ao contrário, partilha-a. Uma partilha entre os autores, que se devem ter divertido à brava a construir tudo isto (e a destruir também, pois ainda ficam uns cadáveres esquisitos pelo caminho), e também com os leitores, que assistem de camarote a um fantástico trabalho de criatividade.

Eu gostei bastante e tenho pena que livros como este sejam difíceis de encontrar. A mim emprestaram-mo, obrigada Ana, e penso que quem quiser terá de contactar a Associação Cultural Prado. Leiam e divulgem. Merece o vosso interesse.

Ilustrações de Maria João Lima

Deixo-vos o vídeo delicioso da apresentação deste livro.

http://www.youtube.com/watch?v=-XOfdDgUR5A

Sinopse

“"O Caso do Cadáver Esquisito" é um livro escrito a 24 mãos (11 escritores e 1 designer) que relata o caso de um detective português que encontra numa série de crimes peculiares – e nas misteriosas inscrições gravadas nos corpos das vítimas – a razão de ser da sua natureza: de poeta... e de assassino. Uma novela policial edificada sobre os pilares da fórmula surrealista cadavre exquis, reunindo debaixo ou dentro da mesma capa o contributo de alguns dos mais promissores e mais curiosos/esquisitos autores da língua portuguesa da actualidade.

Autores: Afonso Cruz, Jacinto Lucas Pires, Joana Bértholo, Luís Caminha, Maria João Lima (grafismo), Miguel Castro Caldas, Ondjaki, Patrícia Portela, Paulo Condessa, Pedro Medina Ribeiro, Rita Taborda Duarte, Sandro William Junqueira. Edição e produção Prado: Isabel Garcez, Helena Serra, Patrícia Portela e Pedro Pires.”

Associação Cultural Prado, 2011

“O Inverno do nosso descontentamento” de John Steinbeck

Roda Dos Livros, 26.07.15

steinbeck

Ao mesmo tempo que lançam um encantamento poderoso sobre o leitor, as palavras de um grande escritor inquietam, desassossegam e suscitam reflexões sobre este mundo que partilhamos, sem nunca perder de vista o prazer singular da leitura. Percorrendo os escaparates das livrarias percebe-se de imediato que, apesar da actual voragem efémera do mercado editorial, há obras e autores que perduram através das gerações. Perduram porque o merecem, porque traduzem de forma brilhante e superior as grandes questões humanas, aquelas que são em si mesmas também eternas, omnipresentes, qualquer que seja o tempo, qualquer que seja o lugar. Para mim, Steinbeck é um destes gigantes imortais tanto pela elegância, ironia e, por vezes, beleza da sua escrita quanto pelos temas abordados. Não me arrogo o direito de fazer crítica literária e estas linhas não passam de uma opinião de mera leitora, mas arrisco-me a dizer que neste romance encontrei alguns dos diálogos mais interessantes e acutilantes que alguma vez li. Aliás, quase todo o livro é assim, uma sucessão de conversas magnificamente construídas que nos apetece reler e reler...Apesar de escrito no início da década de 60 do século passado, “O Inverno do nosso descontentamento” é ainda perfeitamente actual. Diria mesmo que é extraordinariamente actual; a ganância, a desonestidade, a leviandade e o vazio moral que expõe continuam, infelizmente, a ser prevalentes nas nossas sociedades onde, para alguns, os fins justificam todos os meios mesmo implicando o grave prejuízo de outras pessoas. O protagonista, Ethan Allen Hawley, é um homem de valores morais fortes cujo percurso se torna progressivamente mais dúbio e opaco sob a intensa pressão familiar. Apesar de relutante em abdicar dos seus princípios, Ethan acaba por não conseguir resistir a uma certa coacção social que dita que apenas aqueles que têm muito dinheiro e, como tal, um elevado estatuto, são dignos de apreço e respeito. É fantástica a forma como Steinbeck constrói o cerco em torno desta personagem notável e também como termina este livro, um daqueles que, volta e meia, se procuram na estante para ler de novo algumas passagens.

Mais não digo para não desvendar a história, mas se nunca leram “O Inverno do nosso descontentamento”, porque não lê-lo em breve ou mesmo agora?Os excertos são, mais uma vez, algo longos. Destinam-se a quem seja suficientemente curioso e/ou paciente e são apenas uma pequeníssima parte das inúmeras passagens maravilhosas deste livro.

Excertos:

“Lembro-me de, em criança, rastejar entre livros de capas brilhantes, ou, amargurado por aquela vida meio fantástica que caracteriza a solidão, ter-me refugiado no sótão para me enrolar numa grande poltrona modelada à forma do meu corpo, numa luz azul de alfazema coada pelas janelas. (...) É um lugar acolhedor, maravilhoso, quando a chuva se abate sobre o telhado. E os livros inundados de luz, os livros de imagens que serviram a crianças há muito tempo mortas de velhice, colecções de romances baratos, pilhas de estampas mostrando as manifestações do poder divino: incêndios, inundações, maremotos e terramotos.”(...)Quem confia os seus segredos ou uma história deve contar com a pessoa que o escuta ou lê, pois uma história tem tantas versões como leitores. Cada um toma dela o que quer ou o que pode, talhando-a assim à sua própria medida. Alguns aceitam uma parte e rejeitam o resto, outros passam-na à peneira dos seus conceitos, outros ainda transformam-na a seu bel-prazer. Uma história, para poder agradar, deve ter alguns pontos de contacto com o leitor. Só assim ele aceitará a parte maravilhosa.”

“Somos todos, ou quase todos, os pupilos daquela ciência do século XIX que nega a existência de tudo quanto não se pode medir ou explicar. O que não explicamos nem por isso deixa de existir, mas certamente não recebe a nossa bênção; não aprendemos o que não explicamos e assim o mundo , na sua maior parte, fica abandonado às crianças, aos anormais, aos imbecis e aos místicos, todos eles muito mais interessados pela existência das coisas do que pela razão de ser dessas mesmas coisas. Se tantas coisas velhas e adoráveis foram relegadas para o sótão do mundo é porque não queremos que elas continuem perto de nós, e , contudo, não ousamos deitá-las fora.”

“Nenhum homem sabe verdadeiramente como são os outros. O que mais pode fazer é supô-los semelhantes a si.”

“Existem devoradores e devorados. Aí está uma boa regra a ter em atenção. Os devoradores serão mais imorais que os devorados? Por fim, todos serão comidos – engolidos pela terra - , mesmo os mais impetuosos e os mais fortes.”

“O êxito comercial na nossa cidade não é complicado nem obscuro. Também não é sensacional. Os seus responsáveis souberam impor limites artificiais às suas actividades. Os seus crimes são pequenos e os seus êxitos medíocres. Se os métodos da administração municipal e comercial de New Baytown fossem estudados com cuidado, descobrir-se-ia a violação de cem regras legais e de mil regras morais. Mas não são mais do que infracções menores, roubos insignificantes. Ignoram uma parte do Decálogo e observam o resto. E, logo que um destes respeitáveis cidadãos obtém o que queria ou aquilo de que tinha necessidade, volta às suas virtudes com a mesma facilidade com que muda de camisa.”

“- Lembras-te das minhas condecorações?- Das tuas medalhas da guerra?- Foram-me atribuídas por actos de selvajaria. Nenhum homem sobre a Terra tem um coração tão longe do crime como eu. Mas fizeram uma outra caixa na qual me encerraram. Essa formou-me para o massacre, e eu obedeci.”

“Para a maior parte das pessoas, o sucesso nunca merece censura. Quando Hitler triunfava apareceu muita gente que nele encontrou virtudes. De Mussolini dizia-se que fazia partir os comboios à hora. Vichy, se colaborou, foi para bem da França. Quanto a Estaline, uma só coisa interessava: era poderoso. Poder e sucesso estão acima da moralidade e da crítica. O que se faz não é nada, mas a maneira como se age e o nome que se dá aos nossos actos é que é tudo. Os homens estão munidos de um dispositivo interno que os faz parar e os castiga? Parece que não. O único castigo é o insucesso. Não há crime se o criminoso não é apanhado. Na operação que se preparava em New Baytown, alguns homens ficariam prejudicados, outros mesmo arruinados, mas essa ideia não faria deter os seus autores.”

" A magia dos números" de Yoko Ogawa

Roda Dos Livros, 21.07.15

 

A_Magia_dos_N_merosEste romance de Yoko Ogawa revelou-se uma grande e deliciosa surpresa; nunca me tinha passado pela cabeça que a matemática poderia ser abordada com uma linguagem tão poética e que esta história, construída em redor de 3 personagens à semelhança de um haiku composto de 3 versos, seria afinal uma maravilhosa fábula sobre a capacidade humana de estabelecer pontes entre existências substancialmente diferentes mas partilhando um certo sentimento de limitação, isolamento e perda. Não querendo desvendar demasiado o enredo deste “A Magia dos Números”, direi apenas que esta narrativa de um antigo professor de matemática, atingido por um grave problema de memória, cuja solidão é quebrada pela enorme compaixão e atenção dedicada da sua nova empregada doméstica e pelo contacto com o filho de 10 anos desta me encantou.

Delicado, subtil e enternecedor, foi uma leitura tremendamente apreciada e serenamente degustada. Os seus personagens não têm nomes, como se a identidade não fosse importante, pois o essencial radica na relação invulgar que estabelecem entre si. Esta leva-os a ultrapassarem as suas limitações de modo a serem capazes de alcançar a essência do outro, de comunicar verdadeiramente. O professor de matemática, apaixonado pela sua disciplina, redescobre a alegria de ensinar através de uma criança curiosa e a empregada doméstica, impedida pelas circunstâncias da vida de atingir um nível de estudos superiores, percebe que não há barreiras para a compreensão, desde que tudo seja apresentado da forma mais adequada a cada um. Aqui a matemática não aparece como uma matéria enfadonha e intragável mas sim como uma linguagem quase mágica, capaz de apreender e revelar a verdadeira natureza da realidade e os segredos do universo, para além de marcadamente lúdica. Neste entrelaçar da matemática, da compaixão e da bondade, os três personagens vão tecendo uma amizade forte que lhes dá o impulso necessário para saírem das suas conchas e irem mais além. Neste livro a razão e a emoção estão exactamente onde devem estar; de mãos dadas, enraizadas uma na outra pois assim é a natureza humana: um equilíbrio delicado entre ambas.

Excertos:“Raiz de 100 igual a 10, raiz de 16 igual a 4, raiz de 1 igual a 1, por isso raiz de -1 igual a...O professor nunca nos pressionava. Acima de tudo gostava de observar os nossos rostos enquanto reflectíamos.- Talvez esse número não exista? – comecei eu prudentemente .- Sim, está aqui – disse ele apontando para o peito. – É muito discreto, não se dá a ver mas está no interior do coração e suporta o mundo com as suas mãozinhas.”“Pelas minhas suposições, parecia-me que o charme dos números primos talvez residisse no facto de não se poder explicar a ordem por que surgem. Preenchendo a condição de não ter por divisores nenhum número a não ser eles próprios e 1, dispersavam-se no meio dos outros a seu bel-prazer. Mesmo que fossem cada vez mais difíceis de encontrar à medida que cresciam, era impossível ter o conhecimento prévio do seu aparecimento através de uma regra definida, e essa fantasia voluptuosa prendia o professor, que buscava a beleza perfeita.”“A utilização generosa que fazia da expressão “não saber” era uma outra maravilha do ensino do professor. Não saber não era vergonhoso, pois permitia tomar outra direcção na busca da verdade. E, para ele, ensinar a realidade de existirem ali possibilidades intactas era quase tão importante como ensinar teoremas já demonstrados.”“- É precisamente por não servir para nada na vida real que a ordem da matemática é bela. Mesmo que a natureza dos números primos se revele, a vida não se irá tornar mais fácil, nem se vai ganhar mais dinheiro. É claro que, mesmo estando de costas viradas para o mundo, encontramos todos os exemplos que quisermos de descobertas matemáticas que acabaram por ser postas em prática na realidade.(...)Contudo, não é esse o objectivo da matemática. O objectivo da matemática é tão-só fazer emergir a verdade.(...)-A verdade eterna, que não é influenciada nem pela matéria, nem pelos fenómenos naturais ou pelos sentimentos, é invisível. A matemática pode elucidá-la ou exprimi-la. Nada pode impedir isso.”“Na minha imaginação, o criador do Universo estava a fazer renda num canto qualquer lá para os confins do céu. Com um fio tão fino que deixava passar a luz. O desenho só existia na cabeça do seu criador, ninguém podia apoderar-se dele, nem prever o padrão que viria a seguir. A agulha estava em constante movimento. A renda estendia-se até ao infinito, formava ondas, ondulava ao vento. Apetecia pegar nela para a expor à luz. Em êxtase, à beira das lágrimas, o nosso rosto era aflorado por ela. E ansiava-se por poder representar por palavras os motivos representados. Bastaria um fragmento minúsculo, que pudéssemos levar de volta para a Terra.”

"Vida e Destino" de Vassili Grossman

Roda Dos Livros, 19.07.15

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“Criámos livros que são flores: louvados pela sua beleza. Mas criámos outro,único, que é como a semente: faz crescer flores dentro da alma.”

Afonso Cruz in “Para onde vão os guarda-chuvas”

“Caminho para a liberdade com o corpo amarrado pelos meus próprios pensamentos”

Márcia Balsas in “Tempo vazio” (“Desassossego da Liberdade”)

 Há muito tempo que “Vida e Destino” estava na minha lista de “A ler”. Iniciei a leitura com emoções contraditórias: entusiasmo ante a expectativa de mais um livro fascinante e algum medo de que esta, afinal, não viesse a tornar-se realidade. Mas tornou-se e como!  Este livro, levado secretamente para a Europa Ocidental após ter sido apreendido e censurado na antiga URSS, veio ocupar um lugar de honra na “prateleira mental” das leituras marcantes e inesquecíveis. Tudo me cativou e a extensão da sua narrativa nunca foi sentida como excessiva ou entediante. Desde descrições belíssimas da floresta e da estepe russas  e da narração tocante e aterradora do horror da batalha de Estalinegrado e dos campos de concentração, tanto nazis como soviéticos, até às suas personagens, quase todas ricas em matizes, contraditórias e imersas em dilemas ou no sofrimento decorrente da guerra, tudo nesta obra me emocionou.   Senti que este foi um livro escrito com alma, que constitui um testemunho real das questões que atormentavam Vassili Grossman, o qual morreu mais de 10 anos antes da sua publicação. Dois dos regimes mais horrendos do século XX constituem o fulcro de “Vida e Destino”: o nazismo e o comunismo soviético sob Estaline. São como dois irmãos, gémeos idênticos, na convicção absurda da justeza absoluta das respectivas “verdades” perante as quais a tortura e o extermínio de milhões de pessoas é “normal” e perfeitamente justificável. Ambos, pelas culturas de medo que impuseram, conduziram à escravidão última, aquela que transforma seres humanos em autómatos telecomandados, incapazes de agir de acordo com a sua consciência, esvaziados de qualquer possibilidade de escolha e obrigados a obedecer cegamente a um regime assente na violência mais abjecta.Assinalei imensas passagens deste romance notável que termina deixando as suas personagens imersas em cenas das respectivas realidades quotidianas, sem lhes conceder um desfecho definitivo, como que para mostrar, que apesar de tudo, do medo, da violência, da pobreza, da dor, sobrevive-se e a vida continua, imparável, sempre. Não as posso transcrever todas, deixo aqui apenas algumas daquelas que mais me tocaram. Excertos:“Lá, no bunker, sentia que era o senhor, o mecânico.Mas aqui foi dominado por um sentimento completamente diferente... O clarão por cima de Stalinegrado, os vagarosos ribombos vindos do céu – tudo isso impressionava pela força e paixão gigantescas, independentes do comandante.No meio do estrondo do tiroteio e das explosões, do lado das fábricas, chegava-lhe um som quase inaudível, arrastado:a-a-a-a-a...Neste grito arrastado da infantaria de Stalinegrado em contra-ataque havia qualquer coisa não só ameaçadora, mas também triste, amargurada.-A-a-a-a – propagava-se por cima do Volga...o “hurra” do combate, ao voar por cima da fria água nocturna sob as estrelas do céu outonal, parecia perder o ardor da paixão, transformava-se, e impregnava-o de uma essência muito diferente –não era fogosidade nem bravura, mas a tristeza da alma como que a despedir-se de tudo o que lhe era querido, como que a pedir que todos os seus familiares acordassem, que levantassem a cabeça da almofada, que ouvissem pela derradeira vez a voz do pai, do marido, do filho, do irmão...A angústia do soldado apertou o coração do general.”“Toda a gente tem culpa para com uma mãe que perdeu o filho na guerra, e é em vão, que durante toda a história da humanidade, tentam justificar-se perante ela.”“A história humana não tem sido uma batalha do bem a tentar vencer o mal. A história humana é a batalha do grande mal a tentar triturar a semente do humanismo. Mas, se o humano não foi morto no homem, mesmo hoje, o mal será incapaz de vencer. (...) Perante ela (a bondade), o mal é impotente. Ela, o amor cego e mudo é o sentido do homem.”“O reflexo do Universo na consciência humana constitui a base da força e do poder do homem, mas a vida torna-se felicidade, liberdade, sentido superior apenas quando o homem existe como mundo impossível de alguma vez ser repetido por alguém, no infinito do tempo. Apenas neste caso o homem experimenta a felicidade da liberdade e da bondade, encontrando em outras pessoas o que encontrou em si próprio.”“ Sentiu fisicamente a correlação entre o peso do frágil corpo humano e do Estado gigantesco, pareceu-lhe que o Estado estava a perscrutar a sua cara com enormes olhos claros, que a qualquer momento ia cair em cima dele, e então daria um estalido, soltaria um pio, um guincho e deixaria de existir.”

Roda dos Livros Sugestões de Leitura - Julho 2015

Roda Dos Livros, 18.07.15

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Mais uma tarde de Roda dos Livros com menos participações devido à época de férias. A discussão foi mais alargada. A ilusão de que o tempo dava para tudo proporcionou conversas mais descontraídas e mais tempo para falar de cada livro. Inevitavelmente, a hora de fecho apanhou-nos, como sempre, de surpresa. Fechar janelas, arrumar a sala, livros para os sacos, e na Biblioteca, agora, só em Setembro.

Cris . A História Secreta, de Donna Tartt;

Renata - A Magia dos Números, de Yoko Ogawa;

Patrícia - Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho; Colectânea de Contos Desassossego da Liberdade;

Catarina - Era uma vez em Goa, de Paulo Varela Gomes;

Márcia - O Dia em que o Sol Se Apagou, de Nuno Gomes Garcia;

Ana - Onze, de Mark Watson;

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era uma vez em goa – paulo varela gomes

Roda Dos Livros, 14.07.15

Screen Shot 2015-07-11 at 10.35.41Adoro viajar, adoro ler, ler livros com viagens lá dentro é um bónus. A este até lhe mudei o nome, enquanto o li foi “uma viagem a goa”.

Vamos por Goa adentro com o Graham um inglês totó (nem sabe onde fica Portugal!) que os goeses teimam em pensar que é um espião português só porque é moreno com ar tuga em vez de loiro com olhos azuis, como todos os ingleses devem ser: “you angrez? You look pacló”.

Graham anda ao Deus dará e chega a Goa à procura de uma paisagem “de postal”, praia de areia branca, mar azul, coqueiros perfeitos inclinados para o mar...

Achei a ideia de procurar uma paisagem de sonho muito à frente para a época retratada no livro, anos 60, altura em que a Índia anexou Goa. Acho que nessa altura as pessoas pensavam em tudo menos em férias numa praia com coqueiros ou, se calhar, eram só os portugueses que tinham outras coisas em que pensar.

Embora Graham não encontre a praia paradísica que procura, há bosta de vaca no areal, a areia é cinzenta e a água parda, encontra a hospitalidade Goesa:

No chão havia uma barra de sabão azul e branco e não o pratinho com um líquido de textura duvidosa com que fingia que me lavava há semanas e semanas, pensão rasca após pensão rasca. Sabão azul e branco. Civilização. Um palácio.”

“... o que eu tinha dentro do prato, no meio dos vegetais cheios de massala, era, palavra de honra, um bife. Cortei e provei: apesar do picante, do vinagre, de um sabor esquisito, aquilo era carne e não tinha ossos. Era portanto e definitivamente um bife.”

Encontra também a Casa do Antonio, é com o António que resolve transformar a casa num hotel e quase tem um ataque cardíaco só a lidar com o pessoal das obras, a descrição é hilariante. Temos aliás, muito bom humor neste livro até nas notas de rodapé e embora estas nos digam muitas vezes que o autor não sabe quase nada, o autor sabe muito. Nesta história, consegue colocar o agente da PIDE Casimiro Monteiro e o escritor Graham Green a interagir com o nosso inglês tótó de uma forma espectacular como nos diz porque é que dos vencidos não reza a história: Viste a pensão Lisboa? Agora é Gomes não sei quê. Amanhã será Gomantak ou coisa assim.

Para além disso escreve coisas deliciosas, ora leiam:

“O Camião saiu do meio das bonitas casinhas nos arredores de Mapuça e foi andando todo contente, sempre a apitar, por uma estrada alcatroada que tinha coqueiros de ambos os lados, arrozais zonzos de tanta cor esmeralda e tão brilhantes brilhos de água, uma igreja faiscante de branco contra uma encosta encharcada de verde. Aquilo era lindo, lindo, palavra de honra”

Já alguma vez tiveram saudades de um sítio onde nunca estiveram? Eu nunca fui a Goa e tenho vontade de lá voltar.

O Dia em Que o Sol Se Apagou - Nuno Gomes Garcia

Roda Dos Livros, 09.07.15

O Dia em Que o Sol se Apagou“O Dia em Que o Sol Se Apagou” recordou-me que os livros se devem apreciar devagar. Que a leitura lenta é um prazer. Que a releitura de algumas passagens é uma nova descoberta.

De tudo isto me tinha esquecido há anos, deixando-me pressionar pelo interesse nos livros por ler, deixando-me levar pelo desejo de saber o final, querendo simplesmente ler rápida e sofregamente, para ler sempre mais e mais livros. Possivelmente é chegada a hora de deixar de coleccionar leituras. É talvez a hora de aprender realmente a ler. Como quando se aprende a apreciar vinho, e se percebe, com o tempo, o que se ganha em esperar.

Como um bom vinho, este Sol que Se Apaga, tem o seu tempo de degustação. Degustei o primeiro capítulo várias vezes. E a habilidade da escrita permitiu-me lê-lo de várias formas diferentes, conforme avançava na leitura. Desde a primeira vez, achando que não fazia sentido, a segunda tendo claramente encontrado um erro cronológico grave, e tantas vezes lá voltei para confirmar, certificar, apurar, e concluir que tudo bate certo, não há erros, há sim um romance desafiador, construído de forma brilhante, e que, para minha sorte, tem algumas das coisas que eu mais gosto num livro: História, viagens, muito mistério e alguma fantasia. Esta última, na verdade, não sabia que gostava. Possivelmente, neste caso, gostei por ser dada em doses controladas e cuidadas, quase parecendo realidade. O poder de um livro pode medir-se pela forma como o impossível, ou pouco provável, é um dado adquirido de realidade para quem lê. Como um menino a quem roubaram os olhos existir, depois de ter cegado gente com o brilho do olhar.

Este é um romance que se apoia em factos históricos de forma rigorosa, revelando um cuidado na linguagem, adequada à época. Viajei com Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva descobrindo locais exóticos onde o prazer nunca é excessivo, mas ao mesmo tempo fiquei num Portugal tacanho e sombrio, país de alma doente e fechada. Uma narrativa que, ao mesmo tempo que segue a linha esperada, se desvia do que é espectável, em saltos de espaço e tempo, obrigando a uma atenção, a uma participação activa para seguir os acontecimentos. Parece algo complexo e difícil. Mas não. É fácil. Torna-se um projecto, uma vontade, um tem de ser porque se lê com tanto gosto. Um prazer desafiante, muito mais profundo do que parece à partida, e com uma actualidade surpreendente.

Um livro que, estou certa, ninguém lerá da mesma forma. Por permitir criar tantos cenários de possibilidade, por oferecer várias interpretações, por não se esgotar.

Excelente. Recomendo sem reservas.

“- O mundo apequena-se a cada expiração que damos ou a cada passo que percorremos – expliquei-lhe. – E novas terras são descobertas todos os dias.” (Pág. 225).

Sinopse

“No dia 26 de março de 1487 o sol apaga-se subitamente no reino de Portugal. Sem explicação para tão súbitas trevas - que uns atribuem à maldade castelhana e outros à heresia dos judeus -, D. João II envia dois espiões em demanda da solução que restitua a luz ao País e evite o seu definhamento. Com Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva irá também, guardado num estojo, um par de olhos de diamante que outrora pertenceram a um menino chamado Mil-Sóis, cujo olhar cegava quem o encarasse, e que são a peça fundamental desta missão.Enquanto Pêro da Covilhã narra o seu périplo de Lisboa à Etiópia, das Índias ao reino do Monomotapa, de Meca a Sofala, quase sempre disfarçado de mouro e constantemente perdido em bordéis, Salvador - um embalsamador albino com um estranho passado - ficará de guarda à mulher do espião, por quem nutre há muito um amor secreto, e não cessará de procurar os olhos que possam devolver a luz ao seu irmão Mil-Sóis.É uma obra fascinante que inventa um cataclismo improvável para reescrever o período áureo da História de Portugal. Um romance de luz e sombra, de avanços e recuos, que cruza fantasia com rigor histórico. E que, no final, responderá a duas questões essenciais: irá o Sol regressar a Portugal? É a Europa o lugar certo para que Portugal continue a existir?”

Casa das Letras, 2015