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Roda Dos Livros

Não se encontra o que se procura - Miguel Sousa Tavares

Roda Dos Livros, 31.12.14

naosenecontraoqueseprocuraNeste livro há um pouco de tudo. Desabafos, memórias, relatos de viagens. Envolvi-me muito com os textos sobre o processo de escrita e o grande prazer de escrever. Por me identificar, por gostar muito de ler e escrever.

Gosto do estilo do Miguel, da forma como se “está nas tintas” para o que pensam dele, e do modo como diz o que pensa e lhe apetece. Por um lado acho sempre os seus livros libertadores, mas por outro questiono a atitude de quem acha que tem sempre razão, ou assim o Miguel aparenta. Gosto da ideia do tipo que faz e diz o que quer, invejo-a às vezes, mas ao mesmo tempo deixa-me um bocado de pé atrás. Esta contradição sempre me impeliu para os livros dele. A rebeldia dá estilo, deve ser isso.

Enfim. Apesar deste “Não se encontra o que se procura” (excelente título, completamente verdade e com diversas aplicações) ser um bocadinho para o morno, está lá o Miguel rebelde, curioso e com sede de conhecer, que corre o mundo em viagens e olhares, a bagagem cultural, a entrega aos livros, a vida mundana, os vícios e os prazeres.

O início é promissor mas depois, infelizmente, vai arrefecendo. Alguns textos saboreiam-se com um sorriso, em algumas ocasiões sente-se mesmo o cheiro das comidas e de outras paragens. Irei certamente reler algumas passagens mais marcantes, mas esperava mais.

“(…) eu escrevo para dar um uso às palavras que todos temos de usar, de deitar cá para fora. Porque, por mais importante que o silêncio seja para mim - e é – há alturas em que o silêncio esmaga e eu preciso combate-lo, escrevendo. Mas também escrevo por prazer – nem sempre, mas em alguns dias ou noites mágicas, em que parece que voamos sobre as páginas, numa espécie de levitação absoluta, que suponho seja aquilo a que se chama inspiração.” (Pág. 104)

Sinopse

“A escrita, a viagem, a memória, a vida fora da espuma dos dias, a descoberta, o apelo do desconhecido, o instante em que tudo pode acontecer, tudo isto está no novo livro de Miguel Sousa Tavares.Nesta viagem fora do seu quarto, o autor transporta-nos ao seu mundo mediterrâneo, ao sul de Portugal, à Croácia, a Roma, à Sicília, ao Brasil e aos lugares da História por onde passaram figuras gigantes. No regresso a casa, explica a razão da sua escrita. A sós, com as palavras, viaja para dentro de si para partilhar aquilo que só os grandes contadores de histórias sabem fazer, seguindo o lema: "Viajar é olhar".”

Clube do Autor, 2014

No céu não há limões de Sandro William Junqueira - Opinião

Roda Dos Livros, 31.12.14

Conhecem aquela sensação ao abrir um livro e voltar a lê-lo, aqui e ali, seguindo os cantos dobrados, as folhas mais marcadas, as frases sublinhadas e redescobrir o que tanto nos atraiu e nos fez ficar presos nesse livro!? Foi isso mesmo que me aconteceu quando ontem peguei para comentar este último romance de Sandro William Junqueira (SWJ) que já li em Agosto.

Não deixei por rever este livro por acaso. Há tanto de extraordinário como de comum neste romance de contornos meio surreais e distópicos, mas igualmente semelhante aos dias de hoje, com tudo o que de nefasto existe nos flagelos actuais. Existe fé, mas não vence a corrupção do corpo. Existe deus, mas é conspurcado pela mente dos homens. Poderia existir amor, mas o poder fala sempre mais alto... talvez haja inocência, mas é confundida com desconhecimento ou falta de sofrimento. Existe humor, mas lapidado pelo lado negro.Sandro William Junqueira junta as dualidades mais opressivas que o ser humano acarreta em si e transporta-as para um lugar desconhecido que poderia ser o país de qualquer um, mas planta a acção perto do mar ;() onde a Avó consegue sentir a aragem marítima. Separa o Norte do Sul, atribuí grandezas a uns e fome de tudo a outros, mas separa-os por uma fronteira tenebrosa, mas ténue onde os interesses e o poder se confundem em prol dos desejos e das necessidades fúteis dos mesmos do costume.Não é fácil fazer-me entender ao falar deste livro sem ter a tendência, ou para explicá-lo (conforme eu entendi) ou para enredá-lo e complicá-lo um pouco mais. É complexo, sim. A forma e a estrutura que assume é diferente, não será novidade para quem leu o romance anterior, mas não deixa de ser complexo imaginar todo um enredo sem espaço geográfico definido, tempo ou nome para as personagens. A Avó é assim nomeada pelas características óbvias, como o Bispo, pelas funções que desempenha, ou o Padre, ou até a Adolescente evidentemente pela idade e outros atributos.

A espontânea maldade intrínseca no argumento que compõe este "No céu não há limões" é, a meu ver, um olhar atento à Humanidade e aos dilemas intemporais e existenciais que o ser humano atravessa nas várias idades da vida, mas essencialmente naquela em que questiona o sentido e a direcção da sua missão, do seu papel e talvez questione a presença de uma mão superior, abstracta e poderosa que possa garantir o seu caminho. Mas isso não acontece de forma suave e muito menos sem perguntas e dúvidas.Estou a falar de fé, de religião, de acreditar ou não em Deus e decidir o que sentimos segundo as leis dessa crença, dessa espiritualidade. Não sei se esta é a essência deste romance, mas foi isso que ficou evidente para mim. Em que ponto da nossa vida procuramos a fé e a espiritualidade? E quando surge, é facilmente absorvida ou somos antes de tudo absorvidos para os dilemas e os problemas associados?Penso no lado menos colorido deste tema, pois o livro segue esse lado mais negro. Um lado que desenterra o passado, um lado que verte sangue e derrama lágrimas. Julgo que o centro da acção deste enredo está precisamente nessa maldade que aguarda a queda do homem. À distância de promessas sem compromisso ficam acções que poderiam salvar as almas e orientá-las num futuro melhor, mas sente-se pouca esperança ao longo das páginas.A missão falha, arrasta-se e está obstipada. Há um certo azedo que acidifica todo este cenário estruturado para o que é feio e que torna os homens em meros figurantes. Um discurso recheado de metáforas para a ficção em que se tornou o palco da vida.E julgo que não podia ter encontrado melhor parágrafo para finalizar, tentando fazer justiça ao único traço belo deste romance: a linguagem extremamente funcional mas lírica com que Sandro Willliam Junqueira consegue compor, usando palavras simples, mas que não podiam ser as mais adequadas.

O tempo morto é um bom lugar, de Manuel Jorge Marmelo

Roda Dos Livros, 30.12.14

o tempo morto é um bom lugar
Parte 1 (28/12/2014)
Será que uma boa ideia e uma escrita exemplar são suficientes para escrever um bom livro? Até ter começado a ler este livro diria que sim. A premissa de que "afinal a prisão é um bom lugar para se estar, casa cama e roupa lavada e a total ausência de responsabilidade no que se refere a contas para pagar, impostos e pensão de alimentos" é, de facto genial. E a escrita do escritor é irrepreensível.
Mas então porque me custou tanto ler esta primeira parte deste livro? Depois do primeiro contacto com a ideia, prefiro não a esmiuçar página sim, página não. A sério, torna-se irritante estar sempre a ler a mesma ideia escrita de formas diferentes... ou mesmo iguais. Foi um exercício de perseverança, paciência e teimosia literária continuar a este livro.

Uma nota para as histórias dentro da história: fascinantes. Foram mesmo o que salvou esta parte.

A questão é mesmo: será que compensa?

Parte 2 (29/12/2014 22:15 mais minuto menos minuto)

Surpreendentemente fiquei fascinada pela autobiografia de uma celebridade instantânea morta. E como a escrita continua interessante li num ápice esta parte do livro. Afinal a morta é muito mais interessante que o suposto assassino confesso que adora estar preso e que na verdade não tem a certeza de ter  assassinado a miúda.

Afinal quem raios matou a desgraçada?

*** Spoiler alert - vá, quem não leu vá-se embora, volte depois, não me digam que não avisei)

Parte 3 (29/12/2015 23:56)

Raisparta estes escritores e os seus fins em aberto que me deixam sempre com vontade de estrangular alguém. Tenho este defeito de gostar de ler uma história bem contada. Sei lá, devo ser demasiado preguiçosa para me pôr a imaginar finais e de destrinçar a verdade da mentira. Os personagens são vossos, a história é vossa, a verdade é vossa e eu é que tenho de saber o que raio se passou? 

Esta última parte do livro foi lida de uma assentada, comigo a ter mil ideias acerca do que se tinha passado, a ler nas entrelinhas, a construir e a desconstruir teorias e cenários.

Depois de quase ter desistido na primeira parte, completamente farta daquela repetição de ideias que me estava a dar cabo dos nervos, fui completamente conquistada nas segunda e terceira partes. Deixei-me enredar nesta história, li cada frase com calma, sorri (ou limitei-me a acenar e a concordar) com as reflexões tão atuais e tão bem escritas, entusiasmei-me e elevei expectativas à espera de uma revelação, de uma reviravolta qualquer que fizesse tudo ter sentido e desiludi-me novamente num final morno, filosófico e abrupto que não me conseguiu convencer (juro que estava quase à espera que o jornalista descobrisse o assassino e batesse as botas com um sorriso irónico).Este género de final está cada vez mais na moda, talvez por envolver o leitor e dar-lhe alguma importância e certa uma sensação de inteligência. A mim não me agrada por aí além. Nunca me sinto dona das histórias e neste caso sinto-me até excluída. Há sempre a possibilidade de ter perdido algumas coisas ali pelo meio e de toda a gente, menos eu, ter percebido tudo (e não me venham, por favor com a teoria de que ninguém existia realmente, de que eram personagens dentro das histórias ou de que o importante é tudo o resto, todas as ideias giras mas soltas, ok?).

Em resumo: gostei mas...Nota: isto foi mesmo escrito aos bocadinhos depois de cada parte do livro o que torna esta opinião um bocadinho "esquizofrénica" mas foi mesmo assim que me senti enquanto li este livro. E que, como sempre, pretende apenas transmitir a minha opinião "a quente" da forma mais honesta possível.E apenas uma correcção em relação ao que escrevi no início: não é "uma boa ideia e uma escrita exemplar"... são "muitas ideias fantásticas e uma escrita exemplar" que realmente salvam o livro. 

A cidade do medo, de Pedro Garcia Rosado

Roda Dos Livros, 30.12.14

A cidade do medo

Porque é que o género policial é tão apreciado? E tão menosprezado ao mesmo tempo?

Esperamos crimes e maldade mas não esperamos palavras bonitas. Esperamos personagens com intricada complexidade mas não começamos a ler o livro com os post-it na mão à espera de passagens memoráveis.

E é pena. É pena porque por um lado o género policial não é um género menor (tal como não o é a fantasia ou a ficção científica). E é pena porque neste livro bem senti a falta dos meus post-its para poder, com rapidez, voltar atrás nas páginas que lia compulsivamente e recordar (ou confirmar) certas passagens.

Levei muito tempo a ler este livro mas por pura falta de tempo. Aproveitei os momentos que pude para ler mas não lhe fiz justiça. Este é um livro para se ler de fio a pavio e é isso que vou fazer com o segundo volume desta série “Não matarás”: vou escolher um dia em que possa ler o livro inteirinho de uma assentada. Porque é isso que gosto de fazer com os policiais.

Começo já por fazer uma crítica e uma sugestão. A crítica é a sinopse: demasiada informação para um policial. A sério: nós leitores não queremos saber. Queremos saber tudo mas apenas durante a leitura. A sugestão é simples: era giro ter um mapa de Lisboa a acompanhar a leitura. Se era imprescindível? Não, claro que não. Mas era girooooo.

Quanto ao conteúdo não posso falar muito (querem saber? Vão ler a sinopse ou melhor leiam o livro) para não estragar mas fiquem a saber que o importante não é saber quem é o assassino. O importante são os porquês, os meandros da política, a corrupção, os interesses, as amizades. Um livro onde a ficção e a realidade se misturam e nos deixam ainda mais preocupados com a nossa realidade.

Gostei imenso e ainda bem que acabei por ler este livro.

Tão bom ler-se um policial nosso.

O Meu Irmão - Afonso Reis Cabral

Roda Dos Livros, 27.12.14

O Meu IrmãoNão havia nada que me preparasse para o choque e a raiva que senti no fim da leitura de “O Meu Irmão”. Cheguei ao fim sem ter lido nenhuma opinião publicada, nenhum comentário a este livro, apenas assisti a alguns encolher de ombros e expressões de estranheza e mistério de quem o tinha lido.

Não estava na completa ignorância, sabia que o livro escondia algo. E assim o li, sempre à espera de descobrir não sabia eu o quê, como seria, nem quando aconteceria. Uma coisa é certa, o encanto (bom ou mau) deste livro está em não se saber ao que se vai. Quando o chão nos sai dos pés esquecemos até o nosso nome. Por isso aconselho a quem ainda não leu e tenha intenção de o fazer que fique por aqui. Guarde a leitura desta opinião para mais tarde vir cá trocar umas bolas comigo. Assunto não nos vai faltar.

Excepcionalmente, acho que é a segunda vez que faço isto, vou transcrever a sinopse primeiro.

“Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos que nasceu com síndrome de Down. É então que o irmão – um professor universitário divorciado e misantropo – surpreende (e até certo ponto alivia) a família, chamando a si a grande responsabilidade. Tem apenas mais um ano do que Miguel, e a recordação do afecto e da cumplicidade que ambos partilharam na infância leva-o a acreditar que a nova situação acabará por resgatá-lo da aridez em que se transformou a sua vida e redimi-lo da culpa por tantos anos de afastamento. Porém, a chegada de Miguel traz problemas inesperados – e o maior de todos chama-se Luciana.Numa casa de família, situada numa aldeia isolada do interior de Portugal, o leitor assistirá à rememoração da vida em comum destes dois irmãos, incluindo o estranho episódio que ameaçou de forma dramática o seu relacionamento.O Meu Irmão, vencedor do Prémio LeYa 2014 por unanimidade, é um romance notável e de grande maturidade literária que, tratando o tema sensível da deficiência, nunca cede ao sentimentalismo, oferecendo-nos um retrato social objectivo e muitas vezes até impiedoso.”

Perante esta descrição eu esperava um livro sobre o Síndrome de Down. Sobre as limitações e dificuldades do irmão com esta condição, assim como a vida familiar, as adaptações forçadas, o sofrimento, etc, etc.

A verdade é que fui enganada. E fui enganada praticamente o livro todo, que quando a nossa cabeça quer ver as coisas de determinada forma, é mesmo dessa forma que as vê. Então eu estive quase trezentas páginas do livro, que tem 365, convencida que “O Meu Irmão” é o Miguel, o deficiente, o mongolóide, como tantas vezes é tratado pelo narrador. Cruel. Senti sempre, mesmo desde início, uma crueldade nas palavras, uma frieza no tratamento, nas descrições dos momentos em família, como se tivesse a ver as cenas através de um vidro gelado e as personagens fossem vazias de sentimentos.

“O Meu irmão”, para mim, é o narrador, o outro irmão “professor universitário divorciado e misantropo”. Este vai na verdade demonstrando a sua natureza ao longo de todo o livro, e que será apanhado por aqueles leitores atentos e inteligentes que não se deixam levar por sinopses politicamente corretas, e que conservam o espírito crítico. Não foi o meu caso. Fui completamente enrolada, no fim do livro consegui ver mesmo a cara do Afonso Reis Cabral a rir-se de mim. Resta-me a consolação, vá, a felicidade, de ter sido enganada em grande nível, pois que a escrita é irrepreensível. Fiquei pasma com algumas passagens perfeitas, questionei-me constantemente onde terá ido o autor desenvolver a capacidade de articular tanta beleza, por vezes, com tão poucas palavras.

“Por causa das nuvens, não existe lua para meter luz por entre as folhas e fazer desta árvore uma pequena ave-maria iluminada pela fé.” (Pág. 113)

É um Dom.

Então este irmão malvado, que me convenceu sempre de estar a ajudar o Miguel, por cuidar dele depois da morte dos pais, por mudar de casa e de cidade para manter o Miguel no seu ambiente, a frequentar o centro que sempre frequentou, é um tipo que toda a vida se deixou levar e diminuir pela inveja e pelo ciúme, que foi cultivando sentimentos de ódio e raiva em relação ao irmão, pela atenção constante que tinha dos pais e das irmãs. E lá vem ele da sua vidinha vazia, misantropo que soa melhor, para se enfiar com o Miguel numa terriola no meio de nada, depois de se deixar levar pelo descontrolo, pelos instintos mais baixos, por um certo complexo de Deus, e numa espiral de loucura, cometer um acto atroz que defende, como todos os loucos, ser o certo.

O acto em questão não revelo, não vão alguns de vocês que ainda não leram o livro estarem por aí à espreita.

Zangada, talvez mesmo furiosa, tenho a dizer coloco este livro num patamar muito elevado por me fazer sentir tantas coisas, mexer com tantos sentimentos, horrorizar-me e não me deixar indiferente. Nunca reli um livro. Mas este deixa-me uma certa vontade de, daqui a uns tempos, lhe voltar, lhe pegar de outra perspectiva. A certa. Ou a que eu agora acho que é a certa.

Brilhante!

Leya, 2014

"Perfumes", de Philippe Claudel - Opinião

Roda Dos Livros, 25.12.14

Era impossível resistir a este "Perfumes" de Philippe Claudel, com tão soberba referência logo na capa. A obra de Gustav Klimt, "As três idades da mulher".
Depois, é também impossível resistir a tão belo começo que se lê nas primeiras páginas, facultadas no site da Sextante, onde se lê a influência dos Abetos e das Acácias. Desde cedo se percebe a ligaçãoà Natureza nestes relatos perfumados, organizados alfabeticamente, como que controlando a possível fuga de algum desses cheiros e correndo o risco da biografia sensorial ficar incompleta.
Assim, de A a V, de Abeto a Viagem, Philippe Claudel traça um diário das suas memórias, desde a infância à idade adulta. Num livro pautado pelos cheiros, o autor dá corpo a um conjunto de episódios que se aproximam às vivências dos leitores, seja nos cheiros que nos são familiares ou nas memórias que também nos são comuns.
É então pela "Tábua de Perfumes" que vamos conhecendo o pai lenhador, camponês, operário químico, que no pós-guerra vira policia, mas não esquece as suas florestas, ou não fossem eles naturais dos Vosgos. É por linhas breves, mas intensas que a vida familiar do autor vai espelhando as raízes francamenteencastradas neste cenário montanhoso.
"É um mundo de quietude, de zunidos de abelhas, de lentos trajectos de lesmas (...)" (pág. 12)  Entre couves, carvão ou estrume, mergulhando no forte odor do alho que lhe arde nos olhos, mas lhe satisfaz o paladar... esse que quase só anualmente sente o exótico da canela, mas não a esquece, quando misturada no vinho doce. É nesses cheiros inebriantes que se libertam da cozinha que relembra a avó.
Por entre cheiros, memórias e descrições breves, mas belíssimas, que ficamos a conhecer o pai, a avó, a mãe... as namoradas, os sonhos e os episódios com que se talha a tábua de cheiros de uma vida. É curiosa a forma como a memória olfactiva a que o autor apela me fez pensar nos cheiros que me têm acompanhado ...
E você, já pensou quais os cheiros que têm perfumado a sua vida?
Quando começa esta viagem sensorial há uma referência a Einstein (pág.43) que diz: "A ordem é a virtude dos medíocre", o que não deixa de ser curioso face à forma caótica e repentina como os cheiros nos "atacam" nos dia a dia e puxam, arrebatam e nos assaltam os sentidos, deixando a marinar no nosso pensamento, memórias antigas... Nesse sentido ficamos a pensar até que ponto todo o livro não é um convite à desordem e a cheirarmos os capítulos que mais nos apeteça.
Se assim for, eu começaria na "canela", que foi precisamente por onde comecei. Peguei no livro enquanto mexia uma marinada de vinho, noz moscada, aniz, canela... apurando o molho para umas pêras bêbedas.
Desta forma, defronte ao fogão, mergulhadas já as pêras, li em família esse capítulo. Recordámos cheiros, sabores e episódios que nos levaram a cantos como as nossas praias favoritas, relembrando o protector solar de cenoura.
Mas, as semelhanças e a aproximação que senti, vai mais além, o Citröen 2cv, a esferográfica Bic, os cromos da Panini ou as guitarradas de Mark Knoppler, são memórias que se cruzam com as minhas. Se bem que existem capítulos que me fazem sentir falta até de coisas que não tive, como uma lareira para as noites frias de Inverno... É este saber medir o avanço do Inverno pela pilha de lenha e de carvão que me fez inveja. Há também uma ligação à cozinha, uma divisão simples em torno de uma mesa. A mesa das refeições, dos deveres, dos jogos de Monopólio... a mesa onde hoje me sento e leio! O autor e eu.
"Eu estou nos livros (...) É o lugar onde habito, leitor e artesão, é o que melhor me define."
"Perfumes" é um regresso à casa mãe, ao aconchego da infância, reavivando memórias dos cheiros de uma vida. Um livro que é um convívio comensal para os sentidos, numa prosa capaz de nos colocar a escrever sobre os cheiros da nossa própria vida!

A Fenda, Doris Lessing :: Opinião

Roda Dos Livros, 24.12.14

Chego a Doris Lessing, através da apresentação de "Amar de novo", referido e comentado na Roda dos Livros, onde aprendo bastante, ficando igualmente atenta para novos autores, como foi o caso.Doris Lessing é galardoada em 2007 com o Prémio Nobel da Literatura vindo assim firmar o valor das suas obras controversas e que fogem ao seu tempo, pondo em causa ideologias e religião. "A Fenda" segue esse percurso e dá um olhar feminista e de ruptura perante o papel atribuído à mulher. A critica em geral atribui-lhe enorme significado e tem uma vasta obra publicada, com mais de 70 livros. Começou a escrever a partir dos 25 e faleceu recentemente, em 2013, com 94 anos.

Sob o seu olhar feminista, "A Fenda" parte do princípio: «Foi apontada a possibilidade de a estirpe humana básica e primordial ser feminina e de o aparecimento dos homens ser mais tardio, à semelhança duma reflexão cósmica posterior.»O livro abre também com a premissa: "O homem faz, a mulher é." de Robert Graves, deixando adivinhar a declaração de poder e primazia das mulheres.

As mulheres deste (quase) romance efabulatório, são as Fendas, fêmeas que apenas dão à luz outras fêmeas por partenogénese (gestação/reprodução sem fecundação) e que, acidentalmente, sem se saber como, uma delas dá à luz um bebé diferente, um exemplar do sexo masculino, portanto, um Monstro, ou um Esguicho (por oposição a fenda)... termo que posteriormente os passa a caracterizar visto serem portadores de uma fisionomia diferente e quase que preocupante face à das fêmeas.

Numa luta entre o Bem e o Mal, coloca-se a possibilidade de eliminar tais Esguichos, revelando assim um lado mais violento e por tal, contestado. Lessing demonstra a urgência e quase o prazer daquelas mulheres em massacrarem e exporem ao abandono os bebés masculinos.

«Quando expúnhamos os nossos bebés deformados, as águias vinham buscá-los. Nós não matávamos os bebés, as águias é que os matavam.»

A repugnância, o medo, o desconhecido e o "ser diferente", mas tão próximo e semelhante abalou e pôs em causa a inquestionável descendência das Fendas pela Fenda e o papel das mesmas na comunidade já ancestral. A separação por sexos, em lados opostos da montanha e a quase protecção por elementos diferentes da Natureza talvez queria desenhar e organizar as diferenças que separam e rivalizam homens e mulheres, no entanto, a meu ver, a acção, o enredo e até a própria linguagem deixa muito a desejar.

A sobrevivência associada ao Rochedo da Morte e à Mãe águia, salvadora dos Esguichos e a Fenda protectora e que abriga as Fendas, a divisão entre as anciãs, Velhas Elas e outras personagens como Astre, Maire ou o primeiro Ele, são personagens e cenários com os quais tive imensa dificuldade de me ligar. A própria narração da história, sempre na suposição, no carácter experimental... retira o impacto e a litologia que a autora pudesse querer dar com a obra. Vejo essas partes da narrativa como cortes, que quebra e chegam a permitir ridicularizar toda aquela nomenclatura, que a certa parte me parece forçada e descontextualizada.

Sendo assim, a minha estreia com esta autora, cuja biografia (que tenho vindo a ler aqui e ali) me parece melhor que esta obra, se bem que os entendidos, afirmem que obra e biografia se fundem e daí a fama de grande parte das obras de Doris Lessing.

Quem sabe, se me cruzar com Os Diários de Jane Somers e com O Verão Antes das Trevas, os adquira e me perca pelas personagens que se misturam na biografia da autora.

*
Banda sonora (enquanto escrevi o artigo), clique na cassete ;)

"A casa de papel" Um clássico para bibliófilos :: Opinião

Roda Dos Livros, 24.12.14

Um clássico para bibliófilos.Um relato impregnado de paixão pelos livros... pelas palavras do Público.Pequenos prazeres, é a "categoria" que a ASA lhe atribuí.Um dos livros da vida de Ondjaki. - (link para vídeo - Ler mais ler melhor)... que foi por onde eu o descobri.Para mim é um livro obrigatório!

Ao lê-lo deu-me uma vontade enorme de repetir "Como um romance", de Daniel Penac. Ambos dão uma série de deliciosos «mandamentos».Ao lê-los sentimo-nos compreendidos, encontramos justificações para atitudes típicas de leitor, desde o dobrar o canto de uma página, a sublinhar frases ou ao simples acto de escrever o nosso nome na primeira página...

"Amiúde é mais difícil desfazermo-nos de um livro do que obtê-lo."

"A casa de papel" é um convite para viajar na literatura e aumentar a sua biblioteca, ou não fosse este livro um verdadeiro roteiro de grandes livros e grandes autores."(...) o tamanho das bibliotecas conta. Ficam expostas como um grande cérebro aberto (...)" " (...) uma biblioteca é uma porta no tempo."

A ideia de o leitor como um coleccionador minucioso munido de um cuidado estratégico de ladrão, que com a sua intrigada curiosidade constrói a sua própria casa de papel, é simplesmente divinal.

Divinal é também a caricata arrumação dos livros e a sua catalogação, uma descrição simplesmente brilhante, são duas a três páginas (pág. 40 em diante) de puro divertimento... por certo haverão leitores que irão rir ainda mais por encontrarem semelhanças consigo mesmos.

Este livro de culto de Carlos María Domínguez é um hino ao amor pelos livros, mas também à tragédia associada a eles. O vício dos livros levado ao extremo, numa dedicação sombria. Pois para além da curiosa morte de Bluma, temos o bibliófilo Carlos Brauer, um "animal de cidade até à medula" que vê a sua vida emparedada de livros e uma solidão atroz.

É ao relatar Brauer como "alguém pouco habitado" que surge a personificação do medo, um lugar sem sombra. A solisão é um lugar sem sombra.

Mais não posso revelar, só deixar-vos o link para a sinopse e mais informações.

(...)

"O arrependimento é um intervalo entre dois pecados" de Paul Eldridge é uma frase, mais que adequada para rematar este romance

"Livro sem ninguém" - Opinião

Roda Dos Livros, 22.12.14

"Livro sem ninguém"... um livro cheio de rastos de gente!
Gente que ama, que sofre, que lê, que estende roupa, que se passeia, que vai à horta... Gente com eu, como tu, como todos. Gente (quase) sem livros, num livro sem ninguém.
Há demasiadas coisas, objectos, episódios, descrições que não assentam em ninguém.
Há como que um esforço quase megalómano para desumanizar o livro, caindo quase na ausência de enredo. Já que é difícil a abstracção e a ligação às cores, às cuecas, às pegadas na terra, à mesa, à bengala... às coisas sem gente. Acoisificação não enreda o leitor e reduz o livro, não permite a ligação às coisas como se elas fossem personagens. O autor quer tornar as coisas de cada um, nas de todos e assemelhar todos a nenhum, a ninguém... no meio fica o nada, porque o leitor co-criador (assim talvez fosse suposto), perde-se nos passos que vão para a horta, na beleza das descrições floridas e onde brota cada estação do ano, mas faltam as pessoas a quem dar rosto, conteúdo e acções... nomes!
Resta-nos a beleza descritiva, excelentes parágrafos de ode à natureza, mesmo que esquadrinhada numa rua. Resta-nos as cores e o apelo aos sentidos, numa rua pintada pelo arco íris... que a certa parte nos permite ver e talvez até sentir o mar, mas também a sombra das torres, ambos gigantes que ladeiam a rua e limitam o livro.
Se pela corda da roupa se estende a genialidade da linguagem do autor e a autenticidade da ideia, as mesmas são presas por molas frouxas, num enredo colorido, mas que não cativou esta leitora.
Leitor = pessoa que segue rua fora, senta no banco do jardim, imagina o arco, a rua, o estendal, encontra semelhanças na vizinha, na vespa estacionada à porta, no livro que pousa no banco, mas não consegue dar corpo aos personagens, não engorda o enredo...

A Peste escarlate, Jack London

Roda Dos Livros, 22.12.14

pesteescarlateNunca tinha lido nada deste autor, embora andasse curiosa. Por coincidência, vi um comentário sobre ele e trouxe da Cabine de leitura este título.Trata-se de um pequeno livro, mas de grande conteúdo.Foi escrito em 1915, mas a história passa-se no futuro. Ora, nesse futuro, mais precisamente em 2013 (!!!), uma doença nunca antes vista dizimou a Humanidade. Foram raros os sobreviventes. E é precisamente um desses sobreviventes que, 60 anos ...após, conta aos seus netos o que aconteceu.A escrita do autor é excelente e impressiona como, em 1915, conseguiu prever tanto do que se passaria ..na nossa época.A questão que nos deixa, entre muitas outras, é a seguinte: aprendeu o homem alguma coisa com o fim do que foram milênios de história da Humanidade? Tristemente, não. Voltou ao estado primitivo, a uma sociedade tribal, e, instintivamente, a sua natureza, embora naturalmente sociável, impele-o ao domínio dos seus semelhantes, se necessário, pela força, à subalternizaçao dos mais fracos, ao poder, à violência..Lembra bastante o livro "A estrada", de Cormac McCarthy.

Citações"- É verdade, Edwin - respondeu. - Já não me lembrava...Às vezes a recordação do passado impõe-se-me de tal maneira que esqueço de que sou um velho sujo, vestido com uma pele de cabra, vagueando com os meus netos selvagens, pastores num mundo primitivo e desolado. O trabalho do homem é efémero e esvai-se como a espuma do mar...Assim desapareceu a nossa civilização grandiosa, colossal.""Os homens daquele tempo eram loucos, avô! Por isso não obtiveram resultado...Lutar contra o que não se vê com a ajuda do que não se sabe! Se tu imaginas que engulo essa!""Num abrir e fechar de olhos, dez mil anos de cultura e de civilização se desfizeram como espuma.""Em tais momentos, ninguém se preocupa com o semelhante. Cada qual luta por si."" Como o cão, eu era um animal sociável e não podia passar sem a companhia de outros seres da minha espécie.""A história do mundo não deixaria por isso de retomar o seu curso eterno! As verdades antigas serão descobertas, as velhas mentiras, sempre tão pertinazes, aviltaram os mortais. Que vantagem..."

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