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Roda Dos Livros

"A Casa Negra" de Peter May

Roda Dos Livros, 30.04.14

Fantástica esta leitura! Recomendo muitíssimo! Confesso que ao olhar para a capa fiquei com a ideia que iria ler algo de muito negro mas, mesmo assim, senti uma atracção irresistível... A capa faz todo o sentido e as descrições são de tal forma reais que visualizamos todos os momentos deste livro. Preparem-se porque sendo bastante descritivo há momentos que são bastante fortes, quase pesados demais.Mas esta leitura ultrapassou de longe as expectativas que poderia ter do que considero um bom policial! É muito mais do que um policial com "pés e cabeça" e o retrato psicológico das personagens é tão profundo que me maravilhou mesmo até à última frase!Se considerarmos e admitirmos a hipótese que o ser humano possui, dentro dele, um lado negro que o leva a fazer coisas inimagináveis e horriveis, então estamos preparados para pegar nesta obra.O personagem principal, polícia de profissão, é um homem profundamente marcado pela dor da perda de um filho. Retorna à sua ilha natal porque se suspeita que dois casos de assassínio estejam ligados visto terem ambos o mesmo modus operandi, embora separados fisicamente por muitas léguas. É um homem que retorna ao passado e a recordações que esperava poder fugir, muito embora o presente também não lhe tivesse trazido nada de bom... As recordações de alguns acontecimentos que marcaram a sua infância e a sua adolescência misturam-se com os acontecimentos do presente, dos amigos que conhece ou julga conhecer e da busca do assassino. Abrangendo vários problemas relacionados com o isolamento sentido por quem vive numa ilha pequena, o autor mistura lendas e costumes de ilhas escocesas com factos que, não sendo verídicos, poderiam muito bem ter acontecido... como por exemplo, o facto do ser humano conseguir apagar da sua mente acontecimentos que o marcaram profundamente, o oprimiram e o reduziram na sua condição humana.Para além de ser um bom policial, daqueles que dificilmente conseguimos descortinar o final, esta obra atraiu-me, sobretudo, pelo retrato psicológico excepcionalmente bem constituídos dos personagens envolvidos.Passado e presente entrelaçam-se numa história soberba que me deixou, literalmente, pregada às páginas deste livro. Até mesmo à última frase!Estrelas: 6*Sinopse

A Ilha de Lewis é o local mais desolador e austeramente belo de toda a Escócia. A rigidez da rotina diária apenas é mitigada pelo temor a Deus. Quando um assassinato sangrento cometido na ilha revela marcas semelhantes a um caso de Edimburgo, o detetive da polícia Fin Macleod é enviado para norte, para o investigar. Todos os anos, doze homens da ilha, alguns dos quais amigos de infância de Fin, partem para um remoto e traiçoeiro rochedo chamado An Sgeir, numa perigosa epopeia para caçarem as crias de uma ave marinha local. Este é, acima de tudo, um ritual de passagem que é ferozmente defendido contra todos os pressupostos da moralidade moderna. Mas, para Fin, a caça encerra memórias dolorosas, que podem, mesmo tanto tempo depois, exigir um enorme sacrifício. A Casa Negra

é um thriller com um poder e uma visão raros. É um mistério criminal que explora as sombras das nossas almas, num local onde o passado está sempre perto da superfície e a vida mistura os mitos e a História. 

Despedida de Casado - Virgílio Castelo

Roda Dos Livros, 28.04.14

despedidadecasadoJá deveria ter partilhado a minha opinião sobre este livro há alguns dias, mas não sei bem porque não o fiz. Talvez porque não seja fácil formar uma opinião sobre ele. Com ligeireza, posso apontar o que tem de melhor, mas não posso ignorar o que menos apreciei e que suscitou uma leitura de altos e baixos. Momentos de interesse e envolvimento com alguns de desanimo e aborrecimento, a que a minha predisposição e abordagem não são certamente alheios.Quando deparei com este livro, reparei na capa que achei atractiva e no título que me pareceu sugestivo e sem ler a sinopse pensei que, seria sobre a complexidade das relações afetivas. Mais do que entretenimento, que em determinados momentos também não prescindo, procuro leituras enriquecedoras e gratificantes, sem qualquer critério específico. Com a sinopse fiquei convencida mas, hesitei quando confirmei pela foto da contracapa quem era o autor. Depois, fiquei envergonhada por essa fraqueza.Não é uma leitura fácil ou leve, sequer fluída, apesar de muito bem escrito. Sentimentos intensos numa relação tóxica e desequilibrada. Uma tragédia amorosa quando se aproxima o fantasma do divórcio depois de sete anos de matrimónio entre duas personagens mediáticas. A vertigem do sexo adiou o inevitável desfecho. Um final imprevisível, se considerarmos a tentativa de suicídio protagonizado nas primeiras páginas, mas que muito me agradou.Apesar de o autor negar, talvez tenha algo de biográfico. Li "em diagonal" uma entrevista numa qualquer revista semanal e o conceito de felicidade que definiu captou-me a atenção. quando li este fragmento."Sempre achara ser feliz um objetivo infantil e quase estúpido, na medida em que só um alheamento total do mundo à nossa volta, poderíamos, talvez, atingir um estado de maravilhamento permanente, capaz de nos fazer detentores desse privilégio divino: parar o tempo, definir o espaço, e inventar o modo. Mas, apesar de a humanidade ter vindo a conquistar cada vez mais céu, de há milhões de anos para cá, a verdade é ainda mais prosaica: é muito difícil sermos deuses, por mais que a gente o queira, ou até mereça."  (pag. 237)Um romance que não é consensual. Tanto pode ser muito apreciado pelo leitor como nem tanto. O enredo foi o que menos me cativou mas a escrita cuidada valorizo e admiro.Sinopse:

Morrer por amor. Numa fria madrugada, num ato de loucura, João e Beatriz decidem suicidar-se para eternizar o seu amor, tornando-o assim perfeito. Imortal. Na escuridão da planície alentejana entram nos seus carros e aceleram vertiginosamente um contra o outro. Mas João, no último momento, decide reescrever o seu destino.

Para isso será necessário uma despedida. Do casamento, de Beatriz, de uma relação perigosa, baseada na obsessão e no ciúme descontrolado. Despedir-se sem olhar para trás e partir numa longa viagem em busca de si próprio, da sua essência e de uma nova forma de amar, até agora desconhecida. Um amor puro, sem sofrimento, nem ameaças, capaz, quem sabe, de o fazer verdadeiramente e apenas feliz.

"Até ao Fim do Mundo" de Maria Semple

Roda Dos Livros, 28.04.14

Li com um agrado crescendo este livro. Nas primeiras páginas achei que seria uma leitura agradável, embora meio estranha! Mas logo me passou essa sensação... Passo a explicar: o narrador vai sendo constantemente alterado, a forma de nos comunicar a história também muda, o que, à partida pode parecer um pouco confuso. Não é! Desde e-mails, cartas, relatos de algo que nos apercebemos ser um diário, faxes, relatórios, tudo serve para nos retratar uma família muito peculiar que passa, e ultrapassa, situações bem graves por falta de comunicação entre os seus membros. E, se esta forma de escrita pode confundir o leitor nas primeiras páginas, por ser tão variada e por ter vários narradores, logo deixa de constituir um impedimento pois rapidamente nos vemos dentro da trama e a apreciá-la devidamente. Romance com uma escrita divertida e variada, que nos faz pensar como, por vezes, conhecemos mal quem está ao nosso lado! Com mistério q.b., humor e drama misturados, esta é uma leitura que se faz com muito prazer.Terminado em 24 de Abril de 2014Estrelas: 5*Sinopse

A fama de Bernadette Fox precede-a.

No círculo restrito e elitista do design mundial, ela é uma arquiteta revolucionária.

Para o marido, um guru da Microsoft, ela é a prodigiosa e atormentada paixão da sua vida.

Segundo os vizinhos e conhecidos, ela representa uma afronta e uma ameaça.

Mas aos olhos da filha, Bee, ela é, simplesmente, a Mãe.

E um dia Bernadette desaparece. Quando todos parecem reagir à sua ausência com diversos graus de alívio, Bee é a única disposta a tudo para a encontrar. Mas a instável e agorafóbica Bernadette não quer ser encontrada e tem meios e inteligência suficientes para se manter incógnita… mesmo que para tal tenha de encetar uma impossível viagem ao fim do mundo.

Neste retrato de uma mulher pouco convencional, a autora explora a fragilidade e a inadequação das mentes criativas face à voracidade uniformizadora do mundo moderno. A incómoda Bernadette e a sua família disfuncional são paradigmas das relações humanas do século XXI.

  

Livre - Cheryl Strayed

Roda Dos Livros, 27.04.14

[caption id="attachment_4385" align="alignleft" width="222"]Livre Cheryl Strayed Livre Cheryl Strayed[/caption]

Adoro viajar, adoro ler sobre viagens, adoro caminhadas, adorei este livro mas não foi um amor à primeira vista porque a Cheryl começou por me enervar à séria. Quem é que vai fazer uma caminhada de centenas de Km com umas botas novas?! (nem vou falar do facto de não terem o tamanho certo…) E quem vai fazer uma caminhada com uma mochila que nem consegue levantar do chão?! E quem é que leva um fogão com o combustível errado?! E quem é que leva uma cadeira mas só leva 2 pares de meias e um já vai calçado?!

Depois percebi … este livro não é um manual de caminhada nem esta é uma história sobre viajar, pelo menos não no sentido literal. Devia ter percebido isso logo quando se vê que tem um comentário da Oprah na capa do livro mas, distraí-me com a foto das botas de caminhada.

A autora é brutalíssima quando descreve a sua caminhada física pelo PCT – Pacif Crest Trail e quando descreve a sua viagem interior. Quando fala sobre a mãe que morreu de cancro aos 40 e poucos anos e de como o resto da família, e ela própria, se desintegrou quando isso aconteceu. E como os seus pés também quase se desintegraram na caminhada e foi perdendo unhas pelo caminho.

Também é brutal a forma como descreve que dormiu com homens que mal conhecia e experimentou heroína e se divorciou do marido de quem ainda gostava, e que gostava dela, mas que não a podia ajudar porque ela estava para além de qualquer ajuda naquela altura.

Dolorosa é a forma como nos conta que tiveram de abater a égua Lady, já com 31 anos que tinha pertencido à mãe e que, quando esta morreu, ficou sem ninguém para tomar conta dela.

No entanto embora a autora seja crua quando conta a sua história não é amarga e nota-se que reconhece que o PCT – Pacif Crest Trail foi seu “amigo” dando-lhe a oportunidade de conhecer boas pessoas passar por alguns dos locais mais bonitos do continente norte americano e eventualmente atingir o seu objectivo tanto físico, chegar à Ponte dos Deuses, como espiritual, aceitar que a Vida com tudo o que tem de bom e de mau é extraordinária.

Vou só acrescentar que no fim do livro a autora tem uma lista dos “livros queimados no PCT”  e que no fim esta história conquistou-me completamente.

Vidas Surpreendentes, Mortes Insólitas da História de Portugal – Ricardo Raimundo

Roda Dos Livros, 26.04.14

[caption id="" align="alignleft" width="180"] Vidas Surpreendentes Mortes Insólitas[/caption]

“Se este livro contribuir para despertar o interesse por uma ou várias figuras, que são o nosso património histórico, levando o seu leitor a querer aprofundar as informações sobre elas, ou trazer ao seu conhecimento personagens até então pouco iluminadas pela nossa historiografia, então o nosso objectivo pode dar-se como cumprido.” Como refere o autor na introdução e, para mim, o objectivo foi totalmente cumprido e gostei muito de o ler e recomendo entusiasticamente. Foi engraçado lê-lo logo a seguir ao “Homens, Espadas e Tomates” porque me deu toda uma outra perspectiva, acho que mais verdadeira, dos portugueses.

Nem todas as pessoas mencionadas tiveram uma morte insólita, judeus queimados pela “santa” inquisição não era uma morte insólita mas sim bastante vulgar na época, mas todos tiveram uma vida surpreendente sem dúvida.

No entanto, antes de chegar ao conteúdo vou mencionar a forma, este livro tem cerca de 30 páginas de notas que não estão distribuídas pelas páginas onde são mencionadas mas sim no fim do livro, e não são notas daquelas bibliográficas mas sim notas com sumo e conteúdo importantes para o que se está a ler, o que significa que temos – sempre – que ir ao fim do livro ver os micro números e respectivas notas enquanto estamos a ler o livro. É uma seca do caraças. Depois algumas notas, contei 6 num total de 54, têm o nome ou o número trocado e mais umas coisitas pelo meio. Pode não parecer muito mas não abona nada a favor da rapariga que fez a revisão.

Voltando ao que interessa, o conteúdo, fiquei a saber muito sobre várias personagens da nossa história e muitas das quais marcam as nossas ruas, pracetas, rotundas, estações de metro... inclusive sobre Antero de Quental que dá nome à praceta onde vivo. Começa com o Martim Moniz e termina no Joaquim Agostinho. Um dos meus preferidos é o Pedro Hispano ou o Papa João XXI que além de Papa era cientista maluco e fez o laboratório, e a ele próprio, ir pelos ares.

Aqui também contam a vida de Duarte de Almeida, o Decepado, que com muita coragem e mesmo sem mãos nunca deixou cair a bandeira real, contado tal como no “Homens, Espadas e Tomates”, mas que aqui acrescentam: morreu na miséria, esquecido pelo Rei e pelos camaradas de armas.

Achei curioso também como estes dois livros se referem a D. João de Meneses e ao seu envolvimento na morte do príncipe D. Afonso, filho de D. João II. No “Homens, Espadas e Tomates”: “D. João de Menezes, horrorizado por semelhante fatalidade, afastou-se da corte, procurando razão para a continuação da sua existência na defesa das praças portuguesas em África”. No “Vidas Surpreendentes, Mortes Insólitas na História de Portugal”: “D. João de Menezes, certamente receoso de alguma represália, por parte do espírito irascível de D. João II, fugiu sem deixar rasto e só muitos anos mais tarde foi mandado regressar à corte, já com D. Manuel I”. Interessante, não?

Outro tuga, dos meus favoritos, é Bartolomeu Dias. Conhecido por passar do oceano Atlântico para o Índico cruzando o Cabo das Tormentas, morreu naufragado na segunda vez que passou o cabo, quando já sabia o caminho e o cabo já se chamava “da Boa Esperança”...

Temos também D. Pero Fernandes Sardinha enviado pelo Rei para a diocese de S. Salvador da Bahia, Brasil, queria converter os ameríndios à força não os considerando sequer seres humanos. Foi morto e comido num ritual antropofágico por uma tribo dos ameríndios que era suposto converter. Acho que os seus métodos não lhe deram os resultados que esperava...

D. Maria II, para quem se lembra que já tivemos o nosso próprio dinheiro, estava nas notas de 1000 escudos e morreu, aos 34 anos, no parto do seu 11º filho.

D. Francisco da Costa, foi negociar a libertação de 80 fidalgos feitos prisioneiros na batalha de Alcácer-Quibir, libertou-os ficando como garantia e morreu na prisão porque os senhores fidalgos, depois de estarem de volta a Portugal, esqueceram-se dele.

Luís da Câmara Pestana médico, amigo e colega de Ricardo Jorge (o do Instituto), morreu aos 36 anos de peste bubónica porque não usou luvas para obter amostras de cadáveres infectados.

Carlos Burnay da Cruz Sobral, morreu em Moçambique quando tentava caçar o seu 13º leão. Ganhou o leão.

Luísa Todi cantora lírica fez uma carreira internacional estrondosa. Em Portugal precisou de uma autorização especial para cantar em público, o que era proibido às mulheres. Morreu praticamente cega e com grandes dificuldades económicas.

Em resumo são 55 personagens que valem a pena conhecer, algumas ficamos com muita vontade de saber mais. Lendo a história da vida destas 55 pessoas concluo que governantes mesquinhos que usam as pessoas e depois as deixam na prateleira não é de agora, alguns dos nossos melhores artistas serem maltratados e viverem na pobreza também não é de agora e a igreja ser responsável por assar na fogueira pessoas de valor parece ser a única coisa que, felizmente, mudou com o tempo.

A Casa de Papel - Carlos María Domínguez

Roda Dos Livros, 26.04.14

acasadepapelAqueles que não entregam o corpo e a alma aos livros podem parar de ler. Não vale a pena, não vão entender como é possível ser apaixonado(a) por livros.

Quem sente que não pode viver sem a presença constante de livros, sem o seu cheiro, o barulho das folhas, quem gosta de ser muitas pessoas e conhecer locais da forma única que a imaginação permite, não vai ficar a saber nada de novo.

Por isso não vou escrever nem contar nada que quem ama os livros não saiba já. Vou partilhar. Relaxem e inspirem-se. E sonhem com uma casa de papel.

“(…) vivia sozinho na casa da rua Cuareim e devorava quantos livros lhe chegavam às mãos juntamente com inumeráveis pacotes de pastilhas e caramelos que se espalhavam pelo chão dos quartos. O hábito dos caramelos substituía o dos cigarros, que os médicos lhe tinham proibido, e era tão viciante quanto a sua paixão pelos livros, reunidos em compridas estantes que ocupavam os quartos, do chão ao tecto, de ponta a ponta; empilhavam-se na cozinha, na casa de banho, e também no quarto de dormir. Não o original, porque daí fora desalojado, mas no sótão para onde tinha ido dormir, ao lado de uma pequena casa de banho. A parede da escada que até lá conduzia também estava carregada de livros, e a literatura francesa do século XIX velava, digamos, o seu escasso sono.” (Págs.32/33)

“A casa de banho tinha livros em todas as paredes menos na do duche, e se não se estragavam era porque deixara de tomar banho com água quente para evitar o vapor. De Verão ou de Inverno, os duches dele eram de água fria.” (Pág.33)

Sinopse

“Os livros mudam o destino das pessoas: Hemingway incutiu em muitos o seu famoso espírito aventureiro; os intrépidos mosqueteiros de Dumas abalaram as vidas emocionais de um sem-número de leitores; Demian, de Hermann Hesse, apresentou o hinduísmo a milhares de jovens; muitos outros foram arrancados às malhas do suicídio por um vulgar livro de cozinha. Bluma Lennon foi uma das vítimas da Literatura. Na Primavera de 1998, Bluma, uma lindíssima professora de Cambridge, acaba de comprar um livro de poemas de Emily Dickinson quando é atropelada. Após a sua morte, um colega e ex-amante recebe um exemplar de A Linha da Sombra, de Joseph Conrad, em que Bluma escrevera uma misteriosa dedicatória. Intrigado, parte numa busca que o leva a Buenos Aires com o objectivo de procurar pistas sobre a identidade e o destino de um obscuro mas dedicado bibliófilo e a sua intrigante ligação com Bluma.A Casa de Papel é um romance excepcional sobre o amor desmesurado pelas bibliotecas e pela literatura. Uma envolvente intriga policial e metafísica que envolve o leitor numa viagem de descoberta e deslumbramento perante os estranhos vínculos entre a realidade e a ficção.”

Asa, 2010

Homens, Espadas e Tomates de Rainer Daehnhardt

Roda Dos Livros, 25.04.14

 

Homens espadas e tomatesHá já algum tempo que este livro estava na minha lista de leitura, já me tinham falado dele, já o tinha visto na feira do livro embora nunca na altura certa ao preço certo, entretanto vi que um amigo no Goodreads o tinha e cravei-o emprestado.

O livro está dividido em duas partes, a primeira – Os Homens - muito mais interessante com histórias de coragem dos homens portugueses na altura dos descobrimentos e a segunda – As Armas - com uma listagem das armas da época, um bocado secante (a quem emprestou o livro: tinhas razão).

 

Devo referir que tanto a introdução e dedicatória do autor como o prefácio do Arquitecto e Ten. Coronel do Exército Português Armando Canelhas davam pano para mangas ou melhor para camisas inteiras: pátria, monarquia democracia, Deus, União Europeia, perda de soberania, perda da moeda... tudo em meia dúzia de páginas. Para mim o mais estranho foi ver um autor com um nome tão “estrangeiro” falar com tanta alegria e admiração da coragem do povo português.

 

Sobre o livro em si este é uma exaltação à coragem dos portugueses que batalharam e ganharam em muitas situações em que estavam em desvantagem. Os “tomates” do título não são por isso os tomates da salada mas os de ter coragem e ousadia. É verdade que há coragem mas também me parece haver muita estupidez natural como a de D. Diogo de Anaia Coutinho que conseguiu capturar um mouro nas barbas do inimigo e levá-lo para o castelo e quando lá chegou viu que o capacete, que lhe tinha sido emprestado por um companheiro, tinha ficado no meio dos mouros. Atirou novamente uma corda por cima das ameias, desceu, correu para o meio dos inimigos, encontrou o capacete, voltou a correr, subiu a corda e devolveu o capacete. Como já disse parece-me mais descontracção e estupidez natural que outra coisa ...

 

Mas temos de dar mérito aos nosso antigos tugas que para além de valentes já nessa altura tinham excelentes ideias. Quem se lembraria de fazer, com balas de canhão, o que se faz com pedras achatadas atiradas rente à superfície da água? Ricochete com balas de canhão, que chegavam mais longe e abriam buracos nas embarcações turcas mesmo junto à linha de água e que se afundavam bem rápido, era batalha naval de alto nível .

 

Temos também as nossas próprias “Inês da minha Alma”, Eyria Pereira, “mulher portuguesa que, solteira, se fez ao caminho da Índia em busca de aventura” e D. Maria Ursula d’Abreu e Lencastro que, com 18 anos, se alistou no exército como Balthasar de Couto Cardoso e serviu na Índia tendo combatido com valentia inúmeras batalhas. A vida destas mulheres dava com certeza um bom livro.

 

Vou ainda mencionar Duarte de Almeida, conhecido como o “Decepado” que, na batalha de Toro, ao empunhar o estandarte real ficou sem as duas mãos e continuou a segurar o estandarte com os braços e os dentes até se capturado pelo inimigo nem o Black Night dos Monty Python teria feito melhor.

 

Depois temos o contraste em que o autor, com grande tristeza e verdade, nos diz que não sabemos preservar a nossa história. As cotas de malha usadas em batalhas foram cortadas para fazer esfregões e as armaduras reaproveitadas para tachos, panelas e espelhos de fechaduras. Há uma fotografia na pág. 87 que nos mostra uma tampa de panela feita a partir de uma armadura e na legenda diz: “... A chapa fria, que outrora ouvia o bater do coração dum português, acaba por ouvir hoje o saltitar das batatas dum cozido. Triste fim!”

 

Na segunda parte do livro, sobre as armas, fiquei a saber que D. Sebastião mandou abrir vários túmulos incluindo o de D. Afonso Henriques e o D. Afonso V para retirar as espadas e levá-las na sua campanha de África. O resto já se sabe é história, perdeu-se D. Sebastião e perderam-se as espadas, ficou o país sem rei e sem herdeiro ao trono à mercê dos espanhóis.

 

Achei este livro muito interessante, nota-se que o autor adora a história de Portugal e o país e, por isso, talvez não seja imparcial na sua avaliação dos factos, não tirando qualquer mérito ao livro e aos portugueses que nos seus tempos áureos eram uns grandes malucos capazes de grandes feitos.

 

Uma Família Feliz de David Safier

Roda Dos Livros, 23.04.14

Quem leu Maldito Karma sabe que o humor de David Safier é demasiado gostoso para que possamos deixar passar, sem ler, este livro...Mas, no decorrer desta leitura, perguntei-me várias vezes como é que este autor conseguia prender a minha atenção com as aventuras desta família por vezes tão irreais, quase disparatadas!!! Mas, com este escritor temos de ler nas entrelinhas e, mesmo sem querer, fazemos uma introspeção em relação aos nossos valores, naquilo em que acreditamos ser o mais importante, no rumo que devemos dar ao nosso "amanhã"...Agora, fazë-lo de uma forma divertida, com umas boas gargalhadas e sorrisos à mistura é simplesmente genial. Diverti-me muito ao desfolhar estas páginas! Porém, continuo incrédula: como é que esta história me conseguiu prender? Tem tudo aquilo que me deixa indiferente: dráculas, lobisomens, múmias e todo o género de monstros e monstrinhos!O livro começa por nos caracterizar uma família dita normal, constituida pela mãe, Emma, que desistiu da sua carreira e tem uma biblioteca com pouco sucesso financeiro; pelo pai, Frank, possuidor de um cansaço mortal pois trabalha sem parar; pela filha adolescente, Ada, que não sabe o que pretende da vida a não ser que deseja desesperadamente ser amada e pelo filho, Max, um pré-adolescente tímido, super inteligente mas que sofre de bulling por parte de uma colega mais velha. A estes personagens juntam-se mais dois muito caricatos: uma amiga já entradota na idade, hippie, e a colega de Max, uma menina durona que ataca antes de fazer alguma pergunta... E estão lançados os dados para uma boa trama se a ela juntarmos uma bruxa disposta a enfeitiçá-los para o resto da sua vida, curta vida, já que lhes dá somente três dias...Eu sei que o enredo é bastante improvável mas a imaginação e o humor de David Safier valem a pena ser lidos. Se quiserem passar alguns momentos divertidos, já sabem! Confesso que o seu primeiro livro me apanhou desprevenida e, talvez por essa razão, a surpresa tivesse sido maior... Desta vez já estava à espera de uns bons sorrisos!Terminado em 19 de Abril de 2014Estrelas: 4*+Sinopse

Que ideia hilariante teve David Safier desta vez? No primeiro livro Maldito Karma, uma mulher reencarnava em formiga, após ter sido atingida por uma sanita de uma estação espacial. No livro seguinte, Jesus Ama-me não hesitou em fazer voltar à Terra um Jesus completamente desorientado, dois mil anos depois para salvar a humanidade da sua destruição. Desta vez, a ideia não é menos hilariante, pois uma bruxa transforma uma família nos monstros em que iam mascarados a uma festa.

 

1Q84, de Haruki Murakami

Roda Dos Livros, 22.04.14

1q84Nem sei bem por onde começar. Talvez por dizer que me apaixonei pela escrita de Haruki Murakami, pela forma única como ele me contou esta história.Acho que posso dizer que estes 3 volumes (mais de 1500 páginas) nos contam uma simples história de amor.Aomame e Tengo, buscam-se depois de 20 anos de distância. Antes um simples toque, um olhar, breves momentos partilhados na infância que inspiraram uma procura incessante e quase insana um pelo outroPara além de Aomame e Tengo, conhecemos (depois de uma leve presença no segundo volume da saga) Ushikawa. Este estranho personagem tem agora direito a voz própria. Não podemos, no entanto, esquecer Fuka-Eri, o professor, o Líder de uma estranha e perigosa organização religiosa, Ayumi Nakano, Kamatsu, Tamaru e a Viúva Ogatha (e mais meia dúzia de personagens satélite).A história é surpreendentemente simples. Tengo procura Aomame que por sua vez o procura a ele. Tengo, matemático e escritor, reescreve um romance fantástico da autoria de Fuka-Eri e com isso provoca reações inesperadas. Para apimentar a história (afinal são cerca de 1500 páginas) temos também um organização religiosa capaz de tudo, homenzinhos pequenos que saem da boca de cabras ou de homens mortos, duas luas no céu, uma gravidez miraculosa, uma assassina quase perfeita, um cobrador fantasma, crisálidas de ar, um detetive com cabeça de abóbora e uma cidade dos gatos. Confusos? Eu ficava.Mas a verdade é que a grande vitória deste livro é a mistura absolutamente surreal da realidade, tal como a conhecemos, com elementos surreais, que roçam o ridículo, mas que fazem sentido no meio desta confusão toda.E as descrições? Este homem põe o Eça e o Ramalhete a um cantinho ao descrever tudo em pormenor. Muitas vezes. Incontáveis vezes. E isso não me incomodou nem um bocadinho, para dizer a verdade. Os personagens são-nos apresentados exaustivamente, vezes sem conta. Cada situação é-nos contada sob várias perspectivas. E ainda assim, e por causa disso, este livro é tão espetacular.Não posso deixar de chamar a atenção para a quantidade de vezes que se fala de comida neste livro. Cada refeição dos protagonistas é referida. E os livros que são citados são brutais. E a música que nos obriga a ir ao youtube…Ficaram muitas coisas por esclarecer? Sim, ficaram. Mas neste caso nem isso me incomodou. Sou perfeitamente capaz de imaginar uma continuação para casa uma das situações em aberto.Por um lado acho que este foi o final perfeito para este 1Q84. Por outro lado tenho alguma esperança que o rumor de que um quarto volume está a ser escrito não seja apenas um rumor e que possa, num futuro próximo, regressar a um mundo com duas (ou mais) luas no céu.

Rosa Candida - Audur Ava Ólafsdóttir

Roda Dos Livros, 20.04.14

rosacandidaRosa candida foi uma experiência de leitura nova para mim. Diferente de todos os livros que já li, assenta numa simplicidade literária quase infantil e se calhar, por isso, muito bela.

Senti estranheza nesta história, como se tudo fosse acontecendo ao sabor de vontades alheias aos personagens; coincidências estranhas que me levaram a um patamar fantasioso e por vezes pouco credível. Uma espécie de conto de fadas que poderia acontecer numa dimensão diferente.

Uma criança concebida de forma casual, nem fruto de amor, paixão ou desejo. Senti sempre uma grande distância nas relações familiares e humanas, e uma grande proximidade com o natureza, como se acima das vontades humanas, estivesse sempre a Mãe Natureza, uma espécie de relógio que nos comanda a cada tique-taque.

Não conheço a Islândia. Mas deve ser assim, uma força natural que tudo domina, um colosso de cores que tudo preenchem, absorvendo a posição superior que o Homem veio a assumir na Terra.

Lobbi (nome simpático para um rapaz de nome impronunciável) foge. Não sei se ele sabe para onde pois eu nunca cheguei a saber a direcção desta viagem de fuga, deixando paisagens agrestes em busca de um jardim. Curioso como procurou a mesma coisa mas com ordem. Um jardim de rosas num mosteiro que se calhar só vai existir na nossa imaginação. Lobbi não encontrou nada de novo, pois que tudo o que lhe faltava ele já tinha mas não sabia que queria. Fugiu da família mas queria a sua família, e até já tinha - a sua filha de uma espécie de acaso na estufa, o seu local preferido.

Saudades da mãe que morreu, uma relação pouco convencional com o pai, e um irmão gémeo muito especial. É a família de Lobbi. Inclui mortos e vivos. Deixa-os para trás mas não pára nunca de sentir a força do que vai para além do que conseguimos explicar. O que nos faz aquilo que somos. A nossa família.

Uma escrita crua e sem artifícios, mas que de alguma forma que não justifico, me fez levitar e sonhar. Um livro bonito que não me permitiu compreender tudo, mas que me encantou de uma forma pouco racional que só posso explicar como magia.

Impossível deixar de referir a capa. Lindíssima.

“Sempre que queria estar sozinho com a minha mãe, ia ter com ela à estufa ou ao jardim. Era aí que podíamos falar. Por vezes ela parecia distraída e eu perguntava-lhe em que estava a pensar, ela dizia: Sim, sim, gosto do que dizes. E depois oferecia-me um sorriso encorajante de aprovação.” (Pág. 20)

“É tão diferente quando podemos tocar em plantas vivas. As plantas de laboratório não produzem qualquer cheiro depois de uma chuvada. É difícil explicar ao meu pai, com palavras, o meu mundo e o da minha mãe. Interessam-me as coisas que nascem de solos férteis” (Pág.21)

“Acho que é importante, para uma pessoa que cresceu no meio de uma floresta, compreender que uma flor pode crescer em isolamento, sozinha, brotando da areia negra e, por vezes, num desfiladeiro. Quando falo da flor selvagem do Alasca fico um pouco sensibilizado.” (Pág.104)

Sinopse

“Um jovem decide deixar a casa da sua infância, o irmão autista, o pai octogenário e as paisagens familiares de campos de lava cobertos de musgo, em busca de um futuro desconhecido. Pouco antes da sua partida recebe um terrível telefonema: a mãe falecera num acidente de carro. As suas últimas palavras tinham sido de doce conselho ao filho, incitando-o a continuar o trabalho que partilhavam na estufa, mais especificamente o cultivo de uma variedade de rosa rara, a Rosa Candida.Antes da morte da mãe, naquela mesma estufa, vivera um breve encontro de amor. Foi quando já preparava a sua partida que soube que, nessa noite, concebera inocentemente uma criança. Atordoado com todos estes súbitos acontecimentos, procura refúgio, recolhendo-se num majestoso jardim abandonado de um antigo mosteiro. É aí que se vai dedicar a fazer florescer aquela rosa rara de oito pétalas. Ao concentrar a sua energia no seu cultivo, aprende também, sem dar por isso, a cultivar o amor.Rosa Candida é a história de um jovem que assume o papel de pai ao mesmo tempo que se torna homem. Uma história de amadurecimento, sobre a beleza da vida e a forma como pequenas e simples experiências podem muitas vezes transformar a realidade numa extraordinária e incomum vida. Um livro impressionante que nos faz perceber que mudar, por vezes, é tudo o que precisamos...”

Marcador, 2014

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