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Roda Dos Livros

A Casa com o Alpendre de Vidro Cego de Herbjorg Wassmo - Opinião

Roda Dos Livros, 30.12.13

Quando peguei nesta leitura já tinha ideia do que ia encontrar. Preparada completamente nunca se está, sobretudo quando temos como pano de fundo casos de abusos, de violência e discriminação.

Este é o primeiro livro de uma trilogia que quero acabar de ler mal saia em Portugal. Conta-nos um pouco da vida de Tora, resultado de uma paixão entre uma mulher noroeguesa e um soldado alemão, quando da ocupação da Noroega pela Alemanha, na Segunda Guerra. Tora é uma "filha da vergonha" e sem saber bem quem foi o pai sente o ódio, o rancor da população em geral. Para além disso, suporta estoicamente as investidas de um padrasto alcoólico, agressivo e constantemente desempregado e uma mãe ausente, permanentemente a trabalhar para ganhar o sustento da família. É nos sonhos que se refugia e é numa fuga para um lugar bem longe da sua aldeia natal que focaliza a sua atenção e sentidos.

A escrita desta autora é muito forte, bela, rude e delicada, ao mesmo tempo. É pelos olhos desta menina que palavras como "perigo" e "ele" surgem a cada passo na narrativa, insinuando comportamentos da parte do padrasto que não acreditamos serem reais. E voltamos atrás e relemos. Será possível? É! As insinuações do que está para acontecer surgem de mansinho, com palavras serenas até que o horror se instala de facto.

Com personagens psicologicamente fortes e densamente construídos, esta obra, prima pela diversidade de situações que poderiam ter sido reais e que nos revelam, um pouco, da história da Noruega.

Um livro nada fácil de se ler pois é preciso ler um pouco nas entrelinhas mas muito bom. Mesmo! Recomendo!

 

Para onde vão os guarda-chuvas, de Afonso Cruz

Roda Dos Livros, 29.12.13

 

 

 

 

 

 

*** Att Spoilers Alert (depois não digam que não avisei)...Image

Caro Afonso,

Deixa-me desabafar: vai-te lixar, ok? Que raio de final é este? Juro-te que me sinto quase traída com este final. Mas no que raio estavas tu a pensar? Isto lá é coisa que se faça a alguém? Não sei se alguma vez te vou conseguir perdoar.

Nestas alturas gostava de conseguir achar que Isa escolheu bem e que não se deixou enfeitiçar pelo amor (olha que raio de parvoíce escrevo eu!). Gostava de acreditar que o instinto de sobrevivência, que todos temos, prevaleceu e a necessidade de viver se sobrepôs à necessidade de ser amado e querido e de ser, finalmente, visível.

Gostava de bater em que precisa de perder para encontrar, em quem cede ao preconceito, à maldade, em quem não vê o que está à frente do seu nariz. Em quem busca sonhos impossíveis e que com isso deixa passar a possibilidade de sonho que está à sua volta.

Afinal, para onde vão os guarda-chuvas? Sabes, ninguém os perde mais do que eu. Não pude deixar de imaginar que um dia vou encontrar os meus, os que perdi (e sabe Deus que foram muitos) com alguns dos meus guarda-chuvas fugidios.

Ok, eu sei o que é uma metáfora, uma fábula, uma parábola, sei essas coisas todas, mas mesmo assim tenho alguma dificuldade em transformar as tuas personagens em minhas e em decidir eu (sinto-me assim um bocadinho fraude mas o pior é que a minha decisão é precisamente o contrário da que gostaria que fosse).

E há algumas folhas atrás, ter-te-ia dito que este livro é fantástico, que me sinto reconfortada e que adorei  a forma como misturaste culturas, religiões e depois as reduziste à simplicidade do amor. Podes ser cristão deste que sejas um bom muçulmano. Há umas folhas atrás dir-te-ia que gosto de acreditar, aliás escolho “crer” e, também por isso, gostei de tanta coisa neste livro. Os fragmentos persas são fabulosos. A história da pulga da pulga da pulga captou a minha atenção e fez-me rir.

Há umas horas atrás dir-te-ia que amei o cuidado com as imagens, que o jogo de xadrez me interessou e me fez sorrir (e logo eu que, que nem sequer jogo xadrez), que vi cada página diferente, cada tipo de letra diferente. Que este é um livro para se ler e se ver (mas se um mudo pode falar em poesia, qual é o problema de apreciar um livro sem sequer precisar de o ler?).

Mas agora, Afonso, agora estou demasiado zangada contigo para te dizer isso tudo.  Porque não estava preparada para este final.

Mas, apesar de ainda estar zangada contigo (esta carta tem sido escrita aos bocadinhos) tenho que te dizer que este é um livro para nos fazer pensar. Suponho que cada leitor o leia de forma diferente (e alguns de uma forma que nem tu próprio consegues imaginar) e a verdade é que poucos livros têm o poder de nos atingir desta forma. Falar de morte e de perda, de bondade e de amor, de maldade e ódio, de discriminação e preconceito de uma forma doce e bonita não é para todos.

E por tudo isto, Obrigada.

Mas aquele final, Afonso, aquele final....

Encontramo-nos num próximo livro

Patrícia

Revolução Paraíso - Paulo M. Morais

Roda Dos Livros, 28.12.13

03-04-13_Revolucao_Paraiso_PauloMMoraisOs comentários lidos e ideias partilhadas na Roda dos Livros não me tinham preparado para a excelência de “Revolução Paraíso”. As expectativas eram elevadas e antevi que o tema, bem explorado, poderia permitir uma leitura diferente sobre uma época falada mas raramente alvo de um escrutínio “mais à séria”. Talvez por se tratar de uma época recente, por haver pouco conhecimento e pouco interesse, ou talvez pouco interesse por haver pouco conhecimento.

A verdade é que quem desconhece a época “quente” e conturbada que medeia o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975, ou a desconheça completamente e não tenha interesse em investigar (como eu fiz várias vezes, que sou interessada e curiosa mas já nasci em democracia), vai sentir que a História lhe passa ao lado, vai perder brilhantes requintes de ironia e de um humor de alto nível que Paulo M. Morais proporciona a quem se entrega a esta leitura.

Personagens fiéis à época, pelo que consigo imaginar pois as minhas recordações não chegam tão longe, que falam, agem e vivem uma constante revolução, tempos loucos de uma liberdade que se aproveitava sofregamente mesmo não sabendo, algumas vezes, o que fazer com ela. Uma banda sonora das músicas que todos conhecemos, a intervenção nas ruas e a vida de todos os dias com muitas cores. Por vezes um bocado louco, a antítese da opressão vivida até então que, muitas vezes, leva a extremos pouco recomendáveis. Retrato de um país sem rumo, num risco real de guerra civil, que se desenvolve dentro da habitual bandalheira que caracteriza o nosso povo e na qual, aliás, continuamos a viver.

Retrato não só de uma época mas dos portugueses passados e presentes, com tudo o que de bom e mau nos caracteriza. Difícil escolher uma personagem favorita, pelo menos das reais, traçadas e descritas com uma qualidade tão boa que até assusta, Paulo M. Morais até mete nervos de tão bem que escreve. Para atazanar ainda mais qualquer aspirante a escritor ainda se sai com aquelas fabulosas tiradas Queirosianas. Um trabalho exemplar que deve ser lido e reconhecido. Excelente.

Sinopse

“Alternando realidade e ficção, um romance que nos transporta aos agitados dias da pós-revolução: o retrato de um país que, entre o PREC e as eleições livres, procura um novo rumo.Enquanto nas ruas se decide o futuro de um país, na tipografia de Adamantino Teopisto vive-se um misto de enredo queirosiano, suspense de um policial e ternura de uma novela: com sabotagens, amores proibidos e cabeças a prémio; tudo num ambiente de revolução apaixonado.O rebuliço generalizado tem repercussões no alinhamento do jornal e no dia a dia das gentes de São Paulo e do Cais do Sodré.A revolução é o tópico das conversas nas tascas, nas ruas, no prédio da Gazela Atlântica, contribuindo para o exacerbar das tensões latentes entre o patrão Adamantino e os funcionários. A vivacidade de uma estagiária, as manigâncias de um ex-PIDE foragido, os comentários de um taberneiro e as intromissões de um proxeneta e de uma prostituta, agravam ainda mais a desordem ameaçadora que paira no ar.Nada foi igual na vida dos portugueses após a Revolução dos Cravos. Nada foi igual na vida da "família" Gazela Atlântica após o 25 de Abril.”

Porto Editora, 2013

Os Livros que Devoraram o Meu Pai - Afonso Cruz

Roda Dos Livros, 25.12.13

oslivrosquedevoraram“A vida, muitas vezes, não tem consideração nenhuma por aquilo que gostamos. Contudo, o meu pai levava livros (livros e mais livros!) para a repartição de finanças e lia à escondidas sempre que podia. Não é uma atitude que se aconselhe mas era mais forte do que ele. (…) Uma tarde, uma tarde como tantas outras, o meu pai estava a ler um livro que mantinha debaixo dum impresso de IRS para que o chefe não reparasse que ele não estava a trabalhar. E foi nessa tarde que ele, de tão embrenhado, tão concentrado na leitura, entrou livro adentro.“ (Págs. 12,13,14).

Depois de começar a ler é impossível parar. Qualquer apaixonado por livros se identifica e sente atraído pelas descrições. Ler aumenta a criatividade e transforma-nos em realizadores de filmes na nossa cabeça, quem nunca falou com os personagens ou desejou mudar o rumo da história?

Eu nunca levei livros para ler às escondidas no emprego como Vivaldo Bonfim mas gostava. Gostava mesmo muito de, em certas alturas do meu dia, poder desaparecer para dentro de um livro e ficar rodeada pelas paisagens que imaginei, falar com heróis e até mesmo com assassinos. Estar em constante busca de muitas verdades e aventuras. Ter um sótão para ler e experimentar vidas falsas como se fossem verdade, estar sozinha mas não o sentir por estar sempre rodeada de ideias, não só ler mas verdadeiramente viver dentro de um livro.

“Os Livros que Devoraram o meu Pai” é fisicamente curto mas tem uma dimensão do tamanho da fé que depositamos nos livros. Para mim um livro gigante. Mais uma leitura que, terminada, me coloca mais perto da certeza que Afonso Cruz não consegue escrever livros maus.

Obrigada Elias Bonfim pelas viagens e pela determinação em encontrar respostas. Também quero procurar caminhos e, mesmo que não os encontre nos mesmos locais, ficou a vontade de descobrir “A Ilha do Dr. Moreau” e “Fahrenheit 451”, que sinto já terem a porta semiaberta.

“Há inúmeros lugares onde um ser humano se pode perder, mas não há nenhum tão complexo como uma biblioteca. Mesmo um livro solitário é um local capaz de nos fazer errar, capaz de nos fazer perder. Era nisto que eu pensava enquanto me sentava no sótão entre tantos livros.” (Pág. 28).

“Atravessar a Rússia significa percorrer onze fusos horários. Quando numa ponta do país é de dia, a outra é de noite. A Rússia é como a alma humana. Se tem um lado luminoso, é porque a outra ponta está no escuro. Somos todos feitos desta estranha mistura de fusos horários.” (Pág. 86).

Sinopse

“Vivaldo Bonfim é um escriturário entediado que leva romances e novelas para a repartição de finanças onde está empregado. Um dia, enquanto finge trabalhar, perde-se na leitura e desaparece deste mundo. Esta é a sua verdadeira história — contada na primeira pessoa pelo filho, Elias Bonfim, que irá à procura do seu pai, percorrendo clássicos da literatura cheios de assassinos, paixões devastadoras, feras e outros perigos feitos de letras.”

Caminho, 2013

«BATALHA» de David Soares, Opinião

Roda Dos Livros, 24.12.13

Apesar de conhecer a obra de David Soares ainda não havia pegado em nenhum livro dele, mas a recomendação de João Gonçalves da Saída de Emergência alertou-me para este romance efabulatório, pungente e metafísico de David Soares.

«BATALHA»
«Foi num dia nem muito curto nem muito comprido que Brancaflor e Calcaterra descobriram uma coisa estranha num sítio familiar.»
*
"Nesse caso, os animais seriam uma espécie de homens e os homens uma espécie de animais, proposições que são incompatíveis com os ensinamentos da religião." Père Bougeant
Se pensarmos que «Batalha» é uma fábula inofensiva, com personagens e passagens que chegam a ser ternas e apaixonantes, seremos tentados a lê-la até às crianças. Mas se pensarmos que «Batalha» é uma ratazana, movida por um coração cego e as dúvidas do homem, juntamente com o uso recorrente a vocábulos que remontam aos ecos de uma língua quase esquecida, enriquecedora, mas desconhecida, abusando ainda de inúmeras aliterações, então atingimos as profundezas e rastejamos para uma história tenebrosa e de cunho (quase) gótico.
«Tranquilos, como inflorescências imperturbáveis do corpo nocturno, pares de borboletas bailavam naquele palco semimorto, vestidas com mais nada a não ser luar e pó estelar.Pintados de púrpura, amarelo e azul, os insectos iridisciam o lado contrário do espectro, como um arco-íris virado do avesso.»

Ainda assim, a profundidade e a universalidade das questões colocadas por seres como a ratazana ateia ou a porca piedosa continuam a encaminhar-nos para a teatralidade de uma fábula infantil, recheada de moral, que alegoricamente ensina e educa. A religião, o sentido da vida, a dignidade e a condição humana... temas eternamente questionáveis, mas aqui debatidos com a frescura de uma narrativa genuína e muito cuidada.

David Soares escreve não para ser lido em surdina e no sossego pensativo de cada leitor. A sua escrita é uma dádiva para a oralidade, são palavras, melodicamente emparelhadas numa narrativa que embala e que pede para ser declamada.

O autor descreve com mestria, a maior batalha que o ser humano trava dentro de si, a luta pelo bem e pelo mal, pela crença no divino e a certeza de contar com o terreno e o que lhe é semelhante, depositando nos outros esperança e sentido para a vida.

O traço lhano e efabulatório povoa o palco da nossa imaginação, chamando-nos à realidade, apenas com o travamento de episódios linguísticos quase hostis, que nos obrigam a dobrar a língua e a silvar por sinónimos e sentido, combatendo assim o atavismo de não questionarmos as grandes questões da vida!

«Se dependesse desses homens, não existiriam flores no mundo, pensou Batalha. Apenas ervas-daninhas.»

As ilustrações ficaram a cargo de Daniel da Silva
Excerto 

«Tal como a rancidez se regozija com o ar desprotegido, também a nudez vulnerável é o estado espontâneo da cópula. Nus, todos os bichos são lesáveis e a vulva é uma mitene que só cobre o pénis, deixando o resto do corpo ao capricho do contágio — neurotomias naturais que a todos deixam indefesos. A reprodução é regular, sem sobressaltos, como uma colónia de fungos rompendo a casca grossa dos carvalhos; e, em jeito de alcalóide amanitário, o amor escorre pelos troncos cerebrais abaixo, como vinho entornado: o símbolo universal da alegria, da sorte. O sal desperdiçado, símbolo universal da tristeza, do azar, somos nós todos, nos começos das nossas vidas: brutos, informes, impuros, sem o conhecimento das relações sensuais e da morte. Precisamos, por isso, de ser ungidos, purificados e diluídos com vinho — com sexo e deterioração — de modo a crescer, a amadurecer, a salinar. Só então podemos ambicionar a ser completos, adultos, mas Batalha, repudiando a oferta de Caldaça, estaria sempre perdido, como um infante anquilosado ao crisol, ao colo do útero. Conjuctio do macho e da fêmea — estado principal da Grande Obra, na qual toda a gente participa ou assiste — que gera a Luz: fetos incandescentes, sangrantes e vermelhos como o Sol, que choram e, com esse plangente anúncio, dão início à contagem do tempo — dos seus tempos, porque não existem outros.O tempo é apanágio da matéria viva — os mortos não precisam dele.Os mortos não precisam de nada.E, por mais que fingisse estar morto, no interior do profundo buraco acabado de escavar, com a intenção de ser a sua sepultura, Batalha podia sentir a vida que ainda lhe pulsava no pénis turgescente, nas veias urziformes e na língua ressequida.Do que é que precisava?»

"Para se levar a escrita a sério é preciso ter espírito de missão."
Vejam a entrevista sobre o romance Batalha, feita com perguntas enviadas por email pelos leitores.
Retirado directamente do blogue do autor

Jeff Em Veneza, Morte em Varanasi, Geoff Dyer - Opinião

Roda Dos Livros, 24.12.13

Um jornalista freelancer, uma festa badalada, sim é a Bienal de Arte de Veneza, mas podia ser qualquer outra festa, já que o que interessa são drogas, álcool e sexo... com mulheres bonitas de preferência.O trabalho é um empecilho, a arte também, suportam-se as festas e as pessoas que fazem as festas à custa de bellinis e a corrida aos convites mede-se pelo alcool e a droga que se conseguirá consumir. A prosa não gira só em torno desta fina camada de pó dos dias, mas pouco mais. Há Jeff e Laura, essencialmente, a droga, as cenas de sexo e o vago, sim, tudo é vago!

Vaga é a sociedade, as obras de arte, as opiniões, as reportagens... enfim, a elite (supostamente) letrada e opiniosa da arte contemporânea, artistas e tendências actuais. No entanto, com o recurso a uma escrita que seja quase a ser displicente, Geoff mostra-nos um lado fétido, desprovido de valores e bastante amoral, que todos falam e desconfiam, mas que nem sempre se coloca na montra e revela ao mundo.É uma realidade artificial, superficial e efémera  daí o desprendimento e a desmotivação com que a personagem (um misto de escrita auto biográfica com ficção - palavras do autor) vive actualmente a fase da meia idade.

Vaga é também a história ou o fio condutor que se espera que a mesma tenha, há um pseudo romance no ar, que por momentos dá um novo fôlego à vida do homem de meia idade, mas há também um objectivo profissional que é mal executado, por momentos talvez se chegue a pensar que é propositado e que a história lá volte... mas não, não volta.

Desprendimento é algo que também encontramos na escrita deste livro, que podia muito bem dividir-se em dois, talvez possamos interpretar Veneza e Varanasi como dois lugares, duas entidades díspares e antagónicas que vivem dentro do personagem, simbolizando conflitos interiores diferentes e fases da vida em que a pessoa procura algo, não sabendo muito bem o quê.Aliás, a dificuldade em se definir ou a necessidade em se afirmar é bastante notória em ambas as situações com o cabelo e o que isso representa, seja internamente para a pessoa, seja a aceitação e impacto na sociedade que o acolhe.

E falando em acolhimento, chegamos a Varanasi - é Jeff que acolhe Varanasi ou é a cidade que o acolhe?A mudança para o Ganges View é uma mudança mais interna do que geográfica?

"O que se passa com o destino é que é algo que quase pode não acontecer e, mesmo que aconteça, raramente se parece com aquilo que é."

Se assim é, que importância têm as nossas escolhas, ou as nossas preocupações? Será o acaso a condicionante e mão oculta que conduz os mistérios das nossas vidas? Ou não haverá mistério nenhum e a busca por espiritualidade, paz, felicidade não faz qualquer sentido?

A escrita despretensiosa, crua (às vezes quase cruel) e por vezes até complexa e intrincada (se contarmos com o que as entre linhas nos dizem), traz uma nova roupagem à escrita de Geoff nesta metade de si, nesta viagem, mais interior que cultural, profissional ou turística. Jeff vai ficando em Varanasi, navegando de ghat em ghat, de funeral em funeral, respirando a morte, inalando o fumo e a putrefacção, ora dos corpos, ora das flores e ainda os dejectos animais e humanos que povoavam ruas, ruelas, becos e vielas, descendo escadas, como o povo que se banha no rio sagrado.

Eu gostaria de ter lido mais sobre cultura, tradição, festividades, simbolismo, mas talvez alguma da inactividade, incerteza e busca interior do personagem seja em si o simbolismo de uma sociedade que vive do instantâneo, dos factos, das garantias, numa insignificância de mordomias. E depois, uma vez por ano, de férias, normalmente, parte em busca de paz e espiritualidade, como um flash, um momento repentino que os curasse de anos de solidão ocupada por desconhecidos, anos de vazio povoado por fantasmas de gente, pelo consumo exacerbado...

Será a Índia uma sociedade flagelada pelo cunho de uma tradição que parece mórbida, macabra e até arcaica? Ou será a nossaflutes de álcool, pós de alívio rápido e tecnologias de felicidades à distância de um clique!?sociedade, afogada em

Talvez o livro até tenha muito para nos ensinar se nós estivermos as questões certas para lhe colocar.A maioria dos meus destaques (páginas com cantos dobrados) vão para referências a filmes, músicas, autores, peças de arte... enfim, pequenos grandes deleites a que a sociedade de consumo nos habitua...

«Destruir a Prova» de Dana Spiota, Opinião

Roda Dos Livros, 24.12.13

"Certa vez, uma homem caminhava na direção oposta de encontro a ela. Ele não parou e continuou a andar. A ausência de reação dele à colisão intrigou-a. Ela ficou ali imóvel a olhar para as costas dele, a vê-lo afastar-se. (...) Uma mulher veio contra ela (...) esbarrou com ela, batendo-lhe no ombro. Também a mulher não parou de caminhar, nem lhe disse nada. (...) Quase se riu. Pensou: Finalmente aconteceu. Sou invisível."

Creio que no primeiro contacto com esta frase inicial não nos apercebemos do quão "o ser invisível" tem um papel importante.
Seremos nós invisíveis na sociedade que nos engole e nos consome?
Seremos nós invisíveis se formos diferentes?
E a invisibilidade dos outros e dos seus problemas perante nós mesmos e os nossos juízos de valor?
Qual é a importância de alguém que sofre do outro lado do planeta, se esse alguém é invisível e está separado de nós por milhares e milhares de quilómetros!?

"É FÁCIL UMA VIDA deixar de ser abençoada." É assim que, desde logo muito cedo, Dana Spiotta nos leva a ligar ser-se invisível e deixar de ter uma vida abençoada. Corre o ano de 1972 e a guerra do Vietname está quase a atingir a maioridade e já conta com quase uma década de envolvimento dos EUA, arrastando milhares de soldados e claramente, milhares de revoltas e movimentos activistas anti-guerra.
A luta contra os efeitos nefastos da guerra insurgiram alguns sentimentos e acções mais radicais e, é aqui nesta frente mais dedicada aos actos que encontramos Mary, mais tarde Caroline e já no fim Louise.

Já em 1998, conhecemos Jason que orbita em torno de uma variedade musical que me coagiu a pesquisar e a juntar para esta crítica umaplaylist, acreditando assim ser a banda sonora do livro e a que lhe serve de escape para a realidade no final dos anos 90, que, ávida de consumo, está também insaciável de compreender a clandestinidade e o sentimento de revolta que gerou muitas daquelas músicas. Desde "Our Prayer" dos Beach Boys, sendo uma ode de anunciação e abertura a uma época que já lhe parece tão longe e perdida no tempo, mas que ele, e outros, desejam compreender e abraçar.

A variância musical continua à medida que avançamos no livro, navegando pela pesquisa musical, ouvindo-a por completo, percebe-se a estrutura do próprio romance pela escolha musical, acreditando que Dana Spiotta colocou cada referência no local certo, como se nos obrigasse a ouvi-las. Quem sabe se uma segunda leitura com pausas para ouvir e interpretar cada canção, nos revelasse ainda mais detalhes.

Lendo a entrevista à autora, percebemos o fascínio da mesma por música e faz todo o sentido a quantidade de referências em «Destruir a Prova», nome também alusivo à música (Bob Dylan)

"Há uma relação muito próxima entre a música e a memória. Não sei se pelo processo de repetição. É uma coisa que me interessa muito. No meu caso e no da geração a que pertenço, bem como na geração anterior muito influenciada pelo rock’n’roll, acho que é um contágio natural. Crescemos a ouvir música."

É caso para dizer que entre as bipolaridades de uma própria geração, talvez haja a música para os unir e mesmo entre fossos geracionais, o rock'n'roll continua a salvar gerações e a criação dos seus ideais. É nesse mesmo fosso de mais de 20 anos, entre meados dos anos 70 e dos anos 90 que vemos pessoas como Louise, Nash, Henry e Miranda ou ainda Josh, Jason e Cage, todos eles ligados pela música, pelos ideais e claro pela história oculta que os une.

«Destruir a Prova» é um hino ao espírito de revolta, à luta pelos direitos dos outros, mesmo quando nos parecem invisíveis, é a contestação ao sistema, que acultura e desgasta, que nos consome e fomenta o consumo, espremendo a individualidade, apurando o individualismo, enaltecendo a globalização, mas castrando movimentos manifestantes que possam fomentar o uso da maior ferramenta de que dispomos, a liberdade. A liberdade de dizer: Não! Basta, Já chega!

Um relato que sem chocar, alerta; que sem ser chato, incomoda; que sem ser cansativo, preocupa. Um manifesto pela liberdade de escolha, mas antes de mais, pela resiliência de remar contra a maré, de conseguir uma "ecologia do bem estar" e por uma maior "higiene mental". É um grito pela contracultura, um hino à revolução. Extremamente adequado aos tempos actuais, essencialmente para nos fazer pensar sobre qual o nosso papel e a acção que temos no mundo?
Que papel o nosso? Contrariamos a corrente ou navegamos ao sabor da desculpa "são os outros" - mas quem são "os outros" senão todos nós!?!?

Para terminar e voltando ainda às palavras de Dana Spiotta: "(...) A formação dessa sensibilidade é essencial quando se tem 13 anos e se ouve aquilo que se percebe pertencer a outra realidade, menos limitada do que aquela em que vivemos. Isso fica connosco para sempre."
As formas artísticas como a música são testemunhos intemporais, provas irrefutáveis das marcas do tempo.

Música para os vosso ouvidos - Playlist «Destruir a Prova»

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Jesus Cristo Bebia Cerveja - Afonso Cruz

Roda Dos Livros, 24.12.13

jesus_cristo_bebia_cervejaA cada novo livro que leio de Afonso Cruz mais difícil se torna opinar e escrever. Um autor com um universo único e completamente inovador, extremamente filosófico e reflexivo, os seus livros abrem sempre mais um pouco a nossa mente.

Fico cada vez mais com a sensação de inter-relação entre os seus livros, como um trabalho contínuo, um caminho, uma exposição de perguntas e constante busca de respostas.

A Religião, natureza humana, os paradoxos e as contradições sempre juntos e explorados a cada página. Temas sempre abordados mas nunca repetitivos por terem tanto para desenvolver.

Desta vez não me senti tentada a guardar e sublinhar passagens, até porque todo o livro é especial, e corria o risco de não fazer mais nada. Preferi aproveitar a leitura sem paragens, sem ter medo de perder nada, consciente da dificuldade de reter tudo mas confiante na selecção natural do meu interesse.

E agora que pensei em falar um pouco sobre o enredo deste livro dou por mim perdida no meio de tantas memórias boas, tantas frases simples mas cheias de tudo, e várias personagens únicas, distintas e tão diferentes, que as suas relações, de tão inusitadas, só podiam mesmo acontecer.

Rosa, a mulher fatal, apetecida pelos personagens masculinos, é a antítese do que se promovem ser as características mais atractivas numa mulher, se calhar a verdadeira atração reside na proximidade à terra e à natureza e não em manipulações da imagem feminina muitas vezes tão distantes da realidade. Rosa é uma boa netinha, que quer realizar o sonho da avó de conhecer Jerusalém. Tudo faz para ver a avó feliz, mesmo que tenha de se socorrer de mentiras e artifícios cómicos, que sem dúvida conferem ao livro uma componente hilariante, mas que me fizeram pensar em como uma só pessoa pode promover o bem através de meios considerados errados. Natureza humana. Como podemos todos ser maus mesmo quando queremos ser bons.

Rosa é apenas um exemplo que aqui deixo pois as suas acções são, a meu ver, o principal fio condutor desta história. As atitudes de Rosa geram outros acontecimentos. Alguns hilariantes, outros contraditórios e inesperados, mas sempre perfeitamente justificados.

As minhas palavras estarão sempre longe da excelência deste livro, como possivelmente de qualquer livro de Afonso Cruz. Fica a divulgação do escritor e a tentativa (claramente insuficiente) de elevar a sua obra.

Sinopse

“Uma pequena aldeia alentejana transforma-se em Jerusalém graças ao amor de uma rapariga pela sua avó, cujo maior desejo é visitar a Terra Santa. Um professor paralelo a si mesmo, uma inglesa que dorme dentro de uma baleia, uma rapariga que lê westerns e crê que a sua mãe foi substituída pela própria Virgem Maria, são algumas das personagens que compõem uma história comovente e irónica sobre a capacidade de transformação do ser humano e sobre as coisas fundamentais da vida: o amor, o sacrifício, e a cerveja.”

Alfaguara, 2012

Muito mais do que uma biblioteca

Roda Dos Livros, 22.12.13

DSC01132Foi com perplexidade e muita apreensão que tomei conhecimento da intenção da Câmara Municipal de Lisboa em desmantelar a actual rede de bibliotecas municipais ao passar 8 bibliotecas para a responsabilidade de Juntas de Freguesia. Como utente da rede BLX não posso deixar de assinalar aqui o serviço excelente e sempre eficiente prestado por esta estrutura que considero indispensável para a população da cidade. Para além das enormes mais-valias e facilidades de acesso a um vasto acervo de documentos  que decorrem do funcionamento em rede, as bibliotecas promovem também inúmeras actividades de índole cultural e didáctica relacionadas não só com o mundo dos livros  e da literatura mas também com outras artes como a música e as artes visuais. São ainda regularmente organizadas actividades  relacionadas com o acesso à informática a populações infoexcluídas bem como oficinas/sessões orientadas para a melhoria do bem estar dos cidadãos e para aprendizagem de técnicas artesanais variadas. Sem colocar em causa o valor intrínseco a cada biblioteca , o funcionamento em rede permitiu, ao longo dos anos, a criação de sinergias muito importantes traduzindo-se hoje num amplo leque de serviços fundamentais,  muitos gratuitos e outros a custos reduzidos, os quais permitem o acesso à leitura e a outras actividades culturais a todos os habitantes da cidade e não apenas àqueles que possuem condições económicas para comprar livros e “consumir cultura”. Nestes tempos de crise económica estes aspectos adquirem ainda mais importância para a generalidade dos cidadãos pelo que nunca será demais salientá-los. Será que este elevado nível de serviços se manterá no futuro caso as 8 bibliotecas em causa passem a ser geridas por Juntas de Freguesia? Mesmo que estas tenham possibilidades de manter as bibliotecas tal como se encontram hoje, perdem-se sinergias que demoraram décadas a construir e equipamentos que dantes serviam toda a cidade passam a ser apenas de determinado bairro.

1489281_638244032906776_381940806_nPara terminar gostaria apenas de enfatizar o excelente atendimento, a simpatia e a grande eficiência do pessoal que integra a equipa da rede BLX que tudo fazem para prestar um serviço de grande qualidade a todos nós. E não posso também deixar de salientar que a existência desta Roda dos Livros também se deve à disponibilidade e ao gentil acolhimento que a BLX dos Olivais nos dispensou. Por tudo isto:

Muito, muito obrigada rede BLX, com um agradecimento muito particular à Biblioteca Municipal dos Olivais!

O Último Livro - Zoran Zivkovic

Roda Dos Livros, 21.12.13

oultimolivro O último livro que li após alguma controvérsia de opiniões na Roda.

Na  noite  em que mo cederam, dei início à leitura, passando-o à frente de outros que também tenho interesse em ler. Assim, atribuo-lhe o mérito de suscitar entusiasmo e prender-me desde as primeiras páginas numa leitura rápida e compulsiva. Nada de extraordinário a apontar, exceto que a escrita e a estória são de uma simplicidade envolvente e proporcionam bons momentos de descontração e diversão. Fiquei fã e vou procurar repetir esta experiência com outros livros deste autor mágico.

A  livraria Papyrus é idílica para bibliógrafos como eu. As inexplicáveis mortes não, mas interessaram-me como leitora.  E o inspector Dejan Lukic,  licenciado em literatura tem estranhas sensações que caracteriza como "déjá vu", possivelmente afetado pelo chá de figo. 

Um policial com contornos banais que envolve seitas e um mortal livro, lógicamente o Último Livro, mas com um desfecho inesperado. Dois mundos que não se podem cruzar.

(Nada mais vou acrescentar que possa retirar algum tipo de interesse em descobrir o que pensar e sentir sobre este último  livro a quem o quiser ler).

Sinopse:

Algo de terrível está a acontecer na Livraria Papyrus! O senhor Todorovic, um dos mais fiéis clientes, morreu inesperadamente, enquanto, sentado numa das poltronas da livraria, folheava tranquilamente um livro. Causa da morte: desconhecida. Vera Gavrilovic, uma das proprietárias, está preocupada. Até porque este é apenas o início: a esta primeira morte sucede outra, e depois outra, e outra ainda. Todas elas sem motivo aparente. Este estranho caso parece talhado à medida do bibliófilo Inspector Dejan Lukic. Dejan, com a ajuda de Vera, dará início a uma desconcertante investigação, que se adensará cada vez mais, ao ponto de envolver a polícia secreta. Isto até se depararem com o último livro... 

Enquanto o mistério não é desvendado num final surpreendente, página após página, Zivkovic convida o leitor a reflectir sobre temas apaixonantes: qual a relação entre o autor e as suas personagens? Entre sonho e literatura? O que acontece quando se abre um livro? Um romance brilhante, imaginativo, subtil e fascinante que está a conquistar os leitores de todo o mundo.

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