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Roda Dos Livros

Perguntem a Sarah Gross - João Pinto Coelho

Roda Dos Livros, 30.05.15

Perguntem a Sarah GrossSão quase cinco da manhã e pouso o livro. Faltam cerca de quarenta páginas para o final mas tenho de parar, guardo o que falta para amanhã, para daqui a umas quatro horas.

Sinto-me perturbada e nervosa. Emocionalmente desfeita. Quero terminar a leitura, preciso de terminar. A partir de uma certa altura torna-se impossível pousar o livro. E então aproveito. Aproveito esta sensação rara, mas muito desejada, de me deixar cair, a pique, para dentro de uma história que, por tão habilmente me mexer com as emoções, me encanta.

Procuro, em cada livro que começo, o que encontrei em “Perguntem a Sarah Gross”. A excelência é rara e, por isso, quando a encontro, ou quando sou por ela apanhada de surpresa, deixo-me levar. Esqueço-me de mim e vivo a entrega. Magoo-me e gosto do sofrimento. Abandono tudo e mantenho-me acordada para sentir o efeito de avançar mais uma página.

Este é o retorno que, quem ama os livros, procura. Saber que no meio da busca, entre livros que deixo a meio, os que já esqueci, e os que irei ler, aparece algo assim, capaz de me deixar sedenta de o terminar e ao mesmo tempo dar a mim própria mais uma dose de angústia guardando quarenta páginas, enganando-me, fazendo-o durar, só mais um pouco.

Não sou uma pessoa muito emocional. Se calhar por isso procuro, por vezes, nos livros, cenários que me levem um pouco mais longe, ao limite do sentir. Gosto que os livros me abalem, me deitem ao chão e me passem por cima. E é o esperado de um livro, mais um, sobre os horrores da II Guerra. Penso que o tema não ajuda a que os leitores procurem este livro. Porquê ler um livro de um novo autor, portanto desconhecido, sobre um assunto que já enche bibliotecas? Porque é que eu própria comprei este livro? Porque é que me tentou, me chamou e escolheu? Não sei, mas soube que, naquele dia, não podia voltar para casa sem ele.

Não tenho um livro favorito. Não sei qual é o livro da minha vida. Digo sempre que é o próximo. É uma busca exaustiva porque eu assim a mantenho, estou, inevitavelmente e sempre, à procura. Neste livro encontrei uma história bem contada, surpreendente, que se encaixa em factos históricos, deixando-se enriquecer pelas descrições de João Pinto Coelho. Não é o livro da minha vida porque não quero que a minha viagem acabe aqui, mas é certamente dos mais marcantes que li. Inesquecível e profundo. Um sobrevivente ao mundo descartável, imediato e acelerado em que vivemos. Eu, pelo menos, gostava muito que assim fosse. Não vos conto nada sobre a história porque merecem viver esta surpresa como eu a vivi.

Recomendo sem qualquer reserva.

Sinopse

“Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador. Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou.Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História. A obra foi finalista do prémio LeYa em 2014.”

D. Quixote, 2015

Roda dos Livros Sugestões de Leitura - Maio 2015

Roda Dos Livros, 28.05.15

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Sofia - Trilogía de Centroamérica, de Javier Reverte;

Catarina - O Plano Infinito, de Isabel Allende;

Márcia - Fim, de Fernanda Torres;

Cristina - A Rapariga no Comboio, de Paula Hawkins;

Renata - Era uma vez em Goa, de Paulo Varela Gomes; Contos Fantásticos, de Jack London;

Ana - Quarteto no Outono, de Barbara Pym; Sacrifício a Moloc, de Asa Larsson;

Vera - O Espião Português, de Nuno Nepomuceno;

Fim - Fernanda Torres

Roda Dos Livros, 26.05.15

fimNo último piquenique da Roda dos Livros não resisti a este livro. É da Cris e rodou para mim. Tive o palpite que me iria agradar muito e não me enganei. Penso que Fernanda Torres, com o seu humor inteligente e, por vezes, negro, não agradará a todos os leitores, afinal nem toda a gente achará graça a um livro que brinca com o fim, com a morte.

Todos os personagens principais já morreram. Cinco homens, Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro, dos quais fiquei a saber tudo, sem filtros nem pudores, directamente dos seus pensamentos, tudo o que acham das suas mulheres, amantes, dos filhos, de si próprios e dos amigos. Uma viagem no tempo à juventude destes homens peculiares, com as suas manias e taras (muitas taras, preparem-se), os seus olhares de velhos para um passado de libertinagem sem receios nem culpas. Cada um tem o seu espaço no livro, e as suas histórias enredam-se de tal modo que a cada página vamos ficando a conhecer um pouco de todos. Adorei a construção do livro, muito inteligente, conseguiu agarrar-me contando versões das mesmas situações de modo que, aos poucos, se descubra o que realmente aconteceu. Ou talvez não se descubra nada, pois que tudo não passa de uma visão, da forma com que cada um olha e encara o passado, agora, na velhice, no fim. Achei também interessante o foco dado ao olhar sobre a morte dos companheiros de vida, por parte dos sobreviventes “temporários”, e a forma como, os que irão morrer depois, encaram o tempo que resta.

A estrutura do livro não é inovadora, na verdade não trás nada de novo. Não sendo algo novo, mas estando tão bem construído, revela-se num livro pequeno, com um imenso conteúdo, incrível que tudo caiba em menos de duzentas páginas. A estrutura é, para mim, o ponto mais forte e marcante de “Fim”. Depois há o humor, profundamente negro, de dizer (escrever) sem pejo tudo o que vai na cabeça destes homens, tratando de temas banais sem nunca cair na banalidade e ter, realmente, muita piada, pelo menos para mim que procuro, acho eu, um tipo de humor que a maioria não valoriza.

Escrever bons textos cómicos é uma tarefa árdua e admiro muito a forma como Fernanda Torres o conseguiu fazer de forma exemplar. Apresenta-se em Português do Brasil, e aqueles que acham que as novelas da Globo dão (ou deram no meu caso) as ferramentas para entender tudo, preparem-se para googlar.

“Não há nada mais egoísta do que criança. Não suporto meus netos. Moram longe melhor para eles. São barulhentos, interesseiros. Amei minha filha até ela completar cinco anos, depois não aguentei a histeria dela, da minha mulher com ela, dela com as empregadas. Eu fazia qualquer coisa para não ter que voltar para casa.” (Pág. 17);

“O filho de Sílvio Motta Cardoso Filho, Inácio, comunica o falecimento de seu malquisto pai, infiel marido, abominável avô e desleal amigo. “Peço perdão a todos os que, como eu, sofreram ultrajes e ofensas, e os convido para o tão aguardado sepultamento que terá lugar no dia 23 de Fevereiro de 2009, no Cemitério São Francisco Xavier, à rua Monsenhor Manuel Gomes, 155, nesta cidade do Rio de Janeiro, às 4 horas da tarde.” (Pág. 77);

“Segurei a caixinha. Viagra, dizia o rótulo. Aconselho tomar com umas três horas de antecedência, para não ter surpresas e já chegar calibrado. Você experimentou?, perguntei. Logo que chegou, ele disse, e não larguei mais. (…) Furei a Solange que nem britadeira. Achei pouco. (…) Eu trepava como um ginasta, gastei o que não tinha com as gurias de vinte do bas-fonds da Prado Júnior e me apeguei ao roupão descartável da Centauro, onde quase fui à bancarrota por causa de duas profissionais que se trancaram comigo num dos quartinhos. Começaram desanimadas, meio enrolando o freguês, mas, perto de acender a luz vermelha, as canalhas saíram se esfregando que nem polvas. Me deu um tesão filho da puta, mandei dobrar o prazo. Tripliquei, quadrupliquei. Na hora de pagar, me explicaram que, com duas, tudo era dobrado. Saí rapado e tive que pedir dinheiro para a celeste. Disse que era para um tratamento de canal.” (Pág. 97)

Sinopse

“Cinco amigos cariocas, velhos, vêem o fim aproximar-se a passos largos. Quase a cortar a meta da vida, recordam paixões e traições antigas, cobardias e vergonhas, manias e inibições. No Rio de Janeiro dos anos 60, onde se conheceram, uniu-os a folia, as festas de álcool, mulheres e droga. Pelo meio, aconteceu a vida: casamentos, separações, filhos, contas por pagar, sonhos por cumprir. Além de um passado de excessos e de um presente de frustrações, pouco têm em comum. Álvaro vive sozinho, passa o tempo de médico em médico e não suporta a ex-mulher. Sílvio é um drogado que não larga os vícios nem na velhice. Ribeiro é um rabo-de-saia atlético que ganhou nova vida ao descobrir o Viagra. Neto é o chato da turma, marido fiel até ao último dia. E Ciro, o Don Juan invejado por todos — mas o primeiro a cair. À volta destes cavaleiros cariocas, movem-se as mulheres — esposas, amantes, filhas e mães — amargas, neuróticas, ternurentas, sedutoras, enganadas e resignadas. Juntos compõem um mosaico do Rio de antes e de agora. Há graça, sexo, sol e praia nas páginas de Fim., mas também há melancolia. Fernanda Torres, premiada actriz, estreia-se nas letras com um romance fora de série: sagaz, viril, profundo, cru, pleno de humor e vitalidade. Um livro que vai e vem como a vida e a morte: sem desculpas.”

Companhia das Letras, 2015

«A rapariga no comboio» de Paula Hawkins :: Opinião

Roda Dos Livros, 24.05.15

Paula Hawkins traz-nos «A rapariga no comboio» um thriller apaixonante pela forma como caracteriza psicologicamente todas as suas personagens. Rachel, Megan e Anna, juntamente com Scott e Tom fazem o enredo deste thriller, apesar de comparado ao êxito que foi «Em parte incerta»,  eu diria que ainda me faz lembrar mais do que esse filme (já que não li o livro!), para mim tem também traços de «Antes de adormeceres» e uma intensidade que expõe a crueldade da dor crónica e da depressão, próxima da interpretada por Jennifer Aniston em «Cake». É assim que vejo este livro.
A fragilidade em que Rachel se encontra, a instabilidade de Megan ou a perfeição de Anna são tudo factores que deixam o leitor de pé atrás, bem como o bem intencionado Tom ou o ríspido Scott... sempre com os diálogos e as descrições muito bem escadrinhadas levando-nos a desconfiar constantemente de todos eles. Ninguém é perfeito, todos demonstram passados menos bons e coisas que os assombram, mas serão capazes de matar? Se sim, por que motivo? Fúria? Amor? Falta de escrúpulos ou simplesmente devaneios e violência gratuita? Até certo ponto o leitor pensa num pouco de tudo.
"O meu coração agitou-se como um pássaro numa armadilha."
É uma boa frase para, desde cedo, ir preparando o leitor. Ainda assim, julgo que determinados acontecimentos são esperados, não digo por serem totalmente previsíveis, mas fruto das referências anteriores achei que os pontos se ligavam, que faziam sentido se assim o fossem. Acho que neste livro não me choca a frieza, choca-me antes o desapego, o fazer da vida alheia uma marioneta, manipulando as suas fraquezas, medos e angústias. Assusta também a imensa solidão, não de uma, mas de várias personagens.
Gostei muito do detalhe sobre o sorriso de Abdic, pensei logo no Hannibal... foi completamente involuntário e pouco depois volto a lembrar-me novamente dele, aliás de Mads Mikkelsen, que caso este livro seja adaptado ao cinema, ele ficará bem no papel de Scott. Até o facto de ter o comentário de Reese Witherspoon sobre este livro fez-me pensar nela como a loira meio maternal, com toque de esposa atrevida que Anna demonstra ser. Perante escritas tão cinematográficas sou incapaz de não pensar logo nas escolhas para o grande ecrã.
Sem dúvida que o mote dado na apresentação do livro é real, o enredo altera-nos a forma de olhar à vida dos outros. Especialmente se andarmos de comboio e olharmos da mesma perspectiva que Rachel, de vermos a vida alheia como se fosse romance, uma ficção embelezada. Por certo, durante uns tempos, os leitores no comboio não ficarão indiferentes a este thriller.

«Ana de Amsterdam» de Ana Cássia Rebelo :: Opinião

Roda Dos Livros, 23.05.15

"Flaubert aconselhava a ter cuidado com a tristeza. Cuidado com a tristeza, dizia ele, pode tornar-se um vício. Percebo bem o que queria dizer."

Lermos «Ana de Amsterdam» é irmos ao encontro do tempo preenchido de solidão, vago de outros afazeres que dessem prazer ou dessem sentido aos dias ou noites de insónia de Ana Cássia Rebelo.O livro com nome de música, quase como homenageando o cantor e letrista (e não só!) Chico Buarque é um relato pessoal, frio, despudorado, confessional e até cáustico e em certos aspectos mau, é um livro que fere, que magoa, ao ler certas e determinadas frases, mesmo que muito verdadeiras e aplicadas a muitos de nós. Cássia Rebelo mantêm assim um diário, desde 2006, onde tentou pela escrita ser capaz de afastar certos fantasmas.

"Quem não tem dentro de si alguma tristeza e solidão não é gente."

Os relatos vão avançando, as estações do ano mudando e as insónias continuam, a depressão também, as consultas, os dias, uns atrás dos outros e os anos sucedem-se e não lemos só mágoa, desespero ou confissões, somos também transportados até Goa, mais precisamente Maina, por entre tamarineiros e saris, outras cores e outros climas mais amenos e até pegajosos, locais onde a autora se diz sentir em casa. Relatos que cruzam a angústia com a família, com a ternura de estar perto dos seus, de quem reconhece trejeitos, vícios e maleitas que lhe são também muito suas.

"Há moscas varejeiras que vivem dentro de mim, alimentando-se da porcaria que por cá há. Voam até cima e falam-me ao ouvido. Dizem-me sempre o mesmo."

Este diário é cru, sem subterfúgios, ela é mulher, é mãe, é amiga, é filha... é um pouco de tudo e muito de nada. Está cansada. Os seus escritos revelam o olhar desapaixonado, a resiliência de quem está quase a perdê-la, que nos relata os filhos como fonte de tensão, mas também como último reduto de amor.

Achei muito interessante este (quase) acto de expiação, pois aumenta sempre a minha curiosidade quando em pequenas frases ou em detalhes pessoais me sinto próxima de alguém que não conheço e cujo as histórias ou particularidades me lembram de mim mesma.

"Estranho a facilidade com que as outras mulheres se tornam íntimas. Pouco depois de se conhecerem, trocam beijinhos, tratam-se por tu, contam segredos de fêmea, partilham ralações domésticas enquanto comem minipratos de lulas recheadas sobre mesas de fórmica. Não tenho vocação para a comiseração do género e não aprecio a devassa, assim, em pedaços de névoa cheirando a gordura, da vida familiar."

Se quiser resumir as palavras de Cássia Rebelo a uma palavra, escolheria frontalidade. Sem ofender ou chocar ninguém expõe tanto o lado familiar, a fragilidade, a morte, a frigidez ou a sexualidade... a vida com o que tem de real e de ficcionado, nas realidades que inventamos e reinventamos para mantermos viva a vida.

"Morri no princípio de Outubro (...)Não traziam flores. Vinham com os olhos líquidos de abandono. Nessa noite, deitei-me nas ruínas do meu corpo (...)"

«FIM» de Fernanda Torres - Opinião

Roda Dos Livros, 22.05.15

Fernanda Torres, actriz brasileira conceituada, chega agora ao mundo da ficção com um romance quase em tom de crónica onde, homem a homem, vai dando a conhecer a vida de cinco amigos cariocas, revelando os devaneios próprios da segunda infância, mas também as memórias de uma vida vivida, tanto em grupo como em momentos solitários, relatados pelas várias vozes que assume em cada capítulo. Porém, a loucura das memórias que saltam a todo o momento de época em época e de episódio caricato em outro mais caricato surgem interligadas, meio puzzle, mas não criam barafunda na cabeça do leitor, antes pelo contrário, unem todos os pontos que ora se soltam para páginas a seguir se ligarem.
É impossível passar ao lado deste texto sem lhe atribuir a sonoridade brasileira que ele tem, acreditem quando digo que o texto ressoa na nossa cabeça em brasileiro e é impossível de outra forma, somos até levados a ler parágrafos em voz alta e a tentarmos o sotaque, porque de resto está tudo lá, as expressões cariocas, o vocabulário que nos faz ir procurar um ou outro significado, mas tudo isso são experiências que o livro nos leva a fazer. Nada disso tem peso de «FIM», mas sim de começo, princípio de uma relação de proximidade, que se quer cada vez maior, entre as "duas" línguas portuguesas.
Vamos rindo à gargalhada com os tombos dados por Álvaro, Ciro, Sílvio, Ribeiro e Neto, mas também com Ruth, Suzana, Norma, Célia ou Maria Clara e sem esquecer o Padre Graça, todos comentam a vida de todos e todos eles foram sendo parte integrante da vidas uns dos outros, dito assim parece repetitivo, mas os anos vão sendo lembrados com um misto de carinho, mas também de azedo entre alguns, sem nunca esquecer o humor. É o humor e até uma certa ironia que pauta este «FIM».
"Amanhã manda a Ruth me telefonar que eu explico pra ela que um patrimônio que nem você tem que ser dividido com o resto da humanidade."
O livro de Fernanda Torres expõe a velhice de forma cáustica, se a pessoa já tiver predisposição para isso, e alguns deles têm, doce, já que alguns se arrependem e aprendem só no fim da vida a importância daquilo que sempre desprezaram, mas acima de tudo, divertida, mostrando o impacto das memórias, demonstrado o quanto construir memórias com pessoas é importante. No enredo não falta alguma crítica, bem como elogios, mas a ideia que prevalece é: dê valor, que morrer, morremos todos!
Um leitura com o apoio Companhia das Letras.
Oiça aqui um trecho do livro: https://www.youtube.com/watch?v=zH6d08uS4AE

«Leituras ao Luar» Brenda Walker :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.05.15

"Como os livros salvaram uma vida" é o mote para este livro de não ficção de Brenda Walker. Não sei como lhe chamar, mas diria que se trata de um diário de leituras e memórias de leituras que se cruzam com as actuais, naquelas que Brenda fez enquanto lutou contra a doença.
"Poderá a medida da cura convir ao tamanho da ferida?" James Wood, citado logo ao abrir do livro antes ainda de nos depararmos com capítulos com nomes comocirurgia, quimioterapia ou radioterapia, entre outras fases destes tempos difíceis. Edgar Alan Poe é desde logo referenciado, mas o primeiro livro em que Brenda pensa é "As Horas" e de onde destaca:
"Tenho de dar o livro da sua vida, um livro que será a sua bússola, o seu pai e a sua mãe, que o armará para enfrentar a mudança." Claro que a promessa é aliciante, para quem gosta de livros, de lê-los, de tê-los, de os vivenciar, parte sempre em busca de um livro que seja mais que os outros, que seja um porto de abrigo, uma bóia de salvação. E julgo que é neste sentido que este livro decorre, a autora parte em busca dos livros da sua vida numa fase em que o fim da vida pode ser uma realidade bem próxima.
"Quando se pensa na morte a vida tem menos charme, mas tem mais calma" Tolstoi
No entanto, não pense o leitor que «Leituras ao Luar» é um livro sombrio, eu não o achei, antes pelo contrário, facilmente esquecemos a doença e pensamos no encantamento pelos livros, especialmente se descobrimos tantas coisas novas, tantos livros por ler, tanto autor por descobrir. Como é o caso do livro: Norah's Ark, um livro infantil, cujo o mote é "uma mulher salva os seus animais de uma cheia virando o seu celeiro ao contrário e construindo um abrigo sobre o seu telhado impermeável."
À medida que o livro avança, as frases de ordem são vitoriosas, são hinos à vida.
"Vive e inventa" como escreve Malone em «Malone está a morrer" de Beckett ou "Creio profundamente no poder do trabalho inacabado para nos manter vivos" frase brilhante de Bellow em Ravelstein.
As fases de tratamento vão avançando e Brenda apoia-se em quem tem por perto, mas muito nos livros e nos relatos que "colecciona" para mais tarde nos brindar com este livro que se lê como um romance. Um romance com os livros, os seus autores e claro algumas manias de leitor.
"(...) porque as noites são longas e o livro não pode acabar cedo de mais." refere Brenda perante uma noite de internamento na presença de "A linha da beleza", de Alan Hollinghurst e o seu conceito de «ausência pessoal» como forma de descrever a morte e que a faz pensar na forma como se alterou o contacto com a morte. A frieza de morrer, só e num espaço impessoal como um hospital. Nas várias questões que a Literatura lhe propõe, Brenda conta também episódios e preocupações e afirma que de modo algum a leitura é um passatempo (assim tão) solitário. Há toda uma imensidão de efeitos que a leitura causa, até chegar ao ponto que ela destaca da obra de Tartt em "A história secreta" e a "(...) relação inquieta connosco próprios (...) uma suspensão temporária de nós mesmos."
Li com muito agrado e até um certo carinho todo este depoimento de amor aos livros, dobrei muito cantos, assinalei muitas frases, anotei muitos livros a ler ou a reler, entre outros que perguntei a mim mesmo o porquê de não os ter lido... neste aspecto de livros e enredos, só é pena em alguns a autora levantar totalmente o véu e conter no seu livro spoilers, mas os mesmos fazem sentido e justificam o paralelismo com o que ela quer contar a nível pessoal.
Só já mais para o final voltamos a sentir o fantasma da doença, com a referência à arte de Lee Miller e à nomeação do cancro como uma doença canibal, uma auto destruição biológica, uma vingança do corpo contra si mesmo, como uma parte que se quer afastar do todo. E aí surge "A ilha" de Coetzee e Beckett ou Barnes e novamente Poe e novamente a frase chave: "Vive e inventa."

«E a Noite Roda», de Alexandra Lucas Coelho :: Opinião

Roda Dos Livros, 20.05.15

Quem já leu Alexandra Lucas Coelho saberá o quanto é difícil falar da sua escrita. Enquanto lia este «e a noite roda» apelidei-o logo de frenético, mas é mais. É um romance sem rodeios, sem floreados. É um relato de viagens bem viajado, de quem está num local e tem a cabeça num outro ou em vários, ainda assim, as referências que surgem de divagação, não atrasam ou demoram, antes pelo contrário energizam o romance, a viagem.

No Livro do Dia da TSF, Carlos Vaz Marques intitula esta escrita exacta e frenética assim "(...) com um poder de observação invulgar e sem excessos. Uma escrita no osso." É isso mesmo, há aqui como que um esqueleto, frágil, mas complexo, que se enreda e se dispersa, mas nunca esconde ou "engana" o leitor. O fim é desde a primeira página anunciado, mas a atenção fica presa no querermos saber o que aconteceu, por onde viajaram Ana e Léon.

Tudo roda, a noite, os amantes, a política, a guerra, os fieis e os infiéis, a música, a vida. Às vezes tudo roda sem que nada saia do sítio e é essa a capacidade intrínseca na escrita de Alexandra Lucas Coelho de meter o leitor num rodopio.

“Fazemos as perguntas dos estranhos sem nunca termos sido estranhos. Há dois diálogos a acontecer ao mesmo tempo. As palavras são as de quem não sabe o suficiente, o silêncio é o de quem sabe demasiado. A nossa intimidade fica a pairar, como se não soubesse para onde ir.”

Há sempre um jogo entre os amantes, uma ligação, que mesmo a milhares de quilómetros de distância tenta mantê-los unidos. Existe a falta que ambos fazem na vida do outro, mas há uma vida que mete outras vidas em jogo. Poderia ser apenas mais uma história de adultério, de vidas aceleradas, vividas ao minutos em ambientes de elevada tensão, onde o prazer justificasse as acções, mas não é isso que Ana nos vai relatando. A sua história com Léon assume mais que só esses contornos e é o tom vivo e enérgico, como quem está na rua e precisa de fugir a um conflito, mas tem de narrar a sua história, sem esquecer detalhes, mas sabendo que a economia das palavras a fará ganhar imortalidade.
A troca de mensagens é continua entre Ana e Léon e também isso dá outro clima ao livro, quando ela lhe relata o significado de "men aiuni" a expressão árabe que expressa muito mais que "dos meus olhos". A intensidade do amor sente-se na agitação das vidas e na ausência que causam um ao outro.
"No começo de Abril escreves a contar que passaste três dias terríveis em Paris, a andar nos nossos passos, sentado à mesa onde uns apaixonados se olharam nos olhos e pediram champanhe e queijo, sozinhos no mundo. E perguntas se me deves contar isto (...) achas que o silêncio é mais obcecante?
Não é o silêncio que te obceca, sou eu, dizes."
Longe de uma vida comum ou em comum o livro está pejado de detalhes deliciosos, sensíveis e que fazem o quotidiano dos apaixonados. Simples, mas muitas vezes angustiante. A certeza que o fim nos dá confunde-se com a incerteza do que ocorreu durante todo aquele tempo. Há acontecimentos chave que envolvem o leitor e um rol de referências, essencialmente as musicais que bem que o livro poderia vir acompanhado de banda sonora.
"O mundo real é o que inventamos para viver, não porque o mundo seja bom e belo, mas porque é sobretudo o contrário. Arrancar a vida ao dia-a-dia, será isso a poesia. E muitas vezes estamos incapazes de falar, é preciso simplesmente dizê-lo. Perdoa-me este P.S. Acordei como se me arrancassem o coração."

À MORTE NINGUÉM ESCAPA :: Opinião

Roda Dos Livros, 19.05.15

Tirando talvez a martelada inicial este thriller de Arlidge é menos macabro e menos pessoal que o anterior. Helen Grace continua a ser perseguida pelos fantasmas do passado e para apimentar bem o cenário não é a única e há quem tenha fantasmas tão maus ou piores ainda que os seus. Dizer mais é poder acelerar o que não se quer nem se deve revelar.
Jack continua a estar no horizonte que Helen persegue.
Charlie continua divida, mas ainda não será desta que perceberemos em que lado terminada.
Tony sucumbe e é talvez o único episódio previsível e com isto não digo nada que logo não se adivinhe desde que ele coloca o pé no terreno.
Todos os outros personagens que irão descobrir são os que alimentam e completam este viciante "À morte ninguém escapa". Se Arlidge será tão grande como Jo Nesbo eu não sei, mas para mim já é maior. Arlidge é acutilante e cáustico, enérgico e preciso. Não existem detalhes a mais, descrições longas, demoradas e que atrasem a acção, nada disso. O ritmo é mantido e só é quebrado por algum arrepio de alguma cena que nos afasta o olhar ou então, e neste caso específico, quando permite a redenção.
Sim, este thriller tem direito a redenção, tem toque de esperança. Aliás até quase dá um tom menos negro quando, em mais do que uma ocasião, permite que os seus personagens sejam, para além de humanos, amorosos. Algo muito menos visto em «Um dó li tá».
Arlidge permite ao leitor criar também um cenário e características para os personagens e outros detalhes da acção, dando, a meu ver, espaço a uma adaptação cinematográfica.
Arlidge é mais uma vez meticuloso e sem pudores, aponta o dedo, faz critica social, tem toques de sórdido, tem tons de sadomasoquismo e sem dúvida é imparável para com a leitor.E tem o lado redentor e eu até lhe "dei" música. Não resisti aos The Civil Wars com The One That Got Away.

"A Sereia Muçulmana" - João Céu e Silva :: Opinião

Roda Dos Livros, 18.05.15

João Céu e Silva escreveu essencialmente biografias ou investigação literária e histórica, em 2002 publicou o seu primeiro romance «20 dias em Agosto» e em 2013 recebeu o Prémio Literário Alves Redol com este «A Sereia Muçulmana».
O júri destacou esta obra para vencedora devido à capacidade efabulatória do autor que é precisamente o que eu não apreciei na obra. Gostaria muito mais de ver debatidos, nem que fosse em conversas surreais com a cadela, as crises e angustias de quem esteve adormecido por tantos anos.
Trazer a obra de Heródoto para o enredo, parco, é uma fonte de distracção e não sei se facilmente iremos ligar, metaforicamente, cada história de Heródoto com os capítulos - perdidos - de um homem que "dormiu" 30 anos!?
Existiu um factor surpresa pelo qual não esperava, visto a sinopse não referir e eu não tinha lido mais sobre o livro, por isso, o coma de 30 anos foi momento alto que me fez prosseguir a leitura. Depois foi o querer saber por que motivo esteve ele em coma. A guerra, a guerra colonial e depois 30 anos de adormecimento. Será uma metáfora para o próprio país e não só para um homem?
O abandono da família, da mulher, o «adeus» no bilhetinho à entrada da porta... parece dramático e avizinha enredo, pede um desfecho para isso, a meu ver não o há e a história perde muito com isso.
A ligação ao actual e uma crítica à sociedade está subjacente em quase toda a narrativa, ainda assim parece-me megalómana a tentativa de abarcar décadas de acontecimentos em meia dúzia de páginas, como uma contextualização quase escolar. Fiquei na dúvida, já que a capacidade narrativa não está aqui em causa, mas sim, na minha perspectiva, a ausência de um enredo que cative e faça o leitor seguir um fio condutor.
É certo, são 30 anos na escuridão, no mais profundo sono, mas a tentativa de expressar essa angústia e ao mesmo tempo aventura deixa o leitor num misto de divagação e histórias sobre o homem que se pensa a si mesmo e quer manter um relato das suas acções... mas isto entre barcos, sereias e eventos pouco verosímeis... parece-me difícil.
No entanto, as questões que o personagem levanta são pertinentes e faz-nos pensar sobre a incerteza do futuro, mesmo até para quem não esteve em coma, ou será que o coma é um pensamento efabulado sobre a sociedade portuguesa em geral, será? Estaremos a dormir perante a realidade que acontece diante dos nossos olhos?

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