"Tenho o direito de me destruir" de Kim Young-ha

Inquietante e perturbador, “Tenho o direito de me destruir” não é uma leitura fácil, acabando por seduzir o leitor através de um confronto, directo e impiedoso mas imbuído de um certo encanto melancólico, com a fragilidade das profundezas da alma humana. Uma leitura feita de desassossego e alguma ansiedade ante as histórias contadas através de frases quase sempre curtas, incisivas, corrosivas, compondo um estilo sóbrio, sem rodeios e vazio de adornos supérfluos, tal como os seus personagens vazios de alegria de viver. Estes derivam incessantemente, lembrando seixos rolados pelas ondas do mar numa qualquer praia, sem rumo definido, sem norte. Nem sequer o desejo os anima ou faz vibrar, pois até este é caracterizado por uma monotonia perturbante em que a morte é encarada como o alívio definitivo de um vazio essencial; de uma consciência aguda do absurdo de vidas solitárias incapazes de se encontrarem realmente, mesmo quando se cruzam, mesmo quando unem físicamente os seus corpos. Apesar de tudo isto, este é um livro que se lê quase de um só fôlego, teimando em não deixar o leitor repousar até virar a última página, ao mesmo tempo que questiona também o papel da criação artística como meio para exorcizar a angústia mais profunda do ser humano, aquela da sua própria finitude, da sua inexorável mortalidade.
Um romance diferente que gostei muito de ler e recomendo, sobretudo a quem sentir curiosidade em explorar tradições literárias fora da habitual hegemonia anglófona tão prevalente na nossa oferta editorial.
Para além da sinopse e de alguns excertos, deixo aqui a ligação para uma interessante conferência TEDx dada pelo autor sobre arte e criatividade bem como para o programa da TSF “Livro do Dia” sobre este romance.
Sinopse: Num tempo em que a eutanásia e a morte assistida estão na ordem do dia, o narrador anónimo deste romance ajuda pessoas a morrer. Mas não porque se encontrem doentes, simplesmente porque se sentem fartas da vida. Bastam-lhe dois ou três clientes por ano para sobreviver; mas nem sempre se torna fácil encontrá-los e, por isso, é preciso ler muito, viajar, saber de pintura, fazer pesquisa, seguir alguma pista. («As conversas fluirão mais facilmente se eu souber quais as bandas, pintores e escritores que preferem.») Foi assim, de resto, que descobriu a bela e tentadora Se-yeon, que partiu o coração aos dois irmãos que se apaixonaram por ela; e também Mimi, a artista que nunca permitia que a filmassem porque tinha medo de se ver a si mesma. E quem sabe se se tornará sua cliente a rapariga de Hong Kong que conheceu num museu, em Viena, e parecia fugir de um passado terrível?Tomando a paisagem urbana e o ritmo louco de Seul como espelho da vida contemporânea em todo o mundo - e combinando a tensão emocional de Kundera com a angústia existencial de Bret Easton Ellis - Tenho o Direito de Me Destruir, traduzido em mais de dez línguas, inscreve a moderna literatura sul-coreana na tradição internacional e institui Kim Young-ha como a voz mais importante da sua geração.
Excertos:
“Quando acabo um trabalho, faço uma viagem. No regresso, escrevo sobre o cliente e o tempo que passámos juntos. Através deste acto criativo, aspiro a converter-me cada vez mais num deus. Só há duas maneiras de ser um deus: através da criação ou do assassínio.”
“Às vezes, é mais fácil compreender a ficção do que os acontecimentos reais. A realidade é muitas vezes patética. Aprendi muito cedo que, para marcar uma posição, o mais fácil é inventar uma história. Gosto de criar histórias. De qualquer forma, o mundo está cheio de ficção.”
“A tela branca. Alguém desenvolvera uma teoria de que o homem primitivo começara a criar arte devido a um medo escondido nas profundezas da alma humana. A simples existência de uma parede inteiramente branca é uma coisa assustadora. É por isso que as crianças escrevem nas paredes e riscam os carros novos e reluzentes. Com receio de uma sala vazia, sem mobília nem quadros, as pessoas enchem-na cada vez mais. (...) Quando começou a pintar, C achava interessante a teoria de que a arte nascera do medo. Era um pequeno consolo, mas importante para ele, que tinha de viver da sua arte, o facto de uma pessoa poder controlar os receios mais inescrutáveis transformando-os em arte. Mas, por vezes, ainda pergunta a si próprio: Do que é que eu tenho realmente medo?”
“Jamais ultrapassaria a distância que os separava. Sentiu-se desesperado ao constatar que nunca conseguiria arranjar coragem para vencer o abismo que o separava do mundo, dos objectos que transformava em arte, das mulheres com quem tinha estado. Pensou em Judite, que fora ao Pólo Norte. No dia em que fizera 30 anos, C percebera que a capacidade de amar outra pessoa era um dom.”
“Um escritor sem um romance publicado em inglês é tratado como um vagabundo.”
“Ando sempre a fugir de mim próprio. Sou obrigado a isso no Inferno.”

















