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Roda Dos Livros

Caderno de Mentiras - Manuel Alberto Vieira (Liríope/Eucleia)

Roda Dos Livros, 26.02.13

64. cadernomentiras_baixaManuel Alberto Vieira é um jovem escritor cujo nome devemos reter. Caderno de Mentiras é o seu primeiro livro que será publicado em outubro e que certamente vai gostar. As suas histórias aparentemente simples e curtas têm de ser lidas com muita atenção para lhe captar o máximo sentido e, desse modo, retirarmos o máximo proveito. De qualquer forma, depois de lermos este Caderno de Mentiras, temos vontade de relê-lo novamente devido ao seu humor, por vezes negro, assim como pelos cenários, alguns surreais, criados.Caderno de Mentiras é a primeira obra a ser publicada pela Liríope, uma chancela da Eucleia Editora.

Excertos:

DOENÇA

"A doença mortal alojara-se no organismo do político cruel. E o povo não se conteve: aplaudiu (mas em silêncio). O rosto chupado e amarelo não levava ninguém às lágrimas, não chegava sequer a enternecer; as palavras roucas balbuciadas ao microfone não despertavam compaixão; a cabeça triste, que abanava, era mais ridícula que comovente. Permanecia de pé a custo, ameaçava tombar a qualquer momento. E quando o corpo cedia, apoiava-se no púlpito. Depois cerrava os punhos, agarrando uma corda invisível. - Há de cair - deixou escapar. - Hmm? - Nada, nada. Voltaram a concentrar-se no televisor. A adrenalina subia, as emoções disputavam-se como cavalos numa corrida. Ao mesmo tempo, o político suava. E tossia. Repetia «desculpem», «desculpem-me», «desculpem-me, meus caros concidadãos». Mas nem para o desespero tinha fôlego. Irreconhecível, o esteio da nação. Em momento algum vacilara, nem em tempos de perigo. Porém agora tudo nele eram coisas à espera de ruir. Mas o povo não se deixava impressionar. Talvez na aparência se visse um ou outro rosto carregado, mas por dentro... Oh, por dentro... - A doença é uma coisa terrível. - É. E continuaram fixos no ecrã. Brilhavam, os dois, de mãos dadas sem que disso tivessem consciência. Há muio tempo que não davam as mãos. O telefone tocou, o marido levantou-se para atender. - Sim? - Pausa. - Como? - Nova pausa, mais longa. - Compreendo. Adeus. Desligou, encaminhou-se para o sofá, mas não se sentou. Manteve-se de pé diante da mulher. - O que foi? - Não sei como te dizer isto... - Diz. - A tua mãe... A doença mortal alojara-se no organismo de um familiar. E ela - tal como certamente aconteceria com o povo - não se conteve: chorou (ruidosamente)." (pp. 55-56)

54 Manuel Alberto Vieira

COBERTOR

"- Sou sábio porque tenho em mim o peso de toda uma biblioteca. Desejoso de subir alguns degraus de sabedoria, iluminou-se no ouvinte uma ideia. Dirigiu-se à biblioteca privada, concentrou-se como se para uma prática espiritual, e puxou para si a mais volumosa das estantes de livros. Primeiro, um estrépito ensurdecedor; depois, uma calma mágica. Estendido no chão, coberto por madeira e papel, fechou os olhos. Refletira sobre temas que até ali lhe eram incompreensíveis. No entanto, assim aprisionado, não tinha como ir à casa de banho para satisfazer as necessidades fisiológicas, nem como saciar a fome quando esta apertava, nem como se tocar quando tomado pelo desejo. O telefone tocou. Uma, duas, três vezes sem conta ao longo dos dias. E a campainha também. Mas o que podia ele fazer? A circunstância em que se encontrava reivindicava sossego e recolhimento. Apesar de a sua propensão para o isolamento ser bem conhecida, semanas depois, a porta de casa foi arrombada. Ao seu encontro apressaram-se bombeiros e amigos. Era difícil distingui-lo claramente no meio daquele entulho, mas percebia-se que estava magro, debilitado, trémulo; e que cheirava a fezes e urina. - Mas o que é isto? - disse um amigo, incrédulo. Permaneceu de olhos fechados, refletindo sobre temas que até ali lhe eram incompreensíveis. - Sabedoria - balbuciou, seguramente estorvado por costelas partidas e pulmões estrangulados. - Sabedoria - repetiu. Era, de facto, sabedoria. Da dor, da fome, do frio, da abstinência. E também de substância que nos vem de dentro. Incómoda, mas simultaneamente material e profunda, como qualquer filosofia que se preze." (pp. 83-84)

SUBSTANTIVO

"À direita, uma igreja; à esquerda, a natureza.Alterna a atenção entre uma e outra, não sabe por qual optar. Dói-lhe a alma, e bastará isso para legitimar qualquer indecisão.Uma massa de pessoas entra na igreja: observa-a: pressente nela a mesma dor: aproxima-se: mistura-se.Faz frio na igreja e a luz é escassa.Entretanto, uma voz ecoa. Usa palavras como «fome», «pobreza», «solidão».Encolhe-se. Sente-se mais faminto, mais pobre, mais só.Quer «sopa», «moedas», «abraços», palavras que serão porventura proibidas ali. Não sabe. Quer também gritar a quem fala, mas não consegue.Sai.À sua frente, a natureza. E um alívio momentâneo: oxigénio e cor.Tem árvores, a natureza, e ramos, e folhas também. Tudo lhe parece concreto na natureza. Tudo lhe parece, no fundo, seu.Avança em direção a ela, deita-se debaixo de uma copa, fecha os olhos. A fome, a pobreza e a solidão não o abandonam, mas não se arrepende da decisão. O cheiro da terra, o toque das folhas e o silvo do vento são suficientes.Ninguém poderá confirmar se passará ali o tempo que lhes resta, mas presume-se que sim. Consta que a natureza não sabe mentir, como consta que, no momento da partida, apenas a verdade interessa." (pp. 89-90)

Acerca de livros e de uma “História de Amor e Trevas” de Amos Oz

Roda Dos Livros, 26.02.13

9789724150017Os livros são como as pessoas: conhecemos inúmeros ao longo da nossa vida, uns deslizam rápida e indiferentemente para os confins da memória sem deixar qualquer impressão consciente duradoura enquanto que outros incomodam-nos, perturbam-nos e roubam a nossa tranquilidade desenhando um certo rasto amargo que, em regra, procuramos esquecer através da imersão noutro livro. E depois há aqueles que nos deslumbram, nos arrebatam num belo turbilhão mágico e nos fazem quase levitar na delicada elegância das suas palavras. Quando abrimos um livro assim estamos, ainda sem o saber, a iniciar um percurso ao mundo fabuloso da arte de escrever, riscando uma marca indelével no nosso âmago, um encantamento sob o qual passamos a viver. Ao atingir este ponto, todas as palavras nos parecem inadequadas e insuficientes para o descrever. Há umas semanas atrás encontrei, por puro acaso (ou talvez não...), um livros destes. Estava numa estante da Biblioteca itinerante e o seu título espicaçou a minha curiosidade: “Uma história de amor e trevas”. O nome do autor, Amos Oz, soava vagamente familiar, já tinha ouvido falar dele algures mas não conhecia a sua obra. Peguei no livro e trouxe-o para casa. O que se passou a seguir foi o deslumbramento que tentei descrever acima com as minhas palavras mais que imperfeitas.

“Uma história de amor e trevas” é simultaneamente uma autobiografia e um relato histórico mas pessoal do nascimento do Estado de Israel. Amos Oz conta-nos a história da sua família e a sua própria história cujas alegrias e dores se entrecruzam com aquelas do conturbado processo da criação deste país. Por vezes hilariante, outras profundamente triste e sofrida, mas nunca indiferente ou desinteressante, a escrita sublime de Oz guia o leitor numa viagem emocionante e inesquecível. Ler este livro foi, para mim, percorrer um caminho em direcção a um lago de águas profundas e silenciosas onde, paradoxalmente, não fazem falta as palavras. Termino citando uma das minhas passagens preferidas desta obra:

“Em contrapartida, livros era coisa que não nos faltava, ocupavam as paredes todas, no corredor, na cozinha, na entrada, e até nos vãos das janelas e sei lá onde. Milhares de livros em todos os cantos da casa. Dir-se-ia que os homens iam e vinham, nasciam e morriam, mas que os livros eram eternos. Quando era criança, queria crescer e ser um livro. Não um escritor, mas um livro: podiam-se matar pessoas como formigas. Escritores também. Mas os livros, mesmo que os destruíssem sistematicamente, restaria sempre algum exemplar perdido nalguma biblioteca longínqua, em Reiquejavique, Valladolid ou Vancouver.”

Os Cães de Tessalónica - Kjell Askildsen (Ahab)

Roda Dos Livros, 26.02.13

capa-print-os-caes-de-tessalonica1O norueguês Kjell Askilden é considerado por muitos como o mestre da narrativa curta tendo-se tornado uma das referências para a nova geração de escritores nórdicos.Em Os Cães de Tessalónica são apresentadas sete histórias que retratam aquilo que se tem designado por 'angst nórdico'. Ler este livro fez-me recordar do filme Oslo, 31 de Agosto que esteve em cartaz recentemente.As histórias de Kjell Askildsen fazem-nos sentir o esmagamento vertiginoso do silêncio que é uma das características dos países nórdicos, reflexo do poder da natureza exercido sobre as pessoas que as deixa muitas vezes sem palavras. Há sentimentos, mas na verdade tudo está ao rubro e uma pessoa aparentemente calma, afinal vive um turbilhão de emoções muito contido, mas sempre prestes a rebentar.Emocionalmente intensas e nalguns casos perturbadoras, estas histórias conduzem-nos a uma viagem introspetiva do nosso mundo interior.É então lançada a questão tanto no livro Os Cães de Tessalónica como no filme Oslo, 31 de Agosto: Se têm tudo para serem felizes, então porque não o são?

229900_508528509159689_68415250_nExcertos:

"Cheguei ao fiorde, a um pequeno café ao ar livre, e sentei-me numa mesa mesmo à beira da água. Pedi uma cerveja e acendi um cigarro. Sentia calor, mas decidi não despir o casaco, pois supus que a camisa tivesse manchas de suor debaixo dos braços. Todos os outros clientes estavam nas minhas costas; diante de mim tinha o fiorde e as encostas cobertas de arvoredo que se erguiam ao longe. O zumbido das vozes e o ténue gorgolejo da água entre as pedras da praia mergulharam-me num estado de arroubo entorpecido. Os meus pensamentos seguiam caminhos aparentemente carentes de lógica, e não eram desagradáveis, antes pelo contrário, eu sentia um bem-estar pouco comum, e por essa razão tornou-se ainda mais incompreensível que, de repente, sem que nada de percetível se tivesse passado, me visse invadido por um sentimento de vazio angustiante. Havia algo de absoluto, tanto na angústia como no vazio, algo que de certa maneira pôs o tempo em suspenso, mas na verdade creio que não passaram mais do que uns meros segundos até os meus sentidos se recomporem e me devolverem ao ali e ao então." (p. 14)

"És um tipo com sorte, disse ele. Ah sim?, respondi. Vives aqui completamente sozinho, assinalou. Ora... contrapus eu, embora estivesse de acordo com ele. Eu às vezes não sei onde me meter, disse ele." (p. 43)

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"Sabes, Bernhard, disse Charlotte, agora sou a mais velha da família (...) É o quarto funeral a que vou este ano, disse ela. Incluindo o dos meus periquitos. Bernhard riu-se. Dos periquitos?, perguntou ele. Sim, morreram há dois meses. Eram um macho e uma fêmea; ela pôs ovos, comeram os filhos e morreram os dois. Por terem comido os ovos?, perguntou ele. Suponho que sim, respondeu ela. Vai contra a natureza comer os próprios filhos. Bernhard riu-se." (p. 68)

"- O que vamos fazer amanhã? - perguntou ela. - Vamos fazer alguma coisa? - disse ele. - Bem, não sei - disse ela. - Remar um pouco. Até à ilha de Ormøya, por exemplo. - Está-se tão bem por aqui - respondeu ele. - Claro que sim. Então ficamos por aqui, está bem? Além disso, há tanto que fazer aqui." (p. 77)

O Sino da Islândia - Halldór Laxness (Cavalo de Ferro)

Roda Dos Livros, 25.02.13

SinoO Sino da Islândia (1943) de Halldór Laxness conheceu agora a sua edição em língua portuguesa sendo claramente uma das edições mais significativas no mercado editorial português em 2012.

Ler Halldór Laxness é entrar no mundo das palavras mágicas capazes de nos enfeitiçar com trolls e elfos que nos remetem para histórias que remontam ao início da colonização da Islândia há mais de mil anos.

Esta obra magistral de Halldór Laxness começa com o desmantelamento do sino da Islândia por ordem do rei dinamarquês servindo de pretexto para desfiar um rol infindável de histórias que se articulam com as antigas sagas daquela ilha.

A história vai-se desmontando em dois temas fulcrais: a necessidade de alterar a situação de miséria profunda em que a ilha vivia estando sob o domínio da Dinamarca e a busca do sentido de justiça que era aplicada na Islândia. Este dois temas fundem-se ainda num outro tema ainda mais abrangente que é a busca da identidade da Islândia que remonta a um período anterior ao século X da era cristã sendo essa identidade a única que conduzirá à libertação da ilha face ao jugo dinamarquês e a sua consequente afirmação e projeção perante a Europa e o Mundo.

Em O Sino da Islândia está presente de uma forma indelével a necessidade do conhecimento assim como o respeito pela História, motores fulcrais para o desenvolvimento de um país capaz de se afirmar perante os outros. Neste sentido, a presente obra ajuda-nos a compreender como é que a Islândia deixou de ser o país mais pobre da Europa no início do século XX tornando-se num dos países mais desenvolvidos do continente nos dias de hoje.Uma vez mais, Halldór Laxness enobrece o seu país natal dando-nos grandes exemplos de dedicação e sacrifício da população ao longo dos séculos transformando a Islândia num país desenvolvido e com uma sociedade justa que contribui para o bem comum.

O Sino da Islândia de Halldór Laxness é sem dúvida uma das leituras obrigatórias de 2012 que chega agora a Portugal quase 70 anos após a sua primeira edição.

Excertos:

"O oficial de ordenança, sem se mexer um milímetro, dirigiu-se a Jón num dinamarquês macarrónico: - Sua senhoria leu em livros de renome que os islandeses emitem um fedor tão nauseabundo que as pessoas precisam de se colocar a favor do vento para com eles falarem. Jón Hreggviðsson não disse nada. - Sua senhoria leu em livros de renome que os malditos e os demónios moram na Islândia, no interior da montanha chamada Hekkenfeld. É verdade? - disse o oficial. Jón Hreggviðsson disse que não o podia negar. Em seguida: - Sua senhoria leu também o seguinte em livros de renome: primeiro, que na Islândia há mais fantasmas, monstros e demónios do que pessoas; segundo, que os islandeses enterram carne de tubarão nos montes de estrume junto às vacarias e depois a comem; terceiro, que os islandeses famintos cortam os seus sapatos em bocados e os levam à boca como se fossem panquecas; quarto, que os islandeses vivem em montes de terra; quinto, que os islandeses não sabem trabalhar; sexto, que os islandeses emprestam as suas filhas a estrangeiros com o intuito de procriar; sétimo, que uma rapariga islandesa é considerada uma virgem imaculada até ter parido o seu sétimo filho ilegítimo. É verdade?" (pp. 120-121)

"Somos a populaça, os seres mais insignificantes do mundo. Rezemos pela saúde de toda e qualquer autoridade que ajude os indefesos. Mas nunca haverá justiça até nós próprios nos tornarmos homens. Passar-se-ão séculos. As emendas da lei que nos foram concedidas pelo último rei ser-nos-ão retiradas pelo próximo. Mas o nosso dia chegará. E, nesse dia, em que nos tornaremos homens, Deus virá até nós e lutará ao nosso lado." (p. 303)

Necrópole - Santiago Gamboa (Eucleia)

Roda Dos Livros, 25.02.13

NecrópoleNecrópole de Santiago Gamboa dá a volta ao mundo da literatura assim como ao submundo do homem contemporâneo. Partindo de uma conferência em Jerusalém que reúne vários escritores, entramos numa viagem alucinante e não menos vertiginosa ao mundo da toxicodependência, do sexo (com pornografia de tendência de esquerda), na desilusão de relacionamentos falhados ou que nunca o foram e a tentativa de redenção através da criação de uma nova seita religiosa dirigida a todos aqueles que estão no limite das suas vidas procurando-os redimir.Necrópole é um livro cru, brutal e sem tabus do qual não saímos ilesos sendo um dos livros obrigatórios de 2012!

Excertos:

"Nas suas missas, aliás, [Walter] aparecia com o torso despido, repleto de tatuagens que mostravam Cristo lá na Nazaré, sim, mas também nos becos de um subúrbio industrial, pregando entre alcoólicos e adeptos do relincho de cavalo nas veias. As suas costas estavam cobertas por uma imagem da crucificação de Jesus, mas em vez do monge Gólgota, meus brother-ouvintes, o Redentor aparecia pendurado num velho campo de basquetebol de Siracuse Drive, ao lado de avenidas perfuradas e edifícios de fachadas sujas pelo smog em cujo interior só Deus sabe que dramas ocorriam, que violações de padrastos a jovenzitas e quantos estupros por droga dura, e quantas humanidades suadas dormindo o American Dream do cavalo em tapetes fedorentos, velhos com cancro da próstata gemendo de dor e mulheres feirando o seu virgo anal em troca de pacotes de droga para os seus maridos, enfim, meus guarigaris, tudo isso se podia intuir nesses horrendos multifamiliares que rodeavam o campo onde estava crucificado o novo Cristo, o Jesus dos subúrbios, o redentor da cambada enviado pelo Próprio para salvar-nos dos nossos pecados, e essa era a imagem central que Walter tinha tatuada nas suas costas: o mistério e o paradoxo do mal.” (p. 47)

Esperança no futuro...

"(...) Cada vez seremos melhores, mais inteligentes e mais bem dotados, e cada vez chegaremos mais longe. Depressa nascerão os grandes homens do século XXI, ou melhor, depressa se converterão em adultos, pois muitos já terão nascido, e então saber-se-á deles. Os Freud e Marx e Einstein e os Nietzsche do século XXI devem estar neste instante a ir à escola, ou ainda a brincar com carrinhos, ou a observar com atenção a queda de uma folha num parque (...). E não só eles, também haverá por aí um jovem Kafka sofrendo para depois acorrer à literatura como terapia, e haverá também um aristocrático Proust, que retratará a partir de dentro a burguesia decadente de princípios do [século] XXI, e por certo que já deve andar rua acima e rua abaixo o novo Rimbaud, um jovem com os punhos cerrados de ódio e em luta contra as formas sociais, e o Bukowski do [século] XXI estará a receber tareias do seu pai e a descobrir que o álcool torna as dores mais ténues, e certamente algum menino de sete ou oito anos estará a ponto de fazer xeque-mate a um adulto sobre um tabuleiro de xadrez, pois no baralho infinito da humanidade, as cartas são iguais apenas pelo lado de fora; ao dar-lhes a volta, acontece que muitos são o dois ou o três ou o seis de espadas, e outros, muito menos, o ás de ouros, percebes?" (pp. 209-210)

E Agora, Zé-Ninguém? - Hans Fallada (Dom Quixote)

Roda Dos Livros, 25.02.13

E Agora, Zé-Ninguém?É cada vez mais oportuno ler E Agora, Zé-Ninguém?, a obra que celebrizou o alemão Hans Fallada publicada em 1932. A história remete-nos para o conturbado final dos anos 20 que após um período de prosperidade, culminou com a crise do capitalismo de 1929, arrastando o mundo inteiro para uma profunda crise económica e social nos anos seguintes conhecida como a Grande Depressão.A Alemanha não ficou à margem da conjuntura acima descrita, não esquecendo o orgulho ferido que o país sentia desde o Tratado de Versalhes (1919) que obrigou o país a pagar pesadas indemnizações aos países vencedores saídos da 1ª Guerra Mundial.Neste contexto, a Alemanha foi terreno fértil para a disseminação da ideologia fascista, nomeadamente através do Nacional-Socialismo (Nazismo) que ganhava expressão face ao Comunismo tendo conduzido à vitória de Hitler nas eleições de 1933. Daí à instauração da ditadura na Alemanha foi um passo tendo durado até ao final da 2ª Guerra Mundial, em 1945.Nesta obra incontornável de Hans Fallada, Pinneberg e Cordeirinha são os personagens principais formando um casal que vive muitas dificuldades no seu dia-a-dia fazendo uma ginástica orçamental para fazer face às despesas que vão aumentar com o nascimento do filho desejado. A incerteza face ao futuro é cada vez maior tendo em conta os eventuais cortes no vencimento de Pinneberg, assim como o receio de perder o emprego, engrossando, desse modo, as fileiras do desemprego.Cordeirinha, sempre muito pragmática e defensora dos direitos dos trabalhadores, nunca desiste tendo sempre esperança num amanhã melhor. Determinada em fazer face às despesas diárias, Cordeirinha elabora um orçamento familiar com o rigor de outros tempos, mas que nos ajuda nos dias de hoje a ponderar os gastos verdadeiramente necessários face às agruras do amanhã.Num texto profundamente humano, Hans Fallada ajuda-nos a compreender como a História pode ser cíclica e como a Humanidade teima em não aprender com os erros do passado.

Sinopse:

A sobrevivência de um casal num período de grande crise económica.

Alemanha, finais dos anos 20. Apesar da grave crise económica que afecta a vida de muita gente, Johannes e Emma, carinhosamente chamada Cordeirinha pelo seu caloroso marido, levam a vida com confiança e entusiasmo. Acreditam que apoiando-se no amor podem superar todas as dificuldades, mas rapidamente se apercebem de que a sorte não está do seu lado e que a realidade é muito mais dura de enfrentar do que tinham imaginado. A chegada do seu tão desejado filho vai trazer-lhes muitas alegrias, mas também juntará novas dificuldades à vida do jovem casal.Quando por fim Johannes Pinneberg se vê obrigado a engrossar as fileiras dos milhares de desempregados já existentes, é Cordeirinha, esta mulher amável, meiga e corajosa que — em lugar do seu marido, transformado num desesperado zé-ninguém — assume a dianteira e assegura a existência de toda a família.A esperança, porém, nunca se perde, e o casal refugia-se no amor que o une e do qual se alimenta. A recuperação de um grande clássico da literatura.

Nada - Carmen Laforet

Roda Dos Livros, 25.02.13

Carmen Laforet - NadaTodos sabemos que os demónios existem. E, no fundo, também sabemos onde se escondem: nos recantos menos iluminados da nossa mente, para onde os empurrámos porque não os conseguimos expulsar de vez e precisamos de os manter fora da nossa vista. E de onde vieram esses demónios? São o que restou de experiências traumáticas do nosso passado, de emoções como o medo, a frustração, a impotência ou a fúria, sentimentos que vivenciámos de forma tão profunda que deixaram pegadas no nosso espírito, sombras disformes e quase esfumadas, ecos difusos que pensamos esquecidos até ao momento em que um cheiro, um ruído, uma frase os desperta e nos arrasta de novo para as suas garras.

Carmen Laforet põe-se na pele de Andrea, uma jovem que se muda para casa de familiares em Barcelona ao matricular-se na Universidade, ansiosa por descobrir uma cidade vibrante e uma nova vida cheia de emoções. Mas, em vez disso, Andrea dá por si imersa no ambiente doentio de uma família disfuncional, que tenta sugá-la para um vórtice de ressentimentos, culpas, ódios e desesperos,um turbilhão de emoções excessivas e descontroladas que tão depressa lhe parece absurdo como perturbador. Andrea vai ter de manter uma vida aparentemente normal fora de casa enquanto, portas adentro, se habitua a conviver com personalidades distorcidas e com os embates entre elas. Porém, serão as pessoas do mundo exterior tão equilibradas como parecem? Não carregarão no seu íntimo demónios parecidos com os seus? Andrea terá de aprender a traçar o seu próprio caminho por entre os caminhos alheios, decidindo até onde se deixará influenciar e onde demarcará os seus próprios limites.

Este é um livro sombrio, mas ao mesmo tempo fascinante, pois obriga-nos a olhar para dentro de nós mesmos e a reconhecer os nossos próprios demónios e as formas que encontrámos para coexistir com eles sem abdicarmos dos ideais que estabelecemos para a nossa vida.

Sinopse:

"Nada é a história de Andrea. Chegada a Barcelona para seguir os seus sonhos, Andrea fica hospedada na rua Aribau, em casa de familiares. Aqui, descobrirá um mundo muito diferente do seu, feito de personagens ambíguas e conturbadas, que vivem numa humilhante pobreza os cruéis anos da ocupação franquista da cidade. Será neste ambiente psicótico que, ao longo de um ano, Andrea crescerá, ao mesmo tempo que descobre a cidade, ganha novas amizades e traça o caminho para a vida adulta.