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Roda Dos Livros

"Os Fragmentos" de Ferreira de Castro

Roda Dos Livros, 29.07.13
Os Fragmentos - Ferreira de Castro

                                                                                                                                                                                  Caro Ferreira de Castro

Espero que me desculpe o atrevimento por escolher esta forma epistolar para escrever sobre o seu livro.Folheei pela primeira vez “Os Fragmentos” através de um exemplar gentilmente emprestado por um amigo. A sua primeira página bastou para me convencer que este era um livro não para ler apenas uma vez mas sim para ter. Um livro enorme na sua discreta pequenez; um livro para reter, guardar e reler.Tendo nascido décadas depois da época nele retratada, impressionou-me imenso o retrato do nosso país traçado pela sua escrita fluida, despretensiosa, despojada de artifícios excessivos e bela, sobretudo, bela. “Os Fragmentos” despertaram em mim uma grande admiração pela forma clara e elegante como contam histórias das lutas proletárias dos primeiros decénios do século XX em Portugal e também em Espanha; impressionaram-me muito a força e tenacidade daqueles homens e mulheres que acreditavam na concretização de um mundo mais fraterno e justo pelo qual lutaram, nalguns casos, até à morte. Inicialmente perplexa com o título “O Intervalo”, logo percebi como este era absolutamente perfeito na sua simplicidade e não poderia ser mais adequado á sua narrativa. Infelizmente, pese embora a significativa melhoria das condições de vida dos portugueses ocorrida nas últimas décadas do século XX, lamento ter de lhe dizer que o mundo continua a viver no Intervalo. Os seus sonhos e aspirações, caro Ferreira de Castro, continuam, em grande parte, por cumprir. Mas hoje, pelo menos, os seus colegas jornalistas e escritores já não são obrigados a lutar contra as suas próprias palavras para fintar o famigerado lápis da censura.Resta-me apenas dizer-lhe que apreciei imenso “Os Fragmentos” e que este livro conquistou inequivocamente um lugar especial nas minhas melhores memórias de leituras.Atenciosamente,R. Carvalho“ Volto as gavetas sobre a minha mesa de trabalho, como se nela virasse o açafate doméstico, contendo apenas as migalhas dos dias vividos, de que se aproveitam somente as aspirações e os sonhos. Sonhos e aspirações que continuam vivos e ardentes e se realizarão inevitavelmente, mas talvez só quando eu já estiver morto.Papéis que jaziam no fundo, submersos pelos mais recentes, estão agora à flor dos outros; a cronologia restabeleceu-se e eles falam-me dos anos em que fui obrigado a vigiar o comportamento das palavras para além das suas imposições estéticas, nesta mesma secretária de onde eles deviam erguer voo, direitos à luz exterior, e quedaram afinal na escuridão das gavetas como na de um túmulo.”“ Longas edificações térreas, em várias filas, muito baixas e compartimentadas, não apresentavam uma só janela. Tinham unicamente portas. Portas a seguir a portas. E se não igualavam inteiramente as cavalariças dos fidalgos de outrora, era apenas por serem bastante mais pobres e muito mais humildes. Cada porta correspondia a um quarto, cada quarto a uma família. (...) O quarto servia de cozinha, de sala e dormitório; e á noite, nessa promiscuidade absoluta de corpos e de frangalhos, os pais, se eram respeitadores, apagavam a luz ou voltavam as costas quando as filhas já crescidas se despiam.”“Um dos mineiros que me acompanha, velho lutador, vai-me falando baixinho das suas esperanças e do sol de Amanhã. E eu ouço-o enternecidamente, porque o Amanhã é um medicamento psicológico enquanto não chega o dia desejado, um medicamento de que todos os explorados carecem e aos deserdados não é mesmo permitido outro.Do alto duma parede, na maioria destas quadras, a imagem de Cristo preside indiferentemente ao espectáculo. E vendo-a, vozes já antigas ressoam-me no cérebro, voltando a perguntar-me como tem sido possível aos donos do nosso planeta adorarem um homem revoltado e ao mesmo tempo aceitarem e fruírem, ao longo de dois mil anos, sem problemas de consciência, uma sociedade que chancela tal desrespeito ao ser humano?”“A Humanidade está vivendo um intervalo entre o velho mundo que apodreceu e um mundo novo que nós desejamos e há-de vir. É um intervalo terrível, com grandes sofrimentos para muitos.”“Cristobal continuava sombrio e calado. Há oito dias que ele, como todos quanto o Roig despedira procurava inutilmente trabalho. A crise tem uma carranca preocupada e as mãos fechadas; e vamos ouvindo dizer que trabalho só nos podem arranjar os mortos, deixando-nos vagos os seus lugares. Mas que há muita gente à espera.”Aqui fica o link para o texto do Jorge Navarro sobre esta mesma obra: http://rodadoslivros.wordpress.com/2013/04/08/os-fragmentos-…maraes-editora/

Esteja eu onde estiver de Romana Petri

Roda Dos Livros, 29.07.13

Edição/reimpressão: 2011

Editor: Bertrand Editora

ISBN: 9789722523578

Ao saber que a Roda dos Livros, um grupo de leitura a que faço orgulhosamente parte, se ia encontrar com Romana Petri fui buscar este livro à estante. Tinha-o comprado porque ouvira falar bem dele mas ficara na prateleira, como tantos outros, à espera de ser lido.

É o primeiro livro que leio desta autora mas espero que não seja o último. Romana Petri tem já nove livros publicados cá e fiquei muito curiosa com alguns deles, sobretudo "A Senhora dos Açores" e "Regresso à Ilha". Saber que os personagens foram baseados em pessoas reais que a escritora conheceu, que os nomes e os lugares pertencem realmente "ao mundo dos vivos" despertou o meu interesse.

Gostei deste livro. Apaixonei-me lentamente pelos personagens e pela história (pelas histórias, melhor dizendo), história que percorre um período longo de Portugal, começando nos anos 40 até quase aos nossos dias. Vários apontamentos históricos estão intrinsecamente ligados às personagens, conferindo-lhes um realismo que incomoda muitas vezes, que traduz na perfeição as mentalidades vividas num meio fechado e controlado por um ditador. Os ecos da revolução fazem-se sentir, as mudanças espelham-se também nas personagens e nas suas vidas. Algumas são divertidas de tão caricatas que são. Quem não conheceu alguém como Belmiro Miraflor?

Uma saga familiar que prende e que, depois das últimas páginas, deixa saudades. As personagens mais fortes, nem sempre as melhores, são as mulheres. São retratadas tal qual a vida as fez: fortes, lutadoras mas também, mesquinhas e vingativas. Mas são, sobretudo, mães. O amor que sentem é transmitido aos filhos. São um porto seguro. Esteja elas onde estiverem!

Um título que adquire todo o sentido aquando da leitura. Uma capa perfeita. Como deve ser!

Uma leitura sólida, consistente, que recomendo. Para saborear muito depois de ter terminado.

Estrelas: 5*+

Sinopse

Ofélia, Margarida e Maria do Céu são as três mulheres de uma emocionante saga familiar que tem início nos anos quarenta e termina nós nossos dias. Situada numa Lisboa de beleza mágica, mas oprimida por uma ditadura que parece interminável, os seus trágicos destinos entrecruzam-se para sempre. Manuel, Carlos e Tiago são os homens que, passadas as suas falsas esperanças, as empurram para o sofrimento e o sacrifício. Onde quer que eu esteja é, acima de tudo, a história de uma maternidade sem limites, a frase que uma mãe profere antes de morrer aos filhos que não quer abandonar. Fresco de um Portugal fechado, dolente e trágico, do longo caminho percorrido pelo povo que, depois de forçado ao silêncio, encontrará a coragem de ser moderno escolhendo a liberdade.

 

O Leitor de Cadáveres - Antonio Garrido

Roda Dos Livros, 28.07.13

OLeitordeCadáveres_19-02-2013A capa e o título de um livro não são o mais importante. Contudo, tendo em consideração a “crise” de capas de livros que atravessamos, e a colecção de títulos enfadonhos que nos impingem todos os dias, tenho de mencionar que “O Leitor de Cadáveres” tem, para mim, uma capa excepcional e um título muito bem conseguido. Sabemos que não é o mais importante mas é inegável que é a primeira comunicação que um livro faz com o (futuro) leitor.

Mas o meu interesse neste livro ultrapassa o aspeto visual. E foi na verdade o conhecimento do seu conteúdo que verdadeiramente me atraiu e incentivou a esta leitura fabulosa de quase 500 páginas.

A medicina legal é dos meus temas favoritos, fonte inesgotável de interesse e curiosidade. Se calhar é por isso que aprecio tanto policiais, pois na grande maioria os casos são resolvidos com base no que os mortos “dizem”. Acho francamente fascinante. Um livro baseado numa personagem histórica real, considerado a primeiro médico legista da História, só podia ser alvo de todo o meu interesse.

“O Leitor de Cadáveres” é uma espécie de policial, tem mistério, intriga e crimes para solucionar. Mas considero que o melhor deste livro é o relato da vida de Cí Song, que viveu na China medieval e pautou toda a sua existência pela busca do conhecimento, uma vontade constante de aprender e, acima de tudo, o desejo de inovar na sua “arte”, criar métodos e técnicas que marcaram os primeiros passos numa ciência preponderante na actualidade.

Dificuldades, crises familiares, perseguições, fome e pobreza são algumas das dificuldades que Cí enfrenta na sua vida. Apesar de muitas vezes desmotivar e se sentir impotente perante as adversidades, a sua necessidade de aprender mais e de colocar em prática as suas ideias e técnicas, pautam o seu assombroso percurso.

Antonio Garrido oferece-nos uma leitura simples, sem artifícios nem complicações, que permite uma viagem fluída e única. Impossível não tecer algumas comparações com o brilhante “O Físico” de Noah Gordon, contudo “O Leitor de Cadáveres” tem o seu espaço e atua em palco próprio.

Recomendo sem qualquer reserva.

Sinopse

“Na antiga China, só os juízes mais sagazes atingiam o cobiçado título de «leitores de cadáveres», uma elite de legistas encarregados de punir todos os crimes, por mais irresolúveis que parecessem. Cí Song foi o primeiro.Inspirado numa personagem real, O Leitor de Cadáveres conta a história fascinante de um jovem de origem humilde que, com paixão e determinação, passa de coveiro nos Campos da Morte de Lin’an a discípulo da prestigiada Academia Ming. Aí, invejado pelos seus métodos pioneiros e perseguido pela justiça, desperta a curiosidade do próprio imperador, que o convoca para investigar os crimes atrozes que ameaçam aniquilar a corte imperial.Um thriller histórico absorvente, minuciosamente documentado, onde a ambição e o ódio andam de mãos dadas com o amor e a morte, na exótica e faustosa China medieval.”

Porto Editora, 2013

O Livro do Ano - Afonso Cruz

Roda Dos Livros, 27.07.13

olivrodoanoUm livro que só visto, pois ler não é suficiente.

A verdade é que como objecto é uma delícia para os olhos, elegante e cheira bem (sim, eu cheiro os livros).

Um livro a sério, de capa dura, cheio de gravuras e parco em letras.

Um livro diferente mas que estimula os nossos sentidos igualmente.

Que faz pensar. Que faz sonhar. Que faz ser criança sem deixar de ser crescido.

Um livro sobre ler, sobre viver e acontecer. Um livro para sorrir.

“Para aquecer o corpo o melhor é uma lareira. Mas, para aquecer a parte de dentro do corpo, o melhor é ler.” (Pág. 107)

Sinopse

“Estas são páginas do diário de uma menina que carrega um jardim na cabeça, atira palavras aos pombos e sabe quanto tempo demora uma sombra a ficar madura. Páginas feitas de memórias, para leitores de todas as idades.”

Alfaguara, 2013

"Victoria" de Knut Hamsun

Roda Dos Livros, 27.07.13

7

É sempre bom quando um livro, apesar de veementemente recomendado, se revela uma excelente surpresa. A base da história desta obra é velha como o mundo: um rapaz pobre, uma rapariga rica, um amor impossível. Contudo, nada em “Victoria” nos remete para os mais estafados lugares comuns dos romances de amor. A escrita de Hamsun é soberba, contendo muitas passagens de rara beleza que apreciei imenso, mas o que me encantou foi a capacidade do autor para transmitir ao leitor emoções fortes de uma forma muito contida, quase como que sussurrada, mas extremamente eficaz. A frieza das personagens é apenas aparente; sob semblantes quase sempre impassíveis escondem-se verdadeiros turbilhões emocionais que moldam toda a narrativa. Percebe-se também uma grande ligação à natureza, ao esplendor rigoroso da natureza nórdica, veiculada sobretudo por Johann. O próprio amor é-nos apresentado em sintonia perfeita com a Natureza, como sendo inerente à existência, ainda que não correspondido ou impossível de ser vivido em toda a sua plenitude.

Infelizmente estas minhas frases soltas são incapazes de reflectir a beleza e  o encanto contidos neste pequeno romance. É melhor ler “Victoria” e deixar-se também enlevar pela escrita brilhante de Knut Hamsun.

“ Mas o que era o amor? Um vento que sussurra entre as rosas? Não, uma fosforescência amarelada no sangue. O amor era uma música de um fervor infernal que pode fazer dançar o coração dos velhos. Era como a margarida que se abre totalmente com o aproximar da noite, era como uma anémona que se fecha ao mais ténue sopro e morre quando é tocada.

O amor era isso.

Podia destruir um homem, reerguê-lo para o destruir de novo. Podia amar-me a mim hoje, a ti amanhã e a ele à noite, de tal modo era inconstante. Mas também podia permanecer solidamente intacto, como um selo de lacre inviolável e podia arder inextinguível até à hora da morte porque era eterno. O que era então o amor?”

“Joahannes pousa a caneta e encosta-se na cadeira. Está bem, ponto final. Aqui está o livro, todas estas folhas escritas, fruto de nove meses de trabalho. Percorre-o uma sensação de cálida satisfação. Finalmente a sua obra está terminada. E enquanto olha para a janela, através da qual o dia começa a despontar, os seus pensamentos continuam a fervilhar: a sua alma continua a trabalhar. Está cheio de emoção, o seu cérebro é como um jardim intacto e selvagem, de onde exalam os vapores da terra.”

Mafalda, a Perspicaz – Quino

Roda Dos Livros, 23.07.13

ImageA revista Sábado distribuiu gratuitamente este ano a colecção de livros da célebre Mafalda em colaboração com a ASA. “A paz segundo Mafalda”, “Os pais a contas com Mafalda”, “A política segundo Mafalda” e “As crises segundo Mafalda” são os títulos que compõem esta fabulosa colecção.

50 anos passados sobre o início da publicação das tiras que nos deram a conhecer esta personagem ímpar é espantoso verificar o quão actuais se mantêm muitas das suas acutilantes críticas e observações.

O constante questionamento sobre os diversos conflitos armados e a paz no mundo, a política e os políticos, a crise e a inflação, são temas de uma actualidade que me deixa sempre sem palavras. E, claro, a visão dos pais e do seu papel na família e na sociedade, bem como as personagens que acompanham Mafalda ao longo destas tiras humorística, os impagáveis Filipe, Manelinho, Susaninha, Miguelito e Gui.

Agora e sempre… a não perder! De uma actualidade e perspicácia únicas com um apurado sento de humor, uma criatividade sem par e uma beleza de traço fantástica.

Uma brilhante homenagem por estes 50 anos!

Recomendadíssimo para umas horas de gargalhadas, sorrisos e cabeça a trabalhar! Uma excelente leitura para os dias que correm!

Se não podes juntar-te a eles, vence-os - Filipe Homem Fonseca (Divina Comédia)

Roda Dos Livros, 22.07.13

capa_venceos

Pela mão da Divina Comédia chegou o primeiro romance de Filipe Homem Fonseca que é uma surpresa. Uma boa surpresa! Com um Menino da Lágrima na capa e um título provocador, Filipe entrega-nos um livro muito especial.

Uma das personagens que se auto-intitula de pessoa boa revela-nos que “Portugal está cheio de crimes violentos, paixões loucas e boa pastelaria.” E eu acrescentaria de bons autores também!

“Quando chegam à idade adulta os portugueses tornam-se um de três tipos de gente: catastrofistas, dissidentes ou boas pessoas.” Mais do que o retrato dos Portugueses, sobressai a profundidade das personagens aparentemente simples, que entregues aos seus pensamentos nos mostram o que sentem, como sentem e o que gostariam de sentir. Texto que nos desafia a pensar, a agir, a equacionar qual o nosso caminho!

“Fuga e procura, ambas exigem afastamento. Mas fugir é fácil, segue-se em frente até encontrar obstáculo, depois contorna-se, supera-se ou desiste-se, continua-se a fugir ou cai-se de joelhos. Já procurar é caminho sinuoso, um pára-arranca. Pode ser circular, pode ser eterno. A procura é a vontade que nos aguenta vivos até amanhã.”

E será que um quadro pode mudar a nossa vida? Moldar-nos a personalidade ou fazer de nós pessoas boas? “Um dia, quando era muito pequeno, perguntei-lhe porque chorava o Menino, se era com medo da arma que estava pendurada ao pé dele. Respondeu-me que não, que o menino chorava porque não tinha uma daquelas. E deixou-me a pensar se as lágrimas do Menino eram porque queria usar arma para matar alguém ou a si próprio.”

“Na altura não percebi, ele é que me contou mais tarde, parou porque viu folhagem a crescer no asfalto. Isto fez-me uma confusão, como quase tudo nele me faz, como é que alguém pára numa auto-estrada por causa de folhas a crescer no asfalto?” Será que algo tão simples e inócuo como uma folhagem a crescer no asfalto pode gerar algo maior que pode mudar o rumo dos acontecimentos? A resposta é positiva e mais uma vez se comprova que todas as acções produzem o seu efeito. Mas o maior efeito é conseguido com a mestria do Filipe em cruzar os acontecimentos e as personagens!

“Centenas de milhares que empunhavam cartazes e gritavam palavras de ordem, frases gastas que eram tudo o que tínhamos. Estávamos convencidos que não podíamos aguentar mais, sem saber que se pode sempre aguentar mais, em especial quando esse mais é viver com menos. (…) À falta de saber como lutar, que palavras gritar, os manifestantes remetiam-se ao silêncio. Uma marcha de vazio pelas ruas de todas as cidades do país, da Europa. Nem uma palavra, só dor.” Quanto mais pode uma nação e o seu povo aguentar? Qual a melhor forma de lutar contra o que nos aflige? Muitas questões, poucas respostas...

“Ouve-se dizer que o Governo vai cair, vamos perder a soberania, vêm para aí os alemães ou seja que lá quem for, para tomar conta da nossa vidinha, mesmo contra a nossa vontade. E os Meninos da Lágrima, tantos que são agora, respondem: que venham, estamos mais do que preparados, andamos há décadas, há séculos, a deixar que tomem conta da nossa vidinha, mas agora acordámos.” Existe um acontecimento específico para cada um de nós que irá despoletar o gatilho para sairmos da inércia. Qual? Descobre-o... A nossa saída será tornarmo-nos todos um Menino da Lágrima ??? Haverá decerto outras saídas, mas temos que agir, todos e cada um de nós, agora!

Eu não resisti e juntei-me a eles… aos que já leram esta belíssima obra e vão aguardar por mais obras do Filipe! :-)

A Ilha de Sukkwan - David Vann

Roda Dos Livros, 22.07.13

sukkwan

Uma sinopse superficial deste livro teria como efeito transmitir a ideia de que estamos perante um tipo de obra diametralmente oposto àquele de que realmente se trata. Um resumo como "um pai divorciado muda-se com o filho para uma ilha isolada no Alasca para aí, durante um ano de vida em contacto com a natureza, tentar uma aproximação entre os dois" sugeriria o batidíssimo tema do abismo entre gerações e da tentativa de superação do mesmo através de algum tempo de convivência estreita longe do ambiente habitual. Preparar-nos-íamos para assisitr aos esforços de um pai paciente para ultrapassar a incomunicabilidade - talvez mesmo a hostilidade - do filho. E saberíamos de antemão que, no fim do livro, os dois seriam inseparáveis.

 

Claro que não poderíamos estar mais enganados. O primeiro golpe dado pelo autor nas convenções literárias geralmente aceites reside precisamente aí: partindo de um argumento-base estereotipado, já explorado vezes sem conta, mas sempre com desenvolvimentos muito semelhantes, reproduz todas as premissas de um cliché, prepara o leitor para o dito cliché e depois, de súbito, atira-o para uma narrativa desenfreada que rompe com todos os pontos de referência tidos como certos no início, desmente todos os pressupostos e mergulha num delírio em roda livre que poderia ter como subtítulo a célebre frase de Jim Morrison transformada em título de biografia: "Daqui ninguém sai vivo".

 

Aqui, tudo se passa ao contrário do esperado. O pai, afinal, é um irresponsável que arrasta o filho para uma situação de vida em condições de sobrevivência extremas sem a mínima preparação; e, ainda por cima, revela uma personalidade instável, desiquilibrada, que torna a estreita convivência imposta pelo espaço exíguo de uma cabana de onde o clima quase não permite sair ainda mais insuportável. O filho, por seu lado, mostra uma maturidade surpreendente para uma criança de 13 anos; oscila entre a indiferença, que exibe como uma capa protectora destinada a isolá-lo do espectáculo confrangedor em que o pai se transformou, e a necessidade de zelar pela sobrevivência dos dois, especialmente por não querer ficar sozinho. O pano de fundo é a natureza esmagadora, a fúria dos elementos que ameaça tragá-los a cada passo, e o constante clima opressivo criado pela proximidade forçada, pelo isolamento e pela hostilidade sempre latente.

 

E é neste contexto já de si bastante surrealista que tem lugar o terrível acontecimento que irá dividir a história ao meio: o antes e o depois. É aqui que o autor arrasa de vez tudo o que é convencional no mundo literário. Há coisas de que não se fala, pensamos nós saber. Há coisas que, se por acaso aparecem num livro, são necessariamente abordadas de um modo eufemístico, quase poético, para compensar a violência do tema. Ou, pelo menos, assim julgávamos nós. David Vann desenganou-nos. Sim, é possível invadir os poucos redutos do inenarrável que ainda restam e devassá-los sem reservas, expô-los com uma linguagem crua e descritiva, desdobrá-los na frente do assombrado leitor e alisá-los até não restar o mais pequeno vinco, a mais ínfima zona de sombras, até todos os seus detalhes, incluindo os mais sinistros, ficarem à vista de todos.

 

Poderá perguntar-se, se este acontecimento ocorre no meio da obra, o que poderá passar-se na segunda parte. Poderá pensar-se que, depois disto, não haverá muito mais a relatar. Mas o autor corrige-nos mais uma vez: claro que há muito mais. Por maior que seja o horror, tudo pode tornar-se ainda mais horrível. O inferno não tem limites.

 

Excertos:

 

"A chuva não parava lá fora, e a sala era pequena e escura. Os sussurros do pai fungando e fazendo uns ruídos estranhos e assustadores no seu desespero estavam apenas a alguns centímetros e não havia sítio nenhum para onde ir." (pág. 54).

 

"Não fazia sentido para Roy que o pai tivesse vindo para ali. Começava a parecer que talvez ele não tivesse conseguido pensar numa maneira de viver que fosse melhor. Isto era então uma solução de recurso, e Roy também fazia parte do imenso desespero que acompanhava o pai para onde quer que fosse." (pág. 107).

 

"Parava de vez em quando e tentava ficar imóvel e calado e escutar. Estava a tentar ouvir o caminho a seguir ou, como isso não fazia o mínimo sentido, ouvir talvez o que vinha atrás dele. Muito mais tarde, quando o céu começou a clarear um pouco, viu a luz fraca de algumas estrelas por entre as árvores. Tinha frio e tremia e o coração continuava a bater, e o medo tinha-se cravado mais fundo e tornara-se numa sensação de que estava condenado, de que nunca encontraria o caminho para a segurança nem seria capaz de correr suficientemente depressa para escapar. A floresta era incrivelmente ruidosa, cobrindo mesmo as suas pulsações. Havia ramos a partir-se, e hastes e todas as folhas agitando-se com a brisa, e coisas por toda a parte correndo pelo meio das moitas, e estrondos ao longe que ele não podia ter a certeza se os teria ou não simplesmente imaginado. O ar na floresta tinha massa e peso e fazia parte da escuridão, como se fossem a mesma coisa, e se precipitasse para ele de todos os lados.

Toda a minha vida senti este medo, pensou ele. Isto é o que eu sou. Mas depois disse a si próprio que se calasse. Só estás a pensar assim porque estás aqui perdido, disse ele." (pág. 128).

 

Edições Ahab, 2011

 

 

 

 

A Trégua - Mario Benedetti

Roda Dos Livros, 21.07.13

atreguaMartín espera pela reforma. Aguarda os dias de lazer sem planos, com o tempo todo para si. Imagina como será deixar de ir para o escritório, deixar de ter as diárias relações profissionais com os colegas. Medita sobre o futuro. Anseia por esses tempos de liberdade mas ao mesmo tempo receia não saber o que fazer com todo o tempo que terá disponível.

“A Trégua” é uma profunda reflexão sobre o tempo. O que já vivemos, o que temos para viver, e o tempo que, inevitavelmente, sentimos que nos escapa.

Martín, à beira dos 50 anos, sente que já viveu mais do que tem pela frente. Este livro é o seu diário de angústias, a sua colecção de medos sobre o futuro e os seus pensamentos acerca do que viveu.

Escrito em tom confessional, fez-me sentir mais do que uma leitora, uma espécie de confidente ou quase testemunha do seu percurso de vida. Um livro que li num dia como um segredo que tinha de saber, ou um desabafo que não se podia mais conter.

Uma escrita bonita e bem conseguida, com uma espécie de sonoridade e ritmo musicais, pautaram a minha viagem pela vida de Martín. Desde o seu primeiro casamento, à relação (por vezes atribulada) com os filhos, a viuvez, a solidão que lhe permite pensar e atingir algumas brilhantes conclusões sobre a vida diária.

O trabalho, por ser o local onde (ainda) permanece mais tempo, pauta grande parte dos seus pensamentos. Martín absorve o ambiente em redor, transmite as suas conclusões e as suas observações de forma especial, com espírito crítico mas, ao mesmo tempo, com uma suavidade que só a beleza da escrita da Mario Benedetti pode permitir.

Então apaixona-se. De forma inesperada encontra o amor, no local de trabalho. Curiosamente ela é muito mais nova, como se fosse mais um lembrete do tempo. Surgem os receios. Medo da velhice, de ser um estorvo, de a desgostar, de a perder. De ter pouco tempo. Com ela.

Comete algumas loucuras. Renasce. Faz coisas que já não pensava fazer. É correspondido. É feliz. Encontra alguma paz que precisava. Que lhe faz bem.

Rejuvenesce e sente que ganha anos, que a felicidade o acorda e faz desejar a imortalidade. Mas sabe que não é possível. Não quer lembrar-se mas sabe. É o tempo que o lembra. Mais uma vez o tempo cruel que cumpre o seu desígnio: passa e esgota-se.

“Se alguma vez me suicidar, será num Domingo. É o dia mais desalentador, o mais anódino. Eu quereria ficar na cama até tarde, pelo menos até às nove ou às dez, mas às seis e meia acordo sozinho e já não consigo fechar os olhos. Às vezes penso naquilo que farei quando toda a minha vida for Domingo.” (pág.21)

“Nos escritórios não há amigos; há tipos que se vêem todos os dias, que embirram juntos ou separados, que dizem piadas e se riem delas, que trocam queixas e transmitem os seus rancores entre eles, que murmuram sobre a administração em geral e adulam cada director em particular. A isto chama-se convivência, mas só por miragem é que a convivência pode chegar a parecer amizade.” (Pág.94)

“Hoje, em vários momentos do dia, pensei “cinquenta anos”, e a alma caiu-me aos pés. Estive em frente ao espelho e não pude evitar um pouco de piedade, um pouco de comiseração para com aquele tipo enrugado, de olhos cansados, que nunca chegou nem nunca chegará a nada. O mais trágico não é ser medíocre mas inconsciente dessa mediocridade; o mais trágico é ser medíocre e saber que se é assim e não se conformar com esse destino que, por outro lado (e isso é o pior), é de estrita justiça. Então, quando estava a ver-me ao espelho, apareceu sobre o meu ombro a cabeça de Avellaneda. Ao tipo enrugado, que nunca chegou nem chegará a nada, acenderam-se os olhos e durante duas horas e meia esqueceu-se de que tinha feito cinquenta anos.” (Pág. 147)

Sinopse

“«A trégua» é considerado o romance emblemático da literatura sul-americana e uma das histórias de amor mais comoventes da literatura moderna. Em Buenos Aires, dois amantes vivem um amor que transgride todas as convenções sociais.Martín Santomé é viúvo há mais de vinte anos e praticamente criou os filhos sozinho. Confidencia ao seu diário que se sente cansado de um quotidiano sedentário no escritório e que de dia para dia agravam-se os conflitos geracionais com os seus filhos. O seu único alento é a reforma, para a qual faltam seis meses e vinte e oito dias.Tudo muda quando surge uma nova colega, Laura Avellaneda, num escritório contíguo ao seu - "o seu corpo, a sua boca grande, as suas pernas lindas" - e só assim se atenua a obsessão de Martín centrada nos vinte e oito dias. Martín descobre pela primeira vez o amor com a jovem e vigorosa Laura.Superando todos os convencionalismos e transgredindo as circunstâncias impostas pela diferença de idades, os dois amantes revitalizam sentimentos e enfrentam os riscos dessa relação amorosa: Martín e Laura vivem profundamente o seu momento no qual se inscreve o sentido da eternidade.Romance emblemático dos anos 60, que continua vivo e a ser um testemunho psicológico e social comovente.”

Cavalo de Ferro, 2007

Maldito Seja o Rio do Tempo

Roda Dos Livros, 18.07.13

Edição/reimpressão: 2013
Páginas: 240
Editor: Dom Quixote
ISBN: 9789722052429

Tenho deste autor "Os Cavalos Roubados" mas ainda não o li. Por essa razão não consigo comparar a escrita deste autor e a sua evolução.

"Maldito seja o Rio do Tempo" não é uma leitura fácil nem tão pouco para todos os dias. Foi-me necessária alguma concentração porque o narrador, o personagem principal, atropela um pouco os seus pensamentos, deambulando pelo passado e pelo presente sem especificar concretamente, nalgumas situações, com quem partilha as suas acções. Este atropelo traduz de uma forma admirável como se encontra a sua vida. Uma perfeita confusão! Numa fase de divórcio, Arvid tem conhecimento que sua mãe tem uma doença terminal... E se por um lado tenta recuperar a sua relação ela, pautada por alguma indiferença, por outro refugia-se na bebida, trazendo-lhe esta alguns incómodos.

Sendo sincera não posso dizer que foi uma leitura que me prendeu de uma forma extraordinária. Esperava algo diferente. No entanto, esta história captou a minha atenção, sobretudo porque o passado e o presente confluem constantemente no discurso do narrador e as histórias vão-nos sendo transmitidas em catadupa, traduzindo bem o seu estado de espírito. Algumas frases longas, plenas de acções, são exemplo disso.

Fiquei curiosa com esta escrita tão peculiar e lerei em breve o primeiro livro deste autor nórdico.

Terminado em 14 de Julho de 2013.

Estrelas: 4*

Sinopse

Estamos em 1989 e, por toda a Europa, o comunismo está em colapso. Arvid Jansen, de 37 anos, encontra-se à beira de um divórcio. Ao mesmo tempo, à sua mãe é diagnosticado um cancro. Durante alguns dias intensos, no outono, seguimos Arvid enquanto ele se esforça por encontrar uma nova base para a sua vida, ao mesmo tempo em que os padrões estabelecidos à sua volta se estão a alterar a uma velocidade estonteante. Enquanto tenta conciliar-se com o presente, volta a recordar as suas férias na praia com os irmãos, o namoro, e o início da sua vida de trabalho, quando como jovem comunista abandonou os estudos para trabalhar numa linha de montagem.
Maldito Seja o Rio do Tempo é um retrato honesto, enternecedor e simultaneamente bem-humorado de uma complexa relação entre mãe e filho, contado na prosa precisa e bela de Petterson.

 

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