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Roda Dos Livros

"Um piano para cavalos altos" de Sandro William Junqueira

Roda Dos Livros, 30.05.13

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Aviso: o texto seguinte reflecte uma opinião estritamente pessoal e totalmente enviesada pelos valores, crenças e condicionamentos educacionais da sua autora.

“Um piano para cavalos altos” foi, sem sombra de dúvida, um dos livros mais desconcertantes e surpreendentes que já li. Trazia consigo uma veemente recomendação pelo que já suspeitava que seria uma leitura muito interessante. No entanto, quando iniciei o livro não estava, de modo algum, preparada para a montanha-russa de impressões e emoções que esta história desencadeou. Mas vamos por partes: em primeiro lugar gostei da sua estrutura de pequenos textos reunidos em capítulos, característica importante para quem é obrigada a ler pouco a pouco, durante períodos curtos, por falta de tempo para dedicar a leituras prolongadas.

Em segundo lugar, as frases quase sempre curtas mas incisivas, bem  escritas, muitas vezes amargamente irónicas e isentas de metáforas-lugares-comuns lembram as pinceladas rápidas de um impressionista com pressa de acabar a sua obra. Pensei que isto fazia sentido quando decidi  ler uma parte do livro a ouvir as “Gymnopédies” de Satie.  Estas, tal como “Um piano para cavalos altos”, evocam imagens de sublime melancolia perturbadas por dissonâncias que nos inquietam e desassossegam, lembrando, aqui e ali, que  existir é mais luta do que passeio tranquilo, e que sobre nós recai a responsabilidade deste facto. Em grego “gymnos” significa nú e, ao descobrir isto, os títulos dos capítulos pareceram-me totalmente apropriados, pois aqui o lado negro da natureza humana é apresentado nú, despido de eufemismos e de modo frequentemente brutal.  E surge a pergunta: será que é a violência dos regimes opressivos e autoritários que brutaliza as pessoas ou será que é a brutalidade dos seres humanos que gera as ditaduras?

Em terceiro lugar, a construção de toda a história revela uma imaginação poderosa e invulgar, responsável pela criação de um mundo inóspito e violento onde não há inocentes, à excepção de uma criança, de um menino.

Em quarto lugar, o recurso a palavras mais vernaculares, embora não ostensivamente excessivo, desagradou-me como sempre acontece, pois cresci num meio onde tais termos, não  só não eram admissíveis, como o seu uso era mesmo penalizado. Nesse tempo e nesse local de infância e juventude até os rapazes se coibiam de usar tais palavras junto das raparigas, de modo que nunca consegui habituar-me ao seu uso, salvo em circunstâncias pontuais de grande irritação.

Em quinto lugar, felizmente este livro NÃO foi escrito ao abrigo da nova aberração ortográfica, perdão, acordo ortográfico. Muito obrigada, Sandro William Junqueira!

Em jeito de conclusão, este é um livro muito bem escrito e concebido, que conta a história de um mundo brutal mas soberbamente imaginado e passível de inquietar seriamente a consciência de quem se atrever a lê-lo. Atrevam-se, se faz favor!

“Lá fora os candeeiros prolongam o exercício nocturno: permanecem acesos. São 14:20. E a luz pobre da tarde está envolta numa atmosfera de cerco: a presença do Muro. Durante estes meses de Inverno os dias não são dias decididos mas sim, marionetas comandadas pelos fios das noites altas. Os dias são quase pretos. Parece que numa rasteira propositada o sol caiu de costas. As nuvens e o vento empurraram-no para trás do mundo e a neve tapou-lhe a boca.”

“É verdade...Eu sei...Educar o povo é processo difícil, demorado. As pessoas são estranhas e destoam. E pretender fazer caminhar toda esta gente numa única direcção mostra ingenuidade ou utopia. Aprendemos  isto com o Grande Desastre. Vocês sabem (pausa) este Governo começou do nada. Mas de um nada organizado e diferente; que parte das vísceras do homem; que compreende e aceita as naturais diferenças: biológicas, orgânicas e celulares. Como tal, as nossas políticas corajosas, excluem, diferenciam. É verdade. Mas não concordam que é estúpido e hipócrita pretender a igualdade? (...) Vocês sabem isto. Vocês sabem. (...) Das nossas ruas: pobres e mendigos, famintos e doentes, aleijados e loucos, o lixo e os cães vadios, vocês sabem, toda essa escumalha, foi varrida pela vassoura competente deste Governo e depositados lá bem longe! Bem para lá do Muro! Onde os seus gritos e fluidos não cheguem perto para contaminar a nossa equidade social e higiene política!”

O Físico - Noah Gordon

Roda Dos Livros, 30.05.13

o-fisico-1“O Físico” é um livro bastante conhecido, já foi lido por grande parte das pessoas que conheço, e por várias vezes tive oportunidade de o adquirir. Contudo, sem que saiba explicar porquê, fui protelando esta leitura.

A primeira impressão acerca da edição que me chegou às mãos foi péssima, letras demasiado juntas dificultam a leitura e provocam cansaço a quem vê mal. Mais de quinhentas páginas nestas condições fez-me sinceramente ponderar recuar nesta ideia.

Decidi-me tentar. Sem grande compromisso nem expetativa.

Terminada a leitura só posso afirmar que se trata de um livro fabuloso; mesmo com dificuldade e amaldiçoando tais letrinhas, não pude parar. Um livro que nunca mais vou esquecer, pela odisseia que para mim foi lê-lo e também pela resistência e determinação que, a cada página, ma fazia superar tais dificuldades.

Esta é uma introdução (demasiado) egocêntrica, afinal devo escrever sobre o livro e não sobre mim. Mas a verdade é que o facto de o ter lido até ao fim, dadas as circunstâncias, e sempre com crescente interesse, coloca este livro num patamar elevado, é possivelmente um dos livros da minha vida.

Não me vou perder a contar a história de Rob Cole, a sua infância triste e dolorosa e a perda de toda a sua família próxima. Noah Gordon conta tudo de forma brilhante. Quero apenas que conste, para mim e para quem me quiser ler, que este livro é um ensinamento, uma aprendizagem constante de como pode ser a vida se dela quisermos sugar todas as oportunidades que nos oferece.

Rob tem um dom. Tem uma vocação. Mais do que a vontade de ser Físico, o que hoje equivaleria a ser médico, tem uma necessidade de aprender, uma sede de conhecimento constante que o consome e obriga a seguir em frente. Desde ajudante de um Barbeiro-Cirurgião ainda criança, até à concretização dos seus objetivos já adulto, Rob passa por muitas provações, supera dificuldades, abdica do amor e até da sua própria identidade para aprender.

Aprender. Algo tão simples que funciona como um motor de uma vida. Que me fez pensar que, atualmente há tanta gente que não quer aprender nada e se questiona por se sentir sem objetivos e orientação.

Rob não perde tempo com frustrações profissionais. Avança. A sua vontade inesgotável absorve as dificuldades. O medo não é suficientemente forte para o impedir de “pecar” de ir contra os temores religiosos da época, querer descobrir todos os mistérios do corpo humano no século XI é um desafio muito arriscado.

Rob viaja por meio mundo para aprender com quem já sabe. O conhecimento existente não o satisfaz e então pesquisa em segredo, indo contra os homens de fé e correndo riscos de ser acusado de bruxaria e sofrer de uma morte horrível.

Não há medo que o faça parar, a sua determinação é verdadeiramente inspiradora.

Altamente recomendado.

Sinopse

No século XI, Rob Cole abandona com apenas onze anos a pobre e doente cidade de Londres para vaguear pela Inglaterra. Durante as suas deambulações, fazendo malabarismos e vendendo curas para os doentes, vai descobrindo a dimensão mística da sanação. E é através dessa peregrinação que descobre o seu verdadeiro dom, que o levará a converter-se em médico num mundo violento, cheio de superstições e preconceitos.

Tão forte é o seu sonho que decide empreender uma insólita e perigosa viagem à Pérsia, onde estudara na prestigiada escola de Avicena. Aí dar-se-á uma transformação que modificará para sempre a sua história e o seu destino…

Biblioteca Sábado, 2010

Debaixo de algum céu

Roda Dos Livros, 24.05.13

debaixodealgumceuHoje visitei a Feira do Livro de Lisboa e reparei no destaque que este livro tem em muitas das bancas como vencedor do Prémio Leya 2012. Na passada semana, fui a uma apresentação do referido livro na Livraria Buchholtz porque tinha alguma curiosidade em conhecer o autor e perceber como se exprimia oralmente. Gostei muito do que assisti.

Romance maravilhoso que li e reli pelo cuidado com as palavras que expressam sentimentos profundos. 

Não é um livro fácil de ler pelo muito que em si contêm, mas recuso-me a considerá-lo como alegoria do mundo contemporâneo. Desencanto, desalento e solidão apesar de fazerem parte de muitas vidas não são um padrão.

A sinopse define bem do que se trata, mas citando o autor no prologo:

"Uma história são pessoas num lugar por algum tempo. As margens da página, como o silêncio, estabelecem limites certos para que um conto não se confunda com o que não lhe pertence.  Pode contar-se uma história enchendo uma caixa vazia ou desenhando paredes à volta de gente. Esta é uma história de portas adentro. "

Belo? Pois é. Todo o livro o é. Mas, "as palavras são difíceis (...). O sofrimento é único para cada homem e para cada mulher, são infinitas as dores e poucas as palavras que lhes dão nome: desgosto, arrependimento, comiseração, tristeza, pesar, mágoa, lástima, aflição, angústia, nojo, desolação, comoção, choque, amargor. Faltam termos e sobram as horas más." (pag.73)

E assim é até ao final, com tanto para sentir, através das várias personagens que habitam naquele prédio e gerem difíceis existências.

Talento no uso das palavras. Um compreensível vencedor do prémio Leya, mesmo para alguém como eu tão reticente em ler autores portugueses. Para ler baixinho, em voz alta, ou para dentro, como melhor conseguir interiorizar esta brilhante narrativa.

Sinopse:

Num prédio encostado à praia, homens, mulheres e crianças – vizinhos que se cruzam mas se desconhecem – andam à procura do que lhes falta: um pouco de paz, de música, de calor, de um deus que lhes sirva. Todas as janelas estão viradas para dentro e até o vento parece soprar em quem lá vive.

Há uma viúva sozinha com um gato, um homem que se esconde a inventar futuros, o bebé que testa os pais desavindos, o reformado que constrói loucuras na cave, uma família quase quase normal, um padre com uma doença de fé, o apartamento vazio cheio dos que o deixaram. O elevador sobe cansado, a menina chora e os canos estrebucham. É esse o som dos dias, porque não há maneira de o medo se fazer ouvir.A semana em que decorre esta história é bruscamente interrompida por uma tempestade que deixa o prédio sem luz e suspende as vidas das personagens – como uma bolha no tempo que permite pensar, rever o passado, perdoar, reagir, ser também mais vizinho. Entre o fim de um ano e o começo de outro, tudo pode realmente acontecer - e, pelo meio, nasce Cristo e salva-se um homem.Embora numa cidade de província, e à beira-mar, este prédio fica mesmo ao virar da esquina, talvez o habitemos e não o saibamos.Com imagens de extraordinário fulgor a que o autor nos habituou com o seu anterior romance, Debaixo de Algum Céu - obra vencedora do Prémio LeYa em 2012 - retrata de forma límpida e comovente o purgatório que é a vida dos homens e a busca que cada um empreende pela redenção.

Jardins de Canela de Shyam Selvadurai

Roda Dos Livros, 24.05.13

CapturarEdição/reimpressão: 2003Páginas: 304Editor: BizâncioISBN: 9789725301913Coleção: Ilhas Encantadas

Li comentários positivos sobre este livro e ele aguardava (im)pacientemente que lhe pegasse. Nota máxima!

Confesso que quando peguei nele pensei que me ia dispersar na leitura pois os nomes dos personagens são extensos e, por essa razão, nada fáceis de identificar. Mas estava enganada.

Annalukshmi, uma das personagens principais, é facilmente reconhecida se tivermos em consideração o pequeno nome que tem integrado. Anna! E com alguns, outros, personagens passa-se o mesmo. Para além do que, muito rapidamente, ficamos a conhecer interiormente as suas vidas e as suas personalidades, o que facilita muito a leitura. Todos os personagens estão muito bem descritos e inseridos na época.

Viajamos pelo que é hoje o Sri Lanka, antigo Ceilão, por volta de 1927 e a acção passa-se maioritariamente em Colombo, antiga capital. Com uma certa regularidade, tomamos conhecimento, paralelamente, de duas vidas: a de Annalukshmi e de seu tio, Balendran (Bala). Qualquer dessas vidas desperta imediatamente interesse e mergulhamos no seu quotidiano com verdadeiro interesse tanto mais que os assuntos abordados eram polémicos na sociedade de então.

Anna é uma jovem inteligente que conseguiu singrar e destacar-se no mundo do ensino. Mas na época teria de fazer uma escolha: se continuasse a leccionar não poderia ligar-se a ninguém pois as professoras estavam impedidas de o fazer.

Bala, seu tio, sujeita-se desde cedo aos caprichos de seu pai, obedecendo-lhe na integra e aniquilando, quando jovem universitário, a sua homosexualidade. Casado com Sonia e tendo um filho que os une no seu amor, sente-se dividido.

Com estes dois personagens principais surgem outros, verdadeiramente interessantes e imbuídos das dúvidas que a situação política da época fazia prever: o Ceilão estava sob dependência britânica. Questões como a auto-determinação, o sufrágio universal, as castas superiores e inferiores, diferenças entre religiões tudo passa para nós, naturalmente, através das personagens e das suas lutas.

O fim de algumas personagens é deixado, propositadamente creio, em aberto e isso agradou-me bastante. Sentir que elas cresceram na narrativa e se foram afirmando aos poucos, saber que elas passam a controlar as suas decisões e escolherão seu destino, sossegou-me o bastante para as deixar navegar, sozinhas, pelos seus rumos...

Recomendo vivamente esta leitura!

Estrelas: 6*

Sinopse

No elegante, mas sufocante mundo da classe alta de Ceilão, duas pessoas solitárias, Annalukshmi e o seu tio Balendran, têm de escolher entre a felicidade pessoal e a provável destruição de outras vidas. Uma sonha com a independência, ao mesmo tempo que a sua família tenta, obcecadamente, arranjar-lhe o casamento adequado, enquanto o outro, um respeitável marido e pai, vê-se confrontado com o passado quando o seu antigo amante, Richard, aparece depois de muitos anos de separação.Sensual e cativante, Jardins de Canela, é um arrebatador romance que fala de emoções proibidas e da força interior daqueles que tentam não só resistir às pressões da sociedade, mas também lutar para alcançar a sua própria felicidade.

Desconhecido Nesta Morada - Kathrine Kressmann Taylor (Gótica)

Roda Dos Livros, 21.05.13

Desconhecido Nesta Morada - Kathrine Kressmann TaylorDesconhecido Nesta Morada, publicado em 1938, é o livro de maior sucesso de Kathrine Kressmann Taylor (1903-1996) apresentando-nos uma visão quase profética, no mínimo tenebrosa daquilo que iria acontecer nos anos seguintes, no decorrer da 2ª Guerra Mundial, à medida que a Alemanha Nazi ia ocupando uma parte significativa da Europa ao passo que milhões de judeus iam sendo enviados para campos de concentração para posterior tortura e consequente execução, não esquecendo os horrores por que passaram.

Partindo de histórias reais que Kathrine Kressmann Taylor conheceu bem de perto através de alemães que tinham vivido nos EUA e que regressaram à Alemanha nesse período, foram completamente “engolidos” pela ideologia nazi ao ponto de se recusarem a cumprimentar sequer antigos amigos judeus quando estes os aguardavam em visita aos EUA.

O conjunto de incidentes estranhos e inadequados, reflexo da lavagem ao cérebro pela qual aqueles alemães passaram tal como se tratasse de uma religião, levou Kathrine Kressmann Taylor a dedicar-se ao estudo da ideologia nazi tendo em conta que nos EUA mal se sabia daquilo que estava a acontecer na Alemanha no final dos anos 30.

É neste contexto que surge Desconhecido Nesta Morada, um pequeno livro que se lê numa hora e que antecipa os horrores do holocausto perpetrados pelos nazis. Assim, a autora cria dois personagens, um judeu, Max, e outro alemão, Martin, que têm um negócio conjunto bastante próspero em São Francisco, relacionado com a venda de obras de arte e que se mantém mesmo quando Martin opta por regressar à Alemanha.

A história é-nos contada de forma epistolar dando-nos conta sobre o volume de negócios da empresa, assim como as diferentes visões dos dois amigos que rapidamente deixarão de o ser perante o evoluir da situação política na Alemanha tendo em conta a posição fortemente vincada face aos judeus gradualmente reflectida também na posição de Martin.

Se por um lado, numa fase inicial, Martin mostra-se duvidoso ante o aparecimento de um homem que passa a ser reconhecido como o salvador da Alemanha e o único capaz de voltar a erguer a cabeça do povo alemão diante do mundo tornando novamente a Alemanha numa grande nação, por outro lado mostra-se esperançoso e confiante diante dessa perspetiva.

Em meses, a relação entre estes outrora amigos, azeda por completo, agravando-se no tom e na atitude de Martin perante Max.

A simplicidade e a forma inteligente com que este pequeno grande livro está escrito deixa-nos verdadeiramente agarrados à história que tratando-se de ficção não deixa de ter os elementos essenciais que marcaram aquele período tão negro da História da Humanidade.

A história vai avançando com a troca de cartas entre São Francisco e Munique até ao derradeiro volte-face (in)esperado culminando com um simples “Desconhecido Nesta Morada” que deu título à obra.

Tendo sido publicado em 1938 nos EUA, o livro serviu de chamada de atenção para o que estava a acontecer na Europa ao povo judeu contribuindo, deste modo, para o despertar consciências. O livro foi publicado em Portugal em 2002 pela Gótica encontrando-se atualmente esgotado.

Excertos:

Kathrine Kressmann Taylor (1903-1996)Carta de Martin dirigida a Max de 25 de março de 1933

“O homem é realmente electrizante, forte como só um grande orador e um fanático o podem ser. Mas pergunto a mim próprio: será que ele não é louco? Os seus esquadrões de camisas castanhas saíram da ralé. Pilham e lançaram-se numa feia caça aos judeus. (…) Está-se a levantar uma vaga – uma verdadeira vaga. Por toda a parte as pessoas despertaram. Sente-se isso nas ruas e nas lojas. O antigo desespero foi atirado para o lado como um casaco gasto. As pessoas deixaram de andar embrulhadas em vergonha; voltaram a ter esperança. Talvez seja possível descobrir uma solução para esta pobreza. Alguma coisa, não sei o quê, está para acontecer. Encontrou-se um chefe! Se bem que de mim para mim eu pergunte: um chefe sim, mas para onde? A vitória sobre o desespero leva-nos muitas vezes para caminhos de loucos.

Em público, naturalmente, não manifesto as minhas dúvidas. Sou agora uma personalidade oficial e um colaborador do novo regime e na verdade mostro-me exuberante ao máximo. Todos nós, os funcionários, e quem tem algum amor à pele, apressámo-nos a aderir ao Nacional-Socialismo. É esse o partido de Herr Hitler. Mas devo dizer que não é um mero expediente, há nisto mais alguma coisa, um sentimento de que nós, o povo alemão, encontrámos o nosso destino e de que o futuro avança na nossa direção como uma vaga poderosa.

(…)

Desde que cá cheguei [Munique] vi estas pessoas da minha raça, e compreendi os sofrimentos que passaram, estes anos com o pão a escassear cada vez mais, os corpos mais magros, a esperança a desaparecer. Apanhados nas areias movediças do desespero, atolados até ao pescoço. E então quando estavam prestes a perecer, apareceu um homem que lhes estendeu a mão para os salvar. Tudo o que agora sabem é que não vão morrer. Vivem a histeria do salvamento, quase o adoram. Mas quem quer que fosse o salvador, teriam feito a mesma coisa. Deus queira que seja um verdadeiro chefe e não algum anjo negro que eles sigam tão ligeiramente." (pp. 44-46)

Carta de Martin dirigida a Max de 9 de julho de 1933

“A raça judia é uma chaga dolorosa em qualquer nação que lhes dê abrigo. Nunca tive ódio a nenhum judeu individualmente, a começar por ti que sempre estimei como amigo, mas podes crer que é com toda a franqueza que te digo que gostava de ti não devido à tua raça, mas apesar dela.

O judeu é o bode expiatório universal. (…) Quem me dera poder mostrar-te, poder fazer com que visses… o renascimento desta nova Alemanha guiada pelo nosso Amado Chefe! Um povo tão grande não podia jazer eternamente subjugado pelo mundo. Vivemos catorze anos de cabeça baixa com a derrota. Comemos o pão amargo da vergonha e bebemos o magro caldo da pobreza. Mas agora somos homens livres. Levantamo-nos certos da nossa força e de cabeça erguida perante as nações. Purgamos o nosso sangue de todos os seus elementos impuros." (pp. 58-59)

O Revisor - Ricardo Menéndez Salmón (Porto Editora)

Roda Dos Livros, 19.05.13

O Revisor - Ricardo Menéndez SalmónTudo acontece no fatídico 11 de março de 2004 em que Madrid sofre vários atentados terroristas protagonizados pela Al-Qaeda que vitimou cerca de 200 pessoas. Vladimir está em casa e vai-se dando conta da dimensão da tragédia que assolou a capital do seu país ficando deveras perturbado à semelhança dos seus concidadãos.

À medida que a comunicação social vai atualizando a informação sobre os ataques terroristas ao longo do dia, Vladimir vai reflectindo sobre o impacto desse dia na vida das pessoas que passa definitivamente a ser comandada pela desconfiança e pelo medo.

Sendo revisor de obras literárias, Vladimir vai questionando o sentido da vida e simultaneamente o sentido da História pondo em causa valores democraticamente aceites em oposição ao sentido redentor da literatura que deverá contribuir para a desmitificação de mentiras e abusos praticados por quem comanda os desígnios dos países que actualmente acabam por se tratar de forças invisíveis quase ocultas e que determinam, condicionam e subjugam as vidas das pessoas.

É neste sentido que a literatura deverá cumprir a sua função desocultando aquilo que de mais obscuro nos condiciona sendo dados os exemplos de Fiódor Dostoiévsky, Albert Camus e J. M. Coetzee que tinham a consciência da mentira que o Homem vive ao longo da sua vida e, assim, através das suas obras, contribuíram “para nos reconciliarmos com essa sombra e com esse intenso simulacro, para conciliarmos tudo o que sabemos com tudo o que podemos suportar saber, que existem coisas como a literatura”. (p. 92)

Com a publicação de O Revisor, ficou concluída a “Trilogia do Mal” iniciado com A Ofensa e Derrocada colocando Ricardo Menéndez Salmón numa das referências da literatura espanhola contemporânea.

Excertos:

“Ninguém, desde que existem ágoras, mentiu tanto como os políticos. Quando, entre os gregos, um político mentia, impunha-se-lhe uma condenação vergonhosa: o ostracismo. Hoje, no pior dos casos, dá-se-lhe um mandato, oferece-lhe uma autarquia ou adjudica-se-lhe um ministério. É o código não escrito da nossa meritocracia: mente e serás recompensado.” (p. 46)

Ricardo Menéndez Salmón

“Para mim, o Paraíso inclui uma biblioteca sem cercas de arame farpado nem armadilhas visíveis, um ventre de baleia para onde algum acaso caridoso me atirou para a eternidade. Tudo é pó, desejo e silêncio, e uma luz crua, zenital (…). E o cheiro…

Porque o cheiro do livro é a quinta-essência de todos os cheiros, a geografia do herói, o trópico da quietude e dos bosques frondosos. Qualquer livro é passagem. Quando abro um volume e aspiro as suas páginas, já não estou ali. Muita gente não consegue entender que Tucídides cheire a aurora das ilhas gregas, mas é assim.” (p. 58)

“- Não interessa o que te disse. Esquece isso – respondi, pensando que foi o horror ao vento que Netchaev destilou no coração de alguns homens fanáticos o que levou Fiódor Dostoiévsky a escrever Demónios, um romance extraordinariamente sombrio, embora também extraordinariamente luminoso, uma obra de arte que ainda hoje, após inúmeras matanças do século XX e os terríveis presságios que se desenham nos alvores do século XXI, continua a inquietar os seus leitores. – Num dia como o de hoje, com as coisas que aconteceram e com as que vão acontecer, é melhor não pensar muito, de modo que limita-te a respirar, a alimentar-te e a dar uma ajuda, se alguém te pedir.” (pp. 60-61)

“Também eu tinha desesperado anteriormente. Também eu tinha sucumbido à inércia do fim dos tempos. Também eu tinha pensado que a Física já não contava. Que a Filosofia já não contava. Que a Arte já não contava. Que a beleza já não contava. Que todas as disciplinas tinham morrido. Que só restava o que ditavam as grandes multinacionais, um punhado de notícias concertadas diariamente entre governos e organizações ocultas, cegas para o olho do homem vulgar, que mexiam os cordelinhos e dirigiam o mundo, as coisas que tinham realmente importância: a Bolsa, os poços de petróleo, a corrida espacial. O resto era secundário; podiam desaparecer partes inteiras da realidade e não aconteceria nada. Não era óbvio? A Literatura. A quem podia preocupar? Quem precisava dos livros para viver?” (p. 104)

Fun Home - Uma Tragicomédia Familiar - Alison Bechdel

Roda Dos Livros, 19.05.13
Alison Bechdel Fun Home, pt capa

Há muito tempo que não lia um livro de BD. Tenho de confessar que não é o meu género de eleição e, se não fosse a recomendação do Jorge, também não me teria interessado por este. Mas ainda bem que o fiz. Declaradamente autobiográfico, este livro foca com uma ironia cáustica alguns dos momentos mais marcantes da infância, adolescência e início da idade adulta da protagonista Alison, que até no nome é idêntica à Autora: a personalidade peculiar do pai, a evolução da sua relação com ele, o falhanço ensurdecedor do casamento dos pais, a homossexualidade e pedofilia do pai, a descoberta da sua própria sexualidade, a sua identificação como lésbica, o suicídio do pai.

Os dois traços mais marcantes desta obra são, sem dúvida, o sarcasmo corrosivo e as omnipresentes referências literárias. Estas últimas servem, aliás, para definir as próprias personagens e até para impulsionar o rumo da história: Alison descobre que é lésbica ao consultar um dicionário e a sua epopeia de descoberta dessa tendência sexual, que ela própria compara à Odisseia de Homero, é feita, essencialmente, através da leitura; o pai tem uma predilecção por Fitzgerald e ele próprio apresenta fortes semelhanças com Gatsby, com laivos de Camus, Proust e Wilde; a mãe é comparada a uma personagem de Henry James e o início da relação entre os pais apresenta vários pontos em comum com o enredo de Retrato de Uma Senhora; a interacção de Alison com o pai, que no início quase não existe, vai-se fortalecendo à medida que ambos aprendem a tirar partido de um traço comum aos dois: o gosto pela leitura. Aliás, a descoberta por Alison do seu lesbianismo é, em grande parte, despoletada por um livro de Colette que lhe é recomendado pelo pai. Talvez devido a esse interesse em comum (o único além da inclinação estética por homens, ele desejando possuí-los, ela desejando assemelhar-se a eles), apesar de apontar sem qualquer clemência os inúmeros defeitos do pai, Alison nunca chega a condená-lo. Afirma mesmo encará-lo com alguma compreensão.

Embora a profusão de alusões literárias, que evocam constantemente as referências do leitor, transformem este livro numa experiência pessoal e por isso fascinante, o que mais me cativou foi o olhar desassombrado sobre as fraquezas humanas em geral e, muito especialmente, sobre o complexo carácter do personagem "pai". Diria mesmo que, para mim, o primeiro capítulo, onde é feita a caracterização do pai enquanto pessoa, é a parte mais bem conseguida do livro - será a parte mais amarga, a mais chocante até, mas é também aí que a impiedade do retrato traçado atinge o seu auge.

Fun Home 01

Excertos:

"Às vezes, quando as coisas corriam bem, creio que o meu pai gostava de ter uma família. 

Ou, pelo menos, do ar de autenticidade que conferíamos ao seu cenário. Uma espécie de natureza-morta com crianças.

E, claro, eu e os meus irmãos éramos mão de obra gratuita. Via-nos como extensões do seu próprio corpo, como braços robóticos de precisão." (pág. 19).

"O meu pai começou a parecer-me moralmente suspeito muito antes de descobrir que guardava um terrível segredo.

Usava o seu habilidoso engenho não para fazer coisas, mas para fazer com que as coisas parecessem aquilo que não eram.

Ou seja, perfeitas.

Por exemplo, aparentava ser um marido e um pai ideal.

Mas que marido e pai ideal teria sexo com rapazes adolescentes?

Apetece dizer, olhando para trás, que a nossa família era uma fraude.

Que a nossa casa não era um verdadeiro lar, mas uma imitação, um museu.

No entanto, éramos uma família, e vivíamos mesmo naquelas salas de época." (págs. 22-23).

"Foi um bom pai? Gostaria de poder dizer: «Pelo menos, estava sempre lá.» Mas claro que não esteve.

É verdade que só se matou quando eu já tinha quase vinte anos.

Mas a sua ausência teve efeitos retroativos, ecoando através do tempo em que estive com ele.

Talvez seja o contrário da dor que se sente num membro amputado.

Esteve realmente lá durante todos aqueles anos, uma presença de carne e osso, a limpar o papel de parede com vapor, a plantar arbustos, a polir os cromados...

... a cheirar a serradura, a suor e a perfume de marca.

Mas doía-me como se já não existisse." (págs. 28-29).

"Faço estas alusões a Henry James e Fitzgerald não apenas como instrumentos descritivos, mas porque os meus pais são mais reais para mim em termos ficcionais.

E talvez essa própria fria distância estética consiga transmitir melhor o clima glacial da minha família do que qualquer comparação literária." (pág. 73).

"Ulisses foi, naturalmente, proibido durante muitos anos por pessoas que consideravam obscena a sua honestidade." (pág. 234).

Fun H

Um Instante de Amor - Milena Agus

Roda Dos Livros, 18.05.13

uminstantedeamor“Um livro pleno de sentimento e poesia.” Il Corriere della Sera

Num dia em que fiquei doente em casa, por não ter concentração para leituras profundas, decidi-me a ler um romance lamechas e previsível. “Um Instante de Amor” tem 90 páginas, uma capa com duas cadeiras num alpendre, e a citação acima.

Achei que seria o ideal para um dia menos conseguido.

Este é um exemplo típico de que as capas são enganadoras e as citações uma pura mentira. Um livro sem ponta de amor (nem mesmo um instante), sem sentimento, e muito menos sem o (desta vez) esperado viveram felizes para sempre.

Ainda gostava de saber o que é que Il Corriere della Sera entende por sentimento e poesia.

Descrições sexuais de me fazer arregalar os olhos, sem ser erótico mas também sem chegar ao pornográfico, um livro que foi uma verdadeira surpresa num dia triste. Mas nem por isso me alegrou.

Senti-me enganada e fiquei zangada. Um livro sem conteúdo. Nem as descrições das aventuras para adultos me estimularam a imaginação.

Para ajudar à festa a narradora é a neta, que nos descreve as loucuras da avó. É doentio!

“Uma vez, a propósito de não se compreenderem, conseguira arranjar coragem e com o coração a parecer sair-lhe do peito de tão forte que batia perguntara ao avô se, depois de a conhecer melhor, não que conhecê-la melhor fosse lá grande coisa, não senhor, mas, enfim, se depois de ter vivido com ela durante todo aquele tempo e já não tendo necessidade da ir à casa de passe, gostava dela. O avô esboçou uma espécie de sorriso íntimo, sem olhar para ela, e dera-lhe uma palmada no traseiro e não tinha pensado minimamente em responder-lhe. Outra vez durante uma prestação que não podia descrever ao Veterano, o avô declarara que ela tinha o cu mais bonito que ele já tinha possuído em toda a sua vida. Enfim, o que podemos nós saber, a sério, mesmo dos que nos são mais próximos?” (Pág. 47)

Sinopse

“Um Instante de Amor” conta-nos a história de uma mulher extraordinária que viveu em Cagliari, na Sardenha, durante a Segunda Guerra Mundial. A rigidez do meio onde nasceu não se compadece com a sua natureza sonhadora e romântica e, embora seja extremamente bonita, os homens estranham-na, e o amor teima em fazer-se esperar. Atormentada pelo desejo que um casamento de conveniência não aplacou, reinventa a sua própria vida, num rasgo de erotismo e poesia, belo e assombroso como o próprio romance que veio confirmar Milena Agus como uma voz única da atual narrativa italiana.”

Presença, 2010

Ainda Alice - Lisa Genova

Roda Dos Livros, 16.05.13
2

A história de Alice é hoje, infelizmente, cada vez mais comum: alguém que toma como certas as suas capacidades intelectuais, aliás acima da média, depara-se de súbito com um diagnóstico de Doença de Alzheimer. O caso aqui relatado tem a particularidade de constituir uma manifestação precoce da doença - Alice tem apenas 50 anos - e, por isso, conta com a agravante de apanhar a doente em plena vida activa. Esse facto torna a catástrofe ainda mais evidente aos olhos de quem lê, embora, mesmo em doentes já reformados, não seja difícil compreender a devastação que a perda gradual de faculdades necessariamente causa.

Este livro faz-nos acompanhar essa mesma devastação passo a passo: desde as primeiras falhas de memória ao choque terrível do diagnóstico, passando depois, meticulosamente, por todos os momentos críticos do lento definhar de um cérebro e descrevendo com lucidez a forma como a doente os vive e como quem a rodeia os encara. Assistimos com horror à crueldade de uma doença que obriga uma pessoa habituada a ser respeitada pela sua inteligência a aperceber-se da condescendência e até piedade com que, cada vez mais, passa a ser tratada. Sentimos o embaraço de Alice quando detecta os seus próprios lapsos e ficamos embaraçados por ela quando a vemos colocar-se, mesmo inconscientemente, em situações constrangedoras. Identificamos o padrão circular de pensamento, em que umas ideias levam a outras até que o processo mental bloqueia e regressa automaticamente à primeira ideia, percorrendo logo a seguir exactamente o mesmo percurso até se imobilizar no mesmo local, e recomeçando o mesmo ciclo interminavelmente, sem que a doente se aperceba da repetição. Percebemos a prisão que estas limitações representam e a impossibilidade de Alice as ultrapassar. Reconhecemos as famosas fases de suposta melhoria, em que a doença parece adormecida, parecendo esperar apenas o nascimento de alguma esperança para retomar a sua progressão inelutável. Testemunhamos a insidiosa perda das referências que constituem uma personalidade e compreendemos a confusão de Alice ao não se reconhecer a si própria nem ao contexto em que se move. Finalmente, vemos Alice perder a consciência do seu estado e mergulhar num limbo paralelo ao mundo real, mais clemente nalguns aspectos, porque desapareceram a vergonha, a raiva e o medo, mas mais violento noutros, que a Autora não chega a relatar, mas que sabemos que se seguirão - a perda total da comunicação, da alimentação, da locomoção, etc.

Em Ainda Alice nenhum dilema moral nos é poupado. Somos confrontados com as duras escolhas impostas à família, que, além de ter de assistir ao lento desaparecimento de uma pessoa que amam, tem ainda de decidir do que abrir mão e do que não prescindir, sabendo que, por um lado, tem pouco tempo para aproveitar a companhia de alguém que não quer perder, mas, por outro, chegará inevitavelmente o momento (dentro de um dia, um mês, um ano ou vários anos) em que todas as renúncias feitas serão totalmente irrelevantes.

E está-nos ainda reservado o dilema supremo: a questão do fim da vida. Enquanto ainda na posse das suas faculdades, e consciente do que lhe irá irremediavelmente acontecer, Alice decide que não quer viver para lá de um determinado ponto. No entanto, sabe que não pode confiar nas suas capacidades para dar esse passo. E também sabe que não pode pedi-lo à família. Alice está pior do que sozinha, pois dentro de pouco tempo nem consigo própria poderá contar. Tenta tomar providências, deixando instruções para guiar, passo a passo, o ser demente em que se irá transformar na realização dessa tarefa. Em determinado ponto do seu caminho descendente, chega mesmo a ter oportunidade de concretizar esse seu intento. Mas a vida interpõe-se. A dureza deste livro chega ao ponto de nos retirar todas as redes protectoras que criáramos na nossa mente como garantias de que este destino nunca seria o nosso. No nosso íntimo, todos pensamos vagamente que, em caso de absoluto desespero, como uma doença incurável e mortal, poderemos sempre decidir quando fazer uma retirada elegante. Mas esquecemo-nos que isso implicaria que, em algum momento, decidíssemos que o fim seria ali, e não tardaria nem mais um minuto. Acontece que, nessas ocasiões, a vida teima em relembrar-nos de que ainda ali está. Há-de haver sempre um céu azul que vamos deixar de ver. Uma noite quente que já não presenciaremos. Um cheiro a relva molhada, o calor do sol na pele, um nunca acabar de sensações que nunca mais experimentaremos. E, nessa altura, vamos deixar para amanhã. Porque ainda é cedo. Ainda há tempo para mais um pôr-do-sol. E depois já será tarde demais.

Excertos:

"- Alice, isto faz sentido para si? - perguntou Stephanie.

Embora a pergunta fosse legítima, dado o contexto, Alice ficou ressentida e vislumbrou nela o que estaria subjacente a todas as suas conversas no futuro. Estaria competente o suficiente para compreender o que lhe estava a ser dito? Estaria o seu cérebro demasiado danificado, estaria demasiado confusa para consentir nisto? Ela sempre fora tratada com grande respeito. Se a sua capacidade mental fosse gradualmente substituída por doença mental, o que substituiria esse grande respeito? Piedade? Condescendência? Embaraço?" (pág. 95).

"Pensou no que acabava de ver no Centro de Repouso de Mount Auburn Manor enquanto lambia e caminhava. Precisava de um plano melhor, um plano que não custasse a John uma fortuna para manter viva e em segurança uma mulher que já não o reconhecia e que, naquilo que era mais importante, ele também não reconhecia. Ela não queria ficar aqui quando chegasse ao ponto em que os fardos, tanto emocionais como financeiros, ultrapassavam em muito os benefícios de continuar viva." (pág. 129).

"Os meus ontens estão a desaparecer e os meus amanhãs são incertos, então o que tenho para viver? Vivo para cada dia. Vivo no momento. Um destes amanhãs, em breve, esquecer-me-ei de que estive aqui perante vós a fazer este discurso. Mas, lá porque o esquecerei amanhã, isso não significa que não tenha vivido cada segundo dele hoje. Esquecerei o dia de hoje, mas isso não quer dizer que hoje não tenha tido importância.

Já não sou convidada para dar palestras em universidades e conferências de Linguagem e Psicologia em todo o mundo. Mas aqui estou, hoje, a fazer aquela que espero que seja a palestra mais influente da minha vida. E eu tenho Doença de Alzheimer.

Obrigada." (pag. 276).

"Enquanto Alice caminhava com a mulher entre as crianças médias, a música foi diminuindo atrás delas. Alice não queria ir-se embora, mas a mulher estava a ir e Alice sabia que devia ficar com ela. A mulher era alegre e simpática e sabia sempre o que fazer, algo que Alice apreciava porque muitas vezes ela não sabia.

Depois de caminharem durante algum tempo, Alice viu o carro vermelho-palhaço e o grande carro cor de verniz parados à entrada.

- Estão ambas em casa - disse a mulher, ao ver os carros.

Alice sentiu-se entusiasmada e apressou-se a entrar em casa. A que era mãe estava no corredor.

- A minha reunião acabou mais depressa do que eu pensava, por isso já cá estou. Obrigada por ter ficado com ela - disse a mãe.

- Não há problema. Tirei a roupa da cama dela mas não tive tempo para a voltar a fazer. Ainda está tudo na máquina de secar - disse a mulher.

- Está bem, obrigada, eu trato disso.

- Ela teve outro dia bom.

- Nada de deambulações?

- Não. Agora é como a minha sombra. A minha parceira no crime, não é, Alice?

A mulher sorriu e acenou entusiasticamente. Alice sorriu e acenou também. Não fazia ideia daquilo com que estava a concordar, mas provavelmente estava bem para ela, se a mulher achava que sim." (págs. 312 e 313).

"Cenas da Vida de Aldeia" de Amos Oz

Roda Dos Livros, 14.05.13

“Cenas da Vida de Aldeia” não tem o formato clássico de um romance; é antes um conjunto de episódios da vida de várias pessoas, habitantes de Tel Ilan, cujas existências se cruzam ao longo dos respectivos quotidianos. A escrita, despojada mas irrepreensível ,de Amos Oz traduz em palavras alguns momentos e pedacinhos das vidas dos personagens, quase como se fossem instantâneos fotográficos ou pequenos filmes. Estes são desconcertantes, inquietantes, sendo alguns até algo surrealistas, como se estivéssemos perante uma realidade alternativa. É-nos dado a conhecer um pouco das circunstâncias da vida dos personagens mas as suas histórias não têm um verdadeiro fim. Ficam como que suspensas, congeladas, como um filme que encravou numa cena; ficam num impasse. A última história, da qual esperávamos obter pelo menos algumas respostas, em nada nos ajuda. Pelo contrário, descreve-nos um cenário terrivel e desolador de um local onde é impossível viver com dignidade.

Gostei muito deste livro, não só pelas histórias invulgares que nos oferece, mas também porque me parece que se presta a uma outra leitura: poderá entender-se como uma grande metáfora descrevendo o impasse terrível a que chegou o conflito entre Israel e a Palestina; um confronto para o qual não parece haver fim à vista e daí as histórias inacabadas. Por outro lado, o horror da realidade descrita no último conto é como que uma antevisão do que poderá acontecer àqueles territórios, caso israelitas e palestinianos não consigam encontrar uma solução para viverem lado a lado de forma pacífica. Claro que esta é apenas uma interpretação muito pessoal e, como tal, passível de ser discutida e criticada. Nada sei das reais intenções do autor quanto a esta questão.

“ (…) De vez em quando preciso de um bocado de chocolate, a fim de mitigar um pouco a escuridão da vida, e ela esconde-me o chocolate como se seu fosse um ladrão, acrescentou tristemente, na terceira pessoa, como se Raquel não estivesse ali. Não percebe nada. Pensa que é gulodice. Não e não! Preciso de chocolate porque o corpo deixou de fabricar doçura. (…)”

“ Que bela melodia! É comovente! disse o velho. Recorda-nos o tempo em que ainda existia alguma afeição entre os homens. Mas hoje não tem sentido tocar coisas dessas, é anacrónico, as pessoas estão-se completamente nas tintas. Acabou-se. Os corações estão selados. Os sentimentos mortos. As pessoas só se dirigem aos outros por interesse egoísta. O que resta? Se calhar resta apenas essa melodia melancólica, uma espécie de testemunho da desolação dos corações.”

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