Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Roda Dos Livros

O Despertar do Mundo - Rhidian Brook

Roda Dos Livros, 26.01.15

odespertardomundo

Com uma capa enfadonha e sem graça, fui seduzida por uma sinopse nada engrandecedora mas suficientemente interessante para me chamar a atenção, e com alguma relutância iniciei a leitura, que me cativou nas primeiras paginas. É bom quando assim acontece. Poderia ser mais uma historia da Historia, baseada em factos reais e que nos deixa muito no que pensar, sobre tolerância e princípios morais que devemos perseverar, onde o ressentimento e o ódio não tem lugar. No mundo de então, como no de hoje há que abrandar, olhar e ponderar.

O pós-guerra com a intervenção dos ingleses, franceses e russos numa Alemanha arrasada, em que as pessoas se encontravam numa situação desesperada e tinham de provar que nada as relacionava com o regime nazi para retomarem as suas vidas, um coronel inglês em luto pela morte de um filho jovem, requisita uma casa em Hamburgo para a família e faz algo sem precedentes, ao permitir que os donos permanecessem na sua propriedade e que uma família alemã e uma família britânica partilhassem uma casa durante cinco anos, um ano depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Duvidas e magoas sobre o mesmo tecto dão origem a um enredo singelo e simultaneamente rico em dados, esplendidamente bem contado e com personagens tão humanas e confusas como a realidade o permitiu.

Inspirada e tocante, esta historia acompanha-nos muito depois de terminada a leitura, possivelmente porque muito foi escrito sobre a guerra mas menos sobre o que sucedeu depois. Uma leitura que se quer cadenciada como uma bela historia merece.

Sinopse:

Em 1945, enquanto o mundo celebra a vitória sobre o exército nazi, a Alemanha derrotada é dividida. De um lado, a União Soviética. Do outro, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França. A Guerra Fria está prestes a começar.

Em Hamburgo, grupos de crianças esfomeadas vasculham os destroços em busca de alimentos, famílias desalojadas lutam por abrigos imundos. É nesta cidade arruinada que o coronel Lewis Morgan é encarregado de repor a paz. O governo inglês requisita uma casa para o acolher a ele e à família. Aos proprietários da mansão resta a indigência. É então que o coronel propõe uma solução inédita: a partilha do espaço.

 

Mas ao contrário do que coronel espera, este pacto vai ser explosivo. A sua mulher, Rachel, vive fechada em si própria. O filho de ambos, Edmund, debate-se com uma solidão extrema. A alemã Freda é a adolescente rebelde, filha de Herr Lubert, um homem de elite inconformado com a submissão que lhe é imposta. Entre segredos e traições, a vida na casa é uma bomba-relógio que uma paixão proibida ameaça ativar.

Baseado no extraordinário ato de bondade do avô do autor, O Despertar do Mundo pinta um retrato único da guerra vista do lado dos perdedores.

O Último Homem na Torre - Aravind Adiga

Roda Dos Livros, 25.01.15

Liv01040504_fA história passa-se em Mumbai (Bombaim), cidade apresentada com todos os seus contrastes – novos-ricos sem princípios morais, pobres muito pobres sem hipótese de não o serem, pequenos burgueses que usufruem de uma vida tranquila graças ao trabalho do dia-a-dia. É com um destes grupos de cidadãos modestos e esforçados que se passa toda a trama do livro. Os moradores de duas torres de uma cooperativa de habitação recebem a proposta para abandonarem as suas casas, mediante uma elevada indeminização, para que seja construído nestes terrenos um conjunto de habitações de luxo. Se na torre B não há grandes questões e todos aceitam a proposta, na torre A começam a surgir os problemas, colocando em risco a concretização do projecto milionário. Nem todos os moradores da torre A desejam a mudança e assim, os resistentes começam a sentir a pressão, primeiro vinda dos construtores e das figuras que querem fazer o negócio e mais tarde, dos vizinhos com quem viveram em harmonia durante largos anos.

O livro é interessante no sentido de captar a vida de uma comunidade organizada e simples e a sua transformação após a proposta de venda da cooperativa. Uns facilmente mudam de ideias, outros nem por isso, sendo necessário recorrer a medidas menos simpáticas para influenciar e obrigar a uma aceitação da proposta…

Iniciei a leitura deste livro cheia de boas expectativas, uma vez que já tinha lido “O Tigre Branco” e “Entre os Assassinatos”. É um bom livro, uma boa história, contudo pareceu-me demasiado lento, perdendo o ritmo empolgante dos outros livros do autor. Logo no início imaginamos que a história vai chegar a um final tenso, tomando um certorumo, acutilante, frio, impessoal, mas o desenrolar de toda a acção é ligeiramente arrastado… mas gostei bastante!

“Agora vinha o pior. As luzes acenderam-se quando o comboio parou. Estação de Dadar. Pisadelas e empurrões; na carruagem escura da primeira classe (…) uma pança comprimiu-se contra Masterji – nunca se apercebera de que uma pança podia ser dura como uma pedra! O cheiro da camisa alheia infiltrou-se no odor da sua. Recordou-se de um verso de Hamlet (…) “Os milhares de choques naturais a que a carne está sujeita?” Shakespeare subestimava por larga margem os traumas da vida em Bombaim”.

“Masterji deixou-se ficar deitado às escuras, a sentir o peso de dois andares por cima da sua cabeça e de outros três por baixo dele, onde moravam as pessoas que o tinham expulsado da casa onde morava havia trinta e dois anos; pessoas essas que já nem sequer o consideravam um ser humano”.

Maximiliano, o bandido que queria publicar um livro - Opinião

Roda Dos Livros, 23.01.15

Não é o verdadeiro título do livro, mas podia ter sido. "Golpe de sorte" não lhe assentava bem e a "A verdadeira história do bandido Maximiliano", coloca demasiado ênfase na palavra verdade e isso dá muito que pensar.

Jacinto Rego de Almeida, junta bandidos perigosos e peculiares, uma beldade de origem mais a leste e de profissão (e influência) duvidosa, um manuscrito de um livro, uma editora na bancarrota, um país em crise e um cenário tropical algures na linha que separa a Bolívia do Brasil e traz até ao leitor quase 150 páginas de entretenimento e muitas piadas transversais à história deste nosso recanto à beira mar plantado.

Gosto deste género de enredos, onde os livros são povoados por outros livros e existe um olhar acutilante, crítico, mas também humorístico à realidade envolvente.

"Fez uma pausa:- Com a idade, desisti de tentar reformar a estupidez do mundo."

E com esta brilhante frase mal sabia eu o que aí vinha. Nas páginas seguintes não vem conformismo ou "baixar os braços", resignando-se e aceitando a estupidez do mundo, vem sim, a luta pela igualdade e pelo direito de participar nessa mesma estupidez e como tal, fazer parte do sistema.

"Tu sabes que eu acho, nos tempos que correm, que é mais saudável uma cunha do que uma indicação por mérito. A velha cunha envolve solidariedade, amizade, sentimentos (...) O mérito, ao contrário, está ligado a uma avaliação fria (...) Eu sou apologista das cunhas, nada como uma boa cunha."

Entre cunhas e potenciais acasos, um manuscrito enigmático e recheado de relatos de negócios obscuros e com o peculiar detalhe de ter fotos para ilustrar a trama, incorporar personagens e elucidar sobre ambientes, compõem a nova edição que a Astrolábio terá de editar. Digo terá, visto a sua edição ser fruto da coação... nada melhor para um policial.

«O opressor é um sujeito livre.»

A ficção mistura-se com a realidade e esconde-se nos meandros da narrativa para abordar temas actuais. Os nomes das personagens são do mais óbvio ao mais caricato e até a naifa é de estimação e tem nome, a Branquinha.Neste livro não faltam crimes, sexo, drogas, prostituição, imigração clandestina, máfias organizadas e empresas fantasma e claro, política. E parece-me até uma certa comparação, assim subtilmente, entre Portugal e o Brasil.

No meio há ainda direito a uns laivos de romance, com Mário e Natasha nos papeis principais.«O amor não é tudo mas está à frente do que vier em segundo lugar.»

Para ler de uma grande e única dentada!

"Aberto toda a noite" de David Trueba - Opinião

Roda Dos Livros, 20.01.15

"Haverá tanta dor como prazer, tanta solidão como companhia, tantas bofetadas como beijos." DEUS

E assim começa o enredo em torno da família Belitre e não podia ter uma citação mais correcta. Entre os Belitre existe tanto do comum de qualquer família como do alucinado de qualquer hospício, que é exactamente como muitas vezes se sente o ambiente familiar.

"Se esperares, conto-te o que nos aguarda depois da morte. Amiga, tu e eu sabemos que viver não foi nada mau, porque não haveria de ser ainda melhor o que vem depois? Agora parece-me óbvio que a morte é o estado normal e que viver é o acidente. E achas alguma razão mais justificada para morrer do que saber o que nos espera? Que não digam: morreu de cancro ou de um tumor cerebral. Digam: morreu de curiosidade.

Última carta de Ernestina Beltrán a Alma Belitre"

Excelente epitáfio: morreu de curiosidade!

São inúmeras as descrições que fazem jus a qualquer família. Seja a loucura cáustica já aceite de quem quase está senil às decisões tomadas a quente dos mais jovens e inseguros, que buscam orientação, mas também liberdade e aventura.

A família o avô Abelardo, que é um personagem que vale por todos os outros, vai sendo apresentada, um a um, pelas alegrias, mas também pelos desaires próprios de cada carácter.

"Nas famílias predomina essa virtude de admitir a extravagância quotidiana como normalidade."

Bem dito e bem certo para todos os membros desta família. Por eles, a mansão estará sempre aberta.

"O lar é o único lugar aberto toda a noite." A citação é de Ambrose Bierce, um jornalista e satírico contista que considerava que sinónimo de "sozinho" era estar em "má companhia". Ao lermos que este escritor realista misturava humor negro, cinismo e um olhar acutilante à sociedade que o rodeava... é exactamente o que encontramos neste relato familiar de Trueba, olhar esse que se mantên do seu aclamado Saber Perder.

"- Avô, o que mais te disse Deus?

- Que não revele nada da nossa conversa a não-crentes e romancistas. Deus só fala a poetas e por isso a Sua voz é verso, verdade e vida. Os três vês que, para o caso de não saberes, são sinónimos."

Faltam muitos vês nesta conversa, falta: vitalidade, virilidade, vicissitude, vulgaridade, veleidade ou ainda vontade, vibrante, vitorioso... São várias características para descrever os três vês do avô Abelardo e caracterizar os eventos familiares bem como os seus facilitadores.

O amor, em todas as suas vertentes existe em "Aberto toda a noite", mesmo que por vezes seja ridicularizado e visto como supérfluo. Dizer mais sobre os acontecimentos desta família é retirar todo o humor de se ir divertindo a cada página. Essencialmente, este romance de Trueba é puro entretenimento para o leitor. Aliás em filme e com as expressões idiomáticas espanholas deveria ser a comédia do ano.

"Amor: A estupidez de pensar demasiado no outro antes de saber o que quer que seja sobre si próprio."

Bierce é citado novamente e faz todo o sentido, face ao rumo que o amor ou algo que se confunde com ele, obriga as pessoas a agir, ou melhor, reagir, desesperadamente. No entanto, "O fardo que pesa sobre os ombros, não pesa menos por o deixarmos cair." é um provérbio edetano citado perto do final e abre o caminho para pensarmos em como por vezes podemos ver ou sentir a família.

Dois anos de Roda dos Livros - Festa e sugestões de leitura

Roda Dos Livros, 19.01.15

IMG_1991

Quando ouvimos o bater à porta que anuncia o final de mais um encontro, arrumamos os livros à pressa nos sacos e reorganizamos a sala. As cerca de quatro horas que passamos a falar de livros nunca são suficientes para tanta vontade de partilhar, discutir, conversar e rir.

Somos leitores e gostamos de livros. Parece tão pouco dito assim, para uma paixão que vai muito além do que lemos, é um caso de amor e de atracção descontrolada por um objecto que nos dá tanto e que, pela partilha, pela forma como é exposto, e pelo que nos faz viver, pode passar para outra pessoa tão carregado de magia e sentimentos que se torna um caso sério de amor.

Os livros são o fio condutor da nossa história como grupo, como família, como uma espécie de tribo que já não se separa, que se dá bem, e que mesmo quando se zanga, sabe que a união é maior que a discórdia.

A Roda dos Livros tem dois anos. Mas na cabeça de cada um de nós tem o tempo das nossas vidas, porque sempre lhe pertencemos. O encontro, inevitável, aconteceu mais tarde. Por isso temos feito, neste dois anos, um sprint para recuperar o tempo separados. Uma vez por mês a Roda reúne no local que lhe abriu as portas desde o primeiro dia, a 12 de Janeiro de 2012. A Biblioteca dos Olivais é, por uma tarde, a nossa casa. A casa de uma família que vive com fome e sede dessa tarde.

O grupo está em festa e comemora o tempo de partilha. Comes e bebes, bolo de aniversário e livros. Numa tarde diferente no BIBO Bar no Bairro Alto, rimos muito e levámos livros especiais para a pilha do costume. Em cima o pote das citações 2014 da Cris. De volta a nossa Sara. Sentindo a falta dos que não puderam ir. Obrigada ao Gil Cardoso pelas fotos, por esta habilidade de transformar lugares escuros em túneis de luz, sem flash claro.

IMG_2062

Jorge Galvão: O Retorno, de Dulce Maria Cardoso;

Patrícia: O Tempo Morto é um Bom Lugar, de Manuel Jorge Marmelo;

Sara: Anna Karenina, de Leo Tolstoi;

Catarina: Duendes en el Rio de la Plata, de José M. Martinez Vivot;

Cris: Dá-me um Abraço, de John A. Rowe;

Carla: Maus, de Art Spiegelman;

Renata: Gente Independente, de Halldór Laxness;

Márcia: Fernando Pessoa, o Romance, de Sónia Louro;

Ana: A Espuma dos Dias, de Boris Vian;

Sónia: Correios, de Charles Bukowski;

Cristina: Terra de Milagres, de João Felgar;

Vera:, Arroz de Palma, de Francisco Azevedo;

 

 

O osso da borboleta - Rui Cardoso Martins

Roda Dos Livros, 18.01.15

oossodaborboletaPor vezes há livros que não me dizem nada. E se de início a leitura não me envolve, e aqui vejo o claro inconveniente de ter muitos livros por ler, deixo de lado e passo para outro. O osso da borboleta foi um desses livros que me custou começar, não percebi o início, francamente não sabia o que estava a ler, não entendi, não me identifiquei.

Foram vários os motivos que me fizeram continuar. Alguma futilidade, pois os livros da Tinta-da-China são lindos e é um prazer tê-los nas mãos. Algum sentido prático, pois este é o livro da leitura em grupo para a sessão de Fevereiro da Comunidade de leitores Leya e grupo. E, a partir de uma certa altura, o verdadeiro interesse, na medida em que a acção se passa numa cidade que, pelas descrições, me começou a ser demasiado familiar, e que decidi que, para mim, seria a cidade onde cresci.

A partir deste momento criei o meu palco, e um palco conhecido ainda por cima, portanto tinha de continuar a conhecer as personagens que vivem, se movimentam e interagem nas ruas que eu conheço, habitam casas localizadas em bairros que eu sei onde ficam, conversam sobre edifícios e locais que eu sei quais são.

A partir daqui criei uma ponte válida para continuar, para conhecer um livro que se revelou, aos poucos, uma maravilha, oscilando entre passado e presente de forma hábil, construindo vidas para as quais eu fui atribuindo caras, permitindo-me o meu próprio exercício ficção/realidade. Se teria sido uma leitura mais interessante considerando uma cidade desconhecida, sem ruas definidas na minha cabeça, nem rostos reais a quem atribuir estórias? Talvez. Mas assim criei uma forma peculiar e interessante, e até pessoal, de prosseguir a leitura.

Foi o primeiro livro que li de Rui Cardoso Martins e, após um começo sinuoso, a escrita peculiar do autor foi-me convencendo e agradando cada vez mais. Apesar de não ter mencionado acima, o estilo pouco óbvio e a forma de dar só um pouco de cada vez ao leitor, foram também determinantes para que, mesmo sem dar por isso, me fosse agarrando mais ao livro. Constrói a narrativa de forma lenta mas sustentada, criando bases e razões para as atitudes das personagens, aguçando o interesse e dando a sensação de fim, de que tudo se vai fechar e fazer sentido.

Se no inicio é apresentado um homem que vive isolado e escondido num sótão, envolvido num mistério e secretismo que pode funcionar como uma construção caricata para suscitar a dúvida e fazer o leitor prosseguir, apesar de, como já referi, esta personagem inicial não me ter impulsionado para a leitura, antes me provocou estranheza e até algum asco, a narrativa vai fazendo surgir outras personagens com vidas que se tocam no presente mas com passados que se vão descobrindo devagar, numa leitura, agora sim, prazerosa e suculenta.

Se estivesse ao meu alcance classificar um livro de forma objectiva, “O osso da borboleta” seria um gráfico ascendente, demonstrativo do crescente empolgamento que me proporcionou. É sem dúvida um exemplo a reter de que, por vezes, vale a pena insistir, superar dificuldades e resistências para descobrir algo superior, que me levou muito além do que pude esperar. Um autor para continuar a descobrir.

Sinopse

“Uma cidadezinha atlântica portuguesa, hoje. Tem praia, casino, pescadores, bandidos, o rasto dos refugiados judeus da Segunda Guerra. Nesta terra consumida pela grandeza do passado — ou a falsa memória de que já foi grande — um homem escondeu-se do mundo, num sótão. Fala com as pombas e com deusinhos gregos, tem um Olimpo de vitrine. É ladrão mas não o admite. Quem não fez isto e aquilo e aqueloutro naquela altura? A vizinha de baixo arrasta as pantufas da velhice e da solidão, insulta as suas flores. Já foi a mais bela mulher da cidade. Purificação, ou melhor, Borboleta, antiga especialista em palpites de jogo. O passado vem ter com ela: um deus da província e do dinheiro sujo quer esmagá-la. Borboleta sai à rua e defende-se. Morre o cão, acaba a raiva. O Osso da Borboleta é um relato em directo do último século de um país, Portugal, que não encontra lugar no mundo. Da aflição das pessoas que procuram a felicidade, de fracasso em fracasso. Uma comédia humana em que, para nossa alegria, o mal pode ser envenenado e a vida continuar.”

Tinta-da-China, 2014

A Rapariga Inglesa - Daniel Silva

Roda Dos Livros, 17.01.15

araparigainglesa

Há livros que de tanto os ver não reparo neles. Ficam invisíveis. Os livros de Daniel Silva sempre me passaram despercebidos, e um dia ainda muito próximo e não por sugestão de um amigo como é habitual, reparei, li e ... gostei.

Gabriel Allon, o lendário espião e assassino israelita conquistou-me com a sua inteligência e carisma em perigosas aventuras na companhia de uma equipa forte e coesa do Departamento e da sua bela Chiara. Uma outra personagem relevante surgiu no enredo - Keller, o assassino contratado que não cumpriu, foi o aliado e o desafio de Gabriel que começou com o rapto da Rapariga Inglesa na Córsega. A velha profetiza, que tudo sabia encantou-me com as três gotas de azeite para libertar de todo o mal, um trabalho muito latino que parece magia.

Intriga, espionagem, crime, muita ação e adrenalina em viagens arriscadas e bem sucedidas, ou talvez não, com Gabriel e os seus aliados e amigos em luta pelos seus valores contra inimigos traiçoeiros e perversos. Os meandros desta missão de resgate levaram Gabriel para um destino impensável onde a ganância e ambição não andam longe.

Parece banal mas são muitas páginas de uma intrincada trama internacional, que se lêem sofregamente, porque nos precipitamos para as páginas seguintes para desvendar rapidamente o desfecho em que se faça justiça. As personagens com a sua história pessoal, bem como o seu percurso por vários sítios, permanecem no nosso imaginário muito depois de terminada a leitura.

Uma boa história para ler em dias assim. Quando um dia cinzento ganha luminosidade.

Sinopse:

Sete dias. Uma rapariga. Não há segundas oportunidades.
Madeline Hart é uma estrela ascendente no partido britânico no poder: bonita, inteligente, motivada para o sucesso por uma infância pobre. E agora está desaparecida...
Os seus raptores descobriram que ela tem um romance com o primeiro-ministro, Jonathan Lancaster e querem fazê-lo pagar por isso. Receoso de um escândalo que lhe destrua a carreira, ele decide lidar com o caso em privado, sem o envolvimento da polícia britânica. Trata-se de uma decisão arriscada, não só para si próprio, como para o agente que conduzirá as buscas.
Tem sete dias ou a rapariga morre.
Entra em cena Gabriel Allon — espião e restaurador de arte —, para quem as missões perigosas e a intriga política não são novidade. Com o relógio a contar, Gabriel tenta desesperadamente trazer Madeleine de volta a casa em segurança. A sua missão leva-o do mundo criminoso de Marselha a um vale isolado nas montanhas da Provença, depois aos bastidores do poder londrino e, finalmente, a um clímax em Moscovo, uma cidade de espiões e violência, onde há uma longa lista de homens que desejam ver Gabriel morto.

Cotovia de Dezsö Kosztolányi - Opinião

Roda Dos Livros, 15.01.15

Cotovia de Dezsö Kosztolányi é considerada uma obra-prima da literatura húngara. Um romance pejado de realismo, num retrato de época brilhante e de enorme beleza estética. São alguns dos atributos e elogios que a crítica e o tempo têm feito a este livro de enredo simples, mas pejado de uma linguagem e uma escrita magistral. Ainda assim, é uma obra que não me cativa na sua totalidade, já que o alargamento de todo o enredo se perde em alongadas e detalhadas descrições, que farão um retrato fiel da sociedade e dos costumes da época, é certo, mas para mim, de tão distantes que estão dos meus interesses e experiências, tornam-se enfadonhos e retiram o interesse que a temática poderia ter.

Julgo que a essência deste livro está em pensarmos no peso que um familiar representa e a liberdade que reprime aos restante, mesmo que a decisão de ser esse peso não seja voluntário por parte da pessoa em causa. Por outro lado, é um livro que relata o afastamento, a falta de comunicação e de uma relação próxima, muito em parte pelos próprios costumes de época. O afastamento da filha, Cotovia, é visto como um enorme drama, ainda que se leia nas entrelinhas toda a vida que escapa das mãos destes pais e que quase por uma última vez vão ter a possibilidade de reviver.

"Quem parte é alguém que desaparece, se aniquila, já não existe. Vive exclusivamente como lembrança, que visita com frequência a nossa imaginação. Sabemos que está algures mas não o vemos, tal como os que morreram"

Perdura em todo o romance o peso de uma sociedade abrilhantada pelos modos requintados, mas os sentimentos e as relações urgem de maiores momentos, se bem que quando surgem há tanto uma forma sóbria e quase desapegada como uma forma exagerada e dramática demais.

A leitura deste romance de Dezsö Kosztolányi surgiu devido à leitura de "O Meu Irmão", de Afonso Reis Cabral, como obre sugerida pelo próprio autor. As semelhanças são evidentes. O sentido de compromisso e sacrifício surgem de igual modo como forma de garantir a segurança, o amor e o lar que o ente querido precisa. O afastamento e o peso que causam é notório em ambos os enredos, apesar de serem gerados por situações díspares. Se por um lado pensamos em casamentos, dotes e costumes de final de século XIX, por outro pensamos em deficiência e dificuldade de inclusão total na sociedade actual.

Fica de ambos, a servidão e a escravidão (consentida!?) a que por vezes o amor obriga ou fomenta.

até que consigas voar - José Gameiro

Roda Dos Livros, 12.01.15

atequeconsigasvoarNão sei porque hesito e protelo durante dias em expressar a minha opinião. Suponho que demoro a processar o que li.

Gostei muito de "até que o amor nos separe". 

É sempre uma revelação encontrar um autor que passa para o papel tanto do seu saber e da sua experiência sobre o comportamento humano sem que de fição se trate, com uma simplicidade e autenticidade que satisfaz a minha curiosidade e interesse. Pequenos episódios que se lêem rapidamente em que percebemos o peso da morte, do medo, da depressão e dos conflitos conjugais que tanta angústia e dor acarretam, levando sabiamente a procurar ajuda profissional. Frequentemente, desvalorizamos e não compreendemos o sofrimento alheio. Sorri quando li:

Julgo que uma das coisas que os depressivos nos agradecem é não lhe dizermos "olhe, deixe-se de pieguices, e vá passear a gozar a vida". Só quem nunca passou por uma depressão é que não compreende que este é o conselho mais estúpido que se pode dar a um deprimido. É quase a mesma coisa que dizer a um impotente "Você precisa é de fazer sexo..."                     (pag. 71)
Possivelmente, neste livro, alguns irão encontrar eco do seu sentir, que por temor não partilham e tentam a todo o custo lidar e ocultar, sem reconhecer que:
Nós somos uma espécie de cebola (...). As de fora correspondem aos comportamentos, as mais interiores à personalidade. Na relação com os outros podemos mudar a camada exterior, adaptar comportamentos de modo que a interação seja mais clara e calma. Mas debaixo de maior pressão, esta mudança é mais difícil e funcionam as camadas interiores da cebola.               (pag, 141)   
Um psiquiatra pode ajudar e através da terapia desatar um nó, funcionando como um acelerador do tempo de sofrimento. Nada mau para um psiquiatra com horror à imutabilidade e crença na capacidade do ser humano de resistir e superar, convicto de que as soluções estão em cada um das pessoas que o procuram e que afinal dá um conselho que o próprio seguiu.
A seguir  a um grande susto no ar do qual pensam não sair vivos, voltem a meter-se num avião e voem, voem, voem.          (pag. 178)

Roda dos Livros Sugestões de Leitura - Janeiro 2015

Roda Dos Livros, 11.01.15

DSC01827b

Sónia: O Meu irmão, de Afonso Reis Cabral;

Catarina: Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa;

Cris: Pigtopia, de Kitty Fitzgerald;

Márcia: Firmin, de Sam Savage;

Renata: Quantas Madrugadas tem a Noite, de Ondjaki;

Isabel: Comboio Nocturno para Lisboa, de Pascal Mercier;

Vera: Até que Consigas Voar, de José Gameiro;

Cristina Delgado: Materna Doçura, de Possidónio Cachapa;

Pág. 1/2