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Roda Dos Livros

O cultivo de flores de plástico - Afonso Cruz (Alfaguara/Objetiva)

Roda Dos Livros, 28.08.13

O cultivo de flores de plástico - Afonso CruzO cultivo de flores de plástico é a mais recente aposta de Afonso Cruz que nos presenteia com uma peça de teatro subordinada ao tema dos sem-abrigo.

A peça conta com o Jorge, a Lili, o russo couraçado Korzhev e a senhora de fato que, com os demais, passou a partilhar a rua e o céu na tentativa de fazer parte de um grupo.

Independentemente da nacionalidade, as dificuldades da vida arrastaram estas quatro pessoas para a rua, quer por terem perdido o emprego, quer por terem sido excluídos da família, por doença ou mesmo por todas as razões anteriormente mencionadas.

Estes personagens poderiam ser qualquer os muitos sem-abrigo com que nos cruzamos nas cidades e, infelizmente, trata-se de uma realidade cada vez mais frequente. Pessoas de carne e osso, por vezes com estudos, experiência de vida, nalguns casos já tiveram boas condições de vida, mas acabaram nas ruas privadas de conforto e da família perdendo, em muitos casos, a esperança e a capacidade de sonhar com uma vida melhor.

47 Afonso CruzAo longo da peça são inúmeros os momentos que nos levam a refletir e a reconsiderar a forma como se organiza a sociedade contemporânea. É a consciência de perda da estabilidade económica de cada um dos personagens que põe em confronto duas realidades distintas (ter ou não ter um lar) e através de pequenos exemplos, pequenas histórias, que chegam a ser cómicas, somos conduzidos a questionar o que é verdadeiramente importante nas nossas vidas.

É-nos igualmente contado através de um dos diálogos a não-aceitação da senhora de fato face à sua nova realidade fingindo ser uma jornalista que estaria com o grupo no intuito de realizar uma reportagem sobre os sem-abrigo. A não-aceitação da sua condição de sem abrigo conduziu esta personagem ao suicídio.

A crítica à sociedade de consumo é mordaz na medida em que o ter assume uma importância tal na vida das pessoas ao ponto de as nossas vidas se terem transformado em flores artificiais, de plástico, como o dinheiro que tudo compra menos o essencial (generalizando, claro). “Andamos a regar flores de plástico, é isso que fazemos. Temos coisas que não servem para nada. É tudo plástico. E nós regamos essas flores e esperamos que cheirem a coisas boas. Mas é plástico. Temos coisas, em vez de tentarmos ser felizes, substituímos a vida por plástico, a felicidade por plástico e o próprio plástico por plástico. Trabalhamos para regar uma vida destas.” (pp. 53-54)

Outro dos aspetos que não escapou ao autor foi o olhar como todos nós, regra geral, encaramos os sem-abrigo, ou melhor, não os encaramos, agimos como se os sem-abrigo não estivessem ali, agimos como se fossem invisíveis, como tivessem perdido toda a sua humanidade. O ignorar, o não querer ver, são de facto formas de ignorarmos um problema que é nosso, que é de todos. “No fundo é isso. Ninguém nos vê. Somos invisíveis. A miséria é uma poção de invisibilidade. Quando as roupas ficam rotas, quando estendemos uma mão, puf, desaparecemos. Somos as pombas dos ilusionistas. Isto dava para um negócio, dava para ganhar a vida com os turistas. Levava-os a ver fantasmas numa cidade assombrada. Levava-os a verem-nos.” (pp. 33-34)

Moralismos à parte, O cultivo de flores de plástico está repleto de momentos com muito humor bem ao jeito de Afonso Cruz que para quem conhece outras obras do escritor perceberá novamente o quão certeiro e sagaz foi criar situações extremamente bem conseguidas. É nestes momentos que o autor conseguiu igualmente transpor para a peça algumas das perturbações psicológicas de muitos dos sem-abrigo que diariamente lutam pela sobrevivência, por uma simples sopa que várias vezes é mencionado no texto ou tão simplesmente pela necessidade de um cobertor para as noites mais frias.

É na consecução deste percurso de pobreza (ou miséria) que gradualmente muitas destas pessoas vão de tal forma adaptando-se à rua e ao céu como lar que vão perdendo a noção daquilo que eram, perdendo gradualmente a dignidade enquanto pessoas caso não tenham uma mão que recorra em seu auxílio independentemente do passo que também terão de dar nesse sentido.

O balanço desta obra de Afonso Cruz é claramente positivo tratando-se de um livro que certamente não esqueceremos, refletindo, uma vez mais, o talento inato do escritor que tem ganho inúmeros prémios merecidamente.

O cultivo de flores de plástico tem uma edição de 1000 exemplares numerados e autografados pelo autor, para além de os direitos de autor resultantes da venda do livro reverterão a favor da associação CASA (Centro de Apoio ao Sem-Abrigo).

Tudo o que nunca te disse, de Romana Petri

Roda Dos Livros, 28.08.13

tudo o que nunca te disseNunca tinha lido nada desta escritora e, apesar de ser muito recomendada pelos outros membros da Roda dos Livros, não estava nos meus planos mudar isso nos próximos tempos. Mas surgiu a oportunidade de um encontro com a escritora, uma espécie de apresentação deste "Tudo o que nunca te disse" e acabei por ir à pressa comprar um livro dela para ter, pelo menos, alguma informação e uma espécie de opinião formada aquando da conversa com a Romana Petri. Calhou ser este o único título disponível. Da escritora sabia que é Italiana, casada com um Português e que, por vezes, escreve sobre Portugal e os Portugueses ("A Senhora dos Açores" e "Esteja eu onde estiver").Do encontro com a escritora ficam fantásticas memórias. Ela, para além de ser uma simpatia, é uma contadora de histórias, que enche uma sala e nos prende nas palavras.Não estava de todo preparada para este livro nem para os tons cinza da sua escrita. Ainda bem. É ótimo quando um livro nos surpreende.No orignal o título do livro é "Ti Spiego" que significa algo como "Explico-te". Não posso dizer que este "Tudo o que nunca te disse" nada tem a ver com o conteúdo do livro, mas está demasiado colado ao "As palavras que nunca te direi" para me permitir ter uma ideia real do seu significado.Porque esta não é uma história de amor. De todo. É uma história de desamor. Mário e Cristiana estão divorciados há 15 anos, têm dois filhos e cada um voltou a casar. Ele, atualmente no Brasil com a mulher mais nova e o filho bebé, ela em Itália com o companheiro e os filhos de ambos. Mário, numa aparente tentativa de reviver a sua juventude com alguém com quem a partilhou inicia uma troca de correspondência que os irá levar, numa espécie de jogo, às profundezas mais negras do seu casamento.Neste livro apenas conhecemos o lado de Cristiana, as respostas aos comentários, às provocações e finalmente, quando o jogo muda, o exorcizar de uma série de situações que nos horrorizam.Ao mesmo tempo que vamos conhecendo o casal Mário e Cristiana conhecemos um outro, Mimmo e Elsa, que num segundo plano são demasiado importantes para eles, são o molde onde Mário se inspira para enegrecer ainda mais uma relação que começou mal. Os como, os porquê vamos percebendo ao longo do livro. As verdadeiras razões para que Mário comece este jogo só se tornam claro no final e dependerá de Cristiana vencer ou não, porque afinal "vence aquele que menos sofre".Não é possível ler este livro sem um arrepio, sem a consciência que muito ficou por dizer, que a realidade de Cristiana é a realidade de muitas mulheres por esse mundo fora, uma realidade negra, transversal à nossa sociedade, que corrompe, destrói e que é preciso uma enorme coragem para alcançar a liberdade. Mas este livro não deixa de ser uma réstia de esperança e a prova de que nunca é demasiado tarde para recomeçar

Paraíso e Inferno - Jón Kalman Stefánsson (Cavalo de Ferro)

Roda Dos Livros, 27.08.13

Paraíso e Inferno - Jón Kalman StefánssonParaíso e Inferno é a primeira obra de uma trilogia do islandês Jón Kalman Stefánsson sendo também a primeira obra do autor publicada em Portugal.

A história tem como cenário a Islândia no século XIX tendo como ponto de partida uma pequena embarcação de pescadores que é apanhada de surpresa por um violento temporal que vitimou Bárður, um dos tripulantes que por descuido se esqueceu do impermeável apropriado para realizar a viagem em alto mar e com temperaturas muito baixas. Após o regresso a terra, o rapaz (de quem nunca sabemos o nome), um dos tripulantes da embarcação inicia uma longa viagem ao longo da ilha no intuito de devolver o livro Paraíso Perdido de Milton a Kolbeinn, um capitão cego, que o tinha emprestado ao seu amigo Bárður.

É ao longo desta viagem do rapaz pela Islândia que somos confrontados com os conceitos de vida e de morte e quão ténue é a margem que divide estas duas dimensões. A certeza que temos perante aquilo que conhecemos da vida é sempre preferível à incerteza da morte sendo a esperança que nos faz mover e ir mais além na concretização do destino de cada um. “A vida humana é uma corrida constante contra a escuridão do mundo, a traição, a crueldade, a cobardia, uma corrida que tantas vezes parece desesperada, mas ainda assim, corremos e, ao fazê-lo, a esperança sobrevive.” (p. 13)

A viagem do rapaz pelo país-ilha é assim semelhante à vida que cada um  leva tornando-a no Paraíso ou no Inferno consoante a atitude que demonstra em articulação com o meio que o rodeia, assim como com a importância que as pessoas têm à sua volta.

Jón Kalman StefánssonÉ nesta ideia da relação com os outros que Jón Kalman Stefánsson em Paraíso e Inferno nos apresenta a ideia de que cada pessoa é importante na sociedade à qual pertence. Todos os habitantes da ilha são poucos face à imensidão agreste e impacto que a natureza exerce sobre os homens ao ponto de que cada ser humano ser apresentado como parte integrante de um pequeno cosmos social em que cada um exerce uma função e importância para os demais. São poucos os habitantes, daí a responsabilidade social de velar pelo bem-estar de todos e quando assim acontece também a sociedade se torna mais humana e consequentemente mais justa. “(…) Deveríamos cuidar daqueles que são para nós importantes e que têm em si bondade, e de preferência nunca os abandonar, a vida é demasiado curta para isso e, por vezes, termina de modo súbito, como descobriste desnecessariamente.” (p. 164)

Em Paraíso e Inferno, os livros assumem um papel extremamente importante na formação de cada um, assim como em cada núcleo familiar. “(…) O tempo livre era passado a ler. «Não tínhamos remédio. Pensávamos continuadamente em livros, em sermos educados, ficávamos fervorosos, frenéticos, se ouvíamos falar de algum livro novo e interessante, imaginávamos como poderia ser, falávamos sobre o seu eventual conteúdo à noite, depois de vocês terem ido para a cama. E depois líamo-lo à vez, ou juntos, quando e se conseguíamos deitar-lhe a mão ou a uma cópia do mesmo feita à mão.»” (p. 34)

Assim como os livros eram considerados um bem raro e de valor inestimável, também a vida em família e em sociedade devia ser estimada dando valor às memórias de cada pessoa valorizando a história da vida de cada um e de cada família e, consequentemente, de todo um país sendo necessário registar as memórias onde se cruzam as histórias das famílias com a História do país. “Tudo aquilo que se relaciona com essa pessoa torna-se uma recordação que lutámos para reter, e é traição esquecer isso. Esquecer como ele bebia café. Esquecer como se ria. Como olhava para cima. Mas, ainda assim, esquece-se. A vida exige que se o faça.” (p. 75) “Constitui algum alívio seguir em frente com a vida, um conforto que, no entanto, se torna amargo quando se trata mal a vida, se faz algo que nos atormentará eternamente, mas é de tudo às nossas próprias recordações que tentamos chegar, são elas o fio que nos une à vida.” (pp. 82-83).

Jón Kalman Stefánsson apresenta-nos, pois, uma obra que não deixará certamente os seus leitores indiferentes com a garantia de mergulharmos num livro apaixonante tal como se pretende que seja a vida de cada um, uma viagem inesquecível.

Paraíso e Inferno assume-se, deste modo, como um verdadeiro tratado sobre a amizade e o amor pelo próximo apresentando os livros como um antídoto contra a solidão e a redenção dos homens. “As palavras ainda parecem capazes de comover as pessoas, é inacreditável, e talvez a luz não esteja completamente extinta no seu interior, talvez permaneça alguma esperança, apesar de tudo.” (p. 32) As nossas palavras são equipas de salvamento confusas com mapas obsoletos e cantos de passarinhos em vez de bússolas. Confusas e verdadeiramente perdidas, a sua função é, contudo, a de salvar o mundo, salvar vidas terminadas, salvar-nos e então, esperemos, também nos salvar.” (p. 83)

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O Livro do Anjo de Alfredo Colitto

Roda Dos Livros, 26.08.13

 

Edição/reimpressão: 2013

Páginas: 296

Editor: Clube do Autor

ISBN: 9789897240744

Temos, algumas vezes, livros na prateleira à espera de serem lidos que são verdadeiras pérolas! Quando comecei a leitura deste livro de Colitto não me apercebi, logo nas primeiras páginas, o quando ele poderia ser interessante...

Só achei, em seu desprimor, que ele poderia ser maior pois o enredo permitiria isso mesmo: umas quantas páginas mais para que pudéssemos degustar o ambiente vivido, tão bem descrito pelo autor. Veneza, 1313. É a partir do aparecimento dos cadáveres de três crianças à porta da Basílica de S. Marcos que tudo tem o seu começo.

O enredo, repleto de mistério e acção, leva-nos ao interior de uma Veneza que se rege por princípios bem diferentes dos actualmente em vigor. Perseguições e acusações a judeus feitas pelos mais poderosos da cidade, prisões e torturas com o objectivo de camuflar interesses pessoais, mortes, suicídios, enigmas, intrigas políticas, amores alguns correspondidos, outros nem tanto... Todo um ambiente medieval que gostei muito de pertencer durante este período de leitura. Deixar-me-ia prender por mais umas páginas, certamente!

Os personagens são cativantes. Possuindo personalidades diferentes, eles mergulham num mistério que nos empolga e prende. A solução do enigma passa pela descodificação de uma frase deixada por um judeu condenado à morte e acusado do assassinato das três crianças. Mondino de Liuzzi, médico anatomista, Adia, alquimista árabe e Gerardo, ex-membro da Ordem dos Templários vêm-se a braços com algo que lhes faz perigar a vida!

Um thriller histórico que me deu muito prazer de ler com uma contextualizacão dos ambientes e descrições rigorosas, nada cansativas, de uma Veneza medieval que me levou a viajar por outros tempos! Recomendo!

Estrelas: 5*

Sinopse

Veneza, 1313. Três crianças são encontradas mortas à porta da Basílica de São Marcos. Os judeus são imediatamente suspeitos: diz-se que bebem o sangue das crianças cristãs para se pacificarem pelo facto de terem morto o Messias.

Na cela onde foi encarcerado e onde acaba por morrer acusado do homicídio das crianças, o judeu Eleazar deixa escrita uma misteriosa frase em latim que pode ajudar a explicar a macabra descoberta. Porque a terá escrito com o seu próprio sangue? Qual o seu significado?

Mondino de Liuzzi, médico anatomista, desafiando o poder de Veneza e arriscando a própria vida, terá de descobrir o enigma de uma antiga linhagem de guardiães que remonta aos tempos do dilúvio para poder ilibar o judeu e decifrar o enigma por detrás destas mortes.

 

A História de uma Serva - Margaret Atwood

Roda Dos Livros, 25.08.13

ahistoriadeumaservaA descoberta de um autor que me satisfaz torna-me reincidente. Saber que há ainda tanto para conhecer alarga o alcance da descoberta e torna-a agradavelmente infinita. Assim me sinto, num percurso que apenas vai no início mas que tem muito para oferecer. Como se, com Margaret Atwood, tivesse aberto uma porta que oferece muitas outras para abrir. Desta vez abri a porta da distopia. O que nunca antes me interessou é agora algo a explorar atentamente.

“A distopia, também conhecida como antiutopia, é um conceito filosófico adotado por vários autores e expresso em suas criações ficcionais, nas quais eles retratam uma sociedade construída no sentido oposto ao da utopia, que por sua vez prevê um sistema perfeito, um estado ideal, onde vigora a máxima felicidade e a total concórdia entre seus cidadãos.

A literatura distópica também pode representar um regime utópico que na prática destoa da teoria. As comunidades regidas pela distopia normalmente apresentam governos totalitários, ditatoriais, os quais exercem um poder tirânico e um domínio ilimitado sobre o grupo social.”  (Tirado daqui).

“A História de uma Serva” é um livro silencioso. Um silêncio opressivo imposto pelo medo, fruto de uma espécie de adaptação ou aceitação. Uma sociedade que se transforma, que coloca as mulheres no centro e valoriza as suas funções mais primitivas. Uma sociedade assente na procriação, mas em que só algumas são as escolhidas para essa função. Esse privilégio cabe a um número de mulheres cuja existência se reduz a assegurar a descendência da espécie e que, focadas nessa tarefa, deixam de poder agir por vontade própria. Treinadas e controladas por um sistema que tudo vê, as servas são uma inspiração bíblica, a meu ver uma desculpa que impõe a esta sociedade uma componente religiosa a cair no fanatismo.

As servas perdem o seu próprio nome para ganhar outro, um nome escolhido de uma forma extremamente redutora mas que é mais um ponto demonstrativo do brilhantismo e criatividade de Atwood. As razões são explicadas no final e não me sinto no direito de as revelar aqui. Além do mais achei que a leitura é francamente estimulante por ser pautada por constantes dúvidas e alguma revolta. Sentimentos que me impeliram a ler em todos (mesmo todos) os momentos em que era possível conciliar qualquer tarefa com um livro.

Estas escolhidas não podem ler, não podem ter acesso a nada que tenha letras e lhes possa estimular minimamente o pensamento. Querem-se cerebralmente mortas de modo a aceitar sem questionar as regras pelas quais se pautam os seus dias. Não escolhem as suas roupas, até porque o traje é uma forma de serem identificadas, não escolhem a comida, não podem ter nada de seu, não sabem onde estão as suas famílias nem os amigos, são formadas para esquecerem que houve uma outra vida e para se dedicarem em exclusivo à causa. São colocadas em lares de casais que não têm filhos e sobre elas cai a responsabilidade de engravidarem do homem (aqui chamado de Comandante), num ritual com contornos doentios. O objectivo e razão de máxima felicidade é darem um filho a este casal como se por ele tivesse sido concebido. Uma vez o objectivo concretizado a serva segue o seu percurso para outra casa, onde continua a exercer as suas funções de “útero ambulante”. Sempre sem nada de seu, sem qualquer direito à criança que eventualmente tenha dado à luz.

Um relato extremista e doentio que, esmiuçado, leva a inúmeras considerações e reflexões sobre a nossa sociedade. Quantos de nós não nos sentimos já (pelo menos) algumas vezes meros peões ao serviço de algo considerado superior e desconhecido, e por isso temível? Estamos ou não rodeados de fanáticos religiosos e seitas fundamentalistas que arrasam a condição feminina e reduzem as mulheres a servas, a quem impigem o dever e a honra de servir os seus senhores?

Quem nunca sentiu a felicidade da ignorância? A tranquilidade de desconhecer algo terrível, que obviamente se evapora e se transforma numa pesada consternação chamada tomada de consciência? Quem tem mais poder pisa onde sente fraqueza, e qual a melhor forma de exercer pressão e levar os seus intentos senão através do medo?

A História da Serva Defred é um convite à discussão, à análise da sombria mente humana na sua luta pelo poder. Com exemplos que podem estar ao virar de qualquer esquina. Que tenhamos consciência que não há pessoas melhores, que todos nos poderemos transformar em monstros uma vez reunidas as condições. E que as servas (e servos) também acordam e que, normalmente, o facto de existirem em número superior tende a trazer algumas vantagens. Mas para quem?

“Caminhamos, sedadas. O sol está descoberto, há tufos de nuvens brancas no céu, do tipo que lembra ovelhas sem cabeça. Por causa das nossas abas, dos nossos antolhos, é difícil olhar para cima, é difícil conseguir uma visão completa, do céu, seja do que for. Mas podemos fazê-lo, um pouco de cada vez, um movimento rápido da cabeça, para cima e para baixo, para o lado e para trás. Aprendemos a olhar o mundo em arquejos. “ (Pág. 42).

“Vivíamos, como de costume, ignorando. Ignorar não é o mesmo que ignorância, exige esforço da nossa parte.” (Pág. 69).

“Passado o primeiro choque, depois de uma pessoa começar a aceitar, o melhor era deixar-se ficar letárgica. Podíamos dizer a nós próprias que estávamos a poupar forças.” (Pág.86).

“A minha presença aqui é ilegal. É-nos proibido ficarmos a sós com os Comandantes. Servimos um propósito reprodutivo: não somos concubinas, gueixas ou cortesãs. Pelo contrário: fizeram-se todos os possíveis para nos retirarem dessa categoria. Não deve haver nada de recreativo em nós, não pode haver espaço para o desabrochar de desejos secretos; não podem ser concedidos favores especiais, nem por eles nem por nós, não pode haver pontos de partida para o amor. Somos úteros andantes, nada mais: veículos sagrados, cálices ambulatórios.” (Pág.157).

“Mas, a toda a volta, as paredes têm prateleiras. Estão cheias de livros. Livros, livros e mais livros, ali mesmo à vista, sem cadeados, sem caixas. Não admira que não possamos aqui entrar. É um oásis do proibido. Tento não ficar a olhar.” (Pág.158).

Sinopse

“Uma visão marcante da nossa sociedade radicalmente transformada por uma revolução teocrática. A História de Uma Serva tornou-se um dos livros mais influentes e mais lidos do nosso tempo. Extremistas religiosos de direita derrubaram o governo norte-americano e queimaram a Constituição. A América é agora Gileade, um estado policial e fundamentalista onde as mulheres férteis, conhecidas como Servas, são obrigadas a conceber filhos para a elite estéril.Defred é uma Serva na República de Gileade e acaba de ser transferida para a casa do enigmático Comandante e da sua ciumenta mulher. Pode ir uma vez por dia aos mercados, cujas tabuletas agora são imagens, porque as mulheres estão proibidas de ler. Tem de rezar para que o Comandante a engravide, já que, numa época de grande decréscimo do número de nascimentos, o valor de Defred reside na sua fertilidade, e o fracasso significa o exílio nas Colónias, perigosamente poluídas. Defred lembra-se de um tempo em que vivia com o marido e a filha e tinha um emprego, antes de perder tudo, incluindo o nome. Essas memórias misturam-se agora com ideias perigosas de rebelião e amor.”

Bertrand, 2013

“A Boneca de Kokoschka” de Afonso Cruz

Roda Dos Livros, 24.08.13

Ler “A Boneca de Kokoschka” foi uma experiência única; algo semelhante a ser  progressivamente envolvida por uma espécie de casulo entretecido por fios, em espiral e de várias cores, pertencentes a vários novelos diferentes. Todos esses fios,  nascidos da imaginação notável e excepcional de Afonso Cruz, criaram mais livros dentro deste livro originando um rico padrão onde ficção e realidade se cruzam. É claro que um romance é, por definição, uma história ficcionada mas este distingue-se pelo esbatimento das fronteiras entre ficção e realidade pois as personagens supostamente “reais” acabam por ser também “re-ficcionadas”  levantando assim uma série de perguntas: O que é real? O que é ficção? Pode existir realidade dentro da ficção? E ficção dentro da realidade? Mais, poderão realidade e ficção entretecer-se e moldar-se mutuamente? E será a realidade verdadeiramente real ou aquilo que julgamos ser real não passará de um sonho ou de um quadro que apenas existe se houver um observador para o contemplar? Onde encaixa o ser humano nisto tudo? Como é possível que este autointitulado “homem sábio”- Homo sapiens- seja responsável por tanta violência, intolerância e ódio? Porque é que temos dentro de nós esta dupla natureza, esta espécie de esquizofrenia que tanto nos faz criar obras maravilhosas como nos impele a destruir tudo e todos à nossa volta?

Este é, a meu ver, um romance com um forte pendor filosófico, pois, para além da riqueza da sua narrativa, leva-nos a reflectir sobre o mundo e sobre nós como criadores da realidade e “personagens” dentro das nossas próprias histórias .

Um livro original e muito interessante cuja leitura apreciei imenso. Vale mesmo a pena mergulhar nas várias dimensões nele contidas.

“Numa loja de pássaros é onde se concentram mais gaiolas. Não há lugar nenhum no mundo construído com tantas restrições como uma loja de pássaros. São gaiolas por todo o lado. E algumas estão dentro dos pássaros e não por fora como as pessoas imaginam. Porque Bonifaz Vogel, muitas vezes, abrira as portas das gaiolas sem que os canários fugissem. Os pássaros ficavam encolhidos a um canto, tentando evitar olhar para aquela porta aberta, desviavam os olhos da liberdade que é uma das portas mais assustadoras. Só se sentiam livres dentro da prisão. A gaiola estava dentro deles. A outra, a de metal ou madeira, era apenas uma metáfora. Bonifaz Vogel vivia no meio de metáforas.”

“Os pássaros estavam mudos. Todos calados nas suas gaiolas.

- Os pássaros estão estragados - disse Bonifaz Vogel.

- Não se pode cantar quando o mundo está desfeito nestas cinzas todas - disse a voz.

- Ninguém vai querer comprar pássaros que cantam em silêncio.

- Tem toda a razão, Sr. Vogel, mas que fazer?

- Eu sei umas canções. É preciso voltar a ensinar os pássaros a cantar."

“ As guerras têm mais dificuldade de existir quando as pessoas se compreendem umas às outras. As bombas caem menos, os prédios tendem a ficar de pé, os corpos não se despedaçam com a mesma frequência, os braços deixam de voar e é possível que as gaiolas deixem de existir, os campos de concentração passem a ser museus na nossa memória.”

“ Mas o universo é feito de ódio, de corrupção, de coisas a afastarem-se umas das outras. De entropia. (...) A destruição é evidente em tudo o que nos rodeia, é um processo fácil. A construção é que é muito difícil. À nossa volta, o que há é ódio, morte: o universo é um predador. Uma das únicas coisas que combate esta entropia é a vida. Junta células, junta organismos, cria comunidades, aglomerados. O resto desfaz-se. Lutamos, nós, os seres vivos, com todas as nossas forças, contra o ódio à nossa volta, mas o que prevalece é aquela Dresden de 1945. Bastou um momento de ódio para ela cair desfeita em cinzas. Um momento de amor não a fará reerguer-se, para isso é necessário um esforço imenso. (...) O amor vai juntando as peças que pode - como um velho reformado a jogar dominó - e o universo está aqui para baralhar tudo outra vez. Expandir-se, espreguiçar-se, como um gigante desajeitado que estraga tudo em seu redor: estraga os pássaros, estraga os sistemas solares, estraga as janelas. Precisamos de nos lembrar que a vida é um fenómeno que resulta do amor, da união, entre todas as peças que  a compõem.”

“- (...) Desmond Morris dizia que o homem é um macaco sem pêlos enquanto que o divino Platão dizia que o homem é um bípede sem penas. Mas a mais precisa definição biológica/teológica do homem é a do mafarrico sem cauda.

Pirandello diz que a alma é um pianista talentoso e o cérebro é um piano. E é por isso, diz ele com inspiração da Blavatsky, que um homem senil ou imbecil mantém uma alma incorrupta e perfeita. Um homem senil é um pianista a tocar num piano desafinado ou estragado. É por isso que, do homem, saem ruídos grotescos em vez de belas harmonias. Pirandello afirma que é o declínio, ou deficiência do corpo, o responsável pela manifesta falta de faculdades da alma. A minha dúvida prende-se com o pianista. Será que todo o pianista (a alma) é talentoso?

- Eu não posso discordar mais- disse Korda- Na minha opinião, essas separações do corpo e  da alma são boas para vender livros de auto-ajuda. Para mim, o piano e o pianista são a mesma música. Não se distinguem, não são objectos cartesianos.”

Homer and Langley - E. L. Doctorow

Roda Dos Livros, 20.08.13
HomerLangley_19-03-2013Dois irmãos vivem, durante grande parte do século XX, em reclusão numa mansão da 5ª Avenida, em frente ao Central Park, em Nova Iorque. Possuem fortuna pessoal, mas não têm o menor interesse em utilizá-la para usufruirem dos confortos ou privilégios proporcionados pela sociedade de consumo. Pelo contrário: aspiram a atingir a independência total dessa sociedade, libertando-se da tirania insuportável das poucas empresas que ainda lhes prestam serviços, como as companhias de electricidade, da água e dos telefones, e abandonando os padrões mais básicos de vida em sociedade, como o uso de um vestuário tido como aceitável ou o hábito de cortar o cabelo.Homer é cego e usa a sua grande capacidade de empatia para descrever o dia-a-dia dessa existência partilhada a dois, pela qual vemos passar vários personagens de ocasião e na qual se reflectem, sujeitos a uma interpretação muito pessoal, diversos acontecimentos-chave do século passado. Langley sofre de problemas respiratórios adquiridos durante a sua participação na Primeira Guerra Mundial e, acima de tudo, personifica uma filosofia de vida bizzarra, que oscila entre o absurdo e o verdadeiramente genial. A meu ver, a grande riqueza deste livro encontra-se nas tiradas filosóficas destes irmãos, pequenas pérolas ora irónicas, ora amargamente prosaicas que impedem o leitor de encará-los como meros loucos de anedotário, impondo durante todo o livro um sentimento de respeito e até admiração por quem assim se exprime, por muito excêntricas que sejam as suas opções de vida.homer4E, na verdade, mais excêntricas não poderiam ser: convém lembrar que esta história é baseada em factos reais e que os verdadeiros Homer e Langley Collyer foram encontrados mortos na sua casa da 5ª Avenida, literalmente soterrados debaixo de toneladas de objectos acumulados por Langley ao longo dos anos e amontoados em todos os espaços da casa. As imagens que se encontram na Internet, retratando o estado da habitação dos Collyer quando a polícia aí entrou devido a uma denúncia de cheiro a cadáver, são verdadeiramente impressionantes. Talvez por isso, foi uma agradável surpresa verificar que o autor não se limitou a explorar esse aspecto mais mediático do caso, tendo, em vez disso, construído uma obra inteligente e humana.Excertos:"O Langley nunca chegaria a terminar o seu projecto de jornal. Eu sabia disso e tenho a certeza de que ele também. Era um plano louco, absurdo e mórbido, que lhe mantinha a mente num estado de espírito que lhe agradava. Parecia dar-lhe o ânimo mental de que ele necessitava para prosseguir - para continuar a trabalhar numa coisa cujo único objectivo era sistematizar a sua lúgubre conceção da vida. A energia dele afigurava-se-me, por vezes, anormal. Como se fizesse todas as coisas que fazia para permanecer entre os vivos. Não obstante, mergulhava dias a fio numa desalentadora lassidão. Desalentadora para mim, devo dizer. Contagiava-me, às vezes. Tinha a sensação de que não valia a pena fazer fosse o que fosse e a casa parecia um túmulo." (págs. 46 e 47)."Perguntei ao Langley que tipo de radical era ela. Sei lá, disse ele. Que diferença é que isso faz? É uma espécie qualquer de comunista-anarquista-sindicalista-anarcossindicalista-socialista. A menos que se seja um deles, é difícil perceber quem é o quê. Quando não andam a lançar bombas, estão ocupados a dividirem-se em facções." (págs. 49 e 50).homer2"Estávamos todos com um estado de espírito soturno. Tendo a imagem da pobre da Siobhan na cabeça e lembrando-me das minhas idas ao cemitério de Woodlawn para enterrar os meus pais, a única coisa em que conseguia pensar era na facilidade com que as pessoas morrem. E, além disso, tinha aquela sensação que nos assola quando fazemos o trajeto até ao cemitério atrás de um corpo num caixão: uma impaciência para com os mortos, um desejo de voltar para casa, onde podemos continuar com a ilusão de que é a vida diária, e não a morte, a condição permanente." (pág. 60)."E daí? Os polícias são escroques com distintivos. Quando não estão a receber luvas, estão a espancar alguém. Quando estão a morrer de tédio, dão um tiro em alguém. Eis o teu país, Homer. E para sua glória suprema, eu fiquei com os pulmões queimados." (pág. 62)."Quando uma pessoa lê ou ouve rádio, disse ele, cria uma imagem na cabeça. É como tu e a própria vida, Homer. Peerspetivas infinitas, horizontes sem fim. O ecrã de televisão, porém, torna tudo plano, comprime o mundo, já para não falar da mente das pessoas. Se visse mais TV do que vejo, mais valia descer o Amazonas de barco e deixar que os jivaro me encolhessem a cabeça." (pág. 93).homer3"Surgiu uma complicação. A estratégia defensiva de Langley tornou pouco sensato, se não mesmo impossível, eu tentar deslocar-me pela casa. Em termos práticos, estou aprisionado. Encontro-me agora posicionado do lado de dentro da porta da sala de estar, com um único caminho ao meu dispor, que leva à casa de banho no vão das escadas. Os movimentos do Langley também estão restringidos. Instalou-se na cozinha e entra e sai de casa pela porta dos fundos que dá para o quintal. O vestíbulo está completamente vedado com caixas de livros empilhadas até ao teto. Uma estreita passagem entre fardos de jornais e ferramentas de jardim dependuradas - pás, ancinhos, uma broca mecânica, um carrinho de mão, tudo dependurado com arame e corda de ganchos que ele fixou às paredes com um martelo - leva do seu posto avançado na cozinha até ao meu enclave. Traz-me as refeições por este túnel. Diz-me que navega com a ajuda de uma lanterna para não tropeçar nos arames que prendeu, de parede a parede, ao nível dos tornozelos." (pág. 170).

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Porto Editora, 2009

Segredos Submersos de Hannah Richell

Roda Dos Livros, 19.08.13

 

Edição/reimpressão: 2013

Páginas: 416

Editor: Livraria Civilização Editora

ISBN: 9789722633819

Um livro que tive muito gosto em ler. Pegando num acidente que acabou na morte do membro mais novo de uma família, a autora explora com mestria sentimentos resultantes da perda, como a culpa e o remorso. Saber como continuar a viver a vida aproveitando aquilo que ela ainda tem para oferecer a quem perdeu alguém muito querido.

Para além disso, o livro mantém todo o nosso interesse quando dá saltos temporais de aproximadamente dez anos sem que nos percamos na história. O "antes" e o "depois" bem delineados e com segredos por desvendar, aumentam o suspense de uma forma significativa. A escrita da autora ajuda nesse aspecto já que é bastante atrativa e simples. Envolvemo-nos na história, sentimos a dor dos personagens, torcemos pelo seu futuro. Como se quer de um livro.

Sinopse

Os Tides são uma família com segredos sombrios. Marcados pelos acontecimentos de um dia trágico, há dez anos, cada um deles, à sua maneira, tenta seguir com a sua vida.

Dora, a filha mais nova, vive num armazém degradado no East End com o seu namorado artista, Dan. Está a conseguir levar uma vida calma - mas quando descobre que está grávida, a notícia deixa-a abalada e leva-a a recordar uma culpa de longa data. Ao voltar a Clifftops, a casa da família situada no alto da costa de Dorset, Dora tem de enfrentar o seu passado. Clifftops não mudou nos últimos anos e, ao percorrer as suas divisões e jardins, Dora ainda consegue sentir o eco daquele terrível dia de verão em que a vida dos Tides mudou para sempre. Quando Dora começa a procurar pistas dos acontecimentos daquele dia fatídico, dá-se conta de que o caminho para a redenção pode estar na sua irmã problemática, Cassie. Se Dora conseguir arrancar a Cassie os segredos que ela jurou levar consigo para o túmulo, talvez consiga a redenção. Mas será que segredos antigos podem realmente ser perdoados? E mesmo que se consiga perdoar e esquecer, como é que nos permitimos amar de novo?

 

Tudo o que nunca te disse

Roda Dos Livros, 18.08.13

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Não estive presente no encontro deste grupo de amigos em que a autora marcou presença. Contudo, ao contrário de outros livros da autora já mencionados nos nossos encontros, que não me atraíram particularmente, este exerceu um inexplicável interesse e ao qual não resisti. Tudo me atraiu desde o título, a capa, até à sinopse.  O interesse manteve-se no decorrer da leitura que durou ... um dia.

Gostei muito das cartas de Cristiana.

Contrariamente a algumas opiniões, não senti amargura ou desilusão que me fosse transmitida com esta leitura, mas é inquestionavelmente um ajuste de contas com o passado. Não era de todo essa a proposta de Mário quando iniciou esta troca de correspondência a que Cristiana deu continuidade, mas o tempo, a distância e a feliz fase afectiva atual, permitiram-lhe expor o muito que sentiu e sabia com honestidade e verdade sobre a sua vida conjunta. Deixa-o KO com o muito que revela. Uma mulher valente - de fibra. Uma mulher paciente mas não submissa ou resignada. Uma mulher que contêm em si muitas mulheres.

Nestas cartas percebemos a relação, e as personagens envolvidas através exclusivamente das palavras de Cristiana.  E surgem duas personagens secundárias - Mimmo e Elsa que vivem uma dramática existência. Ficção mas que infelizmente pode reproduzir algo de muito tenebroso e terrível ... e real. Aliás como tudo nesta narrativa o pode ser.

Bem elaborado e escrito expressa sentimentos com segurança, coerência e fluidez.

Sinopse:

Mario e Cristiana já passaram dos sessenta anos e estão divorciados há quinze. Ele é engenheiro hidráulico, acabado de se mudar para o Rio de Janeiro com a sua jovem mulher e o filho com pouco mais de um ano. Ela vive em Roma com os dois filhos já crescidos e um segundo casamento, feliz. Certo dia, Cristiana recebe uma carta estranha de Mario, do Brasil. Escreve-lhe dizendo que se sente velho, que gostaria de reencontrar um pouco da juventude trocando cartas com ela. Diz que só assim, voltando atrás com quem se foi jovem, se pode continuar a sê-lo. Mas quais serão verdadeiramente as suas intenções?
Através das respostas de Cristiana, o leitor verá desfilar diante dos seus olhos, ao mesmo tempo que a história de um amor naufragado, os tiques e os mal-estares de toda uma geração: as falsas utopias, a crise das relações entre homens e mulheres, a revolução fracassada, o terrorismo, os muitos ideais que se esfumaram, deixando espaço apenas para a realidade banal. E depois os rancores, as traições mútuas, todas as coisas nunca ditas que finalmente vêm ao de cima de maneira violenta, brutal, impiedosa. Até se chegar a um verdadeiro ajuste de contas, no qual todas as cartas são postas na mesa.

As mulheres casadas não falam de amor

Roda Dos Livros, 18.08.13

asmulherescasadasnaofalamdeamorOra, digam lá se o título e a capa não intrigam? Eu fiquei intrigada mas quando peguei neste romance e o abri, vacilei. Letra miudinha num livro volumoso não auguravam uma leitura fácil, excepto se fosse inspirada. E a autora escolheu vários modos e ritmos para contar esta estória sobre a influência das novas tecnologias e redes sociais na intimidade. Ora usa a comunicação habitual no Facebook, Twiter e na troca de emails em que rapidamente  se exprime emoções, como explora a vertente do drama e dos excessos com alguma teatralidade, para a protagonista, bem como o normal da narrativa em romance.

As mulheres casadas não falam de amor, quando tem casamentos com alguns anos sujeitos ao desgaste com a rotina e os problemas, e são abordadas num fase particularmente sensível para responder a um inquérito online.  Anónimo portanto.

Um romance que pode ser enganador porque apesar de ser muito divertido, leve e fresco, também é muito atual e pertinente e coloca "alguns dedos na ferida" quando aborda temas sérios e complicados, ou não fosse uma relação afetiva um caso sério e complicado. As pessoas comuns tem situações como as retratadas no livro, com filhos, trabalho, amigos e uma panfernália de sentimentos variados e até contraditórios. Relações e ralações no Sec. XXI.

Uma leitura de verão para um público-alvo com alguma experiência de vida, que melhor compreenderá o que a autora pretende projectar. As encruzilhadas da vida que sempre dão que pensar e muito trabalho a regularizar. Mas também podem ser muito divertidas.

Sinopse:

Alice está casada com William há vinte anos. Recorda-se, como se fosse ontem, do dia em que o conheceu. No entanto, ultimamente, é ao Facebook, e não ao marido, que confia os seus pensamentos mais íntimos.
Um dia, recebe um questionário anónimo sobre amor e casamento da parte de um Investigador 101. Decide responder, sob o pseudónimo Mulher 22, sem imaginar que isso mudará a sua vida.
 
Confissão após confissão, Alice sente-se cada vez mais livre e também mais apaixonada pelo Investigador 101, genuinamente interessado nos seus sentimentos como há muito ninguém estava. Alice não tarda a ver-se confrontada com uma decisão potencialmente devastadora: cessar toda a comunicação com o Investigador 101 para salvar o casamento ou admitir que o coração lhe levou a melhor e está novamente apaixonada.
Com uma voz fresca, comovente e divertida, As Mulheres Casadas Não Falam de Amor é a história de uma mulher que, tentando reencontrar-se, corre o risco de descobrir que, afinal, quer estar onde sempre esteve. 

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