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Roda Dos Livros

O Mundo Invisível - Shamin Sarif

Roda Dos Livros, 29.03.14

omundoinvisivel“O Mundo Invisível” estava na minha lista desde que foi editado (2009), e na minha estante desde Maio deste ano. Quando saiu para o mercado encontrou algum sucesso devido a comentários e críticas positivas, mas a verdade é que é mais um livro a padecer do drama do esquecimento, fruto da grande oferta de livros que, semanalmente os leitores têm à disposição.

Seja como for, e porque além de ler muitas novidades, gosto de cumprir e manter todos os livros que me vão interessando num certo caderninho de desejos literários, “O Mundo Invisível” teve, obviamente, o seu lugar nas minhas leituras.

E que leitura fantástica foi. Um dos melhores livros que tenho lido. A ação decorre na África do Sul no início dos anos 50, numa época que considero socialmente doente. O Apartheid foi muito para além do racismo, colocou completamente à parte todos os que não eram brancos, praticamente ilegalizou a existência de outras etnias, impedindo-as de conviver, ou sequer partilhar o mesmo espaço com brancos.

A autora não se perde demasiado em descrições sociais ou em manifestar opiniões políticas. É uma narradora, e uma excelente narradora, uma contadora de histórias que fala sobre o amor que pode nascer num clima de ódio e perseguição constante. Curiosamente esta história decorre no seio da população Indiana que vive na zona de Pretória, os seus hábitos, costumes e histórias de família. Percursos de emigração e busca de melhores condições de vida de um país castrador e limitador como é a Índia (principalmente para as mulheres),para um outro pejado de leis e regras sociais atrozes.

Na Índia os direitos da mulher eram (são?) inexistentes, e esta tradição mantém-se nestas famílias Indianas que vamos conhecendo. É como se as mulheres vivessem sempre dentro do casulo das regras familiares impostas pelos homens e pelas mulheres mais velhas, e depois tivessem ainda uma espécie de casca difícil de quebrar das regras do Apartheid.

Não poder estar junto de quem amamos é duro, mas não o poder fazer por ser ilegal e chegar a implicar perseguição policial é violento.

“O Mundo Invisível” conta várias histórias de amor, mas a mais tocante (e principal) é a que une Amina e Miriam, duas mulheres indianas a viver na África do Sul. Um amor bonito que surge naturalmente. Miriam é casada dentro das “regras” do casamento indiano. Não conheceu o amor, o marido quis casar com ela depois de a ter visto algumas vezes numa janela. Amina é uma força da natureza. Mais jovem, destemida, trabalha por conta própria, algo impensável para uma mulher Indiana, cujo objetivo de vida deverá ser fazer um bom casamento, aqui entenda-se como bom casamento aquele que agrada à família, subjugar-se para o resto da vida às vontades do marido e da família deste.

Infeliz, Miriam admira a independência de Amina. A sua forma que quebrar convenções que Miriam nunca colocou sequer em causa. Miriam vai acordando de um sono mau, de uma dormência triste para sensações de felicidade e prazer.

Uma história de amor que não pode ser, numa sociedade que nunca deveria ter existido, “O Mundo Invisível” não se vê mas sente-se, e acorda para a vida uma mulher adormecida pela tristeza.

Recomendo e classifico de imperdível. Um livro que faz pensar sobre a sociedade, a humanidade (ou falta dela), sobre a forma como as regras moldam e transformam as pessoas em monstros, como tudo seria diferente se as mesmas pessoas habitassem diferentes locais. Introspetivo e muito pessoal, na medida em que é um livro a ser interpretado à medida das ideias (ou falta delas) de cada um. Muto bom.

Sinopse

“África do Sul. 1950. As primeiras leis raciais do apartheid começam a ser implementadas. Amina é uma jovem de espírito livre que desafiou as convenções da comunidade indiana em que cresceu e decidiu trabalhar por conta própria. É dona de um café, um sítio cheio de boa disposição, música, comida caseira… e mistura de raças. O seu sócio é negro, a sua empregada é mestiça, a clientela é de todas as cores e feitios - e Amina tem muitas vezes de subornar a polícia para conseguir manter o café aberto.Miriam é uma jovem indiana mãe de família, tradicional e subserviente. O seu casamento foi combinado pela família e ela faz todos os possíveis para manter um bom ambiente em sua casa - apesar dos acessos de raiva do marido.Quando estas duas mulheres se conhecem, o encontro entre os seus dois mundos vai transformar as suas vidas…”

Contraponto, 2009

Texto escrito em 2012

"Nove Mil Dias e Uma Só Noite" de Jessica Brockmole

Roda Dos Livros, 24.03.14

01040567_Nove_Mil_DiasUm livro que vai deliciar quem gosta de leituras sobre a I e II Guerra Mundial. Como eu, já sabem.Com um formato epistolar (ao fim de algumas páginas deixamos de ter em consideração as cartas em si e fixamo-nos na história!), este livro conta-nos a vida de duas gerações que viveram em duas guerras diferentes mas em muitos aspectos tão semelhantes. A destruição, o ódio, as mortes onde amores são separados e/ou substituídos por outros mas onde a esperança não morre.Lembram-se do tempo em que receber uma carta significava notícias "frescas" de alguém de quem gostávamos? Há quanto tempo isso foi! E no entanto, consegui sentir um pouquinho dessa expectativa quando passava de uma carta a outra neste livro... A escrita desta autora tem o condão de nos prender, de ficarmos deliciadas ao assistir ao começo de um romance entre dois dos personagens, em 1912, através das cartas que trocam, mas, também, coloca-nos de sobreaviso porque pressentimos o que a guerra lhes vai trazer. Essa foi uma das razões que me fez gostar desta obra: sentir de novo como era receber uma carta tal foi a empatia que se gerou entre "nós" (Elsphet, David e eu).Ao procurar a mãe (Elsphet), Margaret inicia em 1940, de igual forma, uma busca pelo seu passado, que desconhece. E nós, leitores, vamos intercalando estes dois momentos da História sempre ansiando pelas cartas seguintes...Um livro com uma boa dose de romance mas também de suspense que nos mantém intrigados até ao seu final. Um livro que me deu muito prazer de ler.Terminado em 20 de Março de 2014

SinopseMarço de 1912. A jovem poetisa Elspeth Dunn nunca saiu da remota ilha escocesa de Skye, onde vive, e é com grande surpresa que recebe a primeira carta de um admirador do outro lado do Atlântico. É o início de uma intensa troca de correspondência que culminará num grande amor. Subitamente, a Europa vê-se envolvida numa Guerra Mundial, e o curso normal das vidas é abruptamente interrompido. Junho de 1940. O Velho Continente vive mais uma vez o tormento de um conflito mundial e uma nova troca epistolar incendeia os corações de dois amantes, desta vez o de Margareth, filha de Elspeth, e o do jovem piloto da Royal Air Force por quem se apaixonou. Cheio de glamour e de pormenores de época, este romance faz a ponte entre as vidas de duas gerações - os seus sonhos, as suas paixões e esperanças -, e é um testemunho do poder do amor sobre as maiores adversidades.

 

Roda dos Livros Sugestões de Leitura - Março 2014

Roda Dos Livros, 23.03.14

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Mais uma tarde de sábado a "brincar aos livros". As horas passam depressa quando o tema é leitura, verdade?

Jorge: A Fome, de Knut Hamsun;

Sónia: A Casa com Alpendre de Vidro Cego, de Herbjorg Wassmo;

Márcia: O Mundo Invisível, de Shamin Sarif;

Paula: Veneza Pode Esperar, de Rita Ferro;

Vera: Jesus Cristo Bebia Cerveja, de Afonso Cruz;

Cristina: O Olhar de Sophie, de Jojo Moyes;

Renata: O Pintor Debaixo do Lava-loiças, de Afonso Cruz;

Fernanda: O Rapaz do Caixote de Madeira, de Leon Leyson, Marilyn J. Harran e Elisabeth B. Leyson;

Patrícia: Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie;

Isabel: O Terramoto de Lisboa e a Invenção do Mundo, de Luís Rosa;

 

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Jesus Cristo bebia cerveja

Roda Dos Livros, 23.03.14

Screen Shot 2014-02-02 at 20.41.21"Para onde vão os guarda-chuvas" foi o primeiro romance que li deste autor que, recentemente me foi dado a conhecer através da Roda dos Livros. Apesar de ter apreciado a sua prosa, não é segredo para este pequeno grupo, que fiquei deveras desagrada com o final que me marcou. O intuito seria esse mas fiquei relutante em ler outros livros. Receava que o choque se repetisse e fosse confrontada com outros finais perturbadores. Este livro, teve o mérito de me reconciliar com o autor e permitir novas incursões no seu fantástico mundo criativo e critico, que nos desafia com tantas personagens que parecem irreais ou mera ficção, mas que enquadram perfeitamente no quotidiano  ou no real pelos seus valores e princípios. O bom e o mau conjugam-se e convivem numa bem estruturada estória num ambiente surreal mas vibrante de vida e energia.

É gratificante quando para além do aspecto lúdico conseguimos extrair muito mais e esse objectivo é plenamente alcançado com interpretações e questões filosóficas, religiosas, sociais e espirituais mais ou menos subtis ou despercebidas que cada um em cada momento absorve à sua maneira através desta leitura. Muitos fragmentos podem ser extraídos mas seria exaustivo fazê-lo. A minha sugestão é ler e reler esta espécie de tragicomédia de uma mente delirante mas muito assertiva.

Sinopse:

Uma pequena aldeia alentejana transforma-se em Jerusalém graças ao amor de uma rapariga pela sua avó, cujo maior desejo é visitar a Terra Santa. Um professor paralelo a si mesmo, uma inglesa que dorme dentro de uma baleia, uma rapariga que lê westerns e crê que a sua mãe foi substituída pela própria Virgem Maria, são algumas das personagens que compõem uma história comovente e irónica sobre a capacidade de transformação do ser humano e sobre as coisas fundamentais da vida: o amor, o sacrifício, e a cerveja.
Jesus Cristo bebia cerveja é o novo e esperado romance de uma das vozes mais fortes e originais da literatura portuguesa actual, a que é impossível ficar indiferente.

O Olhar de Sophie de Jojo Moyes

Roda Dos Livros, 19.03.14

Uma excelente surpresa este livro! Sabem quando começamos a ler e ao fim de meia dúzia de páginas já estamos completamente absorvidas com a leitura? Garanto-vos que nesta história vos vai acontecer isso!!!

São duas histórias com um hiato no tempo de, aproximadamente, cem anos. A primeira passa-se durante a Primeira Guerra Mundial, em 1916, numa pequena vila francesa ocupada pelos alemães. A narrativa é de tal forma intensa que me arrebatou completamente e quando, inesperadamente, surgiu a segunda história não pude deixar de me aborrecer seriamente, ao ponto de procurar nas páginas seguintes a sua continuação. Ainda bem que não consegui encontrá-la... Mas duvidei seriamente que os acontecimentos passados em 2006, em Londres, com outra personagem me fossem agradar e surpreender tanto quanto os da história anterior!

Jojo Moyes é uma escritora como poucas. Não existe uma pequena parcela neste livro que não seja sorvida com ansiedade e grande expectativa! A segunda parte do livro, se assim podemos descrever, é, também ela, arrebatadora, cheia de mistério (e romance) fazendo-nos a ligação à história anterior, com pequenos apontamentos que não nos deixam sossegar e nos inquietam.

Já há muito tempo que não devorava tão rapidamente quatrocentas e tal páginas, chegando a lutar contra o sono porque este me impedia de conhecer o final tão aguardado. Final que, embora tivesse à espera, teve surpresas inesperadas que deram um toque brilhante a esta obra.

Poucos romances há que atribuo 6 estrelas. Não tenho nenhumas dúvidas em dar nota máxima a este livro. Deixem-se surpreender! Eu gostei. Muito!

Terminado em 16 de Março de 2014

Estrelas: 6*

Sinopse

Somme, 1916. Sophie vive numa vila ocupada pelo Exército alemão, tentando sobreviver às privações e brutalidade impostas pelo invasor, enquanto aguarda notícias do marido, Édouard Lefèvre, um pintor impressionista, que se encontra a lutar na Frente. Quando o comandante alemão vê o retrato de Sophie pintado por Édouard, nasce uma perigosa obsessão que leva Sophie a arriscar tudo - a família, a reputação e a vida.


Quase um século depois, o retrato de Sophie encontra-se pendurado numa parede da casa de Liv Halston, em Londres. Entretanto, Liv conhece o homem que a faz recuperar a vontade de viver, após anos de profundo luto pela morte prematura do marido. Mas não tardará que Liv sofra uma nova desilusão - o quadro que possui é agora reclamado pelos herdeiros e Paul, o homem por quem se apaixonou, está encarregado de investigar o seu paradeiro…


Até onde estará disposta Liv a ir para salvar este quadro? Será o retrato de Sophie assim tão importante que justifique perder tudo de novo?

 

A Casa com Alpendre de Vidro Cego - Herbjorg Wassmo

Roda Dos Livros, 17.03.14

Casa Alpendre

Este é um livro sobre pessoas encurraladas. Encurraladas, antes de mais, pela inclemência da natureza, sendo o clima norueguês obviamente limitador dos passos de quem a ele está sujeito. Encurraladas, também, pela pobreza da vida numa pequena aldeia piscatória, onde poucos têm mais do que o estritamente essencial, e a maioria nem mesmo o essencial consegue assegurar. E encurraladas, acima de tudo, pelas circunstâncias da vida, que as deixaram sem saídas, sem perspectivas, sem horizontes.

Não espanta, por isso, que os dois sentimentos mais presentes nesta obra sejam a impotência e o medo. Tora, a protagonista pré-adolescente através de cujos olhos tomamos contacto com esta dura realidade, tem inegáveis motivos para nutrir tanto um como outro. Nasceu já estigmatizada e nunca conheceu outra realidade que não a de ser olhada de lado e apontada a dedo. Vive com uma mãe acossada e retraída e um padrasto violento e abusador. A sua situação é particularmente intolerável porque, por definição, a casa onde se habita deve funcionar como o refúgio onde se recarregam baterias para enfrentar a crueldade do mundo exterior. Mas o perigo ameaça-a mesmo dentro de casa, mesmo entre as paredes do seu próprio quarto. Tora não tem um santuário para onde fugir. Não tem um único minuto de segurança, nem mesmo enquanto dorme. No entanto, recusa-se a desistir como a mãe, a resignar-se à fealdade do mundo que conhece. Embora a sua curta experiência de vida lhe repita que o que não é feio não pode ser real, o instinto leva-a a lutar pela autopreservação com as poucas armas de que dispõe. Pequenas evasões - para um sótão, para o bosque, para o mar num barco a remos, para os sonhos, que ninguém lhe pode tirar, e, por fim, para mundos paralelos que se lhe revelam ao descobrir a literatura - permitem-lhe manter-se de pé, e até tentar ajudar a mãe a não sucumbir totalmente. Nunca pede ajuda, porque já considera a sua existência um peso suficientemente grande para os que a cercam. Inspira-se na energia anímica da sua tia Rakel, a outra grande sobrevivente neste universo hostil. E tudo o que cruza o seu caminho é automaticamente catalogado numa de duas categorias: as coisas que "ajudam" e as que "não ajudam".

Não é um livro fácil de ler. Há muito a intuir, a depreender, a pressentir. Nada é explicado claramente nem exposto de forma ostensiva. Demoramos um pouco a absorver as idiossincrasias particulares daquele mundo fechado, e dos pequenos mundos ainda mais fechados de cada personagem. Mas, a meu ver, vale a pena. Há personagens fascinantes, trágicas mas sempre matizadas. E a própria Tora, ao ser capaz de levantar a cabeça acima do marasmo em que nasceu e cresceu e de apreciar o brilho do sol, o cheiro do pão acabado de fazer, o toque de uma peça de roupa nova, dá-nos uma lição de vida impossível de ignorar.

Este é o primeiro volume de uma trilogia. Dada a minha incapacidade de compreender norueguês, resta-me esperar que as restantes duas partes sejam traduzidas para português (de preferência por outro tradutor, já que estar constantemente a tropeçar em frases mal construídas é enervante e prejudica substancialmente o prazer da leitura). Fiquei, sem dúvida, com vontade de conhecer o futuro da lutadora Tora.

Excertos:

"Era um desses dias. Um dia para se começar tudo de novo. Um dia para se pensar em coisas boas. Um dia para se correr mesmo depressa, se rir mesmo alto, ou simplesmente para se passear a sós, com um chupa-chupa - sem se ir a lado algum em especial, embora ela caminhasse para casa." (pág. 59).

"Um dia, leu que as autoridades eclesiásticas tinham, com o devido respeito, rejeitado a ideia de virem a existir sacerdotes femininas.

Rakel bufou perante a ideia de homens da Igreja, adultos, não terem nada melhor para fazer do que, com o devido respeito, rejeitar tal ideia, quando havia tanta miséria no mundo. Eles deveriam ficar suados e sem fôlego só de correrem de um lado para o outro a reconfortar e a ajudar pessoas em necessidade. Jesus nunca disse uma palavra má sobre as mulheres, nem mesmo sobre prostitutas. Rakel lera isso na Bíblia." (pág. 166).

"Na realidade, as estradas no mundo lá fora eram um pouco inclinadas e intermináveis. Sim! Era preciso tempo para se descobrir a estrada. Era preciso aprender a procurar e a fazer escolhas.

Era como estar num labirinto. Procurava-se continuamente; não havia como não virar no sítio errado mas, em todo o caso, sabia-se que havia outras estradas. E tinha-se a certeza de que uma estrada permitia sair! Era apenas uma questão de se aprender a esperar, tão silencioso como Frits, sem se explicar nada a ninguém.

Todos os passos, todos os pensamentos existiam para serem dados e pensados. Podia-se deixá-los ir, por um momento, se se quisesse, mas eles voltavam. Todas as remadas eram necessárias, faziam parte da estrada." (pág. 214).

Arkheion, 2013.

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No Harém de Kadhafi de Annick Cojean

Roda Dos Livros, 17.03.14

Sei que existem vários livros com capas semelhantes a esta, todos eles retratando uma evidência que elas não deixam esconder e que todos nós conhecemos quase sempre por ouvir falar e por relatos impressionantes. Também esta obra, relatada por uma jornalista, faz-nos chegar momentos de puro horror numa sociedade onde é atribuido à Mulher um papel diferente, redutor e impróprio. Não há adjectivos suficientes para o classificar, e, por isso, não o farei.

A história de vida de Soraya mais parece uma história doutro mundo que não este, dito civilizado! Muammar Kadhafi possuia um discurso preparado sobre o papel das mulheres no futuro da Líbia. Um discurso que muitos entenderam como inovador e ele surge, assim, como libertador. As crianças/mulheres que ele violou e espancou, ao longo da sua longa permanência no poder, vieram a conhecer, na realidade, o quão enganador ele podia ser. Vitimas de um predador que não lhes dava tréguas, elas eram, posteriormente, marginalizadas pela sociedade e pela própria familia.

Para além da história de Soraya e de outras mulheres que preferiram o anonimato, Annick, relata-nos as suas dificuldades e todas as obstruções que sentiu ao querer investigar este assunto, ainda hoje, tabu. A lei do silêncio impera e poucas pessoas querem testemunhar: uns porque participaram nesse regime corrupto, ajudando a angariar "presas", outros porque preferem esquecer. Os crimes sexuais não são, por isso, debatidos nem julgados. O que resta às vítimas?

Terminado em 14 de Março de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Soraya tem apenas 15 anos quando, certa manhã, recebe a notícia da visita do líder da Líbia, Muammar Kadhafi, à sua escola. Como praticamente todos os jovens líbios, também ela cresceu no culto da veneração ao Guia, encarado como um deus, vivendo «num olimpo inatingível». Quando é apresentada ao Coronel, este pousa uma mão sobre a sua cabeça e acaricia-lhe os cabelos.


A vida de Soraya, a sua infância e todas as esperanças de futuro terminam nesse exato momento, pois com esse gesto o Guia acabou de indicar às suas guardas que Soraya passará a ser sua escrava sexual.

Nos anos seguintes, Soraya é torturada, violada, espancada, obrigada a consumir álcool e drogas. Tenta por várias vezes escapar, e consegue mesmo fugir do país, mas o regime de terror em que vive torna-a frágil, incapaz de interagir com os outros de forma saudável. Nem sequer a morte e o desaparecimento dos seus algozes vem apaziguar o medo, a vergonha, a revolta.


A jornalista Annick Cojean foi a fiel depositária desta e de outras histórias, conduzindo uma investigação que traz a lume a utilização das mulheres líbias como armas de guerra no seio de uma sociedade corrompida, cuja população é, ainda hoje, simultaneamente vítima e cúmplice da uma política de silêncio que urge romper, para que se faça finalmente justiça.

 

O Herói Discreto - Mario Vargas Llosa

Roda Dos Livros, 16.03.14

oheroidiscretoLer algo de Vargas Llosa oferece-me uma espécie de garantia desde que abro a primeira página. Um dos meus escritores favoritos, que me consegue levar sempre numa exclusiva viagem de palavras.

“O Herói Discreto” é mais um brilhante livro do autor, que me proporcionou excelentes momentos de leitura e uma espécie de revisitação a um dos meus personagens favoritos de sempre, o peculiar D. Rigoberto.

Uma narrativa em dois espaços alternados capítulo a capítulo. A história de Felícito Yanaqué, um verdadeiro herói, íntegro, corajoso, honesto, de aparência frágil mas na verdade um duro que não cede aos princípios em que sempre regeu a sua vida; é por isso discreto, reservado, inesperado, e mesmo surpreendente na forma como reage a sucessivas ameaças de um grupo de chantagistas que lhe tenta extorquir dinheiro de destruir o negócio que toda a vida lutou por construir e manter.

À medida que Felícito avança, ajudado pelas autoridades, na investigação de quem está por trás das ameaças, o leitor vai sendo verdadeiramente brindado com os capítulos dedicados a D. Rigoberto, esse expoente do hedonismo, dos prazeres carnais, intelectuais e, acima de tudo, mundanos. Continuam os jogos de prazer com a sua amada Lucrécia, assim como as confusões com Fonchito, sempre a encontrar novas formas de fazer perder a cabeça ao pai e à madrasta.

Estive praticamente todo o livro a pensar onde é que D. Rigoberto se iria cruzar com Félicito. Tão diferentes e geograficamente distantes, vivendo realidades tão díspares, cheguei a pensar que não haveria qualquer relação…e na verdade D. Rigoberto é de tal modo excêntrico e único que nem precisa de motivos para surgir, um personagem que o é mesmo sem palco, que existe perfeitamente só, e encontra lugar na história de qualquer herói (discreto ou não).

Mas o que mais guardo deste livro é a habilidade de Llosa de contar uma história. Ou melhor, de contar várias histórias, ao mesmo tempo, misturando diálogos de conversas actuais com situações passadas, saltando entre uma e outras com uma habilidade admirável e sem nunca deixar o leitor perdido entre acontecimentos.

Escrever bem é, sem dúvida, fruto de trabalho, prática, insistência, solidão. Mas quando se tem o dom, junta-se tudo como pura magia.

Sinopse

“Felícito Yanaqué é um homem de cinquenta anos, respeitado pela comunidade e proprietário de uma empresa de transportes que fundou e fez prosperar na cidade de Piura, no noroeste do Peru. Sem instrução, oriundo de uma família pobre e gestor cuidadoso dos seus bens, Felícito conquistou tudo a pulso, de uma forma tranquila, discreta e constante, atributos que se poderiam também aplicar à sua personalidade. Casado, com filhos já adultos, Felícito Yanaqué mantém uma amante de longa data, exuberante beleza da cidade. E também outra relação - não de natureza sexual - com Adelaida, uma vidente cujo conselho Felícito segue quase sempre, quer se trate de negócios ou de matéria puramente pessoal ou, mesmo, íntima.

Tudo corre bem na sua cidade; tudo normal. Só que Felícito Yanaqué começa a receber cartas anónimas de extorsão; e quando a ameaça de represálias passa à concretização, Yanaqué decide resistir a tudo isto sem apoio, estoica e discretamente. Como um herói.

Depois da atribuição do Prémio Nobel, do romance O Sonho do Celta ou de A Civilização do Espetáculo (conjunto de ensaios sobre o estado da cultura na atualidade), Mario Vargas Llosa regressa agora com um extraordinário e invulgar romance que relembra os cenários, os personagens e alguns dos temas dos seus livros fundadores - a coragem, o medo e a necessidade de resistir a novas formas de injustiça e de maldade.”

Quetzal, 2013

O Barco Encantado

Roda Dos Livros, 16.03.14

obarcoencantadoHá livros que exercem um tal fascínio sobre nós que perdemos a noção do tempo enquanto nos deixamos arrebatar pelas personagens e pela sua história, como se os conhecêssemos ou participássemos na trama. Mais do que isso, alteram o nosso estado de espírito e a nossa respiração acelera ou abranda  ao ritmo da narrativa. A harmonia desta e os fortes afectos que ligavam as personagens tiveram esse efeito sobre mim e apaziguaram-me.

Se bem me lembro, li todas os livros de Luanne Rice em português, e houve uns que gostei mais do que outros. Aprecio a escrita madura e segura desta autora que sabe como contar uma história ligando bem o passado e o presente com personagens honestas em que os epílogos podem não ser idílicos mas sempre com uma componente mística.

Três irmãs assombradas pela figura do pai que partira num barco à vela e nunca regressara. Três irmãs que se encontram para uma despedida e um confronto com o passado. Dar, a mais velha das três, teve de lutar e vestir a pele de uma das suas personagem nas suas novelas gráficas  e tornar assim invisível o seu sofrimento, guardado no fundo da sua memória enquanto as irmãs com problemas mais prosaicos aceitaram e lidaram com a vida de uma forma mais simples. Cada uma das irmãs McCarthy, de formas diferentes seguira o rasto das suas origens e usara a imaginação para perscrutar o enigma da Irlanda e do pai.

As revelações e descobertas tornam tudo mais complicado porque se questionam porque tem de lutar para manter o que sempre amaram e tomaram como certo, quando não se falava de dinheiro ou valores ou impostos e tudo parecia perfeito.

Um livro memorável. Laços familiares e afectos numa ambiente inspirador que me deixou verdadeiramente ENCANTADA.

Sinopse: 

Luanne Rice apresenta-nos o retrato caloroso, embora pungente, de três irmãs que vivem separadas e que regressam uma última vez a Martha`s Vineyard para se despedirem da casa de família. Recordações da avó, da mãe e do pai irlandês, que partiu de barco no ano em que Dar, a mais velha, fazia doze anos, vieram ao de cima e expuseram as ténues brechas no mito da família - especialmente quando cartas antigas, agora descobertas, revelam uma verdade que as faz percorrer a terra natal dos seus antepassados.

Transpostas para um lugar desconhecido, cada irmã encara a vida, os sentimentos e os laços com a casa de família sob uma nova perspetiva. Mas como abrirem mão de um local que contém o amor complexo da sua imperfeita família?O romance encerra uma temporada em Martha`s Vineyard, uma missão à Irlanda, um elenco memorável de amigos, incluindo um místico extravagante, a paixão pelo surf e três irmãs muito diferentes com uma vida repleta de beleza, sofrimento e um amor profundo em que nunca tiveram a certeza de poder confiar. O Barco Encantado é um romance tão intemporal quanto o mar à volta do qual se desenrola e que tem Luanne Rice no seu melhor, capturando com o seu talento invulgar a família em toda a sua complexidade.

O Ano em que Me Apaixonei por Todas

Roda Dos Livros, 16.03.14

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Expresso a minha opinião agora, com outra perspectiva, devido a algum distanciamento por o ter lido há alguns dias. Na ocasião, li-o com gosto e não me pareceu tão pueril como agora o sinto.

Personagens não tão jovens assim, refiro-me ao grupo de Slyvain, que viviam intensamente e sem responsabilidades, lidando com as perdas e fracassos com novos relacionamentos e algumas farras desgarradas. Sem dúvida, que retrata uma geração que tarda em crescer, e a acção decorre em Madrid, cidade bem conhecida pela intensidade da sua vida nocturna e ambiente aprazível e propício ao convívio e diversão.

"Dizem que uma pessoa é do local onde se apaixona".

Sempre que Sylvain ou a mãe tinham desgostos de amor reparavam o coração na velha oficina de Monsieur Tatin, num registo surreal que nos surpreende ao longo de toda a narrativa. Um toque irreverente e fantástico que adorei porque sempre desejamos ter um Monsieur Tatin nas nossas vidas e este era realmente especial.  

Em paralelo, surge Metodio Founier com o seu manuscrito “Aberto por Amor”  numa saga familiar a oferecer à mulher amada. Um percurso de vida precocemente amadurecido, de muita labuta e dedicação, diametralmente oposto ao de Sylvain com quem se cruza. 

Um romance que não sendo excepcional é apaixonante pela estória equilibrada e carisma das personagens masculinas. O título é esclarecido no final do livro e deixa-nos plenos de reconhecimento e satisfação.

Sinopse:

Uma ode à beleza da vida, ao amor e à amizade.Sylvain, um jovem parisiense que está a caminho dos trinta, sofre de um caso grave de síndrome de Peter Pan: recusa-se a entrar na idade adulta. Embora possua inúmeras virtudes — é perspicaz, simpático, inteligente e versado em várias línguas —, tem também muitos defeitos: é incapaz de seguir em frente quando se trata de amor. A ideia de crescer assusta-o de morte, o que o leva a aceitar um trabalho mal remunerado em Madrid, para estar mais perto de Heike, a antiga namorada que ele não consegue esquecer.

Sylvain traz consigo um plano para reconquistar Heike, mas, entre tantas outras pessoas incríveis com quem se cruza, alguém muito especial irá levá-lo a fazer uma escolha. E quando descobre acidentalmente um manuscrito que contém toda a saga da família do seu vizinho Metodio Fournier, revela-se diante dos seus olhos uma história maravilhosa e excitante, cheia de estranhas coincidências, que muda para sempre a sua visão do amor e do mundo.No final desse ano inesquecível em Madrid, Sylvain regressará a casa, onde abraçará o seu destino.

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