Edição/reimpressão:2013
Páginas:316
Editor:Quetzal
ISBN:9789897220951
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Estive já com vários livros deste escritor mas nunca os cheguei a levar para casa... Não me perguntem porquê! Talvez porque desconhecesse por completo o que perdia: uma escrita absolutamente apaixonante, um enredo de uma imaginação fora do vulgar.
Os pequenos episódios, de uma história que vamos construindo devagar, mudam com frequência de narrador e de cenários, levando-nos a um conhecimento profundo do carácter e segredos dos personagens, sem perdermos a história principal.
O que parece uma história simples, localizada maioritariamente em espaço algarvio, transforma-se em algo onde o mistério é uma constante, o maior companheiro destas páginas!
E quando vamos embalados na história, eis que o fim chega! Não é um final pacífico, que nos transmita sossego. Voltei atrás, reli a última folha tentando descortinar no meio das palavras do autor algo que me permitisse largar o livro tranquilamente! A dúvida instalou-se: mas afinal a que fim os destinou o autor? Um final inquietante, eu diria, que teimamos em deixar de lado.
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Narrativa ao qual fiquei colada desde as primeiras páginas, surpreendida com a fluidez das palavras e a coerência dos pensamentos. O colorido próprio do arquipélago de Cabo Verde, que eu conheço de outros tempos em que não era tão apelativo como local de férias. Praias aprazíveis e paisagens áridas e despidas que o vento inclemente não poupa, sujeitas a esporádicas chuvas. E pobreza. E a catchupa (prato de carnes) e o grogue (tipo de aguardente).
Sinopse: Filho de minhotos, João Bento Rodrigues - que ficaria conhecido por Filili - nasceu na ilha do Fogo no ano da abolição da escravatura. O decreto não bastou, porém, para que se extinguisse o tráfico, até porque os negreiros tinham a cumplicidade das autoridades; e foi assim que Maguika, capturada nas matas da Guiné, se tornou propriedade de Nhô Filili, trazida por um negociante desejoso de, com presentes, o conquistar para genro. Contudo, assim que pôs os olhos na negrinha, João Bento Rodrigues já não voltou a olhar para outra mulher, afrontando a elite da capital ao entrar na igreja de braço dado com a escrava e, mais tarde, unindo-se a ela pelo santo matrimónio, desafiando preconceitos e convenções. Mas, se é verdade que as pretendentes não gostaram de se saber preteridas, quem mais sofreu foi Leila, a concubina com quem Filili mantinha laços íntimos e que, de repente, se viu sozinha na Cidade Velha com um segredo. O passado tem, no entanto, maneiras de regressar quando menos se espera. E, às vezes, ainda bem.
Tendo por cenário o arquipélago de Cabo Verde entre a segunda metade do século xix e a primeira do século xx, O Legado de Nhô Filili é o retrato de uma África bela e sedutora, mas também dura e miserável, e bem assim uma metáfora da história da mestiçagem biológica e cultural e da génese dos movimentos pela independência das Colónias.
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Uma mãe. Um filho adolescente. Uma enorme perda. Uma guerrilha entre um corpo revestido por uma armadura de resiliência e um "contracorpo" que se esconde atrás de uma inexpugnável muralha de silêncio.
Uma mulher em busca de equilíbrio e de uma nova definição de si mesma e um rapaz a transformar-se num homem, um "quase-homem" na corda bamba da adolescência, um malabarista de raivas, medos e sonhos.
Uma viagem aparentemente sem destino que os conduz ao encontro de si mesmos e um do outro.
Neste romance tudo flui de forma escorreita, ritmada, sensível e impressionantemente verosímil. Muito bem escrito, não é uma história sobre gente invulgar e extraordinária mas sim acerca de pessoas comuns, com qualidades e defeitos iguais aos de toda a gente, cujas vidas foram moldadas indelevelmente por uma perda inesperada. A autora disseca com uma notável e sensível precisão a montanha-russa emocional vivida por Maria e pelos seus filhos, proporcionando ao leitor uma visão nítida e muito lúcida do seu percurso após a morte de Francisco. Gostei da profundidade que a autora deu às personagens, do tom intimista da sua escrita que as transporta para o mundo real ; Maria, Pedro, Simão e os outros pareciam estar mesmo ali ao nosso lado. A sua família poderia muito bem ser a nossa ou a de algum vizinho.
Em suma: bem escrito, simultâneamente sensível e realista, "Contracorpo" é uma leitura interessante e acutilante sobre o grande tema humano da perda, mediada tanto pela morte quanto pela passagem da infância à adolescência e , consequentemente ao mundo dos adultos.
" Optou por ficar calada. Ficar calada é muitas vezes uma forma de estar. Maria aprendeu a valorizar esse não compromisso com as palavras. A excepção é feita com o filho mais novo que adora histórias de piratas e coisas misteriosas. Robôs e homens do espaço, lagartos com capacidades especiais, poderes e magia. Tudo cabe na gaveta da imaginação e Maria diverte-se com as brincadeiras. Pode deixar de pensar. O cérebro fica dentro da caixa de legos gigantes, sim, porque esses já não precisos, são para meninos mais pequenos."
" Sim, tenho saudades do pai. Não é suposto dizer. Ou melhor, tenho consciência de que não serve de muito, não produz nada em concreto e não resolve nada."
" A psicóloga da escola também me chamara quando começaram os problemas maiores. A senhora queria saber se eu achava que tudo se prendia com o facto de ter perdido o pai. Foi exactamente assim que a psicóloga perguntou. Lembro-me de ter pensado que o pai nem desapareceu, não entrou num avião que foi desviado ou num navio preso por piratas da Somália, no Triângulo das Bermudas ou no topo de uma montanha. O meu pai morreu, estúpida. Não se perdeu. Mantive-me em silêncio. Uma especialidade aqui da casa. A psicóloga tentou outras abordagens e, ao fim de cinquenta minutos, foi com enorme alívio que me disse que podia sair."
"Seria bom se o mundo não parecesse tão difícil. Por mais que faça, há sempre qualquer coisa que não se ajusta, como uma peça com defeito, faz-se um esforço para a encaixar e não é possível. Eu sou essa peça. Outras vezes sou a pessoa a colocar a peça. Depende."
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“No dia 21 de Março de 1947, um anónimo ligou para uma esquadra da polícia nova-iorquina a avisar que a residência dos Collyer emanava um cheiro a cadáver. Uma patrulha forçou a entrada na casa e encontrou Homer Collyer morto de má nutrição, desidratação e paragem cardíaca. Como o cheiro persistia, a polícia começou as buscas pelo corpo de Langley, que foi encontrado somente no dia 8 de Abril, a apenas três metros de onde Homer se encontrava. Langley ia a rastejar por um dos túneis de fardos de jornais, para levar comida ao irmão cego e paralisado, quando acionou uma das suas armadilhas, ficando soterrado debaixo de uma pilha de coisas. A polícia retirou 140 toneladas de objetos do interior da casa nº 2078 da Quinta Avenida. O caso tornou-se uma espécie de mito urbano.”
Nota da tradutora (Tânia Ganho) presente na última página do livro.
Pode parecer estranho começar pelo fim. A verdade é que o que mais fascinou neste livro foi a forma como o autor partiu de um facto conhecido e criou todo um conjunto de situações. Na verdade criou vidas inteiras para os irmãos Collyer; relata os seus percursos desde a infância até ao dia em que são encontrados mortos na sua própria casa, rodeados de uma incrível coleção decadente de toda a espécie de coisas.
Nem por um momento se perde o interesse nesta leitura por se conhecer o desfecho, na realidade é o final conhecido que alimenta a leitura, a necessidade de conhecer o percurso, de entender o cenário desta notícia.
O narrador é Homer, o irmão cego, como o próprio se apresenta. É peculiar que as mais fantásticas descrições nos cheguem pela voz de um cego. Apesar de não ver, Homer tem um sentido de orientação único graças a uma excelente memória dos tempos que ainda podia ver, e também devido aos restantes sentidos, que são apuradíssimos, principalmente o olfato. Mas ainda, e muito principalmente, devido à sua fantástica intuição.
Cultos e endinheirados, Homer & Langley, tiveram de encarar uma realidade para a qual não estavam preparados após a morte dos pais. Por sua conta e sem preocupações de maior, pelo menos as preocupações que assolam a maioria de nós, deixaram-se levar numa vida pautada pelo desleixo, ao sabor dos acontecimentos da História recente da América e do Mundo.
A sua casa torna-se o seu refúgio, mas também o refúgio do toda a espécie de tralha que acumulam. É difícil imaginar uma mansão da Quinta Avenida em Nova Iorque “recheada” de jornais velhos, mas a verdade é que Langley passou a vida a colecionar notícias para um dia ver nascer o projeto do seu próprio jornal, que seria uma amálgama de tudo o que foi registando como acontecimento.
Um carro (Ford T), bicicletas velhas, pneus, geradores para quando por desleixo deixaram de pagar a luz (mais tarde passariam às velas), baldes para quando lhes cortaram a água por falta de pagamento (também por desleixo), e todo um surgimento de vida animal que a falta de limpeza proporciona.
Estranhos, mas de uma humanidade surpreendente, Homer & Langley acolhem por diversas vezes hóspedes muito especiais. Desde uma casal de Japoneses ostracizado pelos factos históricos, a um grupo de hippies que se identifica totalmente com este modo de vida de decadência, passando por um perigoso grupo de gangsters, vários são os visitantes com quem coabitam até se tornarem uns eremitas cujas vidas se confinam ao espaço da sua casa, que no limite se torna extremamente reduzido devido à colossal quantidade de objetos de que se fizeram rodear.
Bem escrito e bem estruturado, Homer & Langley surpreende e apetece ler devagar, prolongando ao máximo o prazer único que só os livros brilhantes permitem.
Obrigatório.
“E quando estes miúdos – foram cinco os que se soltaram do grupo maior e subiram os degraus de nossa casa, dois homens e três mulheres – viram o armazém de preciosas aquisições em que se tornara a casa, ficaram comovidos até dizer chega. Escutei o silêncio, que me pareceu digno de uma igreja. Ficaram parados na penumbra da sala de jantar, a olhar pasmados para o Modelo T com os pneus esvaziados e as teias de aranha de anos e anos drapejadas sobre a carroçaria, como uma intricada trama, e uma das raparigas, a Lissy exclamou: Oh, uau! E eu considerei a hipótese, tendo bebido demasiado do vinho deles de má qualidade, de o meu irmão e eu sermos, ipso facto, quer quiséssemos quer não, profetas de uma nova era.” (Pág. 119/120)
Sinopse
“Homer e Langley Collyer tornaram-se uma lenda tragicómica de Nova Iorque quando foram encontrados soterrados debaixo de toneladas de lixo acumulado na sua mansão, na Quinta Avenida. Transportados para o mais recente romance de E.L. Doctorow, estes personagens delirantes - Homer, cego e intuitivo, e Langley, abandonado à loucura, ou à genialidade, após servir na Primeira Guerra Mundial - tornam-se os cicerones de uma visita guiada à América do século XX e aos becos sombrios da mente humana.Uma intensidade narrativa quase hipnótica.Um retrato singular da condição humana.”
Porto Editora, 2013
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Quando escolhi ler este livro, não reconheci a autora de um outro romance que li- Consequências - mas, rapidamente compreendi de quem se tratava porque reconheci o estilo e as carateristicas da narrativa. Mais contido, talvez um tanto descritivo mas rico na análise humana e nas circunstâncias que levam a sentimentos, pensamentos e ações, com o foco no real, possível e até trivial quotidiano. Para quem aprecia romances com fortes emoções, personagens perfeitas/ ideais e bem sucedidas, este romance é uma desilusão. Claro que reflete muito o ambiente inglês e as personagens são bem definidas mas marcadamente britânicas com a altivez e alguma soberba dos nobres como Lord Peters (sua excelência, como a ele se referia sarcasticamente Charlotte).
Nesta narrativa temos as histórias de Charlotte, Rose e Gerry, Anton, Jeremy e Stella, Marion, Henry e Mark. "As histórias são caprichosamente desencadeadas porque, certo dia, algo aconteceu a Charlotte na rua. " Charlotte é a personagem principal deste romance. Uma personagem madura que faz interessantes considerações e que me pareceu demonstrativa da qualidade da escrita desta autora. As palavras fluem, ágeis e rápidas e eloquentes num ritmo sereno mas cativante.
"Sozinha em casa, retoma a sua vida. Recebe visitas de amigos e vizinhos: na verdade não está sozinha. O mundo rodeia-a e ela vive num presente insistente. Porém, os seus pensamentos encontram-se muitas vezes, no passado. Aquela paisagem interior evanescente, penetrável, instável que só ela conhece, aquele amontoado de informação do qual uma pessoa depende (sem o qual não seríamos nós mesmos); impossível de partilhar e, seja como for, indivisível para qualquer um. O passado é a nossa irrevogável privacidade; nós acumulamo-lo, anos após anos, década após década; é guardado com o seu perverso sistema de memória aleatório. Lembramo-nos de excertos, os conteúdos incompletos esfarrapados da mente. A vida traduz-se nisto." (pag.256/7)
Dependendo das expetativas e interesses do leitor, este romance pode ser apreciado ou rejeitado. Eu pessoalmente gostei muito. Apreciei a escrita e as personagens que considerei verossímeis, coerentes e bem definidas, enquadradas numa crise/ recessão bem real que reconhecemos. Um romance atual, distante do sonho, fantasia e perfeição que tanto almejamos, mas com um final ... que não é o final das histórias, porque "um final é um dispositivo artificial; nós gostamos de finais, são satisfatórios, convenientes e têm um propósito. No entanto, o tempo não tem um final e as histórias sucedem-se ao ritmo do tempo. De igual forma, a teoria do caos não pressupõe um final; o efeito em cadeia contínua, inquebrável. Estas histórias não tem um final; elas seguem em diferentes direções, cada uma no seu próximo caminho." (pag. 256)
Sinopse:
Quando Charlotte é assaltada e fratura a anca, a sua filha Rose não pode acompanhar o patrão, Lord Peters, a Manchester, por isso a sobrinha dele, Marion, tem de ir no seu lugar; Marion envia ao amante uma mensagem escrita que é intercetada pela mulher… e isto é apenas o início de uma cadeia de acontecimentos que irão alterar várias vidas.
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Imaginar um empresa de Instalação de medo pode ser bizarro. Técnicos que nos batem à porta e instalam o medo em nossas casas como se fosse a instalação de um telefone ou serviço de internet.
Irónico e, acima de tudo hilariante, ter-me-ia feito rir muito mais se não me deparasse a cada instante com a realidade em que vivemos. Será ficção? Mas não é pura coincidência.
Repleto de expressões que nos são impostas todos os dias, na rua, no trabalho e até em nossas casas através da comunicação social, o medo aí está, a criar uma crise paralela à que já existe, que a adensa e entranha em todos nós.
Muitas vezes não damos por isso, pela forma como ficamos com medo da incerteza do que nos espera, de tal forma já vivemos assustados com todas as inúmeras possibilidades (todas terríveis) do futuro.
Uma brincadeira demasiado real que li num dia e me trouxe uma ressaca de sonhos temíveis no dia seguinte. Um livro que só lido. E deve ser lido.
É que o medo… já está mais que instalado.
Sinopse
Dois homens batem à porta. «Bom dia, minha senhora, viemos para instalar o medo. E, vai ver, é uma categoria».
Teodolito, 2012
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Depois de ter lido e ouvido críticas positivas e negativas, iniciei a leitura deste livro convencida de que iria adorá-lo ou detestá-lo. Para minha surpresa, cheguei sensivelmente a meio da obra sem me suceder uma coisa nem outra. Parecia-me apenas mais uma versão de uma das histórias mais banais deste mundo: o menino bom que ama de todo o coração uma menina má, insensível e calculista, que aproveita esse amor para o usar quando precisa dele, ignorando-o sempre que lhe surge uma alternativa mais vantajosa. O menino bom não é estúpido, percebe perfeitamente o que se passa, tenta esquecê-la mas não consegue porque, simplesmente, a ama demais.
Ao fim de cerca de duzentas páginas sem surpresas, onde esta história, se bem que exemplarmente bem escrita, se repete num ciclo interminável de desilusão amorosa - nova esperança - nova desilusão, estava já convencida de que o resto do livro se desenrolaria no mesmo tom, quando, sem aviso prévio, o Autor introduz uma nova variável nesta equação tão antiga: afinal as meninas más também podem ser vítimas de um sofrimento muito semelhante àquele que causam. E digo semelhante, e não igual, porque aqui Vargas Llosa não faz concessões sentimentalistas: quem nasce sem coração não amará nunca. Logo, nunca sofrerá por amor. Mas pode sofrer um martírio equivalente, tornando-se dependente de outra pessoa, não porque a ame, mas porque essa pessoa se tornou, para si, uma ideia fixa. E, por causa dessa ideia fixa, pode deixar-se usar, manipular, humilhar até limites tão extremos como aqueles a que chegam aqueles que usa porque têm a fraqueza de lhe ter amor.
Posto isto, Vargas Llosa entra no domínio das interrogações: quando uma menina má, incapaz de qualquer sentimento, habituada a usar os outros para os seus próprios fins, desce às profundezas do desespero humano por causa de alguém que a maltratou e é resgatada in extremis pelo mesmo menino bom que a amou desde criança e a quem já desprezou inúmeras vezes, como reagirá a essa suprema prova de amor? Uma vez recuperada, como se comportará com o seu salvador? Em última análise, poderá uma situação extrema modificar uma personalidade também, em si mesma, extrema?
O Autor é magistral na gestão desta incerteza, levando-nos a colocar todas as hipóteses e chegando mesmo a fazer parecer plausível aquilo que, no nosso íntimo, sabemos ser impossível. Mas, por fim, a sua conclusão é de uma clareza cruel: quem não ama tem uma vantagem inultrapassável sobre quem ama. Quem não ama também não sente empatia, nem remorso. Tem, por isso, uma liberdade que o comum dos mortais não tem: pode fingir sentimentos quando isso lhe é útil e desfazer a farsa num segundo quando deixa de o ser. E quem melhor para servir os seus interesses do que alguém que nada lhe consegue recusar? Eis a pessoa perfeita para explorar quando necessário e descartar logo que possível. E, se conveniente, para voltar a usar mais tarde, uma e outra vez, bastando para isso dizer-lhe que o amor acabou de despertar no seu coração. Um verdadeiro menino bom, por mais que o seu lado racional o tente chamar à razão, nunca resistirá ao apelo romântico da pessoa que ama. Por muitas desilusões que o seu amor já lhe tenha causado, acreditará sempre uma última vez. É essa a sua desgraça.
Assim, afinal este livro é tudo menos banal. Parte de uma história vulgar e revela-lhe cambiantes insuspeitos, faz do previsível inesperado, obriga-nos a questionar o que tínhamos por certo e estabelecido. Baralha as premissas e questiona tudo. Para, finalmente, quando já estamos capazes de admitir hipóteses que no início nos pareceriam risíveis, nos reconduzir ao ponto de partida: em que estávamos a pensar para nos deixarmos enganar como qualquer menino bom pateta? É claro que as pessoas não mudam.
Excertos:
"Para que insistia em me telefonar, de tanto em tanto tempo? Porque, na sua intensa vida, eu devia ser uma das poucas coisas estáveis, o idiota fiel e apaixonado, sempre ali, à espera da chamada para fazer sentir à ama que ainda era o que sem dúvida já estava a deixar de ser, o que em breve não mais seria: jovem, bonita, amada, cobiçada. Ou necessitava porventura de alguma coisa de mim? Não era impossível. De repente tinha aparecido na sua vida algum pequeno vazio que o borra-botas podia preencher. E, com aquele seu gelado carácter, não hesitava em me procurar, convencida de que não havia dor, humilhação, que ela, com o seu infinito poder sobre os meus sentimentos, não fosse capaz de dissipar em dois minutos de conversa. Conhecendo-a, era certo e sabido que não daria o braço a torcer, continuaria a insistir, de tantos em tantos meses, de tantos em tantos anos. Não, desta vez enganavas-te. Não voltaria a atender-te o telefone, peruaninha." (pág. 208).
"- Sabes bem que tentei adaptar-me a este tipo de vida, para te fazer a vontade, para te pagar o que me ajudaste quando estive doente - a sua frieza parecia agora a ferver de furor. - Não posso mais. Isto não é vida para mim. Se continuasse contigo por compaixão, acabaria por te odiar. Eu não te quero odiar. Tenta compreender-me, se puderes.
(...)
"- Aqui asfixio - acrescentou, lançando uma olhadela à sua volta. - Estas duas assoalhadazinhas são uma prisão e já não as suporto. Eu sei qual é o meu limite. Esta rotina, esta mediocridade, estão-me a matar. Não quero que o resto da minha vida seja assim. Tu não te importas, tu estás satisfeito, melhor para ti. Mas eu não sou como tu, não me sei conformar. Tentei, bem viste que tentei. Não consigo. Não vou passar o resto da vida ao teu lado por compaixão. Desculpa falar-te com esta franqueza. É melhor que saibas a verdade e que a aceites, Ricardo." (pág. 343).
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Foi a curiosidade que me levou a ler este livro, sem esperar muito dele, confesso.
Com a ideia de que seria um pouco como ler uma revista cor-de-rosa, deixei-me levar pela vontade de querer saber mais acerca da vida alheia, esperando um relato de festas e futilidades, mas tendo lido afinal as memórias (muito bem escritas) de uma mulher bastante interessante. Ou seja, foi como levar um estalo na cara, “ora toma lá para não seres preconceituosa”!
Possivelmente não o teria lido se não tivesse chegado até mim pela “Roda dos Livros”.
Rita Ferro tem uma enorme lucidez a avaliar o próprio meio, a descrever a futilidade de quem vive da aparência, a denunciar que a posição social não passa disso mesmo, um mero estatuto atrás do qual se escondem pessoas que, muitas vezes, nem têm dinheiro para “fazer cantar um cego”. Observadora desde cedo, grande parte das descrições deste livro chegam-nos pelos seus olhos de criança.
Pode considerar-se um privilégio ter nascido e crescido num ambiente extremamente culto, pois a família do pai vivia para a literatura, para a poesia, para as tertúlias. Por outro lado, a mãe, de raízes aristocráticas, deu-lhe uma educação típica dos “filhos-família”, cheia de regras sociais inquestionáveis mas com pouca essência. Curiosa a forma como, muitas vezes as famílias-bem não diferem assim tanto das famílias mais pobres ou até disfuncionais, a distribuir estalada e castigos pelos filhos, muitas vezes sem motivo lógico. No fundo, todas as famílias têm o seu quê de esquizofrénico, independentemente do dito “status”.
Interessante como a sua relação com a família e a sua educação influenciou a sua vida adulta, as suas opções amorosas e profissionais; como de resto influencia todos nós.
Por vezes cáustica, outras divertida, algumas vezes distante e melancólica em relação ao passado, sempre muito emocional quando tudo agora são memórias.
Vale a pena ler.
Sinopse
“Depois de ter perdido a mãe, em Agosto de 2010, Rita Ferro volta ao passado para saber de si. A viagem é penosa porque as pessoas são as mesmas, mas ela não se reconhece. Quem é aquela menina? Com que sonha? Que espera da vida? O que a defrauda? E como conseguem os seus, tão cheios de regras, ensiná-la a voar? Por ela respondem as memórias mais marcantes: o primeiro amor na Primária, os namorados de Verão, as primas direitas que se ficam num desastre brutal, as vezes que ela própria se cruzou com a morte, os avós públicos e privados, o pai e, sobretudo, a mãe, difícil de chorar pois toda a vida fez rir. Uma viagem que começa nos anos 50 e atravessa toda uma época de escuridão e mansidão, em que a obediência e o mimetismo são encorajados, por onde passam figuras conhecidas de todos nós como Fernanda de Castro, António Ferro, António Quadros, Ruben A., Almada Negreiros, Natália Correia, Ary dos Santos, David Mourão- Ferreira e até Fernando Pessoa.”
D. Quixote, Outubro 2011
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Finalmente foi possível deixar a minha opinião e escolhi fazê-lo com o último livro que li. Não foi o mais apaixonante mas tem o seu interesse. Interessante é um adjectivo que pode significar enfadonho quando não queremos afrontar quem muito o apreciou ou incutir algum mistério em quem o deseja ler. Neste caso, há um misto dos dois. Não consegui lê-lo sem parar, o que acontece quando estou realmente envolvida com a história ou as personagens. Um romance um tanto delirante e nostálgico demais para o meu gosto, mas escrito com vigor, convição e frontalidade para uma personagem como Auxilio Lacouture que conheceu e conviveu com grandes nomes da cultura mexicana. Personagens amarguradas, boémias, promiscuas, precocemente desaparecidas da vida mas não da memória dos homens.
Uruguaia de meia-idade, alta e desdentada, exilada na cidade do México sem documentos, sujeita à solidão e á fome mas generosa e corajosa - a mãe de todos os poetas. Uma mãe que nunca o foi, e que observa e admira os poetas e sobre eles profetiza o futuro.
Na narrativa, o que mais me confundiu foram os saltos temporais e o significado de frases como esta. "Seja o que for, alguma coisa acontece ao tempo e não, por assim dizer, ao espaço. Pressinto que alguma coisa acontece e que além disso não é a primeira vez que acontece, ainda que tratando-se do tempo tudo aconteça pela primeira vez e aqui não há experiência que valha, o que no fundo é melhor porque a experiência geralmente é uma fraude." (pag.96)
Uma alegoria sobre uma geração de latino-americanos que caminharam para o abismo e cantaram o amor, o desejo e o prazer que tiveram? Ou um alerta? Um aviso?
Um romance de pequenas dimensões, intempestivo e enérgico que nos desperta os sentidos e nos conduz a uma reflexão em espelho. Terei que o reler numa outra fase para melhor absorver o muito que quer revelar.
Sinopse: A voz arrebatadora de Auxilio Lacouture narra um crime atroz e longínquo, que só virá a ser desvelado nas últimas páginas deste romance – no qual, de resto, não escasseiam crimes, sejam eles os dos quotidiano, ou os da formação do gosto.
Uruguaia de meia-idade, alta e magra como Dom Quixote, Auxilio ficou escondida na casa de banho das mulheres, enquanto a polícia ocupava, de forma brutal, a Faculdade de Filosofia e Letras da Cidade do México, em 1968.Durante os dias que aí permaneceu, os lavabos converteram-se num túnel do tempo, que lhe permitiu rememorar os anos vividos no México e antever os que estavam por vir.
Neste exercício evoca a poeta Lilian Serpas, que foi para a cama com Che, e o seu desafortunado filho; os poetas espanhóis León Filipe e Pedro Garfias, a quem Auxilio serviu voluntariamente como empregada doméstica; a pintora catalã Remedios Varo e a sua legião de gatos; o rei dos homossexuais da colónia Guerrero e o seu reino de terror; Arturo Belano, uma das personagens centrais de Os Detetives Selvagens; e a derradeira imagem de um assassínio esquecido.
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No nosso último encontro, no dia 13 de Abril, tivemos a visita surpresa de Orlando Ferreira, autor de "O Mercador de Palavras". Infelizmente não nos fez companhia nessa tarde pois tinha a apresentação do livro marcada numa outra sala da Biblioteca dos Olivais.
Nós, encantadas (ainda só tinham chegado meninas) com a coincidência, não deixámos o autor sair sem o cilindrarmos com perguntas sobre a obra. Ainda o tentámos aliciar a ficar connosco mas sem sucesso! :)
Faço aqui a partilha do livro. Com ilustrações magníficas.
"Um projecto que tem por base o livro O Mercador de Palavras, de Orlando Ferreira, recomendado, pelo segundo ano consecutivo, no Plano Nacional de Leitura, iniciativa pública do governo português para a promoção da leitura.
É a história de uma procura poética ao longo das rotas portuguesas do século XVI, até à sua voz mais distante, o Japão, narrada no encontro entre dois homens de geografia e pensamento opostos, o português João Afonso e o japonês Hiromoto.
Apesar da recomendação como leitura para o 3º Ciclo, a obra tem sido acolhida com entusiasmo por escolas dos mais diversos graus de ensino.
O livro é acompanhado por um CD onde se inclui a leitura dramatizada do texto pelo actor Ruy de Carvalho e um conjunto de informações sobre os Descobrimentos Portugueses, em particular sobre a presença portuguesa no Japão.
A obra foi recentemente integrada no projecto Viagens Literárias, iniciado nos Estados Unidos, que consiste na tradução de textos para o ambiente Google Earth, ampliando a leitura numa dinâmica interactiva de grande interesse e plástica visual.
O Mercador de Palavras integrou o Programa Oficial das Comemorações dos 150 Anos do Tratado de Paz, Amizade e Comércio entre Portugal e o Japão, promovido pela Embaixada do Japão em Portugal, em 2010.
A obra tem ainda prevista uma adaptação dramática, de modo a proporcionar a alunos e professores um encontro entre o texto narrado e o texto encenado.
Em 2007, o autor visitou o Japão, pela primeira vez, integrado no GROUP TOUR PROGRAM FOR SECONDARY SCHOOL EDUCATORS, programa organizado pela Japan Foundation, que reuniu 72 professores de 24 países.
Após a viagem, publicou o livro Itinerários de Espanto – uma viagem por escolas e cidades japonesas, em co-autoria com os professores José Cunha e Paulo Martins, participantes no mesmo programa, com o apoio da Embaixada do Japão, da Direcção Regional de Educação de Lisboa e Vale do Tejo e da Fundação Oriente.
Em Março de 2011, organiza uma visita de estudo a Tóquio com os alunos do Clube de Jornalismo da escola onde ensina, tendo sido surpreendidos pelo grande terramoto de Tohoku."
Contacto do autor ojcf@iol.pt
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