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Roda Dos Livros

"Tenho o direito de me destruir" de Kim Young-ha

Roda Dos Livros, 30.09.14

 

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Inquietante e perturbador, “Tenho o direito de me destruir” não é uma leitura fácil, acabando por seduzir o leitor através de um confronto, directo e impiedoso mas imbuído de um certo encanto melancólico, com a fragilidade das profundezas da alma humana. Uma leitura feita de desassossego e alguma ansiedade ante as histórias contadas através de frases quase sempre curtas, incisivas, corrosivas, compondo um estilo sóbrio, sem rodeios e vazio de adornos supérfluos, tal como os seus personagens vazios de alegria de viver. Estes derivam incessantemente, lembrando seixos rolados pelas ondas do mar numa qualquer praia, sem rumo definido, sem norte. Nem sequer o desejo os anima ou faz vibrar, pois até este é caracterizado por uma monotonia perturbante em que a morte é encarada como o alívio definitivo de um vazio essencial; de uma consciência aguda do absurdo de vidas solitárias incapazes de se encontrarem realmente, mesmo quando se cruzam, mesmo quando unem físicamente os seus corpos. Apesar de tudo isto, este é um livro que se lê quase de um só fôlego, teimando em não deixar o leitor repousar até virar a última página, ao mesmo tempo que questiona também o papel da criação artística como meio para exorcizar a angústia mais profunda do ser humano, aquela da sua própria finitude, da sua inexorável mortalidade.

Um romance diferente que gostei muito de ler e recomendo, sobretudo a quem sentir curiosidade em explorar tradições literárias fora da habitual hegemonia anglófona tão prevalente na nossa oferta editorial.

Para além da sinopse e de alguns excertos, deixo aqui a ligação para uma interessante conferência TEDx dada pelo autor sobre arte e criatividade bem como para o programa da TSF “Livro do Dia” sobre este romance.

Sinopse: Num tempo em que a eutanásia e a morte assistida estão na ordem do dia, o narrador anónimo deste romance ajuda pessoas a morrer. Mas não porque se encontrem doentes, simplesmente porque se sentem fartas da vida. Bastam-lhe dois ou três clientes por ano para sobreviver; mas nem sempre se torna fácil encontrá-los e, por isso, é preciso ler muito, viajar, saber de pintura, fazer pesquisa, seguir alguma pista. («As conversas fluirão mais facilmente se eu souber quais as bandas, pintores e escritores que preferem.») Foi assim, de resto, que descobriu a bela e tentadora Se-yeon, que partiu o coração aos dois irmãos que se apaixonaram por ela; e também Mimi, a artista que nunca permitia que a filmassem porque tinha medo de se ver a si mesma. E quem sabe se se tornará sua cliente a rapariga de Hong Kong que conheceu num museu, em Viena, e parecia fugir de um passado terrível?Tomando a paisagem urbana e o ritmo louco de Seul como espelho da vida contemporânea em todo o mundo - e combinando a tensão emocional de Kundera com a angústia existencial de Bret Easton Ellis - Tenho o Direito de Me Destruir, traduzido em mais de dez línguas, inscreve a moderna literatura sul-coreana na tradição internacional e institui Kim Young-ha como a voz mais importante da sua geração.

Excertos:

“Quando acabo um trabalho, faço uma viagem. No regresso, escrevo sobre o cliente e o tempo que passámos juntos. Através deste acto criativo, aspiro a converter-me cada vez mais num deus. Só há duas maneiras de ser um deus: através da criação ou do assassínio.”

“Às vezes, é mais fácil compreender a ficção do que os acontecimentos reais. A realidade é muitas vezes patética. Aprendi muito cedo que, para marcar uma posição, o mais fácil é inventar uma história. Gosto de criar histórias. De qualquer forma, o mundo está cheio de ficção.”

“A tela branca. Alguém desenvolvera uma teoria de que o homem primitivo começara a criar arte devido a um medo escondido nas profundezas da alma humana. A simples existência de uma parede inteiramente branca é uma coisa assustadora. É por isso que as crianças escrevem nas paredes e riscam os carros novos e reluzentes. Com receio de uma sala vazia, sem mobília nem quadros, as pessoas enchem-na cada vez mais. (...) Quando começou a pintar, C achava interessante a teoria de que a arte nascera do medo. Era um pequeno consolo, mas importante para ele, que tinha de viver da sua arte, o facto de uma pessoa poder controlar os receios mais inescrutáveis transformando-os em arte. Mas, por vezes, ainda pergunta a si próprio: Do que é que eu tenho realmente medo?”

“Jamais ultrapassaria a distância que os separava. Sentiu-se desesperado ao constatar que nunca conseguiria arranjar coragem para vencer o abismo que o separava do mundo, dos objectos que transformava em arte, das mulheres com quem tinha estado. Pensou em Judite, que fora ao Pólo Norte. No dia em que fizera 30 anos, C percebera que a capacidade de amar outra pessoa era um dom.”

“Um escritor sem um romance publicado em inglês é tratado como um vagabundo.”

“Ando sempre a fugir de mim próprio. Sou obrigado a isso no Inferno.”

A Caminho de Casa de Fabio Volo

Roda Dos Livros, 29.09.14

Não sou estreante na escrita de Fabio Volo. Para mim os seus livros são um valor seguro. É uma escrita simples, terra-a-terra, que nos direcciona para assuntos do dia-a-dia, quase comuns, mas consegue, ao mesmo tempo, abordá-los com profundidade. Os personagens abrem-se-nos por dentro, permitindo-nos olhar para as suas dúvidas, incertezas, medos e conflitos.

Assim acontece com esta obra. Dois irmãos afastados por rivalidades que se foram gerando no seio de segredos de família mantidos pelos progenitores. Até onde as diferenças de comportamento e atitude podem condicionar e manter uma separação de dois irmãos criados e educados de forma diferente? Marcados pela doença e morte da mãe, Andrea e Marco seguem caminhos diferentes e é de novo na doença, desta vez de seu pai, que se voltam a juntar estabelecendo laços de amizade e amor. Há que repensar atitudes e caminhos tomados. Não é, no entanto, um caminho fácil. A comprová-lo estão todas estas páginas que nos envolvem e permitem conhecer melhor toda a fragilidade do ser humano. As escolhas tomadas e as suas repercussões, a vida, a doença e a aceitação da morte, o amor entre irmãos, os compromissos, as cumplicidades e as brigas familiares. Questões abordadas pelo autor com simplicidade mas também com mestria.

A verosimilhança do enredo torna este livro muito credível. Fabio Volo conta-nos uma história que pode, muito bem, estar mais perto de nós do que julgamos. Gostei desta leitura que se faz num ápice!

Estrelas: 4*+

Sinopse

A Caminho de Casa é um romance que confirma a maturidade de Fabio Volo como escritor e destaca as qualidades que o tornaram tão apreciado por milhões de leitores.

A Caminho de Casa conta a história de dois irmãos que são o oposto um do outro. Andrea é engenheiro, responsável, tem um casamento perfeito e o dom de fazer sempre as escolhas certas. Marco, três anos mais novo, é dono de um restaurante em Londres, rebelde, instável e um mulherengo inveterado. Nunca se sentiram íntimos na sua relação, mas a súbita doença do pai irá aproximá-los e fazê-los compreender muita coisa sobre si próprios e sobre a família.

Um romance que atesta a maturidade de Fabio Volo como escritor e que nos fala de temas universais como: o amor, a paixão, o casamento, a amizade, as escolhas que se fazem e as que ficam por fazer, e a extrema importância dos afetos na passagem para a vida adulta.

 

O retorno, de Dulce Maria Cardoso

Roda Dos Livros, 28.09.14

o retornoSinceramente até considero irrelevante e quase insultuoso dizer que gostei deste livro. Não gostei. Não gostei do conteúdo. Não gostei do nó na garganta que me acompanhou ao longo desta leitura. Pela primeira vez ponderei parar de ler um livro pela simples razão de que a leitura me estava a incomodar. Em vez disso optei por ler compulsivamente para ver se o incómodo se atenuava. Não aconteceu. Acho que cada vez que olhar para este livro vou sentir vergonha e orgulho em proporções quase iguais. Porque este livro é mais que uma simples história, tem e terá (digo eu) um estatuto de documento. O retorno das colónias contado magistralmente pela Dulce Maria Cardoso (acredito que foi um livro que lhe saiu da alma) sob a voz de um menino de 15 anos que mistura dor, medo, esperança, desesperança e amor. Percebo porque tanta gente se sentiu tocada por este livro. É quase impossível que isso não aconteça. É quase impossível não sorrir e não chorar com o Rui. É quase impossível não sentir um murro no estômago a cada página. Escusado será dizer que recomendo esta leitura a todos.

Sinopse:

1975, Luanda. A descolonização instiga ódios e guerras. Os brancos debandam e em poucos meses chegam a Portugal mais de meio milhão de pessoas. O processo revolucionário está no seu auge e os retornados são recebidos com desconfiança e hostilidade. Muitos nao têm para onde ir nem do que viver. Rui tem quinze anos e é um deles. 1975. Lisboa. Durante mais de um ano, Rui e a família vivem num quarto de um hotel de 5 estrelas a abarrotar de retornados — um improvável purgatório sem salvação garantida que se degrada de dia para dia. A adolescência torna-se uma espera assustada pela idade adulta: aprender o desespero e a raiva, reaprender o amor, inventar a esperança. África sempre presente mas cada vez mais longe.

As estrelas Brilham na Cidade de Laura Moriarty

Roda Dos Livros, 28.09.14

Quando não possuimos quaisquer expectativas sobre um livro e a sua leitura excede tudo o que esperávamos isso revela-se-nos uma dádiva, tornando-se algo difícil de explicar. A Sinopse de As Estrelas Brilham na Cidade é parca em pormenores e, por essa razão, nada nos faz prever o real conteúdo desta obra nem a forma como a trama descrita nos enrreda nas suas malhas.

Trata-se de um romance que, através da descricão da vida Cora X, nos relata muitos acontecimentos que marcaram a História. Fala-nos da mudança de mentalidades que foi acontecendo durante o sec XX, do papel da mulher e da sua intervenção crescente na sociedade. A acção decorre entre Wichita, uma localidade no Kansas, e Nova Iorque, num espaço temporal que começa por volta de 1920 e se prolonga até depois de 1965. Gira em torno da vida de Cora, da sua busca do passado que desconhece por completo visto ter sido criada num orfanato, da sua descoberta do segredo mantido pelo seu marido que vai alterar por completo a sua realidade e da sua ida a Nova Iorque como "chaperon" de uma filha de uma conhecida que vai para uma escola de dança.

Essa desconhecida não é mais que Louise Brooks, uma actriz do cinema mudo, bailarina e modelo que através da sua conduta, personalidade e beleza ficou conhecida nos anais do cinema.

O facto deste livro misturar ficção e realidade com uma mestria muito própria tornou esta leitura um prazer muito grande. Temas relacionados com a emancipação da Mulher, a luta pelo planeamento familiar, a Segunda Guerra e as suas consequências, o Ku Klus Klan, Lei Seca, a homoxesualidade tida como um desvio e outras condutas tidas como imorais, que levavam inclusive à prisão, tornam esta obra um relado muito autêntico de uma época e faz deste livro um dos melhores que li este ano!

Estrelas: 6*

Sinopse

Em 1922, Louise Brooks tem apenas 15 anos e vive em Wichita, no Kansas, quando parte para Nova Iorque a fim de frequentar um curso de dança. Com ela vai também Cora, uma mulher mais velha e já casada, para lhe servir de acompanhante. Contudo, apesar de Louise Brooks se ter tornado mais tarde um dos grandes ícones do cinema mudo, é a vida de Cora que Laura Moriarty recria neste romance. Cora Carlisle é uma sufragista bastante convencional, que oculta os seus segredos e tem motivos próprios relacionados com as suas origens para aceitar fazer aquela viagem. Por outro lado, a diferença de idades e de atitudes entre as duas mulheres permite à autora tirar partido do que distingue as duas gerações explorando engenhosamente as múltiplas facetas das mudanças que vão ocorrendo na sociedade.

As Estrelas Brilham na Cidade é uma narrativa fascinante e muito bem documentada sobre a história e a mudança de mentalidades durante o século XX.

 

Um Amor Perdido de Anna McPartlin

Roda Dos Livros, 28.09.14

O primeiro livro que li desta escritora, "Estarás Sempre Comigo", constituiu uma surpresa muito agradável e teve em mim um forte impacto. Li, por essa razão, os outros livros publicados cá e todos me marcaram positivamente como podem ver aqui! Talvez por isso tivesse pegado logo nesta leitura e esperasse dela ainda mais e mais... As minhas expectativas eram, de certo modo, muito elevadas. Creio que faltou um pequeno clic para que esta obra superasse as outras anteriores da autora.

Ainda que ela nos conte (e bem!) histórias onde há predominãncia de alguns temas muito pesados (como a perda e o desaparecimento de alguém, amores não correspondidos, alcoolismo, doenças terminais e com forte herança hereditária, gravidez na adolescência), consegue no entanto, transmitir-nos uma mensagem de esperança, onde o humor tem um lugar muito próprio e é característico desta autora. Um humor subtil que nos faz sorrir mesmo em situações onde a dor está fortemente presente.

A sinopse induz-nos para um caminho que não é seguido pela autora. O desaparecimento de Alexandra poder-nos-ia levar ao cerne de uma investigaçao policial. No entando, Anna McPartlin não vai por aí. Centra-se nos que ficam, nos que sofrem a perda, na família da vítima e, mais propriamente, no seu marido. Como aceitar a perda, como aprender a viver de novo?

Leitura que gostei e recomendo!

Estrelas: 4*

Sinopse

A 21 de junho de 2007 Alexandra Kavanagh saiu de casa, falou com a vizinha, meteu-se no comboio, chegou à estação de Dalkey e desapareceu... Tom está destroçado. Não encontra a mulher, o seu mundo desmoronou e o seu único objetivo é localizá-la. Durante dezassete anos, Jane cuidou do filho Kurt, da excêntrica irmã Elle, e da rabugenta mãe Rose. A única pessoa de que não cuida é dela própria. Elle é artista e considerada um génio. Como tal, o seu comportamento um tanto errático é tolerado. Embora a sua vida pareça perfeita, a tristeza de Elle é por vezes profunda. Leslie perdeu toda a família para o cancro. Passou vinte anos à espera de morrer, mas após uma operação radical está determinada a viver de novo. Quatro meses depois do desaparecimento de Alexandra. Tom entra num elevador com Jane, Elle e Leslie para um concerto de Jack Lukeman. Uma hora mais tarde, os quatro desconhecidos saem de lá com as suas vidas entrelaçadas para sempre.

Um Amor Perdido aborda o alcoolismo, a depressão, a negação e a dor e ainda assim irá dar por si a sorrir e até a rir.

 

 

Montedor de J. Rentes de Carvalho

Roda Dos Livros, 28.09.14

Uma amiga minha prefere ler os livros de cada autor pela ordem em que foram escritos. Atē agora, isso não tem sido relevante para mim. Confesso que cheguei a achar uma obcessão de quem é leitor compulsivo... Mais uma a juntar a tantas outras que, quem sofre deste "mal", conhece muito bem!

Porém, sendo "Montedor" o primeiro livro de Rentes de Carvalho, faz todo o sentido lê-lo antes dos outros. Foi isto que senti depois de acabar este livro. Já tinha lido "Mentiras e Diamantes" e gostei muito da sua escrita deliciosa. O enredo prende completamente o leitor. Para ler a seguir tenho "Os lindos braços de Júlia da Farmácia", de quem li comentários muito bons.

Confesso que, talvez por distracção minha, este livro não me prendeu tanto como o que li anteriormente. O personagem principal, embora caracterizado de forma soberba, irritou-me um pouco com todo o seu descontentamento, quase desprendimento, perante a vida! Buscando um futuro e, no entanto, sem futuro algum!

Escrito em 1968, adivinha-se na escrita desta obra-estreia de Rentes de Carvalho uma inquietação que leva o ser humano a querer ir mais longe! A comprová-lo estão os muitos livros publicados em Portugal e que pretendo ler num futuro próximo.

Estrelas: 4*

Sinopse

Ao longo das gerações, são sem conta as famílias portuguesas em que há alguém como o triste protagonista de Montedor: rapaz sem futuro, com um passado apenas de sonhos, arrastando-se num presente que é uma verdadeira morte lenta.

Mau grado a simplicidade das personagens e das cenas, há no romance uma tensão permanente, e pode-se com verdade dizer que quase cada página encerra um momento dramático ou antecipa uma tragédia, a qual, talvez porque raro chega a acontecer, cria um desespero cinzento, retratando bem, e cruamente, os medos e o sofrimento da sociedade portuguesa, passada e presente.

Publicado pela primeira vez em 1968, Montedor é o romance de estreia de J. Rentes de Carvalho, sobre o qual escreveu José Saramago: «O autor dá-nos o quase esquecido prazer de uma linguagem em que a simplicidade vai de par com a riqueza (...), uma linguagem que decide sugerir e propor, em vez de explicar e impor.»

 

“Crónica do pássaro de corda” de Haruki Murakami

Roda Dos Livros, 28.09.14

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“Crónica do Pássaro de Corda” foi a minha quarta incursão pela obra de Haruki Murakami e, tal como em “Kafka à beira-mar”, ao terminar a leitura, fui invadida por um certo vazio de palavras, uma espécie de silêncio mental quebrado apenas por uma insignificante exclamação: Uau! Como é que este autor consegue criar romances tão inusitada e maravilhosamente intricados, tão perplexamente fantásticos e intrigantes? A riqueza narrativa deste livro presta-se, sem dúvida alguma, a uma miríade de interpretações de vários níveis: simbólico, antropológico, psicológico, etc. Quanto a mim, direi apenas que adorei os “nós nas ideias” que esta leitura gerou em mim. Alguns foram sendo progressivamente desatados à medida que a história se aproximava do seu final, outros permaneceram teimosamente firmes, mas tal não me incomodou de modo algum. O protagonista deste romance, ao contrário do que é dito na sinopse, é tudo menos “normal”. Desde logo porque resolveu despedir-se do emprego e anda vagamente à procura de outra ocupação, sem saber bem o que fazer. Numa sociedade que valoriza imensamente o trabalho e que dá primazia ao colectivo em detrimento do individual, não me parece que este seja um comportamento habitual. Além disso, Toru Okada mergulha de cabeça, sem pensar duas vezes, num alucinante percurso de exploração dos limites da realidade e da sua mente/consciência, enveredando por uma espécie de viagem quase xamânica, com o objectivo de reencontrar a mulher que ama. Através de um poço, símbolo tanto de mistérios e segredos como de fonte de conhecimento e portal de entrada para uma outra realidade, Toru tenta desesperadamente chegar a Kumiko. Pelo caminho cruza-se com um conjunto de personagens, quase todas verdadeiramente incomuns e extraordinárias, algumas das quais o auxiliarão a atingir o seu intuito. Entretecidas neste percurso tortuoso encontram-se várias outras questões muito pertinentes e persistentes ao longo de todos os tempos como a corrupção na política, a perda de valores éticos e de consciência social bem como o significado último da nossa existência e mortalidade. Além disso, evocam-se também memórias dolorosas da ocupação japonesa da Manchúria e do militarismo japonês da primeira metade do século XX.Acabei a leitura deste livro com algumas interrogações e uma única certeza; este é um autor que me deslumbra e cuja obra continuarei a explorar. Excertos:

“O ser humano é um verdadeiro poço de mistérios, pensei, bastam dez minutos de olhos fechados para contemplar aquela espantosa paleta de cinzentos.”

“Aos olhos da opinião pública, a coerência era um valor perfeitamente dispensável. O que as pessoas querem é assistir no pequeno écran a uma luta entre intelectuais que se digladiam; quanto mais vermelho o sangue que correr diante dos seus olhos, tanto melhor. Querem lá saber se a mesma pessoa diz uma coisa na segunda-feira e o contrário dois ou três dias depois...”

“ As leis, em última análise, existem para regular todos os fenómenos que se produzem sobre a face da Terra. O mundo no qual a luz é luz e a sombra é a sombra. Um mundo onde o yin é o yin e o yang é o yang. Um mundo onde “eu sou eu /Ele é ele/É Outono e anoitece”. O teu lugar não é aqui. Tu pertences a um mundo intermediário, um pouco mais acima ou um pouco mais abaixo do que o nosso. (...) Não se trata de ser melhor ou pior. A ideia, aqui, é de não resistir à corrente. Vem-se à tona quando se deve vir à tona e mergulha-se quando se deve mergulhar. Quando tiveres que subir, procura a torre mais alta e trepa por ela até ao topo. Quando tiveres de descer, procura o poço mais fundo e desce até ao fim. Quando não houver corrente, o melhor é não fazer nada. Se resistires à corrente, fica tudo seco. E se ficar tudo seco à tua volta, o mundo vê-se envolto em trevas.”Eu sou ele/Ele é eu/É Primavera e anoitece”. Que é como quem diz, quando renuncio a mim, existo.”

“Eu não sou mais do que um simples caminho por onde passa o homem que eu sou.”

“A verdade é que um ser humano não consegue viver sem o seu verdadeiro eu. É como a terra que pisamos. Sem um terreno firme, não podemos construir nada em cima.”

Roda dos Livros Sugestões de Leitura - Setembro 2014

Roda Dos Livros, 28.09.14

Sessão de Setembro. Finalmente.

Para matar saudades dos que estiveram de férias e para colocar em dia as imensas leituras feitas entretanto.

DSC01626A nossa mesa tem cada vez mais livros. E chegaram os nossos marcadores oficiais. Estão fabulosos!

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Como habitualmente, a nossa pilha das sugestões:

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Fernanda: Os Demónios de Álvaro Cobra, de Carlos Campaniço;

Cristina: Terra de Milagres, de João Felgar;

Cris: Cornos da Fonte Fria, de Abel Neves;

Jorge Galvão: Quando Nietzsche Chorou;

Catarina: Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera;

Patrícia: Em Busca do Carneiro Selvagem, de Haruki Murakami;

Renata: Sonhos Azuis pelas Esquinas, de Ondjaki;

Isabel: Rosa Candida, de Audur Ava Ólafsdóttir;

Ana: O Tempo Morto é um Bom Lugar, de Manuel Jorge Marmelo;

Márcia: Diário de um Quiosque, de Pedro Xavier Silva;

Em busca do Carneiro Selvagem, de Haruki Murakami

Roda Dos Livros, 26.09.14

carneiro selvagem

Wild Sheep Chaseou Wild Geese Chase ou em bom Português “ à caça de Gambozinos” (esse mítico animal que para mim terá sempre rabo de saca-rabo e orelhas de zorrinha).

Murakami mesmo quando não é muito bom (como me pareceu neste livro de que não gostei tanto como de 1Q84) é fantástico e uma vez mais guia-nos para o meio de uma história onde muito pouco do que parece é. Desta vez não há duas luas no céu mas há um carneiro muito especial de quem todos parecem andar à procura. Depois de uma primeira estranheza não nos é possível ignorar que o carneiro está mais que presente em todo o lado. Assim de repente é um dos signos do zodíaco, está presente na religião (o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, S. João que é representado com o cordeiro), na mitologia Egípcia (O deus Amón), na Grega (hermes) e em várias culturas espalhadas por esse mundo for a (China, Índia, África, Europa), etc, etc.

 Por isso, como sempre, esta busca de que nos fala o livro, está sujeita a múltiplas interpretações. O que sabemos é que o protagonista (de quem nunca sabemos o nome) é um homem desiludido com a sua vida pessoal e emocional, mediocremente vencedor na sua profissão e sem objectivos de vida, sem objectivos ou projetos de futuro.

Este homem vê-se subitamente obrigado a sair da sua zona de conforto, a encarar as dúvidas  existenciais que tem, a fechar de vez algumas portas do passado e a encontrar-se. Com ele conhecemos (uns melhor do que outros) personagens fascinantes. Há uma modelo de orelhas, um homem, outrora de sucesso, conhecido como professor carneiro que vive fechado num quarto, há um motorista que tem linha direta para deus e que gosta de gatos e há um homem conhecido por Rato  (e outros, que este livro tem imensos personagens).

 Uma vez mais foram as descrições que me obrigaram a gostar deste livro. Murakami consegue, estranhamente, fazer-me gostar de ler sobre nada –nunca soube tanto acerca do pastoreio de carneiros como agora - ou sobre tudo. Porque a verdade é que este livro pode ser lido literalmente (e aí, convenhamos, não é grande coisa) ou metaforicamente e aí a mestria de Murakami está patente.

 E apesar de não ser o melhor livro de Murakami (está longe do 1Q84) é, sem dúvida de Murakami. Está cá tudo: as descrições, o fantástico, o surreal (ok, não há homenzinhos a sair da boca de ninguém, nem duas luas no céu mas....), a comida (acho que na prática a maioria das receitas deste fulano devem ser péssimas mas ali, nas páginas do livro, até aipo com maionese -1Q84- ou sandes de pão caseiro duro como pedra parece delicioso), as referencias musicais ou literárias (eu não conheço a maioria mas as notas da tradutora ajudam imenso).

 Apesar de não ter amado este livro Murakami continua a ser um dos meus escritores favoritos, um daqueles de quem quero ler todas as obras.

Veneza Pode Esperar - Rita Ferro

Roda Dos Livros, 25.09.14

VenezapodeesperarPensamentos e memórias num tom agridoce. Um desnudar de alma que me surpreendeu e prendeu a uma leitura que tanto me deu.

Tal como a Rita só tenho um critério. Leio o que me apetece quando me apetece. E sofro de breves falhas de memória quando tenho que referir um título ou um autor. Sei o que li e o que extraí, mas raramente consigo acrescentar o suficiente ou enaltecer uma obra como merece. Não me tenho em tão grande conta que receie fazer figura de idiota. Este é um pequeno fragmento que retive, mas muitos serão os laços que senti com uma Rita que não conheço.

 Um livro de sentimentos. Solidão, desfasamento, tédio, dificuldades e muitas pequenas e grandes alegrias que me fizeram soltar estridentes gargalhadas. Sentido critico acutilante para um humor refinado, ou nem tanto.
Tudo isto para exprimir numa só palavra - ADOREI!!

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