O cultivo de flores de plástico - Afonso Cruz (Alfaguara/Objetiva)

O cultivo de flores de plástico é a mais recente aposta de Afonso Cruz que nos presenteia com uma peça de teatro subordinada ao tema dos sem-abrigo.
A peça conta com o Jorge, a Lili, o russo couraçado Korzhev e a senhora de fato que, com os demais, passou a partilhar a rua e o céu na tentativa de fazer parte de um grupo.
Independentemente da nacionalidade, as dificuldades da vida arrastaram estas quatro pessoas para a rua, quer por terem perdido o emprego, quer por terem sido excluídos da família, por doença ou mesmo por todas as razões anteriormente mencionadas.
Estes personagens poderiam ser qualquer os muitos sem-abrigo com que nos cruzamos nas cidades e, infelizmente, trata-se de uma realidade cada vez mais frequente. Pessoas de carne e osso, por vezes com estudos, experiência de vida, nalguns casos já tiveram boas condições de vida, mas acabaram nas ruas privadas de conforto e da família perdendo, em muitos casos, a esperança e a capacidade de sonhar com uma vida melhor.
Ao longo da peça são inúmeros os momentos que nos levam a refletir e a reconsiderar a forma como se organiza a sociedade contemporânea. É a consciência de perda da estabilidade económica de cada um dos personagens que põe em confronto duas realidades distintas (ter ou não ter um lar) e através de pequenos exemplos, pequenas histórias, que chegam a ser cómicas, somos conduzidos a questionar o que é verdadeiramente importante nas nossas vidas.
É-nos igualmente contado através de um dos diálogos a não-aceitação da senhora de fato face à sua nova realidade fingindo ser uma jornalista que estaria com o grupo no intuito de realizar uma reportagem sobre os sem-abrigo. A não-aceitação da sua condição de sem abrigo conduziu esta personagem ao suicídio.
A crítica à sociedade de consumo é mordaz na medida em que o ter assume uma importância tal na vida das pessoas ao ponto de as nossas vidas se terem transformado em flores artificiais, de plástico, como o dinheiro que tudo compra menos o essencial (generalizando, claro). “Andamos a regar flores de plástico, é isso que fazemos. Temos coisas que não servem para nada. É tudo plástico. E nós regamos essas flores e esperamos que cheirem a coisas boas. Mas é plástico. Temos coisas, em vez de tentarmos ser felizes, substituímos a vida por plástico, a felicidade por plástico e o próprio plástico por plástico. Trabalhamos para regar uma vida destas.” (pp. 53-54)
Outro dos aspetos que não escapou ao autor foi o olhar como todos nós, regra geral, encaramos os sem-abrigo, ou melhor, não os encaramos, agimos como se os sem-abrigo não estivessem ali, agimos como se fossem invisíveis, como tivessem perdido toda a sua humanidade. O ignorar, o não querer ver, são de facto formas de ignorarmos um problema que é nosso, que é de todos. “No fundo é isso. Ninguém nos vê. Somos invisíveis. A miséria é uma poção de invisibilidade. Quando as roupas ficam rotas, quando estendemos uma mão, puf, desaparecemos. Somos as pombas dos ilusionistas. Isto dava para um negócio, dava para ganhar a vida com os turistas. Levava-os a ver fantasmas numa cidade assombrada. Levava-os a verem-nos.” (pp. 33-34)
Moralismos à parte, O cultivo de flores de plástico está repleto de momentos com muito humor bem ao jeito de Afonso Cruz que para quem conhece outras obras do escritor perceberá novamente o quão certeiro e sagaz foi criar situações extremamente bem conseguidas. É nestes momentos que o autor conseguiu igualmente transpor para a peça algumas das perturbações psicológicas de muitos dos sem-abrigo que diariamente lutam pela sobrevivência, por uma simples sopa que várias vezes é mencionado no texto ou tão simplesmente pela necessidade de um cobertor para as noites mais frias.
É na consecução deste percurso de pobreza (ou miséria) que gradualmente muitas destas pessoas vão de tal forma adaptando-se à rua e ao céu como lar que vão perdendo a noção daquilo que eram, perdendo gradualmente a dignidade enquanto pessoas caso não tenham uma mão que recorra em seu auxílio independentemente do passo que também terão de dar nesse sentido.
O balanço desta obra de Afonso Cruz é claramente positivo tratando-se de um livro que certamente não esqueceremos, refletindo, uma vez mais, o talento inato do escritor que tem ganho inúmeros prémios merecidamente.
O cultivo de flores de plástico tem uma edição de 1000 exemplares numerados e autografados pelo autor, para além de os direitos de autor resultantes da venda do livro reverterão a favor da associação CASA (Centro de Apoio ao Sem-Abrigo).









Dois irmãos vivem, durante grande parte do século XX, em reclusão numa mansão da 5ª Avenida, em frente ao Central Park, em Nova Iorque. Possuem fortuna pessoal, mas não têm o menor interesse em utilizá-la para usufruirem dos confortos ou privilégios proporcionados pela sociedade de consumo. Pelo contrário: aspiram a atingir a independência total dessa sociedade, libertando-se da tirania insuportável das poucas empresas que ainda lhes prestam serviços, como as companhias de electricidade, da água e dos telefones, e abandonando os padrões mais básicos de vida em sociedade, como o uso de um vestuário tido como aceitável ou o hábito de cortar o cabelo.Homer é cego e usa a sua grande capacidade de empatia para descrever o dia-a-dia dessa existência partilhada a dois, pela qual vemos passar vários personagens de ocasião e na qual se reflectem, sujeitos a uma interpretação muito pessoal, diversos acontecimentos-chave do século passado. Langley sofre de problemas respiratórios adquiridos durante a sua participação na Primeira Guerra Mundial e, acima de tudo, personifica uma filosofia de vida bizzarra, que oscila entre o absurdo e o verdadeiramente genial. A meu ver, a grande riqueza deste livro encontra-se nas tiradas filosóficas destes irmãos, pequenas pérolas ora irónicas, ora amargamente prosaicas que impedem o leitor de encará-los como meros loucos de anedotário, impondo durante todo o livro um sentimento de respeito e até admiração por quem assim se exprime, por muito excêntricas que sejam as suas opções de vida.
E, na verdade, mais excêntricas não poderiam ser: convém lembrar que esta história é baseada em factos reais e que os verdadeiros Homer e Langley Collyer foram encontrados mortos na sua casa da 5ª Avenida, literalmente soterrados debaixo de toneladas de objectos acumulados por Langley ao longo dos anos e amontoados em todos os espaços da casa. As imagens que se encontram na Internet, retratando o estado da habitação dos Collyer quando a polícia aí entrou devido a uma denúncia de cheiro a cadáver, são verdadeiramente impressionantes. Talvez por isso, foi uma agradável surpresa verificar que o autor não se limitou a explorar esse aspecto mais mediático do caso, tendo, em vez disso, construído uma obra inteligente e humana.Excertos:"O Langley nunca chegaria a terminar o seu projecto de jornal. Eu sabia disso e tenho a certeza de que ele também. Era um plano louco, absurdo e mórbido, que lhe mantinha a mente num estado de espírito que lhe agradava. Parecia dar-lhe o ânimo mental de que ele necessitava para prosseguir - para continuar a trabalhar numa coisa cujo único objectivo era sistematizar a sua lúgubre conceção da vida. A energia dele afigurava-se-me, por vezes, anormal. Como se fizesse todas as coisas que fazia para permanecer entre os vivos. Não obstante, mergulhava dias a fio numa desalentadora lassidão. Desalentadora para mim, devo dizer. Contagiava-me, às vezes. Tinha a sensação de que não valia a pena fazer fosse o que fosse e a casa parecia um túmulo." (págs. 46 e 47)."Perguntei ao Langley que tipo de radical era ela. Sei lá, disse ele. Que diferença é que isso faz? É uma espécie qualquer de comunista-anarquista-sindicalista-anarcossindicalista-socialista. A menos que se seja um deles, é difícil perceber quem é o quê. Quando não andam a lançar bombas, estão ocupados a dividirem-se em facções." (págs. 49 e 50).
"Estávamos todos com um estado de espírito soturno. Tendo a imagem da pobre da Siobhan na cabeça e lembrando-me das minhas idas ao cemitério de Woodlawn para enterrar os meus pais, a única coisa em que conseguia pensar era na facilidade com que as pessoas morrem. E, além disso, tinha aquela sensação que nos assola quando fazemos o trajeto até ao cemitério atrás de um corpo num caixão: uma impaciência para com os mortos, um desejo de voltar para casa, onde podemos continuar com a ilusão de que é a vida diária, e não a morte, a condição permanente." (pág. 60)."E daí? Os polícias são escroques com distintivos. Quando não estão a receber luvas, estão a espancar alguém. Quando estão a morrer de tédio, dão um tiro em alguém. Eis o teu país, Homer. E para sua glória suprema, eu fiquei com os pulmões queimados." (pág. 62)."Quando uma pessoa lê ou ouve rádio, disse ele, cria uma imagem na cabeça. É como tu e a própria vida, Homer. Peerspetivas infinitas, horizontes sem fim. O ecrã de televisão, porém, torna tudo plano, comprime o mundo, já para não falar da mente das pessoas. Se visse mais TV do que vejo, mais valia descer o Amazonas de barco e deixar que os jivaro me encolhessem a cabeça." (pág. 93).
"Surgiu uma complicação. A estratégia defensiva de Langley tornou pouco sensato, se não mesmo impossível, eu tentar deslocar-me pela casa. Em termos práticos, estou aprisionado. Encontro-me agora posicionado do lado de dentro da porta da sala de estar, com um único caminho ao meu dispor, que leva à casa de banho no vão das escadas. Os movimentos do Langley também estão restringidos. Instalou-se na cozinha e entra e sai de casa pela porta dos fundos que dá para o quintal. O vestíbulo está completamente vedado com caixas de livros empilhadas até ao teto. Uma estreita passagem entre fardos de jornais e ferramentas de jardim dependuradas - pás, ancinhos, uma broca mecânica, um carrinho de mão, tudo dependurado com arame e corda de ganchos que ele fixou às paredes com um martelo - leva do seu posto avançado na cozinha até ao meu enclave. Traz-me as refeições por este túnel. Diz-me que navega com a ajuda de uma lanterna para não tropeçar nos arames que prendeu, de parede a parede, ao nível dos tornozelos." (pág. 170).


