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Roda Dos Livros

"Um piano para cavalos altos", de Sandro William Junqueira - Opinião

Roda Dos Livros, 31.01.14

"Um piano para cavalos altos", uma composição musical, num compasso descompassado, como o coração daqueles que amam, detestam e se revoltam!
Um calendiário (pág. 113) em jeito de diário de uma tragédia ajeitada, secretamente anunciada, anotada com xizes vermelhos, num calendário de horas e dias, em bizarras sucessões!

Da sonata de Inverno até ao concerto de Verão, Sandro William Junqueira traça uma possível distopia, que não é nada mais nada menos do que um olhar duro à realidade e um "apanhado" à História recente. O que nos leva a muitas questões sobre poder, medo, povo, felicidade, política, amor, mas ao ler a opinião da Renata, a pergunta que ela coloca é a mais pertinente: "será que é a violência dos regimes opressivos e autoritários que brutaliza as pessoas ou será que é a brutalidade dos seres humanos que gera as ditaduras?"
E os dados estão lançados para o cerne deste enredo de traços exacerbados e em tom alucinado, mas que olham o mundo de frente e de olhos bem abertos:

"A implosão das igrejas é outro passo certo dado em direcção a um estado social que não desperdiça. O reino da Igreja não é deste mundo. E, se ao mundo não pertence, nele não se deve edificar. Plantar raízes. A fé não nasce de um edifício nem se desenvolve nos volumes da arquitectura. (...) A casa de Deus só pode ser a cabeça, o coração, as mãos, os pulmões, os rins, os pénis, ânus e vaginas de quem acredita. Fora da carne, Deus perde compostura, ideias e emoção." (p. 30)

Tendo o enredo num tempo indeterminado e num lugar incomum, comandado por um governo totalitário, com mão de ferro e leis opressoras, o Ministro Calvo e o Director vêem a sua ordem abalada após um ataque a um militar. A ordem está em causa porque O Mensageiro havia previsto o acontecimento, referindo uma estranho conversa com Ele... fazendo assim tremer os alicerces religiosos já impostos.

Estranhamos o facto de nenhum personagem ter nome próprio, mas sim o nome da sua profissão ou de alguma característica física: a Ruiva, o Director, o Ministro, a Prostituta Anã... Tal escolha do autor, dá-nos a possibilidade de: ou lhe atribuímos um nome - ou pensamos em como aquela sociedade seria fria e estratificada, retirando a individualidade de um nome e a liberdade que isso lhes daria.

O sexo, as relações, o poder, o amor, o esforço, a dedicação, a guerra, a política... tudo por frases curtas e um enredo cru, duro... que a certo ponto pretende ser violento e até, talvez, chocante.
Depois, mistura-se e deixa-se perder em divagações que mais parecem infantis e oníricas, que sem entender muito bem ou até gostar, ligo à necessidade que o autor tem em separar as personagens em dois estratos daquela sociedade.

É impessoal e frio, mas igualmente belo, cuidado, parecendo ter palavras escolhidas e pesadas milimetricamente para aquele contexto, depois noutros, deixa-nos à procura do seu sentido, do seu rumo.
É como se as palavras, as próprias palavras quisessem, só por si, dar-nos a sensação de violência, de perdição, de frustração e até de delírio que o próprio cenário e enquadramento têm... mas depois há a fome, a fome do amor, da entrega, da comunicação, do desejo... tudo confinado, amarrado, entalado, sufocado... nas regras, no rigor...

"Só quando o inferno nos toca com a asa inesperada é que abrimos os olhos." (pág.160)

Tudo nesta obra pode e deve ter reticências, até chegar ao fim e saber afirmar se gostámos ou não, ponto parágrafo, parece-me impossível. Preciso de reticências!
Talvez a sua leitura deva reticenciar-se, repetir-se, alongar-se... uma leitura para reler e reinterpretar!

*
(excerto completo)
 
“O motor: breve súmula dos mais importantes ditados do Ministro Calvo
 
O medo é motor indispensável à civilização.
Agente potente que, bem oleado, bem afinado, bem conduzido, permitirá o progresso económico. Não controlado, este movimentador de massas tornar-se-á adversário. Inimigo em vez de amigo. Uma bomba temível que fará a política resvalar para terrenos lodosos e encravar engrenagens. O Governo deve ter isto em atenção. E analisar com argúcia todos os seus componentes e peças: do pequeno receio ao grande terror; da cautela particular ao pânico geral. É necessário examiná-los, testá-los, pô-los em movimento, a todos. Lubrificar o medo. Realizar experiências. Trabalho de oficina. Para do medo retirarmos o máximo lucro. E o rápido avanço. Está mais que provado: o amor é inútil, só atrasa, não dá lucro. E é talvez o maior adversário da boa política.
Assim e, antes de qualquer tomada de decisão, este Governo deverá ter sempre presente, como auxiliar formal e pedagógico às suas ideias e leis, os números, as tabelas, enfim: os consumos do medo.
O que mais teme o povo?
Deverá ser a primeira questão.” (p. 204)
As influências musicais: Rachmaninoff e Erik Satie
Oiçam o autor em: Ler Mais, Ler Melhor

"O Deserto dos Tártaros" de Dino Buzzati

Roda Dos Livros, 31.01.14

"O Deserto dos Tártaros" de Dino Buzzati é um relato da vida de Giovanni Drogo aquando do seu destacamento para a fortaleza Bastiani, na senda de uma carreira militar de destaque. A desconfiança inicial com o local, inóspito e desértico é substituída pela rotina militar e as suas responsabilidades. Cumprindo a angustiante tarefa de permanecer na fortaleza, esta é justificada pela ilusão de que acontecerá a batalha que transformará a sua vida e carreira.

A vacuidade da vida no rigor de uma farda, na esperança vã de um acontecimento improvável.Talvez seja esta a melhor frase para resumir o deserto que é este "O Deserto dos Tártaros" de Dino Buzzati.A espera em troco de glória. O inóspito terreno em troco de bravura. A angústia em troca do comodismo... pela espera sufocante de uma invasão tardia e ilusória... a resiliência imposta pela farda e as regras militares.

É assim que eu vejo este livro: um deserto, um tédio, um desconforto, uma revolta, uma vida gasta em tarefas rotineira, a ilusão do destino preso ao acaso, preso às decisões alheias...Dino Buzzati tem uma escrita que é capaz de assumir esse cenário desértico. Os parágrafos estão estruturados para que o leitor experimente o tédio, a rotina, a goteira que pinga e incomoda, mas à qual nos habituamos... o ranger da madeira, que estala e ainda vive, mas vive aprisionada, apertada, confinada... ao corroer dos dias, das horas... tempos vagos e inúteis que compõem um dia, um ano, uma década... uma vida.

A braços com o destino, Drogo escolhe aquela vida, inquirindo-se muitas vezes sobre o seu verdadeiro papel, levando-nos a nós, leitores e espectadores desta vida de eterna espera, a pensar sobre a nossa própria vida e propósito, escolhas e impasses. Quem somos? Para onde vamos? Fizemos as escolhas certas? Era este o nosso caminho? E o destino, pertence-nos ou é fruto de inúmeros acontecimentos que não controlamos?

Antes de terminar "O deserto dos tártaros" ainda me tentei iludir e questionar: há guerra ou não!? Pelo menos da sangrenta, daquelas que mudam o curso da história dos homens e da História de todos nós. No entanto, a guerra é outra, é sempre a interior, faz sangrar na mesma e verter muitas lágrimas. O peso do destino e o peso da nossa mão naquela que é a nossa história, pode ou não mudar o curso de outras vidas? Seria isso que Giovanni Drogo quereria? E nós, que obra, que feitos queremos deixar ao mundo?

Sem dúvida que este é um livro sobre escolhas e o peso de cada uma delas, pois mesmo quando não escolhemos, escolhemos. Ditamos o nosso curso sob a influência dos demais e deixamo-nos guiar por eles. E por eles perderemos a nossa vida? E você, por quem perderia a sua?As questões não são propriamente minhas, são sim, produzidas pelo tédio que Dino Buzzati causa em nós. Creio que a mestria do autor está nisso, escreve um livro que a gente lê e sente-se lá, naquele deserto, no lugar da sentinela, que espera, que mira, mas não enxerga nada! O autor pede-nos que olhemos nas costas de Drogo e vejamos a nossa própria história.

A minha curta opinião, ainda durante a leitura, num pequeno post no facebook:

Um livro que é um deserto, Bazzati é um deserto, a escrita é um deserto... Bazzati talvez tenha sido o escritor, que até hoje, me tenha conseguido meter mais dentro do cenário. Talvez tenha sido, igualmente, aquele que mais me fez sentir as ânsias e as angustias do personagem. Creio que a maior beleza do livro é essa de nos revelar na escrita o que nos revela no enredo - a dureza do passar do tempo, o fim da juventude, o peso das falsas esperanças... Só tenho a apontar uma única distância que tive do livro, a da temática militar, uma temática com a qual não sinto afinidade nenhuma, mas receio que sem isso, o peso da honra e da glória, a disciplina e o rigor já não seriam iguais. No entanto, ainda estou a digerir.

«Tempo para falar» de Helen Lewis - Opinião

Roda Dos Livros, 31.01.14

Haverá ainda "tempo para falar" de (mais) casos ocorridos durante a 2ª Grande Guerra?É "tempo para falar" e reavivar o passado?Onde reside a força para revelar tais memórias angustiantes e apavorantes?

Em "Tempo para falar", Helen Lewis revela a sua história de sobrevivência, naquele que foi um dos episódios mais negros e marcantes da História, do passado recente da Europa e do Mundo, o extermínio de judeus e os campos de concentração pelos quais muitos deles passaram, inclusive a própria autora e de como a dança lhe salvou a vida.

Neste relato, talvez em jeito de despedida, Helen Lewis traça um mapa de medos, angustias, horrores e detalhes sórdidos dos tempos em que viveu na penumbra e no esquecimento que foram os guetos, os campos de trabalho forçado e ainda Auschwitz/Birkenau, como corredor da morte. Ainda assim, e no meio de tantos acontecimentos tristes e humilhantes, Helen foi tendo, por várias vezes rasgos de sorte, fosse por ter acesso a pessoas conhecidas, ou por ser reconhecida... enfim, um sucessivo de felizes acasos e sorte que nos leva a crer que são os responsáveis por ter conseguido sobreviver, para além, é claro, da sua enorme força de vontade, para lutar e persistir, onde tudo parecia ... morrer.

«É a história de um sofrimento quase inacreditável, mas contada de uma maneira que quase infunde alegria no leitor… notável pela sua simplicidade e lucidez elegíacas, pelo ímpeto irresistível, pela integridade insuperável e pela impressionante ausência de auto-comiseração e rancor.» Independent

Tenho de salientar estar parte da opinião divulgada pelo Independent e que figura na contra capa do livro. Não concordo que quase infunde alegria, infunda talvez alguma inverosimilhança exactamente por ser um relato tão cru e tão simples e sem revelar qualquer rancor. Será possível? Será que, com tanta falta de dignidade a que foram expostas estas pessoas, que até a vontade de vingança e de revolta se extinga nelas? Será essa a justificação para que os prisioneiros, mesmo sendo em número muito maior não tenham tentado revoltas? Já que disso pouco ou nada se fala e neste livro menos ainda.

Já o The Guardian diz: "O que distingue este livro de todos os relatos em primeira mão do Holocausto é a capacidade evidenciada por Lewis para descobrir traços de humanidade, onde, com toda a justiça, não tinha razões para os ver..."É mesmo assim? Ou o relato só assume estes contornes passados tantos anos e depois de uma vida refeita!?

Não quero de forma alguma desvalorizar, mas nesta e em outras histórias fico sempre com a sensação de que os relatos são intermédios, ou os há só para chocar ou os há muito amenos, e não consigo encontrar palavra melhor, precisava de ler um livro onde as emoções se fizessem sentir por relatos transparentes, sentidos... sem meias palavras, ou arestas limadas.

Um aspecto, a meu ver, muito curioso neste livro é que desde o início até fim, persiste a necessidade da autora colocar questões no meio do seu discurso, da sua narração, como se até à data (a da escrita do livro - 1992) a própria Helen ainda tivesse dúvidas sobre que respostas dar aquelas questões.

"Em 1941. os vitupérios anti-semitas diários nos jornais e na rádio já tinham preparado terreno para uma nova lei antijudaica ao pé da qual todas as anteriores pareciam brincadeiras de crianças: a introdução da estrela amarela (...) A consciência de que estávamos marcados incutia-nos sentimentos confusos e contraditórios. A estrela era um sinal de distinção ou de humilhação, ou isso dependida de quem a usava? (...) Sair à rua sem a estrela seria um gesto de desafio ou de cobardia?" (pág. 37)Questões pertinentes para as quais buscou sempre resposta? É o que parece pela leitura do seu livro.

Em "Tempo para falar" talvez se faça mais tempo para reflectir, para questionar e para perceber. Perceber nem que seja o lugar da dança numa vida em tempo de guerra!

"(...) onde antes reinava o caos, agora havia uma dança."
Ballet- Coppelia: Waltz - para terem uma ideia da dança referida no livro
Para lerem mais sobre Helen Lewis:
The Telegraph - obituário

"A Lista Dos Meus Desejos" de Grégoire Delacourt

Roda Dos Livros, 29.01.14

A capa deste livro (sim, acho-a bonita, sim senhor!) levou-me a pensar que se tratava de um romance leve, leve... Não, de todo!Escrito na primeira pessoa pela personagem principal, Jo, esta obra deixa-nos pensativos e embora queira colocar no papel todo o turbilhão de sentimentos que sinto de momento, não consigo. Como exprimir com clareza sem banalizar uma história que é tão simples? Jo ganha um prémio elevado. O que sente no momento quando sabe que recebeu esse prémio, o medo (que a devora posteriormente) de alterar o mundo que considera perfeito, embora simples, é-nos contado de viva voz. Sem querer desvendar a história torna-se difícil falar o quando ela me marcou, o quando ela está bem escrita. O tom intimista que a autora emprega leva a que tomemos como nossos os acontecimentos que Jo nos relata do antes e do depois.Quem não pensou já e não fantasiou como seria a sua vida se ganhasse o euromilhões? E no entanto, os relatos que nos chegam aos ouvidos sobre casos semelhantes muitas vezes não têm um final feliz!!! A nossa sede de ambição e poder, face a um prémio, torna-se desmedida? Que lista fariamos nós se fossemos contemplados? Ponderariamos sequer naquilo que perderiamos se alterássemos a nossa vida? Jo sente-se feliz com o pouco/muito que possui. Tem receio/certeza que perderia uma boa parte disso se/quando depositar o cheque. Paralelamente a estes medos faz uma retrospectiva daquilo que foi a sua infância e o seu casamento: o que foi bom, o que foi violento....Acabei de ler o que escrevi. Bah!!! Nem por sombras traduz o conteúdo deste livro! Deixo-vos com uma frase, a primeira, que me prendeu de imediato: "Mentimos sempre a nós próprios."Leiam. Vale a pena!Estrelas: 5*Sinopse

Uma história tocante sobre a felicidade das coisas simples da vida.

O meu nome é Jocelyne. Quando era jovem, sonhava trabalhar no mundo da moda em Paris e conhecer um Príncipe Encantado. Mas a vida foi passando e, afinal, tenho uma retrosaria, o meu marido pouco ou nada me liga e os meus filhos já deixaram o ninho. Mas a sorte mudou e, agora, posso ter tudo o que sempre desejei. No fim de contas, agora posso ter tudo o que sempre desejei. Mas começo a duvidar se o dinheiro me trará realmente a felicidade e se não terei mais a perder do que a ganhar…

Uma história luminosa, comovente e divertida sobre o amor e o acaso, que já inspirou mais de meio milhão de leitores em todo o mundo a procurar a verdadeira felicidade.

Roda dos Livros Sugestões de Leitura - Janeiro 2014

Roda Dos Livros, 26.01.14

Numa sessão muito especial que assinalou o primeiro aniversário da Roda dos Livros, foram estas as sugestões:

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Márcia: Um Aprazível Suicídio em Gripo, de Arto Paasilinna;

Sónia: As Primeiras Coisas, de Bruno Vieira Amaral;

Paula: A Cidade de Ulisses, de Teolinda Gersão;

Cristina: O Rapaz do Caixote de Madeira, de Leon Leyson;

Renata: Gente Independente, de Halldór Laxness;

Catarina: O Novíssimo Testamento, de Mário Lúcio Sousa;

Vera: Arroz de Palma, de Francisco Azevedo;

Jorge: Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes;

Isabel: Amar de Novo, de Doris Lessing;

Cris: A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe;

E a festa continuou num convívio divertido na acolhedora casa da Isabel, onde enchemos a barriga de deliciosas iguarias e a alma de gargalhadas. Que 2014 seja um ano de grandes leituras e partilhas para a Roda dos Livros.

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Um Aprazível Suicídio em Grupo - Arto Paasilinna

Roda Dos Livros, 26.01.14

umaprazivelsuicidioemgrupoQuerer morrer. É necessário um grande desencanto para desistir de tudo. Neste livro o suicídio chega a ser considerado desporto nacional na Finlândia. Como é que a tristeza se pode tornar tão grandiosa que apague tudo o que de bom significa estar vivo? Tendência dos países nórdicos por causa da falta do sol? Ou será que as motivações para a tristeza e para o desencanto são universais?

Penso que são. Universais. Agora o que leva um povo a ser mais extremista que outro é que deixo para os sociólogos e antropólogos explicarem. O que retive deste livro, e que para mim é mais importante, é que as necessidades fundamentais de qualquer ser humano para ser feliz são transversais a todo o mundo. Depois vêm as diferenças, na sua maioria proporcionadas pela riqueza. Não falo só de dinheiro mas de todo um modo de vida existente nas sociedades (ditas) mais avançadas, em que os objectivos das pessoas passam obrigatoriamente pela carreira, por lutar por um nível de vida elevado, com comodidades e luxos. E nessa luta isolamo-nos porque relegamos para segundo plano as amizades e as relações humanas. Para atingirmos os nossos objectivos de conforto perdemos, muitas vezes o norte do que nos faz felizes, a essência do que é sermos pessoas que se relacionam positivamente umas com as outras, para nos tornarmos ilhas.

Eu nunca pensei matar-me mas os motivos que fazem o grupo de suicidas deste livro procurarem a morte são, na sua grande medida, os mesmos que trazem momentos de tristeza à minha vida. A frustração profissional, as relações de competição e frieza no mercado do trabalho, a falta de amigos, a solidão, o isolamento provocado pelo urbanismo e pela industrialização. O Homem é um ser social que, nos nossos dias está cada vez mais só.

Arto Paasilinna consegue, com uma escrita muito simples e bonita, recheada de apontamentos irónicos capazes de nos deixar a rir sobre a morte, fazer pensar sobre tudo isto enquanto acompanhamos um grupo de homens e mulheres que viaja pela Europa em busca do precipício ideal para acabar com a vida.

É uma viagem de quem sente que não tem mais nada a perder. Um grupo que atinge um nível de liberdade total só proporcionado por se sentir constantemente à beira do abismo. A sensação de estar no fim da linha, quando se prolonga, pode proporcionar uma análise diferente. Este grupo fica a conhecer-se, conversa, discute, humaniza-se, recupera algo essencial e eu quero acreditar que não é preciso olhar a morte de frente para perceber a essência da vida.

“O homem tira do bolso uma sanduíche, morde-a com apetite e diz para consigo que, no fim de contas, a vida é magnífica, simples, digna de ser vivida. Olha fixamente para as chamas, acaricia-as com o olhar. Assim têm feito os finlandeses durante milénios. Tal como agora os suicidas, ali reunidos à volta da sua fogueira na Floresta Negra, longe da pátria. Gente tão posta à prova pela vida que se esqueceu cedo de mais da sua beleza.” (Pág. 161)

Sinopse

“É precisamente no S. João, festa de luz e alegria realizada em pleno Verão, que um pequeno empresário em crise, Onni Rellonen, decide acabar com a vida. Mas quando, de pistola no bolso, se aproxima de um celeiro isolado, local ideal para uma morte tranquila, depara com uma estranha cena. E, no último momento, consegue salvar um outro candidato ao suicídio já com um nó corrediço apertando em volta do pescoço. É o coronel Kemppainen, um inconsolável viúvo que escolhera igualmente aquele luminoso solstício para pôr fim à vida.Influenciados por este acaso renunciam à sua intenção comum e conversam sobre as razões que os levaram a tomar tão sombria decisão. Já em casa de Onni preparam uma sauna, bebem, pescam e tratam-se por tu.Depressa chegam à conclusão que na Finlândia existe um grande número de candidatos ao suicídio. E daí até à ideia de fundarem uma associação de «candidatos ao suicídio» vai um passo. Colocam um anúncio:

ESTÁ A PENSAR SUICIDAR-SE?

Não entre em pânico, não está sozinho.Também nós temos pensamentos semelhantes,e até alguma experiência. (…)Respostas à Posta Restante dosCorreios Centrais de Helsínquia,para: «Tentar em conjunto.»

E um dia, acompanhados de três dezenas de companheiros, partem num confortável autocarro para uma aprazível viagem de suicídio colectivo. Atravessam a Europa em busca do melhor precipício para se lançarem no vazio. Entre os candidatos, encontram-se alguns com bastante humor, outros mais sombrios, mas todos eles participando nas ferozes reflexões de Paasilinna sobre o suicídio enquanto desporto finlandês.Acabam por encontrar o local ideal em Portugal, uma falésia junto à Fortaleza de Sagres.Um Aprazível Suicídio em Grupo é uma narrativa irónica e macabra, que provoca riso e compaixão. É também uma fábula terna e ácida sobre vidas sombrias.”

Relógio D’Água, 2010

Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie

Roda Dos Livros, 23.01.14

Se não têm o livro à mão, nem oportunidade de o ir comprar então oiçam a Chimamanda Adichie (na TED) a falar do perigo da história única e encantem-se e envergonhem-se. Por todos nós, nalgum ou em muitos momentos da nossa vida, fomos culpados de sucumbir aos perigos da "história única".

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=wQk17RPuhW8]

É ou não maravilho ouvi-la?

Acabei mesmo agora de ler este livro. Talvez devesse esperar uns dias para escrever a minha opinião mas a verdade é que este blog não é um blog de critica literária (até porque me falta a capacidade e o talento para tal) mas sim um sítio onde "escrevo opiniões a quente porque o livro mais importante é precisamente aquele que acabei de ler".
E a minha vontade é de o começar a ler novamente. E olhem que isto é algo que poucas vezes me lembro de fazer.
Meio Sol Amarelo. O símbolo do Biafra, a representação de um futuro glorioso.
Começo por dizer que o título é maravilhoso.
A escrita da Chimamanda conquistou-me deste o início: simples, cuidada, fluída. Esta escritora é de facto uma contadora de histórias. Assim de mansinho apresenta-nos Olanna e Kainene, o maravilhoso Ugwu, Richard e Odenigbo, os cinco personagens que nos vão guiar por estas histórias. É muito fácil deixarmo-nos enredar nas suas vidas, nas suas personalidades fortes, nos retratos clichés e na sua destruição. É-nos fácil sentir empatia e simpatia por Olanna e Kainene, é-nos fácil rir com Ugwu.
Este livro tem uma estrutura diferente dos outros livros. É linear por camadas: começamos no início dos anos 60, na segunda parte saltamos para o final dos anos 60 onde não podemos deixar de sentir curiosidade pelo que terá acontecido para que as nossas personagens ajam da forma como agem. Nesta parte senti que tudo estava igual mas diferente. Ou melhor, que tudo estava no sítio certo mas que havia qualquer coisa de estranho. (sim, só quem já leu compreenderá o que escrevo, até porque a autora faz questão de que saibamos que alguma coisa aconteceu). Depois damos um saltinho atrás, temos a resposta para uma série de perguntas e depois… oh, depois é um salto para o futuro e é um autentico murro no estômago. Não consigo transmitir-vos o quanto aquelas páginas me atormentaram e encantaram.
Este é um livro sobre paz, sobre guerra, sobre fome, miséria, alegria, amor, paixão, obsessão. É um livro onde a humanidade dos personagens rivaliza com a desumanidade do ser humano. É um livro sobre factos e é um livro sobre sentimentos.
Escuso de vos dizer que adorei.

A Segunda Grande Guerra em literatura juvenil - Opinião

Roda Dos Livros, 21.01.14

Antes de falar-vos propriamente de cada um destes livros, devo dizer que me orgulho muito que se escreva desta forma e a pensar nas camadas mais jovens, alertando e revivendo uma época tão negra da história da Humanidade. Ainda para mais quando se trata de um português, como é o caso de Conceição Dinis Tomé que, de entre os dois livros posso dizer-vos ser o meu favorito.

Ambos os livros levam-nos a perseguir a dura infância de três personagens. Heinrich (alemão), Jósef (polaco e judeu) e Leon Leyson, o judeu mais novo da Lista e da fábrica de Oskar Schindler. Em qualquer um deles vemos vidas destruídas, famílias separadas, homens e mulheres desumanizados, pessoas reduzidas a nada. Um nada cheio de tudo, fome, miséria, discriminação, violência, trabalhos forçados, humilhação... tudo o que contraria a liberdade e a dignidade humanas.

Uma guerra que tomou proporções gigantescas e contornos inesperados, tanto para os judeus como até para muitos alemães que não concordavam com o regime nazi... mas por aqui já todos nós sabemos ou lemos outras linhas, muitas delas aliás bem mais tenebrosas e duras do que estas, como foi o caso das leituras a livros de Herta Müller. Mas aqui, escreve-se e relata-se para camadas mais jovens, no entanto, os cenários sombrios estão lá. A falta de dignidade do gueto e dos campos está lá e do lado do sofrimento dos ainda mais inocentes, as crianças.

 

No «O Caderno do meu avô Heinrich» quase que nos derretemos com a doçura das palavras da autora, palavras sabiamente escolhidas, mas sem demonstrar qualquer detalhe forçado ou ali colocado para camuflar a dureza ou a humilhação da guerra. No entanto, cada capítulo é um deleite para o leitor que é incapaz de pousar o livro. Nós precisamos de saber o que acontece a Jósef, mas também a Heinrich, ambos corajosos e amigos. 

"É possível acordar todas as manhãs e começar de novo." Foram as palavras do pai de Heinrich, que o criou e educou à volta dos livros, permitindo-lhe viver numa livraria aventuras sob o efeito dos livros ;) Os livros acompanharam a vida de Heinrich até aos seus últimos dias. E mais não posso revelar.

Já Jósef convivia de perto com a música, sendo um génio do violino, aliás deixo-vos o vídeo de inspiração, pois o resto só lendo!

"- Um homem, Heinrich, define-se apenas por três medidas: a capacidade de amar, a capacidade de sonhar e a capacidade de lutar - disse-me o meu pai, enquanto a minha mãe lhe limpava o sangue que escorria do nariz." (pág.42)

No «O Rapaz do caixote de madeira», lido como eu o li, logo de seguida ao anterior, dá-nos a ideia de revivermos o pesadelo do gueto e dos campos, agora ainda com maior ênfase. O número de páginas duplicou, o tempo por lá passado, esse então muito maior. A incerteza do futuro, a solidão, a injustiça... potenciadas pelos diversos anos em que Leib Lejzon ou Leon Leyson (nome atribuído mais tarde) passou "nas mãos" das atrocidades da ocupação nazi na Polónia. Desde a obrigação do uso da faixa branca a ter de deixar de frequentar a escola tudo isso era pouco comparado com o que viria. Quando o gueto era mau e as condições escasseavam, mal sabia Leib, que ele e a sua família ainda iriam enfrentar Plaszów e que a sorte com que acenavam a alguns, era o campo de extermínio de Auschwitz...

A ideia de Leib e da sua família era manter sempre a ideia "se isto for o pior...", ou seja, se assim for, ainda nos aguentamos e assim foram seguindo, ultrapassando de fase em fase, cada uma pautada por maior aspereza e humilhação. A luz que surgiu nas suas vidas foi a Lista de Schindler e a tenacidade de um homem que se empenhou em salvar vidas em troco de sustentar a guerra, fosse com subornos ou contribuindo com material de guerra.

O livro de Leon Leyson não relata só o seu período de tísico judeu em cima de um caixote de madeira para chegar aos comandos de uma máquina e da bondade de Oskar Schindler. O seu livro de memórias relata-nos a sua vida, sobrevivência e resiliência. A sua vontade em esperar sempre melhor da vida e das pessoas e de ver o lado bom da vida, valorizando o que tinha, mesmo que isso fosse tão pouco. A família foi sempre o seu pilar e acreditar que tinha um lugar no mundo e uma história para contar.

*

Ambos os livros são importantes relatos de humanidade, solidariedade e resistência para sobreviver em tanta hostilidade, horror e privação. Mostra a guerra pelos olhos dos mais novos e para os mais novos. Sem dúvida dois livros para serem lidos por pais e filhos. Fica-se com vontade de rever o filme de Steven Spielberg e perceber se o retrato de Leon Leyson corresponde à imagem no filme, bem como outras correspondências.

Quanto ao livro português dá vontade de pegar e ir entrevistar Conceição Tomé e perceber as suas motivações, tentando assim descortinar como se consegue um livro belo, mas forte. É com certeza merecedor do Prémio ganho, desse e de outros.

As Mulheres de Summerset Abbey de T.J.Brown - Opinião

Roda Dos Livros, 20.01.14

Muito embora grite bem alto que a beleza das capas não me levam a comprar um livro, o que é certo é que este ficou na estante à espera da sua vez e sempre que pegava nele acabava por largá-lo. Escolhi-o pela sinopse mas largava-o quando olhava para a capa. Talvez porque ache que a capa não é especialmente bonita e acabou ficando para trás...

Até que surgiu a sua vez e, ao pegar nele, fiquei de imediato encantada pela forma como, com uma linguagem simples e directa, a autora prende totalmente a nossa atenção. Retratando com mestria uma época (Inglaterra antes da Primeira Guerra) ficamos cativadas pelas personagens principais e mistérios que elas escerram.

Perante uma aristocracia fortemente marcada por uma ambição desmedida onde o povo mais não é do que um mero peão que realiza os seus caprichos, este romance está muito bem enquadrado historicamente e quase sem nos apercebermo-nos disso, estamos no princípio do século XX com todas as diferenças de classes existentes na época, o papel crescente da mulher e a sua luta pela emancipação, os movimentos sufragistas, os casamentos impostos...

Gostei muito de mergulhar nesta leitura e recomendo-a vivamente. Um romance de época, leve, que nos incita a continuar com o segundo volume desta trilogia, esperando que mais alguns mistérios sejam desvendados e que a caracterização de alguns personagens se aprofunde ainda mais.

Estrelas: 5*

Sinopse

Centrado na vida de três jovens que procuram encontrar o rumo para o seu futuro, As Mulheres de Summerset Abbey é um romance histórica que retrata com rigor e pormenor os hábitos de uma classe e estilo de vida. Trata-se de uma história apaixonante ambientada numa das épocas mais fascinantes da história europeia.


Sir Philip Buxton criou três jovens num lar que desafiava a tradição. A filha mais velha, Rowena, aprendeu a dar valor às pessoas, não à sua riqueza ou posição social. Mas tudo aquilo em que acreditava vai ser testado na sequência da morte do pai, quando ela, a irmã e a sua amiga Prudence são forçadas a mudar-se para a propriedade do tio, Summerset Abbey.

Fisicamente frágil, mas com uma mente viva e ágil, Victoria sonha em frequentar a universidade e tornar-se botânica, à semelhança do pai. Mas este não é o único sigilo de Victoria, que acaba por descobrir um segredo de família que, se for revelado, tem o potencial de mudar várias vidas para sempre…

Prudence cresceu feliz ao lado de Rowena e Victoria, e o laço que as une é tão forte como se fossem irmãs. Mas ela é a filha da governanta e para o lorde de Summerset isso faz com que seja apenas mais uma entre os criados da propriedade. Prudence fica dividida entre dois mundos: o dos privilegiados e o dos criados, sem saber verdadeiramente qual o seu lugar no mundo.

 

As primeiras coisas - Bruno Vieira Amaral

Roda Dos Livros, 19.01.14

asprimeirascoisasÉ na Introdução que Bruno Vieira Amaral agarra de imediato o leitor. A forma como o narrador descreve a sua solidão, como se sente uma ilha tanto em relação ao passado (casamento, emprego), como em relação ao presente – à sua situação actual de regresso à casa da mãe e ao bairro onde cresceu. Tudo à sua volta lhe parece absurdo e é extraordinária a forma como o autor consegue transmitir todos esses sentimentos ao leitor. Uma escrita sincera e crua, que dá a sensação de sair bem logo à primeira, sem paninhos quentes nem artifícios. A escrita convenceu-me e é, para mim, a grande surpresa deste livro.

“Há momentos em que somos obrigados a conviver com pessoas de natureza tão distinta da nossa que bastam cinco minutos de contacto para percebermos que, cedo ou tarde, os diques que sustêm a hostilidade latente acabarão por ceder e quanto mais pressão pusermos sobre eles maior será a catástrofe. A questão que nos colocamos é a de saber se o ideal é passar de imediato para a fase de conflito declarado ou aguardar diplomaticamente que, como dizem alguns entendidos nas matérias, as coisas sigam ao seu ritmo, na vã esperança de que uma relação franca e honesta, ainda que difícil, seja possível. A diplomacia, sabe quem já esteve na guerra, é um exercício de grande violência interior.” (Págs. 20/21)

“Doía-me cada músculo, como se estivessem a ser pressionados por uma mão invisível, todos os ossos, como se estivessem a ser roídos por dentro. (…) Chegara ao ponto mais baixo da minha existência, desprovido de qualquer esperança, sem vontade de sair do quarto, só animado pelo desejo mórbido de apodrecer ali dentro, esquecido. (…) Chegara ao fim. Não era agonia. Era cansaço, desemprego existencial, lassidão dos membros, a ânsia de adormecer.” (Págs. 55/56).

E quando o viajante está na última paragem surge um último transporte. Que na verdade não o leva para longe mas para dentro, numa viagem real ao coração do Bairro Amélia, uma subida a um palco com direito a uma viagem pelos bastidores de uma peça de teatro tão triste quanto cómica, tão inacreditável que só pode mesmo ser real. Uma viagem redentora? Um passeio em busca de salvação?

E vamos todos. Todos os que lerem este livro. Eu não só visitei o Bairro Amélia como fui concluindo que o Bairro Amélia me visita diariamente, mesmo sem nunca lá ter estado. Personagens que parecem saídas de uma imaginação rocambolesca existem, e todos os dias saem dos seus Bairros Amélia e surgem na minha vida; identifico com facilidade alguns deles que, tal como eu, têm empregos e andam por todo o lado. Este Bairro é, em grande medida, o retrato de um país retrógrado, povoado de analfabetos, com tendências doentias. Ou então sou eu que tenho azar de conviver com eles diariamente.

As descrições de Bruno Vieira Amaral são transversais a toda uma sociedade. A pobreza de espírito e a ignorância não são exclusivas dos bairros sociais ou das camadas mais pobres. Na verdade vivemos num país que é um grande Bairro Amélia.

Quanto a pontos menos positivos deste livro tenho de apontar as notas de rodapé, que não têm a sua função habitual; sendo demasiado exaustivas e excessivas (mais de noventa), são quase sempre outras estórias. Tenho de admitir que as descrições isoladas das personagens ou situações, como se fossem capítulos, nem sempre me facilitaram o cruzamento da informação; sabia que já se tinha falado de determinada pessoa algures mas já não era suficiente para reter laços familiares ou amizades/inimizades, talvez aqui notas de rodapé na sua função mais básica tivessem sido úteis.

À parte estes detalhes importa reter que “as primeiras coisas” é, acima de tudo, um livro real que vale pela forma como nos acorda, revolta, diverte e emociona, faz pensar que ninguém está livre de perder tudo, mas só depende de quem cai conseguir levantar-se. Nem que seja para fazer uma viagem de observação e dissertar.

Sinopse

“Quem matou Joãozinho Treme-Treme no terreno perto do depósito da água? O que aconteceu à virginal Vera, desaparecida de casa dos pais a dois meses de completar os dezasseis anos? Quem foi o homem que, a exemplo do velho Abel, encontrou a paz sob o céu pacífico de Port of Spain? Porque é que os habitantes do Bairro Amélia nunca esquecerão o Carnaval de 1989? Quem é que poderá saber o nome das três crianças mortas por asfixia no interior de uma arca? Onde teria chegado Beto com o seu maravilhoso pé esquerdo se não fosse aquela noite aziaga de setembro? Quantos anos irá durar o enguiço de Laura? De que mundo vêm as sombras de Ernesto, fabuloso empregado de mesa, Fernando T., assassinado a 26 de dezembro de 1999, Jaime Lopes, fumador de SG Ventil, Hortênsia, que viveu e morreu com medo de tudo? Quando é que Roberto, anjo exterminador, chegará ao bairro para consumar a sua vingança? Memórias, embustes, traições, homicídios, sermões de pastores evangélicos, crónicas de futebol, gastronomia, um inventário de sons, uma viagem de autocarro, as manhãs de Domingo, meteorologia, o Apocalipse, a Grande Pintura de 1990, o inferno, os pretos, os ciganos, os brancos das barracas, os retornados: a Humanidade inteira arde no Bairro Amélia.”

Quetzal, 2013

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