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Roda Dos Livros

O Anibaleitor - Rui Zink

Roda Dos Livros, 29.03.15

anibaleitorUm livro pequeno que me encheu as medidas. Enfim, não exactamente, pois eu já estava à espera de gostar muito, mas mesmo assim uma delícia a cada virar de página.

Mais do que um monstro assustador que devora livros, o Anibaleitor acorda, desperta e abana as estruturas de quem está cego pela trituradora quotidiana. Esta da trituradora não é minha, dou os devidos créditos à Renata Carvalho, mas é uma expressão tão boa que tive de a (ab)usar.

Um livro para todas as idades, principalmente se considerarmos a idade que temos na cabeça, e aquilo que os anos nos ofereceram como perspicácia. Os anos, a experiência, e claro, a escolha. O escolher viver observando, ou o passar pela vida vendo o que nos querem mostrar.

O Anibaleitor está recheado de coisas brilhantes que de certeza escapam a muita gente. Como de certeza muitas me escaparam a mim. Mas algumas apanhei e já não é nada mau. E mesmo para quem não apanhar nada nas entrelinhas, não deixa de gostar, pois está aqui um livro de aventuras de se lhe tirar o chapéu, com a vantagem de entusiasmar os mais jovens para a leitura.

Zink construiu um livro inteligente, que se deve ter em casa para ler muitas vezes, pois, de certeza, que a cada nova leitura, se vão descobrir novos tesouros.

Li este livro através da Roda dos Livros, obrigada Patrícia, fica a dica a todos aqueles que usam a desculpa absurda de que não me oferecem livros porque eu já tenho muitos (ridículo), ou porque não sabem que livro oferecer (há vales sabiam?), o Anibaleitor é um livro que eu adorava ter na minha estante.

“Devo dizer que a arte de roubar não é tão má como a pintam. Ao fim e ao cabo, é uma actividade de intercâmbio comercial como qualquer outra e, quase sempre, está longe de merecer a fama que desgraçadamente tem. O povo diz que atrás de uma grande fortuna está um grande roubo – só que não é apenas atrás das grandes fortunas materiais – as pequenas e até mesmo as espirituais também não se livram desta censurável génese. Toda a gente rouba alguma coisa a alguém: dinheiro, ideias, trabalho, tempo, paciência, até a própria vida. Apenas a alma não se rouba porque esta só pode ser comprada (ou melhor, vendida) pelo próprio dono, o que de resto muitos de nós fazemos com bastante agrado e, eu diria até, por um bem módico preço.” (Pág. 9)

“Como castigo obrigaram-me a ser escritor, uma sina que não desejo nem ao meu pior inimigo. É pior que prisão perpétua! Passamos o dia sentados a uma mesa, frente ao papel em branco ou ao computador em cinzento; o rabo amolece de tanto estarmos sentados, e ficamos a escrevinhar, a escrevinhar, sujeitos a artroses, a escrevinhar, a escrevinhar – histórias que, ainda por cima, quase ninguém lê, a menos que sejam adaptadas para cinema ou televisão. É muito frustrante, só vos digo.” (Pág. 106)

Sinopse

“O Anibaleitor conta a história de um jovem que, fugido à “guarda do reino”, embarca numa viagem em busca de um mítico e fabuloso animal, o Anibaleitor. Livro de aventuras, é acima de tudo um livro de aventura da leitura. Nesta magnífica novela, Rui Zink consegue ser, ao mesmo tempo, divertido, didáctico, comovente e, como sempre, estimulante.”

Teorema, 2010

Xerazade - A Última Noite

Roda Dos Livros, 28.03.15

xerazadeaultimanoiteA curiosidade impulsiona-me para leituras que antes rejeitava sem hesitar. Leituras mais exigentes e elaboradas em que as palavras são encadeadas com rigor e critério para uma leitura dos sentidos e das emoções.

Contos de encantar que bem conheço, mitos e lendas, historias da antiguidade clássica, numa narrativa colorida de uma mente delirante que as renova como se contadas por tradição oral a um amante que receia perder, como Xerazade na sua ultima noite. Tanto para refletir quando se lê sobre o Amor ao longo do Tempo.

Não e´ uma leitura fácil e demorei a entrar no espírito da personagem em monólogo constante. Breves apontamentos onde a personagem masculina intervém para sugerir moderação ou contenção a uma Xerazade que imparável tanto do que ao Amor diz respeito.

Leitura que atrai e afasta na exata proporção da compreensão e empatia com uma Xerazade que não nos deixa indiferente. Enigmática e apaixonada pela Vida que nem sempre a tratou bem.

Requinta obra que se preza para uma leitura pausada e absorta. Como este fragmento:

"Espera por mim como um livro excelso porém esquecido, porque os grandes livros sabem esperar. Podem fazê-lo, alias. O tempo não tem sobre eles qualquer poder. Os outros, ai!, podem quase todos os outros , estão sujeitos `as mesmas leis da vida que talham o nosso humano destino. Envelhecem e acabam por morrer amortalhados em paginas murchas onde palavras dissonantes servem ideias gastas e enredos pobres.

Espera por mim como um livro. Como O Livro, que um dia, rasgado o véu epifanico, reencontramos e devoramos, compulsivamente, e voltamos a devorar como amantes adiados que finalmente se unem pelo fio encantatório das palavras. No tempo certo."

A Mulher de Verde - Arnaldur Indridason

Roda Dos Livros, 28.03.15

A Mulher de VerdeJá tinho lido “Laços de Sangue” e gostado muito. Este “A Mulher de Verde” perturbou-me, deixou-me arrepiada e perplexa, mas… maravilhada. A narrativa caminha entre duas situações  – uma sinistra história de violência doméstica, forte e aterradora, passada nos anos 30/40 e o presente, onde se investiga a descoberta de ossos humanos junto dos alicerces de uma casa em construção, numa encosta perto de Reiquejavique.

O Inspector Erlendur de regresso a um caso trágico e emocionante, novamente acossado pelos seus fantasmas pessoais deixados à solta. O trabalho parece ser uma salvação enquanto lida com o desespero e a frustração de não conseguir chegar à filha, mergulhada no abismo do consumo de drogas e com recordações dramáticas do seu passado mal resolvido.

Não é um livro fácil pois tem descrições extremamente duras. Contudo, talvez por isso seja tão boa a sua leitura. O início do livro é simplesmente genial:

“Ele percebeu de imediato que se tratava de um osso humano, assim que o tirou à bebé que estava sentada no chão a roê-lo”.

A primeira passagem que me deixou inquieta:

“Ela mal se apercebera do que acabara de acontecer até sentir uma dor na têmpora. Do nada, ele atingira-a na cabeça com o punho cerrado, um golpe tão rápido que nem o conseguiu antecipar. Ou talvez não acreditasse que ele lhe batera. Aquele era o primeiro murro e, nos anos seguintes, ela perguntar-se-ia se a sua vida poderia ter sido diferente acaso lhe tivesse virado costas naquele preciso momento.

Se ele a tivesse deixado fazer isso.

Ela olhava espantada para ele, sem perceber o motivo por que repentinamente lhe batera. Nunca ninguém lhe batera. Aconteceu três meses após o casamento.

- Deste-me um murro? – perguntou ela, levando a mão à têmpora.

- Achas que não vi a forma como estavas a olhar para ele? – ciciou ele.

- Para ele? O quê…? Referes-te ao Snorri? A olhar para o Snorri?

- Achas que não reparei na forma como te comportaste, como se estivesses com o cio?”

Bem, confesso que nunca tinha lido nada assim, tão cru e, provavelmente, tão real. Mais à frente na narrativa, uma das pessoas que viveu de perto a violência doméstica diz:

“É um termo tão conveniente para o homicídio espiritual. Um termo tão inofensivo para quem não sabe o que se esconde por trás dele. Faz ideia do que é viver a vida inteira num medo constante?”

Este livro é um policial, sim, com tudo aquilo que cativa o leitor amante de mistérios e assassínios. Tem ainda a mais-valia de estar escrito com uma complexidade psicológica profunda e apresentar o tema da violência doméstica com uma intensidade perturbante.

Adorei! Quero ler mais livros deste escritor islandês!

Apresentação do livro "três pianos e outros exercícios" de Paula Dias

Roda Dos Livros, 24.03.15

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Mais uma vez a Roda dos Livros divulga um livro que ainda ninguém leu. Mas cá em “casa” todos vamos ler. “Três pianos e outros exercícios”, o livro da Paula Dias, Rodista desde o primeiro dia, chega aos leitores já no próximo sábado.

Não temos dúvidas que se trata de um trabalho cuidado, de alguém que se entrega à escrita há algum tempo, que adora livros, e que é, ela própria, adorável. Lançamos o desafio de rumarem à Associação Cultural Pessoa e Companhia, no dia 28 de Março, pelas 17 horas.

Apresentação de Jorge Alexandre Navarro e Isabelina Jorge. Texto de Pedro Sena-Lino.

A Roda dos Livros exige autógrafos. Que seja até te doer a mão Paula!

A Nossa Casa é Onde está o Coração, de Toni Morrison

Roda Dos Livros, 24.03.15

01040600_Nossa_Casa_Onde_Esta_CoracaoO que mais me marcou neste livro foi a escrita de Toni Morrison. Limpa, fluída e muito bela. Mais do que a história, comovente, deixei-me tocar pelas palavras escolhidas com cuidado, com a estrutura do livro, alternando o passado e o presente de modo hábil, de forma imprevisível, não obedecendo a uma regra coerente, e contudo, resultando tão bem.

Profundo, por mexer com sentimentos familiares e feridas de guerra. O amor entre dois irmãos faz o caminho para o seu reencontro nos percursos de uma América racista e pobre.

Tocante e, em alguns pontos, deveras emocionante. Captando cada gesto e cada acção com uma mestria descritiva que me impressionou, recomendo este livro a todos, por agradar a quem gosta de uma história (muito) bem contada, e também aos que apreciam boa escrita que, neste caso, é irrepreensível.

“Estava tão luminoso, mais luminoso do que ele se recordava. O Sol, tendo absorvido todo o azul do céu, flanava num paraíso branco, ameaçando Lotus, torturando a sua paisagem, mas falhando, falhando, falhando constantemente em reduzi-la ao silêncio: as crianças continuavam a rir, a correr, a gritar os seus jogos; mulheres cantavam nos seus pátios traseiros enquanto penduravam lençóis molhados nas cordas da roupa; ocasionalmente, juntava-se a um soprano uma vizinha alto ou um tenor que se limitava a passar. (…) Frank não percorria aquela estrada de terra batida desde 1949, nem pisara as pranchas de madeira que cobriam os lugares devastados pela chuva. Não havia passeios, mas todos os jardins, tanto à frente como nas traseiras, exibiam flores protegendo legumes de doenças e predadores – cravinas, capuchinhas, dálias.” (Pág. 113)

Sinopse

“Frank Money regressa da guerra da Coreia em luta com os seus fantasmas. É um homem perturbado por um profundo sentimento de culpa pelas atrocidades que se viu obrigado a cometer e pela relutância em voltar à sua cidade natal na Georgia, onde deixou dolorosas memórias de infância e a pessoa que lhe é mais querida, a irmã. Mas quando recebe uma carta avisando-o de que Cee corre risco de vida, Frank regressa, atravessando uma América dividida pela segregação. Através desta viagem, e da viagem interior que o protagonista vai fazendo, a autora dá-nos a definição do que é o lar, o lugar onde estão os nossos afetos, numa combinação entre a realidade física e social e a subtileza psicológica e emocional.”

Editorial Presença, 2015

Tradução de Manuela Madureira

Galveston de Nic Pizzolatto - Opinião

Roda Dos Livros, 23.03.15

Depois da brilhante estreia de True Detective, chega-nos do aclamado Nic Pizzolatto este "Galveston".

Roy Cady é meio enigmático e inicialmente é difícil desassociá-lo da imagem do Detective Rust Cohle, interpretado por Matthew McConaughey, talvez até seja pela capa do próprio livro, mas também pelo semblante que se percebe desde cedo.

À medida que a acção se desenvolve vamos criando uma imagem para Roy, uma imagem própria, escura, reservada, talvez até sofrida, que se possa descobrir em futuros livros se Pizzolatto tornar este Galveston numa série. Confesso que ainda um pouco depois das cinquenta páginas, ocorreu-me o sinuoso e meio alternativo Cobra, com a imagem poderosa de Brigitte Nielsen associada à de Rocky, nova, sedutora e capaz de alterar o rumo do homem rígido e de ideias fixas. Mas não só, a resma de badidagem italiana de camisa folclóricas e calças de fato de treino. Caricato. Melhor ainda quando misturado com a imagem de homens texanos, com aquela pinta de cowboy desafiante.

É por essa imagem que se define Roy Cady ou Big Country. E das máfias de "inspiração"italiana que também não foge à regra com violência e cenas de pancadaria e claro, algumas com torturas para justificar as vinganças tão necessárias aos ajustes de contas. É de destacar que, maioritariamente, estamos na década de 80.

Em "Galveston" há ainda a busca pela redenção, pelo lado mais humano, uma réstia que ainda sobra. Mas será pela aproximação da morte, aquela que ele não busca, não provoca!? É o medo pela morte natural e o enfrentar os fantasmas que o passado se encarrega de trazer!?Roy encontra em Rocky a forma de remediar o que não conseguiu até agora, mas será bem sucedido?

Ao ser adaptado para filme será provavelmente muito semelhante à densidade de True Detective, aliás, pelo que consta o realizador será o mesmo. Se explorar muito bem a caracterização dos personagens, com uma banda sonora forte e a fotografia a seguir o mesmo caminho é bem provável que se consiga um bom filme ou até uma boa série.As cenas de motel, a prostituição e até alguns cenas de violência poderão torná-lo não tolerável para muitos, como certos episódios de True Detective também o são. E o toque "noir" de que a crítica fala é, em geral, como o que de melhor teve True Detective... que já ganhava uma segunda temporada.

Resta ainda referir a escrita escorreita de Pizzolatto e a criação de cenários com frases brilhantes, mesmo que sucintas. Sem esquecer o elenco musical que vai sendo referido ao longo de todo o livro.

Deixo apenas esta cover do clássico "Galveston" de Jimmy Webb que tem tudo o que o livro contêm.

"Verão sem homens" de Siri Hustvedt

Roda Dos Livros, 22.03.15

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A pergunta pertinente após este primeiro contacto com a obra de Siri Hustvedt é: como foi possível não ter lido nada desta autora até hoje? E já agora: onde está a divulgação literária de livros brilhantes como este? Onde estão as trombetas do “marketing” sempre tão ansiosas por tocar no seu afã em impingir romancezecos de duvidosos e esconsos atributos literários, quase todos destinados ao público feminino?Pertencer a esta Roda dos Livros é realmente fantástico e têm sido muitos os livros e os autores excelentes que tenho descoberto ao longo destes pouco mais de dois anos. E foi assim que ouvi falar, pela primeira vez, deste livro e de Siri Hustvedt, através de uma sugestão de leitura da Márcia Balsas. Muito obrigada, Márcia!Se ainda estiverem a ler este artigo, provavelmente perguntar-se-ão: sim, sim, isso está tudo muito bem, mas o que afinal tem de especial este “Verão sem homens”?

Imaginem uma civilização alienígena que nos visita e que procura perceber a forma de vida (relativamente) autoconsciente e bípede que aparentemente domina a superfície da Terra, mais concretamente naquele cantinho do planeta designado por “mundo ocidental” ou “mundo desenvolvido”. Pois bem, este romance seria um bom ponto de partida por constituir uma espécie de mapa ou de percurso acerca das várias fases da vida de um ser humano, com um enfâse especial no ponto de vista feminino. Contudo, também se vislumbram muitas pistas sobre o sexo masculino neste livro, quase todas indirectas, partindo das mulheres que aqui habitam, mas não só. As protagonistas deste livro constituem, pois, um roteiro genial desde a infância, 3-4 anos de idade, à sábia e, mais ou menos, lúcida velhice, passando pelo conturbado começo da adolescência, pelas vicissitudes do início da idade adulta e pelas agruras da chamada “crise da meia-idade”. As histórias destas mulheres e raparigas vão-se progressivamente entrelaçando de modo a formar uma tela literária deslumbrante nos seus tons e meio tons representativos da vasta paleta das emoções humanas. É um livro sobre mulheres, homens e relações humanas; sobre o significado da sanidade e da loucura, sobre a frágil linha delimitadora entre ambas; sobre o amor e a compaixão; sobre a crueldade, a maldade, o egoísmo. E acima de tudo, brilhantemente imaginado e escrito.Depois de tudo isto, escusado será dizer, se ainda não leram “Verão sem homens”, procurem-no. E depois vejam por si mesmos, se toda esta minha algaraviada faz, ou não, algum sentido.

Excertos:“Despidos de intimidade e vistos de uma distância considerável, todos nós somos personagens cómicas, bufões ridículos que andamos aos tropeções pela vida, fazendo disparates atrás de disparates atrás de disparates à medida que avançamos, mas quando nos aproximamos, o ridículo depressa se funde no sórdido ou o trágico, ou no meramente triste.”

“O clube de leitura é popular. Tem alastrado, como os proverbiais cogumelos, por todo o lado, e é uma forma cultural dominada quase inteiramente por mulheres. Na realidade, ler ficção é nos tempos que correm, uma actividade feminina. Muitas mulheres lêem ficção. A maior parte dos homens não. Se um homem pega num romance, gosta de ler um nome masculino na capa; é de algum modo tranquilizador. Nunca se sabe o que pode acontecer aos órgãos genitais externos de quem se deixa envolver em enredos imaginários inventados por alguém que tem o material no interior.”

“Excepto por preconceito, não há nas artes sentimento que não possa ser expressado nem história que não possa ser contada. O encantamento está no sentir e no contar e mais nada.”

“Devemos todos permitir-nos, de vez em quando, a fantasia da projecção, a possibilidade de nos vestirmos com os imaginários vestidos de noite e as casacas do que nunca foi e nunca será. É o que dá brilho às nossas vidas baças, e por vezes podemos escolher um sonho em vez de outro, e na escolha encontrar uma trégua da tristeza quotidiana. Ao fim ao cabo, nunca conseguiremos, nenhum de nós conseguirá, deslindar o emaranhado de ficções que constitui essa coisa periclitante a que chamamos um eu.”

Roda dos Livros Sugestões de Leitura - Março 2015

Roda Dos Livros, 22.03.15

 

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Uma Roda diferente, em que só compareceram mulheres. Uma tarde muito divertida, cheia de gargalhadas e livros. Uma terapia! :)

Renata - A Saga de Gösta Berling, de Selma Lagerlöf;

Cris - Este é o meu corpo, de Filipa Melo; A Herança de Eszter, de Sándor Márai;

Vera - Uma Escolha Imperfeita, de Louise Doughty;

Fernanda - Os Apanhadores de Conchas, de Rosamund Pilcher;

Márcia - Teoria dos Limites, de Maria Manuel Viana;

Ana - A Cidade Fantasma, de Ana Teresa Pereira;

Isabel - A Mulher de Verde, de Arnaldur Indidrason;

"Vou imigrar para o meu país" de Nuno Costa Santos - Opinião

Roda Dos Livros, 22.03.15

Vamos pelas palavras deste "marginal ameno" como fiéis portugueses que também querem imigrar para o este nosso ameno e recatado país.

Nuno Costa Santos critica apaziguadoramente aquilo que lhe apetece, dá-lhe na telha e escreve, descrevendo o que observa, situações quotidianas, comuns a todos e sobre as quais facilmente já nos questionámos. É fácil rir com Costa Santos, avaliar de forma amena, mas sincera este país por onde vamos todos nos encontrando, falando e criticando, mas sempre de forma amena, garantindo o tipo de poltrona em que cada um cabe.

"Por aqui" vamos entrando e passando de bairro em bairro até chegar ao individual, a cada pessoa, são essas as três partes que dividem estas crónicas que estão, necessariamente, todas ligadas e compõem um olhar, uma perspectiva do nosso país.

Nesta imigração diagnostica-se muito bem o ambiente, os vícios, os ossos do ofício, as manias e as aspirações do local que acolhe o imigrante, os outros, nós, eles... todos os portugueses. Neste relato humorístico da actualidade estamos lá todos e é por isso que é tão real.

É inevitável colocar excertos, em jeito de declarações, de conclusões, de constatações:"Vivemos num estado de emergência cultural."“A paneleirice é um vício português que nada tem a ver com a orientação em matéria de sexo. Pode atingir todo o heterossexual, homossexual e bissexual. É um sinónimo de mesquinhez. (...) Os portugueses são mais dados à paneleirice do que à inveja. Tinha de ser dito há muito tempo.(...) Passamos o tempo a discutir nos cafés e agora nas redes sociais as declarações e as gafes das figuras públicas, corrigimos o português dos outros como se quem corrige nunca tivesse errado, dizemos a quem trabalha: «Eu teria feito de forma ligeiramente diferente.» Mas há mais.Na paneleirice o português é infinito."em «Vida sem fios» (...) Quando quero procurar um instante de recolhimento vou para territórios onde não há internet. Bibliotecas velhas, tascas."em «Selva alheia» (...) Sim. bem vistas as coisas, percebo mal o mundo quase todo."E poderia continuar.Já quase na parte final, Nuno Costa Santos relembra os sótãos. O quanto eu gostava de ter um. Um refúgio para fugir para ler, ouvir música, pintar, pensar, dormir... um pequeno recanto cheio de coisas minhas e ser eu. No entanto, para quem não um sótão nada como primar pela arte de constituir um sótão dentro de casa. E nisso, eu e a minha cara metade somos exímios."Sou pelo tráfico cultural proporcionado pela amizade." Será com certeza a forma de combater estado de emergência cultural.

Dentro do Segredo - José Luís Peixoto

Roda Dos Livros, 21.03.15

9789897220609Um livro que é um duplo prazer - descobrir um país-mistério, escondido, reservado e totalmente distinto do que conhecemos e acreditamos e ler palavras genialmente escolhidas pelo José Luís Peixoto.

Se à partida os livros de viagem não me cativavam, este "Dentro do Segredo" sussurrou-me histórias aparentemente banais que me despertaram a vontade de ler mais outros passeios e aventuras do autor por este mundo fora.

Sobre o conteúdo global, é algo que já se espera devido às informações que chegam, sumárias, sobre a Coreia do Norte. Todavia, os pormenores e as situações vividas e relatadas nos quinze dias desta viagem conseguem ilustrar com detalhes únicos alguns contextos actuais. O autor apresenta locais e traça o perfil de um povo aparentemente humilde, ordeiro, sereno e devoto aos seus líderes. Esta devoção é descrita de um modo tão intenso que se torna chocante por quase perder o individual em detrimento do todo, da massa obediente. O mais perturbador penso que seja a falta de individualidade de cada personagem norte-coreana que cruza a narrativa. Ou pelo menos, é a imagem com que se fica do que é possível apresentar, o que desejam mostrar ao resto do mundo.

... Bem, concluindo, leiam o livro!!! É mesmo muito bom!!!

"Quase me sinto capaz de jurar que houve silêncio absoluto no momento em que entrei em Pyongyang (...) Em silêncio, silêncio as crianças com uniforme de pioneiros, calças ou saias azuis, camisa branca, lenço vermelho atado sobre o colarinho, a correrem. Homens, fardados ou não, a olharem para algum assunto, a pensarem em algum assunto. Mulheres atarefadas, a carregarem sacos (...) E o silêncio dos prédios das fachadas geométricas e cores tristes. Azul-cinzento, verde-cinzento, castanho-cinzento. E grandes letreiros de betão com frases altas, letras brancas sobre fundo vermelho, a dizerem algo com muita força (...) E a ausência de qualquer publicidade (...) Apenas as ruas limpas, a limpeza absoluta. Silêncio."

"Sem sorrir, com ar sério, a Menina Kim disse que estava bom tempo porque se aproximava o aniversário do grande líder. As nuvens eram manchas ténues e raras. O céu tinha infinto, e essas poucas nuvens, sobre ele, eram como o reflexo de folhas novas a flutuarem num lago, davam forma ao azul. O sol, brando, tinha a medida certa de brilho para receber as vozes das crianças que passavam a brincar. O grande líder sabia fazer um bonito dia de Primavera."

"Na Livraria de Línguas Estrangeiras, a grande maioria dos livros à venda eram as obras completas de Kim Il-sung e de Kim Jong-il traduzidas em várias línguas ou obras sobre eles também em várias línguas."

"O Museu das Atrocidades Americanas tinha dezasseis salas. Começámos por aquela em que se explicava como a Coreia do Norte tinha sido provocada pelos americanos. A partir daí, a guia do museu começou a descrever-nos histórias de horror."

"Era raro encontrar bolachas à venda que estivessem dentro do prazo de validade. Entre os pacotes que vi, o recorde pertencia a um prazo que tinha sido ultrapassado havia cinco anos, quase seis. Ainda assim, o mais comum era o prazo ter cerca de um ano, mais ou menos mês."

"A entrada da cooperativa estava rodeada por muros brancos (...) Todas aquelas casas tinham sido construídas havia cinco anos. Oitenta e dois metros quadrados cada uma. Aquela era habitada por quatro pessoas, os pais e dois filhos, um rapaz e uma rapariga. Os momentos mais significativos das suas vidas estavam reunidos num quadro coberto de fotografias e afixado numa parede. Os pais a casarem-se, os filhos ainda crianças, a crescerem, os pais em pose de trabalho e, por fim, o filho no exército e a família à sua volta, com orgulho nítido. Apesar destes detalhes tão pessoais, a casa não parecia habitada (...) Os pais dormiam no quarto, cuja única decoração eram três calendários de parede, um com Kim Il-sung, outro com Kim Jong-il, outro com Kim Jong-suk, a mãe de Kim Jong-il. Na sala, claro, havia uma parede inteira apenas com dois retratos dos líderes. Essa era, aliás, uma marca conhecida de todas as casas norte-coreanas: todas tinham uma parede com retratos dos líderes, que não deveria ter qualquer outra espécie de decoração."

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