Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Roda Dos Livros

Casamento em Veneza - Elizabeth Adler

Roda Dos Livros, 30.06.13

ImageAcontece-me várias vezes ser influenciada pela capa de um livro para o comprar e ler ou não. Este é um daqueles casos em que se não me tivesse sido aconselhado por uma amiga com gostos literários semelhantes jamais teria pensado em o ler… com uma capa de romance lamechas (algo que não faz o meu género) ficaria, porém a perder uma história bem engendrada e bem escrita.

O título também não é o mais feliz… talvez tentando captar um grupo de leitores que não creio que se reveja no conteúdo… o original “Meet me in Venice” é, sem dúvida, o adequado, razão pela qual a autora o terá escolhido, certo? Às vezes tenho sérias dificuldades em compreender as opções das editoras…

"Casamento em Veneza", de Elizabeth Adler é, contrariamente ao que se supõe pelo título, um romance de suspense, suspense e mais suspense... 3 mortes, a história de um colar fabuloso feito com pedras preciosas pertencentes a Cixi – a Dama do Dragão, última imperatriz da China - duas primas antiquárias, Preshy e Lily, que não se conhecem - uma a viver em Paris e a outra em Xangai. Um caçador de fortunas, um escritor angustiado com o seu passado, duas tias multifacetadas. E, de facto, uma atracção por Veneza, cenário de acção. São estes os ingredientes de que é feita esta história de ambição desmedida e tudo o que ela envolve: fazer fortuna à custa do casamento com herdeiras, roubo de campas, falsificação de antiguidades…

Uma história pontuada aqui e ali por um pouco de romantismo, apenas q.b., verosímil ou não, que não tira ritmo à acção, nem adoça em demasia.

Ser rico a qualquer custo aparece-nos como um traço de personalidade comum a algumas personagens, que se atraem e repelem. Um romance cheio de voltas e reviravoltas, de leitura compulsiva e de que gostei. Uma história em que me questionei sobre a ingenuidade e me irritei com algumas características de algumas personagens, onde apreciei os laços de amizade e com que me diverti bastante e sorri abertamente com as tias Grizelda e Mimi, a condessa e a ex-bailarina das Follies…

Este foi o primeiro livro desta autora que li. Gostei e recomendo para umas horas bem passadas. Fiquei com vontade de ler mais um ou outro livro de Elizabeth Adler, sobretudo os que sei que têm enredos semelhantes.

Mas quando o fizer vou voltar a forrar a capa para não me verem por aí a passear um livro com uma capa tão cor-de-rosa como as que a editora escolheu para esta autora, pergunto-me mesmo… será que quem escolheu a capa leu o livro? E quem fez o título? Terá sido mesmo a tradutora?

Sinopse

Embora viva na cidade mais romântica do mundo, Precious Rafferty nunca se apaixonou perdidamente. Até que conhece Bennett James. Estará na altura de se deixar, finalmente, arrebatar pelo romantismo e ter o casamento dos seus sonhos em Veneza?Do outro lado do mundo, em Xangai, Lily Song, prima de Precious, guarda um valioso e perigoso segredo de família. Quando Lily suplica a Preshy que se encontrem em Veneza e a alerta para os perigos que corre, a vida de ambas vai mudar para sempre.Entretanto, em Paris, Precious conhece o escritor Sam Knight, um homem cativante, mas desencantado com a vida. Precious sente Sam cada vez mais próximo de si e receia que ele esteja também enredado nesta emaranhada teia de perigo e desejo. Será que Sam também não é quem aparenta ser? Esconderá algum segredo terrível? Em Veneza, Precious terá de serpentear através de um labirinto de traição e sedução para descobrir a quem poderá confiar, de uma vez por todas, o seu coração... e a sua vida.Empolgante, exuberantemente descritivo e inteligente, Casamento em Veneza é um jogo do gato e do rato com muitas reviravoltas e romances arrebatadores. A mestria narrativa de Elizabeth Adler no seu melhor.

Quinta Essência, 2009

Bordel Português - Nelson Quintino

Roda Dos Livros, 30.06.13
capa_bordelportugues1

A Divina Comédia continua a presentear-nos com pequenas pérolas e desta vez apresenta-nos um novo autor português. Demonstrando que espírito criativo dos portugueses não está em crise, Nelson Quintino transformou-se no mestre de cerimónias que nos seduz e convida à entrada neste grande “Bordel Português.”

A provocação deste livro não se encontra apenas no título ou nas passagens hilariantes com que somos premiados ao ler este romance. A verdadeira provocação está em conhecermo-nos, através do riso ou da reflexão, e ter a coragem de assumirmos o nosso papel activo no grande palco em que vivemos.

“Depois de se terem apresentado, falaram um pouco de cada um. Foram obrigados a criar em apenas alguns segundos uma biografia nova que não levantasse suspeitas ou deixasse pistas em relação à sua verdadeira identidade. Inventaram profissões, habilitações académicas, antepassados, moradas, ideologias, deuses, infância, amores, tristezas, paixões, mortes, e nunca deixaram transparecer que estavam a mentir.” Assim são as personagens deste livro. Únicas, verossímeis e apresentadas com mestria. Com uma qualidade de pormenores que nos fazem sentir o que sentem e conhecer os seus próximos comportamentos.

Henrique H queria encontrar Deus. Nessa busca, demonstra-nos como está o nossa pátria, o nosso povo e o nossa moral. Em crise… Calcorreando por novos caminhos, Henrique espanta-se por se encontrar consigo mesmo. Num retrato divertido e mordaz de hábitos e costumes, somos os espectadores de um Portugal amorfo e de uma sociedade incapaz de pensar e viver com ideias próprias. Ameaçada pela crise económica, a sociedade continua a perpetuar as mesmas acções, desculpáveis hoje em dia devido à crise, manifestando que a verdadeira crise é a de valores e que essa antecedeu em muito a económica.

De tanto praticar o ilícito será que tudo passa a ser lícito? E quantas serão as soluções para a crise? Até onde poderemos ir? Será que ainda vamos a tempo para alterar o estado das coisas? “Depois de resolver dedicar-se à profissão mais antiga do mundo, sentiu que tinha encontrado a sua vocação; percebeu que tinha finalmente descoberto a sua missão na vida – ajudar o seu país.”

Henrique H demonstra-nos que podemos mudar, basta para tal agir. E são várias as acções que nos demonstram as repercussões que um só acto pode ter na vida pessoal ou na sociedade. “A alegria cresceu, tornou-se indomável. Em pouco tempo, a cidade tornou-se um lugar possuído pela beleza de uma gargalhada. As pessoas riam dos outros e de si próprias. Tudo era motivo de risada.” O poder do riso ou de nos expormos à sociedade tem consequências, as quais podemos acompanhar em diversos capítulos da obra. Sabermos interpretar e medir o impacto das nossas é também o desafio. Se não nos revemos nas personagens ou nas suas acções, fica a questão para reflexão do que é que já fizemos ou vamos fazer para sermos diferentes.

“Durante algumas horas, analisaram o cérebro de Henrique ao pormenor e descobriram milhões de palavras vivas nos neurónios. A sua cabeça estava cheia de versos, poemas, romances, contos.” Tal como descrito na personagem, Nelson Quintino revela neste romance que tem milhões de palavras para nos deslumbrar. A sua capacidade de escrever de uma forma ágil, rica e contagiante, tal como o riso, denota que este será o primeiro de vários romances que decerto estarão na forja.

Plenamente satisfeito com as horas passadas neste “Bordel Português”, recomendo vivamente que se atrevam a entrar no bordel e a descobrir este novo autor.

A Escrava de Córdova - Alberto S. Santos

Roda Dos Livros, 29.06.13

6380986_JobtYApenas recentemente me interessei por este romance, não que me tivesse passado despercebido quando foi lançado, mas foram de facto as notícias da sua edição Espanhola que acordaram a minha curiosidade para o ler. Trata-se de uma das minhas aquisições nesta Feira do Livro de Lisboa e, sem dúvida, uma excelente compra.

Logo de início, e com base na primeira análise estrutural do livro que sempre faço, detectei vários pontos positivos que foram sem dúvida um apoio fundamental na leitura: um mapa do território Ibérico da época; um glossário de termos religiosos e não só, ao qual recorri infinitas vezes; um esquema cronológico simples mas muito útil para contextualizar a acção.

Quem conhece as minhas opiniões e gostos sabe que poucos géneros literários me entusiasmam tanto como o Romance Histórico. Por permitir descobrir sempre coisas novas e aprofundar conhecimentos, por dar uma visão e perspectiva que não tinha ou na qual ainda não tinha pensado, este tipo de livros leva-me sempre numa viagem aos cheiros e emoções do passado. E foi de facto o que se passou neste caso. “A Escrava de Córdova” é, acima de tudo, um livro bem pensado e idealizado, respeita datas históricas, explica acontecimentos reais, e enquadra uma história de ficção que sentimos que pode mesmo ter acontecido.

Ouroana é uma jovem Cristã, nascida no ano de 976 d.c. na zona actual de Entre-os-Rios. No mesmo ano, mas a muitos quilómetros de distância, em Córdova, nasce Abdus. O destino destes jovens vai cruzar-se, o seu encontro fará com que ambos cresçam espiritualmente, pensem e reflictam acerca de Deus, dos costumes em que ambos foram educados e, no fundo, sobre as diferenças religiosas.

O autor consegue, a meu ver, fazer uma extraordinária análise e exposição do que representou para nós a presença Árabe no território que é actualmente Portugal e Espanha. De facto, uma civilização à frente do seu tempo, cujos avançados conhecimentos permitiram construir e manter um império. Desde conhecimentos de Engenharia, Medicina, passando pela importância dada aos registos históricos pela forma como mantinham bibliotecas e livros, até ao culto da beleza e dos cuidados com o corpo, a civilização Árabe era e é de uma riqueza inimaginável, somente perdida e deturpada pelo fundamentalismo que, já nessa época, a veio minando até aos dias de hoje.

Mas voltando ao percurso de Ouroana, é pelos olhos desta princesa Cristã, que por acasos do destino se torna escrava em território Andaluz, que nos é dado pensar sobre todas estas questões que fazem parte das nossas raízes e são extremamente marcantes para a história da humanidade. A saudade, o amor, a amizade marcam a vida desta jovem e, com o tempo, libertam-na de preconceitos para simplesmente procurar ser feliz. Conclusões simples mas profundas que numa sociedade sem maldade e com o verdadeiro objectivo de chegar a Deus, teriam evitado inúmeras guerras e catástrofes.

À parte a história de Ouroana destaco Ermígio. O amigo que, sentindo-se responsável pelo desaparecimento da jovem da sua terra natal, se lança numa odisseia de perigos para a recuperar para junto da família. A viagem de Ermígio é longa e sinuosa, mas é também uma aprendizagem e razão de profundo crescimento interior. Ao deslocar-se para sul vai conhecendo melhor a realidade da cultura muçulmana, vai-se deparando com costumes completamente novos e, inevitavelmente, vai sendo surpreendido com a inegável superioridade de alguns preceitos Árabes. No seu percurso conhece Ben Jacob, um Judeu que é descrito de forma primorosa, pois compreende todas as características habitualmente atribuídas a este povo, desde a aptidão para os negócios aos conhecimentos históricos que marcam uma religião milenar. Ben Jacob é a minha personagem favorita deste livro, o seu surgimento surpreendente nas mais diversas situações vem permitir que a reflexão religiosa e histórica se alargue e adense. Cristãos, Árabes e Judeus. Diferentes perspectivas do mesmo Deus?

Este é simplesmente dos melhores livros que li.

Sinopse

“A Escrava de Córdova segue a vida de Ouroana, uma jovem cristã em demanda pela liberdade e pelo seu lugar especial no mundo. Confrontada com as adversidades do tempo em que lhe foi concedido viver, e em nome do coração, a jovem terá de questionar a educação, as convicções e a fé que sempre orientaram a sua existência. Será, por entre a efervescência das mesquitas e o recato das igrejas granÌticas da sua terra, que a revelação por que tanto almeja a iluminará.Uma história inolvidável de busca de felicidade que tem lugar nos séculos X-XI, numa época pouco tratada pela Historiografia oficial e mesmo pela ficção romanceada. Um pretexto para uma brilhante explicação sobre o caldo cultural e civilizacional celto-muçulmano dos actuais povos peninsulares e uma profunda explanação sobre as origens, fundamentos e consequências da conflituosidade étnico-religiosa que hoje, tal como no distante ano 1000, ainda grassa no mundo.Alberto S. Santos, com rigor histórico e descrições impressivas, revela-nos a mentalidade, a geografia, o quotidiano urbano, as concepções religiosas, a fremente História do dobrar do primeiro milénio, e, sobretudo, a intensidade com que se vivia na terra onde, mais tarde, nasceram Espanha e Portugal. Dá-nos ainda a conhecer o ângulo mais brilhante, mas também o mais duro e cruel, da civilização muçulmana do al-Andalus.”

Porto Editora, 2008

(Texto escrito em 2010)

Os Cães - Ola Nilsson

Roda Dos Livros, 27.06.13
Os caes

Numa pequena localidade sueca, um grupo de adolescentes vai passando pelos dias sem objectivos definidos. Ou melhor, com um único objectivo definido, esse bem interiorizado: beber muito, beber a toda a hora, para esquecerem a sua própria existência.

"Eles viram a luz. Uma luz divina que propaga as suas bênçãos na forma de garrafas, copos e garrafões de plástico. Procuram a mesma coisa. Beber até já não conseguirem sentir nada da vida. É, pelo menos, nisso que acreditam. E são ambos crentes." (pág. 22).

Juntam-se numa ponte sobre um lago de águas negras que ocultam troncos submersos. Tal como as suas almas. A natureza que os envolve é esmagadora, tal como o mundo em que têm de viver. Um deles morreu ao tentar divertir-se um pouco. Agora, parecem resignados a suportar o que lhes está reservado. As raparigas oferecem o corpo porque é o que se espera que façam. A sua autoestima é inexistente. Nem mesmo entre eles existe compreensão, seja porque cada um se fechou em si mesmo, sem qualquer vontade de comunicar com o próximo, seja porque as suas personalidades distorcidas inviabilizam qualquer tipo de empatia. Mesmo quando estão juntos, transpiram solidão.

"É engraçado eu sabê-lo antecipadamente. Mesmo que talvez não queira que aconteça, pensa ela. Eu deveria ser capaz de impedir que aconteça, mas, mesmo assim, acontce. Vou acabar deitada em qualquer canto da casa, inconsciente, ou acordada, com o caralho do Nicklas dentro de mim. Mesmo que não o queira - não verdadeiramente, para ser sincera. Mas é como se tivesse de o fazer, como se lho devesse, como se o devesse a todos. Eu sei porque lhes devo isso, sei porque tenho de o fazer. É óbvio. Olho para mim e comparo-me com os outros e sei que lhes devo isso. Mas os outros não parecem importar-se. Os outros também têm obrigações, sei que têm, vejo-o constantemente, mas simplesmente não querem saber. Limitam-se a rodear-me, observando-me para não olharem para si próprios. Como conseguem não se ver a si próprios?" (pág. 37).

Mas ainda restam alguns vestígios de humanidade nestes jovens. Ainda estão, de alguma forma, ligados aos pais. Talvez porque, ali, os laços familiares se estendem sobre a terra como teias de aranha. O instinto protector é quase animal, quase como numa matilha de cães. Apenas com uma particularidade: são os filhos que procuram proteger os pais, sentindo-se na obrigação de os defender das trevas que trazem dentro. Sim, os pais também são atormentados. Mais até do que os filhos. O que tem a sua lógica: vivem ali há mais tempo.

"Formou-se um pedaço de gelo no peito de Ida quando o viu assim, a olhar para as árvores sem nada ver. E a escuridão nele espalhou-se também sobre ela. Espalhava-se sempre sobre ela, nunca sobre Sanna. De algum modo, Sanna nunca parecera ser suscetível. Ida talvez soubesse porquê. Ela sabia que fora ela quem tomara a responsabilidade, que escolhera puxar aquele cobertor negro sobre si, e que mais ninguém poderia ser culpado por isso. Mas se ela não o fizesse, mais ninguém o faria, e ela sabia-o muito bem. Tudo o resto poderia não ser verdade, mas ela sabia com toda a certeza que mais ninguém carregaria a escuridão se ela não o fizesse.

De repente, o seu pai contorceu-se, e ela viu o terror surgir no seu rosto. Desapareceu de imediato, mas estivera lá e pousara a sua mão gelada sobre si. Ela sabia que ele estava a cair.

Nós, pensou ela.

Ela olhou para as flores rosa e lilases que abanavam a0 vento.

Agora, estamos a cair." (págs. 30 e 31).

Aqui, a apatia domina a vida desde muito cedo. Poderá haver um ou outro acto de resistência, uma ou outra tentativa de escapar do rumo comum, mas depressa se desvanecem, abafados pela força magnética da terra. A ligação à terra, as raízes, prendem os habitantes num abraço poderoso. Uma possível alteração de trilho ficaria sempre incompleta, careceria sempre de conteúdo. Não há evasão possível, a não ser a evasão da mente, enquanto o corpo continua a seguir a direcção que lhe compete. Beber e esquecer, beber e atingir a insensibilidade que permite chegar ao dia seguinte.

"O Erik quer viver noutro lugar. Mas não é suficientemente forte para quebrar as raízes que constantemente absorvem tudo o que ele quer, mas que tornam os outros mais fortes, enquanto ele simplesmente se torna um torrão cinzento. Ele não consegue fazer nada. Ele é simpático, mas fraco, e não consegue fazer nada. Nem sequer agora, quando está tudo acabado para o velhote, consegue fazer alguma coisa. E as raízes tornam-se simplesmente cada vez mais fortes." (págs. 85 e 86).

"Um dia, pensa ele com uma careta. Um dia, muito em breve, o seu interesse morrerá e ela adaptar-se-á a qualquer coisa, sabe deus o quê, e depois está tudo acabado. Então, começa a desaceleração para ela. No fim, é tão velha quanto eu e volta então a despertar um pouco, só para se aperceber de que é um pouco tarde. Não total e completamente tarde, mas um pouco. O suficiente para tornar os últimos anos da sua vida nunca verdadeiramente bons, mas simplesmente um capricho ou, na melhor das hipóteses, um passatempo. Mas nunca é tão bom como se o tivesse feito desde o início. E, assim, é-se constantemente lembrado de que a primeira parte da vida de um adulto não teve qualquer sentido. E deseja-se que, em vez disso, se tivesse fechado os olhos de vez." (pág. 90).

Eucleia Editora, 2012

.

O Sentido do Fim - Julian Barnes

Roda Dos Livros, 25.06.13

osentidodofimUm livro de que esperava bastante e que não me desiludiu. A escrita de Julian Barnes é quase perfeita, são alinhamentos de palavras cheios de sentido e significado, frases contundentes que quero reler muitas vezes.

Um estilo muito próprio, que já me tinha convencido em “Nada a Temer”, e se mantém neste “Sentido do Fim”. Escrito na primeira pessoa, esta é uma dissertação sobre a vida e sobre o passado, quando se chega ao ponto em que se sabe que já se viveu mais do que o que se tem para viver.

Tony medita sobre o passado, tem tempo pois está reformado. Recorda situações da juventude e as suas implicações nos amores e na amizade. Sabe que não pode voltar atrás mas quer voltar, redimir-se dos erros, encontrar paz e verdade. Questiona o seu percurso, coloca em causa o seu casamento falhado e pondera se não terá deixado a vida passar calmamente por ele enquanto assistia, acomodado, aos seus dias todos iguais.

Um estranho testamento vem acordar estas dúvidas e a procura de respostas levam-no de encontro a um Tony que ele já não tinha presente. Um Tony que foi maldoso, fez sofrer, mas que também se deixou esmagar sob a força das outras pessoas.

Não tanto sobre a temática da morte como “Nada a Temer”, mas sem dúvida sobre o fim que nos espera a todos, que neste livro Barnes não chama de morte. Sobre a certeza de que tudo termina e a consciência que o tempo nos faz ganhar desse destino que podemos ter como certo.

Um livro que recomendo sem reservas pelo seu conteúdo pleno de sentido, e também pela admirável forma que está escrito.

“Nessa altura eu já tinha saído de casa e começado a trabalhar como estagiário em administração. Depois conheci Margaret; casámos e três anos depois nasceu Susie. Comprámos uma casa pequena com uma hipoteca grande; eu ia e voltava de Londres todos os dias. O meu estágio transformou-se numa carreira longa. A vida foi passando: Um Inglês qualquer disse uma vez que o casamento é uma refeição longa e sem sabor com o pudim servido como entrada. Acho que é excessivamente cáustico. Gostei do meu casamento, mas era talvez demasiado parado – demasiado pacífico – para me ser benéfico.” (Pág.60)

“E é assim a vida, não é? Alguns êxitos e algumas deceções. Para mim foi interessante, mas não lamento nem me espanto por outros acharem menos do que isso. Talvez, de certa maneira, Adrian soubesse o que fazia. Mas por nada eu deixaria fugir a minha vida, creiam.

Sobrevivi, “Ele sobreviveu para contar a história” – é o que as pessoas dizem não é? A história não são as mentiras dos vencedores, como uma vez, sem hesitar, garanti ao velho Joe Hunt; agora sei-o. São mais as memórias dos sobreviventes, dos quais a maioria não é vitoriosa nem vencida.” (Pág.62)

“Parece-me que pode ser esta uma das diferenças entre a juventude e a idade: quando somos jovens, inventamos futuros diferentes para nós; quando somos velhos inventamos passados diferentes para os outros.” (Pág.86)

“Do ponto de vista de Adrian, eu desistia da vida, desistia de a examinar, tomava-a como a vida. E assim, pela primeira vez, comecei a sentir um remorso mais geral – um sentimento algures entre autopiedade e aversão a mim próprio – em relação à minha vida toda. Toda. Tinha perdido os amigos da minha juventude. Tinha perdido o amor da minha vida. Tinha desistido das ambições que acalentara. Tinha querido que a vida não me incomodasse demasiado, e tinha conseguido – e como isso dava pena!” (Pág.104)

“Os que negam o tempo dizem: quarenta é nada, aos cinquenta estamos na flor da idade, sessenta são os novos quarenta, e por aí fora. Uma coisa eu sei: que existe o tempo objetivo, mas também o tempo subjetivo, aquele que se traz no interior do pulso, junto ao lugar da pulsação. E este tempo pessoal, que é o tempo verdadeiro, é medido na nossa relação com a memória. Por isso, quando aconteceu esta coisa estranha – quando estas novas memórias de repente me caíram em cima – foi como se, durante esse momento, o sentido do tempo se invertesse. Como se, durante esse momento, o rio corresse para a nascente.” (Pág.125)

Sinopse

“Tony Webster e a sua clique só conheceram Adrian Finn no fim do liceu. Famintos de livros e de sexo, e sem namoradas, viviam esses dias em conjunto, trocando afetações, piadas privativas, rumores, e mordacidades de todo o género. Talvez Adrian fosse mais sério do que os outros, e seria certamente mais inteligente. Mesmo assim juraram que ficariam amigos para o resto da vida. Tony está agora reformado. Teve uma carreira, um casamento e um divórcio amigável. E nunca fez nada para magoar ninguém - ou pelo menos acredita nisso. Mas a chegada da carta de uma advogada desencadeia uma série de surpresas e acontecimentos inesperados que lhe vão mostrar que a memória é afinal uma coisa altamente imperfeita O Sentido do Fim, o mais recente romance de Julian Barnes e livro recém-galardoado com o Man Booker Prize 2011 - é a história de um homem que se confronta com o seu passado mutável. Com marcas da literatura inglesa clássica - na apreciação do júri que o distinguiu - O Sentido do Fim constrói, com grande delicadeza e precisão, uma trama tensa, forte, e revela a mestria de um dos maiores escritores dos nossos tempos.”

Quetzal, 2012

Contracorpo de Patrícia Reis

Roda Dos Livros, 24.06.13

ContracorpoGosto de escrita da autora! intimista, clara e simples mas profunda. Consegue que os personagens principais, neste caso uma mãe e um filho adolescente, tenham um discurso próprio e se pareçam com alguém que conhecemos e amamos.

Gostei de ler este livro. Senti-me em casa. Desejei tê-lo escrito e algures, desejei pensar como Maria, a protagonista, quase sempre a narradora. O esforço que faz em querer (re)conhecer o filho leva-a a partir para uma viagem sem destino. A paisagem passa, como passam os dias, repentinamente e em silêncio. Tal como a capa deste livro. Perfeita!

Comunicando vão, aos poucos, mãe e filho. Devagar. Por tentativas. E gostam do silêncio e das palavras que proferem. O amanhã será diferente. Uma família que perdeu o pai mas que reencontrou, nas palavras, o amor.

Pedro, expõe-nos as suas dúvidas e as suas certezas quase nenhumas. Maria sai de si e entra no mundo do filho.

Um livro que se lê rapidamente mas que é para se refletir lentamente. Recomendo porque gostei!

Rugas - Paco Roca

Roda Dos Livros, 24.06.13
Rugas

Um livro que se lê de um fôlego. 100 páginas de banda desenhada que tratam de forma ligeira e bem-disposta temas nada suavescomo o envelhecimento, a doença de Alzheimer, as relações familiares nesses contextos e a forma como cada um vive o fim da sua vida. No entanto, como seria inevitável ao abordar questões tão complexas, o tom divertido é apenas a camada mais superficial da obra. Paralelamente ao sorriso que nos provocam as situações alegremente disparatadas causadas pelas manias e esquecimentos típicos da idade avançada, entramos num mundo de sensações contraditórias e, por vezes incómodas. Na verdade, é impressionante como o autor consegue manter o tom jocoso enquanto nos alerta para factos como a humilhação sentida pelos idosos ao serem tratados como crianças, o terror que deles se apodera ao serem confrontados, na pessoa dos companheiros de lar, com o estado em que estarão daí a pouco tempo, o choque de um diagnóstico de Alzheimer com todas as suas implicações, e o desolador quotidiano da vida num lar: as horas intermináveis entre as refeições, em que nada há a fazer senão dormir sentado enquanto se espera para ir dormir deitado, a artificialidade das visitas familiares, feitas por obrigação e frequentemente um peso para ambas as partes, a diferenciação clínica entre "válidos" e "assistidos", ou seja, aqueles que "ainda conseguem raciocinar um bocado" (pág. 15) e os que já estão completamente dementes.

Mas o Autor consegue ainda, no espaço destas 100 páginas quadriculadas, abordar com uma racionalidade tocante a questão do Alzheimer, lapidarmente definido como "o longo adeus" (pág. 22). Que reacção se espera dos familiares quando o seu ente querido deixa de os conhecer? Valerá a pena abdicarem de tudo para tratarem alguém que nem se apercebe da sua presença? Ou será que se apercebe, apesar de não conseguir exprimi-lo? Alguma atitude que tomem fará alguma diferença?

Tudo isto é encarado de modo diferente pelos pessimistas, que consideram que tanto a medicação como os cuidados extremosos são puras perdas de tempo, e pelos optimistas, que vêem com entusiasmo o facto de ainda estarem vivos, poderem ver os filhos e os netos e dedicar-se a actividades estimulantes como a ginástica, o bingo e a dança. Por fim, quase como um acto de misericórdia, para que não terminemos o livro com desencanto, o Autor presenteia-nos com um vislumbre da solidariedade que se gera entre pessoas que, embora já limitadas em vários aspectos, partilham os seus dias em estreita proximidade. Quem disse que a amizade já não se forma a partir de uma certa idade? Afinal, nem tudo está perdido.

Bertrand Editora, 2013

O Jogo Sério - Hjalmar Söderberg (Relógio d'Água)

Roda Dos Livros, 22.06.13

O Jogo Sério - Hjalmar SöderbergQuem leu O Doutor Glas de Hjalmar Söderberg (1869-1941) certamente ficou com vontade de ler outras obras do escritor sueco. O Jogo Sério publicado recentemente também pela Relógio d’Água confirma a mestria do escritor na abordagem de temas do interesse geral questionando assuntos de natureza moral e ética de uma forma verdadeiramente surpreendente.

Se O Doutor Glas foi um livro que chocou a moderna Suécia aquando da sua publicação, em 1905, levantando questões relevantes e de forma clara e objetiva, tais como o adultério, o aborto e a eutanásia ao ponto de ainda hoje, passado mais de um século, continua a ser um livro atual ao ponto de nos continuarmos a debater com essas questões sem que, no entanto, parte da sociedade, pelo menos a portuguesa, não se mostrar preparada para debater estes temas em virtude da sua notória baixa escolaridade e um cultura pouco virada para debater este tipo de temas.

Em O Jogo Sério (1915), Hjalmar Söderberg continua a marcar pontos como um homem moderno, anticlerical e defensor da emancipação feminina. Estas qualidades são visíveis através do personagem principal muito introspetivo e racional, Arvid Stjärnblom, profundamente cosmopolita, interessado pelos assuntos políticos de todo o mundo, assim como pelas atividades culturais que têm lugar em Estocolmo.

Passado ao longo de aproximadamente vinte anos, Arvid Stjärnblom vai-nos dando conta dos seus amores e desamores com Dagmar Randel, sua esposa, e Lydia Stille, a mulher da sua vida que se tornou sua amante.

Arvid Stjärnblom tem plena consciência das dificuldades e desafios de ambos os relacionamentos que mantém com ambas as mulheres, porém, faz tudo por tudo para manter Lydia Stille entregando-se-lhe de corpo e alma desejando que o suplício do casamento termine e que a sua esposa descubra o seu relacionamento com a outra mulher.

Arvid Stjärnblom entra de tal forma neste jogo que se torna sério demais ainda que no fim seja um dos perdedores percebendo que afinal uma parte da sua vida foi completamente desperdiçada e que afinal Lydia não era exatamente aquilo que parecia.

À medida que Arvid Stjärnblom nos vai dando conta das alterações da sua vida pessoal, à conta da sua vida profissional, ficamos igualmente a saber quais foram os principais acontecimentos que tiveram lugar tanto na Suécia, como no resto do mundo desde finais do século XIX até à alvorada do novo século. No caso específico da Suécia, sem dúvida que o tema quente do momento é o facto de a Noruega pretender sair da União tendo a pretensão à sua soberania, tema que teve um forte impacto na opinião pública de então, sendo aqui apresentadas as duas posições. O outro tema que muito tocou os suecos foi o falecimento de August Strindberg, em 1912, considerado um dos escritores nacionais por excelência.

Na sua revisão pelo almanaque do tempo, Arvid Stjärnblom não deixou de referir que relativamente a 1910, um dado importante a referir foi que em Portugal a monarquia foi substituída pela República, não esquecendo que o vinho do Porto continua a ser um cartão de visita do nosso país em todo o mundo e nem na literatura é esquecido, tal como nesta obra.

O Jogo Sério é uma obra complexa que rapidamente nos prende porque facilmente nos conseguimos rever num ou outro personagem na medida em que a introspeção de Arvid Stjärnblom também poderá constituir a nossa própria introspeção face à nossa vida sentimental e amorosa. No fundo, o escritor apresenta-nos os assuntos do coração como um jogo sério, por vezes perigoso, inconsequente e cuja irracionalidade arrasta-nos com mais ou menos devaneios para o campo do amor seja ele concretizado ou não.

Uma vez mais, Hjalmar Söderberg apresenta-nos uma obra sem igual que juntando ao anterior O Doutor Glas, certamente se tornará um dos nossos escritores preferidos cujas obras dificilmente esqueceremos.

Excertos:

“A Sra. Kravatt tinha então pouco mais de trinta anos, era viúva dum porteiro e a melhor cozinheira da cidade. Em ocasiões especiais, chegava a cozinhar em casa do governador. Na sua vida privada, porém, ela não dava grande importância à comida. Interessava-lhe mais fazer amor. Arvid ia visitá-la aos domingos de manhã, e muitas vezes corria para casa dela à hora do almoço. Não era o único a usufruir dos seus favores. Partilhava-os com cinco ou seis amigos. Sempre que Arvid lhe dizia o quanto este facto o perturbava, ela respondia com simplicidade, sem qualquer mostra de afectação: «O que é bom é bom, e eu sou simplesmente humana!»

(…) É certo que ela cobrava pelos seus serviços, mas se os fazia era por mera formalidade e por uma questão de decência. A tarifa para estudantes do liceu era duas coroas, e não tinha problemas em conceder crédito, se eles estivessem mal de finanças. A Sra. Kravatt limitava-se a fazer o bem pelo bem, atitude que normalmente é tida como a mais moral a que um humano pode aspirar.

Arvid pensava agora nela com uma gratidão sem reservas e corava ao lembrar-se de que lhe ficara a dever quarenta e duas coroas. Em vão tentou encontrar apoio moral na recordação de que três dos seus colegas, pelo menos, tinham ficado a dever igual montante.” (pp. 31-32)

“«Mas terei eu alguma ambição?»

Começou de novo a caminhar pelo quarto. Dois, três passos para a frente; dois, três passos para trás. O espaço dificilmente consentia mais do que isso. Parou diante do espelho que havia por cima do lavatório.

«Qual é a minha ambição?», perguntou para si próprio.

E foi como se o espelho lhe respondesse:

«Se tens alguma ambição, para além de viveres a tua vida o melhor que puderes, então…»

Fitou o espelho com horror. Não, pensou ele, não – e quase implorou ao espelho: não, não me digas…

E pareceu-lhe que o espelho respondia:

«Bom, fizeste-me uma pergunta, e eu vou responder-te. Se tens alguma ambição, é esta: tens de criar de ti próprio um nome que fique na história do teu povo. Não na história da sua literatura, ou de qualquer dos seus aspetos secundários, mas na própria história do teu povo.»” (p. 35)

“«Já que queres saber… vou ser completamente sincero contigo. Não se trata apenas de não poder. Há outra razão. Eu tenho uma absoluta necessidade de solidão. Isso não significa, claro, que precise de ficar sozinho o dia todo. Mas quero ter o direito de começar e acabar o dia sozinho, sobretudo acabar. De refletir sozinho e de dormir sozinho. Acho que não fui feito para o casamento e a vida familiar.»” (p. 78)

“«(…) Não te queres casar – e fazes bem, não tens meios para isso. Mas a questão não é o que tu queres; a questão é: o que vai acontecer! Tu não escolhes! Não escolhes o teu destino, tal como não escolhes os teus pais ou aquilo que és: a tua força física, o teu carácter, a cor dos olhos ou as convoluções do cérebro. Toda a gente sabe isso. Ninguém escolhe a sua mulher, a sua amante ou os seus filhos. Arranja-os, tem-nos e talvez os perca. Mas não os escolhe!»” (p. 80)

Hjalmar Söderberg. Bonnierförlagens arkiv.

“«(…) Nessa noite, quando a rapariga que eu amava tinha casado, apeteceu-me ter também um casamento. E foi assim.»

«Hum. Que estranha moral a vossa, hoje em dia. Bom, mas as questões morais sempre foram um pouco estranhas, se formos a ver.»

«A rapariga tinha sido um acontecimento fortuito. Ela tinha um ‘noivo’, a quem provavelmente amava tanto como eu a ela, ou talvez nem isso… Tanto os homens como as mulheres são às vezes tomados por desejos que não podem ser definidos como morais ou racionais.»

«Sim, sim», disse o velho senhor, «já tenho ouvido falar dessas coisas.»

Houve uma pequena pausa.

«Quer dizer que ela nunca te exigiu que casasses com ela?»

«Nunca. Compreendeu que tinha sido um acidente. E como eu a ajudei – embora não com o meu dinheiro, como o pai sabe – a ultrapassar o acidente, a questão ficou resolvida. Agora ela tem a sua vida e nunca tenta contactar-me. O ‘noivo’, que eu nunca vi e se pôs a andar logo que lhe cheirou a esturro, devia ser um tipo muito ordinário. Para ela, é provável que eu tivesse sido uma espécie de príncipe encantado, uma aventura – sei lá eu. Quem sabe que aspeto a vida toma nos pensamentos e nos sonhos de uma pobre empregada de balcão? Desde então, ela nunca procurou contactar-me.”

(…)

«Seja como for, gostava muito de ver o teu rapaz», disse o velho.” (pp. 83-84)

“Os primeiros cristãos tinham um grande ódio e desprezo pelas mulheres – por razões que já não recordo – e não admitiam que uma mulher se convertesse num deus. Se assim fosse, a Virgem Maria, mãe de Deus, ter-se-ia transformado naturalmente em deus. Mas era mulher, e portanto não contava. Contudo, supostamente havia uma trindade. Então, convocou-se o Espírito Santo para funcionar como substituto. A decisão foi tomada num Concílio. Agora vou-te contar as últimas do Reino dos Céus: um pecador morre e sobe ao Paraíso, bate à porta e diz a São Pedro: «Desculpe, eu não estou destinado ao Paraíso, vou para outro lado, mas seria possível deixar-me espreitar por um buraquinho, só para ver como é?» «Ora essa, com certeza», diz São Pedro, e aponta-lhe as pessoas mais importantes. «Ali sentado está Deus Pai, aquele é Jesus» e por aí fora. «Mas», diz o pecador, «quem é aquele senhor ali, com um ar tão triste e melancólico?» «É o Espírito Santo», responde São Pedro. «Mas porque é que ele está tão triste?» Nisto, São Pedro sussurra ao ouvido do pecador: «Oh, está a cismar naquele concílio em Niceia, onde foi nomeado como terceira pessoa da Trindade, por uma escassa maioria de votos e obtida possivelmente com alguma batota… Isto que fique só entre nós, mas ele é a única pessoa que alguma vez se tornou divina por meio de eleições. E daí a sua infelicidade.»” (p. 149)

“Que estranha vida dupla é esta que tenho levado? Bem vistas as coisas, isto não pode continuar por tempo indefinido. Amo uma mulher e estou casado com outra, sem que esta tenha a menor suspeita. Isto não é a vida de um homem normal. É uma vida que só teria perdão, quando muito, se eu fosse escritor. A um escritor perdoa-se quase tudo. Ninguém sabe porquê, mas é um facto. Os escritores são considerados pessoas menos responsáveis.” (p. 158)

“O que menos me agrada no Strindberg é o facto de ele ter habituado os leitores de romances a perguntarem sempre quem é que as personagens representam, quem é este ou aquele e o que haverá de verdade em tudo aquilo. Habituou o leitor a pensar que os escritores atuais não conseguem inventar mentiras suficientes para encherem um livro. Desde então, os romancistas e os dramaturgos vivem num inferno. Já estou farto disso. Estou quase tentado a escrever um livrinho sobre aquilo que penso do mundo, mas sem usar personagens ficcionais como intermediários – livre de toda essa ornamentação estúpida. Raios partam os romances e as peças de teatro! Seja como for, só há um modo de vida digno de seres humanos: não fazer nada!” (p. 165)

Uma Manhã Perdida - Gabriela Adamesteanu

Roda Dos Livros, 22.06.13
uma manhã perdida

Vica Delca teve uma longa vida. Tão longa que as suas recordações abrangem grande parte da História romena do último século. Mas não, ela não percebe nada de política, nem nunca quis perceber, porque, se não cuidar de si, ninguém cuidará, e não quer cá sarilhos para os seus lados. A memória de Vica guarda apenas acontecimentos da sua própria vida e das vidas com que se cruzou no decurso da sua existência. Alguns presenciados por si, outros que lhe foram contados, com maior ou menor veracidade, outros ainda que resultam das suas incansáveis conjecturas.

A história de uma família aristocrata para a qual trabalhou como costureira marcou-a especialmente. Ainda hoje se desloca à mansão, agora delapidada, onde em tempos essa família vivia faustosamente, para recolher o donativo que a filha da sua antiga patroa se comprometeu a entregar-lhe todos os meses. Numa fria manhã de Inverno, Vica, esfomeada e sem dinheiro, começa por visitar a cunhada em busca de algo com que forrar o estômago, mas, não a apanhando em casa, dirige-se mais uma vez à dita mansão na esperança de receber o donativo uma semana mais cedo. Será uma manhã perdida em deslocações e esperas povoadas de reminiscências do passado, seguida de uma tarde passada numa tagarelice aparentemente inútil. Mas, através da sua voz rabugenta, são-nos fornecidas várias peças do puzzle que, construído gradualmente à medida que a história avança, nos vai revelando as histórias pessoais dos vários membros daquela família, assim como, em pano de fundo, a História da Roménia no Séc. XX, desde a Primeira Guerra Mundial ao regime comunista.

É também nessa manhã perdida que Vica vê, pela primeira vez, uma fotografia antiga da dita família. O paralelismo com a fotografia na capa do livro é evidente e, segundo a Autora, foi mesmo intencional. Na segunda parte do livro, ficamos a saber que aí se encontra retratada a hora do chá, um ritual diário, e, mais precisamente, a hora do chá do dia da morte do rei Carol. Em seguida, uma outra tarde passada à volta do mesmo salão é-nos descrita sucessivamente pelas vozes dos diversos personagens constantes da fotografia, e cada testemunho adiciona mais uma peça ao puzzle em construção, tanto no que se refere aos dramas pessoais de cada um deles como em relação ao drama colectivo que os une: o destino da Roménia.

Restam ainda algumas lacunas por preencher, que serão supridas pelo diário do patriarca da família e pela conversa havida entre Vica e a sua benfeitora, tantos anos depois. O mosaico completa-se e surge, perante os nossos olhos, um retrato pungente de um país castigado por duas Guerras Mundiais (não esquecendo a anterior Guerra dos Balcãs, também referida) logo seguidas de um regime ditatorial, e dos custos sociais e humanos que essas duras circunstâncias tiveram para toda a população. E surge ainda um outro retrato, de sátira de costumes, onde a mentalidade das diferentes classes sociais surge espelhada de forma vívida, com os seus estratagemas, interesses, preconceitos e lealdades (ou deslealdades). Particularmente rica é a caracterização das relações entre classes, representada na perfeição pela interacção entre Vica e a filha da sua antiga patroa. As reflexões de uma acerca da outra, a forma como se dirigem uma à outra e, finalmente, o contraste entre a forma como interagem no início e no fim do dia inteiro que passam juntas são uma obra-prima de análise sociológica. A excelência da tradução permite-nos apreciar esta vertente na sua plenitude, já que o tradutor conseguiu reproduzir com mestria os diversos tipos de discurso usados nas diferentes classes sociais,  estabelecendo uma indiscutível distância entre a linguagem erudita usada pelas classes altas e as expressões idiomáticas e sub-padrão características das classes mais desfavorecidas.

Existem muitos motivos pelos quais este livro pode impressionar e mesmo chocar. Os horrores da guerra, os preconceitos entre classes, as considerações inacreditavelmente sexistas tecidas acerca do papel da mulher na sociedade, as descrições quase gráficas de doenças terminais. Mas o que mais me marcou foi a sensação de despojamento com que se fica ao terminar o livro: de todas aquelas vidas vibrantes, repletas de medos, amores, ódios, ciúmes, desejos, nada sobrou passados alguns anos. Uns emigraram, outros morreram, outros arrastam-se em restos de uma existência que já nada tem a ver com o que foram um dia. E o mesmo sucede àqueles que os poderiam recordar. Tal como as casas, mesmo as mais luxuosas, um dia serão ruínas, também as pessoas estão condenadas ao desaparecimento, seja de forma súbita e violenta, seja definhando lentamente até se transformarem em pó. É certamente uma mensagem dura, mas a vida não é menos dura. E a grande beleza deste livro está, a meu ver, na sua desconcertante semelhança com a vida.

Excertos:

"- Porque é assim a maneira não solidária, muitas vezes sem cortesias, como se tratam entre si as nossas pessoas de bem! Todos os dias ficamos a conhecer mais um escândalo revelado! Mais uma maquinação de pessoas que estavam até aí fora de qualquer suspeita! Mais um negócio oneroso em que estão implicadas pessoas cuja honestidade podíamos garantir! Desvelam-se permanentemente segredos de venalidade, dinheiro público usurpado, corrupção, mais venalidade e traição! Horas inteiras de paleio e fofocas das quais ninguém sai intacto, se não por insultos e calúnias, pelo menos por uma subtil insinuação. Porque dos inimigos passamos para os amigos que não estiveram presentes, o mal não se encontrando, obviamente, apenas no campo dos outros. Ou só no campo deles. Em cada um dos nossos verificamos contradições entre o que dizem e o que fazem, cobardias baixas, pequenas vilanias, alianças vergonhosas, ambições ignóbeis! Sobre cada um de nós teríamos tanto para dizer, e até dizemos, porque os conhecemos mais de perto..." (págs. 287 e 288).

"Ao longo do cais, a Madame Nicolaid e a Margot passaram por baixo das janelas do comboio, oferecendo cigarros e pacotes com alimentos aos soldados: atrás delas vinha a criada com os cestos, e nós acompanhávamo-las, a uma certa distância. Como os pacotes da senhora Nicolaid acabaram mais cedo, começou a oferecer dinheiro, mas, porque não tinha trocos, agitou os espíritos, ao tirar uma nota de vinte lei e querendo que aquele que a recebera a dividisse com mais alguns. Claro que se esticaram várias mãos, eu! eu! eu!, e ela, intimidada com os pedidos cada vez mais imperiosos, deu-a, ao calhas, àquele que foi mais rápido. Os comentários ordinários dos desapontados, que me chegaram aos ouvidos, vindo eu mesmo atrás da senhora, entristeceram-me. Revoltaram-me, mesmo, daquela maneira que habitualmente me revolta a vida, cada vez que, descendo bruscamente das nuvens, choco com ela. E nesse preciso momento a Margot provocou outro pequeno incidente lamentável: ao ter a impressão, segundo explicou mais tarde, de que ouvira o sinal de partida, atirou os maços de cigarros que lhe tinham sobrado. Os coitados dos homens saltaram donde estavam, foram a correr agarrá-los, empurrando-se, insultando-se, esmagando mãos e dedos com as botas. Uma zaragata que lamentámos, porque estragava tudo que tinha sido tão bonito até então, pondo a nu, novamente, a pobreza e o primitivismo que nos regem. O meu estado psíquico instável e predisposto à melancolia fez-me ver, de repente, o espetáculo heroico de minutos antes descomposto em cenas quotidianas, um a tirar macacos do nariz, alguns a jogarem dados, outro a aliviar-se quase à vista de todos, um grupo atirando palavras obscenas às nossas generosas senhoras, outro metendo-se com algumas criadas húngaras... Depois, a bem conhecida confusão que tenho quando comparo o espetáculo da vida com a sua imagem ideal." (págs. 322 e 323).

"Vá bardamerda com as tuas parvoíces! Não te vês ao espelho, sua amarela, só pele e osso, com todos os teus cosméticos e borgas! Vá bardamerda, larga essa porcaria de relógio e vai lá acima buscar o carcanhol! Traz cá o meu carcanhol que ainda desmaio de larica, já nem te vejo de tanta fome... Eu aguento, enquanto aguentar, mas quando perder as estribeiras, digo-lhe na cara! Se não lhe disser, quem é que fica de mãos a abanar? Sou eu, não sou? Pois, então?

- Não, Madame Delca, nada disso! A senhora está cheia de preconceitos! Onde é que está escrito que o senhor Delca tem de ter cento e vinte quilogramas com a idade dele! Desculpe lá que lhe diga, mas isso é algo que descuidou por completo! Quantas vezes não lhe dissemos, eu e a Muti: nada de fritos! Só aves e vitela - cozidas. Porco - só grelhado! Nunca frito na frigideira! Por favor, não fique chateada comigo, digo-lhe a si, como se fosse minha irmã: dieta e ginástica! Nada de macarrão! Nada de pão! Nada de caldos! Um bife grelhado, uma peça de fruta, ginástica, porque só o sedentarismo...

- Ó Madame Ivona, a sério! O que a madame diz é demais! Atão, se lhe juro que há mais de três meses que não meto carne na boca! O jejum que a gente fazemos, eu e o meu homem, até nos deviam pôr nos calendários com os santos! Se fizesse como diz a madame, em dois dias papava a reforma todinha! Sem caldos, sem macarrão, sem batatinha cozida, sem um feijãozinho - mas isso é a base da minha comida, nem consigo viver sem isso! Não consigo mesmo! Duas alminhas, seiscentos e cinquenta lei, e a renda, e a luz, e a televisão?

- Pois, se me puser no seu lugar, é mais complicado. Não vou negar que é, por isso é que lhe disse tantas vezes: eu admiro-a, Madame Delca, porque consegue governar-se com o pouco que recebe... Mesmo assim, se evitasse os fritos, se...

- Tretas! Eu sempre comi assim, e olhe que não morri! E dei de comer ao meu homem, e olhe que a gente nunca ficámos doentes! Que aquele que é magro, e nervoso, e esquisito, atrai todas as doenças e todos os males do mundo! Dietas é com os ricos! Eu já tinha dito isso à Madame Ioaniu e ela respondeu: tens razão, Vica! Quando se tem quatro ou cinco mil de reforma, juntos, podes empanturrar-te com tudo e mais alguma coisa, mas com apenas seiscentos lei, é comer pão com batata, ou passar fome. Com quatro mil de reforma, pode-se comprar carne, e refrescos, e morangos, e pastéis, tudo o que te der na real gana...

- Pois é, Madame Delca, pois é... Em comparação com a reforma baixinha do seu marido, pode parecer que nós... Mas, na realidade, não! Na realidade, a diferença não é assim tanta...

Esta gentalha é assim: dá-se-lhes uma mão e eles querem logo o braço todo! Eu trato-a de igual para igual, sou o mais simpática possível com ela, e ela atreve-se a julgar-nos! Julga-nos, conta-nos o dinheiro, porque as pessoas do povo são assim: o interesse prático primeiro! Eles não se perdem, como nós, em ideais, estão sempre com os pés bem assentes na terra, e por muito que lhes demos, nunca estão contentes; acham normal que se lhes dê, é quase um dever, e acham anormal que guardemos algum para nós também! Fala das nossas reformas e da reforma do marido dela como se nós tivéssemos alguma culpa por termos ido à universidade e por termos mais anos de trabalho! Quando só tu é que sabes os sapos que tiveste de engolir para ganhar essa reforma miserável! Tu não pudeste dar-te ao luxo de ficar em casa, embora tivesses muita coisa para te entreter, mas ela diz, alto e bom som: eu nunca gostei de trabalhar para o patrão! Então, se não gostou, fique aí quietinha, reduzida à sua insignificância! (págs. 419, 420 e 421).

Desgraça - J. M. Coetzee (Prémio Nobel de Literatura 2003)

Roda Dos Livros, 21.06.13

Desgraça - J. M. CoetzeePublicado em 1999, Desgraça do sul africano J. M. Coetzee (Prémio Nobel de Literatura em 2003) apresenta-nos uma história desconcertante e não menos perturbadora, reflexo das mudanças políticas decorrentes na África do Sul tendo um forte impacto nas estruturas económicas, sociais e culturais transformando a África do Sul num país com uma complexidade ainda maior atendendo à sua história recente e ainda como tentativa de superar clivagens entre os vários grupos sociais existentes.

Tendo David Lurie como figura central desta história, a sua vida muda radicalmente em escassas semanas sendo obrigado a olhar para os outros perante a evidência de determinados acontecimentos que o marcaram profundamente. Com 52 anos, David Lurie é uma pessoa extremamente egocêntrica e tendo tido dois casamentos desfeitos, para ele a busca incessante do prazer pelo prazer como forma atenuante do processo de envelhecimento fê-lo envolver-se em situações pouco simpáticas ficando exposto à opinião pública, assim como ao afastamento do seu cargo de professor universitário após ter sido denunciado por se ter envolvido com uma aluna trinta anos mais nova.

Da Cidade do Cabo, David Lurie decide passar uma temporada numa zona rural onde vive a sua filha Lucy. Aí têm lugar outros acontecimentos que conduzem a uma mudança radical da sua vida, assim como da vida de Lucy e, num sentido mais abrangente, correspondem aos ajustamentos dentro e à margem da lei que procuram estabelecer uma ordem social totalmente desconexa com fissuras que deixam dano, mas que é a forma, longe de ser a ideal, de procurar a unidade no caos.

Onde está o sentido de justiça? Quem nos socorre quando mais precisamos? Quem julga os culpados? Quem são os culpados? Que é feito da estrutura do Estado para prestar apoio em situações de crime do mais vil e atroz que pode existir? Não há culpados. Todos somos culpados.

Nos momentos mais dilacerantes e de maior tensão da trama, quando julgamos que a única saída é a prática da justiça com as próprias mãos, eis que a razão fala mais alto, surgindo no meio de tanta irracionalidade tentando apanhar as pontas soltas e desfeitas na busca da unidade por um bem maior que é o bem comum e a convivência apaziguada para um viver que se pretende mais sereno.

Desgraça apresenta-nos um David Lurie cuja vida se assemelha em certa medida à de Job do Velho Testamento que tudo aguentou, resignando-se o primeiro à vontade do destino cruel e o segundo à vontade de Deus, reconhecendo ambos que as sucessivas desgraças e períodos difíceis por que passaram quase até à morte seriam não só uma forma de castigo, mas simultaneamente a forma de começar do zero procurando novas perspetivas sobre a vida que se pretende que seja encarada com otimismo. Há que recomeçar por algum lado!

Excertos:

“- Sabe, David – diz Petrus enrugando a testa. – É grave aquilo que afirma, que aquele rapaz é um ladrão. Ele está muito zangado por lhe chamar ladrão. É isso que ele anda a dizer a toda a gente. E eu, eu é que tenho de manter a paz. Por isso também é grave para mim.

- Não pretendo implicá-lo neste caso, Petrus. Diga-me o nome do rapaz e onde mora, que eu passo a informação à polícia. Depois podemos deixar que a polícia investigue e o leve, assim como aos amigos, perante a justiça. Não será implicado, eu também não, será um assunto para a lei.

Petrus espreguiça-se, banhando o rosto no brilho do sol. – Mas o seguro vai dar-lhe um carro novo.

É uma pergunta? Uma afirmação? Qual é a jogada de Petrus? – O seguro não vai dar-me um carro novo – explica, tentando não perder a paciência. – Partindo do princípio de que já não está na bancarrota devido a todos os roubos de automóveis neste país, o seguro dar-me-á uma percentagem daquilo que pensa que o meu velho carro valia. Não será o suficiente para comprar um veículo novo. De qualquer forma, é uma questão de princípio. Não são as companhias de seguros que fazem justiça. Não é esse o seu negócio.

- Mas este rapaz não lhe pode devolver o carro. Ele não sabe onde está o seu carro. O seu carro desapareceu. O melhor é comprar outro carro com o dinheiro do seguro e assim já tem carro outra vez.

Como caiu neste beco sem saída? Tenta atacar por outra frente. – Petrus, permita-me que lhe pergunte, esse rapaz é da sua família?

- E por que razão – prossegue Petrus, ignorando a pergunta – pretende levar este rapaz à polícia? Ele é jovem de mais, não pode ser preso.

- Se tem dezoito anos pode ser julgado. Se tem dezasseis anos pode ser julgado.

- Não, não tem dezoito anos.

- Como sabe? A mim, parece-me ter dezoito anos, parece-me ter mais de dezoito anos.

- Eu sei, eu sei! Ele é apenas um garoto, não pode ir preso, é essa a lei, não se pode mandar um garoto para a prisão, tem de o deixar em paz!”  (p. 124)

J. M. Coetzee

“Quanto a Deus, eu não sou crente, por isso terei de traduzir aquilo a que chama Deus e aquilo que Deus deseja para a minha linguagem. Na minha linguagem estou a ser castigado por aquilo que aconteceu entre mim e a sua filha. Estou mergulhado num estado de desgraça do qual não será fácil sair. Não foi o castigo que eu recusei. Não me oponho a ele. Pelo contrário, vivo-o todos os dias, tentando aceitar a desgraça como o meu estado natural. Acha que será o suficiente para Deus que eu viva em desgraça para sempre?” (p. 154)

“- Vai ter com o Petrus – diz. – E propõe-lhe o seguinte. Diz-lhe que aceito que me proteja. Diz-lhe que ele pode inventar a história que quiser acerca da nossa relação que eu não o desdigo. Se quiser que pensem que sou a sua terceira mulher, tudo bem. Se quiser que pensem que sou a sua concubina, tudo bem. Mas depois a criança passa a ser dele também. A criança passa a ser parte da família dele. Quanto à terra, diz-lhe que passo a terra para o nome dele desde que a casa continue a ser minha. Serei uma inquilina na terra dele.”

(…)

- Que humilhação – diz, por fim. – Tantas esperanças e acabar assim.

- Sim, concordo, é humilhante. Mas talvez seja um bom novo ponto de partida. Talvez seja isso que eu tenho de aprender a aceitar. Começar do zero. Sem nada. Não com alguma coisa. Sem nada. Sem cartas, sem armas, sem propriedade, sem direitos, sem dignidade.

- Como um cão.

- Sim, como um cão.” (p. 182)

“Uma pessoa habitua-se a que as coisas fiquem mais difíceis; uma pessoa deixa de se surpreender que as coisas extremamente difíceis fiquem ainda mais difíceis.” (p. 196)

 

Pág. 1/4