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Roda Dos Livros

Este é o meu corpo, de Filipa Melo : Opinião

Roda Dos Livros, 28.02.15

É pela mão de José Riço Direitinho que sou puxada para dentro de "este é o meu corpo"..

"Todas as mortes são violentas. Sobretudo para os que cá ficam. Os livros nem tanto. O da Filipa, é. Mas esses são também os livros que vão ficando.

Há livros que nos tocam na pele, que conhecem os nossos sentimentos de todos os dias, a irritação, a nossa alegria , a ingenuidade dos medos, a fortaleza fraca das paixões; e há outros que que nos entram logo direitos ao centro, dissecando-nos primeiro com um olho macroscópico que corre através de nós, da nossa pele, e depois dão-nos a visão microscópica da alma. Este é o meu corpo, é assim."

José Rico Direitinho, in revista Ler, Dezembro de 2001

Um romance em jeito de policial onde várias vozes apelam para serem ouvidas. No entanto, todas serão arrancadas à força, rasgando a pele, levando até ao osso o sentimento, a posse, a vingança, a paixão, a vida e claro, a morte!Numa narrativa que acumula tensão e o faz de forma bastante visual, Filipa Melo consegue muitas vezes arrepiar o leitor. Estranho dizer, mas o enredo vicia-nos na vida que escapa do corpo, no corpo violado, morto, retraçado, perfurado... numa busca minuciosa pela verdade.Nas suas várias vozes, os narradores trazem à luz desta narrativa, os vícios triviais e os vínculos próprios de corpos com vida, que se cruzam nas descrições quase, eu disse quase, mórbidas e sórdidas. Têm nesses momentos equilibrados, mas intensos, detalhes vívidos da morte e da análise do corpo como paixão, como dedicação que alimenta o vazio dos dias. Os dias vivos de muitos vivos, mais mortos que os mortos.Onde existiu esperança, há agora dor. Onde já correu vida, corre agora horror. A melodia fria e metálica com que dissecava e inspeccionava um corpo assume agora outros contornes, mais intensos, mais profundos. Exploram-se segredos, interrogando as incertezas dos vivos, os medos que acorrentam a falsas seguranças... a ingenuidade sobre a fragilidade do corpo e da alma.Um enredo intrincado que se vai adivinhando nas histórias que se cruzam, que se completam, nas personagens que acabam onde outras começam.Poder-se-à dizer que estamos perante um romance com o corpo, com a alma e as dúvidas que nos atormentam, mas também estamos perante o descortinar do corpo pela tenebrosa experiência de desumanizar o que resto no fim de tudo, o corpo e a sua autópsia."Alguém me disse uma vez que a morte é um parto de si mesmo. Uma consumação, uma onda que nos varre até ao cabo de nós mesmos, ao fundo da nossa história, ali onde encerrámos os mistérios. Se não formos nós a cumprir a tarefa, encarregam-se os outros dela. Não há como fugir."Não há mesmo como fugir de um livro de tamanha qualidade, recheado de tanta informação e que apela tanto à nossa reflexão.*Lido na edição da Sudoeste Editora, 1ª edição de Março de 2007.Requisitado na Fábrica das Palavras - Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira

"A casa das rosas", de Andréa Zamorano :: Opinião

Roda Dos Livros, 26.02.15

planoK_Casa_das_rosas3"Quer dizer que não sabe mesmo? Pensei que a luz fosse o meio mais rápido de propagação. Ah, é verdade. No buraco onde você está enfiada a luz não penetra. As partilhas de pó não lhe contaram?"

A direcção até esta casa é sinuosa. Podia ter sido bela, tinha tudo para o ser, mas a obsessão, o desejo, a aparência e a loucura perfumaram-na de um odor fétido. Corromperam o amor, traíram a beleza e incapacitaram a compaixão.

A dor é intensa, mas dissimulada, escapa-se pelas frinchas, pelos poros das superfícies corroídas pela posse e pela obsessão.

"O silêncio apenas escraviza."

Uma mulher, também mãe. Uma criança, protegida e resguardada, mais tarde, também ela mulher. Virgílio que carrega em si um qualquer complexo, encarrega-se do Inferno, gerando-o. Os restantes são cúmplices do silêncio.

Em todas as direcções que este livro pode tomar, há uma fome de amor, uma fome de normalidade e é essa brutalidade, essa dureza que o torna especial e impactante.

"A fome dói. (...) A fome não tem poesia."

Não, não deve ter. Aqui fez todo o sentido, transformou-a, moldou-a.

"Também era essa a sensação que tinha de mim própria - dissociação. Aquele «eu» lido não era eu, mas quem lia também não. Afinal onde estava eu? Quem se lembraria do meu verdadeiro eu?

Podemos dizer que as memórias foram "uma unha encrava na alma" que não permitiram a Eulália esquecer o seu passado. Havia a necessidade de apaziguar e nem sempre a Paz vem com palavras mansas ou actos nobres e pacatos, por vezes é mesmo preciso romper com as estruturas, vencer os monstros, atacando-os com o excesso com que nos surpreenderam um dia.

"O excesso é o alimento da paixão"

... e as paixões marcam, escravizam, doem, mas também nos transformam.

Explicar de outra forma ou sequer tentar explicar este romance de estreia de Andréa Zamorano será retirar ao leitor todo o fulgor e expectativa que cada página cria.

Uma leitura altamente recomendável.

A lua de mel, de Knut Faldbakken

Roda Dos Livros, 24.02.15

lua de mel

Com uma capa e um título destes, pois, não iria ler, certamente!No entanto, este livro é a prova de que devemos ultrapassar preconceitos e, sobretudo, saber, que os livros valem pelo seu conteúdo e não pelo título e capa que alguém lhes atribuiu.O livro relata uma semana da vida de um casal de Oslo, que parte para uma viagem. Ela, para participar de um congresso sobre literatura, ele, na expectativa, de fazer uma segunda lua de mel com a sua mulher com quem vive um casamen...to de 13 anos.Vigar considera-se progressista, de bem com a vida, bem sucedido, com um casamento imaculado e seguro ("como já não não se vê"!), e que alimenta da forma como viu os seus pais conduzirem o seu próprio casamento. Que mais se pode querer do que uma vida estável, com filhos maravilhosos, trabalho, umas férias em Dubrovnik de quando em quando, uma casa bem situada e confortável e uma mulher linda como Johanna?Por entre a tundra norueguesa, num início de outono, Vigar vai ver todos os alicerces em que assentava a sua vida colocados em causa e confrontar-se com as inesperadas infidelidades e infelicidade conjugal e sexual de sua mulher.Pode um casamento resistir a tais revelações? O que espera Vigar e Johanna após aquela semana?E é no dissecar dos sentimentos e sensações e pensamentos do ponto de vista de um homem e de uma mulher que este escritor é brilhante, contundente, realista, sábio.Knut Faldbakken é um escritor norueguês, nascido em 1941, na cidade de Hamar, e é tido como um sendo "adorado pelas mulheres e receado pelos homens".Este livro é um aprendizagem forte e tocante do casamento por entre o emaranhado dos dias e as expectativas dos envolvidos.Gostei muito e aconselho!

Isabel C. Branco

O osso da borboleta, de Rui Cardoso Martins

Roda Dos Livros, 24.02.15

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Um homem decide que a melhor forma de fugir à polícia é enfiar-se num sótão para o resto da vida. Alimenta-se de arroz e pombos, ouve música num rádio da segunda guerra mundial e, volta e meia lá vai roubar um bocadinho de água das torneiras dos vizinhos. Uma das vizinhas é uma velha solitária que passa o dia a insultar as plantas que teimam em não crescer. Depois há a outra que sonha com uma borboleta com cara de gente a ser atacada por uma abelha e ainda há uma peixeira que tem um filho. No meio de tantas histórias gostei mesmo foi da história do tal rádio da segunda guerra mundial e dos dois irmãos que queriam ouvir programas diferentes. E da história da Vera, claro.

Gostei deste livro que, para mim, vale mais pelas várias partes que pelo todo. As histórias dentro da história deixam-nos por vezes à deriva mas conduzem inevitavelmente a um fim. E falando em final e sem deixar nenhum spoiler tenho que admitir que gostei bastante do deste livro, cumpriu a sua função (ultimamente dou por mim a já não esperar um final a meu gosto antes a esperar simplesmente um final) e ainda me deixou com um sorriso apesar da crueldade da coisa.

Fez-me pensar a capacidade que o autor tem de nos pôr a aceitar a crueldade como algo aceitável, mediante determinados propostos, é certo, mas ainda assim a aceitar coisas que, teoricamente são inaceitáveis e que ali, preto no branco naquelas páginas finais quase fazem sentido. Quase, porque ainda assim não consigo deixar de pensar no que realmente faz o mundo ficar aparentemente mais bonito.

E depois de ter ouvido tantas opiniões diferentes e de ter tido o privilégio de ter ouvido o escritor a falar (este foi o livro discutido no encontro de Fevereiro da Comunidade de leitores na LEYA na Buchholz moderado pelo Luís Ricardo Duarte) a minha opinião mudou um bocadinho. Afinal compreendi um pouco melhor os porquês, os intuitos, tive oportunidade de considerar outras opiniões e nestes casos é inevitável que a leitura saia enriquecida.

É possível ler apenas a história que o escritor escreveu. Mas também é possível ler mais, ler nas entrelinhas desta história, ler ironias e denúncias, ler críticas e opiniões. Fica à escolha do leitor.

 

1984 - George Orwell

Roda Dos Livros, 22.02.15

1984pubAo iniciar estas linhas sinto que não devia. Não devia escrever sobre o 1984. Um livro que já tanta gente leu e sobre o qual tanto se escreveu. Que posso eu acrescentar? Que posso dizer que ainda não tenha sido dito, escrito ou pensado?

Li-o tarde. Este tipo de livros começou a interessar-me tarde e por (boa) influência de amigos. A leitura é uma actividade solitária mas não se deve ler sozinho, não se deve ler sem partilhar ou sem discutir, ler tem um potencial enorme de nos fazer crescer, mas quando acompanhados, quando contamos a outros o que um livro nos fez sentir, esse livro vai para outro lugar. A organização de pensamentos, a verbalização ou a escrita de toda a agitação que um (bom) livro provoca, eleva-o a outro nível. Assim como ao leitor.

Foi o caso. 1984 é de uma construção irrepreensível, não há pontas soltas, tudo é justificado, acreditamos por estar escrito de forma convincente e por ser verdade. Acho que não posso dizer isto sem parecer (pelo menos um pouco) lunática ou com a mania da perseguição, mas quem não sabe que o Grande Irmão existe, tudo vê e ordena, ou tem sorte ou sofre de um mal chamado ignorância, que tem aquele efeito colateral alucinogénio conhecido por felicidade induzida pela estupidez. O que uns olham outros observam, o que uns ouvem outros escutam.

Impressionante é a clarividência de George Orwell, bem como a imaginação e a capacidade de criar. Senti-me esmagada com este livro. Associei-o à realidade e também aí fui esmagada. E sou esmagada diariamente porque 1984 já existia em 1949, quando foi escrito, e existe agora, trinta anos depois. Chamem-lhe ficção, distopia, realidade paralela, outra dimensão, delírio ou alucinação. É tudo isso. Assim como o é o mundo em que vivemos. Completamente actual. Assustadoramente real.

Depois deste livro, caíram por terra opiniões que tinha de outros livros, mais recentes, obviamente (demasiado) inspirados em Orwell. Por um lado uma desilusão, por outro uma aprendizagem, é que não vale de nada inventar outra vez a roda, mas pode-se usá-la para construir novos tipos de veículos.

Um livro brilhante, que ensina e educa, que alerta, que se refere ao passado, ao presente e ao futuro, pois está mais que visto que a humanidade não aprende nada. Para pensar. Coisa que se faz pouco. Diz que não há tempo. O Grande Irmão gosta de nos manter ocupados.

“Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”

Uma espécie de sinopse

“Segundo Orwell, «Mil Novecentos e Oitenta e Quatro» é uma sátira, onde aliás se detecta inspiração swifteana. De aparência naturalista, trata das realidades e do terror do poder político, não apenas num determinado país, mas no mundo — num mundo uniformizado. Foi escrito como um ataque a todos os factores que na sociedade moderna podem conduzir a uma vida de privação e embrutecimento, não pretendendo ser a «profecia» de coisa nenhuma.”

Colecção Mil Folhas – Público, 2002

Tradução de Ana Luísa Faria

Roda dos Livros Sugestões de Leitura - Fevereiro 2015

Roda Dos Livros, 22.02.15

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Patrícia: Anibaleitor, de Rui Zink;

Cris: Os Dias de Davanzati, de Héctor Abad Faciolinee;

Jorge Galvão: O Desejo de Kianda, de Pepetela;

Vera: Se nos Encontrarmos de Novo, de Ana Teresa Pereira;

Sara: Teoria dos Limites, de Maria Manuel Viana;

Catarina: Um Jardim em Badalpur, de Kenizé Mourad;

Márcia: A ridícula ideia de não votar a ver-te, de Rosa Montero;

Ana: O Quarto de Jack, de Emma Donoghue;

Isabel: O Anão, de Pär Lagerkvist;

Renata: Rashomon e Outras Histórias, de Ryunosuke Akutagawa;

Cristina: O Projeto Rosie, de Graeme Simsion

À espera de Godot - Samuel Beckett

Roda Dos Livros, 16.02.15

9789727950089Para quem, como eu, gosta de ler (ou à partida tem curiosidade) por praticamente tudo a que consiga deitar as mãos (no domínio da escrita criativa), tem de haver um dia em que se pega neste livro e se começa a ler. Até pode ficar a meio ou não passar das primeiras páginas mas tem de se ler para se saber o que é. Porque deve haver muito quem fale do livro e nunca o tenha lido.

A meu ver, este é apenas um texto para ser encenado, com a particularidade de ter sido o primeiro e não ter sido escrito na língua-mãe do autor (Beckett era irlandês mas estudou francês e foi professor em Paris, cidade onde acabou por morrer).

Falar (ou escrever) noutra língua pode ser libertador, pois tudo o que nos é demasiado familiar e complica o discurso (ou seja, o lixo linguístico) desaparece, oferecendo-se-nos a clarividência dum discurso puro, sem artifícios.

Assim é também esta peça, despida de tudo o que não seja o palco, os actores e um ou outro apontamento cénico. Afinal, "no princípio era o verbo" e aqui percebe-se bem o jogo de palavras do autor, que só chega ao seu verdadeiro propósito na encenação. Daí achar que esta “tragicomédia em dois actos” – nesta edição, traduzida por José Maria Vieira Mendes, ele próprio uma referência actual das artes cénicas, a partir da versão em inglês traduzida pelo próprio Beckett – tem andado por aí, nas bocas do mundo (pelo menos nas que eu tenho ouvido falar), como se fosse "um rato parido por uma montanha".

No fundo, a minha reserva em relação a “à espera de Godot” – ou àquilo em que transformaram “à espera de Godot” – prende-se com um facto simples, extensível ao teatro em geral: quando este se torna, não numa representação do real, mas numa representação do representável – como quem conta uma história em segunda mão, alterando os ‘factos’ a seu bel-prazer, consoante o receptor... Se calhar depende das pessoas, mas eu nunca consegui estar muito tempo a ver outrem brincar ou jogar, sem me aborrecer, ter vontade de entrar na brincadeira ou simplesmente ir-me embora.

E ler uma peça inteira – tenho de confessar que nunca vi uma representação – sobre a espera, e os diversos fait divers que acontecem entretanto...

Talvez seja a eterna questão emotividade versus técnica: um amador, não tendo técnica, recorre às emoções – ainda que falsas, exageradas – para conseguir uma performance visceral; um profissional, não tendo ingenuidade, recorre à técnica e transforma o que poderia ser uma obra de arte, maior que a vida, em algo rotineiro, um exercício quase. É inevitável. Será?

Resumidamente, que a maioria das pessoas que lê este blogue deve ter preferência por livros ‘normais’ (ficção sim mas romance ou contos): talvez seja ignorância minha, ou sinal dos tempos, mas estava à espera de ser deslumbrado e fiquei apenas desiludido.

Não obstante, recomenda-se, pelos motivos mencionados atrás.

Na contracapa:

« Samuel Beckett nasce em 1906 em Foxrock, perto de Dublin. De família burguesa e protestante, estudou francês e italiano no Trinity Coilege de Dublin, foi professor em Paris, conheceu Joyce, regressou à Irlanda em 1931, passou por Londres e pela Alemanha, voltou a Paris quando rebentou a guerra, fez parte da Resistência.

É no pós-guerra que vive o período mais intenso da sua produção literária, com a escrita, em francês, das peças à Espera de Godot e Fim de Partida, além de uma trilogia de romances. Começa a traduzir os seus textos para inglês e volta a escrever também nesta língua. Constrói uma obra dupla, bilingue, cada vez mais depurada. Recebe o Nobel em 1969, distribuindo o dinheiro pelos amigos. Morre em Paris em 1989.

À Espera de Godot, a sua primeira peça e a mais conhecida, foi estreada a 5 de Janeiro de 1953, no Théâtre de Babylone, com encenação de Roger Blin. Em Portugal estreou em 1959, no Teatro da Trindade pelo Teatro Nacional Popular numa encenação de Francisco Ribeiro. »

Nas badanas:

« VLADIMIR Vamos esperar para ver o que é que ele diz.

ESTRAGON Quem?

VLADIMIR O Godot.

ESTRAGON Boa ideia.

VLADIMIR Vamos esperar para saber exactamente em que pé estamos.

ESTRAGON Por outro lado talvez não fosse mau malhar o ferro enquanto está quente.

VLADIMIR Estou com curiosidade para saber o que ele tem para nos oferecer. Depois, ou pegamos ou largamos.

ESTRAGON O que é que nós lhe pedimos exactamente?

VLADIMIR Não estavas lá?

ESTRAGON Não devia estar a ouvir.

VLADIMIR Oh… nada de concreto.

ESTRAGON Uma espécie de oração.

VLADIMIR Precisamente.

ESTRAGON Uma súplica vaga.

VLADIMIR Exactamente.

ESTRAGON E o que é que ele disse?

VLADIMIR Que logo via.

ESTRAGON Que não prometia nada.

VLADIMIR Que tinha de pensar no assunto.

ESTRAGON No sossego da sua casa.

VLADIMIR Consultar a sua família.

ESTRAGON Os amigos.

VLADIMIR Os agentes.

ESTRAGON Os correspondentes.

VLADIMIR Os livros.

ESTRAGON A conta bancária.

VLADIMIR Antes de tomar uma decisão.

ESTRAGON É o procedimento habitual.

VLADIMIR É, não é?

ESTRAGON Acho que sim.

VLADIMIR Eu também.

Silêncio. »

Laços de Sangue – Arnaldur Indridason

Roda Dos Livros, 15.02.15

Laços SangueEste policial islandês narrado num ambiente sempre chuvoso e gelado inicia-se com o homicídio de um velho homem em sua casa. Alguns pormenores da sua morte vão levar a que o Inspector Erlendur Sveinsson comece uma investigação original, levando-o a desbravar e desenterrar mistérios do passado ainda por resolver.

Paralelamente, o próprio Erlendur procura entender e ultrapassar problemas pessoais ligados à sua família. Ajuda ainda a solucionar o desaparecimento de uma jovem noiva no dia do seu casamento. Estes casos mostram outros tipos de violência da sociedade – toxicodependência, abuso sexual, violência doméstica.

“- Não será mais um típico caso de homicídio islandês? (…)

- O quê? – retorquiu Erlendur, absorto nos seus pensamentos.

- Sórdido, sem um propósito definido e cometido às claras, sem haver lugar a uma tentativa para baralhar as pistas ou para ocultar as provas.

- Sim – respondeu Erlendur – Um patético homicídio islandês.

- A menos que ele tenha caído sobre a mesa e batido com a cabeça no cinzeiro (…)

- E à medida que caía, escreveu uma mensagem incompreensível? – questionou Erlendur.”

A escrita é simples e prende o leitor pela narrativa empolgante e pelos acontecimentos velozmente encadeados. Lê-se num fôlego e entretém. Sabem bem uns crimes bem contados em tardes de fim-de-semana!

"Viagem ao coração dos pássaros", de Possidónio Cachapa :: Opinião

Roda Dos Livros, 10.02.15

"Viagem ao coração dos pássaros" é o regresso ao universo transcendente recriado por Possidónio Cachapa. O livro não é recente, remonta sim a 1999, data da inicial publicação, sendo posterior a "Materna Doçura" que foi o romance por onde conheci o autor.

A forma, quase frágil, com que descreve a realidade dá-lhe uma aura meio irreal, meio mágica, mas cativante. Há um lado rude, mas natural do ambiente telúrico aqui descrito que balanceia e compõe o quadro onírico que o autor quer dar ao leitor. Nas suas palavras existe mesmo uma viagem. A que coração fica ao critério de cada leitor... penso eu!Naquilo em que acreditamos e para o que estamos abertos, ditará muito o quanto podemos entender e aceitar a estória aqui narrada por Cachapa.

Haverá um certo culto por um universo mais mágico, acreditando em algo superior, nem que seja no poder da mente em nos levar a locais para além daqueles em que podemos estar. Talvez essa seja a melhor viagem.

Em "Viagem ao coração dos pássaros", existe uma viagem ao interior, ao rural, ao isolamento, ao temer aquilo que é diferente ou simplesmente pouco aceite e renegado. A ligação à terra traz alguns credos mais pagãos, que por norma o povo toma como existentes, mas nem sempre aceita de bom grado. Esse isolamento e desapego da comunidade por Evangelina e Maria Joaquina (Kika) são o mote para que o enredo cruze as fronteiras da realidade e possa ter contornes menos comuns.

Questiona-se o amor, o pecado, a vida e a morte e claro, o destino.Os Açores são o pano de fundo, a pronúncia marca várias passagens e tem vislumbres de romance em tons nórdicos, de paisagens belas mas ásperas que mexem com os sentimentos e as ideias dos habitantes.Fica ódio por quem parte e uma revolta por quem insiste em permanecer. Resta ainda o pesado silêncio que sobra e que marca bem a ausência.

Não se pense que apesar de isoladas Kika e a mãe estão totalmente sozinhas, não, Felipe, Loduvina, o Anjo, o Fura-Mundos e até o Homem Bala e a sua Trapezista compõem este desfile de personagens que dando apenas aquilo que possuem tentam acalmar e amparar a dor alheia.

E o Escritor? Como lá foi parar o escritor? ... aquele que sabe que o dia "(...) o dia é do domínio das coisas cruas e das arestas cortadas."

"Por maior que seja a insistência, de nada disto se falará aqui, porque foram acontecimentos menores, passados numa freguesia pequena, onde uma mulher, que carrega um Dom, viveu rodeada de seres passados (...) Que nos interessa que um escritor tenha um dia ousado falar disto e se tenha aproximado como um insecto nocturno (...). Por baixo das pedras talhadas existe areia, que veio de um ribeiro que já não corre, e por baixo dessa areia encontra-se terra. Uma terra escura e sufocada pelo peso das coisas que carrega, mas, ainda assim, terra. E por baixo de si, magma. E do magma não se passa, porque, ou se caminha para uma coisa transcendente, ou se morre tornado chamas (...)"

O Quarto de Jack – Emma Donoghue

Roda Dos Livros, 10.02.15

9789720043436_1319323134Este fascinante livro conta a sinistra história de um miúdo de 5 anos que vive com a mãe num quarto secreto de 11 m2. Jack vive ali desde sempre com a mãe – comem, dormem, brincam, aprendem, encontram formas diversas de passar os dias. Jack nunca conheceu outro local e acredita que o mundo é aquele espaço limitado, constituído apenas por ele, a mãe e um homem a que chama Nick Mafarrico, que está “lá fora”, surgindo apenas quando Jack já se encontra a dormir, trazendo os bens necessários à sobrevivência deste par.

As personagens principais estão maravilhosamente bem construídas. A mãe é assustadoramente forte e maternal. O Jack é um miúdo inteligente que se vai apropriando da realidade apresentada pela mãe e ao mesmo tempo absorve a vida fingida da televisão, acreditando que nada do que aí passa é verdadeiro.

É difícil escrever sobre este livro sem dar demasiadas informações. Nem tudo fica pelo quarto e é emocionante o modo como tudo é descrito e narradoatravés do olhar e dos pensamentos de Jack.

Se no início pensava que não aguentava mais linhas com jogos inventados pela mãe para entreter o filho, a determinado momento há uma reviravolta e o que se passa a seguir é bastante mais interessante. Gostei muito de ler este livro. Especialmente depois do tal momento de mudança.

Para não estragar a surpresa, fico-me por um excerto inicial:

“Enquanto põe o banho a correr, a Mamã tira o Labirinto e o Forte de cima do guarda-fatos. Desde os meus dois anos que temos andado a fazer o Labirinto, é todo feito de rolos de papel higiénico por dentro, unidos, formando túneis que dão muitas voltas (…) O Forte é feito de latas e frascos de vitaminas, sempre que temos uma vazia cresce cada vez mais (…) Soltamos os rabos de cavalo e deixamos o cabelo nadar. Deito-me por cima da Mamã sem falar, gosto de ouvir o bater do seu coração. Quando respira, subimos e descemos um pouco”.

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