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Roda Dos Livros

"A Linha Ténue do Passado" de Mónica Cortesão Gonçalves

Roda Dos Livros, 30.09.13

002Foi de sorriso no rosto que a autora me cumprimentou na sua apresentação do livro na Fnac do Vasco da Gama! Cativante! Como as palavras do seu primeiro romance.Li com gosto e muito rapidamente as quase quatrocentas páginas deste livro porque a história nos permite entrar nela e viajar. Imaginativa q.b., a autora funde passado e presente, momentos verídicos da História com fantasia, já que a personagem principal, uma jovem de nome Maria, sofre de visões quando dorme e visualiza parte do passado de seus familiares, vivido nesse horror que foi a II Grande Guerra, no Luxemburgo.Mistérios vários que são desvendados aos poucos e que revelam uma trama bem urdida e uma narrativa viva com ritmo intenso. O conteúdo é, na sua maior parte, verosímil e até os sonhos que Maria tem do passado dos seus familiares nos parecem credíveis! Uma escritora que deixa antever um caminho na escrita cheio de sucessos! Um primeiro livro, com algumas correções a fazer, mas cuja leitura recomendo!

Estrelas: 4*+

Sinopse

No Luxemburgo, Maria descobre uma mansão que pertencera aos seus ascendentes, de onde a sua avó havia fugido anos antes devido às calamidades que os habitantes sofreram durante toda a 2.ª Guerra Mundial. Descobre uma nova identidade, o seu verdadeiro lar, num sítio desconhecido onde se sente em casa. Encontra história, amigos, inimigos, amor, erotismo, filhos, e constrói um verdadeiro lar sob a ameaça mortal de dois alemães que se querem apoderar da sua herança, alegando fazerem parte dela.Maria tem uma vida paralela enquanto dorme, através de visões de um passado doloroso, desenterra a história da sua família e o seu sofrimento durante a invasão alemã da 2.ª Grande Guerra, num país que até então não sabia ter agonizado tanto, descobrindo a verdadeira razão da fuga da sua avó para Portugal.A obra funde o passado com o presente e a imaginação com factos verídicos, onde todas as experiências levam Maria a descobrir o inimaginável.

“Se numa noite de Inverno um viajante” de Italo Calvino

Roda Dos Livros, 29.09.13

Se numa noite de inverno um viajante                       calvino_italo-19810625.2_png_300x307_q85

 É difícil tentar escrever seja o que for sobre este livro absolutamente fantástico de mais um enorme autor recentemente descoberto. É também inevitável pensar que as parcas palavras de uma leitora serão sempre inadequadas para transmitir fielmente a grandeza da obra de um escritor tão extraordinário como Italo Calvino (1923-1985).  Que poderei dizer sobre “Se numa noite de Inverno um viajante”? Creio que nada de novo, nada que alguém, algures, não tenha já dito ou escrito. No entanto, proponho-me a fazê-lo porque este é um romance único e merece ser relembrado. Os seus protagonistas são, a meu ver, os livros, os leitores e a própria arte de escrever. É um percurso divertidíssimo, muito bem estruturado e soberbamente escrito sobre as vicissitudes de um leitor e de uma leitora em busca da continuação de um novo romance que tinham começado a ler e cuja leitura fora súbita e irritantemente interrompida num ponto crucial da história. Este é o pretexto de Calvino para empreender um percurso de intensa comunicação com o leitor que me deslumbrou tanto pela mestria demonstrada  ao reinventar-se em 10 escritores imaginários diferentes  quanto pela sua imaginação verdadeiramente gigantesca e original. Mais do que um romance, é uma homenagem ao prazer da leitura, aos leitores e aos livros.  Como leitora revi-me no modo como o autor descreve os tiques e as pequenas grandes manias dos leitores incorrigíveis e simplesmente adorei o início do livro onde nos é dada uma série de conselhos quanto ao ambiente, à posição de leitura e até à luminosidade adequada para ler. Completamente hilariante  e deliciosa é também a descrição seguinte sobre a entrada do leitor na livraria. E a partir daqui entra-se num mundo mágico de peripécias alucinantes em busca da continuação perdida do romance que inevitavelmente nos fazem sorrir. Por outro lado, o facto de se iniciar a leitura de 10 histórias diferentes cujo desenrolar somos impedidos de acompanhar pode constituir uma enorme frustração para qualquer leitor. Este é realmente um risco que se corre quando pegamos neste livro mas, para mim, o brilhantismo da prosa de Calvino supera-o larga e indubitavelmente. Em suma, um livro sobre o prazer de ler que me encantou e que recomendo veementemente a todos, sobretudo a quem, como eu, não consegue viver sem ler.

– “Estás para começar a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de todos os outros pensamentos. Deixa esfumar-se no indistinto o mundo que te rodeia. (...) Arranja a posição mais cómoda: sentado, estendido, enroscado, deitado. Deitado de costas, de lado, de barriga. Na poltrona, no sofá, na cadeira de baloiço, na cadeira de praia, no pufe. Numa cama de rede, se tiveres alguma cama de rede. Em cima da cama, naturalmente, ou dentro da cama. Até podes pôr-te de cabeça para baixo, em posição de yoga. Com o livro virado ao contrário, bem entendido.” (...) Descalça primeiro os sapatos. Mas só se quiseres ficar de pés soerguidos, porque senão torna a calçá-los. E agora não fiques por aí e sapatos numa mão e livro na outra.

Regula a luz de modo a não te cansar a vista. Fá-lo já, porque assim que estiveres mergulhado na leitura, nem penses em mexer-te. Arranja-te de maneira que a página não fique na sombra, um emaranhado de  letras negras sobre fundo cinzento, uniformes como uma ninhada de ratos; mas tem cuidado para que não lhe bata de chapa uma luz demasiado forte e que não se reflicta no branco cru do papel roendo as sombras dos caracteres como num meio-dia do Sul. Tenta prever agora tudo o que puder evitar-te o interromper da leitura. Os cigarros ao alcance da mão, se fumares, e o cinzeiro. Que mais é que falta? Tens de ir fazer chichi? Bem, tu é que sabes.”

– “Foi logo na montra da livraria que descobriste a capa com o título que procuravas. Atrás desta pista visual, lá foste abrindo caminho pela loja dentro através da barreira cerrada dos Livros Que Não Leste, que de cenho franzido te olhavam das mesas e das estantes procurando intimidar-te. Mas tu sabes que não te deves deixar assustar, que no meio deles se estendem por hectares e hectares os Livros Que Podes Passar Sem Ler, os Livros Feitos Para Outros Usos Além Da Leitura, os Livros Já Lidos Sem Ser Preciso Sequer Abri-los Por Pertencerem À Categoria Do Já Lido Ainda Antes De Ser Escrito. E assim transpões a primeira muralha dos baluartes e cai-te em cima a infantaria dos Livros Que Se Tivesses Mais Vidas Para  Viver Certamente Lerias Também De Bom Grado Mas Infelizmente Os Dias Que Tens Para Viver São Os Que Tens Contados. Com um movimento rápido passas por cima deles e vais parar ao meio das falanges dos Livros Que Tens Intenção De Ler Mas Antes Deverias Ler Outros, dos Livros Demasiados Caros Que Podes Esperar Comprar Quando Forem Vendidos Em Saldo, Dos Livros Idem Idem Aspas Aspas Quando Forem Reeditados Em Formato De Bolso, dos Livros Que Podes Pedir A Alguém Que Te Empreste e dos Livros Que Todos Leram E Portanto É Quase Como Se Também Os Tivesses Lido. Escapando a estes assaltos, avanças para diante das torres do reduto, onde te opõem resistência

os Livros Que Há Muito Programaste Ler,

os Livros Que Há Anos Procuravas Sem Os Encontrares,

os Livros Que Tratam De Alguma Coisa De Que Ocupas Neste Momento,

os Livros Que Queres Ter Para Estarem À Mão Em Qualquer Circunstância,

os Livros Que Poderias Pôr De Lado Para Leres Se Calhar Este Verão,

os Livros Que Te Faltam Para Pôres Ao Lado De Outros Livros Na Tua Estante,

os Livros Que Te Inspiram Uma Curiosidade Repentina, Frenética E Não Claramente Justificada.

E lá conseguiste reduzir o número ilimitado das forças em campo a um conjunto sem dúvida ainda muito grande mas já calculável num número finito, mesmo que este relativo alívio seja atacado pelas emboscadas dos Livros Lidos Há Tanto Tempo Que Já Seria Altura De Voltar A Lê-los e dos Livros Que Dizes Sempre Que Leste E Seria Altura De Te Decidires A Lê-los Mesmo.”

“- Ler-diz ele, - é sempre isto: há uma coisa que ali está, uma coisa feita de escrita, um objecto sólido, material, que não se pode alterar, e através dessa coisa comparamo-nos com outra coisa qualquer que faz parte do mundo imaterial, invisível, porque é só pensável, imaginável, ou porque existiu e já não existe, passando, perdida, inalcançável, para o país dos mortos...

- ...Ou que não está presente porque ainda não existe, algo de desejado, de temido, possível ou impossível – diz Ludmilla, - ler é ir ao encontro de qualquer coisa que está para ser e que ainda ninguém sabe o que será...”

“ A leitura que os amantes fazem dos seus corpos (desse concentrado de corpo e espírito de que os amantes se servem para irem juntos para a cama) difere da leitura das páginas escritas por não ser linear. Começa num ponto qualquer, salta, repete-se, volta atrás, insiste, ramifica-se em mensagens simultâneas e divergentes, torna a convergir, enfrenta momento de tédio, vira a página, recupera o fio, perde-se. (...)O aspecto em que a cópula e a leitura mais se parecem é que dentro delas se abrem tempos e espaços diferentes do tempo e do espaço medíveis.”

Roda dos Livros Sugestões de Leitura - Setembro de 2013

Roda Dos Livros, 29.09.13

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A primeira sessão da Roda dos Livros depois do Verão decorreu numa tarde de chuva. E foi ao compasso dos aguaceiros que fomos desfiando pareceres, lendo excertos escolhidos e partilhando as nossas leituras.

Fica o pequeno resumo das sugestões:

Márcia: Uma Casa em Portugal, de Richard Hewitt;

Sónia: Os Olhos de Tirésias, de Cristina Drios;

Cris: La Coca, de J. Rentes de Carvalho;

Renata: Se numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino;

Isabel: O Leiteiro de Mäeküla - Eduard Vilde;

Pedro: Mudanças, de Mo Yan;

Jorge Navarro: A Arte da Ressurreição, de Hernán Rivera Letelier;

Cristina: Os Anjos não Comem Chocolate, de Andreia Sanches;

Fernanda: O Escritor Fantasma, de Zoran Zivkovic

Os Anjos não Comem Chocolate de Andreia Sanches

Roda Dos Livros, 29.09.13

Um livro que li muito rapidamente enquanto sentia um pouco como minhas (só mesmo um pouquinho porque é algo inimaginável) as dores de quem sofre tão profundamente.

Creio que Andreia Sanches soube abordar com muita delicadeza uma questão que, mesmo para quem nunca passou por tal situação, nos afecta e transtorna só de pensar nela: a perda de um filho! A morte é um assunto, ainda, muitas vezes, tabu. Como se, ao não falarmos nela, ela se pudesse afastar do nosso caminho!

Embora com o coração apertado, nunca me passou pela cabeça desistir desta leitura. A força, a coragem que estas mães mostram ao conseguir, aos poucos, prosseguir com a sua vida é verdadeiramente espantosa. A dor precisa de ser vivida e cada pessoa possui o seu tempo, o seu espaço. Pelo que pude "ver" é um luto cheio de avanços e retrocessos, com alguns passos para a frente mas com muitos mais para trás. Um luto que pode ser feito individualmente, mas se partilhado com pais que sofreram perdas semelhantes, talvez seja menos pesado. Fiquei a perceber o quão importante é fazer o luto e exteriorizá-lo.

Sentimentos como a culpa, a frustração, a valorização dos aspectos positivos do caracter dos filhos, estão presentes nestas páginas. E os pais em luto falam-nos dos filhos que já partiram e dos sinais, das coincidências que vão tropeçando nas suas vidas e que os fazem sentir mais perto daqueles que viveram menos do que seria esperado.

É um livro que nos fala da morte, sim. Mas é um livro que nos mostra que mesmo depois da partida de alguém ainda é possível ser feliz. Felicidade diferente, busca constante essa.

Fiquei a "conhecer" A Nossa Ancora, a instituição que apoiava esses pais-coragem e que teve de fechar portas. Que outras se abram porque a vida é feita de começos...

Terminado em 20 de Setembro de 2013

Estrelas: 6*

Sinopse

Rodrigo costumava dizer à mãe, Mila, que falava com Jesus e que iria morrer - «Vou para um sítio muito lindo, muito verde.» Aos 7 anos, um acidente causado por um camião levou-lhe a vida e a do seu pai. No dia do velório de Rodrigo, uma mulher de meia idade e olhar sereno aproximou-se de Mila e disse-lhe: «Sou uma mãe que também perdeu um filho. Queria dizer-lhe que ainda vai ser feliz. É uma felicidade diferente, mas vai ser.» Enquanto presidente de uma associação de apoio a pais em luto, Mila viria a conviver de perto, ao longo dos anos que se seguiram, com centenas de homens e mulheres que, tal como ela, carregam a maior das dores que alguém pode sofrer: a perda de um filho. Os Anjos não Comem Chocolate fala-nos de amor, sofrimento, coragem - e, acima de tudo, da extraordinária capacidade do ser humano de encontrar um sentido para tudo. Até para o impensável.

Último Acto em Lisboa - Robert Wilson

Roda Dos Livros, 25.09.13

ultimoactoemlisboaMuitas podem ser as razões para interromper a leitura de um livro. Contudo devemos deixar sempre em aberto a hipótese de um dia a retomar. Se algumas vezes senti que investi em livros que não foram escritos para eu os ler, há livros que comecei a ler em momentos pouco propícios para chegar à última página.

Não sei qual a explicação para ter desistido de ler o “Último Acto em Lisboa” da primeira vez que lhe peguei. Mas depois de agora o ter concluído, tendo-o praticamente devorado em dois dias, dou por mim com ainda menos explicações do que as que tinha antes.

A verdade é que este é sem dúvida dos melhores livros que li este ano. Um policial histórico (não sei se tal coisa existe) com uma estrutura inteligente e sólida, bem pensado, com um trabalho de investigação admirável e, muito importante, surpreendente até ao final.

Um livro que me manteve presa à leitura muitas mais horas seguidas do que aquelas que é suposto, no sentido de ter uma vida normal, e fazer coisas tão fundamentais como comer ou dormir. Pode dizer-se que este livro me alimentou. Que me tirou o sono não há dúvida nenhuma.

É a segunda vez este ano que me surpreendo por um autor estrangeiro escrever tão bem sobre Portugal. O primeiro caso foi “Esteja eu onde estiver” de Romana Petri, e agora Robert Wilson, que se destaca largamente do primeiro exemplo pois vai muito além daquilo que é possível interpretar estudando comportamentos e pessoas. Wilson escavou a nossa história recente, e não aquela que (pouco) vem nos livros. Sabe quem foi Salazar e investigou a sua linha de pensamento, foi além dos seus actos e expõe as suas motivações, estratégia política e mentalidade.

Wilson começa a narrativa com saltos cronológicos. Da Alemanha em plena II Grande Guerra para Portugal na década de noventa. O lapso temporal vai reduzindo à medida que os capítulos avançam, sabe-se que as personagens têm de estar relacionadas, sente-se que tudo podem ser pistas e, na verdade, um nome aqui, um detalhe ali, vão fazendo sentido. Encontra-se um fio condutor, uma razão para a especulação do volfrâmio na zona da Guarda na década de 40, ter ligação com um homicídio em Paço d’Arcos na década de noventa.

A vinda de Klaus Felsen para Portugal por ordem das SS, o volfrâmio das nossas minas, o ouro dos Judeus fruto das pilhagens Nazis, a Gestapo, a PIDE e a perseguição política em Portugal, os presos políticos, a Revolução de Abril. Tudo se explica de forma admirável e relaciona de forma óbvia em alguns pontos. Noutros pontos cabe a Zé Coelho, Inspector da Polícia Judiciária, juntar as peças e estudar os suspeitos; percorrer um caminho sinuoso de estórias e história, e chegar à conclusão certa.

Bem pensado e bem escrito. Brilhante. É sinceramente de se lhe tirar o chapéu.

“No caos que se seguiu à nossa gloriosa revolução abundavam as ideias, os ideais, as visões. Foram murchando.” (Pág. 83).

“- Quero eu dizer que o professor Salazar não vai deixar que isto continue assim. O Governo não vai permitir que as pessoas saiam das suas casas e deixem de cultivar as suas terras. Não pode deixar que os salários e os preços disparem e se descontrolem. Salazar tem medo da inflação.

- Inflação?

- É uma doença dos bolsos.

- Explique-me isso.

- É uma doença que mata o dinheiro.” (Pág. 128)

“Por isso estou nesta profissão, porque com os anos comecei a acreditar nela. A caça à verdade ou pelo menos a busca da verdade. Gosto das conversas. Maravilha-me o génio natural que as pessoas têm para falsificar. Quem pensa que os futebolistas são uns artistas a representar, com os seus truques, quedas e fintas devia assistir à representação dum assassino.” (Pág. 186)

Sinopse

“1941Klaus Felsen, o proprietário de uma fábrica em Berlim, é forçado a alistar-se nas SS e a dirigir-se a Lisboa, cidade de luz, onde ao ritmo dos dias convergem nazis e aliados, refugiados e especuladores, todos dançando ao compasso do oportunismo e do desespero. A sua missão é infiltrar-se nas geladas montanhas do Norte de Portugal, onde se trava uma luta traiçoeira pelo volfrâmio, elemento essencial à blitzkrieg de Hitler. Aí encontra Manuel Abrantes, o homem que põe em movimento a roda de ambição e vingança que irá girar até ao final do século.Final dos anos 1990.O inspector Zé Coelho, da Polícia Judiciária, investiga o crime sexual cometido contra uma jovem adolescente em Lisboa. Esta pesquisa conduzirá Coelho por terrenos lodosos da História a um crime mais antigo - enterrado com os ossos de um passado de fascismo - e a um pavoroso motivo enterrado ainda mais fundo. E, uma vez à superfície, o passado e o presente irão convergir com implicações arrepiantes e consequências insondáveis.”

Gradiva, 2002

Os Olhos de Tirésias - Cristina Drios

Roda Dos Livros, 24.09.13

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O que mais me impressionou neste livro foi, sem dúvida, a qualidade da escrita. O texto flui com naturalidade, sem nunca prescindir da riqueza de vocabulário e da elegância de estrutura; a narração a várias vozes permite o recurso a diferentes estilos, os quais apresentam diversos graus de confessionalidade e intimismo; as frequentes referências literárias e históricas tornam a obra mais abrangente, levantando questões e deixando pistas para reflexão; e as abundantes metáforas e imagens adicionam à leitura uma nota de beleza e musicalidade.

A neta de um soldado português enviado para a Primeira Guerra Mundial decide investigar a história desse seu antepassado e escrever um livro sobre ele. Entrará assim em contacto com elementos do seu próprio passado, que até então desconhecia, e também com alguns personagens curiosos cujas vidas rodearam a do seu avô. Cada um desses personagens abre uma janela sobre a história que procura e, mais importante ainda, uma nova perspectiva sobre a questão da percepção humana, que, durante toda a leitura, nos é colocada de várias formas: será aquilo que vemos real? Será uma imagem objectiva ou subjectiva? Será suficiente? Deveremos contentar-nos com a visão que temos do mundo? Teremos a capacidade de ver mais além? E a de não ver aquilo que nos horroriza? E será mais clarividente quem vê com os olhos ou com o coração?

Tal como Tirésias, o profeta cego da mitologia grega, dois dos personagens desta história têm o dom da premonição. Um deles, o avô investigado, é também, de certo modo, cego - um cego sentimental, incapaz de experimentar ou compreender qualquer tipo de emoção. Poderá essa cegueira ser ultrapassada? E, se o for, o que sucederá então às suas capacidades premonitórias? De notar que o médico que pretende estudar as mentes incomuns destes dois seres se vê confrontado com o mais rotundo fracasso e obrigado a remeter-se à cura das feridas do corpo, mais prosaica mas considerada mais urgente. E de assinalar também a presença do pequeno Émile Lebecq, que deve a sobrevivência às suas artes de... ilusionista. É que os ilusionistas só existem porque as pessoas gostam de ser iludidas...

Estão, pois, lançadas as sementes para um romance em dois planos - o plano factual, histórico, e o subjectivo, psicológico. A este quadro soma-se a análise feita pela narradora da sua própria vida pessoal, numa exposição lúcida e honesta das pulsões e dilemas comuns à generalidade dos seres humanos. O resultado é um livro que fala ao ouvido do leitor, relatando-lhe uma história que o prende enquanto, ao mesmo tempo, o faz pensar sobre a sua própria existência.

Excertos:

"E, se atentarmos bem nos nossos pés, nas nossas pernas, no movimento mecânico de andar, sincopado ou desajustado entre pés e braços, essa forma física de chegar às coisas e aos sítios, às outras pessoas, é irremediavelmente diferente se estivermos a ser levados pelo amor, pelo ódio ou pela suma indiferença. Por isso me agrada tanto observar, em locais de chegadas e partidas um terminal de aeroporto ou uma estação ferroviária -, a forma como cada pessoa se move, a andar, a correr, quantas vezes a tentar escapar-se, na única direcção possível, o futuro." (págs. 18 e 19).

"Há coisas que sabemos que hã-de acontecer e, no entanto, só ocorrem quando já desistimos de as desejar; nesse momento ficamos irremediavelmente aturdidos, não porque tenha por fim acontecido aquilo por que tanto ansiávamos, mas porque não perdemos a capacidade de nos espantar." (pág. 24).

"A resposta, porém, conheço-a bem, é simples e aterradora: em breve, quebrado esse ténue fio a ligar-me aos factos, terei perdido o pé e, num jardim do éden, estarei a apaixonar-me por uma ficção. Apaixonar-me-ei, não por uma pessoa, não por uma situação, nem sequer pela conjunção estelar da pessoa na situação certa, mas pela possibilidade encerrada ness promessa dúbia, o amor. De certa forma, neste encontro, foi-me prometida uma vida nova, um recomeço." (pág. 121).

"Creio que, para se tornarem marcos miliários na vida do leitor, os livros carecem de uma leitura não só no tempo certo, como no local certo, como ainda, nesse tempo e local, abrindo campo a uma possibilidade latente, escondida, talvez mesmo rejeitada. Como o amor. Abrem-nos os olhos para um desejo, qualquer coisa a latejar cá dentro que não queríamos ou sabíamos exprimir. Ali está, preto no branco, e de repente tudo se torna claro, preciso e irrefutável, abre-se uma porta e daí em diante é impossível arrepiar caminho. Como se o diabo nos entrasse no corpo." (pág. 122).

Teorema Editora.

" A Peste" de Albert Camus

Roda Dos Livros, 22.09.13

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Albert Camus (1913-1960), jornalista, escritor, filósofo e Prémio Nobel da Literatura em 1957, é considerado como um dos grandes nomes da arte de escrever do século XX. Confesso ter sido um pouco a medo que decidi pegar no volume de “A Peste” que me desafiava do alto da prateleira da Biblioteca Itinerante. Tinha a percepção que as obras deste autor seriam inacessíveis ao grande público sendo, ao invés, destinadas às mentes intelectuais e a círculos restritos de leitores dedicados a livros “difíceis”. Esta ideia não podia estar mais errada! Ler este romance foi um enorme prazer não só pelo estilo de escrita superior revelado pelo autor, como também pela forma como tratou o tema central da narrativa. A pretexto da criação de uma história sobre um surto de peste bubónica ocorrido numa cidade argelina na década de 1940, Camus apresenta-nos uma série de personagens marcantes e ricas, representativas das várias facetas do ser humano. Estas vão sendo desvendadas, pouco a pouco, ao longo de uma narrativa bem construída e sedutora que prende, eficaz e brilhantemente, o leitor. A leitura deste livro evocou na minha memória uma frase de Ferreira de Castro, acerca da literatura, incluída em “Os Fragmentos” e referente à explicação da origem de “O Intervalo” :

“Que esse seu estádio, então e hoje, ainda um estádio do mundo inteiro, seduzisse um escritor a incorporá-lo na Literatura, que por natureza é reflexão e sentimento das várias fases humanas, sempre me parecera trabalho para servir a Arte e expor ao Homem mais uma parcela do seu próprio espírito.”

Estas palavras traduzem, na perfeição, o sentimento que me ficou ao acabar de ler “A Peste”; um sentimento de que muita da complexidade do espírito humano estava ali dissecada e exposta de modo absolutamente brilhante. Não me vou alongar mais, nem tão pouco discorrer sobre a história deste livro notável cuja leitura recomendo vivamente. Deixo aqui alguns excertos que, espero, suscitem a curiosidade de ler “A Peste”:

““Os flagelos, com efeito são uma coisa comum, mas acredita-se dificilmente neles quando nos caem sobre a cabeça. Houve no mundo tantas pestes como guerras. E, contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. “ (...) Quando rebenta uma guerra, as pessoas dizem: “Não pode durar muito, seria estúpido.”. E, sem dúvida, uma guerra é muito estúpida, mas isso não a impede de durar. A estupidez insiste sempre e compreendê-la-íamos se não pensássemos sempre em nós. Os nossos concidadãos, a esse respeito, eram como toda a gente: pensavam em si próprios. Por outra palavras, eram humanistas: não acreditavam nos flagelos. O flagelo não está à medida do Homem; diz-se que o flagelo é irreal, que é um mau sonho que vai passar. Ele, porém, não passa, e de mau sonho em mau sonho, são os homens que passam e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram as suas precauções. Os nossos concidadãos não eram mais culpados do que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo era ainda possível para eles, o que pressupunha que os flagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste, que suprime o futuro, as viagens e as discussões? Julgavam-se livres e nunca alguém será livre enquanto existirem os flagelos.”

“Mas o narrador é mais tentado a acreditar que, dando demasiada importância às belas acções, presta-se finalmente uma homenagem indirecta e poderosa ao mal, pois deixaria então supor que estas belas acções só valem tanto por serem raras, e que a maldade e a indiferença são forças motrizes bem mais frequentes nas acções dos homens. Essa é uma ideia de que o narrador não compartilha. O mal que existe no mundo vem sempre da ignorância, e a boa vontade, se não for esclarecida, pode fazer tantos estragos como a maldade. Os homens são mais bons que maus, e, na verdade, a questão não está aí. Mas ignoram mais ou menos, e é a isso que se chama virtude ou vício, sendo o víco mais desesperado o da ignorância, que julga saber tudo e se autoriza então a matar. A alma do assassino é cega e não há verdadeira bondade nem belo amor sem toda a clarividência possível.”

“Acreditei que a sociedade em que eu vivia repousava na condenação à morte e que, combatendo-a, combatia o assassínio. Acreditei-o, outros disseram-mo e, para terminar, em grande parte era verdade. Coloquei-me, pois, com aqueles que amava e que não deixei de amar. Fiquei com eles durante muito tempo e não há país da Europa cujas lutas eu não tenha compartilhado. Adiante.

Bem entendido, eu sabia que também nós procedíamos, ocasionalmente, a condenações. Mas diziam-me que essas mortes eram necessárias para construir um mundo em que não se mataria ninguém. Era verdade, de certo modo, e, no fim de contas, talvez seja eu que não sou capaz de me manter nesse género de verdades. O que é certo é que eu hesitava. Mas pensava no mocho e a coisa continuava. Até ao dia em que vi uma execução (estava na Hungria) e a mesma vertigem que havia atacado a criança que eu era obscureceu os meus olhos de adulto. (...) Quando me acontecia exprimir os meus escrúpulos, diziam-me que era preciso reflectir no que estava em jogo e davam-me razões muitas vezes impressionantes para me fazerem engolir o que eu não conseguia deglutir. (...) Mas eu respondia então que, se cedia uma vez, não havia razão para parar. Parece-me que a História me deu razão- hoje cada qual mata o mais que pode. Andam todos no furor do assassínio e não podem proceder de outra maneira.”

“Do morro escuro subiram os primeiros foguetes dos festejos oficiais. A cidade saudou-os com uma longa e surda exclamação. Cottard, Tarrou, aqueles e aquelas que Rieux tinha amado e perdido, todos, mortos ou culpados, estavam esquecidos.

O velho tinha razão, os homens são sempre os mesmos. Mas essa era a sua força e a sua inocência, e era aqui que Rieux sentia que se juntava a eles. No meio dos gritos que redobravam de força e de duração, que repercutiam longamente até junto do terraço, à medida que a chuva multicolor se elevava mais abundante no céu, o doutor Rieux decidiu redigir esta narrativa que aqui termina, para não ser daqueles que se calam, para depor a favor destes pestiferados, para deixar ao menos uma recordação da injustiça e da violência que lhes tinham sido feitas e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar.”

A Invenção de Morel - Adolfo Bioy Casares (Antígona)

Roda Dos Livros, 19.09.13

A Invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares

“Discuti com o seu autor os pormenores do enredo, reli-o; não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole classificá-lo como perfeito.”

Jorge Luis Borges

O que acontece a cada momento que vivemos? Para onde vai? Perde-se na dimensão do espaço e do tempo? É certo que a recordação dessas vivências funcionam como garantia de um passado vivido. Mas serão as recordações objetivas de momentos idos e consequentemente fiáveis? E se aquilo a que comummente designamos por recordações nada mais é do que fruto da nossa imaginação? E se estivermos alucinados? Qual é a nossa verdadeira noção de realidade de estivermos num manicómio? Conseguiremos distinguir com clarividência o que real e o que é fruto da nossa imaginação? E nesse caso, em que lugar ficam as nossas recordações?

E se nos for dada a possibilidade de imortalizar as nossas vivências imortalizando-nos a nós mesmos? Tentando ser mais objetivo: e se fosse possível reproduzir o nosso dia-a-dia graças a cópias de momentos anteriormente vivenciados por nós? Havendo máquinas próprias para o efeito, será que embarcaríamos num tal processo com vista à imortalidade do ser humano? A ser possível tamanha façanha, impunha-se um outra maquinaria especializada em dar consciência à reprodução das vivências anteriormente conseguidas.

Conseguiremos alcançar pequenos Édens?

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Estas são algumas das questões levantadas por Adolfo Bioy Casares no seu primeiro romance A Invenção de Morel (1940) que colocam o autor num dos lugares de destaque da literatura da América Latina contemporânea tendo almejado um enorme reconhecimento um pouco por todo o mundo.

As obras de Adolfo Bioy Casares são habitualmente associadas ao fantástico, misturando com frequência o sonho e a realidade levantando frequentes vezes questões de índole ético-moral como no caso específico da obra em apreço.

A Invenção de Morel é uma obra singular que remete o leitor para o mundo da ciência em articulação com a tecnologia no intuito de alcançar a imortalidade e consequentemente o amor eterno independentemente das questões éticas que subjazem às ideias apresentadas.

Em traços gerais, A Invenção de Morel retrata com amor, tecnicidade e fantasia os grandes temas-preocupação da Humanidade ao longo da História: a imortalidade.

A Invenção de Morel constituiu certamente o ensaio prévio para a publicação de Plano de Evasão (1945), outra obra notável de Adolfo Bioy Casares que nos apresenta um thriller de cariz filosófico sem igual.

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“Ao homem que (…) invente uma máquina capaz de reunir as presenças desconjuntadas, farei uma súplica: procure-nos a Faustine e a mim, faça-me entrar no céu da consciência de Faustine. Será um ato piedoso.”

(p. 123)

Excertos:

“Estava num manicómio. Depois de uma longa consulta (o processo?) com um médico, a minha família levara-me para ali. O director era Morel. Por momentos, eu sabia que estava na ilha; por momentos, julgava estar no manicómio; por momentos eu era o director do manicómio.Não acho indispensável tomar um sonho pela realidade, nem a realidade por loucura.” (p. 63)

“Havia muito que estava a pensar nisto, como já estava um tanto farto, continuei com menos lógica: não estava morto até aparecerem os intrusos; na solidão é impossível estar morto. Para ressuscitar tenho que suprimir as testemunhas. Será um extermínio fácil. Não existo, elas não suspeitarão da sua destruição. Estava a pensar noutra coisa, num incrível projeto de rapto privadíssimo, como de sonho, que contava apenas a mim próprio.” (p. 65)

“Custa-vos admitir um sistema de reprodução da vida, tão mecânico e artificial? Recordem-se que, na nossa incapacidade de ver, os movimentos do prestidigitador se convertem em magia.

Para fazer reproduções vivas, necessito de emissores vivos. Não crio a vida.

Não deverá chamar-se vida o que possa estar latente num disco, o que se revela quando funciona a máquina do fonógrafo, se eu deslocar uma chave? Terei que insistir em que todas as vidas, como os mandarins chineses, dependem de botões que podem ser accionados por seres desconhecidos? E vocês mesmos, quantas vezes terão interrogado o destino dos homens, retomado as velhas perguntas: para onde vamos? Onde jazemos, como músicas inauditas num disco, até que Deus nos mande nascer? Não se dão conta de um paralelismo entre o destino dos homens e das imagens? A hipótese de as minhas imagens terem alma parece confirmada pelos efeitos da minha máquina sobre as pessoas, os animais e os vegetais emissores.” (p. 85)

“Razões lógicas autorizam-nos a recusar as esperanças de Morel. As imagens não têm vida. No entanto, parece-me que, na posse deste aparelho, convém inventar outro, que permita averiguar se as imagens sentem e pensam (ou, pelo menos, se têm os pensamentos e as sensações que atravessaram os seus originais durante a exposição à máquina; é claro que, a relação das suas consciências (?) com estes pensamentos e sensações, não é possível esclarecê-la). O aparelho, muito semelhante ao atual, dirigir-se-á aos pensamentos e sensações do emissor; a qualquer distância de Faustine poderemos obter os seus pensamentos e sensações visuais, auditivas, táteis, olfativas, gustativas.

E um dia acabará por existir um aparelho mais completo. O pensado e o sentido durante a vida – ou nos tempos de exposição – será como um alfabeto, com o qual a imagem continuará a aperceber-se de tudo (como nós, com as letras de um alfabeto, podemos entender e compor todas as palavras). A vida será, pois, um depósito da morte. Mas mesmo então a imagem não terá vida; objetos essencialmente novos não poderão existir para ela. Conhecerá tudo o que sentiu ou pensou, ou as combinações superiores do que sentiu ou pensou.

O facto de não podermos compreender nada fora do tempo e do espaço talvez sugira que a nossa vida não é sensivelmente distinta da sobrevivência a obter por meio de tal aparelho.

Quando inteligências menos grosseiras que a de Morel se ocuparem do invento, o homem escolherá um sítio afastado, agradável, reunir-se-á com as pessoas a quem mais quiser e perdurará num íntimo paraíso. Um mesmo jardim, se as cenas a perdurar forem apanhadas em momentos diferentes, alojará inúmeros paraísos, cujas sociedades, ignorando-se umas às outras, funcionarão simultaneamente sem colisões, quase nos mesmos lugares. Desgraçadamente são paraísos vulneráveis, porque as imagens não poderão ver os homens, e os homens, se não derem ouvidos a Malthus, vão necessitar um dia da parcela de terra até do paraíso mais exíguo e destruirão os seus ocupantes indefesos ou encerrá-los-ão na possibilidade inútil das suas máquinas desligadas.” (pp. 96-98)

“A eternidade rotativa pode parecer atroz ao espetador; é satisfatória para os seus sujeitos. Livres de más notícias e de doenças, vivem sempre como se fosse a primeira vez, sem recordação das vezes anteriores. (…)

Habituado a ver uma vida que se repete, acho a minha irreparavelmente casual. Os propósitos de emenda são inúteis: eu não tenho próxima vez, cada momento é único, distinto, e muitos deles se perdem por descuidos vários. É certo que para as imagens, tão pouco há próxima vez (todas as vezes são iguais à primeira).

Pode pensar-se que a nossa vida é como uma semana destas imagens e que volta a repetir-se em mundos contíguos.” (pp. 100-101)

O amor é uma canoa

Roda Dos Livros, 19.09.13

Li com interesse este livro e manteve-me na expectativa durante toda a leitura, sobretudo porque achamos que a obra vai dar uma reviravolta mas não conseguimos adivinhá-la de forma alguma. E afinal ela sempre se dá, aumentando o interesse numa leitura que sem isso seria estável mas morna.

A capa convidativa e uma sinopse que nos fala de livros e editores sugerem uma leitura que, no entanto ficou aquém das minhas expectativas. Não foi uma leitura que me tivesse apaixonado intensamente, é verdade, mas li com agrado esta história que me pareceu simples mas plausível.

Terminado em 18 de Setembro de 2013

Estrelas: 4*

Sinopse

Stella Petrovic é uma ambiciosa editora a braços com uma missão quase impossível: colocar um livro nas listas de bestsellers mais concorridas dos Estados Unidos.Mas não se trata de um livro qualquer e sim do manual de autoajuda O Casamento é uma Canoa, que foi publicado há já cinquenta anos.Peter Herman é um herói nacional graças a esse mesmo livro, o primeiro e último da sua carreira. Os conselhos sentimentais de O Casamento é uma Canoa inspiraram gerações de americanos. Com um casamento longo e feliz, Peter era a prova da eficácia das suas próprias palavras. Agora, viúvo e sem esperança, duvida de tudo o que escreveu tantos anos antes.Para Stella, o que está em jogo não suporta dúvidas ou hesitações. A editora está disposta a tudo para convencer o mundo de que O Casamento é, de facto, uma Canoa. E nada melhor do que encontrar um casal em busca de salvação. Emily e Eli estão casados há pouco tempo mas a paixão que os uniu está desgastada pela rotina. São perfeitos para o plano que Stella tem em mente… mas, para isso, ela terá de conseguir o apoio da única pessoa que não acredita no livro: o seu autor.

Filhos da Época - Knut Hamsun (Editorial Minerva)

Roda Dos Livros, 17.09.13

Filhos da Época - Knut HamsunKnut Hamsun é comummente designado como o criador do romance moderno tendo influenciado inúmeros escritores que se lhe seguiram ao longo do século XX um pouco por todo o mundo.

Se por um lado os seus primeiros romances que datam ainda da última década do século XIX são romances que enfatizam a natureza psicológica dos seus personagens, não descurando, é certo, de todo o ambiente em que se movem, seja mais citadino ou rural. O elemento dramático ou mesmo trágico é igualmente um dos elementos fundamentais em obras como Fome (1890), Mistérios (1892), Pan (1894) e Victoria (1898), obras publicadas no período indicado. As difíceis relações entre os personagens que conduzem a amores impossíveis de concretizar ou mesmo amores imaginários é outra das fortes componentes exploradas nas obras supramencionadas.

No entanto, a partir de 1910, Knut Hamsun dá um novo rumo às suas obras no que respeita às questões centrais. Assim, não colocando de lado a exploração psicológica dos personagens, o autor passa a ser um acérrimo defensor do conservadorismo rural tendo como objetivo dar a conhecer à Noruega e aos Noruegueses do seu tempo que a modernidade do país não deverá esquecer a terra como fonte de riqueza colocando igualmente o homem em harmonia com a natureza. Deste modo, Knut Hamsun acredita que a progressiva industrialização do país poderá conduzir o país à dependência do capital e da banca em oposição à crescente importância da terra, elemento central das obras do autor que foram influenciadas pelo novo realismo norueguês que retrata o dia-a-dia da Noruega rural empregando frequentemente o dialeto local, a ironia não esquecendo também o humor.

É neste contexto que Knut Hamsun publica Filhos da Terra, em 1913, apresentando-nos o tenente Willatz Holmsen, o terceiro de uma geração de grandes proprietários de Segelfoss, uma grande propriedade costeira, no eixo da região de Bergen e Trondheim, tendo também muitos animais, ribeiras, mata de onde se retira a madeira mediante as necessidades ao longo das estações do ano.

Segelfoss apresenta-se, pois, como uma grande propriedade muito ao estilo das descrições dos poemas homéricos em que, neste caso em particular, o tenente Willatz Holmsen é o senhor que garante a ordem e a harmonia desse universo fechado de quem as várias famílias de trabalhadores dependem para sobreviver sendo a terra e os animais o seu sustento.

Segelfoss é neste sentido um mundo económico e social fechado sobre si mesmo tendo poucas ou nenhumas relações com o exterior, mesmo no que respeita ao resto do país.

Mas tudo está prestes a mudar com o regresso de um filho da terra que viveu durante muitos anos no México. Decidido a estabelecer-se definitivamente em Segelfoss, Holmengraa, apelidado muitas vezes por “Rei Tobias”, negoceia a compra faseada de várias parcelas de Segelfoss que passará a utilizar para a construção da sua residência, cais, loja, abate da mata, para além de tantos outros projectos que se vão aflorando à sua mente à medida que os anos vão passando.

É assim que Filhos da Terra coloca em confronto dois mundos, duas realidades e duas formas de pensar completamente distintas tendo como seus promotores o tenente Willatz Holmsen, homem profundamente conservador em oposição Tobias Holmengraa, homem viajado e conhecedor daquilo a que se pode designar por progresso.

O progresso foi de tal forma notável em Segelfoss ao ponto de a própria paisagem ter sofrido alterações em detrimento da atividade humana, colocando, dessa forma, aquela localidade em articulação com algumas das principais rotas marítimas nacionais e internacionais, atraindo igualmente muitos trabalhadores à região acabando por se estabelecerem atendendo à melhoria significativa das condições de vida. Não deixa de ser interessante como a população rapidamente se adapta à nova realidade passando a ter mais dinheiro disponível, adquirindo outro tipo de bens de consumo que anteriormente não era possível, não esquecendo que a própria alimentação sofreu grandes melhorias sendo mais abundante e mais variada.

Se por um lado o tenente Willatz Holmsen sempre se mostrou renitente com a venda das sucessivas parcelas entre outros recursos, por outro lado, a sua venda constituía um encaixe de liquidez que permitia fazer face às suas muitas despesas necessárias à manutenção de Segelfoss e dívidas para com o banco, herança deixada do seu falecido pai.

Do ponto de vista psicológico, o tenente Willatz Holmsen é um homem profundamente humano que procura basear a sua vida no dia-a-dia nos textos dos filósofos humanistas, tornando-se, ele próprio filósofo como forma de ultrapassar as suas dificuldades e problemas, lidando também com lisura e compreensão com todos aqueles que vivem em Segelfoss e que dele dependem para a sua sobrevivência. Incapaz de recusar qualquer pedido que seja, sendo esta uma das suas máximas, o tenente Willatz Holmsen tentou sempre, na medida do possível, satisfazer as necessidades dos habitantes da propriedade.

Extremamente cordial e correto com o seu filho, preocupou-se desde sempre com a educação do mesmo, enviando-o para Inglaterra para estudar, porém, passados alguns anos, o jovem é enviado para Berlim para aprender música em virtude de se tratar da sua verdadeira vocação, situação igualmente compreendida e aceite pelo tenente.

Com um casamento problemático face à sua passividade, o tenente gere sempre à distância as decisões e as vontades da sua esposa alemã Adelheid que é apresentada como uma mulher culta, inteligente, responsável pela educação do filho e deveras emancipada.

Considerado como louco e ridículo, à medida que a história vai decorrendo, o leitor vai ganhando especial consideração e afeto pelo tenente Willatz Holmsen que tudo faz para manter a harmonia de Segelfoss, sendo, pois, um personagem da literatura que dificilmente esqueceremos pela sua bondade, otimismo (mesmo nos piores momentos), compreensão, tolerância, entre tantos outros aspetos que fazem do seu caráter um mais nobres seres humanos caso não estivéssemos a falar de literatura, mas que ainda assim servem de modelo para a nossa relação com os outros ao longo da vida.

Fica a certeza de mais uma obra literária memorável que, aparentemente inocente, apresenta-se repleta de significado e com um enorme sentido universal. Para os admiradores das obras deste escritor norueguês, certamente não vai deixar de querer ler Filhos da Época.

Filhos da Época assume-se neste contexto como o romance preparatório para a publicação do magistral Pão e Amor, em 1917, que valeu a Knut Hamsun a atribuição do Prémio Nobel de Literatura, em 1920.

hamsunExcertos:

“Tais acontecimentos constituíram um progresso e uma bênção para toda a região e as suas redondezas. Todo o centeio que se convertia em farinha tornava quase impossível encontrar vestígio de fome ou de penúria naqueles sítios; à falta de outro meio, podia-se ir ter com o «Rei» Tobias e comprar a crédito, mas entretanto, era fácil arranjar trabalho em casa dele e estar ao seu serviço. Era uma coisa nunca vista! Como a vida se desanuviava! Os jornaleiros podiam mascar tabaco à vontade e os camponeses que tinham cavalos faziam carretos para as obras e ganhavam para pagar os impostos e comprar toda a espécie de coisas. O progresso e as bênçãos não tinham fim! O próprio senhor Holmengraa parecia prosperar também e florescer; o ar dos pinheiros e uma actividade a seu gosto haviam-lhe restabelecido a saúde, e, no que dizia respeito a ganhos materiais, não podia correr perigo algum, eh, eh! Nenhum perigo iminente decerto o ameaçava. Ou, então, como era? Os negociantes de perto e de longe não mandavam a Segelfoss os seus barcos, de oito e dez remos, buscar carregamentos de farinha? E o negócio não progredira a ponto de ser preciso instalar um escritório e casas de habitação para o chefe dos armazéns, lá em baixo, no cais? Em Segelfoss havia agora uma estação de correio. Segelfoss tornara-se estação para os navios-correios da costa, para os navios das carreiras Vadsö-Hamburgo, que vinham de três em três semanas, do norte e do sul, e traziam a correspondência e descarregaram mercadorias, carregando, à ida, farinha para todo o Norte. O chefe de cais tinha na verdade muito que fazer: o correio e a expedição, a contabilidade e toda a correspondência, além de dirigir o pessoal e fiscalizar os pesos e as medidas. Não tardou muito que lhe não dessem um empregado para o ajudar, de tal maneira a actividade crescia rapidamente. O próprio «Per da loja» tinha agora um grande negócio e recebia caixas e tonéis por cada navio; depois do dia de Ano Novo devia ter uma licença para vender vinho e então viriam ainda mais caixas e barris para ele; quem era capaz de dizer onde aquilo pararia?

(…)

Segelfoss e seus arredores estavam irreconhecíveis desde o tempo em que reinava o tenente; nada soçobrara, propriamente falando, mas tudo mudara de aspeto e de caráter, e tudo continuava a mudar, coisas e pessoas.” (pp. 136-137, 182)

“Mas uma pequena festa de bodas como aquela não podia alegrar os convidados por muito tempo, o humor geral era e continuava sombrio. Ninguém podia, verdadeiramente, compreender o que se passava; o moinho rodava noite e dia, como dantes, os navios-correios, que primeiro só passavam de quinze em quinze dias, agora vinham todas as semanas; Baardsen, na estação de telégrafo, mais o seu ajudante, o pequeno Godofredo, expediam telegramas a respeito do arenque, do bacalhau, da compra e venda, e as mercadorias e a actividade… Por conseguinte havia bastante vida em Segelfoss; mas o humor era sombrio. (pp. 269-270)

“Chegou um dia uma carta de Willatz, em que o filho dizia estar em apuros… Oh! Fora um acaso: numa sala de leilões, estava lá uma senhora a chorar, encostada a um piano de preço – o seu ganha-pão. Que havia de fazer Willatz? Oferecer-lhe o piano; era um caso de honra e uma boa ação. «Meu querido pai, é uma quantia, uma avultada quantia… Talvez o não devesse ter feito? Foi por acaso, nós tínhamos ido ao leilão, vários músicos, iam vender-se instrumentos empenhados. E a senhora chorava, devia ser professora, e nós outros, músicos, ficámos a vê-la. Então fiz o que já te disse, pensei em ti, e fi-lo; numa palavra, o dinheiro deve ser entregue no prazo de um mês. Que devia eu fazer, neste caso, meu querido pai?»

Alto! – disse o tenente, para si mesmo e para a carta – nem mais uma palavra! O dinheiro? Claro que sim.

Dito isto, foi procurar o senhor Holmengraa. Pelo caminho, observou que se sentia profundamente emocionado; seu filho honrava-o, estava entusiasmado com a sua conduta, os olhos marejavam-se-lhe de enternecimento. O seu Willatz… Oh, era bem um rebento da sua raça, um Willatz Holmsen, como o fora o pai do tenente, o seu grande e nobre pai! Numa palavra… Estou a vê-lo…” (pp. 270-271)

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