Caderno de Mentiras - Manuel Alberto Vieira (Liríope/Eucleia)
Manuel Alberto Vieira é um jovem escritor cujo nome devemos reter. Caderno de Mentiras é o seu primeiro livro que será publicado em outubro e que certamente vai gostar. As suas histórias aparentemente simples e curtas têm de ser lidas com muita atenção para lhe captar o máximo sentido e, desse modo, retirarmos o máximo proveito. De qualquer forma, depois de lermos este Caderno de Mentiras, temos vontade de relê-lo novamente devido ao seu humor, por vezes negro, assim como pelos cenários, alguns surreais, criados.Caderno de Mentiras é a primeira obra a ser publicada pela Liríope, uma chancela da Eucleia Editora.
Excertos:
DOENÇA
"A doença mortal alojara-se no organismo do político cruel. E o povo não se conteve: aplaudiu (mas em silêncio). O rosto chupado e amarelo não levava ninguém às lágrimas, não chegava sequer a enternecer; as palavras roucas balbuciadas ao microfone não despertavam compaixão; a cabeça triste, que abanava, era mais ridícula que comovente. Permanecia de pé a custo, ameaçava tombar a qualquer momento. E quando o corpo cedia, apoiava-se no púlpito. Depois cerrava os punhos, agarrando uma corda invisível. - Há de cair - deixou escapar. - Hmm? - Nada, nada. Voltaram a concentrar-se no televisor. A adrenalina subia, as emoções disputavam-se como cavalos numa corrida. Ao mesmo tempo, o político suava. E tossia. Repetia «desculpem», «desculpem-me», «desculpem-me, meus caros concidadãos». Mas nem para o desespero tinha fôlego. Irreconhecível, o esteio da nação. Em momento algum vacilara, nem em tempos de perigo. Porém agora tudo nele eram coisas à espera de ruir. Mas o povo não se deixava impressionar. Talvez na aparência se visse um ou outro rosto carregado, mas por dentro... Oh, por dentro... - A doença é uma coisa terrível. - É. E continuaram fixos no ecrã. Brilhavam, os dois, de mãos dadas sem que disso tivessem consciência. Há muio tempo que não davam as mãos. O telefone tocou, o marido levantou-se para atender. - Sim? - Pausa. - Como? - Nova pausa, mais longa. - Compreendo. Adeus. Desligou, encaminhou-se para o sofá, mas não se sentou. Manteve-se de pé diante da mulher. - O que foi? - Não sei como te dizer isto... - Diz. - A tua mãe... A doença mortal alojara-se no organismo de um familiar. E ela - tal como certamente aconteceria com o povo - não se conteve: chorou (ruidosamente)." (pp. 55-56)
COBERTOR
"- Sou sábio porque tenho em mim o peso de toda uma biblioteca. Desejoso de subir alguns degraus de sabedoria, iluminou-se no ouvinte uma ideia. Dirigiu-se à biblioteca privada, concentrou-se como se para uma prática espiritual, e puxou para si a mais volumosa das estantes de livros. Primeiro, um estrépito ensurdecedor; depois, uma calma mágica. Estendido no chão, coberto por madeira e papel, fechou os olhos. Refletira sobre temas que até ali lhe eram incompreensíveis. No entanto, assim aprisionado, não tinha como ir à casa de banho para satisfazer as necessidades fisiológicas, nem como saciar a fome quando esta apertava, nem como se tocar quando tomado pelo desejo. O telefone tocou. Uma, duas, três vezes sem conta ao longo dos dias. E a campainha também. Mas o que podia ele fazer? A circunstância em que se encontrava reivindicava sossego e recolhimento. Apesar de a sua propensão para o isolamento ser bem conhecida, semanas depois, a porta de casa foi arrombada. Ao seu encontro apressaram-se bombeiros e amigos. Era difícil distingui-lo claramente no meio daquele entulho, mas percebia-se que estava magro, debilitado, trémulo; e que cheirava a fezes e urina. - Mas o que é isto? - disse um amigo, incrédulo. Permaneceu de olhos fechados, refletindo sobre temas que até ali lhe eram incompreensíveis. - Sabedoria - balbuciou, seguramente estorvado por costelas partidas e pulmões estrangulados. - Sabedoria - repetiu. Era, de facto, sabedoria. Da dor, da fome, do frio, da abstinência. E também de substância que nos vem de dentro. Incómoda, mas simultaneamente material e profunda, como qualquer filosofia que se preze." (pp. 83-84)
SUBSTANTIVO
"À direita, uma igreja; à esquerda, a natureza.Alterna a atenção entre uma e outra, não sabe por qual optar. Dói-lhe a alma, e bastará isso para legitimar qualquer indecisão.Uma massa de pessoas entra na igreja: observa-a: pressente nela a mesma dor: aproxima-se: mistura-se.Faz frio na igreja e a luz é escassa.Entretanto, uma voz ecoa. Usa palavras como «fome», «pobreza», «solidão».Encolhe-se. Sente-se mais faminto, mais pobre, mais só.Quer «sopa», «moedas», «abraços», palavras que serão porventura proibidas ali. Não sabe. Quer também gritar a quem fala, mas não consegue.Sai.À sua frente, a natureza. E um alívio momentâneo: oxigénio e cor.Tem árvores, a natureza, e ramos, e folhas também. Tudo lhe parece concreto na natureza. Tudo lhe parece, no fundo, seu.Avança em direção a ela, deita-se debaixo de uma copa, fecha os olhos. A fome, a pobreza e a solidão não o abandonam, mas não se arrepende da decisão. O cheiro da terra, o toque das folhas e o silvo do vento são suficientes.Ninguém poderá confirmar se passará ali o tempo que lhes resta, mas presume-se que sim. Consta que a natureza não sabe mentir, como consta que, no momento da partida, apenas a verdade interessa." (pp. 89-90)








