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Roda Dos Livros

Índice Médio de Felicidade - David Machado

Roda Dos Livros, 22.02.14

Índice Médio de Felicidade

Era uma vez três amigos. A crise destruiu-lhes as vidas. Dois sucumbiram. O outro não.

Daniel viu a sua vida colapsar. Daniel recusou-se a colapsar também.

A questão mais evidente levantada por este livro é até onde será razoável manter o optimismo. Daniel perde tudo - emprego, casa, família -, vê-se a viver em condições surreais e é-lhe oferecida uma possibilidade concreta de refazer a vida: sair de Lisboa, hospedar-se em casa dos sogros, que farão o favor de o receber, reunindo-se assim novamente à mulher e aos filhos, e viver do ordenado da mulher até arranjar trabalho. Mas Daniel acha que merece melhor. Não se conforma com a dependência da boa-vontade dos outros. É bom naquilo que faz e teima em esperar que surja a oportunidade que merece, de trabalhar na sua área e prover ao seu próprio sustento. Portanto, recusa. E, enquanto espera, vive como muito poucas pessoas aguentariam viver. Porque acredita firmemente que a oportunidade chegará.

Daniel pode ser visto como um obstinado irracional, desprovido da flexibilidade necessária para se adaptar a novas circunstâncias, ou como um modelo de resiliência em nome de um ideal. Seja como for, gera simpatia. É inevitável: quem se recusa a ceder à crueldade da vida, seja por estupidez ou por egoísmo, será sempre olhado com apreço... e alguma admiração.

Mas as questões levantadas não se ficam por aqui. A meu ver, uma das mais importantes é a do conflito entre as necessidades individuais e as alheias. Até determinado ponto, ninguém questiona que devemos tentar ajudar quem nos rodeia, mesmo que, para isso, tenhamos de alterar um pouco o nosso percurso. Mas haverá um limite? Haverá um ponto em que a racionalidade imponha que nos recusemos a ajudar outrem porque o custo pessoal dessa ajuda seria demasiado alto? E, em caso afirmativo, onde será aceitável traçar-se a fronteira?

E depois há o tema que dá o título ao livro: a felicidade poderá ser contabilizada? Medida? Calculada? Será possível sabermos em que grau somos felizes? Que factores deverão ser tidos em conta nesse cálculo? Será uma avaliação simples ou complexa? Devemos concluí-la num minuto ou depois de anos de estudo? E valerá a pena saber o resultado?

Todas estas questões são enquadradas numa narrativa agradável e fluida, feita na primeira pessoa pelo protagonista Daniel, que prende e cativa o leitor; há acontecimentos bizarros, desabafos, considerações cáusticas, reflexões surpreendentes. É impossível parar de ler. E, quando acaba, deixa saudades. Como acontece sempre com os bons livros.

Excertos:

"Daniel, a tua habilidade para resolveres qualquer questão através da esperança dá cabo de mim.

Foda-se, isto não é esperança. É ser exigente. Fazemos tudo certo, damos o nosso máximo, calculamos todos os passos, empregamos todo o esforço. O mínimo que podemos pedir é que a vida retribua.

Mas não vou matar-me a procurar explicações para o que aconteceu. Esse é o problema de toda a gente neste momento: as vidas que tinham desapareceram, as pessoas que eram já não existem, e ainda assim andam todas a lutar por ontem, sem saberem que ontem é uma coisa pela qual não vale a pena lutar em nenhuma circunstância. Por isso adiante." (pág. 77).

"Um dia vamos todos ser alimentados a lasanha e mousse de chocolate pelas veias só para não termos de usar o maxilar, só para que o nosso aparelho digestivo tenha algum descanso. És capaz de imaginar a aberração? Só que então alguém irá levantar-se e afirmar, no seu sorriso mais consolador: este novo método de abastecimento do corpo traduz-se numa inequívoca melhoria de vida. Um dia, a vida dos seres humanos irá resumir-se a um sono de cento e trinta anos, uma total ausência de actividade física, o conforto absoluto, se possível eliminaremos também os sonhos, não há nada que provoque tanta fadiga como sonhar, e o cérebro das pessoas ficará tão inerte quanto possível, talvez então sejamos completamente felizes." (págs. 82-83).

"Quando é que desistir se tornou aceitável? Nós éramos melhores do que isto, havia uma força imensa nos nossos espíritos, o lado físico das coisas não era suficiente para nos travar a vontade. Olha para nós agora. O problema já não é sequer andar cada um a lutar para seu lado. O problema é a quantidade de pessoas que já não lutam sequer." (pág. 124).

"Nunca será suficiente. Podemos sempre fazer mais. Sabemos que há pessoas a morrerem de fome, de doenças tratáveis com os medicamentos mais simples e banais, de frio, de calor, de angústia. Mas não fazemos nada. E eu digo-te: Porque é que não fazemos nada? Temos a nossa própria vida para viver. Isso não pode ser considerado uma coisa má." (pág. 177).

2013, Publicações Dom Quixote

Órix e Crex O Último Homem - Margaret Atwood

Roda Dos Livros, 16.02.14

orixecrexAs vantagens de pertencer à Roda dos Livros são inúmeras, mas as sugestões de leitura e as possibilidades que todos os meses se abrem de conhecer novos autores, têm marcado significativamente o último ano.

Margaret Atwood, uma Senhora da Literatura que pertence à minha “existência pós-Roda”, virá possivelmente a tornar-se uma das minhas escritoras favoritas de sempre. Órix e Crex é o terceiro livro que leio dela e a vontade de continuar a descobrir o “Universo Atwood” é gigante.

A sua imaginação prodigiosa e a capacidade de me fazer acreditar, e sobretudo, viver nos seus “mundos-limite”, conquista-me mais um pouco a cada livro. Uma ficção verosímil que me faz reflectir sobre uma enormidade de temas da nossa sociedade, designada pela própria por “Ficção Especulativa”.

É espantoso o seu conhecimento acerca da sociedade e da ciência, pelo menos para mim, que de cientista nada tenho. Atwood leva temas como a clonagem a um nível impensável (para mim, volto a repetir), “brinca” de forma séria com doenças fabricadas, testes e vacinas. Desde o início que percebi que há um Mundo onde toda a acção decorre, é o Mundo que interessa, pois o outro, o inferior, cheio de gente que não se enquadra nas regras, pode muito bem ser o nosso. Ainda consegue aliar a religião a este cenário, na medida em que tudo acontece sob as decisões de um só homem, como se fosse o próprio Deus a criar todas as coisas.

A organização estrutural de “Órix e Crex” é admirável. Não há linearidade na sucessão dos acontecimentos, isto é, a forma como a história nos é apresentada não obedece a qualquer regra lógica. O leitor trabalha e esforça-se, joga no meio das peças do puzzle do tempo que vai juntando. Senti-me como se a ler, também fizesse parte desta construção, pois que fui tecendo tudo na minha cabeça, e tudo vai fazendo sentido de uma forma estranhamente ponderada. Quero com isto dizer que não é um livro com um final inesperado ou surpreendente, mas sim um percurso que se absorve a cada página, a cada capítulo. Existe uma ponderação e uma organização de caos que me sinto muito limitada a explicar mas que resulta, absorve, envolve e, acima de tudo, me deixou perfeitamente convencida.

Distopia, Utopia, Realidade, Ficção. Não sei onde enquadrar Órix e Crex. Nem quero. Algo levou a que no fim só houvesse um Homem – O Último Homem, sendo que o fim é o princípio. Confuso? Não. Simplesmente Genial.

Sinopse

“Pode ser que os porcos não voem, mas estão completamente alterados. O mesmo se passa com os lobos e outros animais. Um homem, que em tempos se chamou Jimmy, vive numa árvore, embrulhado no seu lençol e diz chamar-se Homem das Neves. A voz de Órix, a mulher que ele amava, provoca-o e persegue-o. E os Filhos de Crex são agora responsabilidade sua. Como é que o mundo inteiro se desmoronou tão depressa? Com a sua habitual agudeza de espírito e o seu humor negro, Margaret Atwood apresenta-nos um mundo novo, habitado por personagens que não nos deixarão acabado o último capítulo.”

Bertrand, 2010

Cidade Proibida - Eduardo Pitta

Roda Dos Livros, 13.02.14

CIDADE PROIBIDA_PRComeço por falar do prefácio de Fernando Pinto do Amaral, por onde iniciei, de forma lógica, a leitura deste livro. Um prefácio excelente mas demasiado revelador. Recomendo a quem leia este livro que guarde o prefácio para o fim. Eu preferia ter descoberto as personagens por mim sem me sentir influenciada por outra opinião. Contudo não retirou interesse à leitura.

Gostei deste livro pela forma desempoeirada como está escrito, sem tabus e com uma naturalidade admirável. É uma história de amor e sexo mas, quanto a mim, vale mesmo é pela descrição satírica e algo irónica do que se pode chamar uma espécie de alta sociedade conservadora e preconceituosa. Portugal e os portugueses vistos sob o olhar de Rupert, um Inglês que não só observa os costumes e atitudes de um povo no geral, como em particular os comportamentos da família do namorado Martim.

Se por vezes senti que o rumo das descrições começava a cair numa banalidade romântica que procuro evitar, a crueza de alguns cenários equilibrou e trouxe o realismo necessário a este relato contemporâneo de uma sociedade preconceituosa e doente, em que todos ocultam quem verdadeiramente são. Rupert, de uma honestidade para a qual os portugueses não estão preparados (pelo menos os deste livro), sente-se preso numa cidade em só quer viver a sua vida e a sua relação com Martim mas na qual as suas escolhas devem ser demonstradas com, digamos que, bastante descrição. A pressão de viver com um “menino de boas famílias”, ele de origens humildes, vindo de um país com uma abertura diferente, dão constantemente a Rupert a sensação de se movimentar num local em que tem de pensar os seus passos e atitudes. Sente-se trancado numa cidade proibida.

Um livro que li rápido, não só por ser de pequena dimensão, mas porque acima de tudo me deixava sempre expectante com o que se passaria a seguir.

“Rupert sentia-se bem a viver em Lisboa e gostava dos portugueses, embora a vida portuguesa continuasse a ser para ele um mistério insolúvel. Por graça, mais de uma vez dissera que o Instituto devia promover um seminário sobre as idiossincrasias indígenas. “O que não falta são tópicos”, assegurava. Um deles era o vício do café. De facto ir à rua de propósito, nunca menos de três vezes por dia, com o propósito de tomar a famosa bica, parecia-lhe uma obsessão colectiva” (Pág.45).

Sinopse

“Uma história de amor e sexo passada em Lisboa, entre um filho de muito boas famílias, da melhor sociedade lisboeta, e um inglês que aqui trabalha como professor.É um bom livro em que se fala livre e fulgurantemente de sexo, do prazer erótico e da transgressão.Eduardo Pitta fá-lo com a mestria de um grande narrador.”

Planeta, 2013

O Filho Perdido de Philomena Lee de Martin Sixsmith

Roda Dos Livros, 12.02.14

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Tendo sido convidada para a ante-estreia do filme Filomena tinha intenção de ler o livro antes. Mas não consegui fazê-lo...

Adorei o filme! A interpretação de Judi Dench é espectacular e a história prende-nos de imediato, tanto mais sabendo que ela é baseada em factos reais.

E peguei no livro no dia seguinte...

A minha surpresa não podia ser maior! Foi como se estivesse a ver outro filme contado de uma perspectiva diferente. Uma história com contornos semelhantes mas tão mais completa e com tanta informação que o filme não possui (nem poderia, eu percebo!) que mais parecia que estava a ouvir uma outra história.

O filme centra-se na busca de uma mãe a quem foi tirado o filho há perto de cinquenta anos. O livro, fala-nos nessa busca e na pesquisa feita por um jornalista para encontrar esse mesmo filho mas foca essencialmente a vida dessa criança, os seus sonhos e medos, o seu crescimento, a sua necessidade de aceitação por parte dos pais adoptivos, as suas incertezas, a sua necessidade de auto-punição, a descoberta da sua homossexualidade, o seu eterno descontentamento por não saber aceitá-la e como isso se repercutiu no seu bem estar (ou mal-estar) durante toda a sua vida privada e pública, já que ele trabalhou para o partido Republicano. Se no filme a mãe busca incessantemente o filho perdido, no livro essa busca é reciproca e o filho, durante a sua vida, procurou sempre as suas raízes e a razão do "abandono" da mãe, indo por várias vezes ao lar irlandês onde nasceu.

Uma história iniciada em 1952, na Irlanda. Uma história real, que surgiu face um acontecimento verídico bastante lamentável e que veio à luz do dia devido também a esta história: o tráfego de bebés irlandeses por parte de instituições religiosas, vendidos maioritariamente para pais americanos, retirados à força às suas mães, coagidas a assinar uma de declaração onde abdicavam de todos os seus direitos em relação aos bebés.

Um livro admirável. Uma história de arrepiar. Verdadeira, que graças a algumas coincidências veio à luz do dia.

Estrelas: 5*

Sinopse

A comovente história verídica de uma mãe e do filho que foi obrigada a renunciar.

 

É uma história de vida impressionante de uma mulher irlandesa que escondeu um segredo durante cinquenta anos. Este segredo foi escondido devido à vergonha e ao grande trauma por que passou. Philomena Lee, uma jovem que procurou refúgio numa abadia por estar grávida e solteira, foi posteriormente obrigada pelas freiras e bispo a dar o filho para adopção (pois a igreja argumentava que uma mãe solteira era uma desgraçada moral a quem não se devia podia permitir ficar com o filho). Philomena tentou toda a vida encontrar o filho mas nunca soube para onde foi.

 

O filho tentou procurar a mãe mas a igreja negou- lhe informações, pois receava a descoberta do macabro negócio de venda de crianças. Este escândalo, quando descoberto, abanou os alicerces da igreja católica e embora tenham pedido publicamente perdão às mães a quem venderam os bebés, sofreram a vergonha também pública de não serem perdoados.

"Todas as Cosmicómicas" de Italo Calvino

Roda Dos Livros, 09.02.14

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O titulo deste livro não poderia ser mais adequado: “Todas as Cosmicómicas”. “Todas” porque reúne uma série de pequenas histórias escritas por Calvino na década de sessenta do século passado e “Cosmicómicas” porque são textos repletos de um humor incrivelmente criativo e inteligente que nos transportam numa extraordinária viagem através dos tempos... Não! Esperem, não é bem assim. Em abono da precisão, devo dizer que a viagem começa ainda antes do aparecimento do tempo, ou seja, antes do surgimento do universo. Começamos então a acompanhar o percurso de um personagem, de contornos vagos e imprecisos, chamado Qfwfq , o qual vai assumindo várias formas ao longo da evolução do universo, da nossa galáxia, do sistema solar e também da Terra. A linguagem empregue por Calvino é rica em jogos de palavras, simultaneamente brilhantes e engraçados, embora alguns sejam bastante densos e redundantes, sobretudo aqueles que se encontram nas Biocómicas. Isto faz todo o sentido para mim, pois, o que é a vida senão um ciclo de eventos mais ou menos complicados e  redundantes, de padrões semelhantes que se repetem através dos tempos? Somos todos cópias imperfeitas uns dos outros e também dos que nos precederam e dos que virão a seguir a nós. Tenho alguma dificuldade em encontrar as palavras certas para descrever esta espécie de híbrido bem humorado de literatura, astronomia, física, matemática e biologia mas creio que nele está patente, de modo inequívoco, o gigantesco talento literário do seu autor. Assim, resolvi definir algumas palavras-chave para “Todas as Cosmicómicas” bem como traduzir numa espécie de equação matemática, provavelmente completamente idiota e absurda dado que os meus conhecimentos acerca dessa nobre disciplina são manifestamente parcos, a sua essência:

Palavras-chave: Imaginação/Hilariante/Memorável/Genial/Fantástico

Equação: Id+ Hi + E g = L f

I = imaginação; d= descomunal; H = humor; i = inteligente; E = escrita; g = genial; L = livro; f = fantástico

Excertos:

“- É claro que estamos todos ali – disse o velho Qfwfq - , e senão, onde poderia ser? Ainda ninguém sabia que podia haver o espaço. E o tempo, idem: o que querem que fizéssemos do tempo, estando ali todos apertados que nem sardinhas em lata?

Eu disse “apertados que nem sardinhas em lata” só para usar uma imagem literária: na realidade não havia sequer espaço para estarmos apertados. Cada ponto de cada um de nós coincidia com todos os pontos de cada um dos outros num único ponto que era aquele em que estávamos todos.”

“Rapazes, se eu tivesse espaço como gostaria de vos fazer umas tagliatelle!” E naquele momento pensávamos todos no espaço que ocupariam os braços roliços dela movendo-se para todos os lados com o rolo para cortar a massa, o peito dela inclinado sobre o montão de farinha e ovos que enchia a grande travessa, enquanto os seus braços amassavam amassavam, brancos e untados de azeite até aos cotovelos; pensávamos no espaço que ocupariam a farinha, e os campos para cultivar o trigo, e as montanhas donde corria a água para regar os campos, e os pastos para as manadas de vitelos que dariam a carne para o molho; no espaço que seria preciso para que o Sol viesse amadurecer o trigo; no espaço para que das nuvens de gases estelares o Sol se condensasse e queimasse; na quantidade de estrelas e galáxias e conjuntos galácticos em fuga no espaço que seriam precisos para manter suspensas todas as galáxias todas as nebulosas todos os sóis todos os planetas, e ao mesmo tempo que o pensávamos este espaço ia-se formando imparavelmente, ao mesmo tempo que a senhora Ph(i)Nk0 pronunciava estas palavras: “...tagliatelle, imaginem rapazes!”, o ponto que a continha a ela e a nós todos expandia-se num irradiação de distâncias de anos-luz e séculos-luz e biliões de milénios-luz, e nós atirados para os quatro cantos do universo (...)”

“A nós já parecia uma grande coisa, e era-o certamente, porque só se começarmos a existir virtualmente, a flutuar num campo de probabilidades, a tomar de empréstimo e a restituir cargas de energia ainda todas hipotéticas, nos pode acontecer uma vez ou outra existir de facto, ou seja, curvar à nossa volta um bordo de espaço-tempo por mínimo que seja: como aconteceu a uma quantidade sempre crescente de não-sei-quê – chamemos-lhes neutrinos porque é um belo nome, mas então neutrinos ninguém sonhava que pudessem existir -, ondulando uns por cima dos outros numa sopa escaldante de um calor infinito, espessa como uma cola de densidade infinita, que se insuflava num tempo tão infinitamente curto, que nada tinha a ver com o tempo e, com efeito, o tempo ainda não tivera tempo de demonstrar o que seria – e ao insuflar-se produzia espaço onde o espaço não se fazia a menor ideia do que fosse. Assim o universo, de infinitésima borbulha no polimento do nada, expandia-se fulmímeo até às dimensões de um protão, depois de um átomo, depois de uma ponta e depois da cabeça de alfinete, de uma colher, de um chapéu, de uma sombrinha...”

“ Num certo sentido, podia estar descansado: nada do que fazia, bem ou mal, se perdia completamente. Sempre se salvava um eco, aliás: muitos ecos, que variavam de uma ponta à outra do universo, naquela esfera que se dilatava e gerava outras esferas, mas eram notícias descontínuas, discordantes e não essenciais, das quais não resultava o nexo entre as minha acções, e uma nova acção não conseguia explicar ou corrigir a outra, de modo que permaneciam somadas umas às outras, com sinal positivo ou negativo, como num polinómio compridíssimo que não seja possível reduzir à expressão mais simples.”

“Era uma condição rica e livre e satisfeita, a que eu tinha então, exactamente o contrário do que vocês poderão julgar. Era solteiro (o sistema de reprodução dessa época não exigia acasalamentos, nem sequer temporários), saudável e sem demasiadas pretensões. Quando se é jovem, tem-se à frente a evolução inteira com as vias todas abertas, e ao mesmo tempo pode gozar-se o facto de estarmos ali no rochedo, polpa de molusco chata e húmida e bem-aventurada.”

Sempre Vivemos no Castelo - Shirley Jackson

Roda Dos Livros, 09.02.14

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Merricat (Mary Katherine Blackwood) vive com a irmã, o tio idoso e o gato Jonas numa casa que funciona como santuário: um território seguro, onde o mundo exterior não entra e onde, por isso mesmo, podem viver em harmonia sem ameaças nem receios. Os dias mais difíceis para Merricat são aqueles em que tem de ir à aldeia comprar provisões. A irmã, extremamente agorafóbica, não se aventura para lá dos limites da sua horta e o tio está praticamente acamado, por isso tem de ser ela a fazer esse sacrifício. Assim como tem de ser ela a assegurar a protecção da casa contra as malévolas forças exteriores. Para levar a cabo estas tarefas hercúleas, socorre-se de todo o tipo de dispositivos de protecção, tanto físicos como psicológicos. Objectos com ligação emocional à família enterrados, ou pendurados em árvores, assinalando o terreno quase sagrado que assim tornam inviolável, palavras mágicas que asseguram a ausência de mudança desde que não sejam proferidas, fugas em pensamento para a lua sobre o dorso de um cavalo alado. À volta de tudo isto, paira a hostilidade surda dos aldeões e a memória de um acontecimento enigmático que causou a morte de todos os restantes membros da família.

No início do livro, olhamos para tudo isto de fora, no nosso papel de pessoas normais, integradas num mundo normal, onde desempenhamos papéis normais e interagimos com outros de forma normal. Cientes da nossa normalidade, encaramos a família Blackwood com a curiosidade naturalmente despertada por desvios um pouco aberrantes: chegamos mesmo a compadecer-nos um pouco das fugas à realidade de Merricat, claramente motivadas pelo isolamento em que vive, da agorafobia de Constance, obviamente resultante de um trauma bastante grave, e da obsessão do tio Julian pelos seus apontamentos sobre a tragédia familiar, manifestação inequívoca de senilidade.

Porém, à medida que a leitura avança, dá-se o impensável: sem darmos por isso, vamos começando a identificar-nos com as pequenas idiossincrasias de cada membro desta família, a compreender primeiro as suas alusões a códigos muito próprios e depois até as suas motivações; vamo-nos apercebendo de que a hostilidade dos aldeões, que a princípio supuséramos ser percepcionada com exagero pelos Blackwood, talvez seja mesmo real e os leve até a ter atitudes maldosas sem explicação aparente; e, quando damos por nós, criámos empatia com esta pequena família e mudámos totalmente de lado - o isolamento da sua vida já não nos parece um absurdo, mas sim uma forma de defesa essencial contra a crueldade de quem os cerca; já não desejamos que se integrem na sociedade, mas antes que consigam defender-se dela; e os seus pequenos delírios já não nos parecem manifestações patéticas de um sofrimento interior, mas, em vez disso, sinais de pureza de espírito e de um afecto mútuo de beleza invulgar.

Chegados a este ponto, surge o intruso - um primo que vem hospedar-se na casa Blackwood com a intenção de "ajudar". E claro que, em parte, reconhecemos nas suas reacções incrédulas a forma como nós próprios reagiríamos a um ambiente familiar desta natureza, se não tivéssemos já desenvolvido a capacidade de o compreender. Mas nem queremos pensar em admitir tal coisa. Não, nunca seríamos assim tão insensíveis. E juntamo-nos convictamente a Merricat no seu desejo de que o primo se vá embora, antes que a sua desagradável presença se impregne irremediavelmente em todos os cantos da casa.

Para mim, o ponto alto do livro é certamente a discussão que ocorre depois de Merricat sabotar o quarto do primo. Este tenta repreendê-la como o faria a uma menina mal comportada numa família convencional - e é totalmente ultrapassado pelas interpelações extravagantes de Merricat e do tio Julian, que, no entanto, estão a reagir com o que, para eles, é uma lógica imbatível. Toda a cena é descrita de forma tão magistral que é quase impossível não a reler várias vezes por puro deleite literário.

Aliás, o grande trunfo deste livro é a capacidade da autora de, através de uma escrita escorreita e directa, se nos infiltrar debaixo da pele e fazer de nós o que bem entende. Diverte-nos, enternece-nos e, entretanto, condiciona-nos, levando-nos a mudar de perspectiva a seu bel-prazer. Só um grande talento literário consegue causar este efeito.

Por fim, somos recompensados com várias revelações. O primo Charles terá mesmo mau carácter ou terá sido apenas incapaz de compreender as primas? Os aldeões serão mesmo intrinsecamente maus ou terão um fundo bom? E o que se terá realmente passado naquele dia fatídico em que o resto da família pereceu? As respostas a estas perguntas estão reservadas a quem ler o livro, e prometem fornecer amplo material para reflexão.

Excertos:

"Gostaria de entrar uma manhã na mercearia e vê-las a todas, até o Elbert e as crianças, ali deitados a chorar de dores e moribundos. Depois servir-me-ia das coisas de que precisava, pensei, passando por cima dos seus corpos, tirando aquilo que me apetecesse das prateleiras, e voltaria para casa, talvez depois de dar um pontapé à Srª Donell enquanto ela estava ali estendida. Nunca me sentia arrependida de ter pensamentos destes; apenas desejava que se pudessem transformar em realidade. «É errado odiá-las», dizia Constance, «apenas te enfraquece», mas eu odiava-as de qualquer maneira, e perguntava-me se até teria valido a pena terem sido criadas." (pág. 20).

"Só parava de falar quando estava cansado. Quando Jim Donell pensava numa coisa para dizer, dizia-a com tanta frequência e de todas as maneiras que lhe era possível, talvez porque tivesse muito poucas ideias e tivesse de as torcer bem até já não restar nada. Além disso, de cada vez que se repetia achava que estava a ser ainda mais engraçado; eu sabia que ele podia continuar com aquilo até ter a certeza absoluta de que já ninguém o ouvia, e criei outra regra para mim mesma: nunca penses mais do que uma vez numa coisa, e pousei silenciosamente as mãos no colo. Estou a viver na lua, pensei, tenho uma casinha só para mim na lua." (pág. 27).

"Uma vez um rapaz, desafiado pelos outros, parou no fundo das escadas de frente para a casa, e tremeu e quase chorou e quase fugiu, e depois gritou trémulo, «Merricat, disse Connie, queres uma chávena de chá?», e depois fugiu, seguido pelos outros. Nessa noite, encontrámos na soleira da porta um cesto com ovos frescos e um papel que dizia, «Por favor, ele não fez por mal».

- Pobre criança - disse Constance, colocando os ovos numa tigela para guardar no frigorífico. - Provavelmente, neste momento está escondido debaixo da cama.

- Talvez lhe tenham dado um bom açoite para lhe ensinarem boas maneiras.

- Vamos comer uma omeleta ao pequeno-almoço.

- Pergunto-me se conseguiria comer uma criança, se tivesse essa oportunidade.

- Duvido que conseguisse cozinhar uma - disse Constance.

- Pobres desconhecidos - disse eu. - Têm tanto a recear.

- Bem - disse Constance, - eu tenho medo de aranhas.

Jonas e eu vamo-nos certificar de que nenhuma aranha se aproximará de ti. Oh, Constance - disse eu, - somos tão felizes." (págs. 206-207).

Cavalo de Ferro, 2010

Uma Abelha na Chuva – Carlos de Oliveira

Roda Dos Livros, 09.02.14

Uma abelha na ChuvaGostei muito de ler estelivro, fez-me lembrar os que líamos nas aulas de português doliceu, mas sem a pressão dos testes e avaliações – super positivo!Deve ter feito parte, em alguma altura, do currículo académicoporque tem umas notas escritas à mão sobre Neo-Realismoque tive de ir “googlar”, confesso a minha ignorância, talvez porser das ciências, nunca tinha estudado este livro nem nenhum destacorrente literária. Peguei nele porque o vi numa estante de casa demamãe e lembrei-me que alguém o tinha mencionado na Roda dosLivros. Em resumo e o que temos é que ninguém é feliz nestahistória. Começamos por conhecer Álvaro Rodrigues Silvestre homemgordo, baixo de passo molengão é comerciante e lavrador que vai aojornal da aldeia tentar colocar um anúncio: “Juro pelaminha honra que tenho passado a vida a roubar ... Para algumasalvaguarda juro também que foi a instigações de D. Maria dosPrazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre minha mulher”Confesso que ao início simpatizei com este senhor, pensamos “uicoitado! tem uma mulher que é uma megera” mas ao longo da históriadeixei de ter qualquer simpatia pelo gordo consumido peloremorso,  fraco, bêbado e cobarde. A esposa, D. Maria dosPrazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre, é uma mulher altiva deolhos grandes e cabelos pretos, uma mulher esplêndida, fidalga.Neste caso foi o contrário comecei por antipatizar à partida com amegera  da D. Maria para depois perceber o seu azedume,justificado pelo facto de a família fidalga ter ficado pobre e opai Pessoa, Alva e Sancho  ter negociado o seu casamento comos Silvestres do Montouro, lavradores e comerciantes:sangue por dinheiro... Compra-se tanta coisa compre-se também afidalguia. A azia da senhora é justificável quando se édada para casar abaixo da condição social com um ignorante bêbado.Temos também o Padre Abel porque não há livro tuga que não tenha umpadre e a D. Violante “irmã” do padre. Irmã está entre “ ” porqueficamos na dúvida se são mesmo irmãos ou se são um casal, háfalatórios na aldeia. Estes dois tal como o médico e a professorasão presença assídua na casa dos Silvestre. D. Cláudia aprofessora, é a eterna namorada do Dr. Neto, frágil fisicamente ede espírito, tem medo de casar e medo de tudo em geral. O Dr.Neto  é um homem bondoso que para além de ser médico “cultiva”abelhas, tem sífilis hereditária pelo que não quer ter filhos quepossam ser como ele e daí o eterno namoro platónico com a D.Cláudia. É o responsável pela parte filosófica nos serões em casados Silvestre é ele que fala das abelhas: “vida e morte oque são? ... tomemos por exemplo as abelhas. Partir do simples parao complexo. Sabe-se que após a fecundação o destino dos machos é amorte. Ora, como fecundar é criar...” Uma história dentroda história maior do Silvestre com a D. Maria dos Prazeres é a daClara com o Jacinto, o cocheiro da casa dos Silvestre. Clara é afilha do Mestre António oleiro, cego, que quer casar a filha com umhomem rico, lavrador com terras, para que tenham uma vida melhor -estamos a ver aqui um padrão de usar as filhas casadoiras para sairda miséria. Mestre António fica a saber que a filha anda enroladacom o cocheiro pelo Álvaro Silvestre e claro que daqui não saicoisa boa: “O seu cocheiro vai dançar na corda bamba,Álvaro Silvestre, aprender quantas cabaças de água são precisaspara matar a sede no inferno”. “Uma abelha na chuva” deveser dos melhores títulos de livros de todos os tempos e a abelha nachuva deste livro é a Clara: A abelhafoi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro aenredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas emterra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro,debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhasmortas.”

As primeiras coisas, de Bruno Vieira Amaral

Roda Dos Livros, 07.02.14

asprimeirascoisasEu queria muito ter gostado deste livro, até porque me apaixonei por esta capa à primeira vista. Namorei-a tantas vezes na livraria. E as críticas a este este livro? Cada uma melhor que a outra. Devia ter desconfiado. Não devia ter deixado as expectativas crescerem.

Mas atenção: eu não detestei este livro. Confesso que lhe fiquei um bocadinho indiferente. E ler as últimas 100 páginas foi um suplício. Li a contrarrelógio, algo que detesto fazer e acabei por me obrigar a ler mesmo quando não me apetecia muito ( e mesmo assim levei 2 semanas a lê-lo, não foi uma leitura rápida nem fácil).
Já não é novidade para quem lê os meus textos que às vezes associo cores a livros. Neste caso a predominância do creme/castanho na capa atraiu-me mas a cor que associo a este livro é o cinza. Uniforme. Banal. Feio. Cor de rato. Uma cor triste, que se esquece facilmente. Porque este livro fala de gente assim, amorfa, triste, trágica (mas sem a força das grandes tragédias, sem o negro que lhe está associado). E isto não tem nada a ver com o facto do bairro Amélia ser de ricos ou de pobres. Esta sensação de ausência de cor, de ausência de calor não tem a ver com dinheiro, tem mesmo a ver com a ausência de força, de coragem, de garra… sim, principalmente de garra. Alguns dos personagens, dos habitantes deste bairro até podem tê-la, mas rapidamente são esquecidos na panóplia de “entradas” deste livro.
E essa parte foi algo de que também não gostei. Isto não é um livro, com princípio, meio e fim. É o conjunto de uma série de entradas (ainda por cima por ordem alfabética, exceto uma) em que cada uma conta a história (ou um pouco da história, ou um acontecimento que a envolve) de uma personagem. Cada personagem é-nos apresentada dessa forma. Há entradas para personagens, entradas para acontecimentos. E pronto. O livro é isto.
Falta-lhe um rumo, um objetivo. Ou então eu é que não o percebi, porque como comecei a dizer a crítica geral (e mesmo a do goodreads) é ótima.
E nem posso dizer que detestei o livro. Não me provocou a repulsa de Baltazar Serapião ou a angustia de um Desumanização. Simplesmente este livro não me transmitiu (quase) nada. Ou fui eu que não percebi nada. Provavelmente foi isso.
Mas não deixo de o aconselhar.
Está muito bem escrito e apesar de não ter achado o “todo”interessante (até porque acho que o “todo” não existe), gostei das “partes”.Acho que o livro faz um fantástico retrato de um bairro naquelas condições. Um retrato de época excelente.
(E só uma perguntinha: já vi este livro ser considerado um policial. Não percebo. Alguém me explica, por favor?)

A Cor do Hibisco - Chimamanda Ngozi Adichie

Roda Dos Livros, 06.02.14

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Este foi o primeiro livro escrito por Adichie, e tenho pena de que não tenha sido também o primeiro livro que li dela. O facto de já ter lido o assombroso Meio Sol Amarelo criou-me expectativas tão elevadas que me impediram de apreciar esta obra por aquilo que é - uma história simples e bem contada.

Na verdade, Adichie é uma maravilhosa contadora de histórias. E, apesar de não conter passagens particularmente marcantes do ponto de vista filosófico, este livro é, todo ele, uma reflexão sobre o fundamentalismo religioso e sobre os respectivos efeitos, não só sobre quem o professa, mas também, e de forma particularmente assustadora, sobre quem rodeia os que caem nas suas garras.

A narradora é Kambili, uma adolescente cujo pai, cidadão abastado e cristão fervoroso, personifica a intolerância levada às últimas consequências e instaura na sua vida familiar um regime de tal forma exigente e rigoroso que todos os membros da família vivem sob constante terror. A incogruência desta equação ressalta a cada passo, pois a mesma pessoa que se considera um cristão modelo e exige dos seus familiares que também o sejam comporta-se da forma mais anti-cristã que possa imaginar-se, precisamente em nome dessa mesma religião: renega o pai, um idoso doente, por ele não ser cristão e recusa-se a visitá-lo e até a auxiliá-lo no suprimento das necessidades mais básicas; bate selvaticamente na mulher e nos filhos se estes desrespeitam qualquer aspecto formal das regras de conduta de um "bom cristão" por ele ditadas, maltratando-os ao ponto de os internamentos hospitalares se sucederem; à custa de uma pressão psicológica violenta, transforma a sua própria casa numa prisão e os familiares em seus subalternos.

Kambili nunca conheceu outra vida e encara tudo isto como sendo a ordem "certa" das coisas. Porém, ao hospedar-se com o irmão em casa da tia e dos primos durante algum tempo, a inevitável comparação entre a vida pobre mas despreocupada que eles levam e a opulência aterrorizada a que se habituou desconcerta-a e confunde-a; assim como a desconcerta e confunde a reacção do irmão, que começa a questionar as regras que antes considerava inatacáveis e a desafiar a autoridade do pai, atitudes até aí absolutamente impensáveis.

Através da escrita fluida de Adichie, a história de Kambili faz-nos reflectir sobre questões intemporais, como as justificações tantas vezes apregoadas por quem se considera mais justo do que os demais, o abismo entre as teorias defendidas por esses autoproclamados virtuosos e as suas acções, o efeito devastador que a intolerância de quem julga ser detentor da verdade tem sobre os seus próximos, a real importância de valores como a compaixão, a generosidade e a solidariedade em comparação com os apectos formais das religiões e dos sistemas de regras em geral. É uma obra que se lê quase de um fôlego e deixa um sabor amargo, porque não podemos ignorar a existência de pessoas prepotentes como o pai de Kambili, as quais, infelizmente, dispõem do poder necessário para submeter outros à sua tirania, seja dentro de famílias, de sociedades, de congregações ou de países. Sabemos que essas pessoas existirão sempre enquanto existirem seres humanos, e que haverá sempre quem sofra com isso sem poder defender-se. E sabemos que nada podemos fazer quanto a isso, portanto fechamos o livro e prosseguimos o que estávamos a fazer antes. Mas o travo amargo não desaparece, e suspeito que ficará guardado, meio adormecido, à espera de vir à tona quando puder ser utilizado.

Excerto:

"Percebi então que era precisamente isso que a Tia Ifeoma fazia com os meus primos: colocar-lhes a barra cada vez mais alto através da maneira como falava com eles, através do que esperava deles. Fazia-o sempre com a convicção de que saltariam por cima da barra. E eles saltavam. Comigo e com o Jaja era diferente: não saltávamos por cima da barra por estarmos convencidos de que éramos capazes, fazíamo-lo porque tínhamos pavor de não conseguir." (pág. 199).

2003, Edições Asa

Um Comércio Respeitável de Philippa Gregory

Roda Dos Livros, 03.02.14

Embora tenha já lido outros livros desta autora, não foi a opinião favorável que tenho dela que me fez pegar nesta obra. Li vários comentários positivos e gostei da sinopse. Apeteceu-me andar para trás no tempo. Esse desejo foi totalmente conseguido!

Rapidamente deixei Lisboa e fui para Bristol, Inglaterra, mas para o ano de 1787. Um tempo de viagens de comércio tanto de açúcar como de escravos, "mercadorias" muito procuradas nessa época. A par da vida de Frances Scott, a personagem principal (uma senhora pertencente a uma família de bem, mas que a súbita orfandade deixou sem recursos financeiros) e do seu casamento com um comerciante, ficamos com uma ideia de como foi feita a exploração de homens, o tratamento sub-humano a que eram sujeitos os escravos nessa época, as péssimas condições da viagem que os trazia de África, as mortes, as doenças, os suicídios dos que desistiam de ter esperança. Impressiona a brutalidade com que é aqui descrita a forma como os escravos são tratados mas apercebemo-nos, também, da formação de movimentos contra a abolição da escravatura.

Não é um romance triste e, embora o amor que Frances sente por Mehuru seja um amor condenado, impossível de se concretizar, tanto pela pouca saúde dela como pelas condições adversas que os separam, ele revela o início de uma reviravolta na História que, imagino, ter-se-á dado de uma forma muito idêntica: a tomada de consciência por parte de alguns Homens que os escravos eram seres humanos e não uma mercadoria!

Gostei muito desta história. Passam depressa as 500 páginas deste livro. Talvez depressa demais!

Estrelas: 5*

Sinopse

1787. Bristol é uma cidade em franco crescimento, uma cidade onde o poder atrai os que estão dispostos a correr riscos. Josiah Cole, um homem de negócios que se dedica ao comércio de escravos, decide arriscar tudo para fazer parte da comunidade que detém o poder na cidade. No entanto, para isso, Cole vai precisar de capital e de uma esposa bem relacionada que lhe abra as portas necessárias.

Casar com Frances Scott é uma solução conveniente para ambas as partes. Ao trocar as suas relações sociais pela proteção de Cole, Frances descobre que a sua vida e riqueza dependem do comércio respeitável do açúcar, rum e escravos.

Entretanto, Mehuru, um conselheiro do rei de Ioruba, em África, é capturado, vendido e enviado para Bristol, onde será educado nos padrões ocidentais por Frances, por quem, inexoravelmente, se irá apaixonar.


Em Um Comércio Respeitável, Philippa Gregory oferece-nos um retrato vívido e impressionante de uma época complexa onde impera a ganância e a crueldade que devastaram todo um continente.

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