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Roda Dos Livros

Aço de Silvia Avallone

Roda Dos Livros, 30.07.14

Muito se tem falado nas viagens que os livros proporcionam. Belas, não há dúvida! Longas e repletas de emoção, também. Mas há viagens inesperadas. Viagens que nos fazem viver outras vidas e conhecer outras realidades. Serão as mais belas? Não sei responder mas são, certamente, as que nos permitem crescer um pouco mais. Saboreando melhor os prazeres que a vida nos dá. Apreciando o nosso cotidiano porque tão diferente.

Com este livro fiz uma viagem particularmente gratificante! Entrei num mundo desconhecido de uma cidade do litoral italiano que gira à volta de fábricas de aço, apreciei a sua rudeza, a beleza uma escrita sem travos na língua que, no início, custa a ouvir (leia-se ler). Duas amigas. Uma amizade de infância onde as promessas estão por realizar mas que fazem parte de sonhos que se sentem reais. Quem não teve amizades assim? E, no entanto, o ambiente que as cerca é de violência, de maus tratos, de perversão até.

O crescimento traz o desejo de união, de amor, da parte de uma delas que não é correspondido. E a separação torna-se uma realidade. Francesca e Anna. A elas juntam-se as histórias de Mattia, Alessio e Cristiano. Sandra e Rosa. Sente-se o peso que as unidades fabris impõem às vidas das personagens, e seus condicionamentos. O desejo de fuga está presente em todos os futuros sonhados. O ideal é sair para bem longe, o real é a permanência em Piombino, a cidade siderúrgica, que no verão se transforma por estar junto ao mar.

Um romance que apreciei muito ler, sobretudo pela rudeza do ambiente e pela forma como a autora o soube descrever tão bem!

Terminado em 29 de Julho de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Não é fácil crescer na rua Stalingrado, na cidade siderúrgica de Piombino, no litoral da Toscana, por debaixo da sombra da imponente fábrica de aço. Ter 14 anos num ambiente social degradado, demasiado duro, junto a realidades incómodas como a violência, a droga, a delinquência… e, principalmente, a total ausência de ilusões, complica ainda mais a adolescência de Francesca e Anna. Mas estas duas jovens não estão dispostas a baixar os braços e a dar-se por vencidas. Têm como arma a sua beleza exuberante, a sua sexualidade, e a vitalidade que a juventude lhes confere, e estão prontas a ultrapassar todos os obstáculos, para lutar pelos seus sonhos.

Silvia Avallone, que surpreendeu Itália e comoveu a Europa com esta obra aclamada pela crítica, transporta-nos até a uma Itália industrial e periférica, para retratar a história de uma amizade intensa entre duas jovens que procuram desesperadamente a sua identidade. Com mestria e sinceridade, a autora capta as contradições da nossa época e da nossa economia, onde reina a falta de esperança e de perspetivas e os dramas dos jovens actuais.

Um livro actual, polémico, arrojado e duro como o Aço. Contudo, absolutamente comovente. Aço ensina aos jovens o valor da amizade e do amor e aos adultos, quem são e o que pensam, verdadeiramente os seus filhos.

 

 

Sonhos de Papel de Ruta Sepetys

Roda Dos Livros, 29.07.14

Como gostei deste livro!

Esta foi uma leitura de fortes contrastes que gostei muito de ler. O mundo de Josie é, realmente, diferente daquele onde me movo com à vontade e, talvez por isso mesmo, tivesse gostado tanto!

Ela cresceu e viveu nos subúrbios de New Orlens entre "bandidos" e "cavaleiros". Gostei da diversidade de personagens com personalidades e vivências tão opostas!

Diz-se que ninguém pode dar o que não recebe… por vezes, quanto menos se recebe no que concerne ao amor e cuidados por parte daqueles que, sendo família, deveriam ser os primeiros, encontramos nos amigos que nos rodeiam uma rede de apoio que nos sustenta e nos equilibra. "Os amigos são a família que escolhemos", li por aí. Josie é criada pela mãe, prostituta de luxo, sem carinhos, sem afectos e sem valores. No entanto, no meio decadente onde habita encontra amigos que a apoiam e lhe dào a mão sempre que precisa: Willie, a dona de um bordel; Cokie, o choffeur de Willie; Jesse, o amigo motoqueiro, Charlotte, a amiga rica e de boas famílias; e Patrick, o filho do bibliotecário!

Josie encontra, também, nos livros um apoio: ela é uma leitora ávida e compulsiva! (Como sabe bem encontrar alguém, ainda que pertença ao mundo do imaginário, que nos perceba...LOL)

Com uma escrita muito apelativa e com diálogos empolgantes, a autora transporta-nos para situações quase do faroeste que, se não estivéssemos tão envolvidas no livro, seriam consideradas hilariantes. E é precisamente esse contraste de vivências de um mundo que não é de todo o meu, com o facto de elas parecerem-me verosímeis, que me encantou nesta obra.

Recomendo esta leitura!

Terminado em 21 de Julho de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Josie Moraine vive mais do que uma vida.

Ela é filha de uma das prostitutas de luxo mais cobiçadas de Nova Orleães, um estigma que a arrasta para o submundo decadente da cidade. Vítima da negligência da mãe, tem nos moradores do extravagante Bairro Francês os seus maiores aliados. De Cokie, humilde e fiel; a Willie, a dona de um bordel cuja frieza esconde um coração de ouro; e a Jesse, tímido, atraente e eternamente apaixonado, todos a protegem e velam por ela.

Mas Josie sonha mais alto e move-se com igual à-vontade nos corredores da livraria onde, graças à bondade de um desconhecido, trabalha e habita. Este é o seu porto seguro. Aqui, entre as estantes repletas de livros, no pequeno escritório que agora lhe serve de quarto, não tem de se defender da sua própria mãe nem fingir ser a durona solitária que domina as ruas. Ao anoitecer, quando a porta se fecha e as luzes se apagam, ela descobre nas páginas que folheia a imensidão do mundo e anseia por uma vida melhor. Uma vida como a de Charlotte, a filha de uma família da alta sociedade, cuja amizade a inquieta a ponto de arriscar tudo, mesmo a promessa de um amor verdadeiro. E quando os seus sonhos estão prestes a realizar-se, um crime muda tudo… para sempre.

 

Molinos – Carlos Campaniço

Roda Dos Livros, 28.07.14

MolinosDepois de várias opiniões favoráveis sobre “Os demónios de Álvaro Cobra” e “Mal Nascer” entre os amigos da Roda dos Livros e na sequência da conversa com o autor num dos encontros do grupo decidi, também eu, iniciar a minha leitura da sua obra.

Estruturo as minhas leituras, habitualmente, quando se trata de um autor que quero acompanhar, pela sua ordem cronológica. Gosto de acompanhar o crescimento da escrita, a sua evolução e apreciar a sua diversidade.

Não sem dificuldade consegui comprar o primeiro romance de Carlos Campaniço.

“Molinos” é um livro muito real, com passagens que nos transportam para as histórias da  oralidade rural. Mais do que escrito, imagino-o como uma tela, de fios entretecidos. No coração do Alentejo profundo dos anos 40 desfilam personagens reais e histórias diversas que nos retratam com verosimilhança a sociedade da época.

O relato crú, e por vezes revoltante, é, contudo, como que “adoçado” pelas palavras com que é transmitido, numa riqueza de escrita que por vezes se torna poética.

Com pinceladas de realismo mágico e um toque de neo-realismo, este não é um romance "cor-de-rosa", nem quando aborda os amores de Alfredo Mendonça de Oliveira. É um romance duro sobre a dura realidade da aldeia fronteiriça de Molinos, vizinha de ficção da real Safara, de onde o autor é natural. Um livro sem fim doce, mas real, muito real pois na vida há casos nunca resolvidos, injustiça e mal entendidos que permanencem.

História de contrastes entre rico e pobre, bem e mal, viajei no tempo durante a sua leitura. De tal forma me senti parte da história que nem me incomodou uma característica que habitualmente me desagrada. Carlos Campaniço teçe com mestria vidas, tempos e espaços num mesmo capítulo, com transições que se fazem de parágrafo para parágrafo sem aviso prévio e leva-nos a acompanhá-lo sem questionar.

Um primeiro romance de eleição, para mim, que faz juz aos rasgados elogios que têm recebido da parte dos amigos da Roda dos Livros as obras mais recentes deste autor, e minhas próximas leituras.

Um romance que merece, certamente, ser reeditado.

 

Excertos

“Demorou muito tempo até se deixar vencer pelos seus apelos rurais e tentou levar a vida pacífica dos seus primeiros anos de sacerdócio, mas os anos julgaram-no e cada dia passado flagelava-se-lhe a alma, vencia-o uma voz atormentadora que só ele escutava e o acusava de trocar a defesa dos miseráveis pelo seu comodismo estatutário. Quando entrou na casa dos sessenta anos era um clérigo gasto pelas emoções, calvo como nunca se imaginou e devastado pelo seu conflito interno. Durante anos tentou harmonizar gentes, amparar os frágeis de espírito e de boca, reuniu com uma dezena de bispos que governaram a Igreja durante todos aqueles anos , mas não reconheceu uma só melhoria ou progresso na qualidade de vida das gentes, desde os seus passos de menino até ao átrio da sua velhice. Assistiu à exploração dos homens, vendo-os receber por uma jorna diária o equivalente ao preço de um pão e um quarto de litro de azeite, à elevação dos latifundiários a caudilhos feudalistas que dispunham das autoridades locais para satisfazer as suas quimeras de justiça. Viu as crianças, que havia baptizado, usadas no cativeiro dos campos, quando ainda lhes tremia a mão para assinarem o nome. E tomou uma consciência dorida da sua inutilidade, porquanto nem as suas rezas haviam mudado o mundo nem as suas palavras retraídas, errantes de pacificação, acrescentaram harmonia social à aldeia.” (p. 16)

“(...)

Quando o velho Diogo Mendonça de Oliveira foi encontrado morto, sentado numa cadeira, junta à mesa de dominó, ainda lhe corriam as lágrimas pelo rosto. Foi um assombro sem precedentes, porque passadas vinte e quatro horas, após a sua morte, ainda as lágrimas lhe corriam pelo rosto abaixo e foi necessário que uma empregada estivesse junto dele para lhe limpar, amiúde, o rosto molhado. O padre Lourenço mandou um telegrama ao bispo, para lhe pedir indicações sobre os procedimentos a tomar neste caso, pois havia quem julgasse tratar-se de um milagre (...) Havia mais que atribuiam o fluxo das lágrimas a uma outra vertente divina, que estava relavionada com o alcance de Deus em pôr em evidência aqueles que não morrem em arrependimento pela crueldade dos seus actos em vida. Estava pagando pela ruindade com que tratara os empregados e os desfavorecidos. (...)” (p. 111)

 

Sinopse

«Estava calcinando ideias, quando se assomou ao quintal e viu um menino humilde, descalço e dourado dos beijos do sol. Era Florival, um menino fermentado à pressa, gerado num homem de atitude e compreensão bastas, mas que não disfarçava, nos seus olhos verdes e límpidos, a puerilidade de dez anos inacabados. Tinha uma tez de sírio, as mãos longas e os braços como dois ramos secos. As pernas, corredoras de gazela, treinadas na azáfama da mansidão do gado, davam-lhe um semblante de louva-a-deus, quando corria, e trinavam como cordas de guitarra. Ele que nunca fora menino, descobriu primeiro, com mestria de ancião, o nome da rural ciência, do que a grafia escolar».

 

Pé de Página, 2007

dizem que sebastião, de João Rebocho Pais

Roda Dos Livros, 25.07.14

Dizem que Sebastião

Esta é a história do “princípio do fim de um homem sem graça nenhuma”. Dizem que Sebastião, homem de números e de sucessos empresariais (o sonho de tanta gente) é afinal um inapto para as coisas boas da vida. Mas um jantar desastroso e um susto vão pôr Sebastião perante uma encruzilhada e o caminho escolhido por este nosso herói é… interessante. Perante algumas dúvidas existenciais Sebastião procura ajuda. E quem melhor para o ajudar que aqueles que “da lei da morte se vão libertando”?

 Ao longo destas páginas encontramos uma série impressionante de personagens que  se unem em torno de Sebastião e com palavras o aconselha. Assim, é entre conversas com Fernando, Luís, João ou António (e outros tantos), sempre com a sábia liderança de Simplício, que o nosso protagonista muda de vida.

Um livro que vai deliciar leitores, que me deliciou a mim e que me arrancou, amiúde, gargalhadas. Um livro sobre livros (fórmula perigosa quando não bem conseguida, mas infalível quando o é – e aqui, é). Não vou falar mais sobre esta história porque a magia deste livro é lê-lo e isso vos aconselho a fazer.

É o primeiro livro do João Rebocho Pais que leio. Atrevo-me a dizer que não será o último, porque fiquei fã da sua forma de escrever, simples, cuidada e despretensiosa.

É um dos escritores do Cole©tivo Nau e tem também o livro “o intrínseco de manolo”

* e não ponho aqui a sipnose que me parece demasiado reveladora... Eu, como comprei o livro por impulso e em ebook, não a li e a surpresa foi óptima.

Jesus Cristo bebia cerveja, de Afonso Cruz

Roda Dos Livros, 25.07.14

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Rosa, alentejana tem uma avó velhinha, com mais juízo que mobilidade. Rosa tem um namorado pastor e uma série de apaixonados (ou viciados nalgumas partes da sua anatomia, pelo menos). Rosa quer concretizar o sonho da sua avó e levá-la a Jerusalém mas não tem dinheiro para isso. O professor Borja, fascinado pela Rosa e por muito querer também a quer ajudar, tem uma série de ideias que implicam levar Jerusalém até à avó de Rosa, já que o contrário parece impossível.

Num tom divertido (a quem mais lembraria transformar o “O avião” – quem já não se lembra de semelhante bar de strip? – num avião a sério ou, vá, mais ou menos a sério? Juro-vos, dei uma gargalhada nesta parte) a história de Rosa vai correndo, contada ao sabor das pedras, que tal como num rosário, marcam a vida desta moça. Página atrás de página, conhecemos um rol de personagens interessantes, as suas motivações, as suas pancadas (e há tantas, por aqui), as suas esperanças. E não podemos deixar de pensar que tanto ficou por dizer, que tanto ficou por pensar, que, se às vezes os fins justificam os meios, noutras alturas as coisas não são bem assim. Não podemos deixar de questionar os sentimentos, de esmiuçar o amor, a amizade.

É sempre bom ler Afonso Cruz. Difícil é escrever sobre um livro quando temos sentimentos contraditórios. Tal como no “Guarda-chuvas” há uma nota de desesperança neste livro. O certo é que não estraga, de todo, o livro, na verdade até o torna humano, real. Por isso, se não conhecem o autor, shame on you, vão lá a uma livraria à procura dos seus livros e depois venham cá contar-me o que acharam.

Um Grito de Socorro de Casey Watson

Roda Dos Livros, 21.07.14

Sei que muitos leitores não apreciam este tipo de leitura. Ou por se tratar de histórias de alguma rudeza e violência, por ter crianças envolvidas, "and so on"...

Gosto de as ler por essas razões precisamente mas, sobretudo, porque, muitas delas, possuem na sua génese uma história verídica. Mas seria um pouco mórbido se os meus gostos ficassem por aqui... Gosto verdadeiramente de as ler porque, por detrás da história, encontramos pessoas que lutam para que essas crianças tenham a vida que deveriam ter, que superem o seu passado. Muitas das vezes, como é o caso deste livro, a autora escreve o que vivenciou.

Casey Watson é uma mãe de acolhimento de crianças "em fim da linha", ou seja, de crianças que devido aos seus graves problemas estão sujeitas a ir para reformatórios e organismos afins. É um acolhimento que envolve também a sua família, seu marido, seus filhos e neto. Sem descurar esses seus amores, Casey tenta integrar Sophiauma criança de apenas 12 anos, e orientá-la. Tarefa difícil quando lida com situações difíceis provocadas pela vivência dura de Sophia e da doença que sofre, a Doença de Addison.

Independentemente da veracidade da história, que nos remete para profundos pensamentos, gostei da forma como o factor mistério nos deixa inquietos e nos faz ler o livro muito rapidamente. Como estou de férias pude devorá-lo num dia só.

Muitos factos que se nos insinuam nesta história ficam por revelar. Não achei importante, embora gostasse de os ver esclarecidos (um deles diz respeito ao acidente que vitimou a mãe de Sophia). Ás vezes a vida é mesmo assim: não há só branco e preto. O cinzento, a cor da incerteza, também lá está. Temos de saber viver com ele.

Gostei muito e recomendo.

Estrelas: 5*

Sinopse

Quando Casey Watson recebe Sophia no âmbito do programa de acolhimento, imediatamente se apercebe de que algo não bate certo. O comportamento de Sophia é inconstante e manipulador e a jovem está habituada a conseguir tudo o que quer, reagindo violentamente quando a contrariam. Parece só ter olhos para os homens da família de acolhimento e trata as mulheres com insolência. À medida que o tempo passa, Casey apercebe-se de que este comportamento esconde uma infância repleta de dor e abusos. Mas, quando as explosões violentas de Sophia começam a ameaçar a integridade física dos membros da família, Casey pergunta-se se será a pessoa certa para ajudar esta menina profundamente perturbada.

 

Os Aquários de Pyongyang de Kang Chol-Hwan

Roda Dos Livros, 21.07.14

Um amigo "destas coisas dos livros" emprestou-me este livro. Não conhecia, nunca tinha ouvido falar dele. "Vais gostar!", disse-me. Não podia estar mais certo.

Para quem quer aprender e conhecer um pouco mais o que se passa na Coreia do Norte este livro é o ideal. É uma leitura forte, pesada mas obrigatória.

Kang Chol-Hwan relata-nos a sua vida desde a sua infãncia e também a da sua família. Não ē fácil de ler, custa ouvir falar de tanta dor, fome, sofrimento sem razão aparente, ou melhor, perceber que a violência é uma forma de calar a liberdade, a justiça.

Kang sobrevive a dez anos num campo de concentração. A morte dorme todos os dias a seu lado. A fome, o frio, a dor, os castigos também. Quando sai, juntamente com a sua família, sente que, tal como no campo, o vigiam e o controlam. A corrupção impera grandemente. A sua fuga para a China e posteriormente para a Coreia do Sul é uma peripécia que nos parece surreal.

Um livro que quero ter na minha estante mas que não vai ser fácil encontrar! Recomendo vivamente!

Terminado a 15 de Julho de 2014

Estrelas: 6*

Sinopse

Um dos testemunhos mais impressionantes de um prisioneiro político, Os Aquários de Pyongyang descreve o inferno na terra: um rapazinho de nove anos que, sem qualquer motivo, se vê atirado para um campo de concentração. Começa então um calvário que durará dez anos, o período da adolescência para Kang Chol-Hwan. Animado por uma indignação que jamais o abandonou, ele faz a terrível descrição do regime cruel e desumano a que crianças e adultos são submetidos: trabalhos forçados, lavagens cerebrais, humilhações sistemáticas e castigos desumanos, para além da fome, do frio e das doenças

 

...

Roda Dos Livros, 21.07.14

O Intrínseco de ManoloO que me surpreende? Ler dois livros seguidos do mesmo autor e ficar feliz por serem diferentes. Que em livros que considero de poucas páginas (menos de 200) se consiga dizer tanto.

A verdade é que li primeiro o Sebastião porque achei que este Manolo seria um bocado… parolo (coitado). Ouvi umas coisas aqui e outras ali e assumi que seria um livro cómico, talvez com um pé (ou dois) na brejeirice. Pois isto dos livros é um bocado como as pessoas, ou não fossem estas a escrevê-los. Enfim, sinto-me enganada. Enganada como quando conheço uma daquelas pessoas completamente desinteressantes que o tempo revela especiais. Um engano bom.

O que dizer de um livro com tantas personagens mas que a principal é uma árvore?

Com tantas descrições de situações inverosímeis, pitorescas, recambolescas e que não sei que mais lhes possa chamar, mas com uma utilização primorosa da linguagem, que transforma cenários decadentes, deprimentes e até nojentos, com um texto versátil e completo, nascido de uma conjugação de palavras que me deixou várias vezes de queixo caído. Isto é saber escrever.

É um orgulho ver a beleza e a dimensão da língua portuguesa, que até quando se escreve sobre porcaria (para não dizer merda), permite um encaixe perfeito. Fica a ressalva de que só resulta quando se tem talento.

E assim somos apresentados aos habitantes de Cousa Vã. Pessoas de muitas habilidades em diversos campos, algumas com um domínio tão intenso das artes do amor, que me parece terem proporcionado a João Rebocho Pais a criação de um novo estilo. Pelo menos eu ainda não conhecia, não sei que lhe possa chamar ou se alguém já o definiu, mas talvez algo do tipo “erótico alentejano”.

E então, quando estamos perante tantos cenários dignos de pasmo pela originalidade da escrita, que nos dão para rir pelos motivos já apresentados, o cómico vai assumindo uma seriedade emotiva, de alguma forma até ternurenta, por todas as coisas realmente importantes que só chegam ultrapassada a aparência.

Manolo, o parolo, que conversa com uma azinheira, olha para dentro, para o que realmente importa. Leva consigo a dor do caminho da descoberta das coisas que contam.

A ler.

“Não era passado um semestre de matrimónio e a secura a que Tonho a votava, fosse em coisas de cama, de mesa ou de sofá, trazia-lhe a certeza de ser outro o caminho a tomar e muitos outros os parceiros, assim quisesse dar vazão ao que lhe pedia uma alma selvagem, um corpo de bom alimento e uma vagina carnívora – e aqui testemunha o narrador que esse é o termo e assim mesmo terá de ser chamada, uma vagina de fazer corar o mais ávido aventureiro, o mais intrépido conquistador. Tina – Albertina Cruz por casório – não se lembrava de um dia sequer em que a sua feminilidade não se tivesse revelado num estuporado tesão e vontade de luxúria. Anos e anos de repressão paterna, materna, fraterna e o mais que fosse, numa adolescência em que, por imperativo das aparências negara alimento à desembestada que lhe habitava entre pernas, acabaram no triste desastre que era aquele transtorno de homem e marido, aquele empecilho, aquele verdadeiro hino ao vazio de prazer que constituía o seu lar.” (Pág. 66);

“Desde o regresso de Lisboa e suas fulminantes sensações, trazidas em esquinas e esquinas de histórias e pessoas, de retumbantes memórias em forma de estátuas e monumentos de fachadas imponentes, desde esse momento que a vontade de semear algo de seu, algo que visitasse as almas dos seus antepassados com a boa-nova de que tudo valera a pena, crescia no íntimo de Manolo, o mesmo Manolo que à sombra da azinheira teimava em conhecer a sabedoria da árvore, o sentido da vida, dali partindo em busca do que lhe era intrínseco.” (Pág. 122);

“Manolo seguia a sua vida, indiferente a cochichos e ao alimento da curiosidade alheia, ia e vinha com o mesmo vagar e indiferença que aprendera a oferecer ao formigueiro de tristes inúteis que pela terra lhe faziam companhia, que o brindavam com perguntas parvas pela frente e com etiquetas pelas costas.” (Pág. 148);

Sinopse

“Na aldeia alentejana de Cousa Vã - vizinha da espanhola Ciudad del Sol - o nome de Manolo anda nas bocas escancaradas dos que passam as tardes na tasca a aviar minis, quiçá para que ninguém repare no que realmente se passa em suas casas - e talvez seja melhor assim. É, porém, facto indesmentível que Maria tem o hábito de desaparecer às sextas-feiras - e isso basta para que a mediocridade omnipresente faça do marido um adornado e da chacota um estranho alívio para a dureza dos dias. Manolo refugia-se do falatório acusador à sombra de uma azinheira secular, único ser vivo com quem pode dividir agora as suas mágoas; e, embora certo da virtude da sua Maria, não ignora a missiva que o carteiro lhe deixou em casa nessa manhã e que trazia - pois é - remetente espanhol… No jogo repetido que é o dia-a-dia dos lugares pequenos - onde ninguém ganha e quase todos perdem -, a descoberta da improvável verdade trará, mesmo assim, a Manolo a oportunidade de mostrar aos conterrâneos, de forma anónima, o seu intrínseco, seguindo os ensinamentos dos que, sendo velhos ou já desaparecidos, são parte importante da sua história - e da de Cousa Vã. Com um trabalho notável na composição das figuras e uma recuperação inteligente da linguagem popular de um Alentejo quase mítico, João Rebocho Pais estreia-se na ficção com um romance terno, mágico e, ocasionalmente, escatológico sobre o poder da excepção sobre a regra.”

Teorema, 2014

Colectivo NAU na Roda dos Livros - Julho 2014

Roda Dos Livros, 20.07.14

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Para quem lê é um prazer falar com quem escreve. Por isso é sempre com muito gosto que a Roda dos Livros abre as suas sessões a quem, além de ler, partilha uma boa parte de si escrevendo.

A 12 de Julho cinco autores do Colectivo NAU vieram partilhar aventuras com a Roda, falar dos seus livros e projectos, dos percursos e sonhos depositados nas páginas escritas.

Uma tarde memorável de conversas e risos, que nos deixou com vontade de conhecer melhor o trabalho dos oito marujos.

Obrigada aos caríssimos Ana Saragoça, Carla M. Soares, Raquel Serejo Martins, João Rebocho Pais e Paulo M. Morais. São todos muito bem-vindos a reincidir. Esperamos que numa próxima vez a NAU toda.

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Fica o destaque a Ana Saragoça, a timoneira deste mês do Colectivo, que nos deixou de boca aberta com a leitura e genial interpretação do primeiro capítulo de “Todos os dias são meus”. A Roda maravilhou-se, espantou-se, e até se esqueceu de filmar. Ficam as memórias. Inesquecíveis pois claro.

A Beleza das Coisas Frágeis

Roda Dos Livros, 19.07.14

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Há livros que temos que ler demoradamente, porque são de uma beleza ímpar. A escrita, as personagens e a história. Tudo neste romance é caloroso, suave e sensível, como as coisas frágeis e belas que tanto devemos prezar e preservar.

O grafismo da capa e o título atraíram, mas foi a promessa contida na sinopse que determinou esta leitura, que quando concluída, apetece recomeçar.

As personagens são seis. E seis, são os elementos desta família. Todos participam de igual modo, no que é comum a todos eles, mas todos o sentiram de forma diferente. Todos cresceram ou evoluíram como seres únicos que são. Todos têm a sua história para contar. O retrato de uma família que regressa às suas raízes para uma despedida e acaba por enfrentar a verdade. As mágoas que os afastaram podem ser esclarecidas sem muitas palavras entre eles, e o amor que os liga pode ser mais forte que a distância e os temores.

"Os irmãos irradiam brilho. Olu, Taiwo, Kehinde e Sadie. Há o fulgor calmo de Olu, a sua voz profunda e confiante que lhe vem do conhecimento dos factos. Há o génio obscuro de Taiwo, o tom rouco e sedutor da sua voz, (...) o seu denso ar de mistério e de encanto natural, como só têm as mulheres cuja beleza é uma espécie de facto, sem possibilidade de mais do que interpretação. Há o talento puro de Kehinde, a sua ligação às imagens e a calma confiança com que olha para as coisas, como se o mundo estivesse coberto por um padrão tão indescritivelmente belo e cheio de significado, que se alguém visse tudo tão claramente como ele, também teria enfrentado o cavalete em branco com um pincel na mão e do modo natural e simples com que se vê um filme e o telejornal, sem nenhum empenho especial, vendo apenas e tentando compreender o que se vê. E há a baby Sadie. Com uma década de atraso, chegada no inverno, um engano feliz, com a sua mistura de competências, mas sem nenhum dom acima da média." (pag. 265)

O pai Kweku Sai. Um cirurgião sem igual, que tudo fez para ser merecedor da sua princesa nigeriana. Para ser merecedor de Folá, para dar um sentido ao seu sacrifício, ele tinha que ser bem sucedido. E por isso, não foi capaz de lidar com o que lhe sucedeu.

Prosa elegante e requintada, para desfrutar ao ritmo dos sons africanos e imaginando as paisagens descritas e os cheiros característicos.

Um romance como poucos. Um prazer de ler.

Sinopse:

Um dia, Kweku Sai, um cirurgião de renome, americano de origem ganesa, abandona a sua família, na América, e regressa ao Gana. É uma família africana da «nova geração» a viver na América. Folásadé Savage (Folá) abandonou a Nigéria e partiu para a Pensilvânia, onde conheceu o seu marido Kweku. O filho mais velho, Olu, segue as pisadas do pai e é um médico brilhante; Kehinde é uma pintora cujos quadros atingem cotações elevadas no mercado de arte; Taiwo, uma aluna brilhante, é uma notável pianista; e Sadie está na lista de espera para entrar em Yale. É esta família que Kweku abandona quando regressa ao Gana, onde morre – à porta de casa, na sua cidade natal, Acra.

As notícias da morte de Kweku correm rapidamente mundo fora e acabam por reunir a família. A Beleza das Coisas Frágeis (Ghana Must Go) conta a história destas pessoas – e mostra os caminhos que as reaproximam.Neste reencontro, no Gana, é revelada a história que levou ao seu afastamento, bem como os corações destroçados, as mentiras e os crimes cometidos em nome do amor. Cada um, transportando os seus degredos e mágoas, descobrirá no Gana que um novo caminho e uma nova família estão prestes a emergir.Neste seu belíssimo e eletrizante romance de estreia – o retrato de uma família moderna –, Taiye Selasi desloca-se com elegância através do tempo, mostrando que só a verdade pode curar as feridas escondidas.

 

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