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Roda Dos Livros

A sentinela, de Richard Zimler

Roda Dos Livros, 30.08.14

 

A sentinela

Num registo completamente diferente do habitual (o que só prova o talento e a versatilidade deste escritor) Zimler apresenta-nos Hank Monroe, americano de nascimento, Português de coração, inspetor da policia Judiciária e atualmente encarregue de investigar o homicídio de Pedro Coutinho, um rico construtor civil que aparece morto na sua própria casa.

Mas este não é um policial típico e Monroe é tão mais que apenas o investigador que a minha atenção  se desviou amiúde do crime para se centrar nesta personagem, nos seus dramas, na sua família, na sua personalidade fascinante.

Deste cedo sabemos que Hank e o seu irmão Ernie (outra personagem fascinante) foram vitimas de violência na infância e que isso os marcou profunda e inexoravelmente. E rapidamente descobrimos também que o Gabriel é fruto desse trauma e que é ele o protetor de todos os que rodeiam Hank. Ana, a mulher de Hank  e os seus filhos Nati e Jorge (o doce e especial Jorge e o corajoso Nati) completam o seu círculo privado e são os seus pilares.

A investigação do crime é interessante mas o verdadeiro fascínio deste livro é mesmo a carga emocional e a luta dos personagens.

Não foi um livro fácil de ler. Duro. Real, demasiado real. Arrepiante. Volta e meia o nojo e a raiva eram tudo o que conseguia sentir. Temas como a pedofilia, a violência física e psicológica, o transtorno de identidade dissociativa, a corrupção, a crise, o amor, a lealdade, a intimidade, a cumplicidade são esmiuçados neste livro e nem sempre o resultado é aquele que esperamos.

Zimler não é bondoso com o leitor e não nos conta um conto de fadas. Obriga-nos a olhar para o lado negro e a perceber que a realidade está ali ao nosso lado, enraizada no nosso mundo, por mais pequeno que ele seja, e que o “e foram felizes para sempre” simplesmente não existe fora dos livros infantis.

Este é um livro corajoso.

 

Não é novidade para quem me conhece que Richard Zimler é um dos meus escritores favoritos. Este livro é diferente de todos os outros do autor que já li mas arrisca-se a ser um dos meus favoritos.

Esta é a minha Terra de Frank McCourt

Roda Dos Livros, 27.08.14

Saber que existia uma continuação de As Cinzas De Ângela foi, de facto, uma boa surpresa. Já tenho dito que há vidas que são histórias fabulosas e a de Frank McCourt é de prender a atenção de qualquer leitor!

O primeiro livro centrava-se na sua infância na Irlanda nos anos quarenta. A pobreza, a fome, o frio, as doenças mas também o carinho e o amor. Ficamos presos à sua narrativa tal é a intensidade com que ela nos é contada.

Nesta obra retomamos a vida de Frank, dos seus irmãos e pais. Agora em Nova Iorque, terra onde espera encontrar, finalmente, o seu lugar no mundo. A sua persistência e vontade de vencer estão lado a lado com a sua vontade de gozar os prazeres que a vida lhe pode dar (expondo-se perigosamente ao alcoolismo) o que lhe traz alguns dissabores e situações que para o leitor se tornam hilariantes. Sem grandes estudos mas gostando de devorar livros, mesmo não compreendendo muitas vezes a totalidade do seu conteúdo, Frank (depois de muitos empregos) decide continuar os seus estudos e tornar-se professor. Mas como concretizar isso com a insuficiente educação académica que possui, tendo de trabalhar para se sustentar?

Com uma escrita muito peculiar, quase oral, cheia de frases longas, o autor faz-nos sorrir narrando com mestria a ingenuidade própria de quem chega a uma enorme cidade vindo de outro país, do campo, sobretudo. As peripécias não acabam nunca e, infelizmente, das páginas não posso afirmar o mesmo... Mesmo com um tipo de letra muito pequeno, este livro chega rapidamente ao fim. Espero ler em breve o outro livro deste autor que tem como título O Professor.

Estrelas: 5*

Sinopse

Depois de retratadas as gloriosas memórias que preencheram a sua infância na auto-biografia As Cinzas de Ângela, Frank McCourt apresenta-nos agora a história da sua vida por terras americanas desde a chegada como depauperado, mas sonhador, emigrante até à realização pessoal como brilhante professor e escritor. Frank chega a Nova Iorque com 19 anos, na companhia de um padre que conheceu a bordo do navio. Começa a trabalhar no Biltmore Hotel, e apercebe-se ironicamente da nítida hierarquização social que se vive num suposto país sem distinção de classes. Quase em seguida é mobilizado pelo exército americano e enviado para a Alemanha, com o íntuito de escrever relatórios militares e treinar cães. Quando Frank regressa aos Estados Unidos em 1953, emprega-se nas docas de Nova Iorque, embora sempre relutantemente contra os preconceitos que tentaram impor-lhe: a prerrogativa de que todos os emigrantes que chegam com sonhos e ambições devem manter-se junto dos seus e não se misturarem. Frank acaba tambem por descobrir que tem direito à escolaridade, e, apesar de ter abandonado a escola aos catorze anos, consegue ser admitido na Universidade de Nova Iorque. Durante a sua permanência na faculdade, apaixona-se e tenta viver o seu sonho. Mas Frank apenas encontra o seu lugar no mundo quando começa a escrever e a leccionar.

 

Lago Perdido - Sarah Addison Allen

Roda Dos Livros, 26.08.14

lagoperdidoPelas coisas boas vale a pena esperar. Assim é com os romances desta autora, que tanto me encantou quando estreou o seu Jardim em 2008, e repetiu o feito com o Quarto Mágico.

Encanto e Magia são duas palavras que facilmente associamos aos romances de Sarah Addison Allen. A escrita é maravilhosa e as personagens são ... vou bisar... de encantar. Aparentemente, e as capas não ajudam (desta não gosto mesmo nada), parecem ser romances levezinhos. Mas, quando iniciamos a leitura ficamos cativos de uma escrita sedutora e rica e de personagens com tanto de si para dar. Serenidade e paz de espírito é o que sentimos depois. Algumas das personagens permanecem connosco muito depois de terminada a leitura. Devin é a criança que Kate fora, e encarna o espírito do amor que a todos liga nesta trama.

Tal como o título indica, e feitas as apresentações em que conhecemos as personalidades, e circunstancias das personagens principais, passamos a acompanhar o regresso ao Lago Perdido, em que tudo acontece. Na beleza e calma daquele espaço recôndito, que tão bem acolheu os habitantes de uma pequena comunidade próxima, vão juntar-se algumas personagens peculiares para desfrutar de um último e memorável verão. Alguma inquietação e ansiedade em torno da venda do Lago Perdido.

Perdas, desencantos, reencontros e recomeços porque:

"Quando o nosso copo está vazio, não nos lamentamos pelo que desapareceu. Porque, se o fizermos, perdemos a oportunidade de o encher outra vez".  (pag. 265)

"Eby sabia muito bem que existia uma linha ténue quando se tratava da dor. Se a ignorarmos, ela vai-se embora, mas depois volta sempre quando menos se espera. Se a deixarmos ficar, se lhe arranjarmos um lugar na nossa vida, ela fica demasiado confortável e nunca mais se vai embora, Era melhor tratar a dor como se fosse um hóspede. Aceitamo-la, servimo-la e depois mandamo-a seguir o seu caminho." (pag. 147/8)

Sinopse:

Uma história bela e arrebatadora sobre amores antigos e novos, e o poder das ligações que nos unem para sempre...
A primeira vez que Eby Pim viu Lago Perdido foi num postal. Apenas uma fotografia antiga e algumas palavras num pequeno quadrado de papel pesado, mas quando o viu soube que estava a olhar para o seu futuro.

Isso foi há metade de uma vida. Agora Lago Perdido está prestes a deslizar para o passado de Eby. O seu marido George faleceu há muito tempo. A maior parte da sua exigente família desapareceu. Tudo o que resta é uma velha estância de cabanas outrora encantadoras à beira do lago a sucumbirem ao calor e à humidade do Sul da Georgia, e um grupo de inadaptados fiéis atraídos para Lago Perdido ano após ano pelos seus próprios sonhos e desejos.
É bastante, mas não o suficiente para impedir Eby de abrir mão de Lago Perdido e vendê-lo a um empreiteiro.
Este é por isso o seu último verão no lago… até que uma última oportunidade de reencontrar a família lhe bate à porta.
Lago Perdido é onde Kate Pheris passou o seu último melhor verão com doze anos, antes de aprender o que era a solidão, o desgosto e a perda. Agora está demasiado familiarizada com essas coisas, mas também conhece a esperança, graças à sua filha Devin e à sua própria vontade de começar a avançar. Talvez em Lago Perdido a filha possa agarrar-se à sua infância por mais algum tempo... e talvez a própria Kate possa redescobrir algo que lhe escorregara por entre os dedos há muito tempo.
Uma após outra, as pessoas encontram o seu caminho para Lago Perdido, em busca de algo de que não tinham a certeza de precisar: amor, uma segunda oportunidade, paz, um mistério solucionado, um coração remendado. Conseguirão encontrar aquilo de que precisam antes que seja demasiado tarde?

A Vida Privada de Maxwell Sim de Jonathan Coe

Roda Dos Livros, 26.08.14

Deste autor jå tinha lido A Casa do Sono que achei espectacular. Depois de terminar esta obra fiquei muito curiosa e intrigada com "A Chuva Antes de Cair". A escrita de Coe é de tal forma cheia de imaginação que me perguntei como poderia uma outra leitura surpreender-me tanto quanto esta!

Maxwell, o peraonagem principal, é um ser depremido, carente, sozinho. Aos olhos dos outros, um falhado. Pior, ignorante. Assistimos com pesar aos seus conflitos interiores que se expressam exteriormente também. Um passado com pontas perdidas que interfere no seu presente: um quase nenhum relacionamento com a sua (ex)mulher, uma ligação cada vez mais diminuta com a sua filha adolescente, uma tensão permanente com seu pai, amigos inexistentes. Embarcamos na viagem que Maxwell enceta, tanto fisicamente como psicologicamente, e prevemos facilmente um fim desastroso. Nada na escrita de Coe nos prepara para o final!

Confesso que as obsessões de Maxwell, os seus desastrosos relacionamentos irritaram-me um pouco e apeteceu-me abaná-lo algumas vezes. Sobretudo quando começa a dialogar (monólogos deveras significativos do seu estado de quase demência) com Emma, o guia por voz do GPS. E eis que, quando ele próprio resolve abanar a sua vida e seguir com ela para a frente, prevendo-se um final feliz, Jonathan Coe faz a diferença. Afinal escrever (bem) é isso mesmo: surpreender o leitor nas últimas páginas. A reviravolta é surpreendente e não, não conseguimos adivinhar o final por mais que a nossa imaginação funcionasse de forma igual à do autor. Numa palavra: final irrepreensível e que nos deixa estupefactos!

Uma forte crítica implicita às redes sociais que nos mantêm em contacto com todos, sempre, mas sempre verdadeiramente sozinhos.

Recomendo!

Estrelas: 5*

Sinopse

Maxwell Sim bateu no fundo. A sua vida pessoal é um vazio. Ele tem 70 amigos no Facebook mas ninguém com quem falar. Mas tudo muda graças a uma disparatada proposta de trabalho: conduzir um carro carregado de escovas de dentes de Londres até às remotas ilhas Shetland. Um percurso longo que Maxwell decide preencher com uma série de visitas surpreendentes a figuras do seu passado. Acompanhado por "Emma", a voz feminina do seu GPS, com quem estabelece uma peculiar relação, ele não imagina que está a iniciar uma viagem íntima que o mudará para sempre.

 

Longe da Terra - Rebecca Makkai

Roda Dos Livros, 24.08.14

longedaterraDesde que saíu, em 2011, que este livro está na minha lista de desejos.

Escreveram-se algumas (poucas) coisas positivas, alterou-se a capa (para pior) e, até à sua leitura, este livro foi considerado uma das minhas melhores compras da FLL 2014.

Grande é a desilusão quando, uma leitura ansiada, que esperava ser empolgante, se torna entediante, maçadora e me faz saltar algumas páginas sem ler só para chegar ao fim. Habitualmente não o faço, se um livro não me interessa não o leio, mas li na constante expectativa de uma boa surpresa. Estive, portanto, a enganar-me.

A título excepcional vou transcrever a sinopse neste ponto do texto.

“A jovem bibliotecária Lucy Hall esconde um coração inquieto sob uma aparência tranquila. Na sua busca de um sentido para a vida, Lucy alia o desejo de liberdade à paixão pelos livros e toma a inesperada decisão de trabalhar na pequena biblioteca de uma pacata cidade do interior dos Estados Unidos. Em Hannibal, ela encontra o que procura: anonimato e sossego. Pelo menos, assim era até ao dia em que fica subitamente na posição de raptora e raptada.Lucy depara-se com um dilema moral quando encontra o pequeno Ian furtivamente acampado na biblioteca com uma mochila e um plano de fuga. O precoce e sensível Ian é leitor compulsivo, algo que os pais repudiam, e tem em Lucy a sua única aliada. Desesperada por salvá-lo de uma família intolerante e castradora, ela deixa-se raptar pelo menino. Esta dupla invulgar embarca então numa aventura estrada fora com detectives, um namorado inconveniente e duas famílias pouco convencionais no seu encalço. Amparados pelas páginas inspiradoras dos livros que adoram, ambos estão em fuga embora saibam que esta terá de ter um fim. Mas poderão dois devoradores de livros encontrar magia também na realidade?”

Biblioteca, paixão pelos livros, dois devoradores de livros em fuga. Como podia não me interessar? The Washington Times também insiste: Um tesouro para todos os amantes da literatura.”; Financial Times arruma comigo com esta: “Magnífico…Uma homenagem ao poder inspirador dos livros.”

Portanto eu abro a primeira página e inicio a leitura. Começo logo por achar um pouco desinteressante mas continuo pois certamente está só a aquecer. Fico à espera de encontrar as tais personagens que adoram livros, ou que elas se revelem, façam qualquer coisa com que eu me identifique. Sim, Lucy e Ian gostam de livros, mas a leitura não é “o” tema das suas conversas. Não me apercebi de serem “amparados pelas páginas inspiradoras dos livros que adoram”. Não discutem livros, falam aqui e ali sobre alguns livros. Mas o tema de “Longe da Terra” é a viagem de fuga sem destino certo (e quanto a mim sem motivo certo também, que ao fim de mais de trezentas páginas juro que não entendi o propósito de uma mulher de vinte e seis anos se deixar levar pelas vontades de um rapazinho de dez).

Em resumo, uma perda de tempo. Ou então o livro é genial e eu é que não percebi.

Ou seja, ou é uma merda ou eu sou uma estúpida.

Leiam por vossa conta e risco.

Teorema, 2011

“O intrínseco de Manolo” de João Rebocho Pais

Roda Dos Livros, 23.08.14

O Intrínseco de Manolo

Um dado livro pode conter inúmeras leituras. Estas, provavelmente, serão tantas quanto os seus leitores e o que se segue é, apenas e só, mais um olhar sobre o romance de estreia de João Rebocho Pais. Numa primeira abordagem, o que sobressai em “O intrínseco de Manolo” é o seu extrínseco, ou seja, o seu carácter de sátira social arguta, impiedosa e muito bem humorada, por vezes até desbragada, e sem contemporizações de qualquer espécie. E assim se vê enredado o leitor numa narrativa muito bem construída, dotada de um ritmo incrível e capaz de captar rápida e irremediavelmente a sua atenção. Contudo, o meu aspecto favorito de “O intrínseco de Manolo” é precisamente o que considerei ser o intrínseco do livro, a sua essência: a jornada de autodescoberta do protagonista, desencadeada pela sua proximidade com uma azinheira. Através das suas raízes as árvores estão firmemente ligadas à terra, ao aspecto mais palpável e físico da existência. Por outro lado, os ramos e as folhas erguem-se e “tocam” o céu, o território por excelência dos sonhos e da imaginação. Assim, ao estabelecer uma ligação especial com a azinheira, Manolo abre as portas para o seu crescimento interior, para a concretização das suas aspirações mais íntimas, sem nunca deixar de permanecer enraizado no afecto e no respeito pelas suas origens. Isso permite-lhe também ser capaz de distinguir o acessório do essencial bem como ser fiel à sua natureza de homem simples e de coração grande e generoso. Assim, foi através do reconhecimento do sua verdadeira essência que Manolo pôde encontrar, finalmente, o seu lugar no Mundo.Acompanhar o quotidiano de Manolo e dos seus conterrâneos foi muito divertido, por vezes algo desconcertante ou até perturbador mas sempre bastante interessante e amiúde ternurento. Além disso, senti-me como se estivesse algures, talvez debaixo de uma azinheira, a ouvir um exímio contador de histórias narrar as vidas dos habitantes de Cousa Vã. E isso é sempre muito bom!

Sinopse:

Na aldeia alentejana de Cousa Vã - vizinha da espanhola Ciudad del Sol - o nome de Manolo anda nas bocas escancaradas dos que passam as tardes na tasca a aviar minis, quiçá para que ninguém repare no que realmente se passa em suas casas - e talvez seja melhor assim. É, porém, facto indesmentível que Maria tem o hábito de desaparecer às sextas-feiras - e isso basta para que a mediocridade omnipresente faça do marido um adornado e da chacota um estranho alívio para a dureza dos dias. Manolo refugia-se do falatório acusador à sombra de uma azinheira secular, único ser vivo com quem pode dividir agora as suas mágoas; e, embora certo da virtude da sua Maria, não ignora a missiva que o carteiro lhe deixou em casa nessa manhã e que trazia - pois é - remetente espanhol… No jogo repetido que é o dia-a-dia dos lugares pequenos - onde ninguém ganha e quase todos perdem -, a descoberta da improvável verdade trará, mesmo assim, a Manolo a oportunidade de mostrar aos conterrâneos, de forma anónima, o seu intrínseco, seguindo os ensinamentos dos que, sendo velhos ou já desaparecidos, são parte importante da sua história - e da de Cousa Vã. Com um trabalho notável na composição das figuras e uma recuperação inteligente da linguagem popular de um Alentejo quase mítico, João Rebocho Pais estreia-se na ficção com um romance terno, mágico e, ocasionalmente, escatológico sobre o poder da excepção sobre a regra.

Barba Ensopada de Sangue de Daniel Galera

Roda Dos Livros, 23.08.14

[caption id="attachment_4882" align="alignleft" width="185"]Screen Shot 2014-08-10 at 10.31.03 barba ensopada de sangue[/caption]

Só o título já é espectacular - Barba Ensopada de Sangue - promete vingança, tareia e um bocado de loucura e disso há bastante. Esta capa é bastante feiosa (a da edição brasileira é muito melhor), parece o Pedrito de Portugal, mas não há touros nem tourada neste livro o que é muito positivo.

Confesso que levei umas quantas páginas a entrar na história por estar em brasileiro e não estar habituada a ler nesta língua e também porque, primeiro  se fala num tio, depois é um avô que está no centro da trama.  Mas ainda bem que persisti, até porque o título só se explica quase no fim do livro. A história do tio também, pelo menos para mim, só mesmo na última meia dúzia de páginas é que tive aquele momento “ah! Então é isso!!” é uma história circular, o fim explica o início.

Há um jovem, de quem nunca sabemos o nome, atleta e professor de educação física que, após a morte do pai, vai morar para Garopaba, terra onde supostamente o seu avô foi assassinado, para se isolar da família, da namorada que o trocou pelo irmão mais velho e também para saber se a história do avô é verdadeira. Mas nada é assim tão fácil como mudares de terra e deixares tudo para trás pensando que começas de novo e a tua vida muda. A tua vida muda, é verdade, mas tu continuas a ser a mesma pessoa mesmo que deixes crescer a barba.

Para além de tudo mais o nosso protagonista tem Prosopagnosia, não reconhece rostos incluindo o próprio. Conseguem imaginar?  O esforço diário e contínuo para as coisas mais triviais, saber com que colega do trabalho estás a falar, que vizinho vai no elevador, encontrares o teu amigo/a na porta do cinema... E no entanto, gosta de conhecer pessoas novas e aprender a saber quem é quem, não pela cara, mas pela forma de ser. Dália a garçonete que trabalha na pizzaria, Pablo o filho dela, Bonobo o budista mais estranho de todos os tempos, os alunos a quem dá aulas de natação, Greice a veterinária, as alunas de corrida,  Jasmim ...

O último encontro que tem com o pai é brutal e o relacionamento com Beta, a cachorra que herdou do pai, é comovedor. Já a mãe é aquela pessoa que lhe pede dinheiro emprestado para pagar a cirurgia plástica que fez à cara, irónico não?

Achei este livro formidável, no fim ficamos a saber a história do avô e no início ficamos a saber a história do protagonista sem nome.

O repertório de carícias de uma pessoa é uma coisa comovente de se pensar. Por que toca nas outras dessa ou daquela maneira. Vem de tantos lugares. O que imaginamos que deve ser bom, o que nos disseram que é bom, o que fizeram em nós e gostamos, o que é involuntário, o que é nosso jeito de agradar e ponto. 

...

Vai lembrar de tudo.”

“As noites frias torturam o verão com uma morte lenta.”

“O Bonobo se aproxima da carcaça do Fusca e começa a forçar a maçaneta.

Não é possível.

Quê?

Isso é o teu carro?

Sim. É o Tétano.

...

“A embreagem do Fusca não retorna sozinha à posição normal depois de acionada. Para lidar com o problema o Bonobo amarrou um pedaço de corda de varal azul ao pedal e ao puxador da porta. A operação de tirar a mão esquerda do volante e puxar a corda no momento exato após cada troca de marcha é complicada e exige um tanto de ginga e sincronia. Nas manobras mais complexas o motorista lembra um titereiro controlando o boneco de um automóvel.”

“Posso te dar uma carona no Tétano.

Nah, eu me viro pra voltar.

Faço questão. Já mato minha parcela de carma do dia. Minha dívida é grande, nadador. Tem cheque especial, cartão cobrindo cartão, financeira, dinheiro na cueca, tudo. Parcelei em muitas vidas. Fora que a estrada fica linda essa hora.”

“Já não lembra do rosto dela mas sabe que a achará bela de novo amanhã. Lembra dos ombros abertos, o encaixe da cintura nos quadris, a postura empertigada na cadeira. Nunca viu alguém sentar de maneira tão bonita. Está apaixonado pela postura dela.”

“Vi ela no máximo umas três vezes por aí, não deve se misturar muito. Mas é uma rainha. Engraçado tu perguntar dela porque me passou pela cabeça que vocês dois tinham a ver. Ela me fez pensar em ti.

Ela me faz pensar em mim também.

Vou fingir que não ouvi isso.

Desculpa.

Tá amando, nadador?

Talvez.

Pobre homem. Estarei aqui quando precisar.”

Estou Nua e Agora? - Francisco Salgueiro

Roda Dos Livros, 23.08.14

estounuaeagoraHá seis continentes para onde ir. Em cada local, uma cultura diferente para descobrir, e é preciso abertura de espírito para receber o que há para oferecer. A maioria das pessoas que viaja em Couchsurfing procura um propósito na vida ou foge de algo. Esta é história de Alex que escolhe incerteza em vez de infelicidade, e narra-nos as suas experiências arrojadas e perigosas nesta nova forma de circular pelo mundo. Afinal, a vida é perigosa. Ainda ninguém sobreviveu a ela.

Escrito na primeira pessoa, Alex narra gradualmente as suas deambulações e as pessoas com quem se cruzou e que tanto a enriqueceram, quando abandonou um emprego garantido para mudar o seu mundo.

Ler este livro abre os nossos horizontes porque nos permite ver a forma como Alex pensou, sentiu e reagiu a tantas situações, e podemos incorporar em nós aquilo que achamos ser importante. Tal e qual a opinião de Ramon, uma das personagens com quem Alex se cruzou no Cambodja.

Divertido e inquietante, este é um livro que se lê em poucas horas. Não é uma leitura profunda ou espiritualizada, sequer tem pretensões disso. Alex é demasiado terra-a-terra e a linguagem é corrente e fluída. Um livro para mentes aventureiras.

Uma amizade com o autor, que resultou neste livro. Um amor em Portugal. Ler breves passagens sobre a vivência no nosso país é sempre um prazer de ler.

Sem elevadas expetativas, este é um livro que recomendo. Proporcionou-me algumas gargalhadas... na Tailândia. Não fazia a mínima ideia do que era um bar de ping-pong por lá. E começar Couchsurfing em casa de Ron e Mike é especial. Nem queiram saber!!!

Sinopse:

Quantas vezes acordamos com vontade de mudar de vida? Deixar para trás os mesmos lugares, as mesmas pessoas, a relação que não vai dar a lado nenhum?Alex, uma nova-iorquina, vive uma vida perfeita: acabou o curso e tem um emprego garantido. Está prestes a cumprir os sonhos que desenharam para ela. Mas um desgosto de amor leva-a a viajar pelo mundo.

Precisa de se conhecer melhor e ultrapassar os seus medos. Da Tailândia ao Brasil, da Austrália a Marrocos, faz Couchsurfing dormindo em colchões, beliches, camas limpas, camas sujas, parques públicos – até em minha casa, em Lisboa. Nudismo, algum sexo, ilhas paradisíacas, jantares românticos, protestos de rua, festivais no deserto, um encontro com Nelson Mandela, mulheres que disparam bolas de ping pong das suas zonas íntimas – tudo isto faz parte desta história real passada nos sete continentes, ao longo de um ano, que representa tudo aquilo que gostaríamos de fazer.Há pessoas que cometem erros por se acomodarem e outras que cometem erros por tentarem. A Alex preferiu errar tentando. E vocês?

Sou o Último Judeu de Chil Rajchman

Roda Dos Livros, 22.08.14

Treblinka 1942-1943

Por haver tanto para dizer sobre este livro, faltam-me as palavras. Aconselho vivamente a sua leitura mesmo para aqueles que não apreciem relatos verídicos sobre acontecimentos que ficaram conhecidos pela sua violência e pelo horror. Porque mesmo lendo se torna difícil imaginar, tão pouco vivenciar o que se passou nos campos de concentração, neste caso deTreblinka.

Chil, um jovem judeu, sobreviveu a 10 meses em Treblinka até conseguir fugir. Passou por vários trabalhos, desde cabeleireiro a dentista, sempre a toque de vergastadas e maustratos, sujeito a levar um tiro na cabeça a todo o momento. A diferença era que cortava os cabelos das mulheres que, nuas, iam para as câmaras de gás e tirava os dentes a quem já tinha por lá passado. Dentes de ouro.

As folhas onde relata o que viveu, escreveu-as depois da sua fuga. Para recordar e nunca esquecer os pormenores. Foram publicadas depois da sua morte para que outros não esquecessem. Durante muito tempo ficaram guardadas. Acabam quando queremos saber mais sobre ele. Como conseguiu viver depois? Gostava de ter sabido sobre como foi a sua vida depois do campo, talvez para ter a certeza que, mesmo depois de tantos horrores vividos, se pode esperar uma vida com paz.

Um livro inquietante. Cru. As palavras, as descrições, os sentimentos estão lá. A nossa mente visualiza o que é narrado. Difícil é fechar as páginas para tanto horror. Recomendo!

Estrelas: 6*

Sinopse

Chil Rajchman tinha 28 anos quando foi deportado para Treblinka, em Outubro de 1942. Separado dos seus companheiros à saída do comboio, escapou às câmaras de gás tornando-se sucessivamente funcionário na triagem de vestuário, cabeleireiro, transportador de cadáveres ou «dentista». Em 2 de Agosto de 1943, participou no levantamento do campo e evadiu-se.

Após várias semanas de errância, Chil Rajchman escondeu-se em casa de um amigo perto de Varsóvia. A guerra ainda não acabou. Num caderno, contou os seus dez meses no inferno.

Na Libertação, ele foi um dos 57 sobreviventes entre os 750.000 judeus enviados para Treblinka para aí serem gaseados. Nenhum outro campo foi tão longe na racionalização do extermínio em massa.

Este texto, publicado pela primeira vez, é único. Escrito sob o signo da urgência, ainda antes da vitória sobre os nazis, inscreve-se entre os maiores dedicados ao holocausto.


 

Comédias para se Ler na Escola – Luís Fernando Veríssimo

Roda Dos Livros, 21.08.14

Não conheço leitor que não tenha os seus pequenos “ódios de estimação” e os seus “amores de perdição” reflectidos em pelo menos um, ou vários autores. Luís Fernando Veríssimo está, sem sombra de dúvida, entre os meus amores de perdição.

Desde que li um primeiro livro de Luís Fernando Veríssimo que mantenho sob radar as suas obras em cada livraria onde entro. Autor brasileiro não muito divulgado, diria até, algo proscrito, é difícil encontrar os seus livros, embora mantenha ou tenha mantido colaborações com jornais portugueses como o Expresso e o Público.

“Comédias para se Ler na Escola”, a minha mais recente aquisição, corresponde ao género literário mais utilizado pelo autor, um livro de crónicas gostosas.

Centrado em questões de linguagem e de crescimento, este livro, traz-nos verdadeiras micro delícias que, não raras vezes, é uma pena que sejam apenas crónicas pois mereceriam desenvolvimento e ficamos com pena que tenham terminado.

Com Luís Fernando Veríssimo temos que estar prontos para uma boa gargalhada, um sorriso rasgado perante a ironia e a crítica constante de que são alvo os mais diversos visados, incluindo ele próprio, verdadeiro sinal de inteligência. E pensar... pois é isso que o autor nos desafia a fazer sob a capa da ligeireza, e sempre, mas sempre, com uma riqueza gramatical e de vocabulário que o eleva e distingue. Não há lugar a comparações com o pai, e isso é algo que Luís Fernando gere de forma excepcional.

Um livro que se lê de um fôlego e que nos deixa bem dispostos. Mais do que um livro, um autor que recomendo e que nos traz assuntos sérios de uma forma bem disposta.

Excertos

“Sexa

- Pai...- Humm?- Como é o feminino de sexo?- O quê- O feminino de sexo.- Não tem.- Sexo não tem feminino- Não.- Só tem sexo masculino?- É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e feminino.- E como é o feminino de sexo?- Não tem feminino. Sexo é sempre masculino.- Mas tu mesmo me disse que tem sexo masculino e femino.- O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra «sexo» é masculina. O sexo masculino, o sexo feminino- Não devia ser «a sexa»?(...)- A palavra é masculina.- Não. «A palavra» é feminino. Se fosse masculina seria «o pal...»- Chega! Vai brincar, vai.O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta:- Temos que ficar de olho nesse guri...- Por quê?- Ele só pensa em gramática.” (p. 41)

“O Jargão

Sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos, onde a única linguagem técnica que você precisa saber é «a que horas servem o bufê?». Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjôo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes da equipagem.Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:- Recolher a traquineta!- Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.(...)- Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua.- Cuidado com a sanfona de Abelardo!(...)Sempre imaginei que poderia escrever uma coluna de economia usando um jargão falso assim, com pseudônimo. Não sei quanto tempo duraria até au ser descoberto e desmascarado, mas acho que não seria pouco. Não estou dizendo que quem escreve sobre economia não sabe o que está escrevendo, ou se aproveita da ignorância generalizada oara enganar. Estou dizendo que a análise econômica é uma arte tão imprecisa que, mesmo desconfiando do embuste, a maioria hesitaria antes de denunciá-lo. (...)” (p.55)

“Fobias(...)Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (...), agorafobia (...), collorfobia (medo do que ele vai nos aprontar agora) (...), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas maiores neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham «Frio» e «Quente» escritos por extenso, para saciar a minha sede de letras (...)” (p.88)

Sinopse

«Comédias para se ler na escola é um livro de textos curtos, fáceis e divertidos, escritos numa linguagem clara e coloquial. Capaz de falar sobre qualquer assunto e sob qualquer pretexto, o autor revela as suas obsessões, mergulha em lembranças solitárias de infâncias e adolescências e aborga questões sociais e éticas, sempre de uma maneira renovada. A originalidade e o humor de Luís Fernando Veríssimo funcionam como um antídoto para quem ainda não descobriu o prazer de ler e um deleite para os leitores viciados.»

Dom Quixote, 2003

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