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Roda Dos Livros

As Luzes de Setembro de Carlos Ruiz Zafón

Roda Dos Livros, 30.06.14

10393828_733662536677605_1778251456892989579_nJá aqui tenho afirmado o quanto a escrita de Zafón nos prende e nos liga às suas histórias. Não importa de que género literário gostemos porque ficamos cativos das suas palavras. Os seus enredos são mirabolantes, de uma imaginação tão fértil e surpreendente que nos mergulha de imediato em histórias que são tudo menos de encantar!

Um verão que tinha tudo para ser mágico para uma família em luto mas que acontecimentos misteriosos, macabros e com laivos de terror ensombram os seus dias e noites. E os meus também porque nao descansei enquanto não acabei de ler esta obra.

O último da trilogia da Neblina, mas que se lê muito bem separadamente, este livro, embora dirigido a um público mais jovem é, a meu ver, um livro para todas as idades! Temporalmente estamos em 1937 e a acção passa-se numa pequena aldeia na costa da Normandia. Os acontecimentos são de tal forma bem descritos e com uma cadência tal que "quase" os visualizamos. Esta é uma característica de Zafón que o torna imbatível em comparação com alguns escritores. Muito bom!

Estrelas: 5*f

Sinopse

Um misterioso fabricante de brinquedos que vive em reclusão numa gigantesca mansão povoada de seres mecânicos e sombras do passado...

Um enigma em torno de estranhas luzes que brilham entre a neblina que rodeia a ilhota do farol. Um ser de pesadelo que se oculta nas profundezas do bosque...

Estes e outros elementos tecem a trama do mistério que unirá Irene e Ismael para sempre durante um mágico Verão em Baía Azul. Um enigma que os levará a viver a mais emocionante das aventuras num labiríntico mundo povoado de luzes.

Um livro fascinante de intriga, fantasia, mistério e amor com uma tensão e um suspense que aumenta à medida que avançamos na história. E sempre envoltos numa atmosfera ameaçadora.

 

Roda dos Livros Sugestões de Leitura - Junho 2014

Roda Dos Livros, 29.06.14

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Custa muito esperar tanto tempo pela sessão Roda dos Livros, passou mais de um mês desde o último encontro. Da montanha de livros que nos fez companhia durante a tarde, ficam estas sugestões principais:

Paula: Roma Exercícios de Reconhecimento, de António Mega Ferreira;

Ana: Em busca da Felicidade - Contos, vários autores;

Renata: O Falador, de Mario Vargas Llosa;

Patrícia: Mataram a Cotovia, de Harper Lee;

Jorge Galvão: A um Deus Desconhecido, de John Steinbeck;

Fernanda: Uma Família Feliz, de David Safier;

Isabel: Há Flores de Plástico e gravilha a enterrar a memória, de Paulo Alexandre e Castro; O Diálogo das Compensadas, de João Aguiar;

Márcia: Mar Humano, de Raquel Ochoa;

Sónia: O Intrínseco de Manolo, de João Rebocho Pais;

Ricardo (que não esteve presente mas nos mandou as sugestões por e-mail): A Rainha Ginga, de José Eduardo Agualusa; O Tempo morto é um bom lugar, de Manuel Jorge Marmelo;

 

 

 

 

 

 

Com os Holandeses - J. Rentes de Carvalho

Roda Dos Livros, 29.06.14

holandesesMais um livro excelente, que recomendo sem qualquer reserva. A escrita de J. Rentes de Carvalho é maravilhosa, li este livro num constante estado de encantamento pela forma como as palavras são conjugadas de forma perfeita, e os estados de alma chegam até ao leitor através de uma escrita sentida, mas objectiva e nada piegas.

Uma espécie de ensaio que é também uma história de vida. Um género de autobiografia de vasto interesse sociológico. Assim é, escrito na década de setenta e plenamente actual, de uma lucidez e acutilância esmagadoras.

Eu adoro Rentes de Carvalho. Não apenas pela sua escrita mas também pela pessoa que não conheço mas com quem simpatizo. Não sei bem porquê dado que só lhe falei duas vezes, e em ocasiões circunstanciais, guardo a imagem de um ser humano especial. E quando se aprecia assim alguém gosta-se de tudo o que esse alguém faz, neste caso, escreve. Daí a minha opinião poder ser tendenciosa e estar completamente deturpada por esta admiração, coisa que não me incomoda nada mas aviso já que certamente só falarei bem de todos os livros que ler deste senhor.

“Com os Holandeses” é uma descrição bastante completa de um país e dos seus habitantes. Escrito por um observador estrangeiro, um português que deixa o seu país e vai viver para Amesterdam, Holanda. É uma análise exaustiva da sociedade holandesa em vertentes tão pertinentes como família, religião, culinária, cidadania, sexo, educação, arte, vida profissional, e tudo o que leva um homem observador dissertar sobre o meio envolvente, sobre a sua própria experiência de vida, sobre o que é diferente, sobre o que o impressiona, causa espanto. Uma reflexão sobre as diferenças, feita com a justiça de quem não se vê como superior ou inferior, mas com a frontalidade e o discernimento de quem aceita (e também rejeita) o que é distinto.

Genial. Um livro de Rentes de Carvalho sobre ele próprio, a sua experiência, a sua capacidade de análise, as suas dificuldades com toda a espécie de barreiras que as diferenças culturais levantam a quem deixou para trás um país tido como atrasado perante a supremacia de um povo que se acha melhor e mais civilizado. Muito interessante.

“Cavalheiros sérios, fiéis das igrejas, temerosos de Deus, metidos em fatos que ressudavam decência, alegres de poderem explodir assim, impunemente, mas sabendo que se o meu falar era atarantado eu os compreendia na perfeição, que os marcava e à noite – uma fuga? Uma defesa? – me sentava a descrevê-los, anotando os gestos, as palavras, os nomes.” (Pág. 27);

“E a rua é impecável, o telefone automático, o radar pilota os navios, os computadores administram. Quem vem à procura de aventura e romance e os espera a cada esquina bem se ilude. Dará de cara com treze milhões (1971) de indivíduos cujo temperamento não se coaduna às fantasias, às perdas de tempo, aos descuidos, menos ainda à indolência, fanáticos do planeamento, da previsão e do arrumo.“ (Pág. 40);

“Contudo, é raro o dia que me não dou conta de que o holandês, sem ter conseguido criar o paraíso, mesmo assim tem aqui uma extremamente confortável, bem organizada, bem administrada e acolhedora terra, onde o viver pode ter encantos, onde além dos encantos se goza ainda um superior e imprescindível bem: a liberdade.”

“Quando ao ter de escolher preferi ficar, a minha impressão foi de que a Holanda oferecia indiscutivelmente garantias cívicas e políticas que eu sabia, por amarga experiência, serem problemáticas noutros países, mesmo naqueles que juram ter amamentado a liberdade democrática quando ela ainda era de peito” (Pág. 75);

Sinopse

"Sobre o clima, os costumes, as manhas, a bruteza, os vícios, a má comida... A lista começou com Júlio César, alongou-se no decorrer dos séculos, tem casos extremos como o do mal-agradecido Voltaire que, em vez de dar graças pelo refúgio oferecido, sintetizou venenosamente os Países Baixos em "Canards, canaux et canailles". Jesuíta e diplomata, António Vieira disse pior, mas diplomaticamente. De facto são muitos os críticos mordazes de um país em que outros só vêem campos de tulipas, moinhos a rodar serenamente, montes de queijo, diques, água, abundância de belas raparigas loiras e desempenadas. Assim, o optimista Ramalho Ortigão escreveu a suave aguarela que, para muitas gerações, funcionou como relato exemplar de um país exemplar. O meu caso difere."

Quetzal, 2009

Vida Roubada, de Adam Johnson

Roda Dos Livros, 28.06.14

vida roubada

Tudo o que nos é proibido exerce sobre nós uma atracção irresistível. E o que não sabemos torna-se grande, um mistério por resolver. E depois aparece este livro e permite-nos ter um vislumbre do que se passa naquela terra. A Coreia do Norte é hoje um dos únicos pontos do planeta que não nos está acessível. E como ansiamos por conhecer este país de que tanto se fala mas de que tão pouco se conhece. E a imaginação cresce como quando vemos aquele vídeo que corre no facebook acerca de uma suposta notícia norte-coreana de que teriam sido os primeiros a chegar ao sol (de noite, para não queimar). A ausência de informações leva-nos a acreditar em tudo. Afinal é nisso que acreditamos: que a ausência de informação que eles têm os levam a acreditar em tudo.

E este livro é um doce para quem acredita que aqui está um documento verídico acerca daquele país. Afinal foi escrito com base numa imensa pesquisa. E esse é o problema deste livro: acabei-o com a sensação de “a montanha pariu um rato”, um livro escrito com as palavras que eu esperava ouvir sobre aquele país. Um livro escrito por um americano sobre a América e sobre a Coreia do Norte. (e depois penso que a minha crítica não é justa e que é normal que um americano use como bitola os USA), cheio de comparações e de fantasia. Por muitos factos que lá constem, este livro é ficção, não tenham dúvidas acerca disso. E é como livro de ficção que deve ser apreciado (o problema são sempre as expectativas e o marketing à volta de um livro).

E como livro de ficção devo confessar que gostei. Gostei muito mais da primeira parte em que conhecemos Jon Do, um menino que, por culpa do acaso, cresce num orfanato na Coreia do Norte. E as imagens que nos são mostradas nesta primeira parte, são de uma violência atroz. O crescimento de Jun Do, o seu percurso vai-nos fazendo o retrato de uma sociedade fechada, de um ditadura e de um ditador manipulador e sádico.

Depois, na segunda parte do livro, onde o protagonismo se divide entre vários personagens começamos a perceber as pessoas, o que as move, como são manipuladas, como a inocência se mistura com a ignorância e dá um resultado cruel, violento. Como a força do amor pode mudar o mundo.

O que me desiludiu nesta segunda parte do livro foi a ridicularização do personagem do ditador. Ridicularizar aquele homem é subestima-lo e menosprezar todos aqueles que vivem sob o seu jugo. E isso incomodou-me, confesso. Alguém capaz de fechar um país daquela forma (e falo do que vejo nas notícias e não do que li no livro) não deve ser menosprezado nem tratado como algo ridículo.

Achei muito interessante a personagem do “interrogador”, o seu percurso, as suas dúvidas, as suas escolhas. Talvez este homem seja o que mais se aproxima da realidade: a inocência, até mesmo alguma humanidade, que acaba por ser fruto da manipulação da desinformação e que se tem que adaptar e que tantas vezes acaba por desistir e se tornar parte do mesmo sistema.

No geral gostei de ler o livro mas as expectativas não foram, de todo, atingidas.

O Intrínseco de Manolo - João Rebocho Pais

Roda Dos Livros, 27.06.14

 

manolo

O que, neste livro, mais me impressionou resume-se numa frase: a escrita de João Rebocho Pais é de tal forma talentosa que se entranha no leitor por todos os poros, cativando-o a cada frase, impedindo-o de interromper a leitura e inundando-o daquele raro prazer que é desfrutar de um texto magistralmente escrito.

Aqui se demonstra, mais uma vez, que uma linguagem cuidada e trabalhada não tem de parecer artificial nem de perder a fluidez. Pelo contrário: sem deixar de ser evidente a preocupação com a forma perfeita do discurso, as frases sucedem-se num encadeamento tão natural que se torna impossível pôr-lhes um travão. Mais do que uma vez, durante a leitura, me vi confrontada com o dilema ideal de qualquer leitor: por um lado, queria parar de ler para voltar atrás e reler parágrafos que me haviam maravilhado; por outro, não conseguia encontrar um ponto onde me parecesse apropriado interromper a leitura...

Julgo que o estado de encantamento em que este livro me deixou se deveu também a outro factor: é que a prosa que tanto encanta pela forma versa ainda, em termos de conteúdo, sobre temas que todos conhecemos intimamente. Temas muito portugueses, como a maledicência dos medíocres, as vidas construídas na base da troca de favores e até os excessos pós-revolucioinários dos tempos do PREC são aqui retratados com um desassombro que nos faz sorrir.

Chamo, em especial, a atenção para o capítulo denominado "Alberto", onde se traça o perfil de um personagem que, hoje em dia, com a divulgação mediática da arte do tráfico de influências e da respectiva impunidade, não deixará de parecer familiar a qualquer português, habituados que estamos a deparar, a torto e a direito, com referências nos meios de comunicação social aos chamados "facilitadores de negócios" (uns mais reconhecidos como tal do que outros) e aos chorudos retornos proporcionados por essa actividade. Deixo aqui apenas um pequeno excerto, embora todo o capítulo seja absolutamente delicioso:

"No início eram apenas favores, pequenos favores em nome da amizade e de possíveis simpatias, semeando a eito para colheitas futuras. Desde os bancos da escola que Alberto percebera a matemática do caminho mais fácil, comprando e vendendo, em géneros ou contado, os favores feitos degraus na escadaria da ambição e da ganância. A batota embelezava-se em seus mil e um vestidos, dava sombra e guarida à pouca-vergonha de um exército de fracos, despidos de pudor ou dos mandamentos de Deus.

(...)

Foi com natural aceitação que em Cousa Vã se viu iniciar o percurso político de Alberto Sansão, defensor dos interesses vários da terra, recorrendo como poucos ao uso de misteriosas estratégias que, não raro, atingiam em pleno as ambições de todos e cada um, fossem estas públicas ou meramente particulares. Da ajudinha nas burocracias que permitiam aceder a fundos e empréstimos na banca, passando por elaborados planos de cumplicidade que viabilizavam a manutenção de secretas chácaras do pecado, onde espampanantes e laboriosas mulheres davam vazão a um infinito tesão rural, inovando com um científico, elaborado e cirúrgico aproveitamento das oportunidades, através do aconselhamento em áreas que iam das maleitas incuráveis aos azares do destino, o escritório de contactologia de Beto Sansão assentava sólidos alicerces em terreno de tão certa colheita. E, se o padre encontrava entraves na logística da procissão, se o presidente da Junta esbarrava na impotência de sua fraca influência para conseguir fundos, ajudas ou despachos, era certo que na sebenta, agora feita um composto e elaborado sistema escriturado, se encontraria a solução e a mãozinha necessária ao desenlace a contento." (págs. 84 e 85).

De notar ainda a notável habilidade do autor para criar cenas escabrosas e mesmo escatológicas sem, no entanto, fazer qualquer cedência em termos de elegância do discurso. Descrições de pormenores repelentes tornam-se divertidíssimas em vez de causarem aversão, e não porque sejam recheadas de poucos pormenores (antes pelo contrário), mas sim devido, exclusivamente, à forma como são apresentadas. Não é tarefa fácil discorrer sobre certos temas com graça e requinte, mas é uma tarefa aqui desempenhada na perfeição. De entre inúmeros trechos que poderia citar para ilustrar este ponto, deixo aqui apenas um:

"Joaquim e Júlio, que para além das iniciais no nome partilhavam uma invulgar incapacidade de utilização do cérebro em coisas de terem algum jeito, mandaram vir mais duas minis e esboçaram um sorriso de chacota; o cervejame ia já na sexta ou sétima rodada, e a deprimente visão das suas dentições, onde abundava o podre e a ausência de molares e caninos, fazia a estreia naquela manhã, abrindo caminho ao sorriso idiota do par de anormais. Tonho Cruz, por mais lucro que tivesse com aquela parelha, por pouca moral que tivesse no que toca a asseios e suas intrincadas regras, não conseguia evitar um espasmo estomacal de cada vez que era obrigado a suportar semelhante suplício nasal, como era o da proximidade com o espectáculo cavernoso daquelas bocas, juradas companhias de um hálito pútrido, fétido, pestilencial e infecto, isto para referir apenas quatro adjectivos que, embora desconhecidos no vocabulário do taberneiro, desenhavam bem o asco de tão desumana e oral coisa." (págs. 17 e 18).

Resta dizer que, sendo este um livro divertido de crítica social e humana, não se fica por aí; tem também uma vertente mais reflexiva, debruçando-se sobre os anseios e aspirações mais íntimos da alma. Se há passagens que nos fazem rir às gargalhadas, há outras que convidam à introspecção e a meditar sobre as pulsões mais espirituais do ser humano - do seu intrínseco. Num romance de menos de 200 páginas, ainda para mais um primeiro romance, é obra. Gostei muitíssimo e não vou, com toda a certeza, deixar de ler o outro livro do autor, Dizem que Sebastião. Já ouvi dizer que é melhor ainda.

 

Sinopse:

Na aldeia alentejana de Cousa Vã - vizinha da espanhola Ciudad del Sol - o nome de Manolo anda nas bocas escancaradas dos que passam as tardes na tasca a aviar minis, quiçá para que ninguém repare no que realmente se passa em suas casas - e talvez seja melhor assim. É, porém, facto indesmentível que Maria tem o hábito de desaparecer às sextas-feiras - e isso basta para que a mediocridade omnipresente faça do marido um adornado e da chacota um estranho alívio para a dureza dos dias.

Manolo refugia-se do falatório acusador à sombra de uma azinheira secular, único ser vivo com quem pode dividir agora as suas mágoas; e, embora certo da virtude da sua Maria, não ignora a missiva que o carteiro lhe deixou em casa nessa manhã e que trazia - pois é - remetente espanhol...

No jogo repetido que é o dia-a-dia dos lugares pequenos - onde ninguém ganha e quase todos perdem -, a descoberta da improvável verdade trará, mesmo assim, a Manolo a oportunidade de mostrar aos conterrâneos, de forma anónima, o seu intrínseco, seguindo os ensinamentos dos que, sendo já velhos ou desaparecidos, são parte importante da sua história - e da de Cousa Vã.

Com um trabalho notável na composição das figuras e uma recuperação inteligente da linguagem popular de um Alentejo quase mítico, João Rebocho Pais estreia-se na ficção com um romance terno, mágico e, ocasionalmente, escatológico sobre o poder da excepção sobre a regra.

 

Teorema, 2012

 

A Cor do Coração de Barbara Mutch

Roda Dos Livros, 23.06.14

Falar de um livro que nos toca o coração não é tarefa fácil! Sobretudo quando a História, que está por detrás da historia que nos é contada, é de tal forma grandiosa que nos impede de encontrar as palavras correctas, ou pelo menos, aquelas que consideramos perfeitas para traduzir o que nos vai cá dentro.

A Cor do Coração poderia ser facilmente sibstituído por A Cor de África já que o enredo passa-se num país de contrastes, de amores e ódios profundos: a África do Sul! Em simultâneo acompanhamos a vida de Ada, a filha de uma criada negra, e toda a história do Apartheid, a luta de um povo pelos seus direitos.

Bem escrita e não tendo momentos monótonos, a história cativa muito rapidamente. É-nos contada, maioritariamente, por Ada, mas tem breves apontamentos de um diário escrito por Cathleen, a sua patroa. A amizade que as une vai fazê-las ultrapassar os dissabores que a vida, através das pessoas, lhes dá. Uma amizade que durou uma vida inteira, que perdurou muito depois dela, através de Ada, e que estava acima de qualquer preconceito.

Ada é uma criança inocente com um dom para a música. Cathleen sente-o e transmite-lhe os seus conhecimentos. Ensina-lhe a ler, escrever e a tocar piano. Ada aprende rapidamente e as suas mãos transformam a música que toca! Mas sendo negra o mundo está-lhe negado. O Apartheid prende-lhe os movimentos, condiciona-a. O seu segredo impede-a de lutar por aquilo que acha certo mas enfrenta o mundo que a rodeia, um mundo a duas cores: branco e preto.

Verosímil esta história? Pareceu-me que sim, que ela retrata, em muitos aspectos, a história do povo sul africano. Recomendo muitíssimo. Uma leitura que me deu muito prazer.

Terminado em 20 de Junho de 2014

Estrelas: 6*

Sinopse

Este romance de estreia de Barbara Mutch tem vindo a conquistar os meios literários internacionais, pela peculiar delicadeza e a sensibilidade que a sua escrita revela. A história inicia-se nas terras do Karoo, na África do Sul, onde uma jovem irlandesa chega para desposar o noivo que não vê há cinco anos e aí constituir família. O livro revela-nos as pouco ortodoxas ligações que se vão tecendo entre os diferentes personagens. Com o rebentar da Segunda Guerra Mundial tudo muda dolorosamente naquela casa, até que uma guerra se instala no próprio país — o apartheid—, dilacerando ainda mais as já fragilizadas relações. A Cor do Coração é, acima de tudo, um romance inteligente e desafiador, que retrata o drama e o sofrimento de duas mulheres capazes de se elevarem acima da crueldade e do preconceito em nome dos valores mais genuinamente humanos.

 

Mar Humano - Raquel Ochoa

Roda Dos Livros, 22.06.14

PR_MAR HUMANO_EDITORA MARCADORE é assim. Sem saber porquê ou como, aparece um livro que se destaca, que me faz virar a última página e sentir que fui abalroada pelo génio da lucidez.

Este atropelo deu-se de forma francamente notória no último capítulo, trinta e seis páginas que irei reler infinitas vezes. Das quais quero escrever mas que receio revelar demais. Sinto-me tentada a alertar quem me lê para que pare agora, mas ao mesmo tempo quero que todos saibam que têm mesmo de ler este livro.

Mas como escrever sobre o final sem arruinar futuras leituras? Sem estragar a surpresa de juntar as peças e descobrir que estamos perante algo maior? Não que as primeiras duzentas páginas não interessem, longe disso, todo o livro está bem construído e é deveras empolgante, li-o em pouco mais de um dia. Mas realmente o final dá uma perspectiva diferente das duzentas páginas anteriores, há uma mudança, um click que me deixou hiperactiva e me poderá fazer passar esta noite em branco. E é tão bom, mas tão bom, de tantos livros que leio e de tantos que me passam pelas mãos sem marcas de maior, sentir esta escrita enigmática e inteligente, que me toca, arranha por dentro e, acima de tudo me deixa a pensar.

Para mim seria mais um romance de época. O século XX português, tema mais que escolhido, mais que batido. A censura, a prisão, a miséria, a guerra, tudo mais que contado e recontado, com uma história de amor cheia de dificuldades para arrancar suspiros atrás de suspiro às leitoras. Sim, diz que são as mulheres que procuram esses livros, se calhar…

Bom, mas homens leiam também, que todos vocês deviam conhecer pelo menos uma Ema na vida. E todas a mulheres deviam ser como Ema, nem que fosse só uma vez na vida. Inteligente e enigmática, calculista, apaixonada, objectiva e com uma enorme sede de conhecimento. Uma perfeita estranha neste Portugal enfadonho, passei todo o livro a questionar o porquê de Ema estar nesta história. Ema ama Samuel. Samuel ama Ema. Mas não estão juntos, na verdade passam a vida separados a pensar um no outro, parece que pacientemente à espera do seu momento, que estranhamente (para o leitor de romances daqueles que citei acima) nunca chega.

As referências aos avanços da ciência são constantes em todo o livro, o grupo de amigos de Ema e as suas tertúlias sem preconceitos, com bastante álcool à mistura, continuavam a dar-me sempre a sensação de “algo não bate certo”, que gente é esta no nosso Portugal conservador e atrofiado do Estado Novo?

E pronto, eis que chega o último capítulo, Raquel Ochoa sai de cena e tudo é revelado na primeira pessoa. E então senti-me entrar num outro universo, parecia que me metia por um livro de Margaret Atwood, meio distópico, em que se fala do futuro como se fosse o presente, e se olha para o presente como se fosse o passado. Surreal, estranho e imensamente atraente. Principalmente por revelar a verdade, por despejar o que está podre na nossa sociedade, a forma como estamos cercados e não podemos fugir de um palco, de um teatro sem fim, de uma sociedade de mentiras, enganosa em que nada do que parece é. E leva tanto tempo a concluir tal coisa. Uma vida não chega. Talvez só uma vida muito longa, aí de uns cento e cinquenta anos.

E o que achei mesmo estranho? Este ser um livro RTP. Será que alguém na RTP leu um livro que deita ao chão, pisa e escorraça a comunicação social, como se de um vírus incontrolável se tratasse? Pensando bem não é estranho, é caricato e irónico, e na verdade é a cereja no topo do bolo de “Mar Humano”. E se ainda aí estão no fim disto tudo, e acreditam que a liberdade é uma fantochada, leiam o livro.

“A censura do Estado Novo acabava por ser às claras, documentada e, mesmo que só a título muito posterior, uma instituição passível de ser criticada e julgada. Ficou um rasto físico da censura, passível de ser consultada. A censura moderna apareceu nos anos noventa e aprendeu a ser subtil, aprendeu a não existir. Creio que um dos maiores logros de quem tem interesse em praticar a censura na comunicação social é ter feito crer que a teoria da conspiração é apenas uma teoria de gente com uma imaginação muito fértil.

O papel dos jornalistas durante as décadas de noventa e a primeira de dois mil – a ocultarem toda a corrupção e omitirem-se do seu papel crítico de certas escolhas políticas, nunca fomentando o debate e dando como certa uma riqueza provisória – foi de natureza criminosa. A cobardia não é mas devia ser crime.” (Pág.225)

“E chamo a isto uma forma de censura, pois quando gastamos demasiado tempo e inteligência no acessório, o que é realmente importante entra na corrente do efémero. Era uma demanda quase insensata de edição, numa prática voyeurista e fútil. Era necessário encher os jornais televisivos, os jornais de papel, as páginas noticiosas da internet, a cada minuto. Além disso, claro, também as agências de informação, compartimentando, emanando e obstaculizando a informação, funcionavam como o lápis azul.” (Pág.226)

Sinopse

“Mar Humano parte da ligação turbulenta entre duas pessoas e penetra em temas como a longevidade da vida humana, a responsabilidade que os sentimentos acarretam, a luta pela liberdade de expressão e o impacto da ciência na evolução da consciência. Um brinde à coragem de cada indivíduo em ser autor da sua própria vida.”

Marcador, 2014

As Pessoas Felizes Lêem e Bebem Café

Roda Dos Livros, 21.06.14

aspessoasfelizesleemebebemcafeUma compra por impulso que como sabemos são as melhores. O título, longo, chama a atenção e intriga, mas a surpresa é do que se trata.

Se considerarmos que as pessoas felizes lêem e bebem café, eu e tantos outros, enquadramos nesse registo, e será que somos felizes?! Na narrativa, as pessoas infelizes fumam e bebem demasiado, para afugentar fantasmas ou sufocar a dor. Refiro-me a estados de alma que podem ser ultrapassados com uma força que nem julgam ter ou com o apoio inusitado de desconhecidos, que sem esperar nada em troca ali se encontram. Um bom amigo faz a diferença quando a família falha no essencial apoio e compreensão. As preocupações mundanas e o socialmente correcto fica para depois ou nunca, porque quando se sofre perda, mágoa ou ressentimentos, tudo o que se deseja é isolamento e privacidade. Estas são as circunstâncias de Diane, a personagem principal que, na minha imaginação corresponde à imagem de mulher da capa. Uma parisiense que há ano e meio enfrenta o luto pela perda da família que construiu e amava.

Não é um romance leve ou banal, quando o que está em causa são sentimentos tão fortes e difíceis. A estória e as personagens envolvem-nos e não se trata de compaixão mas de compreensão. A estória sofre uma reviravolta quando se dá a mudança de Diane para uma pequena localidade à beira mar na Irlanda, e se confronta com um insuportável e intimidante vizinho, que dado o seu estado de espírito retalia energicamente. Também ele enfrenta um longo processo de recuperação.

Uma estória bem contada com personagens incríveis, numa leitura breve e muito satisfatória. Um romance que irei reler um dia mais tarde.

Sinopse:   

Depois da morte do marido e da filha num brutal acidente de automóvel, Diane fecha-se em casa durante um ano, imersa em recordações, incapaz de reagir. Mas, quando já nada parece poder mudar, é precisamente uma dessas recordações que a faz escolher Mulranny, uma pequeníssima aldeia na Irlanda, como destino.
Instalada numa casa em frente ao mar, Diane é gentilmente recebida por todos os habitantes - todos menos um. Será Edward, o bruto e antipático vizinho, a resgatar Diane da apatia em que parece estar novamente a mergulhar. Primeiro, pela ira e pelo ódio. Mas depois, contra todas as expectativas, pela atracção. Como enfrentar este turbilhão de sentimentos? O que fazer com eles?

To Kill a Mockingbird, de Harper Lee

Roda Dos Livros, 17.06.14

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“Por favor não matem a cotovia” “Mataram a cotovia” “O sol é para todos”

Só a quantidade de títulos diferentes que este livro tem tido na língua Portuguesa nos prova que cada um lê num livro algo diferente. Cada leitor destaca o que mais o interessou, chocou ou, de alguma forma, o tocou. Muitas vezes lemos um livro e lemos lá exatamente o que queremos. Seremos capazes de ler um livro de um autor de quem não gostamos e ser imparciais na sua apreciação?

E na vida como na leitura...

Ver o mundo pelos olhos de uma criança, com a sua inocência, magia e total ausência de preconceito. Claro que isso só acontece porque Scout foi educada por uma homem muito especial para a época. Atticus Finch é tudo menos um homem da sua época, tudo menos um pai normal mesmo considerando os padrões de hoje. Atticus Finch, um personagem muito interessante, permite que os seus filhos (Scout e Jem) cresçam meio “selvagens” no que às regras da sociedade da época diz respeito mas incute-lhes um sentido de dever, responsabilidade, de moral e de cavalheirismo fabuloso. Educar pelo exemplo, algo que está demasiado esquecido hoje em dia.

Scout, uma menina maria-rapaz de 7 anos admira o pai e o irmão acima de tudo e com eles aprende a pensar. E conta-nos esta história, com muitas histórias à mistura, com episódios divertidos, com momentos cheios de emoção, conta-nos o horrível com voz doce e uma inocência e confiança inabalável.

Depois de ter lido este livro percebo porque é que é tão famoso, porque se tornou um clássico, porque é tão mencionado em tantos livros e filmes. E é um clássico que apetece ler. Li-o em inglês, o que me causou algumas dificuldades porque está escrito de uma forma muito “oral” e muitas palavras/expressões/contrações de palavras não constam do dicionário, mas tenho a certeza que ainda o vou reler em Português. Li-o em ebook mas ainda o vou comprar em livro físico porque tem mesmo que fazer parte da minha estante.

Este livro mostra-nos o pior da humanidade, fala-nos de preconceito, racismo, maldade pura. Mas dá-nos o maior dos tesouros: a esperança de que a bondade, a honra e o respeito existem e que, de alguma forma, vão conseguindo ganhar o seu lugar na sociedade. A amizade é maravilhosamente contada nestas páginas.

É muito difícil escrever o que quer que seja sobre este livro. Por um lado já tudo foi escrito, por outro não é nada bom elevar as expectativas de um leitor. Mas atrevo-me a dizer que toda a gente devia ler este livro. Que é o livro ideal para que alguém comece a ler. Que devia ser um livro estudado nas escolas. E que vou ter que descobri-lo por cá porque vai ser o meu presente de Aniversário/Natal para muita gente este ano. Adorei, como é óbvio.

No Coração da Tempestade de Jesmyn Ward

Roda Dos Livros, 16.06.14

Talvez por esta história ser narrada por Esch, uma menina de 14 anos, fiquemos tão rapidamente envolvidos nela. Pertencendo a uma família um pouco disfuncional desde a morte da mãe (com um pai cada vez mais ausente devido à bebida que ingere), Esch e seus três irmãos preocupam-se com aspectos das suas vidas que têm a ver com o amor que sentem uns pelos outros, a necessidade de se alimentarem com os escassos recursos que possuem, a gravidez inesperada de Esch, a ninhada que a cadela Pit Bull teve, os amigos... Ao longe vão-se apercebendo que um furacão vai passar por ali, sobretudo porque o pai tenta arranjar forma de proteger a casa. O Katrina vem a caminho mas eles nunca tomaram consciência de quão grave poderia ser...

As suas disfuncionalidades como família, mas também o amor que os une, são apresentados ao longo desta obra. Por isso não se lê com ligeireza. A pobreza, a vários níveis, é realçada e doi. Doi ao ler. Embora a escrita seja fluída e fácil, o conteúdo é de uma dureza implícita que nos impressiona. Muitas partes da história ficam em aberto mas facilmente são previsíveis e o leitor pode antecipar o que fica por contar. Mesmo depois do final.

Estrelas: 5*-

Sinopse

Observando Esch, ninguém poderia adivinhar que um grande furacão, o Katrina, ameaçava seriamente a sua vida…

Ela tem apenas 14 anos e maravilha-se com tudo o que lhe acontece: descobrir o amor e ficar grávida, por exemplo, ao mesmo tempo que a cadela Pit Bull China tem uma ninhada de cães que traz uma grande alegria aos seus três irmãos: Júnior, o mais novo e curioso de todos, Skeetah, que admira aqueles cães como forças da natureza, e Randall, que espera obter com a venda da ninhada os meios para seguir uma carreira no basquetebol.

Os avisos de um furacão cada vez mais poderoso a formar-se ao largo do Golfo do México e em rota de colisão com a região pobre de Bois Sauvage, onde Esch vive, só lhe chegam como rumores vagos, principalmente do pai ausente e frequentemente bêbedo, em constante alvoroço entre alguns biscates e o recolher de materiais para fortificar a casa contra o cataclismo que se avizinha.

Pode esta família de crianças sem mãe, e de pai distante, continuar a viver os seus sonhos e fantasias no meio da pobreza e sob a ameaça de um desastre natural?

O amor que os une é praticamente o único recurso que possuem e a força da sua inocência terá de vencer a força do furacão.

Um romance magistral, que venceu em 2011 o National Book Award, o principal prémio literário dos Estados Unidos.

 

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