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Roda Dos Livros

Uma espia no meu passado - Lucinda Riley

Roda Dos Livros, 31.05.14

umaespianomeupassadoComo pode uma pessoa compreender o presente se não conhecer o passado?

É com base nessa premissa que a autora entrelaça duas histórias, em duas épocas distintas, com duas mulheres como protagonistas, para uma maravilhosa narrativa com um emocionante enredo e personagens profundamente humanas.

Para quem viveu aquela época terrível da Segunda Guerra Mundial, não é fácil encarar o passado de um modo frio e desligado ou sequer de uma perspetiva lógica como acontece às novas gerações, saturadas de ler e ouvir falar daquele tempo, mas que ainda assim teve repercussões no futuro, como sucedeu com a família aristocrata de la Martinières.

Rivalidades e invejas traçaram também o destino de irmãos em ambas as épocas, como foi o caso de Sebastian e Alex, netos de Constance Carruthers, em 1999, bem como de Frederik e Falk em 1943.

Lucinda Riley consegue tecer histórias de muitas páginas que se lêem num ápice, tal o encantamento a que sujeita os seus leitores, com narrativas vibrantes de mistério, intriga, aventura e ação, ainda que um tanto romanceadas. Personagens carismáticas, representativas do Bem e do Mal, que evoluem no desenrolar da trama. Contudo, não as achei muito consistentes em determinadas peripécias. Apreciei particularmente o Alex, como bom analista das personalidades que o rodeavam, tendo avaliado que Émile não correspondia ao arquétipo de mimada e autoconfiante, mas antes repudiava o brilho, o glamour e os excessos que protagonizaram a vida da sua mãe, relegando-a para um segundo lugar, sentindo-se pouco amada e ignorada e assim vulnerável a um oportunista mentiroso.

Por tudo isto, uma autora a reter e um romance a ler.

Sinopse:

Côte d`Azur, 1998. Émilie lutou sempre contra o seu passado aristocrático. Agora, com a morte da mãe, é obrigada a confrontá-lo pois é a única herdeira do imponente castelo da família. Mas com a casa vem uma pesada dívida e muitas interrogações: qual era a finalidade do quarto secreto que descobre por baixo da adega? Quem é a misteriosa Sophia, que assina um comovente caderno de poemas? Quem foram os protagonistas da trágica paixão que mudou o curso da história da família?

Londres, 1943. Em plena Segunda Guerra Mundial, a inexperiente Constance Carruthers é recrutada pelos serviços de espionagem britânicos e enviada para Paris. Um incidente separa-a do seu contacto na Resistência Francesa, obrigando-a a refugiar-se junto de uma família aristocrata que entretém membros da elite de Hitler ao mesmo tempo que conspira para libertar o país. Numa cidade repleta de espiões e no auge da ocupação nazi, Constance vai ter de decidir a quem confiar o seu coração.Constance e Émilie estão separadas por meio século mas unidas por laços que resistiram à força demolidora do tempo. Os segredos que o passado encerra pulsam ainda em busca de redenção.

Enquanto Houver Estrelas no Céu - Kristin Harmel

Roda Dos Livros, 28.05.14

enquantohouverestrelasnoceuMA-RA-VI-LHO-SO.

Profética frase na capa "Enrosque-se no sofá com uma chávena de chá, um bolo e devore este livro - vai adorar."
Esta é a história de um amor profundo entre um homem e uma mulher, e desse modo, a história de uma família, quando o presente encontra o passado e tantos segredos e mentiras se revelam. Novos começos, doces como todas as receitas de Marnie e Hope, e muito comoventes, embrulhados com muito amor.
Uma lição que a Humanidade devia aprender. Não é a religião que divide o Homem. É o Bem e o Mal que ele pratica na Terra. Todos falamos ao mesmo Deus.
No fim da vida de Rose, o passado vem acossá-la e nos momentos de lucidez sabe que tem que descobrir tudo sobre o desaparecimento dos seus durante a Segunda Guerra Mundial, em Paris. Entrega à neta Hope uma lista de nomes, que ficaram gravados no seu coração e escritos no céu. Ela parte em busca do seu legado sem o saber.
Por vezes, a vida complica-se. As circunstâncias seguram-os. As decisões orientam o destino: Mas o coração mostra sempre o norte, e este romance toca-nos na alma e agita emoções e pensamentos enquanto nos debatemos com os nossos próprios valores. Três mulheres que não esqueceremos. Um romance contado a duas vozes, e em dois tempos e lugares distintos. Possivelmente, os sentimentos de pertença acompanham os laços de sangue.
De todos os géneros literários que leio, o romance é o que mais gosto, e neste, entrelaçam-se com mestria, dois tipos. O romance histórico e o contemporâneo, com personagens fortes e de grande coração.
Sinopse:
Desde sempre, Rose, ao entardecer, olhava o céu em busca da estrela da tarde. Era aquela estrela, agora que a sua memória a estava a abandonar, que lhe permitia recordar-se de quem era e de onde vinha; que a transportava para os seus dezassete anos, para uma confeitaria nas margens do Sena. Ninguém conhecia a sua história nem sequer a sua neta, Hope. Num dos seus raros momentos de lucidez sente que é importante falar-lhe de um passado longínquo, que manteve em segredo durante setenta anos e que em breve ficará perdido para sempre.
Munida de uma lista de nomes e de fragmentos de uma vida, Hope parte para Paris em busca de respostas.Para Hope esta será também uma viagem de descoberta: de tradições religiosas há muito diluídas, de histórias vividas numa Paris ocupada onde o amor sobrevive e, sobretudo, da sua capacidade de recomeçar e acreditar em si mesma.

Os Aromas do Amor de Dorothy Koomson

Roda Dos Livros, 27.05.14

Já se imaginaram a serem atacadas por várias frentes e nem saberem onde fixar a vossa atenção? Pois foi assim que me senti... Completamente bombardeada pela imaginação desta autora! Passo a explicar:Dorothy sabe como uma história tem de ter diferentes e diversas frentes para não se tornar monótona nem enfadonha. Para quem goste de romances, como eu, vai adorar este livro. O mistério começa logo no início, não se cingindo a um único aspecto. As surpresas são constantes e abordando questões tão comuns nos dias de hoje, a autora sabe como nos manter interessados durante as muitas/poucas páginas deste livro. Quase quinhentas páginas foram lidas num ápice! Num dia e meio devorei e soube-me mesmo a pouco, pouquíssimo mesmo.Como se aceita a morte de alguém que amamos quando essa vida nos é tirada bruscamente por um assassino que não sabemos quem é nem a razão pela qual agiu assim? E se ele nos ameaçar, de igual modo, fazendo perigar a nossa vida e a dos nossos filhos? Como continuar quando nos dizem que a nossa filha adolescente está gravida e ela simplesmente não fala connosco? Como se assumem as nossas dificuldades e as nossas lutas pessoais e físicas quando outros seres mais frágeis precisam de nós? E se os nossos traumas de infância nos impedem de viver a vida com sabedoria? Como podemos voltar a amar sem esquecer o nosso grande amor que não se encontra mais aqui?É com verdadeira mestria que a autora nos atira para este mar revolto de sentimentos e nos subjuga completamente a uma história que queremos que não termine nunca. Recomendo!Terminado em 25 de Maio de 2014Estrelas: 5*+Sinopse

Procuro a combinação perfeita de aromas; o sabor que eras tu. Se o encontrar, sei que voltarás para mim.

Passaram-se 18 meses desde a morte de Joel, o marido de Saffron, e o culpado nunca foi descoberto.

Agora, fazendo os possíveis para lidar com a perda, Saffron decide terminar Os Aromas do Amor, o livro de receitas que Joel tinha começado a escrever antes da sua trágica morte.
 
Quando, finalmente, tudo parece ter voltado à normalidade, a filha de 14 anos de Saffron faz uma revelação chocante que abala a relação entre ambas. E, ao mesmo tempo, cartas misteriosas lançam uma nova luz sobre a morte de Joel.
 

Será um grande amor capaz de sobreviver à maior das perdas?

"Memórias de um Amigo Imaginário" de Matthew Dicks

Roda Dos Livros, 26.05.14

Original, cativante e comovente! Seriam estas as palavras que escolheria se tivesse de adjectivar este livro.O narrador é um menino imaginário, Budo de seu nome. Não existe para os outros a não ser para o seu criador: uma criança autista. Tentando manter uma escrita divertida, inocente até, vamo-nos apercebendo das pequenas dificuldades por que passa o pequeno Max e também quem o rodeia, seus pais e professores. Subtilmente, com uma escrita fluída mas simultaneamente quase infantil, vamo-nos prendendo a este enredo aparentemente simples. Sentimo-nos "dentro" de Max, dos seus pensamentos, das suas dificuldades., através do seu amigo imaginário, Budo.Budo é um amigo imaginário muito completo. Max imaginou-o assim, igual a um menino de verdade. Budo encontra outros amigos imaginários bastante diferente dele. Tal como foram imaginados pelos outros meninos. Budo vê o mundo que o rodeia com a inocência das crianças mas sabe que Max tem algumas particulariedades que o tornam aos olhos dos outros um menino "diferente". Na escola vive isolado, sem amigos. Em casa, apesar do amor que os pais lhe têm, é-lhe pedido mais e mais... Mais do que Max consegue dar. A vida e existência de Budo está dependente de Max. Até quando é que ele vai continuar a acreditar que Budo existe de verdade?Perante uma situação de emergência, Budo hesita: deve ajudar Max, incitando-o para que tome as suas decisões ou deixá-lo manter-se "no mundo do faz de conta", não fazendo perigar a sua curta vida de amigo imaginário? A verdadeira amizade toma aqui proporções intensas: até que ponto pensamos mais no nosso amigo do que em nós próprios?Uma história que atrai os nossos sentidos, levando-nos, de surpresa em surpresa, a reflectir sobre o que vale a pena nesta vida. Realmente.Estrelas: 5*Sinopse

O meu nome é Budo. Existo há cinco anos. Cinco anos é muito tempo para alguém como eu. Foi Max quem me deu o nome. Max tem oito anos. Max é o único ser humano que consegue ver-me. Sei aquilo que Max sabe e algumas coisas que não sabe. Sei que Max corre perigo. E sei que sou o único que pode salvá-lo." Uma calorosa história de amor, lealdade e poder de imaginação; um romance perfeito para quem já teve um amigo - verdadeiro ou não.

 

A última noite em Lisboa, de Sérgio Luís de Carvalho

Roda Dos Livros, 25.05.14

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A Lisboa da segunda guerra mundial fascina-me. A mistura entre o provincianismo das nossas gentes, fechadas ao mundo por uma ditadura que, ainda assim, conseguiu livrar esta gente das piores agruras da guerra, com a cultura, a inteligência e a beleza dos refugiados e dos espiões parece-me perfeita para as páginas dos livros. Afinal a verdade é que Lisboa se tornou um palco privilegiado dos bastidores da Segunda Guerra Mundial.

 

Começam a aparecer os romances com este pano de fundo. Quem me conhece sabe da minha paixão pelo “Uma companhia de estranhos” de Robert Wilson e da minha desilusão com o “Enquanto Salazar dormia” de Domingos Amaral. A primeira coisa que me atraiu neste “A última noite em Lisboa” foi a capa que me fez pegar no livro, ler a sinopse e decidir que queria ler aquele livro.

 

E ainda bem que o fiz. Gostei muito.

 

Ao contrário do “Uma companhia de estranhos” esta história não se centra no desempenho dos espiões, da contra-espionagem, da rede de informação e contra-informação que por cá foi construída. Mas essa parte não deixa de fazer parte deste romance. Está lá, em pano de fundo. Tal como o glamour das festas, das estreias, dos casinos, dos bares. Tal como as meias de seda e as pernas bem torneadas das refugiadas (coisa nunca vista nas ruas Portuguesas), tal como a luz de Lisboa, os apitos dos elétricos e as iscas, com e sem elas.

 

Mas, acima de tudo, nestas páginas transborda a tristeza dos que por aqui passaram, a dor que comoveu os Portugueses que, na sua maioria, partilhou com generosidade o pouco que tinha.

 

O protagonista masculino, Henrique, cresceu ao longo da história. De um parolo inteligente que trabalha num jornal pró-nazi transforma-se num homem generoso e corajoso ao conhecer a bela e misteriosa Charlotte. Charlotte, uma refugiada austríaca, com ligação a um ex-prisioneiro de guerra comunista (e que, naturalmente, se torna combatente na guerra civil Espanhola) é uma mulher com um passado que não partilha facilmente, cujas intenções não são claras e que vem destabilizar a relação de Henrique e Maria Carolina.

 

Dos três protagonistas destaco Maria Carolina que, para mim, representou muito bem Portugal. Provinciana, pobre, honrada, bondosa, curiosa, corajosa. O que esta mulher cresceu ao longo do livro! Tal como Portugal que, com a convivência com todos os que por aqui passaram, soube crescer, aprender, absorver cultura, coragem e beleza.

 

Mas mais do que a Estória eu gostei da História neste livro. Gostei dos pormenores que o escritor usou para nos descrever a Lisboa, o ambiente que se vivia. A mistura entre realidade e ficção é perfeita. Adorei e recomendo.

 

 

Morte nas Trevas - Pedro Garcia Rosado

Roda Dos Livros, 25.05.14

Capa Morte nas TrevasEste é o terceiro livro que leio de Pedro Garcia Rosado. Apenas li os mais recentes, publicados pela Topseller, a quem tenho de dar os parabéns por apostar forte não só no autor mas também num género que tem muitos seguidores por cá mas que, estranhamente, parece não haver quem escreva. Ou então haverá uma síndrome qualquer inexplicável por parte da maioria das nossas editoras, do género daquela aversão estranha que todas acabam por ter aos contos.

Há público. Leitores bem informados que lêem o que de melhor se faz por esse mundo fora, de literatura policial, suspense, thriller, ou o que lhe queiram chamar. Por cá sinto que continua a haver algum preconceito por serem considerados livros de puro entretenimento, e os livros ainda continuam a ser vistos e lidos por alguns como uma forma de elevar o ser humano a um pódio qualquer de erudição. E é verdade. Mas deve haver livros para todos os leitores. E, principalmente, cada leitor deve saber apreciar de tudo. É o que tento fazer cá na minha modesta biblioteca.

Pois este livro é simplesmente genial, sem dúvida o meu preferido dos três livros que li, e que, apesar de sentir que vou fazer o caminho inverso, quero ler os outros livros do Pedro. E já são dez romances editados. Que eu, ou sou muito distraída, ou as editoras anteriores não foram lá muito felizes no trabalho de divulgação.  Gosto de policiais, confesso. Gosto dos nórdicos, pela frieza e pelo extremismo, pelas situações limite e pelo horror sem pejo. Gosto do choque e da surpresa. O Pedro está no patamar desses mais falados, que não vou citar porque não precisam, já toda a gente sabe quem são. Gostaria de ver traduções destes seus livros, sinceramente penso que merecem projecção internacional, e podem muito bem passar para o grande ecrã.

Não vou falar sobre este livro. Quem gosta de policiais não quer saber. Quer ler, descobrir, ser surpreendido e assustar-se a cada página.

Mas preparem-se para as trevas, que o aviso das cenas chocantes na capa não é brincadeira. Eu cá ainda sinto o cheiro da morte.

Sinopse

“Gabriel Ponte está finalmente decidido a dedicar-se à investigação privada, pondo fim à inatividade a que uma reforma antecipada da Polícia Judiciária o condenou.O seu primeiro trabalho como detetive particular consiste em encontrar duas mulheres desaparecidas em Portugal, a pedido de um homem e de uma mulher de origem romena, antigos agentes da Securitate, a polícia política do ditador Ceausescu.A sua investigação vai conduzi-lo a um confronto com um industrial romeno que cria porcos numa zona rural do concelho de Caldas da Rainha, e que esconde, afinal, segredos hediondos. À medida que avança neste caso, que vai pôr em risco a vida da sua própria família, Gabriel Ponte recebe a ajuda inesperada de um ex--oficial do KGB e das forças especiais russas, ao mesmo tempo que se torna o alvo da atenção de um inspetor da PJ, obcecado pela justiça.”

Topseller, 2014

Mal Nascer, de Carlos Campaniço

Roda Dos Livros, 25.05.14

Mal Nascer

Santiago Barcelos, médico por sorte ou fado do destino, regressa à terra que o viu "mal nascer". Quais serão as motivações que o levam a regressar a esta terra, a esconder a verdadeira identidade e a fingir-se amigo dos que tanto mal lhe fizeram?

Este é um romance escrito a dois tempos e se por um lado acompanhamos um homem de sucesso por outro conhecemos a vida do menino que foi um dia. Com uma escrita cuidada mas fluída a vida de Santiago, os seus pensamentos, crenças e pesadelos são-nos expostos e o presente alterna com o passado de uma forma interessante.

No inicio do século XIX o Alentejo era quase um país diferente de Lisboa. Mas até por lá se sentia a disputa entre D.Pedro e D. Miguel pelas rédeas deste nosso país. Confesso que adoraria ter visto desenvolvida esta guerra que dividiu o país entre 1828 e 1834. Mas a história que Campaniço nos conta centra-se sobretudo nos sentimentos e nas relações entre as pessoas.

Confesso que foram os capítulos mais negros, da infância de um menino e da sua mãe que mais me interessaram. Não senti qualquer empatia (ou simpatia) com o homem em que Santiago se tornou. Mas sofri com o menino que foi.

Para quem gosta de romance, aqui está uma boa escolha para umas horas de leitura. Para os que, como eu, não são muito fãs de romance, aconselho a que arrisquem a leitura de um outro livro do escritor “Os demónios de Álvaro Cobra”, que será certamente uma das minhas próximas leituras.

Os Idealistas - Zoë Heller

Roda Dos Livros, 25.05.14

osidealistasTenho lido alguns livros sobre lares disfuncionais e famílias imperfeitas, mas penso que nenhum com um sentido crítico tão acutilante e uma ironia tão lapidar como “Os Idealistas” de Zoe Heller.

Se já tinha gostado da escrita e estilo da autora em “Diário de um escândalo”, é com “Os Idealistas” que revela, a meu ver, uma capacidade de análise e de exposição admiráveis.

Audrey e Joel conhecem-se numa festa em 1962 e de imediato iniciam uma relação que os leva numa viagem por um casamento de quarenta anos. Ambos com ideais políticos e religiosos muito vincados, e activistas das suas convicções, vivem num caos doméstico delirante e em constante conflito com todos os que se opõem ao seu modo de analisar a realidade.

Possivelmente o casal menos apto a ter filhos, na medida em que simplesmente a maternidade/paternidade não se enquadra com as suas personalidades. É em Audrey que esta limitação é mais vincada, pois que para Joel tudo é bastante indiferente desde que possa lutar no tribunal a defender aqueles que todos condenam, numa posição marcadamente oposta e conflituosa com a sociedade.

O sentimento maternal (ou falta dele) de Audrey é descrito de forma genial por Zoe Heller, que consegue provocar um sentimento de desprezo e ódio no leitor em relação à mãe, ao mesmo tempo que explica os motivos das suas atitudes, e me deixou a destilar um misto de ódio e compreensão pela detestável Audrey.

O casal tem duas filhas biológicas e um filho adoptado. Rosa segue o chamado religioso das suas origens judias e é completamente arrasada pelos pais, ateus convictos, num total desrespeito e desprezo pelas suas opções. Karla é uma obesa que adora comer e a quem a mãe trata de forma deplorável por ser gorda, ou talvez porque a trataria de forma deplorável de qualquer forma. Com uma mãe rígida e autoritária que não admite ideias diferentes das suas e um pai que simplesmente se está nas tintas, Rosa e Karla procuram o seu caminho numa solidão familiar aterradora. Quando adoptam Lenny, Audrey sente pela primeira vez o que pode ser uma pequena centelha de amor maternal. Curiosamente (ou não) este filho torna-se um toxicodependente problemático, que abusa da margem de manobra que tem de, inexplicavelmente, ser o filho favorito, manipulando Audrey de forma tão flagrante que por vezes me senti estranhamente “vingada” pelas atrocidades cometidas com as duas filhas.

“Até esse momento na sua vida, Audrey nunca mostrara o menor sentimentalismo por crianças. Na medida em que as identificava como pertencentes a uma categoria independente de ser humano, tinha a tendência para as considerar como estagiários humanos. (…) Ainda se sentia algo chocada com o servilismo da maternidade – a servidão pura a gratuita envolvida. Toda a limpeza das porcarias, pelas quais não era responsável, e a preparação de refeições que não lhe apetecia comer. Alimentava as suas raparigas regularmente, e lavava diligentemente os seus dentes duas vezes por dia, e assegurava-se que estavam mais ou menos adequadamente vestidas para as estações do ano mas, para além de um sentimento amorfo de satisfação por ter cumprido as suas funções maternais, não tinha qualquer prazer no desempenho destas tarefas. (…) Nunca sentira remorsos pela sua falta de zelo maternal. Pensava que esta sua atitude pela maternidade era a resposta sensata. (…) Mas algo tinha mudado na noite que encontrara Lenny no apartamento de Harlem.” (págs. 161/162)

Quando Joel tem um AVC no tribunal, em plena sessão de um julgamento, e entra em coma sem perspectivas de recuperação, Audrey descobre que o marido lhe foi frequentemente infiel, e que teve um filho com outra mulher. É então que este livro se revela a história do desmoronar do mundo de Audrey, e a sua caminhada em sofrimento pelas atrocidades que enfrenta, revelando a sua força ao manter a sua postura de mulher detestável perante os outros, mas sofrendo terrivelmente de uma forma que nem para si própria admite.

A forma como Heller me fez reflectir sobre as atitudes de Audrey, e sobre a forma que, todos nós, por vezes transmitimos uma imagem oposta ao que na realidade somos e sentimos, deu-me um enorme prazer na leitura deste livro. Diferente, que certamente não agradará a todos, mas que despertou em mim um gosto irresistível por uma escrita pouco óbvia, que por vezes tive de “mastigar” para atingir a pertinência de algumas questões e, acima de tudo, a extraordinária acutilância da autora.

Um título a reter, que recomendaria sem qualquer reserva, não fosse a forma irritante e despropositada como todas as notas fundamentais à compreensão de certas partes da narrativa, são remetidas para o final do livro. Não sei se esta estrutura partiu da autora, da editora ou da tradutora, mas arrasa com um livro que poderia ser perfeito. Dado que esta parte se chama “Notas da Tradutora” sou tentada a considerá-la culpada e gostava de saber se tem alguma coisa contra as notas de rodapé.

Sinopse

“Quando Audrey descobre um segredo devastador sobre o seu marido, um advogado nova-iorquino activista político, vê-se forçada a reavaliar todas as suas certezas em relação a um casamento de quarenta anos. Mas também os filhos do casal verão as suas vidas abaladas pelo súbito terramoto emocional que se vem juntar aos muitos dilemas que já lhes perturbam os dias e que desencadeia, em cada um deles, uma crise de identidade. Uma farsa familiar hilariante e negra, onde tragédia e comédia se entretecem numa malha subtil e sarcástica, que fascina desde logo o leitor pela forma soberba como as personagens surgem iluminadas e pela perspicácia com que Zoë Heller se move nas áreas mais profundas e desconfortáveis da natureza humana.”

Presença, 2011

“Os transparentes” de Ondjaki

Roda Dos Livros, 24.05.14

Ondjaki

Durante a leitura de “Os transparentes” senti-me, não como tal, mas invisível, vagueando e acompanhando as deambulações e as vidas das pessoas através daquela Luanda agitada e caótica. Nesta cidade descrita por Ondjaki sobressaem, a resiliência, a força de viver e a criatividade de um povo alegre, persistente e, maioritariamente, optimista que incessantemente inventa mil e uma formas para sobreviver. Isto apesar da corrupção, da prepotência e da violência que nos são apresentadas em discurso mais do que directo, por vezes disfarçadas de eufemismos mirabolantes ou, pelo contrário, desbragada e impudicamente óbvias. Não conheço Luanda, não sei até que ponto este será, ou não, ou sequer se pretende ser um retrato fiel da sua realidade actual. Sei apenas que este livro possui, a meu ver, a marca distinta de um verdadeiro contador de histórias, de alguém capaz de capturar a nossa atenção desde as primeiras linhas. Sei também que a luz e que a escuridão características do espírito humano assim como a iníqua e injusta sociedade retratadas não são exclusivas de Luanda, nem de Angola, nem de qualquer outro país mas sim globais, mais ou menos patentes ou dissimuladas, conforme o ponto do planeta em que nos encontremos.Esta foi, pois, uma leitura provocadora, uma chamada de atenção aguda e premente, para a realidade de um país que, salvo as devidas proporções, não será, se calhar, assim tão diferente da nossa; uma agitadora de consciências, talvez demasiado acomodadas a um quotidiano em que as necessidades básicas da vida não constituem problemas diários. Mas este é também um livro que desencadeia o riso, a tristeza, a nostalgia e, até mesmo, a raiva. Um romance permeado por uma força enorme e por emoções imensas difíceis de esquecer. Para ler e pensar.

Uma nota final relativa à edição da Caminho: preferia que tivessem optado pela colocação de notas de rodapé que são muito mais cómodas para o leitor do que pela inclusão de um glossário no final do livro. Além disso, este revela-se parco pois não inclui várias palavras em línguas angolanas que se encontram ao longo do livro.

Excertos:“era um prédio, talvez um mundo,para haver um mundo basta haver pessoas e emoções. as emoções, chovendo internamente no corpo das pessoas, desaguam em sonhos, as pessoas talvez não sejam mais do que sonhos ambulantes de emoções derretidas no sangue contido pelas peles dos nossos corpos tão humanos. a esse mundo pode chamar-se “vida”.....nós somos a continuidade do que nos cabe ser. a espécie avança, mata, progride, desencanta, permanece. a humanidade está feia- de aspeto sofrido e cheiro fétido, mas permaneceporque tem bom fundo.”

“um homem come menos para dar de comer aos filhos, como se fosse um passarinho...e aí me vieram as dores de estômago...e as dores de dentro, de uma pessoa ver que na crueldade dos dias, se não tem dinheiro, não tem como comer ou levar um filho ao hospital...e os dedos começaram a ficar transparentes...e as veias, e as mãos, os pés, os joelhos...mas a fome foi passando: foi assim que comecei a aceitar as minhas transparências...deixei de ter fome e me sinto cada vez mais leve...estes são os meus dias...”

“...durmam enquanto vos anestesiam com doses de suposta modernidade! é carros lindos, é internetes que nem funcionam, é marginal nova com prédios construídos em areias dragadas sem pedir licença à Kianda, é furar o corpo da cidade sem querer ouvir os outros que já furaram o corpo das cidades deles, onde não deu certo...ouçam bem, seus dorminhocos, lá não deu certo, e aqui, porque somos estúpidos, cegos e coniventes, isto é, porque somos globalmente corruptos, aqui a cidade vai ser furada, a água vai ser privatizada, o petróleo vai ser sugado sob as nossas casas, os nossos narizes, e as nossas dignidades...enquanto os políticos fingem que são políticos...enquanto o povo dorme...enquanto o povo dorme...”

“ainda assim, o Partido no poder entende que, em Angola, não se vive o momento apropriado para as fulminantes celebrações que se avizinham – o Presidente tossiu levemente – assim sendo, e dado o recente passamento da camarada Ideologia, um dos pilares morais e cívicos da nossa nação, o Partido no poder decidiu cancelar quaisquer celebrações coletivas, propondo um período de três dias de luto nacional. nesse quadro, e imbuído dos poderes que me assistem, venho por meio comunicado afirmar que Angola anuncia ao país e ao mundo o cancelamento, repito, o cancelamento total do eclipse anunciado para os dias próximos. (...) a partir deste momento o Partido declara inteiramente cancelado o tão esperado eclipse total!”

O jogo de Ripper - Isabel Allende

Roda Dos Livros, 24.05.14

ojogoderipperMistério e suspense no romance de Ripper.Os membros de Ripper eram um exclusivo grupo de freaks que comunicavam pela Internet para encurralar e destruir o misterioso Jack, o Estripador, ultrapassando obstáculos e vencendo os inimigos que apareciam pelo caminho. Cada um deles, criou uma personagem para si mesmo enquanto jogador, e aproveitou as suas aptidões quando o local de ação se transferiu para São Francisco em 2012. Amanda Martin, de 17 anos, dirigia e coordenava o grupo com os préstimos do esbirro, seu avô. Inteligente e arguta, cedo Amanda desenvolveu uma reprovável curiosidade pela maldade em geral e pelo homicídio em particular, consequência de ser uma leitora voraz, com os perigos que isso implica. O facto de o pai ser o chefe do Departamento de Homicídios de São Francisco contribuiu para o pernicioso interesse com o conhecimento das malfeitorias que aconteciam na cidade, lugar idílico que não convidava ao crime.Não li muitas das obras de Isabel Allende e como tal, não posso ser incluída no seu clube de fãs, mas do que li apreciei bastante. Este romance que foge ao realismo mágico em que é exímia, proporcionou-me momentos de leitura verdadeiramente empolgantes. O tom irónico e critico não me passou despercebido.Empatia pelas personagens ou a inquietação de querer desvendar mais do que então sabia sobre os crimes tornaram esta leitura viciante. Numa escrita fluída e ritmada, a autora revelou gradualmente e na medida do meu interesse tudo o que precisava saber sobre as personagens que tão bem caraterizou ou a trama.Curiosamente, adorei a personagem Indiana, a generosa e altruísta "bruxa" boa que arrasava corações, enquanto outras duas personagens que lhe eram chegadas me incomodavam sobejamente, ainda sem imaginar a participação que teriam. O ser surpreendida foi talvez o mais gratificante desta estória bem construída, mas outros aspectos já referidos a tornaram um prazer de ler.Sinopse:Indiana e Amanda Jackson sempre se apoiaram uma à outra. No entanto, mãe e filha não poderiam ser mais diferentes. Indiana, uma bela terapeuta holística, valoriza a bondade e a liberdade de espírito. Há muito divorciada do pai de Amanda, resiste a comprometer-se em definitivo com qualquer um dos homens que a deseja: Alan, membro de uma família da elite de São Francisco, e Ryan, um enigmático ex-navy seal marcado pelos horrores da guerra.

Enquanto a mãe vê sempre o melhor nas pessoas, Amanda sente-se fascinada pelo lado obscuro da natureza humana. Brilhante e introvertida, a jovem é uma investigadora nata, viciada em livros policiais e em Ripper, um jogo de mistério online em que ela participa com outros adolescentes espalhados pelo mundo e com o avô, com quem mantém uma relação de estreita cumplicidade.Quando uma série de crimes ocorre em São Francisco, os membros de Ripper encontram terreno para saírem das investigações virtuais, descobrindo, bem antes da polícia, a existência de uma ligação entre os crimes. No momento em que Indiana desaparece, o caso torna-se pessoal, e Amanda tentará deslindar o mistério antes que seja demasiado tarde.

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