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Roda Dos Livros

A Mulher Silenciosa - A. S. A. Harrison

Roda Dos Livros, 26.10.14

amulhersilenciosaHá livros que nos perseguem. E não sossegamos enquanto não estão na nossa posse. Com este romance foi assim, e esta obsessão disparatada revelou-se acertada logo nas primeiras páginas.

Duas personagens e dois narradores que alternadamente contam a sua versão dos factos. Ele (Todd), Ela (Jodi) na primeira parte e na segunda parte apenas Ela, depois de ele já não a poder contar.

Uma existência aprazível e luxuosa numa relação confortável que durava há vinte e dois anos, sem filhos, que se desmorona sem que nenhum deles o deseje. A leviandade dele com inúmeras traições inconsequentes, que ela procura ignorar neste homem de meia idade, que procura ultrapassar uma depressão com uma relação mais séria com a filha do melhor amigo de infância e os catapulta para o abismo com uma gravidez.A autora, já desaparecida, conseguiu capturar nesta narrativa muitas das vicissitudes de uma relação longa e assente em silêncios, em que as personagens têm um passado perturbador mal resolvido.

O que distingue este romance dos demais, é a proximidade com o real, ao dissecar o comportamento de um casal por detrás da fachada. Uma análise psicológica num crescendo de ansiedade para uma leitura participativa, com a empatia ou aversão do leitor. Ambas as personagens são censuráveis e ambos são perceptíveis. A tolerância e passividade de Jodi e a fraqueza e cobardia de Todd na dinâmica do casal.

Bem conseguido primeiro romance, que inquieta e instiga a ler até ao desfecho, tal a intensidade da narrativa.

Sinopse:

Jodi Brett e Todd Gilbert vivem juntos há 22 anos, num confortável apartamento em Chicago com vista para o lago. Os dias decorrem numa tranquilidade aparente, à medida que a sua relação se vai lentamente consumindo. Até ao dia em que Jodi fica a saber que Todd tem um relacionamento sério com a filha de um dos seus melhores amigos, Natasha Kovacs. Em estado de negação, Jodi não reage quando Todd lhe diz que vai casar com Natasha ou quando a avisa de que ela terá de abandonar o apartamento onde vivem. Mas este será, para Jodi, um ponto de viragem sem regresso possível.
 

Deixem Falar as Pedras de David Machado

Roda Dos Livros, 26.10.14

Gosto de ler autores portugueses. Porque me surpreendem pela positiva cada vez mais.

David Machado jå me foi apresentado com o seu "Índice Médio de Felicidade". Sei que imaginação nao lhe falta! No entanto, creio que este livro superou ainda mais as minhas espectativas! Gostei que esta história me fosse apresentada por dois narradores completamente diferentes, um narrador por detrás de outro, por assim dizer.

Umas vezes é Valdemar a fazer esse papel. Conta-nos a sua história, tão profundamente ligada à história de seu avô. É um adolescente gordo e grande, apaixonado por Alice, uma vizinha e amiga que sofre de uma anorexia crescente. Valdemar toma como suas as dores do avô e vendo-o afastar-se para um mundo cada vez mais longe e que só a ele pertence, tenta, a todo o custo, ajudá-lo a não se perder nas memórias tão cruéis que transporta consigo. Nicolau Manuel, herói desventurado de uma época sombria do nosso país, é um homem marcado pelas inúmeras torturas e prisões que lhe vestiram a vida, e tem no seu neto um aliado fortíssimo.

E, se dúvidas houvesse em relação à capacidade quase sobre-humana deste ingénuo avô-herói, David Machado apresenta-nos outro narrador (ele próprio?) que questiona, que coloca hipóteses, dando-nos as respostas às dúvidas que vamos colocando interiormente, conduzindo-nos e guiando-nos na história.

Valdemar tenta recuperar as memórias do avô e para que fiquem nas memórias de outros escreve a sua história. História que se cruza com a História do nosso país e que é fruto de muitos desencontros e mal entendidos. História que retrata magnificamente a história de tantos portugueses que se viram, sem perceber bem porquê, dentro de celas minúsculas e sob tortura. Ao escrever as memórias do avô, Valdemar sente necessidade de utilizar na sua escrita, o mesmo utensílio que era usado antes da revolução dos cravos, a censura. E vai riscando, riscando, pedaços da história que ele próprio escreve. Não se espantem, por isso, ao encontrarem frases cortadas e riscadas. A compreensão do texto não sofre com essa censura, sendo perceptível tudo o que Valdemar nos quer contar. O mesmo não se pode dizer da vida de seu avô! A censura limita em tudo a vida de Nicolau Manuel. Tanto que chegamos a dúvidar que alguém, alguma vez, conseguisse suportar tamanha dor...

Recomendo muitíssimo!

Estrelas: 6*

Sinopse

No dia em que se ia casar, Nicolau Manuel foi levado pela Guarda para um interrogatório e já não voltou. Viveu, assim, quase toda a vida na urgência de contar a verdade a Graça dos Penedo, a noiva que mais tarde lhe seria arrebatada pelo alfaiate que lhe fizera o fato do casamento. Porém, sempre que se abria uma possibilidade, uma ameaça desviava-o dramaticamente do seu destino - e agora, meio século volvido, está velho de mais para querer mudar as coisas, gastando os dias com telenovelas. De tanto ter ouvido ao avô a sua história rocambolesca, Valdemar - um rapaz violento e obeso apaixonado pela vizinha anoréctica - não desistiu, mesmo assim, de fazer justiça por ele. E, ao encontrar casualmente a notícia da morte do alfaiate, sabe que chegou a hora de ir falar com a viúva: até porque essa será a única forma de resgatar Nicolau Manuel da modorra em que se deixou afundar.

Alternando a narrativa dos sucessivos infortúnios de Nicolau Manuel - que é também a história de Portugal sob a ditadura, com os seus enganos, perseguições e injustiças - com a de um adolescente que mantém um diário com numerosas passagens rasuradas como instrumento de luta contra o mundo -, Deixem Falar as Pedras é um romance maduro e fascinante sobre a transmissão das memórias de geração em geração, nunca isenta de cortes e acrescentos que fazem da verdade não o que aconteceu, mas o que recordamos.

 

 

A vida secreta de Stella Bain - Anita Shreve

Roda Dos Livros, 26.10.14

avidasecretadestellabainEste romance reconciliou-me com Anita Shreve. "A praia do destino" foi uma revelação, mas os outros romances que li uma desilusão. "A vida secreta de Stella Bain" tem a mesma força e audácia do primeiro livro que li (e referi), e por isso, ficará impresso na minha memória.

Stella Bain é uma mulher forte, determinada e corajosa, que enfrenta a morte, sofrimento e devastação enquanto condutora de ambulâncias e auxiliar de enfermagem durante a 1ª Guerra Mundial. Uma mulher que perdeu a memória e a identidade. Uma mulher à frente do seu tempo, presa a um lugar em que o rigor e a rigidez das regras masculinas dava pouca liberdade e espaço às mulheres.

O passado para explicar o presente da narrativa que decorre no início do Sec. XX. Etna Bliss surge no Almirantado em Londres, enquanto a psicoterapia começa a lidar com o trauma de guerra.

Uma história viciante que se lê de um fôlego. Uma personagem admirável, contida e reserva, mas de uma ética inabalável. Recomeçar e recuperar o que de mais precioso uma mulher pode ter. E mais não revelo, porque a descoberta é algo que não se deve perder no desenvolvimento de uma narrativa. Um romance que recomendo sem reservas.

Sinopse:

Um livro sobre a vida, a esperança, as lembranças do passado e a capacidade de construir um futuro contra todas as expectativas.
França, 1916. Uma mulher acorda na cama de um hospital de campanha em Marne, sem qualquer recordação do seu passado ou de como ali chegara. Enverga o uniforme de uma enfermeira voluntária britânica, mas fala com um sotaque americano. O que fará ali, em pleno campo de batalha?
Identificou-se como Stella, mas sente que esse não é o seu verdadeiro nome. De repente, uma palavra incita-a a agir e Stella parte para Londres, onde espera encontrar algumas respostas e abrir as portas para o seu passado.
Com a ajuda de um cirurgião britânico, que a acolhe e se interessa pelo seu caso, vai-se redescobrindo, e as verdades são ao mesmo tempo chocantes e surpreendentes. Ao recuperar a memória, Stella vê-se obrigada a confrontar o passado sombrio da mulher que foi.
Neste envolvente drama, Anita Shreve tece uma apaixonante história acerca do amor e da memória, tendo como pano de fundo uma guerra que devastou milhões de civis e deixou sequelas em todos aqueles que testemunharam os seus horrores.
Um romance histórico inesquecível, sério e surpreendente.
 

O Tempo Morto É Um Bom Lugar - Manuel Jorge Marmelo

Roda Dos Livros, 26.10.14

O Tempo Morto É Um Bom Lugar Manuel Jorge MarmeloTenho sentido dificuldade em escrever sobre este livro. Penso que não é só a minha preguiça natural a limitar-me, é algum receio em não valorizar o suficiente este tempo morto lido com tanto prazer.

O livro apresenta os sentires e reflexões de Herculano Vermelho, jornalista desempregado, desligado das obrigações mundanas, em paz na prisão pelo possível (nunca confirmado) homicídio de Soraia Évora, uma estrela televisiva de ascensão súbita após a participação num reality show. Herculano estava incumbido de elaborar a autobiografia da rapariga e mantinha com ela uma relação íntima.

A primeira parte é rica em recordações de Herculano da vida anterior à detenção e narra as rotinas e vivências na cadeia. Herculano tem poucos remorsos em relação ao passado, partilha lembranças soltas, divaga em torno de Soraia e do projecto de escrita da sua autobiografia. Cria histórias à margem da história principal (concebe um personagem-escritor que inventa Tristão, preso sem nunca saber porque está enclausurado, num processo gelado e meio kafkiano). Tem dúvidas sobre a morte da rapariga, recordando-se apenas de despertar com Soraia, já sem vida, na sua cama.  Aceita a hipótese de a ter assassinado e perante a tranquilidade e o bem-estar que sente na prisão, não dá qualquer hipótese ao seu advogado de defesa para o ajudar, assumindo a preferência em manter-se entre grades.
A autobiografia de Soraia Évora, escrita após a sua morte por autor incerto, retrata uma infância e adolescência pobres e culturalmente frágeis. A participação no programa de televisão é vista como uma oportunidade única para a rapariga dar uma reviravolta à sua vida... e, uma vez que existem outros segredos para além do homicídio, entra ainda em cena João António Abelha, um jornalista rude, mas experiente e perspicaz, que vai tentar compreender algumas incoerências de toda a história.
A escrita deste bom lugar é poderosa e grave, de uma clareza e simplicidade imensas. É um livro carregado de pormenores irónicos, acutilantes e críticos à sociedade actual, sem ser demasiado explícito e banal.
Só para terminar, fiquei com a sensação que o primeiro capítulo é tão fascinante que a própria autobiografia e a investigação do jornalista Abelha ficam envergonhados por aparecerem a seguir e não brilham tanto. Mas é só uma sensação...
Algumas citações aleatórias:
"A liberdade que é oferecida a quem está lá fora deixou de me interessar e nem sequer é liberdade. O exterior do estabelecimento prisional está cheio de cercas, gaiolas e grades invisíveis, mentais, mais concretas e constrangedoras do que as barras de aço que há nas janelas da cela."
"(...) a breve companhia que a gata me fazia no percurso até à paragem do autocarro, caminhando ao meu lado com a cauda negra erguida e vaidosa. Às vezes, repentinamente, fazia um sprint e adiantava-se-me um pouco, parando mais à frente para fazer as suas felinas necessidades básicas diante da agência bancária ou da repartição de finanças, procedendo nisto, parecia-me, com um critério admirável."
"(...) dispus-me a continuar a aproveitar a doce vida que o sistema penitenciário nacional proporciona aos detidos, muito bem sintetizada por um dirigente sindical que apareceu nos noticiários da televisão a justificar mais uma greve dos agentes prisionais. Isto só não rebenta porque as condições lá fora não são agradáveis e os reclusos sabem disso, dizia."
"As montras das livrarias que ainda não faliram têm estado carregadas de exemplares da autobiografia de Soraia Évora (...) A curiosidade do público tem sido espicaçada e alimentada por uma sequência de casos e de pequenos mistérios, suscitando deste modo a atenção permanente não só da imprensa especializada em mexericos mas também dos jornais generalistas e dos noticiários da televisão."

Não Digas Nada de Mary Kubica

Roda Dos Livros, 25.10.14

Que leitura empolgante esta! Aparentemente sabemos com o que lidamos.

Por um lado, a trama decorre com momentos de um passado não muito longínquo: Mia, filha de um juíz demasiado duro e de uma mãe submissa e pouco presente, é raptada. É o "Antes". Sentimos o seu medo ao conviver com o raptor, a sua insegurança. O desespero de sua mãe. A quase indiferença do pai. As buscas dirigidas pelo inspector Gabe.

Por outro, a autora intercala o "Depois" do rapto quando Mia já se encontra em segurança, em casa. O trauma sofrido impede-a de recordar o que lhe aconteceu, a sua mente afastou algo que a incomoda e que desconhecemos por completo. Síndrome de Estocolmo, já ouviram falar?

Varios narradores relatam-nos os acontecimentos e, sobretudo, os seus sentimentos. Mia, claro! Mas também Colin, o seu raptor, Eve, sua mãe e o Inspector Gabe. Com todos, por razões diferentes, criamos uma certa empatia. Vamos balançando os nossos sentimentos entre a repulsa e a quase empatia com o raptor. Sentimentos contraditórios, eu sei, mas que imprimem um ritmo de leitura voraz.

O mistério mantém-se sempre durante todo o livro. Mesmo quando julgamos estar na posse de todos os elementos. E digo "julgamos" porque o final sofre uma reviravolta surpreendente. Afinal, não é isso que se pretende de um bom thriller? Recomendo esta leitura, sobretudo se querem ficar presos às páginas de um livro!

Estrelas: 5*

Sinopse

Um thriller psicológico intenso e de leitura compulsiva, Não Digas Nada revela como, mesmo numa família perfeita, nada é o que parece.

Tenho andado a segui-la nos últimos dias. Sei onde faz as compras de supermercado, a que lavandaria vai, onde trabalha. Nunca falei com ela. Não lhe reconheceria o tom de voz. Não sei a cor dos olhos dela ou como eles ficam quando está assustada. Mas vou saber.

Filha de um juiz de sucesso e de uma figura do jet set reprimida, Mia Dennett sempre lutou contra a vida privilegiada dos pais, e tem um trabalho simples como professora de artes visuais numa escola secundária.

Certa noite, Mia decide, inadvertidamente, sair com um estranho que acabou de conhecer num bar. À primeira vista, Colin Thatcher parece ser um homem modesto e inofensivo. Mas acompanhá-lo acabará por se tornar o pior erro da vida de Mia.

 

À Beira do Lago Encantado de Barbara Cartland

Roda Dos Livros, 25.10.14

Livro pequeno, escrita fluente, romance passado em Inglaterra no reinado de D Eduardo VII, em 1905, intrigas palacianas tempos antes da I Guerra Mundial foi sinónimo de algumas horas mergulhada nas páginas do livro de Barbara Cartland, escritora de quem nunca tinha ouvido falar mas que escreveu mais de 700 livros! Espantados? Pois! Também eu mas fui confirmar na Wikipedia...

É um livro óptimo para quem gosta de um misto de romance de época com algumas pitadinhas de um romance "cor de rosa". Embora saibamos, ou melhor, sintamos que vai acabar bem o amor proibido de Mariska e Arkley, não adivinhamos como se vão desembaraçar dos "problemas" que lhes barram o caminho.

Confesso que gostei especialmente do ambiente da época que a autora soube contextualizar e retratar muito bem, e que, sem isso, na minha opinião, esta obra poderia passar por um simples romance light.

Terminado em 5 de Outubro de 2014

Estrelas: 4*

Sinopse

Marienbad, 1905. A Europa está a preparar-se para a guerra e os países aliam-se uns com os outros e contra outros.

Mariska fica surpreendida e chocada quando o Alto Comando alemão espera que ela faça o papel de espia - e com medo da fúria do marido, caso recuse.

Em Marienbad para informar o rei Eduardo VII dos últimos acontecimentos no palco europeu, Lorde Arkley conhece a bela e infeliz Mariska. Ela é casada com o sádico príncipe Friederich de Wilzenstein, um homem condenado a uma cadeira de rodas pelos efeitos da bomba de um anarquista.

Arkley e Mariska são atraídos para uma assustadora teia de intrigas e espionagem numa história dramática com um final surpreendente.

 

Stoner - John Williams

Roda Dos Livros, 25.10.14

Um livro quStonere andou perdido durante 50 anos e foi depois redescoberto e aclamado por leitores e autores consagrados como uma obra-prima? Curioso. Comecei a lê-lo muito pouco convencida de que fosse assim tão extraordinário. Mas... tive duas surpresas: primeiro, fiquei agarrada ao livro da primeira à última página. Depois, ao longo de toda a leitura, tive a sensação nítida, por vezes quase palpável, de que há algo nesta obra que é realmente fora de série. Algo muito invulgar, que ultrapassa largamente a experiência normal de ler um livro, mesmo um livro de qualidade; algo que se nos introduz debaixo da pele e ali fica, incómodo como um corpo estranho, acrescentando um não sei quê indefinido àquilo que éramos antes.

Não é apenas a escrita. A escrita é bela como todas as coisas simples e escorreitas e transmite a mensagem com uma clareza por vezes assustadora. Mas não é só isso. Também não é só a pungência do relato - a vida de Stoner é, na verdade, uma sucessão de oportunidades perdidas por falta de combatividade do protagonista, mas está longe de se reduzir a isso. Para mim, o que há aqui de tão profundamente perturbador é a perspectiva inesperada sobre a definição de conceitos-chave de qualquer vida humana, como o fracasso ou a felicidade.

À primeira vista, Stoner é um fraco que se deixou levar pelas circunstâncias da vida sem nunca conseguir combatê-las. Foi para a universidade por imposição dos pais e para professor por sugestão de um mestre. O seu casamento falhou porque nunca conseguiu aproximar-se da mulher nem criar com ela qualquer tipo de intimidade, amizade ou cumplicidade. Perdeu a companheira que realmente amava porque não teve a coragem de assumir a relação perante o mundo. Deixou que a mulher infernizasse a vida da filha para o ferir, porque não foi capaz de lhe fazer frente quando isso se impunha. E, como todos os fracos, encontrou um escape que o ajudou a abstrair-se de todos os seus fracassos - no seu caso, felizmente foi algo nobre como a paixão pela literatura e pelo ensino.

Acontece que, à medida que vamos lendo, algo de muito estranho vai acontecendo. A pouco e pouco, vamos interiorizando a visão de Stoner sobre a vida. Vamos absorvendo o seu olhar sobre o que o rodeia. E começamos a sentir, mais do que a compreender, a paz que a sua postura gera em todas as circunstâncias. O que não significa ausência de sofrimento. Significa apenas que tanto a alegria como a tristeza são vividas com uma tranquilidade que permite a instrospecção. E permite ainda outra coisa: manter o ruído causado pelos desgostos e agruras da vida sempre abaixo de um determinado nível, acima do qual só se permite que uma única emoção extravase - a paixão, geralmente sob a forma de paixão pela aquisição e transmissão do conhecimento. E, assim, apesar de a vida de Stoner denotar todos os sinais exteriores de um fracasso em todas as frentes, somos obrigados a reconhecer que Stoner foi, maioritariamente, feliz. Então, o fracassado será ele ou quem vive para o sucesso exterior sem nunca alcançar a felicidade?

A serenidade de Stoner é particularmente notória quando a morte se aproxima. Qual de nós não desejaria viver os seus últimos momentos com a mesma imperturbabilidade com que Stoner viveu os seus? Mas afinal... Stoner não era um fraco?

Excertos:

"Terceiro Ato, Cena quatro - disse Masters. - E, assim, a providência, ou a sociedade, ou o destino, ou seja qual for o nome que lhe quiserem dar, criou este telheiro para nós, para nos abrigarmos da tempestade. É para nós que existe a universidade, para os desalojados do mundo; não para os estudantes, não para a busca altruísta do conhecimento, não por nenhuma das razões que vocês ouvem. Enumeramos as razões e deixamos entrar alguns dos normais, aqueles que se safariam bem no mundo, mas isso é só para disfarçar e nos protegermos. Tal como a Igreja na Idade Média, que se estava nas tintas para a laicidade ou inclusive para Deus, também nós temos as nossas pretensões para podermos sobreviver. E sobreviveremos... porque temos de o fazer." (pág. 32-33).

"Enterrou-a ao lado do pai. Terminada a cerimónia fúnebre, e depois de os poucos convidados terem partido, Stoner ficou sozinho, no vento frio de novembro, a olhar para as duas campas, uma aberta, tendo acabado de receber o seu fardo, e a outra coberta de terra e ervas penugentas. Virou as costas ao pequeno cemitério árido e sem árvores, onde jaziam outras pessoas como os seus pais, e olhou para a extensão de terra plana, na direção da quinta onde nascera, onde os pais tinham passado a vida inteira. Pensou no preço que a terra, ano após ano, exigira; e continuava como sempre fora... um pouco mais árida, um pouco mais frugal. Nada mudara. As suas vidas tinham sido gastas numa labuta sem alegria, as suas vontades domadas, as suas inteligências embotadas. Agora, estavam na terra à qual haviam dado a vida e, lentamente, ano após ano, a terra tomá-los-ia. Lentamente, a humidade e a putrefação infestariam os caixões de pinho que continham os seus corpos e, lentamente, tocariam a pele deles e, por fim, consumiriam os últimos vestígios da sua essência. E eles tornar-se-iam uma parte insignificante dessa terra obstinada à qual se tinham entregado de corpo e alma, havia muito." (pág. 100)

2014, Publicações D. Quixote

Haatchi e Litle B de Wendy Holden

Roda Dos Livros, 22.10.14

Há livros que leio e fico com uma grande dose de respeito pelas pessoas que neles venho a conhecer. Algumas pessoas conseguem, pela força e coragem demonstradas, construir uma rede de simpatia e admiração infindável. Há quem não goste de ler este tipo de livros. Eu gosto. Porque são inspiradores. Porque com a força que demostram fazem-nos sentir insignificantes mas também cheios de fé no ser humano.

Owen é um menino especial, que nasceu com Síndrome de Schwartz-Jampel, uma doença rara que lhe afeta os musculos provocando-lhe dores e impedindo o seu crescimento normal. Haatchi, é um cão que foi abandonado numa linha de caminho de ferro e que ficou sem uma pata. O amor que os une fez com que Owen, ou Litle B, como é carinhosamente conhecido, ultrapassasse os seus medos e inseguranças por ser diferente. As atenções a que sempre era alvo por ser "diferente" passaram a ser dirigidas a Haatchi, à sua história. Owen passou a comunicar sem medos.

Sem ser de uma forma lamechas, esta obra conta-nos quais as dificuldades por que ambos passaram e quão grande o amor pode ser e transformar quem ama. Haatchi marcou não só a vida do pequeno Litle B mas também a de muitas outras pessoas já que foi treinado como cão de terapia.

Uma lição de vida. Um livro que adorei ler.

Estrelas: 5*

Sinopse

Numa noite gelada em janeiro de 2012, Haatchi, o cão, foi atingido na cabeça e abandonado numa linha de caminho de ferro para ser atropelado por um comboio. O maquinista viu demasiado tarde o adorável pastor-da-anatólia de cinco meses. De alguma forma, o aterrorizado cachorrinho sobreviveu à perda de sangue da pata e cauda parcialmente cortadas e conseguiu rastejar para um lugar seguro.

Felizmente, Haatchi foi resgatado, embora os veterinários não tenham conseguido salvar-lhe a pata e cauda. Um apelo no Facebook chamou a atenção de um casal de bom coração, Colleen Drummond e Will Howkins, que também são o pai e a madrasta de Owen (conhecido na família como Little B, ou seja Little Buddy, «amiguinho»). Um olhar para o focinho expressivo de Haatchi disse-lhes tudo o que precisavam de saber e o sortudo cão mudou-se para casa da família Howkins apenas seis semanas depois de quase ser morto. Owen, agora com oito anos, tem uma doença genética rara que faz com que os seus músculos estejam permanentemente tensos. Em grande parte confinado a uma cadeira de rodas, era um menino reservado e ansioso com dificuldade em fazer amigos. Mas quando Owen acordou na manhã depois de Haatchi chegar, apaixonou-se imediatamente pelo cão mutilado que, por sua vez, acabou por salvá-lo.

 

 

Uma Outra Voz - Gabriela Ruivo Trindade

Roda Dos Livros, 22.10.14

umaoutravozNa semana em que foi conhecido o Prémio Leya 2014, “O Meu Irmão”, de Afonso Reis Cabral, decidi-me a tirar da estante “Uma Outra Voz”, de Gabriela Ruivo Trindade, o Prémio Leya 2013.

Interessante e bem escrito, com uma história que prende o leitor, não lhe encontro pontos negativos mas por alguma razão não me entusiasmou tanto quanto eu esperava. E comprovo isso agora, que tento escrever um texto sobre o livro e pouco me ocorre.

O ponto forte é a narração. Várias vozes, vários narradores, várias perspectivas. As mesmas personagens descritas por cada voz completam os pontos soltos da história. Bem estruturado porque as vozes não falam nas mesmas datas, é como se funcionasse como um círculo que o leitor vai fechando. Bem conseguido mas não traz nada de novo.

Um livro que li mas não me marcou, certamente daqui a uns tempos olho para a capa e nem me lembro o que lá vai dentro.

A sinopse é excelente e elevou-me as expectativas. Mas a leitura deixou-me de certo modo indiferente. Não é o que espero de um livro, ainda por cima premiado.

Sinopse

“João José Mariano Serrão foi um republicano convicto que contribuiu decisivamente para a elevação de Estremoz a cidade e o seu posterior desenvolvimento. Solteiro, generoso e empreendedor como poucos, abriu lojas, cafés e uma oficina, trouxe a electricidade às ruas sombrias e criou um rancho de sobrinhos a quem deu um lar e um futuro. É em torno deste homem determinado, mas também secreto e contido, que giram as cinco vozes que nos guiam ao longo destas páginas, numa viagem que é a um tempo pessoal e colectiva, porque não raro as estórias dos narradores se cruzam com momentos-chave da história portuguesa. Assim conheceremos um adolescente que espreitava mulheres nuas e ria nos momentos menos oportunos; a noiva cujos olhos azuis guardavam um terrível segredo; um jovem apaixonado pela melhor amiga que vê a vida subitamente atravessada por uma tragédia; a mãe que experimentou o escândalo e chora a partida do filho para a guerra; e ainda a prostituta que escondia documentos comprometedores na sua alcova e recusou casar-se com o homem que a amava. Por fim, quando estas vozes se calam, é tempo de ouvirmos o protagonista através de um diário escrito noutras latitudes e ressuscitado das cinzas muitos anos mais tarde.Baseado em factos reais, Uma Outra Voz é uma ficção que nos oferece uma multiplicidade de olhares sobre a mesma paisagem, urdindo a história de uma família ao longo de um século através das revelações de cada um dos seus membros, numa interessante teia de complementaridade.”

Leya, 2014

Stoner - John Williams

Roda Dos Livros, 19.10.14

StonerAssim de repente nada de especial. Se calhar um bocado chato para alguns, um livro sobre a vida académica de um tal de William Stoner, de quem nunca se ouviu falar. A publicidade e divulgação de “Stoner” deixou-me atenta, até porque há citações difíceis de ignorar: “É uma coisa ainda mais rara do que um grande romance - é o romance perfeito, tão bem contado, tão bem escrito, tão comovente que nos corta a respiração.” (New York Times)

Algo me disse que seria um livro candidato a “O Livro”. Não encontrei ainda o livro da minha vida, mas com Stoner percorri mais uns passos do caminho.

Escrito na década de sessenta e esquecido até agora, “Stoner” renasce numa época de boom editorial, em que é difícil (ou mesmo impossível) acompanhar tudo o que sai para o mercado diariamente. Acho estranho mas fico feliz. Estranhamente feliz por um livro tão simples brilhar neste caos de publicações “a martelo”. Uma escrita cuidada e bonita, sem artifícios desnecessários, que me preencheu e alimentou uma fome de algo diferente.

Uma leitura sentimental, pois quem não entender William, quem não se emocionar e identificar com as suas descobertas, terá apenas uma sucessão de palavras por companhia ao longo de duzentas a sessenta páginas. A mim disse-me muito. A forma quase acidental como um rapaz do campo vai para a Universidade e um dia descobre a Literatura, acontece de modo tão absurdo que é genial. O inesperado apanha os sonhadores de surpresa, neste caso os que sonham maioritariamente com livros.

Calado. Observador. Trabalhador rural quando jovem, as tarefas mecânicas fazem-no o mais improvável académico. Uma vida familiar vazia, o típico “agir sem pensar” e “pertencer ao rebanho”. Um casamento sem sentido alimenta a frustração e a infelicidade. Stoner não sabe reagir à vida, ela passa por ele numa sucessão de erros. Um ambiente soturno que os anos não melhoram, até agrava. Está mergulhado em solidão e tristeza. O ambiente ideal para que a pequena luz da sua vida brilhe ainda com mais força. Ler, estudar, aprender e ensinar são as suas razões para seguir em frente. É feliz no seu escritório onde pode passar todas as horas do dia isolado do que não entende e lhe provoca dor.

Um tipo esquisito a dar para o eremita. Um estudioso que precisa de se entregar ao trabalho. Um homem sem referências à procura do seu meio. Cada leitor verá Stoner de forma diferente. Eu vejo-o como um ser humano que se entrega sem reservas ao que o faz feliz. Pouco se aproveita da sua vida, o que faz com que o seu amor incondicional aos livros e a sede de saber se tornem um refúgio especial e único. À medida que o falhanço contamina a sua existência, a vocação, que uma vez descoberta nunca abandona, dita o seu percurso. O percurso que conta.

Excelente. Recomendo sem reservas.

“Na biblioteca da universidade vagueava por entre as estantes, por entre os milhares de livros, inspirando o odor bafiento a couro, tecido e papel ressequidos como se fosse um exótico incenso. Por vezes parava, tirava um volume de uma prateleira e segurava-o um instante com as suas mão grandes, que eram tomadas por um formigueiro perante essa sensação ainda nova da lombada, de capa cartonada e das folhas de papel que se lhe ofereciam sem resistência. Depois, folheava o livro, lendo um parágrafo aqui e ali, os seus dedos hirtos virando as páginas cuidadosamente, com medo de, desajeitadas, rasgarem e destruírem aquilo que tinham descoberto com tanto esforço.” Pág. 18;

“Por vezes, imerso nos seus livros, tomava consciência de tudo o que não sabia, que não lera, e a serenidade à qual aspirava estilhaçava-se, quando percebia o pouco tempo de que dispunha na vida para ler tanta coisa, para aprender o que queria.” Pág. 28;

“Esse amor à literatura, à língua, aos mistérios da mente e do coração que se revelavam nas ínfimas, estranhas e inesperadas combinações de letras e palavras, na tinta mais negra e fria… esse amor que escondera como se fosse ilícito e perigoso começou ele então a mostrar, hesitantemente a princípio e depois com ousadia e, por fim, com orgulho.” Pág. 104;

Sinopse

“Romance publicado em 1965, caído no esquecimento. Tal como o seu autor, John Williams - também ele um obscuro professor americano, de uma obscura universidade. Passados quase 50 anos, o mesmo amor à literatura que movia a personagem principal levou a que uma escritora, Anna Gavalda, traduzisse o livro perdido. Outras edições se seguiram, em vários países da Europa. E em 2013, quando os leitores da livraria britânica Waterstones foram chamados a eleger o melhor livro do ano, escolheram uma relíquia.Julian Barnes, Ian McEwan, Bret Easton Ellis, entre muitos outros escritores, juntaram-se ao coro e resgataram a obra, repetindo por outras palavras a síntese do jornalista Bryan Appleyard: "É o melhor romance que ninguém leu". Porque é que um romance tão emocionalmente exigente renasce das cinzas e se torna num espontâneo sucesso comercial nas mais diferentes latitudes? A resposta está no livro. Na era da híper comunicação, Stoner devolve-nos o sentido de intimidade, deixa-nos a sós com aquele homem tristonho, de vida apagada. Fechamos a porta, partilhamos com ele a devoção à literatura, revemo-nos nos seus fracassos; sabendo que todo o desapontamento e solidão são relativos - se tivermos um livro a que nos agarrar.”

D. Quixote, 2014

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