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Roda Dos Livros

Para onde vão os Guarda-Chuvas de Afonso Cruz

Roda Dos Livros, 27.11.13

Edição/reimpressão:

 

2013

Páginas:

 

624

Editor:

 

Alfaguara Portugal

ISBN:

9789896721978

Mal acabei de ler este livro e já estou aqui a escrever o que senti durante esta leitura. Não que seja o ideal porque é um livro tão rico, tão cheio de palavras plenas de sentido e belas que deveria deixar passar mais tempo para o assimilar melhor... MAS tive receio de começar outro livro e deixar os meus pensamentos, os meus sentidos misturarem-se com outras histórias.Foi fantástico descobrir a escrita de Afonso Cruz. Já estava cansada de ouvir maravilhas e achei que qualquer leitura iria ficar aquém das minhas expectativas. MAS isso não aconteceu, de facto!A história prende, claro. MAS prende muito mais a multiplicidade de personagens, a sua riqueza tanto ao nível dos pormenores físicos como psicológicos. O mudo que fala com as mãos e que com elas faz poesia, a criança que tudo faz para ser amada e que se parece com o pai adoptivo, "invisível como as paredes", são as minhas preferidas. Há frases belíssimas que nos fazem perguntar como é que é possível escrever tão bem. Frases que nos deliciam os sentidos, que nos elevam para outros mundos, outros amores. Frases que nos fazem sonhar. Delícias que relemos e relemos e relemos. Não nos cansam.O fim é imprevisível. Inexplicável. Duro. E belo, ao mesmo tempo.Recomendo muito esta leitura! Quero ler outras obras de Afonso Cruz. Será possível escrever assim, sempre?Estrelas: 6*SinopseO pano de fundo deste romance é um Oriente efabulado, baseado no que pensamos que foi o seu passado e acreditamos ser o seu presente, com tudo o que esse Oriente tem de mágico, de diferente e de perverso. Conta a história de um homem que ambiciona ser invisível, de uma criança que gostaria de voar como um avião, de uma mulher que quer casar com um homem de olhos azuis, de um poeta profundamente mudo, de um general russo que é uma espécie de galo de luta, de uma mulher cujos cabelos fogem de uma gaiola, de um indiano apaixonado e de um rapaz que tem o universo inteiro dentro da boca.Um magnífico romance que abre com uma história ilustrada para crianças que já não acreditam no Pai Natal e se desdobra numa sublime tapeçaria de vidas, tecida com os fios e as cores das coisas que encontramos, perdemos e esperamos reencontrar.

"A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert" de Joel Dicker :: Opinião

Efeitocris, 26.11.13

“A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert” que bem se podia chamar “Quem matou Nola Kellergan?” é o mais recente romance policial de Joel Dicker.


page turner “A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert” (Edição portuguesa pela Alfaguara/Objectiva) catapultou o autor de 27 anos para a ribalta, fazendo jus à profecia com que começa o seu livro: “Toda a gente falava do livro” E a verdade é que falam mesmo. Com vendas a ascender um milhão de exemplares, eis o livro que destronou “As Cinquenta Sombras de Grey” e que foi negociado por valores superiores aos do Harry Potter e, na opinião dos media, um caso para destronar também, “Inferno” de Dan Brown.

“Um bom livro, Marcus, é um livro que lamentamos ter acabado de ler”

Os críticos reconhecem-lhe traços de Nobokov, de Jonathan Frazen e até Woody Allen ou Philipe Roth. Eu reconheço-lhe uma intriga excepcional, muito bem emparelhada, com capítulos de mestre, páginas e páginas que nos deixam em suspenso, um crime talvez maior que o amor ou talvez seja melhor dizer que o maior crime foi mesmo: amar.

São quase 700 páginas que passam num ápice e que nos envolvem em cada personagem, fazendo-nos por vezes perder o fio à meada, preocupando-nos mais com o que é revelado sobre cada pessoa, do que realmente resolver o mistério de “Quem matou Nola Kellergan?”

“(…) toda a gente sabe escrever, mas nem todos são escritores.
– E como sabemos que somos escritores, Harry?
– Ninguém sabe se é escritor. São os outros que lho dizem.”

E creio que a opinião pública e entendida neste tipo de “casos” já disse. Já fez saber que a meta a que aspirava Marcus Goldman é agora a etiqueta de Joel Dicker.

Este romance com traços de policial é um livro dentro de um livro que fala sobre outro livro. Passo a explicar. Temos um livro em mãos “A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert” que nos começa a revelar a pesarosa situação de Marcus Goldman, escritor best seller que tem, necessariamente, que produzir um novo livro. Ora crise de página branca instalada, Marcus parte em busca de auxílio, em busca de uma opinião de mestre. Em tempos foi aluno de outro escritor best seller, agora caído em esquecimento. Harry Quebert, conhecido pelas “As Origens do Mal” volta à ribalta, mas por ser acusado do homícidio de Nola Kellergan, quase 30 anos depois do desaparecimento da jovem.

 
 
 

Não querendo aproveitar-se da situação, mas sentido um dever como amigo, Goldman parte em busca da verdade e indo ele auxiliar Quebert. A sua investigação informal trará à luz do dia segredos e episódios há muito enterrados, mas não esquecidos. É a partir daqui que tudo se complica e se enreda e as reviravoltas são constantes e algumas complexas até.

Se encararmos o livro, sobre como escrever um livro, talvez este seja um manual, grande, complexo, teórico, rebuscado, mas um muito bom exemplar!

Em suma, é um trabalho meticuloso, é um livro com excelente capacidade critica, mas igualmente com elevada tendência para a introspecção. O autor ora nos faz olhar para o mundo e o estado da sociedade actual, como nos pede para olharmos para dentro. É também um enredo com elevado sentido de humor, que nos arranca algumas gargalhadas (talvez do melhor, a “A América é o paraíso do pénis” pág. 91/92), no entanto, não apreciei os diálogos maternais e exagerados entre Marcus e a mãe. Talvez seja o único detalhe negativo.

“- Sabe o que é um editor? É um escritor falhado cujo o pai tinha dinheiro suficiente para poder apropriar-se do talento dos outros.”

Vejo o livro como uma manta de retalhos, um emaranhado complexo de traços, de características, de personalidades, de motivos e de cores… no entanto, depois de terminada, faz todo o sentido no seu conjunto. É assim o excelente livro de Joel Dicker.

«A Desumanização» de Valter Hugo Mãe - Opinião

Efeitocris, 26.11.13

«Um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho.»

Halldór Laxness, Gente Independente 

E você, será capaz de estar sozinho para ler este livro?
Não se trata propriamente de um livro assustador ou de terror, mas pode aterrorizá-lo e desumanizá-lo um bocadinho. E utilizar o diminutivo é apenas para reduzir a elevada dor e angustia que atormenta, a já atormentada vida de Halldora.

«A Desumanização» são as sobras, as dores, as perdas, os terrores de ficarmos sobreviventes da morte. A morte dos outros mata-nos. Apesar de estarmos todos a morrer, a morte de alguém que amamos e que nos completa, mata-nos mais um pouco e deixa um buraco, um fosso, uma negritude que não se ilumina. Uma profunda tristeza que levaremos para o dia-a-dia e que nos envergonha cada vez que sorrimos e nos redimimos da dor, querendo avançar na vida.

É este o retrato com que Valter Hugo Mãe emoldura a solidão de caminharmos na vida sem um ente querido. No caso de Halldora, a perda da irmã gémea, Sigridur faz dela a metade menos morta da criança plantada. A ideia dos corações dos mortos como caroços na terra, semeiam uma certa bizarrice, mas não deixa de ter um certa inocência de explorar um tema tão misterioso e tabu quanto a morte surge quando se é criança. Agora imaginem quando a morte nos leva o nosso espelho, o gémeo, a outra metade de nós, igual a nós, aquela parte intrínseca e que nos completa.

Para além do peso da morte da irmã, Halla carrega o peso de sobrar para uma mãe atormentada pela dor de ver em Halldora a imagem constante do que a vida lhe roubou. A dor maior, a perda de um filho é aqui violentamente exposta por imagens muito fortes. A dor física como purga da dor invisível que nos mata por dentro, é mais dolorosa ainda quando feita no corpo do outro e este outro é a criança. É logo nas primeiras páginas que vemos uma mãe perturbada ferir-se e ferir quem deveria proteger. Desumanizem-se, se assim precisarem. Soltem-se da imagem mental que fica, mas leiam. Leiam até ao fim.

“Quem sepulta um filho não tem idade. Está para lá das idades, para lá dos tempos.” (pág. 131)
“Em sobrar estava a oportunidade de prosseguir e de alguma vez ser feliz.” (Halldora, pág. 159)

A terra como comedora da felicidade. A Islândia como um corpo pulsante. Deus está na Islândia, a Islândia é deus! A ideia da terra e do papel dos mortos debaixo da terra é, a meu ver, dado como metáfora para o quanto as raízes e a nossa posição geográfica condicionam a nossa visão da vida, aliás a nossa visão do mundo. O gelo e as temperaturas negativas talvez justifiquem a tal desumanização? Sempre que nos defendemos e criamos estratégias para lidar com os outros, ultrapassando-os, desumanizamo-nos? Serão essas defesas altas barreiras como as montanhas, afastando-nos, estratificando-nos uns dos outros?
E se nos afastarmos, quando perdemos o outro, sofremos menos!?

São inúmeras as questões que as metáforas e os jogos de palavras, tão visuais, levantam nesta sua viagem e homenagem à terra dos fiordes. Como a própria criança afirma, “Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia.” (pág. 63) E este livro é isso mesmo uma utopia de chegar ao outro e quebrar a barreira, é uma oferenda. Um enredo ensanguentado, que nos faz pensar a solidão, que o autor acredita ser de todos nós (entrevista no Bairro Alto, aqui).

“A poesia é a linguagem segundo a qual deus escreveu o mundo. (…) Onde há palavra há deus.”
Se deus está na Islândia e a Islândia está neste livro, então este é um livro sobre deus!? Talvez seja uma tentativa de desumanizar a morte e o encontro com deus… talvez! Mas isso caberá a cada um de nós sentir o que esta leitura nos traz.

«Queria proteger contra o esquecimento. A maior vulnerabilidade do humano, a contingência de não lembrar e de não ser lembrado.»
 

«Metamorfose à Beira do Céu» de Mathias Malzieu - Opinião

Efeitocris, 25.11.13

Mathias Malzieu tem uma forma única de falar de amor!

 

A metamorfose ocorre não só à beira céu, mas à beira de uma vírgula, na esquina de uma página, no fim de uma frase, de um sonho num parágrafo.
A escrita de Mathias Malzieu é em assim como um espremedor, que nos faz mirrar naquilo que somos, mas nos torna suco, flexível e permeável a toda e qualquer transformação seguinte, como a de evaporação…
e sairmos por ai, esvoaçando e contornando nuvens, fazendo razias a pássaros, ultrapassando águias e voando, voando, voando.

Mathias é um mágico, com uma varinha ritmada e acelerada capaz de, num piscar de olhos, metamorfosiar o leitor, expande-lhe os sentimentos, transborda-lhe os pensamentos, mete-lhe os olhos, o coração e os pés… no céu!
Malzieu é um arquitecto do surreal, um paisagista do céu, um viajante inquieto, um sonhador desajeitado, assim como Tom Hematoma «Quanto mais caía, mais popular me tornava».
É como se Mathias fosse uma pessoa e Malzieu fosse outra, mas que se completam ardilosamente e genialmente, dando origem a esta fábula sobre liberdade.

Se para vocês liberdade for amor, paixão, vida, devoção, magia, destino, aventura… enfim Liberdade é Metamorfose, então vocês vão amar tanto este livro quanto eu.

Por isso, parta à aventura:
“Uma velha tenda impermeável, um saco-cama e o campo das possibilidades enfiados numa mochila demasiado pequena, e lá fui eu. Nunca me senti tão leve na vida.”
Inicie-se na arte da fuga… mas não se deixe ser apanhado!
“E.T., compreendo porque é que fugiste de bicicleta pelo céu fora. No teu lugar, teria continuado a pedalar até Plutão, sem olhar para trás.”

Tom Hematoma é uma vítima da beterraba, que o obriga a envergar o pijama aprendiz de cadáver e onde a cama o devora como uma planta carnívora. A estadia no hospital é para Tom Hematoma, o período das horas mortas, dos relógios à moda de Dali. 


Mas a magia acontece e a lua está em apneia, apaixonada…
E Tom precisa imperativamente de ressuscitar antes de morrer.

Eu poderia continuar por este mundo mágico onde Tom Hematoma quer pôr um ovo com um eu lá dentro (…) e nunca mais ser encontrado pelo Senhor Beterraba, mas assim vocês ficam só a pensar que isto é uma história louca ou ficam loucos pela história!? O que vai ser?

***

Quando terminei o livro tive vontade de contar a quem em português o tornou seu, Tânia Ganho (tradutora) o quanto tinha apreciado o livro e claro a tradução. Durante uma pequena troca de ideias (à qual agradeço imenso a atenção) surgiu esta singela conversa onde tive um rasgo de imaginação que resume muito bem esta delícia de livro:

A metáfora com os nomes é maravilhosa. Ela endorfina, ele viciado em dopamina, mas dependente da morfina… ou a beterraba que funciona como noradrenalina ou voar como serotonina. É uma forma única de falar de amor.

Aproveito então para deixar aqui o meu agradecimento à Tânia pela amabilidade e atenção, partilhando sensações e enriquecendo esta experiência que é o Efeito dos livros!

 

«Jesus Cristo bebia cerveja» de Afonso Cruz :: Opinião

Efeitocris, 25.11.13

Brindemos, Jesus Cristo bebia cerveja!

Que fado dos infernos viveu esta Rosa. Malfadada personagem, perdida num lugarejo lúgubre alentejano, onde a ruralidade não deveria ser desculpa para as brutalidades cometidas.
Filha de mãe fugida e pai enforcado, junta-se ainda um avô atirado num poço e uma avó que mija a seus pés e que já conta com muitas dívidas à saúde.

Quem leu e não gostou, ou leu e achou pouco, eu creio que não precisa de ser tudo dito. Por um lado, ainda bem, por outro porque nos deixa magicar aquilo que o autor não revela, não cria… dando ao leitor um pedaço de criação. As personagens são marcantes. Todas elas. Rosa é inocente … pen­sava que a san­ti­nha tinha as mãos jun­tas por­que batia palmas.
O Faia era bombeiro, mas pelos vistos não tinha quem lhe apagasse os seus fogos.
O pastor Ari, “o leão deitar-se-à com as ovelhas” … e a profecia cumpre-se!
O policia que é corrupto, é bruto e muito pouco polícia, o que não deixa de ser irónico e talvez exemplificativo de como certa coisas acontecem com naturalidade, naturalmente aceite.

Há uma certa tendência para o exagero, dirão alguns. Eu encontro uma elevada tendência mágica para mascarar os acontecimentos, tornando-os na mesma brutos e crus, mas menos chocantes. As cenas de violência, de abuso, de sofrimento, de ignorância… estão todas lá, mas muito bem camufladas nesta capacidade quase poética de Afonso Cruz.

Se o Alentejo é terra árida, seca, sofrida e até selvagem, então Rosa é o Alentejo. A terra desenvolve-se (ou não) e Rosa cresce. A acção avança, as tragédias continuam a acontecer.

O Professor Borja e Miss Whitmore começam a ser fulcrais e a ideia central do livro começa a desenhar-se. Trazer Jerusalém ao Alentejo. Será o Alentejo a Terra Santa? Poderá este enredo original e idílico trazer água no bico e ser metáfora e piada a algumas considerações sobre a importância (ou a falta dela) do nosso Alentejo!? Não sei, deixo à discussão, mas essa ideia não me abandonou em todo o romance. Afinal o próprio autor trocou a capital pelo Alentejo, algo o atraiu para lá…

Os episódios acumulam-se e queremos ver tal engenho trazer a terra santa para que os desejos da idosa, a avó de Rosa, sejam cumpridos. Mas o melhor de todo o enredo, não está neste foco central, está sim nas palavras que o autor usa para criar certos ambientes e preencher, dar alma, às suas personagens. Mesmo quando a alma se sente vazia.

“Rosa nunca se sentiu única” porque tudo o que lhe acontece é minimizado pela avó, que lhe diz “isso também já me aconteceu. A vida de Rosa é partilhada por todos (…) Ela pertence a todos, como o pão da missa que se divide pela humanidade” (p. 157)

Pensando no sentido do título e no cabimento de Jesus Cristo dentro deste livro, existem inúmeras frases que são assim como que iluminadas, como que tocadas pela sabedoria, como aquelas que teimavam em reaparecer, divinamente, no muro branco da inglesa. “Parece que a sabedoria teima em reaparecer, como os fungos.” (pág. 31).

As questões existenciais continuam e a luta de ideologias entre o hindu, os cristãos, ou até budistas… todos são chamados ao debate do “Eu”, do vazio, alquimias e magias… os desígnios das “coisas”. Enfim, a liberdade de ter opinião e deixá-la ganhar asas ou ser como as árvores ter asas e não voar, as raízes são profundas, enterradas, como palavras.

Existem aqui muitas, dessas palavras enterradas, mudas, invisíveis… deixadas para o leitor para que não lhe sobre o “silêncio na boca”. Talvez este livro seja preenchido com alguns silêncios, aqueles que fazemos entre determinadas frases mais profundas, aquelas que nos fazem ter vontade de gritar, mas “gritar é coisa de pessoa sozinha. Quando temos pessoas para nos ouvir não precisamos de gritar, pois não?” (pág.87)

E já para o fim, para se fazer ouvir, Rosa terá de tomar decisões. Talvez deixe de ser como os gatos. “a comer pássaros para voar.” (pág.190) Talvez deixe de chupar pedras como se fossem rebuçados a vida se torne menos pesada e pedregosa. Talvez dê “carne às palavras” e de beber à solidão.
Talvez, talvez… Rosa, de menina a mulher, com a alma como “uma casa a precisar de ser caiada” (pág.246)

"O Filho" de Michel Rostain - Opinião

Roda Dos Livros, 25.11.13

Edição/reimpressão: 2013
Páginas: 152
Editor: Sextante Editora
ISBN: 978-989-676-167-7
Idioma: Português

Há certos temas que me controlam completamente e aos quais não sou capaz de resistir. Mal li a frase que vem na capa deste livro senti que o teria de ler. "Um filho que perde um pai chama-se órfão. Como se chama um pai que perde um filho?"

Saber que o autor sofreu a perda de um filho torna muitas destas páginas mais sentidas. Por ele e por nós, leitores.

Mas este é um livro especial. Sobretudo porque quem relata os acontecimentos é o próprio filho. Como se ele estivesse a assistir ao sofrimento do pai, comentando, tentando interagir com um pai que ama e que tenta a todo o custo encontrar a "vida" do filho nos objectos deixados por ele, encontrando sinais que o levem a continuar a caminhar...

O que me ocorre dizer é somente isto: este é um livro especial! Especialmente para ser lido por quem se atrever a pegar numa questão que muitos de nós nem se atreve a imaginar...
Terminado em 16 de Novembro de 2013

Estrelas: 5*

Sinopse

O meu pai está no caos da sua primeira semana de luto, quando as cerimónias já tiveram lugar e os amigos se foram embora. Solidão, é aí que começa verdadeiramente a morte. Passou o dia a escolher as minhas coisas, a chorar entre dois telefonemas, a assoar-se abundantemente sem sequer invocar o pretexto da alergia ao pó. Resigna-se a deitar fora os meus velhos livros, depois de ter lido meticulosamente aquelas nulidades acumuladas, não fosse acontecer que eu tivesse esquecido alguma nota, um desenho, uma coisa qualquer pessoal que lhe servisse de mensagem. Não encontra nada, nenhum sinal. Depois destas horas de buscas aterradas - e apesar de tudo indiscretas, pai, é verdade que morri, mas, mesmo assim… -, eis que repara de repente, em rodapé daquela convocatória que o intrigava, numa indicação escrita a lápis, em letra muito miúda…

 













"Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas" de Ricardo Adolfo :: Opinião

Efeitocris, 24.11.13

 

"E não havia maneira de me habituar a viver morto."   

Será este o sentimento de quem emigra? Existirá outra forma de imigrar, sem ser geograficamente?

"O título é uma referência ao processo de transformação pelo qual se passa quando saímos de uma realidade e temos de nos recriar noutra. Esse para mim é o morrer, porque a partir do momento em que desembarcas noutro sítio qualquer esquece quem eras, começa tudo do zero." Diz-nos o autor em entrevista ao Ipsilon.

Partindo então destas duas imigrações, o autor conta-nos a história de Brito imigrante ilegal e da sua família mais chegada, a mulher e o filho.Eu não sei se quem já leu, identificou logo à partida que o imigrante Brito teria necessariamente de ser português imigrado algures nessa Europa. Apesar do nome ainda estive algum tempo a cruzar as referências com a maioria dos imigrantes de Leste que temos cá em Portugal. No entanto, logo me apercebi que a "ilha" seria então o Reino Unido e que Brito seria mesmo português. O que desde logo é brilhante o autor ser capaz de nos aproximar de outros imigrantes.

As características e os tiques de quem imigra, são para mim identificadas apenas com os que partem e voltam nas férias e com quem me cruzo no Verão. Face à imigração, conheço mais pelo que leio ou vejo nas notícias e claro, quando viajo e contacto com portugueses ou outros imigrantes e as semelhanças entre cá e lá (seja que país for) é bastante similar. Mas isto para dizer que os clichês marcadamente de imigrante estão bastante bem definidos e retratados nas personagens de Ricardo Adolfo, para além de tiques igualmente bem portugueses e que encontramos em qualquer lado. Dando isso um aspecto muito real a todo o enredo.

Enquanto o livro decorria eu só pensava no meu pai, que é quase um imigrante intermitente, a sua dificuldade com a maioria dos idiomas, nomeadamente o inglês e o atrofio que é quando precisa de ajuda, essencialmente com direcções, caminhos, moradas... e seja, na França, na Bélgica ou na Alemanha, é raro encontrar quem se importe em "perder" tempo em o ajudar. Daí que ele afirme que o GPS deva ser A invenção!Em resultado, surge a desconfiança e a descrença, em geral, em toda a gente e por todos os motivos. É muito disso que se assiste neste "Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas".

Sendo o próprio autor um imigrante é curioso que tenha escolhido retratar esta parcela de imigrantes, mais flagelados e com menos habilitações académicas, mas, ele mesmo o justifica: "Há uma parte que é o cliché de puxarmos Portugal para nós, e depois há outra que é o facto de ganharmos uma perspectiva diferente sobre a nossa realidade. (...) Percebi que a vida aqui é bastante rica para quem quer escrever. Há contradições e tensões muito pequeninas que são fantásticas."Pequenas riquezas essas que preenchem o seu "Mizé", mas que se encontram também aqui com facilidade.Riquezas de um povo, da terra e da sua ruralidade.

"Prometi-me levar o miúdo à terra um dia e ensinar-lhe a matar o porco, varejar azeitonas, encontrar o caminho para casa embriagado, (...) fugir à guarda, reconhecer o caminho das pedras no rio, (...) baldar-se à missa sem dar nas vistas, aliviar a caixa das esmolas..."

"Se não há testemunhas do nosso dia-a-dia, não há vida." É esse espaço morto que o autor nos quer revelar e fazer pensar. A dificuldade de tomar uma decisão e seguir em diante. Acho que é esse o cerne do livro, o peso das decisões, das nossas e das que os outros tomam e afectam a nossas, aliás isso será o viver em sociedade. Há toda uma história colectiva de uma Europa sem fronteiras que reserva, algures, um melhor espaço para todos. Se a Europa é para unir os povos, porque continuamos a ter estrangeiros e imigrantes!? A ideia do imigrante como vizinho a roubar no quintal alheio (pág. 113) é digna de debate, essencialmente se pensarmos em fronteiras e identidade - haverá assim tanta que ainda nos separe?

 

«As primeiras coisas» Bruno Vieira Amaral - Opinião

Efeitocris, 24.11.13

«As primeiras coisas» é o regresso às origens olhando os "estendais de gente mórbida", num rol de relatos que oscilam entre as tragédias e os enguiços que compõem a manta de retalhos que é um bairro, agora mais retalhado e remendado, sofrendo o natural passar dos anos, na dureza dos remendos dos dias!

Um romance a modos que disfarçado de enciclopédia que pretende nessa mestria de organização alfabética ordenar personagens desorganizados só por si e pelas vidas que levam, fruto do suburbano e das vicissitudes da vida.

Se alguns retomam às origens e não se orgulham de morar atrás do sol posto, Bruno, o personagem e narrador não se orgulha de retornar, tal qual retornado, mas para ele a guerra ainda haveria de começar e tem agora que voltar ao Bairro Amélia, sentindo o amargo de uma volta forçada.

Desempregado, recém-divorciado e a voltar à casa mãe (em toda a ascensão da palavra) o narrador é capaz de criar uma empatia imediata com o leitor, já que desde a sua condição a toda a conjectura bairrista, o que não lhe faltará serão fãs. Acredito que entre as mais de 50 personagens todos teremos traços que reconhecemos em alguma delas ou pelo menos algum nome nos fará lembrar alguém, tão ou mais "personagem" do que os habitantes do Bairro Amélia.

Com ou sem a Grande Pintura, o que dá cor a este livro, já que a enciclopédia reúne tragédias, enguiços, maledicências, fofocas, crimes, ladrões, putas e abortos, é mesmo os peculiares habitantes que no seu composto tecem a partitura que musicaliza os dias mais sossegados do Bairro ou são as suas histórias que puxam o brilho aos dias cinzentos. A cor deste livro são os detalhes. São os traços minuciosos que enaltecem a escrita de Bruno Vieira Amaral e que, mesmo em jeito de crítica social, retratam tão bem este ser-se português e ser-se bairrista, fatalista e até capitalista de bens pequeninos mas que tão grandes nos tornam.

Começando com a premissa de que "Portugal é um país de poetas" (Fion, página 36), passando pelos tempos em que éramos guerreiros com metralhadoras em tubos de pvc que cuspiam cartuchos de papel (pág. 45) e tínhamos o pai ou o tio que ao Domingo lavavam o carro na via pública ou saiam pro café com "bocadinhos de papel higiénico na cara depois de um golpe ao fazer a barba..." (pág. 206)... enfim, traços de um Bairro, que pode ser qualquer bairro, desde que habitado por gente que não tem medo de ser gente.

Para além da crítica social, que a meu ver está espelhada em tantas frases, habilmente cronológicas ou biográficas mas que se deixam ler nas entrelinhas, o traço idiossincrático que a todos dirá algo de diferente, mas que nos torna a todos semelhantes."Casal feliz (...) viviam numa barraca, das que tinham sido construídas perto das hortas, longe do bairro para que não os considerássemos vizinhos, mas perto o suficiente para que não fossem estranhos." (pág. 88)

Há, em todo o compêndio de crónicas, a meu ver será isso, muito mais que um romance, uma forte tendência para a introspecção - até que ponto nos esquecemos de onde vimos e para onde vamos? O lado da estrada em que está o nosso prédio condiciona o entendimento que temos de um bairro e por si só, o entendimento que fazemos da sociedade?Será a estratificação social um bem necessário para que todos saibamos com o que contar do próximo, porque o dia a dia programado deixou-nos intolerantes ao acaso e ao inesperado!?

Creio que sociologicamente o livro levanta muitas questões, no entanto não sei se é ai que o autor deseja chegar ou sequer que seja isso que pensemos durante a leitura ou quando chegamos ao fim, mas perante alguma ausência de enredo e fio condutor, está lá, mas é ténue ou é a questão estética que assim obriga e o leitor menos habituado enseja por algo que não vai ter...Talvez isso nos deixe a braços com a tal introspecção e cheguemos a pensar na tal "energia geriátrica" que nos pode faltar se tivermos de recomeçar, ultrapassar o "dilúvio do esquecimento" e enfrentar, de orgulho ferido, "o mastigar estúpido dos dias".

Apesar de a gíria dizer que "a vida são dois dias", nem todos somos como o camaleónico Moreno e por vezes exacerbamos "a nostalgia pelos paraísos perdidos", tendo como certeza que "nada é eterno, nem sequer o descanso dos mortos."

"Prédios" é o meu capítulo favorito, pela dureza, fria e áspera como o cenário de betão que compõe muitos bairros Amélia e nos relata os tais "estendais de gente mórbida"..."Tal como os seres humanos, as cidades, as vilas, os bairros adaptam-se, têm movimentos orgânicos, desenvolvem-se, crescem, certas zonas são como células cancerígenas, outras como defesas imunitárias contra o desespero..."

Só resta perguntar, em que célula estamos nós?

«As primeiras coisas» Bruno Vieira Amaral é o seu romance de estreia, num compêndio de personagens, introduzido por cerca de 50 páginas de apresentação, mais de 90 notas de rodapé, num enredo de mais de 50 personagens e mais de 300 páginas (301 para ser exacta) onde a volta de um homem pode desvendar mistérios, alguns internos e tão pessoais, que só revisitados passam a fazer sentido. Do Aborto, aos Enguiços ou aos "melhores lugares para voar no Bairro Amélia", não esquecendo que teremos de contornar os "Prédios" e o picante das peculiaridades suburbanas de um Portugal que não se quer esquecido.

Roda dos Livros Sugestões de Leitura - Novembro 2013

Roda Dos Livros, 24.11.13

DSC01221Mais uma tarde a rodar livros e ideias. No encontro de Novembro recebemos o convidado Luís Ricardo Duarte, jornalista do JL, que falou um pouco do seu trabalho e nos sugeriu três dos seus livros de eleição.A Confissão da Leoa, de Mia Couto;  Nove Noites, de Bernardo Carvalho;  O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati;

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E a Roda dos Livros sugere:

DSC01224

Sónia: Fome, de Knut Hamsun;

Cris: A Metamorfose à Beira do Céu, de Mathias Malzieu;

Renata: O Último Livro, de Zoran Zivkovic;

Fernanda: A Minha Pequena Livraria, de Wendy Welch;

Vera: O Tango da Velha Guarda, de Arturo Pérez-Reverte;

Cristina: O Filho, de Michel Rostain;

Patrícia: 1Q84, de Haruki Murakami;

Márcia: Para onde vão os guarda-chuvas, de Afonso Cruz;

“As Velas Ardem até ao Fim” - Sándor Márai - Opinião

Efeitocris, 23.11.13

A curiosidade para este autor, nasceu com o livro «A Herança de Esther» que ainda não li, já que quando comecei a procurar, deparei-me com este “As Velas Ardem até ao Fim” (uma edição Dom Quixote, 2001) e pareceu-me uma excelente forma de começar e não me enganei.

Comecei e acabei-o no mesmo dia. A inquietação de ter de saber o que se passou entre aqueles dois homens foi maior e a leitura teve de continuar.
A velhice actual de Konrád e Henrik é exposta através dos fantasmas que ficaram dos tempos vindouros onde estes dois amigos, conviveram e criaram uma personalidade em conjunto, desenvolvendo uma amizade muito pouco usual e ao mesmo tempo muito pura. Mas tudo muda, tudo se altera e a separação foi inevitável.

É na partida de um e no ficar do outro que se passam quarenta e um anos. Quarenta e um anos de espera, de ausência, de silêncio e igualmente de dúvida e mágoa, mas mais ainda de vontade de terem uma última conversa, um último desabafo.

O início do livro é o alerta para a chegada do tão esperado momento e todo o livro se desenrola de forma a fazer-nos saber do quão intrincada era a relação entre ambos. Até que a conversa, ou talvez mais um monólogo ocorra. Muitas são as perguntas ditas e desditas, porque já se sabem as respostas, muitas são as respostas mudas, em que os gestos e o silêncio dizem tudo… Digamos que é o climax final pelo qual esperamos todo o livro e este não desilude.


“As Velas Ardem até ao Fim” é uma extraordinária história de amizade e de resiliência humana, onde o retorno às origens e o confronto com a verdade pode sempre ser a salvação, o descanso e o apaziguar da alma. No entanto, são quarenta e um anos de vida em suspensão e você perdoaria? Seria capaz de viver assim? Foram perguntas que me vieram várias vezes à ideia.

“Aguentámos, pensou o general”

«Um portentoso tratado sobre a Amizade em forma de romance, uma obra-prima» diz Inês Pedrosa

Não poderia estar mais de acordo. Este enredo em formato de álbum de família, numa antevisão do já parco futuro, dá-nos a certeza de que o passado e o presente se misturam e se desaguam no futuro, é porque o futuro ao passado vai beber. Uma escrita poderossíssima e bela, que nos prende desde o primeiro momento. Um equilíbrio muito bem conseguido entre acção e descrição, não tornando nunca monótona a leitura. Um enredo cativante, por vezes comovente e ternurento, mas muito frontal e lúcido, deixando sempre a descoberto a pureza de uma amizade de mais de meio século.

“(…) os pormenores, às vezes, são muito importantes. Dum certo modo ligam todo o conjunto, colam a matéria base das recordações.”

Que pormenores nos ficam? Que pormenores colam as nossas memórias?
Um romance sobre a amizade é certo, mas também sobre decisões, remorsos, consequências, honestidade e sobrevivência, sem esquecer o ciúme, a suspeita e o amor.

“Era o momento em que a noite se separa do dia, o mundo de baixo do mundo de cima. (…) É o último segundo em que a profundidade e a altura, a luz e a escuridão, tanto universal como humana, ainda se tocam (…)”

E na sombra, deixo-vos com Polonaise-Fantaisie de Chopin, já que a sua sombra também paira neste romance.

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