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Roda Dos Livros

A Visita do Brutamontes - Jennifer Egan

Roda Dos Livros, 30.11.14

avisitadobrutamontesSinopse

“Bennie Salazar, antigo punk rocker, está a envelhecer e é agora um executivo discográfico; Sasha é a sua assistente, uma jovem mulher impetuosa e cleptomaníaca. Apesar de Bennie e Sasha nunca chegarem a descobrir o passado do outro, o leitor vai conhecê-lo, até ao mais íntimo detalhe, bem como a vida secreta de um variadíssimo leque de personagens, cujos caminhos se cruzam com os deles ao longo de muitos anos e muitos lugares: Nova Iorque, São Francisco, Nápoles e África. A Visita do Brutamontes é um livro sobre a interação do tempo e da música, a capacidade de sobreviver, e as mudanças e transformações, quando inexoravelmente postas em movimento ainda que pelas mais efémeras conjunturas do nosso destino. Numa arrebatadora plêiade de estilos e registos - da tragédia à sátira, passando pelo Power Point - Egan captura a corrente que nos atrai para a auto-destruição - à qual sucumbimos se não a soubermos dominar; a fome de redenção de cada homem e mulher; e a tendência universal para alcançar ambas através da ação "condutora" da arte e a música e escapando à impiedosa passagem do tempo. Um livro astuto, surpreendente e hilariante.”

É a primeira vez que, ao escrever a opinião sobre um livro, começo por apresentar a sinopse. Porque foi esta sinopse, a que chamaria antes uma introdução, dado que acho que é impossível realmente escrever uma sinopse sobre este livro, que me levou a comprá-lo, por impulso, com um palpite de que o iria adorar, no mínimo.

Pois estes palpites são muito perigosos. Li umas cem páginas do livro com dificuldade em situar-me cronologicamente, e em perceber quem era a voz de cada capítulo. Lendo aquilo a que chamam sinopse fiquei com a ideia que Bennie e Sasha seriam uma espécie de personagens principais, que toda a acção do livro decorreria em seu redor. E confirmo que assim é. Mas é muito mais do que isso. Há muitas mais personagens e não sei quem são as principais. São todas, numa amálgama de acontecimentos que me fizeram cair a pique na realidade passado-presente-futura de cada uma delas.

Cada capítulo é uma surpresa. Imprevisível. Nunca sabia situar o espaço e o tempo. Parece estranho. E é. Larguei o livro. Vi que estava em bom estado e pensei em voltar à livraria e trocá-lo por outro. Mas depois voltei. Porque o raio de livro semeou em mim uma vontade de o perceber e deslindar que me desafiava. Aceitei o desafio e descobri um dos livros com a estrutura mais impressionante que já li. Entreguei-me com atenção, com vontade de saber tudo sobre esta gente louca que me foi sendo dada aos pedaços, pelas vozes uns dos outros, em décadas para trás e décadas para a frente, sentindo-me um detective a procurar pistas que me ajudassem nessa localização.

No fim fiquei a conhecê-los quase desde a infância. E até sei um pouco dos seus futuros. O primeiro livro que li com uma apresentação de powerpoint. Mais uma coisa que me arrepiou os cabelos mas que depois até achei piada.

Além da estrutura, completamente inovadora, que acabou por me convencer e agradar, há a maravilhosa escrita de Jennifer Egan, que brinca com as confusões que ela própria cria de forma a fazer-me ler repetidamente trechos e ficar, a cada releitura, mais impressionada com a crueza e secura das descrições, não só das acções, mas dos pensamentos deste grupo peculiar. Uma capacidade de construir e desconstruir vidas que me deixou claramente morta de inveja.

Gostava de concluir alguma coisa assim interessante e surpreendente mas nenhuma conclusão que escreva fará justiça à surpresa de ler “ A Visita do Brutamontes”. É capaz de haver uma lição qualquer nisto tudo, acho que tem a ver com o tempo (que se calhar é a tal personagem principal do livro), na forma como nos transforma, esmaga ou enaltece. Com as coincidências e os rumos escolhidos. E claro, com drogas, sexo e rock n’roll.

Para mim fica a dúvida de quem será o jurí do Prémio Pulitzer. Eu que tenho “O Pintassilgo” ali a marinar por achar que tem páginas a mais e história a menos. Será o mesmo que atribuiu o Pulitzer a este Brutamontes em 2011? Talvez. A meio de uma trip de Ecstazy.

Leiam e falem comigo que este livro merece discussão.

“E é possível que uma multidão, num momento particular da história, crie o objeto que justifica o seu ajuntamento, como sucedeu no primeiro Human Be-in e no Monterey Pop e no Woodstock. Ou poderá suceder que duas gerações de guerra e de vigilância tenham deixado as pessoas ávidas pela personificação das suas inquietações na forma de um homem solitário e instável a tocar uma slide guitar.

(…)

Quem lá esteve naquele dia poderá dizer-vos que o concerto começou verdadeiramente quando Scotty se pôs em pé. Foi então que ele começou a cantar as canções que ninguém jamais ouvira, nem algo que se parecesse com elas – “Olhos na Minha Cabeça”, “Xis e Ós”, “Quem Observa Melhor” – baladas de paranoia e despojamento arrancadas do peito de um homem que, logo que se olhava para ele, se sabia nunca ter tido uma página, nem um perfil, nem um manípulo, nem um aparelho portátil, que não fazia parte dos dados de ninguém, um sujeito que vivera todos aqueles anos enfiado num buraco, esquecido e cheio de raiva, de uma maneira que agora se registava como pura. Intacta.” (Pág. 364).

Quetzal, 2012

Serpentina, de Mário Zambujal

Roda Dos Livros, 26.11.14

serpentina

Quando, em 1980, li a ‘ Crónica dos Bons Malandros ‘ aprendi uma lição de vida, qual era a de não permitir que preconceitos bacocos me toldassem o espírito. Esse romance trouxe-me a grata surpresa de perceber que os autores portugueses sabiam lidar com as palavras e ideias com a mesma magia, se não maior, que alguns dos estrangeiros que me enchiam a estante. Fiquei fã de Mário Zambujal e desde essa altura foi um fartar vilanagem, no aproveitar da sua enorme capacidade de nos adentrar e remexer com uma escrita que nos obriga a acenar, a sorrir e a rir e a admitir-lhe a arte de nos escrever a vida como ela por vezes é. Como por vezes ela é mesmo.

Serpentina é, uma vez mais, a tacada perfeita do bilharista que perfaz sem erros, calculando tabelas, pancadas e consequências. Serpentina apanha-nos de repente, dá-nos uma boleia por mais uma viagem alucinante, em que Mário Zambujal nos obriga a curvas e contra-curvas, sem pedir autorização, sem nos assustar com as guinadas, pois sabemos-lhe mestria para cortar a linha da meta, estacionar e permitir-nos sair.

Zonzos.

Sãos e salvos.

Desejosos do próximo.

Em Serpentina andamos do crime para a volúpia, do óbvio bem contado para o nonsense que nos abana.

Adivinhamos o que se segue e falhamos a previsão?

Gostamos!

Adivinhamos de novo e agora acertamos?

Gostamos.

Mário Zambujal é mestre na arte de ser justo com o leitor. Deixa-o estar sentado, descansado, ripa uma biqueirada na base e caímos com estrondo, erguemo-nos a sorrir para de novo nos sentarmos e desejar secretamente a próxima bordoada.

Mário é Mário ... e se se autodescrevesse deveria andar perto disto:

‘ Marinho Mão Solta não abdicava do perverso momento em que despia o leitor de suas armas e o acariciava com um manancial de malvadezas. Não que o seu propósito fosse obscuro ou condenável, mas atirar para o chão homens e mulheres ávidas de uma história bem contada dava-lhe a oportunidade de lhes passar por cima, atropelando-os com tão pouca piedade que o resultado não poderia ser outro que o aplauso da vítima. Marinho Mão Solta era um bom malandro, isso sim, e nem a mais avisada aventureira poderia negá-lo ... ‘

Leiam ‘ Serpentina ‘, só poderá fazer-vos bem!

Índice Médio de Felicidade - David Machado - Opinião

Roda Dos Livros, 25.11.14

"Pode-se orientar uma pessoa para ser mais feliz, mas não é possível ensinar alguém a ser optimista.Isso ou és ou não és."David Machado

Antes de ler este livro, pergunte-se:- O que o anima?- O que o faz infeliz?- É depressivo ou optimista?- De 0 a 10, como considera a sua felicidade?...Assim, até parece um livro de auto ajuda, não é, mas pode bem ser.Um livro orientado a olhar o futuro com outros olhos. É não temer o futuro, mas é também não ter medo de não ter medo. Faço-me entender?

Durante a leitura deste livro experimentei diversos sentimentos e sensações. Confesso, um livro é bom tanto quando nos irrita, nos deprime ou nos faz sorrir e sonhar. Este teve de tudo para mim. Pode não ter de tudo para todos quanto o lerem, pode ter só crise, depressão, desemprego ou pode ter o olhar optimista, esperançoso... até atrevido.Pergunte-se: Ser animado, esperançoso, criativo, emocionado, crente e tantas outras coisas positivas nos dias de hoje não é quase uma afronta!?É isso, creio que este livro é isso uma afronta.Um espanta espíritos de espíritos maus, que pretende afastar a crise e dizer a todos que é possível avançar.

Daniel é um optimista. Acredita na felicidade. Tem sonhos e quer dar-lhes vida. Aliás quer voltar a ter a sua vida, sem esquecer que depende da vida dos outros. Como se o mundo fosse ainda mais reduzido que uma ervilha e a felicidade de qualquer um de nós interferisse na felicidade de todos.Será assim? Estaremos todos ligados? Se tecermos uma teia de ideias e energias positivas seremos todos mais felizes e optimistas!?

"(...) o verdadeiro budista é aquele que é capaz de eliminar do seu corpo qualquer tipo de desejo, seguindo a teoria de que é o desejo que nos torna infelizes. Eu disse-lhe que, por outro lado, é o desejo que faz de nós seres humanos. Ele respondeu:Eu não quero ser um ser humano. Quero ser feliz." (pág.197)

Infantil, pueril, inocente!? Talvez, mas não deixa de ter um toque mágico que coloca um certo sorriso no rosto.

Ao ir entrando na história eu queria sempre mais, como se o que se fosse passando não fosse suficiente, levando-me até a desgostar do livro, do enredo pouco célere, chegando a duvidar da esperança e positivismo do personagem. Arranjando-lhe um delírio qualquer, considerando que o seu amigo encarcerada seria um seu alter ego, onde arremessava todas as frustrações. Confesso, a certa parte este livros frustrou-me, experimentei com ele irritação. Havia ali uma certa pacificidade e passividade do protagonista que me dava urticaria.E no final, cheguei a pensar se o autor não queria exactamente isso. Provocar emoções nos leitores, talvez até mais do que só lerem e gostarem ou não da história.

"O que estás a ler?É um romance.E os jornais?Já não leio jornais. Já não leio nada que seja real.Porquê?Já sei como acaba.Como é que acaba?Não acaba bem." (pág.157)

Confesso que não sendo um dos meus favoritos, foi um livro que acompanhou algumas horas à conversa com amigos, debatendo não propriamente o livro ou o enredo, se era ou não verossímil, mas antes as questões que levantava. E isso é muito bom. Termos um livro em mãos que nos leva a dialogar, debater ideias e esquecer muitas das vezes do "nós" e parar para olhar o mundo envolvente.

As questões são pertinentes. Os problemas persistem e insistem para ter solução. A sociedade é posta em causa. Nós, como parte integrante somos postos em causa, ridicularizados. Não vejam de forma nefasta ou recriminatória, mas antes como uma segunda oportunidade. Será disso que este livro trata? Darmos a nós mesmos a oportunidade de termos oportunidade?!?

É saber dosear o Daniel que há em nós com o Almodôvar que também por cá habita.O diálogo, arrisco a dizer, imaginário no índice de 7.1, algures nas páginas 81 em diante tem um deles diálogos...

"(...) Uma casa? Para que queria eu uma casa? Quem foi o cabrão que inventou que precisamos de uma casa? Não admira que o mundo esteja a cair num buraco (...) metade do dinheiro do Planeta transformado em tijolo e betão. Quando é que nos tornámos tão fracos?(...)Os seres humanos sempre viveram em casas.Não estas casas. Aglomerados de casas.(...)E a electricidade. (...) Se tens um conflito com alguém, não compres uma arma (...) corta-lhe simplesmente a electricidade. (...) depois disso, morrerá devagar, de frio, de fome, de tédio.Não estás a ser justo Daniel. A electricidade dez o mundo andar para a frente, a vida dos seres humanos tornou-se mil vezes melhor (...)Vai-te foder, Almodôvar. (...) Um dia vamos ser todos alimentados a lasanha e mousse de chocolate pelas veias só para não termos de usar o maxilar (...)"

Conforto ou não, é curioso que o projecto destes amigos fosse dar um pouco de conforto a quem mais precisava dele. Altruísta ou salvação para quem ajuda!? Uma ideia para heróis simples e do dia a dia, tecendo diariamente a tal teia do positivismo e da felicidade de um para todos e de todos para um.

E só para terminar, não posso deixar de dizer que durante toda a leitura me ocorreu esta música:

http://www.youtube.com/watch?v=ETEVBrGZiHg

(...)
vivo do que me dão
nunca falto às aulas de esgrima
e todos os dias agradeço a deus
esta depressão que me anima
(...)
A Naifa

Uma outra voz, de Gabriela Ruivo Trindade - Opinião

Roda Dos Livros, 25.11.14

Confesso, assumo as reticências que tive em me atirar logo de cabeça para este romance.
Havia algo, como que um julgamento prévio, uma mania, algo que me atrasava para chegar até ele. Por vezes, é assim. São coisas, coisas sem nome, ideias que se nos metem na cabeça, como se o imaginário e a divagação assumissem um poder sobre nós e obtivessem alguma razão.

Depois, ao primeiro contacto, na primeira vez que o abri, dei de caras com um enorme registo cronológico e isso aliado à ideia de romance histórico, carregado de vidas fortes, personagens marcadas pelo sofrimento e a história de gerações... pesou-me. Fez-me fechar-me na minha ignorância e procrastinar perante este belo livro por mais uns dias.

Felizmente, numa noite de alguma arrelia, abri-o e fiquei encantada, emocionada, envolvida na voz de um gaiato, de um alentejano com ânsias de médico e de corpos jovens. Uma história com um emaranhado de vozes que me povoou o imaginário e me conquistou.

Gabriela Ruivo Trindade teceu, com mestria, beleza e vozes muito fortes, um romance que atravessa gerações, mas mais ainda, atravessa a história de um país e nos transporta ao Alentejo. O Alentejo que tantas vezes renego pela brutidade e a dureza, mas que depois me apaixona cada vez que se torna num Alentejo literário, extraordinariamente bem descrito, pelas pessoas e vidas que o povoam.Um romance onde a ruralidade, a aspereza do (quase) nada e a luta pela dignidade se tornam a melhor história de amor.

Durante inúmeras e longas páginas não fui capaz de parar, só queria conhecer mais, embrenhar-me mais... sentir mais cada personagem e o que a sua voz tinha para me contar.

"Dores, dores, dores. Não oferecemos senão dores.E elas, as mães, recebem-nas, tomando-as nos braços de mansinho. E pronto. Já passou.Não há remédio igual no mundo.(...)Mas esta, mão, não ta posso dar.Não te posso dar a dor de um filho sem pernas.Esta dor vai matar-te, mãe."

Não consigo tecer preferências. Tanto me apaixonei pela ânsias e risos do Zé Eduardo, como pelos segredos da Lídia ou a luta de Álvaro. Talvez a profundidade do sofrimento de Mena, a vida madrasta de Donana e o grande vazio na vida de Mariano, sejam dores marcadas demais, mas que pela beleza dos amores que todos viveram, ficamos rendidos às suas vozes.

" (...) meus olhos secos como pedras e as minhas duas mãos quebradas.Sempre foste melhor amante da literatura do que dos ideais revolucionários.Ou deveria antes dizer que o picante dos ideais revolucionários não te impediu de saboreares o tempero da boa literatura. E, dentro do mundo da literatura e da poesia, és especialmente romântica. Pena que o não sejas fora dos livros. Comigo, pelo menos." (pp.119)

De olhos secos terminaram algumas das vozes que aqui se prenunciam. É maravilhoso, abrir e conhecer este poema de Cecília Meireles e ver nele, verso por verso, todo o enredo, toda a força destas vozes, mas mais a de Mariano, com a sua partida para África que tanto indignava Mena.

"A gente deixa de temer a morte no instante em que passa a desejá-la, com o mesmo ardor com que desejamos as mãos do homem que amamos. Um ardor que nos faça esquecer a dor de existir. (...) Quis morrer também. Mas era jovem, e a juventude é o melhor remédio contra a morte. Por isso continuei vivendo como se morresse." (pp.194)(...)Morrer não custa nada; o que custa é não viver. A morte chega pelo ventre, vinda de fora para dentro, ao contrário da vida, que daí sai para a luz." (pp.281)

Um livro que recomendo, agora, sem quaisquer reticências.Muitos parabéns à Gabriela Ruivo Trindade, é uma bela homenagem familiar.

Bifes mal passados, de João Magueijo

Roda Dos Livros, 24.11.14

bifes mal passados

Nas primeiras quarenta páginas chorei a rir pelo menos 3 vezes. Não é muito normal ir às lágrimas a ler um livro. Este teve esse ponto positivo. Acho que foi o único. Vá, estou a ser injusta, a ironia de algumas partes é deliciosa. Mas o problema é o resto.

Depois das primeiras páginas comecei a achar que tudo o que é demais, de facto, não presta e que o autor se esticou demasiado.

Se acho que os Ingleses são fantásticos? Não acho nem deixo de achar. Tenho lá alguns amigos e não os revejo nestas páginas.

Se tem piada gozar com os outros? Acho que todos sabem essa resposta. Não, não tem qualquer piada. Uma coisa é brincar outra é achincalhar. Ah mas ele também não mostra uma grande imagem dele próprio, por isso ele pode. Pois pode, claro. Mas não deve. E começa logo por não mostrar uma grande imagem dele próprio a escrever este tipo de coisa. E para quem critica tanto os outros não devia alinhar tanto no estilo de vida que critica.  E o que é que tu tens a ver com isso? Nada, mas ele escreveu um livro a criticar os outros e pôs-se a jeito para ser criticado.

Ah e tal estás a ser puritana, só porque o tipo escreve com palavrões em barda. Nop, isso não me incomoda nem um bocadinho. Acho até que fazem todo o sentido no livro, demonstram exactamente o que era pretendido.

Ah, então tens fraco sentido de humor. Certo, provavelmente é mesmo isso. Achei piada às primeiras páginas, era novidade e tal, depois a coisa não se deu mais e pronto, nunca mais lhe consegui achar piada. Se fossem crónicas num jornal semanal ou mensal, algo dado a pouco e pouco, talvez tivesse achado fantástico. Mas assim, de uma vez só, não, muito obrigada.

(há que dizer que também não consigo achar piada aos livros de compilações de crónicas humorísticas, o problema deve ser meu)

"Biografia Involuntária dos Amantes" - o retorno aos livro de João Tordo - Opinião

Roda Dos Livros, 24.11.14

Biografia involuntária dos amantes talvez seja um livro para não compreender. Ou melhor, não compreendemos toda esta voluntariedade que esta submersa numa vontade obscura e meio distorcida do personagem principal em sofrer as dores alheias.
O enredo tem um fio condutor um tanto alucinante. Se pelo início, colidimos com inúmeras questões de verosimilhança, mais tarde abdicamos das dúvidas e deixamo-nos viajar por Pontevedra e Santiago de Compostela e deleitamo-nos com a aproximação entre duas pessoas, que o acaso e a empatia juntou.
Se a persistente melancolia de Saldaña Paris é como que uma rota de colisão entre o passado, o presente e o futuro. ..
....
"A essa melancolia chamamos vida adulta." (pp.94)
Não deixa então de ser curioso que essa vida adulta seja então tão insípida e vaga, oca e cheia de ecos, que fazem o narrador e personagem central, se é que tem melancolia suficiente para ser central, abandonar a sua vida adulta. Parte ao desconhecido, meio ao abandono em busca de algo tão vasto, como o rasto do amor de um homem por uma mulher.
"A melancolia é impossível de combater porque, a partir do momento em que nos aventuramos no mundo, teremos sempre saudades de tudo. De tudo. Do que fizemos e do que não fizemos, de quem se cruzou no nosso caminho e de quem jamais conseguiremos encontrar. Cuidar das plantas no nosso jardim é prolongar a existência a criaturas que hão-de morrer quando nos esquecermos delas; é querer fazer com que o amor dure mais tempo para, quando nos virmos livres desta vida de uma vez por todas, partirmos de coração a transbordar de tudo o que deixamos para trás." (pp.408)
Esta leitura, parte de um estranho altruísmo. Um amor ao próximo que não é senão o amor a nós mesmos. Uma luta pela maior e mais profunda interiorização do que somos ou do que podemos ser.
O que me leva a perguntar: até que ponto, quando ajudamos o outro, não nos estamos a ajudar a nós mesmos?
Dessa divagação chego à palavra que maior enigma me traz perante o título, involuntária. É voluntário, é voluntariado! Foi nisso que eu pensei. O narrador meio incógnito, um locutor, um professor, marido, pai, o pai da Andreia é um voluntário na organização e rumo da vida alheia. É nesse acto, quase missionário - ou não surgisse Santiago de Compostela como destino - que um homem, parte em missão pela vida de outro homem.
Parece inocente, mas é quase como se na força da perseverança de um se salvasse o amor à vida de outro e no seu somatório se salvassem uma série de vidas e de amores. Como se algo mágico e místico, equilibrasse, com uma grande mão, o balanço frágil com que o mundo avança.
Será esse o gatilho? Será esse o segredo? Ou será mais uma questão estúpida e dotada de um enorme grau de hipocrisia...
 
"O mundo tinha a consistência da água e, por mais perfeita que fosse a concha que formássemos com as mãos, essa água era impossível de reter." (pp.366)
Fazia tempo que não pegava num livro do Tordo, mas este foi uma surpresa. Uma leitura incessante!
Uma edição Objectiva/Alfaguara.
Para ouvir na TSF, no Livro do Dia

"MAL NASCER" - o regresso de Carlos Campaniço

Roda Dos Livros, 24.11.14

Regressar à escrita de Carlos Campaniço foi um enorme gosto. Retornar igualmente ao (áspero) Alentejo foi igualmente muito bom e aliás, espero que o autor lá volte novamente, pois estou em crer que se sairá bem novamente.De "Mal Nascer" este romance têm apenas o nome e o berço de Santiago. O mau agoiro, o azar, a dureza da campo, as dificuldades, a violência... a tal aspereza alentejana só trazem de bem e de belo à escrita e à narrativa do autor. Já assim esperava, é certo. Depois do fantástico "Os demónios de Álvaro Cobra", só posso tecer bons comentário a este novo romance. Aliás, acho extraordinária a capacidade de transformação, tanto na abordagem ao Alentejo, como na mastigação deste enredo e mais ainda no toque especial que a linguagem deste romance contêm. É louvável que um autor consiga tal mudança camaleónica, já que nem todos conseguem. Ou seja, muitas vezes, um autor escreve, narra e compõe de uma forma e é só com essa que nos brinda, não é mau, antes pelo contrário, quem gosta, facilmente gostará sempre. No entanto, na escrita de Campaniço encontramos mudança, total transformação, ambos bons livros, ambos boas surpresas. O que nos deixa com ânsias por um terceiro livro, aguardando algo, novamente bom e "igualmente" diferente.

Na personagem de Álvaro Cobra, Carlos Campaniço deu asas à imaginação e teve rasgos de criatividade divinais, com Santiago Barcelos - nascido Bento -, o autor trouxe-nos uma história dura e plena de realismo. Retratando e enquadrando o nosso país e mais propriamente o Alentejo num período conturbado entre absolutistas e liberais. Num relato marcado pela linguagem mais "regionalista" do Alentejo de outrora, que tanto brilhantismo dá ao enredo, situando-nos definitivamente naquelas terras, naqueles campos, mas também na violência tida no calor do lar.

Este romance é uma denúncia, é um reclamar pelos direitos das mulheres, num período e numa localização tão marcada pela desigualdade e pela violência, não só tida para com as mulheres, como também na desvalorização e no conceito da infância, tão pouco reconhecida como tal.

"Mal Nascer" não verte só as dores de uma mãe ou as injustiças com um filho, abandonados um pouco à sorte do campo, criados a meias com os bichos e a jorna na terra. Este enredo relata também o poder, as ordens às mãos de um só homem, revelando o peso da riqueza e das terras. Mas há ainda espaço para o amor, trazendo uma certa inocência e sensualidade ao ambiente, mitigando as mágoas de Santiago, fazendo-o sonhar. Pelo menos até certa parte. Mesmo nessa parte, de amor fatal e incondicional, o autor é bem sucedido. É sensível, sem ser lamechas, é sensual sem ser banal.

Há em todo o livro uma luta pela dignidade, pela sobrevivência, pela liberdade e pelo amor, enaltecendo assim as personagens e envolvendo o leitor, que anseia por um desfecho que teima em fugir por entre os dedos. A leitura tornou-se a certa parte comovente, em especial para mim, a parte da infância. Certas partes foi como estar entre família e ouvi-los relatar a dura infância na aldeia, alguns períodos de fome ou escassez ou as alegrias de brincadeiras simples e até certas diabruras com os bichos.

Se por um lado o livro é pleno no relato amoroso, até meio inocente, é duro e negro no expor o embrutecimento das gentes largadas à mercê das necessidades do campo e das intempéries de um Alentejo de extremos. Digamos que o livro tem uma capacidade transformadora fenomenal, é como ir, de bestial a besta, acho que me entendem. É nisso que eu gosto ainda mais deste livro. É o seu realismo, a sua força.

Não posso deixar de dizer que existem personagens apaixonantes e a Amália é uma delas.Mais apaixonante é a capacidade do autor em criar um cenário com meia dúzia de palavras, como se numa pequena frase fosse tudo dito.

"Dá-se uma primavera numa sala de inverno." (pág.100)

E fica tudo dito!

As diferenças são inúmeras, porém há uma certa constante nos dois romances que li de Carlos Campaniço. É o retorno ao Alentejo, a paixão pelas gentes e tradições, e a vontade de espelhar, através de personagens densas, os traços marcantes de um país e de uma época. E os rasgos de criatividade continuam lá, desta vez mais pelo esmero na escolha da palavra.

"Começo a ter uma fome miudinha que me rói o estômago como os bichos-da-seda fazem às folhas. Já nem dois cocharros de água me afastam as lembranças da comida."

Uma edição Casa das Letras. Veja a sinopse, aqui, no booktrailer.

"dizem que sebastião" de João Rebocho Pais - Opinião

Roda Dos Livros, 24.11.14

Nada zarolho este romance peculiar de João Rebocho Pais!

Homem que, tudo tendo, nada tem, Que vida e gentes suas quase ignora, Perde-se do caminho a quem quer bem,Cavalgando num galope que o devora;E quando vê o passado que lá vemMorto descobre o sentir de tanta horaE, olhando incréu o vazio assim nascidoChora triste o seu mundo desaparecido. 

É talvez a passagem deste livro que mais sentido faz na história de vida de Sebastião."dizem que sebastião" é um enredo em formato de remédio. É um livro terapêutico por assim dizer.Se o enredo funcionar bem, tornar-se-á naqueles comprimidos de pequenas doses, mas aos quais se fica agarrado a vida toda. Talvez seja essa a cura de Sebastião, ficar agarrado à Literatura e aos autores portugueses o resto dos seus dias. E quem sabe a Margarida...

Largado num jantar sem sobremesa, é Margarida que dispara, sem saber, o golpe mais forte e inesperado no coração deste homem de negócios que, após um susto, parte em descoberta dos grandes clássicos da Literatura Portuguesa. Fora de portas, entre livros e bancos de jardim, tendo por companhia frias pedras com marcas intemporais, Sebastião descobre toda uma outra forma de organizar o teu tempo. De uma forma mais boémia e descontraída, sente a mensagem metafórica que a vida lhe está a transmitir. Aceita até uma certa nudez para encarar o dia a dia e conquistar (de vez!) a vida!!!

"(...)De tudo o que foi, que é,E na erma vida só vêO raio da vaga esp'rança"

Para além de um guia para uma visita a estátuas célebres em Lisboa, este livro de Rebocho Pais é também um hino à Literatura Portuguesa. Apesar de uma história de amor, julgo que o amor maior é mesmo à palavra, à língua, ao testemunho escrito que fica e passa pelo tempo.Há também neste livro uma curiosa forma de jogar com os nomes dos personagens, como se o surgimento dessas pessoas, com determinados nomes, fosse só por si um contributo para a sua cura, como o Dr. Boavida ou o livreiro Simplício...

É hilariante a forma como começa esta aventura literária. É francamente de gargalhar nas primeiras páginas e sempre que Sebastião analisa e critica a sociedade que o envolve. Que nos envolve, já que Sebastião é uma excelente metáfora para muitos.O desaire amoroso e até de carácter pessoal resolvido através das letras é genuíno, mas parece-me um pouco ingénua a forma como o personagem segue com a sua história de vida. Parece simples demais.

De salientar a forma intrincada, cuidada e quase camaleónica com que o autor escreve, o que dá outro brilho ao livro, é como se o texto fosse acompanhando toda a mudança do personagem.

João Rebocho Pais - Feira do Livro de Lisboa 2014
João Rebocho Pais é um dos autores do Colectivo Nau, que já referi e destaquei no Efeito dos Livros. Vejam mais do grupo aqui: http://colectivonau.blogspot.pt/

RECOMEÇAR - María Dueñas

Roda Dos Livros, 23.11.14

recomecarRecomeçar é um tributo às novas oportunidades.

 

A luz e a sombra da essência humana.

Num dia mau deixaram de ser amadas. Perante o abandono e a incerteza, face ao desamor e à crueza irreversível da realidade, defenderam-se como puderam e batalharam com as armas que tinham ao seu alcance. Com boas ou más artes, com o que o intelecto, as vísceras ou o puro instinto de sobrevivência puseram à mão. A distribuição foi sempre arbitrária, a ninguém foi dado escolher, e há quem assuma e avance e quem fique a ruminar o ressentimento como uma pastilha elástica amarga que, passado décadas, ainda tem sabor. (adaptação de excerto da pag. 427)

Blanca lutou durante vinte cinco anos. Viu crescer os filhos, esteve perto do companheiro, construiu um lar e quando sentiu que "a vida caiu-lhe aos pés com o peso e o frio de uma bola de chumbo" partiu para longe para recomeçar. Não encontrou nem rasto do cenário californiano a que as séries televisivas e o imaginário colectivo nos habituaram, mas empenhou-se em tirar Andrés Fontana das trevas.

Duas histórias que se cruzam quando tentam reconstruir o passado a partir dos testemunhos escritos e o que restava através da memória de Daniel, como duas versões diferentes do mesmo: a carne e os ossos face ao legado intelectual.

Bem construído e com uma linguagem sóbria, elegante - irreversível, esta narrativa tinha tudo para agradar, mas uma letra miudinha e muitas páginas para atingir o âmago das personagens e o seu percurso, torna-a uma leitura exigente e por vezes cansativa, perdendo assim o fôlego e a concentração. Não posso fazer o paralelo com "O tempo entre costuras" porque não li o bestseller da autora, mas foi devido ao eco desse romance que li "Recomeçar".  Contudo, creio que vale a pena partir à descoberta porque é uma leitura subjectiva.

Sinopse:

Recomeçar atravessa fronteiras e épocas para nos falar de perdas, coragem, segundas oportunidades e reconstrução. Uma história luminosa que desenrola intrigas imprevistas, amores entrecruzados e personagens cheias de paixão e humanidade.Blanca é professora, com uma carreira consolidada, dois filhos jovens. A braços com o fracasso do seu casamento, decide deixar a sua atual vida para trás e ruma a Santa Cecília, na Califórnia, com a missão de organizar o espólio deixado por Andrés Fontana à Universidade; fechada num sótão sombrio, Blanca vê- se a braços com uma tarefa aparentemente hercúlea e cinzenta, mas que acabaria por revelar-se uma empreitada emocionante.

Amores cruzados, certezas e interesses silenciados que acabam por vir à tona, viagens de ida e volta entre Espanha e EUA, entre o presente e o passado de duas línguas e dois mundos em permanente reencontro.

Três anos depois da publicação de O Tempo entre Costuras, volto a bater à porta dos leitores com a história e a voz de uma mulher. Uma mulher contemporânea, cuja estabilidade, aparentemente invulnerável, se desvaneceu no ar. Chama-se Blanca Perea e decidiu fugir.

Maria Dueñas

A Família Sogliano - Sveva Casati Modignani

Roda Dos Livros, 23.11.14

afamiliasoglianoSveva Casati Modignani é uma "velha" conhecida, considerando que li todos os seus livros em português. Uns gostei mais do que outros, e apesar de muito criticada pelos apreciadores de literatura mais séria, tem uma vertente idealista e romântica que me encanta. As suas personagens principais são quase sempre mulheres fortes, determinadas e batalhadores, assegurando o seu destacado lugar na família, sociedade e na carreira, sem perder a feminilidade, independência e sensualidade. Mulheres que conquistaram privilégios inalcançaveis, como um conto de encantar moderno.

Mais uma vez, cumpriu. Orsola e Margherita são as personagens principais que em pequenos capítulos contam todos os episódios relevantes nas suas vidas e na sua família. Uma saga familiar no mundo do coral na Torre del Greco em Itália.

O coral foi a grande aventura dos Sogliano, sinónimo de beleza, fantasia e arte, bem como fonte de preocupações. Durante anos, tinha significado ornamental mas também de superstição. Os Sogliano enriqueceram dignamente. Com a morte súbita de Edoardo unem-se, apesar das suas diferentes personalidades com diferentes sensibilidades e maturidade para acolherem Steve, jovem e desamparado sem o apoio dos humildes avós chineses e da mãe que penosamente reconstruíra a sua existência.
Um romance que li com deleite. Um valor seguro e encantatório. Uma história que poderia ser de tradição oral, recuando ao passado sempre que necessário para melhor nos dar a conhecer as personagens.

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