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Roda Dos Livros

O Leiteiro de Mäeküla - Eduard Vilde (Cavalo de Ferro)

Roda Dos Livros, 31.03.13
43. O Leiteiro de Mäeküla

Muitos livros são preteridos para um segundo plano tendo em conta os títulos e até as capas escolhidas nem sempre são as mais adequadas ou apelativas ao potencial leitor. Tal é o caso do livro O Leiteiro de Mäeküla (1916), a obra de referência do estónio Eduard Vilde e único título traduzido em português.Eduard Vilde é um dos precursores do realismo na Estónia mostrando-nos uma sociedade ainda com características feudais sobretudo na relação entre os senhores detentores de terras e os seus trabalhadores. Para além deste aspeto, Eduard Vilde faz um retrato bastante interessante da sociedade, nomeadamente em relação àquilo que ambicionamos na vida e as suas condicionantes, oportunidades que são aproveitadas e outras que ficam pelo caminho, decisões que tomamos que nos condicionam porque o verdadeiro empenho ficou aquém do necessário e o sonho ficou pelo caminho.Eduard Vilde é simultaneamente um crítico em relação à religião colocando Deus e o Diabo no mesmo patamar deixando o homem entregue a si próprio e aos seus atos como garantia de alcançar a felicidade.O Leiteiro de Mäeküla (1916) é uma das pérolas da literatura ocidental e que continua ainda bem escondida à espera de surpreender muitos leitores.

A minha sinopse:

Ulrich von Kremer é um nobre alemão que possui a herdade Mäeküla, nas proximidades de Tallinn, na Estónia. Trata-se de um senhor já com uma certa idade e que no essencial deixou tudo para trás na sua vida. Primeiro porque ainda tinha muito tempo para contrair o matrimónio; depois por pudor. Este limbo distanciou-o de certas vivências até que não querendo admitir, apaixonou-se por Mari, a esposa de Prillup, um dos trabalhadores da herdade. Herr Kremer, gozado por muitos e temido por outros, vai tomar uma decisão importante na sua vida: propõe a Prillup o cargo de responsável da leitaria de Mäeküla desde que este convença Mari, a sua jovem esposa a tornar-se amante do patrão...

Excertos:

vild01"Quem é que te há de dar seja o que for sem pedir nada em troca? A quem é que hás de tu ir tirar essa riqueza? Não somos esse tipo de gente, que ande para aí a tirar coisas aos outros (...). Talvez se alguma coisa estiver mesmo debaixo do nosso nariz, a gente queira ir lá e levá-la. Mas quando lá chegamos vemos que alguém já lá passou e a levou. (...) Mais vale nem desejar nada, nem sequer pensar nisso. Descansa mas é o teu corpo à noite e podes ter a certeza que hás de tirar a cabeça da almofada de manhã até que, certa manhã, há de ser a última vez que a tiras da almofada porque depois o dia amanhece e tu hás de estar frio e duro." (p. 87)

"Tinham acabado de vir da igreja e ele começou a falar meio sozinho, com voz zangada. A perguntar a quem é que devia rezar para ficar rico. A Deus ou ao diabo? Porque o Diabo é que dizem que tem pelos, Deus não. Nunca ninguém ouviu falar de Deus ser peludo. Então ele disse-me, muito irritado: «O melhor é não rezar a nenhum. Não há de servir para nada. Peixe salgado e pão hás de ter sem precisar de rezar.»" (p. 88)

"(...) Às vezes um homem põe-se a pensar, especialmente quando somos jovens: porque não apertar o cinto, pôr um chapéu na cabeça e partir aí pelo mundo? A gente pensa, se houve mais quem encontrou coisas boas, porque não eu? E talvez a gente encontre mesmo qualquer coisa que valha a pena, se tivermos sorte. Não somos piores do que os outros; temos olhos para ver e ouvidos para ouvir, como toda a gente, e se às nossas mãos lhes faltar a destreza, elas logo aprendem, acho eu, porque têm articulações, não são rígidas como paus. Assim, dava para sair deste buraco pantanoso de uma vez por todas. (...) Eu bem penso em ir embora, mas nunca vou. Vou até à porta mas depois nunca consigo passar para o outro lado. É como se houvesse alguém a segurar-me." (pp. 88-89)

"O avô tinha o costume de brincar com as crianças, e quando se dedicava a alimentar-lhes algumas pérolas de sabedoria, pelo meio dos jogos e das brincadeiras, o conselho que mais frequentemente lhes repetia era o de que não perturbassem, sob pretexto algum, Deus Nosso Senhor com orações. Os queixumes e os desejos humanos não lhe deviam ser endereçados, pois que Deus tinha assuntos mais importantes para tratar: tinha de encaminhar o sol e a lua nas suas órbitas, tinha que acender as estrelas, fazer o clima, substituir a lua velha e gasta por uma nova todas as quatro semanas..." (p.125)

" Ano do Dilúvio " de Margaret Atwood

Roda Dos Livros, 31.03.13

Considerada a maior escritora canadiana da actualidade, Margaret Atwood possui uma vasta obra que abrange praticamente todos géneros literários, desde o romance ao ensaio, passando pelos contos,  ficção infantil e poesia. É muito conhecida pela criação de sociedades distópicas que designa por “ficção especulativa” e que muitos classificam como ficção científica.  Este é o caso de “O ano do dilúvio” cuja história ocorre num tempo indefinido, algures no futuro e num país não claramente identificado mas situado na América do Norte.  Este é um mundo de clima alterado, povoado por estranhas criaturas transgénicas e dominado por poderosas corporações cujos membros e funcionários vivem isolados em complexos luxuosos enquanto que grande parte da população habita em enormes bairros degradados controlados por máfias. Apenas uma pequena seita religiosa desprezada, quer pelas corporações, quer pela população das “peblarias”, e que insiste em seguir um modo de vida mais próximo da natureza, actua como contraponto à conduta predatória das corporações. O seu líder prevê a ocorrência de uma catástrofe, o “Dilúvio Seco” que se abaterá sobre a sociedade com efeitos devastadores. A narrativa alterna entre o tempo antes deste apocalipse e o tempo imediatamente após, através das memórias e vivências de duas mulheres, Toby e Ren. No desenrolar da sua interessante trama, este livro aborda, quase sem se dar por isso, temas extremamente actuais como a ganância das grandes corporações, o papel da ciência nas sociedades, a ecologia, a transgénese de animais e alimentos, a violência, o consumo de drogas, a condição feminina e até a eutanásia.  A escrita da autora prendeu-me de imediato, levando-me a ter pena de interromper a leitura sempre que tive de o fazer.  Apesar de ter ficado com a sensação que, por vezes, a tradução ficou aquém do que a obra merecia, especialmente nos textos em forma de verso que fecham ou abrem muitos dos capítulos, esta foi uma leitura que apreciei imenso e que recomendo a todos aqueles abertos a leituras diferentes do realismo preponderante na ficção actual.

Sinopse:

O sol já brilha no céu, dando ao cinzento do mar o seu tom avermelhado. Os abutres secam as asas ao vento. Cheira a queimado. O dilúvio seco, uma praga criada em laboratório pelo homem, exterminou a humanidade. Mas duas mulheres sobreviveram: Ren, uma dançarina de varão e Toby, que do alto do seu jardim no terraço observa e escuta. Está aí mais alguém?

A cor do hibisco - Chimamanda Ngozi Adichie

Roda Dos Livros, 31.03.13

250_9789892308531_a_cor_do_hibiscoA vida pelos olhos de Kambili. Observadora mas pouco conhecedora da realidade além da casa da família. Vive com os pais e o irmão. O mundo é o que o pai lhes diz que é. Regras rígidas baseadas num fundamentalismo religioso violento, que educa pelo medo e pela opressão.

Gosto de aprender com os livros, de conhecer outras culturas e realidades, de enquadrar a vida das personagens e comparar o que se passava, na mesma época, em outros locais do mundo.

A cor do hibisco é um livro poderoso, muito bem escrito, sobre a família, sobre a essência do que é ser uma família. Mas se é muito completo no que toca uma história bem contada, é francamente pobre no enquadramento cronológico e histórico. Confesso a minha ignorância sobre a História da Nigéria, desconheço as razões dos conflitos políticos na origem dos golpes de estado, assim como a sequência de datas e quais os acontecimentos mundiais contemporâneos da ação desta história.

Apesar de só depender de mim procurar informação e atualizar os meus conhecimentos, gosto quando um livro desempenha essa função. Senti que este livro foi escrito para os Nigerianos, para quem está familiarizado com hábitos religiosos e condicionantes políticas do país.

Mas este é o único ponto negativo que encontrei num livro que explora emoções e sentimentos que uma forma extremamente real. A família de Kambili é abastada. O pai é um importante membro da sociedade, admirado por muitos e sempre disposto a ajudar os mais necessitados. No entanto é um homem completamente entregue à religião. Aqui também verifiquei os meus parcos conhecimentos acerca deste país, da forma como me surpreendi por se tratar de uma família Cristã.

Nos bastidores de uma vida exemplar habita um homem que, apesar de ser reconhecido e apreciado pela comunidade, cria um ambiente de constante terror dentro da sua própria casa. Os padrões de exigência que estipula em relação aos filhos implicam castigos extremamente violentos se os seus planos não são cumpridos. Mãe e os dois filhos são escravos das vontades do pai mesmo vivendo rodeados de luxo e abastança. Inevitavelmente, quando Kambili se apercebe da realidade da vida dos primos que, apesar de enfrentarem duras provações financeiras, vivem num ambiente de alegria e verdadeiros laços de amizade, começa a colocar em causa a sua suposta vida ideal.

Uma reflexão sobre o que realmente importa. Um tema já amplamente abordado mas que faz sempre pensar no que são (ou deveriam ser) as prioridades de todo e qualquer ser humano. Percorrer o caminho para ser livre e feliz.

A cor do hibisco é um relato sobre esse percurso de descoberta, sobre o alargar de horizontes, sobre colocar em causa o que até então se considerou suficiente, e querer acreditar que há toda uma realidade a descobrir para lá das limitações impostas.

Uma oportunidade de leitura que surgiu de forma inesperada para um livro que estava na minha lista há algum tempo. Gostei pela sua leitura empolgante e repleta de interesse. Recomendo e gostaria de “discutir” a autora e a sua obra com quem o leu ou vier a ler.

Sinopse

“Os limites do mundo da jovem Kambili são definidos pelos muros da luxuosa propriedade da família e pelas regras de um pai repressivo. O dia-a-dia é regulado por horários: rezar, dormir, estudar e rezar ainda mais. A sua vida é privilegiada mas o ambiente familiar é tudo menos harmonioso. O pai tem expectativas irreais para a mulher e os filhos, e pune-os severamente quando se mostram menos que perfeitos. Quando um golpe militar ameaça fazer desmoronar a Nigéria, o pai de Kambili envia-a, juntamente com o irmão, para casa da tia. É aí, nessa casa cheia de energia e riso, que ela descobre todo um novo mundo onde os livros não são proibidos, os aromas a caril e a noz-moscada impregnam o ar, e a alegria dos primos ecoa. Esta visita vai despertá-la para a vida e o amor e acabar de vez com o silêncio sufocante que a amordaçava. Mas a sua desobediência vai ter consequências inesperadas... Uma obra sobre a ânsia pela liberdade, o amor e o ódio, e a linha ténue que separa a infância da idade adulta, que marcou a estreia de uma escritora extraordinária.”

Asa, 2010

O Apogeu de Miss Jean Brodie - Muriel Spark (Ahab Edições)

Roda Dos Livros, 31.03.13
31. Brodie

O Apogeu de Miss Jean Brodie (1961) é considerada a melhor obra da escocesa Muriel Spark tendo sido adaptada ao teatro e ao cinema.Num livro apaixonante que retrata o início dos anos 30 em Edimburgo, Miss Brodie é professora num colégio feminino conservador e é apontada pela diretora e suas colegas como uma professora demasiado progressista para a época.É certo que as suas devotas alunas poderão não saber qual é a capital da Finlândia, mas certamente aprenderão muitas outras coisas úteis à vida sem por isso obterem resultados inferiores aos das suas outras colegas do colégio.Em cada ciclo de estudos, Miss Brodie recruta um grupo de meninas com potencial para as levar longe nas suas vidas sob o lema "A arte é maior do que a ciência", dizendo-lhes "A Bondade, a Verdade e a Beleza vêm primeiro. Sigam-me".Conseguirá a metodologia de Miss Brodie assente no "think for yourself" ultrapassar barreiras impostas?Uma conclusão é certa: "Havia uma tal Miss Jean Brodie no seu apogeu".

Mais um livro obrigatório que nos prende até ao fim!

Excertos:

30 Muriel Spark

"E não foi uma Miss Brodie estagnada que disse às suas alunas «Estes são os anos do meu apogeu. Vocês estão a beneficiar do meu apogeu», mas sim alguém que estava a crescer diante dos olhos delas, enquanto elas próprias estavam a receber formação. O apogeu de Miss Brodie ainda continuava a desenvolver-se quando aquelas meninas já iam bem avançadas nos seus anos de adolescência." (p. 53)

"[Miss Brodie] ia sempre à igreja ao domingo de manhã, fazia uma escala por diversas comunidades religiosas e seitas, que incluía as Igrejas Livres da Escócia, a Igreja Oficial da Escócia, as igrejas Metodista e Episcopal, e qualquer outra igreja fora do âmbito católico-romano que ela descobrisse. A sua desaprovação da Igreja de Roma baseava-se nas suas asserções de que era uma igreja de superstição e que só quem não queria pensar pela própria cabeça é que era católico romano."

O Legado de Nhô Filili - Luís Urgais (Oficina do Livro)

Roda Dos Livros, 31.03.13
54. O Legado de Nhô Filili

O Legado de Nhô Filili de Luís Urgais é uma verdadeira surpresa no que respeita às recentes publicações no mercado literário, nomeadamente ao nível do romance histórico. Trata-se de um livro que é apaixonante desde a primeira página capaz de fomentar o desejo de pegar nas malas e ir de viagem para Cabo Verde explorando a realidade de cada uma das suas ilhas.A escrita de Luís Urgais é simples e não é pretensiosa, sendo, pois, os grandes trunfos do escritor. Nitidamente conhecedor da sociedade de Cabo Verde ao longo da História, O Legado de Nhô Filili conta-nos a história de João Bento Rodrigues, filho de minhotos que nasceu na ilha do Fogo e que foi durante muitos anos o diretor-geral das Alfândegas de Cabo Verde. Nhô Filili como ficou conhecido, era um homem bastante respeitado um pouco por todo o arquipélago por parte de todas as camadas da sociedade: brancos, mestiços e negros.A vida de Nhô Filili muda completamente assim que compra a escrava Guida por quem se apaixona perdidamente e com quem contrai matrimónio chocando a sociedade do seu tempo.Pessoa íntegra e culta, Nhô Filili procura inculcar estes valores na sua família assumindo inclusivamente a paternidade de um filho que teve com uma concubina.O Legado de Nhô Filili percorre perto de um século de história, desde 1869, ano do nascimento de João Bento Rodrigues, e ano em que foi decretada a abolição da escravatura, passando pelo fim da monarquia, a primeira República e ainda as primeiras décadas da ditadura.Concluindo, O Legado de Nhô Filili é um livro magistral, muito visual e apaixonante tendo todos os ingredientes para ser adaptado ao grande ecrã.Leitura bastante recomendada!

Excertos:

"João Bento Rodrigues de Abreu Fernandes - que ficaria conhecido como Nhô Filili - nasceu na ilha do Fogo, por ironia do destino, em 1869, ano em que a monarquia portuguesa decretou a abolição da escravatura. O arquipélago de Cabo Verde constituía há séculos um dos mais importantes entrepostos do tráfico negreiro: indivíduos capturados nas enseadas dos rios e na costa da Guiné eram trazidos até ali para serem embarcados em condições miseráveis em direção à América e à Europa, onde faziam todo o tipo de serviços pesados e desprezíveis. Em Lisboa, negros e mestiços eram, desde o século XVI, uma percentagem significativa da população, e limpavam latrinas, carregavam pesos que nem jumentos, lavavam roupa no Tejo, no Trancão e nas ribeiras, cavavam hortas nos arrabaldes, serviam nas casas particulares, nas oficinas." (p. 7)

48 Luís Urgais"Quando comiam com gosto e os músicos começaram a fazer vibrar violinos e cavaquinhos, chegou uma mulher 'bêtche' [velha] com uns pedacinhos de queijo de cabra embrulhados num guardanapo limpíssimo. Filili não podia crer nos seus olhos: era, nem mais nem menos, a prenda do povo de Chã das Caldeiras aos ilustres visitantes! Os bocadinhos de queijo eram o único presente possível de gente tão parca em haveres mas de tão grande generosidde. O diretor-geral e o amigo Teixeira entreolharam-se, indecisos quanto ao facto de aceitarem. Mas, sem uma palavra, concluíram que a rejeição seria uma desfeita para os locais, pelo que, pouco ou muito, partilharam entre todos tudo o que havia de comer e beber (...)" (p. 93)

"Eu assumo que, em determinação de Sua Santidade Pontifícia, ando em pecado pelo facto de não cumprir com o celibato de Roma, mas tenho plena consciência de que procuro na Terra praticar a justiça, como nos ensinou Jesus Cristo, no amor ao próximo. Desafio todos aqueles que afirmam não pecar a atirar-me uma pedra. Tenho em casa uma concubina porque o Direito Canónico não me concede o santo matrimónio. No entanto, para todos os efeitos, trato com respeito essa mulher que, pela graça de Deus, me deu três filhos, ao invés daqueles que partilham o leito com mulheres alheias e as deixam nos mais míseros limites humanos. A esses a nossa oligarquia sacerdotal tudo encobre, fazendo dos biltres pecadores anjinhos beatificáveis." (p. 115)

"Lanço, pois um repto, um apelo à unidade e à dignidade humana: façamos da postura social do pai do nosso José, o antigo e digníssimo diretor-geral das Alfândegas de Cabo Verde, o exemplo da nossa luta; ou seja, assumamos o amor pelas nossas pátrias com coragem, tal como ele assumiu o amor por uma escrava da Guiné, com quem veio a casar-se. Enfrentemos, pois, a vileza das leis que nos subjugam, como ele enfrentou as convenções e a hipocrisia de uma sociedade racista. Nhô Filili, como é conhecido, simboliza, para mim, o pai que é a Europa do Sul, e Nha Guida, a mãe África, tendo ambos dado ao mundo o novo homem, o mestiço, biológica e culturalmente falando. Os meus parabéns a José, que tão bem tem sabido honrar pai branco e madrasta negra. Sejamos cidadãos livres e dignos, sejam quais forem a cor das nossas epidermes, os nossos credos religiosos ou as nossas convicções políticas: brancos impolutos como Filili ou o professor Caraça, negros e negras inteligentes, corajosos e briosos como Nha Guida, mulatos distintos e superiores como o José, o Tenreiro, o Almada e o Viriato, isto só para falar de alguns dos presentes." (pp. 214-215)

Não Humano - Osamu Dazai (Eucleia Editora)

Roda Dos Livros, 30.03.13
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Osamu Dazai (1909-1948) é um dos escritores mais importantes da literatura japonesa do século XX. Não Humano foi a sua última obra publicada em 1948 sendo também a única traduzida em português.

Yozo era uma criança diferente de todas as outras crianças. Tinha medo de todos os outros humanos à sua volta que mesmo gostando muito dele isso afligia-muito, dilacerando-o mesmo profundamente. Yozo sempre desejou ser pintor, mas o seu sonho ficou por concretizar porque o seu pai obrigou-o a frequentar um outro curso. Assim que chegou a Tóquio, Yozo sentiu-se ainda mais sozinho e deprimido ainda que estivesse no meio de milhões de pessoas. Só a ideia de poder eventualmente cruzar-se nas ruas com algum rosto conhecido assustava-o tremendamente. Um amigo ajudou-o a conhecer a grande cidade assim como iniciou-o nos mistérios do sexo e da bebida. A sua dificuldade em integrar-se na sociedade era de tal forma grande que Yozo encarava o sexo e a bebida como os seus principais neutralizantes para o dia-a-dia entrando numa espiral de dependência e depressão.

Excertos:

"Ouvi, depois, uma palestra sobre a economia marxista, proferida por um jovem senhor, extraordinariamente feio, que era o convidado de honra. Tudo o que ele disse pareceu muito óbvio, e sem dúvida verdadeiro, mas tinha a certeza que algo mais obscuro e mais assustador se escondia nos corações dos humanos. A ganância não o cobria, nem a vaidade. Nem era uma simples combinação de luxúria e ganância. Não estava convicto do que seria, mas tinha a certeza de que havia algo inexplicável no fundo da sociedade hmana que não podia ser redutível a economia." (pp. 46-47)

"Tentei, na medida do possível, evitar envolver-me nas complicações sórdidas do ser humano. Tenho medo de ser sugado pelos seus remoinhos sem fundo." (p. 61)

"A maioria das mulheres só tem de fixar os olhos em ti para quererem fazer algo por ti de forma tão intensa que nem aguentam... És sempre tão tímido, mas mesmo assim engraçado... Por vezes, ficas terrivelmente só e deprimido, mas isso só faz o coração de uma mulher desejar-te ainda mais." (pp. 82-83)

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"A sociedade. Senti que finalmente começava a adquirir uma vaga noção do que isso significava. É a luta entre um indivíduo e outro, uma luta ali e acolá, na qual o triunfo imediato é tudo. Os humanos nunca se submetem a humanos. Até os escravos praticam as suas vis retaliações. Os humanos não conseguem conceber quaisquer outros meios de sobrevivência exceto a competição. Falam de dever para com o país e coisas desse tipo, mas o objeto dos seus esforços é, invariavelmente, o indivíduo, e o indivíduo surge novamente mesmo quando as suas necessidades estão satisfeitas. A incompreensibilidade da sociedade é a do indivíduo." (p. 90)

Numa Mesma Noite - Leopoldo Brizuela (Alfaguara)

Roda Dos Livros, 30.03.13
Numa Mesma Noite

Numa Mesma Noite é o mais recente romance do argentino Leopoldo Brizuela distinguido com o Prémio Alfaguara Romance 2012.

Leonardo Bazán ao assistir a um assalto à casa dos vizinhos é de imediato confrontado com a recordação de um assalto idêntico à mesma casa trinta e seis anos antes, em 1977, quando tinha apenas 13 anos. O assalto dessa longínqua noite fora perpetrado por forças da autoridade da então ditadura militar vigente na Argentina.

Foi preciso um acontecimento semelhante ter acontecido para Leonardo Bazán tomar verdadeiramente consciência de que algo o houvera marcado psicologicamente durante quase toda a vida para agora, em adulto, sentisse necessidade de perceber exatamente o que aconteceu nesse fatídico dia envolvendo o seu pai e a vizinha da casa em frente, compreendendo de igual modo a sua relação com o regime político de então.

Leonardo Bazán rapidamente compreende que apenas conseguirá compreender o sucedido através da literatura que será a sua redentora neste processo de dissecação penosa da memória e do passado à medida que vai escrevendo um livro.

Mas conseguirá Leonardo Bazán redimir-se através da escrita à medida que desvenda todas as fendas desse passado que obrigou-se a si mesmo a ocultar?

Serão culpados apenas aqueles que provocaram o medo e o terror a terceiros ou também aqueles como Leonardo Bazán terão de assumir a sua quota-parte de culpa por cobardia em não ter trazido à luz em tempo útil a verdade dos factos?

Não se tratando de uma obra autobiográfica, Numa Mesma Noite embarca-nos numa viagem à Argentina quando esteve sob o domínio da ditadura militar entre 1976 e 1983 que mergulhou o país num período de duras perseguições e mortes de todos aqueles que de alguma forma constituíssem uma ameaça à ordem estabelecida. Ainda que todos os personagens desta obra sejam ficção, todas as entidades e organizações indicadas existem ou existiram.

Numa Mesma Noite  de Leopoldo Brizuela articula de modo notável a história de um indivíduo e até de uma família com a história de um país fazendo uma dura viagem não só no tempo, mas sobretudo uma dolorosa viagem pela consciência.

Excertos:

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"Talvez só a literatura fosse capaz de me perdoar. A literatura, esse futuro leitor.(...)Compreendo que a escrita é um modo único de iluminar a conexão entre o passado e o presente. E isso encoraja-me a começar: não como quem informa, mas antes como quem descobre." (p. 41, 46)

"Porque me será tão difícil recordar aquela época? Apenas porque nela tinham acontecido coisas monstruosas? Ou porque fora testemunha de que qualquer pessoa é capaz de se transformar num monstro, e isso é intolerável?" (pp. 138-139)

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“No autocarro que me trouxe de volta, uma imagem insistia em atormentar-me: tal como eu me dirigia irrevogavelmente a Tolosa, a morte também vinha, irrevogavelmente, em direcção a mim. Irrevogavelmente.

Ou era apenas o meu silêncio? Essa forma de morte que implica não conseguir escrever. Suspeitar uma vez mais de que nunca tinha escrito nada. Que nunca haveria de conseguir escrever nada.

Que a antiga ilusão de escrever sobre o horror, de o mencionar, para poder livrar-me dele, era irrealizável; apenas a ilusão que me permitia continuar a escrever e um dia, quando muito, conseguir encarar, frente a frente, a sua escuridão.

Todos estávamos encurralados numa trama de horror; e, provavelmente, todos éramos necessários para que essa trama subsistisse. Mas quem, de entre nós, deveria ser condenado? (…)

Eram igualmente culpados, e merecedores de igual castigo, aquele que matou e torturou e aquele que não se atreveu a enfrentar o terror? E, ainda hoje, quem apontava o dedo e se julgava no direito de aplicar o castigo, poderia considerar-se verdadeiramente inocente? Ou só acusamos para não sermos obrigados a ver que o mal que reside no outro também espreita em nós? Oh, só o dom da piedade seria capaz de nos salvar.

Piedade, pedi. Piedade.

Mas já era tarde de mais para isso.” (pp. 265-266)

Pão e Amor - Knut Hamsun (Guimarães Editores)

Roda Dos Livros, 30.03.13
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Pão e Amor (Markens Grøde, 1917) também conhecido por Os Frutos da Terra foi a primeira obra de Knut Hamsun publicada em Portugal em 1942 tendo sido a obra com que o escritor norueguês ganhou o Prémio Nobel de Literatura em 1920.Pão e Amor é de tal forma significativa no percurso do escritor na medida em que a terra é apresentada como a principal fonte de riqueza do homem conduzindo à sua realização e felicidade.É perfeitamente visível nesta obra a clara oposição do escritor ao mundo industrializado do ocidente na transição do século XIX para o século XX tendo em conta que o desenvolvimento de um país não pode de todo assentar nas máquinas e no dinheiro não tornando o homem necessariamente mais feliz. O homem é apresentado como um dos elementos da natureza e é nela que deverá conhecer a verdadeira felicidade. Knut Hamsun não descura o papel das cidades comparativamente com o mundo rural na medida em que a cultura da cidade não deixa o homem indiferente à música, ao teatro, à ópera, e até a linguagem e o requinte das pessoas.É notório ao longo da obra que todos aqueles que passam pela cidade tornaram-se pessoas diferentes, menos rudes, mais civilizadas e com vontade de conhecer o resto do país e o mundo, porém, a felicidade só é verdadeiramente encontrada quando os vários personagens regressam ao mundo rural vivendo em comunhão com a natureza.Relativamente ao quadro de pensamento, Pão e Amor abarca duas gerações de pessoas e não deixa de ser interessante as diferentes formas de aplicação da justiça perante casos idênticos, nomeadamente o infanticídio, uma prática comum e aceite em determinados aspetos, o que é curioso que para uma obra publicada inicialmente em 1917, mantém-se não só bastante atual, como simultaneamente na vanguarda de novas ideias quando as comparamos com o nosso atual quadro de valores.Para quem já leu outras obras de Knut Hamsun recentemente publicadas em português, não vai querer certamente perder a oportunidade de ler Pão e Amor que desde 1942 está a aguardar uma nova edição. Diria mesmo, o mundo ocidental está carente por Pão e Amor mais do que nunca, sendo esta uma obra em que o escritor nos está a falar ao ouvido como que profetizando o futuro da nossa civilização.Se a Fome do mesmo escritor ocupa um lugar especial nas estantes lá de casa, esperem até ler Pão e Amor!

Excertos:

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"O homem chega, subindo em direção ao norte. Traz consigo um saco, o seu primeiro saco, cheio de comestíveis e com mais meia dúzia de utensílios dentro. É robusto e rude; tem uma barba ruiva, intonsa; há cicatrizes em seu rosto e suas mãos: testemunhos de trabalho ou de guerra. Talvez se oculte ali para fugir a castigo, ou talvez seja um filósofo que aspire à paz; eis como surgiu o primeiro ser humano no seio dessa pavorosa solidão. Vai, prossegue sempre. Ao seu redor, os pássaros e os bichos da terra. Às vezes murmura algumas palavras de si para consigo: «Oh, meu Deus!»" (p. 17)

"- A ocasião há de voltar. Por agora, forço-os a paralisarem a exploração. Aquela gente não passa de umas crianças. (...) Isto não causará dano ao país, se a mina não andar mais para a frente. Pelo contrário! Os homens aprenderão a cultivar suas terras. Padecerão, porém, os da aldeia; ganharam, aliás, dinheiro demais neste verão último. (...) Como é que a gente dali se havia de resignar a viver tão simplesmente como antes da abertura dos trabalhos da empresa? Tinham-se criado hábitos de comer pão branco, de vestir com mais apuro, de ganhar bons salários; as pessoas tinham-se tornado gastadoras. E eis que o dinheiro se lhes escapava, à maneira de um cardume de arenques que, por fim, se faz ao largo e desaparece! Que fazer, meu Deus, numa penúria assim?!" (pp. 233, 257)no-nb_sml_ 176

"Vê tu o que se dá com vocês na Sellanraa! Conservam perpetuamente diante dos olhos o espetáculo das azuladas serranias. Não se trata de quaisquer novas invenções: trata-se da montanha, que se ergue ali desde a criação do universo, profundamente enraizada no passado. Ela faz-lhes companhia; vocês vivem em comunhão com o céu e com a terra, com essa imensa natureza dotada de raízes indestrutíveis. Vocês não necessitam de utilizar espadas: caminham sem armas, cabeça ao léu, cheios de confiança no mundo que os rodeia. O homem e a natureza não travam combates entre si: estabelecem perfeito acordo. A montanha e a floresta, a planície e o pântano, o céu e as estrelas. Ah! isto não são coisas que se avaliem miseravelmente: não há craveira que as meça. Escuta-me, Sivert! Deves sentir-te satisfeito com a tua sorte. Vocês possuem tudo quanto é preciso para viver, e para atribuir uma finalidade à existência e para inspirar fé. Nascem e multiplicam-se; são necessários à face da terra. Necessários, sim! Nem toda a gente o é! Mantêm a vida, transmitem a vida de geração em geração: é este o sentido da vida eterna." (pp. 300-301)growth-soil-knut-hamsun-paperback-cover-art"- Tanto se me dá, pois, pressa, não tenho nenhuma. Ah! se tu tivesses visto a cara do engenheiro! Ele tinha trazido para aqui um exército de operários e cavalos e máquinas, tinha espalhado dinheiro às mãos cheias, tinha posto tudo de pernas para o ar; inundou a região com o seu dinheiro e, afinal de contas, sem qualquer outro resultado diverso do de ampliar o desastre. Não é o dinheiro que faz falta aqui: o que falta são homens como o teu pai, homens que saibam manejar as avarelas da charrua em vez de arriscarem a fortuna em lances de jogo de dados. Os outros, como esses da mina, não sabem acertar o seu passo com o da vida: querem ir mais depressa, correr, correr, até à catástrofe.  Pretendem penetrar na vida à maneira de cunha; e quando a cunha sente que a pressão é demasiada, ela grita: «Parem! Não posso mais». Mas é já muito tarde! A vida aperta-a e esmaga-a." (p. 302)

A Ilha - Sándor Márai (Dom Quixote)

Roda Dos Livros, 30.03.13
79. A Ilha

Em A Ilha, Viktor Askenasi, embarca numa viagem interior alucinante fruto da crise da meia idade pela qual está a passar. Aparentemente com uma vida familiar e profissional estáveis, Askenasi conhece uma mulher por mero acaso com quem se envolve deixando tudo para trás. A frustração e infelicidade sentidas no seu âmago rapidamente dão lugar à mais alucinante sensação de liberdade à medida que se envolve com a bailarina russa.Mas nem tudo são rosas para Askenasi que sendo um pensador por excelência e claramente influenciado pelos Gregos e por Platão em especial, a busca da Ideia de felicidade atormenta-o procurando respostas na amante e nos outros, embarcando, desta forma, numa aspiral de dilacerante sofrimento que culmina numa verdadeira tragédia grega, cumprindo, neste sentido, o seu próprio destino.

A busca incessante da felicidade é o tema central desta obra e simultaneamente o objetivo da vida de cada um sendo que essa tomada de consciência poderá ser mais ou menos dolorosa consoante as circunstâncias da vida. Esse processo quando tornado excessivamente consciente poderá produzir efeitos contrários aos desejados conduzindo a uma infelicidade imensa.

Notoriamente mais filosófico do que outras obras de Sándor Márai, A Ilha apresenta-se como um dos livros obrigatórios do escritor tornando-se igualmente num dos livros de cabeceira para ler e reler vezes sem conta.

Excertos:

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"Tinha a noção de que nunca, em nenhuma situação, voltaria a sentir esse pudor peculiar, nem vergonha, como agora, cara a cara com a mulher que sabia tudo sobre ele, inclusive que ele estaria disposto a praticar misericórdia e que o faria logo que pudesse. Baixou a cabeça e esfregou o queixo. «As pessoas preferem as coisas simples», pensou novamente com sereno ressentimento. «Por exemplo, aventura. Por exemplo matrimónio.» Parecia-lhe que o matrimónio era algo completamente impúdico. «Com Anna não se podem fazer aquelas coisas - pensou escusando-se, quase assustado -, o matrimónio não foi criado para isso. Só se podem fazer com uma desconhecida. Mas com uma pessoa que sabe tudo sobre nós, não se podem fazer essas coisas, só se podia enquanto ainda era desconhecida...» Lembrou-se de que amara muito Anna, de tudo o que tinham feito juntos nos primeiros anos de casamento, naquele quarto quando ainda «eram desconhecidos um para o outro» e existia um certo mistério entre eles. Quando desapareceu o mistério começou o pudor."  (p. 78)

“Já levava três meses que Askenasi vivia com a mulher desconhecida, quando começou a notar com surpresa que a felicidade ou o prazer, ou seja, aquele estado anímico extraordinário que se costuma considerar como a única recompensa pelos sofrimentos terrestres, na realidade era muito pouco parecido com aquilo que havia imaginado. O que estava vivendo era sem dúvida felicidade, mas às vezes parecia-lhe que era um estado incómodo, complexo e, no fim de contas, pouco agradável. Mas o que mais o incomodava era a intensidade de tal sentimento, porque tinha uma componente exagerada, forçada, como se tivesse de andar todo o dia com sobrecasaca e chapéu. Começou a compreender que a felicidade não se podia considerar uma propriedade privada que se adquire de um momento para o outro, com uma herança da qual, posteriormente, só é preciso cuidar e evitar que seja roubada ou perca o seu valor. Tinha que a descobrir em cada meia hora, em cada minuto; manifestava-se sem aviso e, em termos gerais, era mais cansativa e irritante do que agradável e tranquilizadora.” (p. 81)

"«Já vivi muitas coisas», refletiu com satisfação. «Quase a vida toda. Na realidade falta pouca coisa...» Recordava-se feliz do trabalho feito, tinha cumprido praticamente todas as suas obrigações, tinha vivido conforme as exigências das circunstâncias e da sociedade, apenas depois tinha seguido uma vida distinta, orientando-se com os instrumentos do corpo, e agora não tinha mais nada para fazer do que procurar a resposta à pergunta. Mas porque é que tinha sofrido sempre de uma forma tão vergonhosa? Qual era o objetivo da ideia relativamente ao ser humano, infligindo-lhe tormentos humilhantes sem fim? Porque é que não conseguia encontrar satisfação? Ainda faltava dar resposta a essa pergunta. Considerou humilhante ter sucumbido de uma forma tão ridícula, e agora tinha que vaguear pelo mundo à procura da resposta noutras mulheres, tentar descobrir respostas parciais nos livros, perguntar a outros homens. «De pouco me serviram os métodos», pensou maldisposto."  (p. 103)

[caption id="attachment_786" align="aligncenter" width="300"]Kosice Marai-001 Escultura de Sándor Márai em Košice (Eslováquia), cidade natal do escritor[/caption]

                       

 

O Museu da Rendição Incondicional - Dubravka Ugrešić (Cavalo de Ferro)

Roda Dos Livros, 29.03.13
Museu

O Museu da Rendição Incondicional é uma das obras incontornáveis da literatura ocidental dos últimos anos. Dubravka Ugrešić inicia esta viagem com a referência à exposição-museu que se encontra no Jardim Zoológico de Berlim que contém os objetos que foram engolidos involuntariamente por Roland, a morsa. A partir desta invulgar exposição, a autora avança para os objetos que cada indivíduo coleciona ao longo da sua vida, podendo cada um de nós realizar uma exposição alusiva ao “quem sou eu?” O que une cada um dos objetos colecionados é a memória individual que remete para a história de cada um. Numa escala ainda mais alargada e utilizando uma das expressões da autora, todos nós somos “uma raça de museu” em virtude de sermos “peças de museu ambulantes” sobretudo quando se tem como objetivo reconstituir uma determinada memória coletiva.

DubravkaExilada em Berlim durante a guerra dos Balcãs, Dubravka Ugrešić, viaja pelas memórias de uma ex-Jugoslávia desmantelada pela guerra, procurando na cidade que a acolhe as suas múltiplas máscaras de passado-presente questionando simultaneamente o futuro da região que foi o seu mesclado país. Em suma, O Museu da Rendição Incondicional é uma obra que questiona o sentido da História.

Primeiras duas páginas de O Museu da Rendição Incondicional:

"No jardim zoológico de Berlim, ao lado da piscina que contém a morsa viva, há uma exposição invulgar. Num mostruário de vidro estão todas as coisas encontradas no estômago de Roland, a Morsa, que morreu a 21 de agosto de 1961. Ou mais precisamente:

um isqueiro cor-de-rosa, quatro paus de gelados (de madeira), um broche de metal em forma de poodle, um abre-garrafas, uma pulseira de senhora (de prata, provavelmente), um gancho de cabelo, um lápis de madeira, uma pistola de água de plástico de criança, uma faca de plástico, óculos de sol, uma pequena corrente, uma mola (pequena), um anel de borracha, um pára-quedas (brinquedo infantil), uma corrente de aço com cerca de 46 cm de comprimento, quatro pregos (grandes), um carro de plástico verde, um pente de metal, um distintivo de plástico, uma bonequinha, uma lata de cerveja (Pilsner, 2,84 decilitros), uma caixa de fósforos, um sapato de bebé, uma bússola, uma pequena chave de carro, quatro moedas, uma faca com cabo de madeira, uma chucha, um molho de chaves (5), um cadeado, um saquinho de plástico com agulhas e linha.

Museu - contracapa

O visitante fica de pé, diante da exposição invulgar, mais encantado do que horrorizado, como se estivesse perante achados arqueológicos. O visitante sabe que a sua sorte como exposição-de-museu foi determinada pelo acaso (o caprichoso apetite de Roland) mas ainda assim não consegue resistir ao pensamento poético de que com o tempo os objectos adquiriram algumas ligações secretas, mais subtis. Arrebatado por este pensamento, o visitante tenta então estabelecer coordenadas semânticas, reconstruir o contexto histórico (ocorre-lhe, por exemplo, que Roland morreu uma semana após a construção do Muro de Berlim), e por aí adiante.

Os capítulos e fragmentos que se seguem devem ser lidos de forma semelhante. Se o leitor sentir que não existem ligações significativas ou firmes entre eles, seja paciente: as ligações estabelecer-se-ão por si próprias de acordo com a sua vontade. E mais uma coisa: a questão de saber se este romance é autobiográfico poderia, a certa altura hipotética, dizer respeito à polícia, mas não ao leitor.” (pp. 9-10)

Entrevista a Dubravka Ugrešić aquando da publicação do romance O Museu da Rendição Incondicional, em Portugal, em 2011:

http://ipsilon.publico.pt/livros/texto.aspx?id=291826

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